A formação permanece a clássica: a marcação tribal do baterista Paul Ferguson, a zaga subsônica do baixista Youth, o ataque abrasivo-percussivo do guitarrista Geordie Walker e a pessoa sui generis de Jaz Coleman, o puto mais imprevisível e carismático do pós-punk, gótico, industrial, noise, thrash, metal alternativo e tudo o mais que ele e seus companions influenciaram desde 1980.
Lógico que não vão tocar tudo (deveriam!). Mas grande parte dos cavalos de batalha estarão lá, conforme atestam os últimossetlists. É ir ao show e emendar com uma sessão de Altered States. Será perfeito.
Um excelente apocalipse (após-punkalipse?) para todos.
Num futuro próximo talvez caia a ficha sobre a existência de uma superprodução cinematográfica da Miss Marvel. Ou melhor, Capitã Marvel. Se é que Carol Danvers assim será chamada em Captain Marvel (2019). Seria, nas palavras do Rocky, a bit much.
Ou não, a este ponto?
O trailer é no esquemão old school: clima, design, dinâmica e mais nada. Ou quase. Uma palhinha de premissa é jogada ali pra servir de guia. Tem lá a influência óbvia da fase Kelly Sue DeConnick, mas também do 1º run solo da heroína (1977-79) escrito quase inteiramente pelo Chris Claremont. O que parece ter pesado forte no resultado final - só que não do modo, digamos, normal.
Naquela época, Claremont ainda estava trabalhando o tom da personagem. Não era fácil: ex-damsel in distress resgatada do esquecimento, ela virou aposta grande da Marvel da noite pro dia. Disputava com a distinta concorrente um nicho pop muito específico e carregava uma bandeira de libertação feminista light (ainda eram os anos 70) enquanto tentava agradar os fanboys mais conservadores. No meio disso tudo, o autor buscava emplacar uma origem 2.0.
E pior, tinha duas origens operando ao mesmo tempo: a clássica, da loirinha normalista, oficial da USAF e ex-paquera do Capitão Mar-Vell que ficou Super - ou Marvel - após um acidente; no outro, da colunista do Daily Bugle acometida por flashes de memórias suprimidas sobre ser uma agente militarkree em missão na Terra, spaghettizando assim as raízes do Mar-Vell com a sua própria e criando vários rombos de cronologia no processo.
No fim, essa última opção foi descartada sem maiores cerimônias. E, pelo visto no trailer, reaproveitada agora. Talvez tenha sido a ideia certa no tempo errado, afinal.
Acho que eu vi um gatinho
Vamos aguardar o que aprontarão o casal de diretores Anna Boden e Ryan Fleck em março do Ano de Nosso Senhor Stan Lee 2019. Até lá vou encostando galantemente e bem devagar nos bastidores da Capitã.
O gibi é o antecipado debut do designer, animador e diretor paulista Daniel Semanas (algum parentesco com o Lee Weeks?). A sinopse concisa do site oficial já tinha turbinado a expectativa:
Phanta é destemida e persistente. Ela diz que a vida deve tem que ser jogada no modo hard. O inesperado nessa história é o fato de uma garota como ela ter vindo de uma cidade tão pacata como Gyeongju. Porém, seus ancestrais e sua necessidade de provar seu valor fizeram com que ela embarcasse em uma psicodélica jornada, que levará suas habilidades ao próximo nível e questionará suas crenças das mais aterrorizantes maneiras.
Situado na Coreia do Sul em um futuro próximo, Roly Poly conta a história de Phanta, uma jovem lutadora coreana que tem uma relação ferozmente competitiva com uma celebridade das mídias sociais. Em um esforço para superar sua popularidade na internet, ela embarca em uma jornada psicodélica em um culto às drogas subterrâneo na esperança de se tornar a nova membra de um popular grupo K-pop. No entanto, ela acaba se colocando em um desafio maior do que poderia imaginar, que vai puxar suas habilidades para um novo nível e contestar suas crenças de um jeito aterrorizante.
Com certeza é um shakão art-pop-cultural levado ao extremo. Não ao extremo grindhouse, bloody, Tarantinesco, à Bambi (lembra disso?), como projetei a priori e sim algo definitivamente mainstream. Uma viagem de ácido leve e colorida figurando Jem e as Hologramas, Scott Pilgrim e o submundo gamer/virtual/anime de filmes como Demonlover (2002) e Nirvana (1997 e, aaa, que saudade do cyberpunk véio) - tudo enfeitado pelas belas pernas e rostos das K-moças.
Muitos glimpses e impressões. Sinapses à mil. E olha que ainda nem li.
A única coisa que sei ao certo é: do teaser hypadaço e do site estoura-retina ao lançamento simultâneo Brasil-Estados Unidos até as bençãos da editora Mino e da toda-powerosa Fantagraphics, eu nunca vi um quadrinho alternativo nacional tão bem promovido quanto Roly Poly. Holy moley!
Semanas deve ido à encruzilhada e feito um pacto com o Trump, só pode.
Brie Larson de camiseta do NIN é pra guardar pertinho do coração, mas das imagens de Captain Marvel divulgadas pela EW, uma em especial merecia o registro histórico.
Oboy, Skrulls na telona finalmente.
Embora estejam meio maduros demais e verdes de menos. E um tanto humanóides além da conta. Sempre tive a versão mais disforme, batraquiana e sleestákica do Ultiverso como a ideal.
Marie Severin (1929 - 2018) & Gary Friedrich (1943 - 2018)
Parece que foi ontem que eu comemorava o encontro, num só encadernado, de grandes quadrinhistas da velha escola - entre eles, Marie Severin e Gary Friedrich. Saber da partida de ambos na mesma manhã de quinta-feira é daqueles momentos que fazem colocar certas coisinhas sob perspectiva. Mais precisamente, o tempo, a vida, sua finitude. Aquele post já tem absurdos dois anos. E tanto Severin quanto Friedrich, cidadãos seniores cujas biografias se confundem com a história dos comics, tiveram seus últimos trabalhos publicados há longínquos 25 anos - também conhecido como 1/4 de século.
Gary Friedrich não era um simples veterano. Era veterano de Atlas e Charlton Comics. Isso é pré-Pré-História. Chegou a trabalhar com o irmão de Marie, o fantástico John Severin, em Sgt. Fury and his Howling Commandos. Também foi um co-criador dos infernos, lançando Daimon Hellstrom, o Filho de Satã e o Motoqueiro Fantasma. Este último, foi pivô de um embróglio judicial interminável entre o artista e a Marvel em mais um capítulo vergonhoso na história da editora - e razão pela qual escolhi a imagem até meio comovente dele aí em cima.
Marie Severin começou com um empurrãozinho do irmão John para cobrir uma vaga de colorista na icônica EC Comics. Trabalhou ao lado do próprio Harvey Kurtzman. Sofreu diretamente com a paranoia do Comics Code na década de 1950, mas ressurgiu na Era de Prata da Marvel, onde construiu uma extensa bibliografia. Co-criou o Tribunal Vivo e a Mulher-Aranha original. Foi particularmente prolífica na cult Crazy Magazine e na Not Brand Echh, publicações satíricas da editora. Workaholic inveterada, brilhou tanto na arte - em gibis e designs de outros produtos relacionados, incluindo o papel higiênico do Hulk e do Aranha! - como também no comando de projetos e divisões.
Pioneira é pouco: Marie Severin foi um mulherão da porra.
E com lucidez e senso de humor afiado até (quase) o fim!