sexta-feira, 17 de junho de 2005

P. T. ANDERSON É REI



Magnólia (Magnolia, 1999) não é um filme unânime. Não há quem seja indiferente. Ou a pessoa adora ou odeia. Eu adoro.

Desde o começo percebe-se que é um filme atípico. Uma seqüência de acontecimentos que beiram o absurdo têm sua condição de coincidência posta em xeque, reforçando que em um universo crê-se que o acaso pode ser uma regra, as possibilidades são infindáveis. Este início poderia ser encarado como um prefácio de um livro, tal a forma como resume as idéias do todo. Magnólia poderia ser classificado como uma obra religiosa. Não uma obra religiosa ortodoxa, destas que esbarramos por aí, mas uma obra religiosa moderna, que usa de símbolos e rotinas do dia-a-dia de qualquer um para mostrar o quanto nós estamos sujeitos à ira divina, caso continuemos olhando para nossos umbigos. Diversos exemplos destas rotinas são mostrados e, se não conseguirmos encaixá-los em nossas próprias vidas, certamente conhecemos alguém que passa por isto: o homem formado e frustrado que fora um garoto brilhante, um bem sucedido profissional com pecados que destruíram sua família, o bom homem solitário cuja profissão o faz entrar em conflito com o que acredita, a mulher aproveitadora, o filho que usa os defeitos do pai para justificar os seus próprios etc. Tudo de uma só vez. Tudo tomando proporções bíblicas em um único dia.




O responsável pelo cruzamento destas histórias chama-se Paul Thomas Anderson. Dentre todas as nuances da vida mostradas no filme, destaca-se a capacidade que o ser-humano tem de julgar o próximo. O filme inteiro é baseado em julgamentos, com a direção competente que manipula os espectadores a ponto de encontrar-me também julgando fervorosamente as personagens que observo, apenas para, depois, perceber o quanto sou injusto e incapaz de julgar apropriadamente, já que nunca conhecemos todo o cenário. O tempo todo é possível olhar para si mesmo e ver quantas vezes já não fizemos o mesmo por aí. Uma frase da personagem de Tom Cruise, machista convicto, ao ter sua personalidade falsa desmascarada e ser indagado a respeito choca ao trazer para o mundo das palavras aquilo que sempre é sentido sem perceber:

"O que estou fazendo? Estou te julgando silenciosamente."




Não é só isto. A maestria como o diretor consegue interligar os fatos ocorridos e emoções sentidas durante o filme faz com que as frases de um se encaixem na vida de outros, como quando o homem que outrora fora uma celebridade infantil ouve que "é perigoso ver crianças como anjos", ao passo em que em outra 'vida' esmiuçada, um garoto é tratado exatamente assim.

Esta seqüência de julgamentos e o passeio que as personagens fazem por quase todos os pecados capitais – destaque para Avareza, Soberba, Luxúria, Ira e Inveja – geram no espectador um sentimento de angústia, fazendo-nos sentir o que aquela série de personagens também sentem, e levam o filme a um clímax que, para muitos, é surreal (e é mesmo), mas é um fecho com chave de ouro, seguido ainda de uma narração em off do policial – o único que, em tese, poderia julgar e não o faz – cujas palavras ecoam na mente por mais meia hora depois que as 3 horas de filme terminam.




Dica: Procurem perceber as variadas ocasiões em que os números 8 e 2 surgem no desenrolar do filme, principalmente no início. Depois recomendo a leitura de uma parte da Bíblia, o Êxodo 8:2. É curtinho, três linhas, não se cansará. Para ajudar, listo abaixo todas a vezes que os números aparecem no filme (peguei no IMDB). Arraste o mouse para ler.

Previsão do tempo: 82% de chance de chuva;
Um jogador precisa de um 2 no blackjack, mas ganha um 8;
O formato das cordas quando o garoto se joga do prédio;
A primeira leitura de temperatura;
O pôster na TV mostra a audiência;
O pôster de um filme num ponto de ônibus na Magnolia Boulevard;
O cartaz dos condenados ao enforcamento;
Número da caixa de correio de Jim Kurring's no tele-encontros;
O número do apartamento dos pais de Sydney Barringer é 682;
A convenção de ciências começa às 8:20;
Delmer Darion vira algumas cartas para mostrar o 8 e o 2 de ouros;
Logo depois de Jim Kurring ver Donnie Smith escalando o prédio, pode-se ver rapidamente um símbolo à beira da rua que diz "Exodus 8:2" (visível novamente quando os sapos caem e acertam o carro de Kurring);
O número do avião dos bombeiros;
Na foto da detenção de Marcy, seu número de registro é 82082082082;
Na cena do bar há um quadro de giz com dois times, o sapo e as nuvens, o placar está 8 a 2;
Spray pintado no cimento como graffiti perto do garoto;
Uma pessoa na platéia do game show segura um cartaz com Exodus 8:2 escrito;
As crianças estavam a dois dias de ficarem 8 semanas como campeãs;
O quiz kid Donnie Smith ganhou seus 100.000 dólares em 28 de abril de 1968;
Os dois primeiros números do Seduce and Destroy Hotline (1-877-TAME-HER) são 82;
Um dos homens enforcados tinha o 82 nas roupas.


Passando para a parte técnica, o diretor desenvolve um trabalho exuberante. Antes de Magnólia, PT Anderson já gozava de certo reconhecimento por Boogie Nights (1997) - sobre o qual não posso opinar pois não vi. Entretanto, vi Embriagado de Amor (Punch Drunk Love, 2002), onde consegue fazer Adam Sandler atuar. Sabemos que, dentre as funções de um diretor, tentar extrair o melhor de seus atores é o básico, o que faz-me concluir que este é um dom destacável de Anderson. Tom Cruise - ator mediano em minha opinião - consegue sua melhor performance na carreira, com um personagem intenso e complexo na medida correta. Destaca-se em um filme onde todos os personagens conseguem ser tridimensionais, coisa dificílima e rara principalmente com diversas histórias e em uma mídia cuja exposição flutua entre 2 e 3 horas apenas.




Destacam-se ainda Julianne Moore, esposa infiel de Earl Partridge, e Philip Seymour Hoffman, o enfermeiro gay e consumido em culpa do magnata.

A propósito, caso esteja divagando sobre o porquê de o filme ter o nome de Magnólia, é este o nome da rua onde quase todos os eventos acontecem ou onde os personagens moram e em quase todas as locações do filme há pinturas ou fotos da flor homônima.

A propósito²: Não há legendas nas fotos porque simplesmente acho que são auto-explicativas.

quarta-feira, 15 de junho de 2005

DEVORADOR DE PECADOS É VILÃO DE GENTE GRANDE


Mudando um pouquinho o assunto dos posts, resolvi falar um pouquinho de quadrinhos. Não sou um cara que tem cultura de HQ do tipo vanguardista, procurando novidades aqui e ali que te deixam atordoado. Normalmente as revistas que li deste gênero são todas apresentadas pelo Doggma (Chosen, Wanted e WE3 são bons exemplos), então minha iniciativa fica mais na linha comercial popular mesmo, com clara tendência para o mundo mais "a vida como ela é" da Marvel (ou ao menos como a vida consegue ser, assumindo que há super-heróis em tudo quanto é canto).

Este negócio de HQ é um vício danado. Comecei lá pelos 7 anos de idade e dura até hoje, 21 anos depois. Comprava revistas direto, afinal o velho formatinho Ebal, depois Abril, era baratinho, cabia no bolso. O tempo passou, os preços começaram a ficar indigestos e, lá por 93 ou 94, decidi que este vício precisava ser controlado. Vendi toda a coleção por uma ninharia na GibiCenter, sebo que tem no Méier. Isto posto, achava que me livraria da maldição, mas dois meses depois comecei um estágio e, com o dinheiro entrando, as revistas voltaram e o remorso por ter vendido caixas e caixas duramente colecionadas (só sobrou a coleção do Homem Aranha 2099) veio com força. Recomecei a coleção já sem tanto fôlego para resgatar as antigas, mas mantive o ritmo até ano passado, quando o peso no orçamento mostrou-se comprometedor e as maravilhas gratuitas e up to date do DC++ me convenceram a gostar de ler na tela, aposentando as revistas reais.


Uma das coisas que mais impressionaram ao longo do tempo foi a sensação de ter nascido na época certa de resolverem envelhecer as revistas também. Em 84, quando comecei a ler quadrinhos, o mercado já tinha seus 24 anos de estrada realmente comercial. Batman, Super-Homem, Namor, Capitão América e outros já existiam nos 60's, mas o boom no mercado surgiu e espalhou-se como uma espécie de metástase de heróis que Stan Lee provocou nesta década.

Com a experiência em sebos, percebi que na minha iniciação no mundo dos quadrinhos a linguagem deste veículo muito pouco havia se atualizado ou envelhecido em comparação com aqueles diálogos simples e infantis de antigamente. O foco do mercado ainda era as crianças e tudo foi mudando exatamente com o tempo em que minha percepção das coisas também amadurecia. Um dos marcos desta evolução percebi um ou dois anos depois com a Graphic Novel Deus Ama, Homem Mata (God Loves, Man Kills) dos X-Men, onde, pela primeira vez, vi os mutantes em ação. Pouco depois tive um choque ao ver a seriedade, diálogos, arte, roteiro e dinâmica de Wolverine & Destrutor: Fusão (Wolverine & Havok: Meltdown). Infelizmente as séries mensais não mantiveram este nível, mas a maturação dos personagens mostrava-se clara.

Diversas obras vindouras mantiveram o processo, com roteiros cada vez mais intrincados e dependentes da cronologia pregressa, desenhos, arte-finalização e diagramação avançando progressivamente nos detalhes e realismo (aham... tá certo que temos Rob Liefeld para ser a exceção que confirma a regra), entremeados por diálogos cuja complexidade passa longe da molecada. Culminando no cenário atual onde não há mais volta na cronologia tradicional. Os roteiros distanciaram-se muito do foco infantil, tornando difícil a assimilação e forçando as editoras a tentar estratégias que sempre desviam-se do foco original. Novos Titãs, Novos Mutantes e Young Avengers, cada um ao seu tempo, pretendiam alcançar este público e, mesmo tendo esta linguagem mais "jovem", sua interligação com o universo Marvel/DC os envelhece.

Temos então a iniciativa da Marvel de arregimentar novos leitores ao recomeçar cronologias com sua linha Ultimate. Uma linha que pretendia ser lida por novos olhos acabou tornando-se coqueluche das vistas cansadas de sempre, com versões superando originais através de histórias atualizadíssimas seja no assunto e roteiro, seja na violência que caracteriza o que chamamos de "hoje em dia". A solução veio então na forma de revistas com os heróis tradicionais sem qualquer ligação com as cronologias conhecidas, usando linguagens infantis que o público em questão exige. Não sei se vingou, mas como o mercado está viciado, só o tempo dirá.


Novos Mutantes, Novos Titãs e Young Avengers

Neste envelhecimento do universo de HQ, é interessante perceber que, por envelhecermos juntos, não percebia a inocência dos diálogos de outrora, já que sempre me identificava com as histórias. Hoje, relendo clássicos de antigamente como a Saga da Fênix, percebemos que os diálogos não se comparam com os de hoje, apesar de a história ser irrepreensível. A memória prega peças e causa algumas decepções, mas tudo isto serviu para falar o que se segue:

Meu personagem preferido é o Homem-Aranha. É o cara mais "real" do universo de histórias em quadrinhos tradicional, com contas para pagar, desemprego para lamentar e outras coisas que apenas quem "só se phode" reconhece. Seu início de carreira era realmente infantil, mas sua maturidade veio sendo percebida em saltos e marcos, como A Morte de Gwen Stacy, Guerras Secretas e a experiência com o simbionte, o casamento com Mary Jane e outros. Ainda hoje percebo que o Aranha dos títulos próprios é mais maduro que o Aranha de sagas globais, crossovers e participações em revistas alheias (exceção feita nas revistas do Demolidor). Na linha de marcos da maturidade do Aranha, há um que não é tão reconhecido pelo público, mas que considero a principal fase de transição do Aranha bobo para o Aranha adulto. E esta história é o arco da Morte de Jean DeWolff.


O arco foi publicado lá fora nas revistas Spectacular Spider-Man #107 a #110 com roteiro do megafodônico® (Alcofa rights reserved) Peter David e desenhos competentes à moda antiga de Rich Buckler. Publicado no Brasil pela Abril Jovem nas revistas O Espetacular Homem-Aranha #87 e #88, logo após a edição em que o aracnídeo enfrentou o Senhor do Fogo.

Jean DeWolff era uma capitã de polícia que, coisa rara, reconhecia no Aracnídeo um herói, trabalhando em cooperação. Com o tempo passou a nutrir afeição ao homem por trás da máscara, sentimento não percebido por Peter, mas que correspondia com sincera amizade.


Às vésperas da Guerra de Gangues, ânimos começando a se exaltar, ocorre a morte da capitã de polícia. Dias depois ocorre a morte de um juiz americano, assassinato cometido sob testemunho de Matt Murdock, o Demolidor. Outros assassinatos ocorrem em meio a uma trama muito bem engendrada, com tensão tangível e manipulações inteligentes. Tudo isto prova que não é necessário um vilão super-poderoso e sim um roteiro inteligente.

O arco foi responsável ainda pelo rompante de fúria de Peter Parker mais violento que já vi, com direito a porradaria entre heróis realmente interessante, com desenrolar próximo do que crê-se possível em um mundo real. É aqui também que Demolidor e Homem-Aranha sedimentam sua amizade, e é quando DD descobre qual a atividade alternativa de Peter.

Seria a história perfeita para ser adaptada para as telonas quando a Sony resolver fazer a transição do personagem live-action da pós adolescência para herói adulto. Certamente o crossover seria impossível, já que DD é da FOX, mas daria para adaptar a história.

Colocaria aqui as revistas para download, mas são 45 Mb e não arrumei espaço de jeito nenhum.

terça-feira, 14 de junho de 2005

A SPHINX TEM A RAZÃO



Uma das práticas mais corriqueiras das pessoas – mesmo que alguns não assumam – é a tentativa de tentar saber como seria o futuro. Percebemos isto nas mais variadas áreas, seja com os especialistas em futurologia (tarot, búzios e genéricos) ou simplesmente quando olhamos para o horizonte, geralmente já meio bêbados, e tentamos montar um cenário futurista na nossa cabeça como se fossem peças de Lego com manuais conceituais atualizados. Este último exercício já deu muito dinheiro para muita gente e, se às vezes soa absurdo, em outras acerta em cheio. Com a palavra os fãs de Star Trek, precursor de uma penca de gadgets inimagináveis duas décadas atrás e super corriqueiros hoje.

Nesta linha de tentar imaginar o futuro peguei para assistir Código 46 (Code 46, 2003), filme bem elogiado no ano passado que saiu no Festival do Rio e em circuito restrito, mas perdi ambas as chances de ver na telona. Ali estamos alguns anos no futuro, onde o mundo é formado de cidades com acesso restrito, onde seus moradores devem portar uma autorização e são impedidos de viajar para outras, exceto em situações muito especiais. As pessoas que não vivem nestas cidades ficam naquilo que chamam de al fuera (lá fora), cidades no meio do deserto onde a fome impera e não há o controle nem os benefícios da cidade controlada. As cidades fechadas acumulam os efeitos da globalização em proporções assustadoras, perdendo suas identidades até no mais básico símbolo de definição de um povo: sua língua. Estas não existem mais de forma definida. Todos falam algo que é 65% inglês, 15% espanhol, 15% francês, 4% árabe e 1% de outras línguas mortas. Não há tampouco etnias dominantes, sendo que boa parte da população é fruto de clonagem.



Parece comercial de leite Molico, mas é o sol do futuro castigando a pele


Em um mundo como este, a reprodução deixa de ser arbitrada aos cidadãos, pois a clonagem maciça diminuiu substancialmente as diferenças genéticas e o cruzamento de pessoas com até 25% de semelhança genética é proibida pelo Código 46. Pessoas cientes desta semelhança genética que incorrem no erro ferem o código e, além de terem o feto retirado, são exiladas para al fuera, curiosamente onde ainda existem as diferenças e as identidades.

Todo este cenário é controlado por uma corporação mundial chamada SPHINX, responsável pelo fluxo de pessoas entre cidades, passes de cobertura de estadia e chega até mesmo a fiscalizar o deslocamento das pessoas dentro das cidades através de câmeras, numa espécie de Big Brother (por favor... falo de 1984, não é para pensar no programa global). William é funcionário desta empresa. Através de um vírus de empatia consegue sentir o que as pessoas estão pensando, sendo usado então para caçar contraventores da lei mundial. Ao investigar um caso de fraude de certificados em Pequim, apaixona-se por Maria Gonzáles, uma local, e dá-se o desenrolar da história.



Amor do futuro é assim: Frio e distante.


Não é um filme que poderia classificar como bom ou recomendável pelos critérios que normalmente avaliamos as produções por aí, já que sofre de um problema sério de ritmo, ficando extremamente arrastado em alguns momentos, mas as curiosidades destacadas em um mundo globalizado embebido em caldo de Blade Runner (as pessoas são andróginas, mecânicas, tristes) realmente saltam os olhos e nos oferece um aspecto curioso e indesejado do futuro, mas terminando falando de amor, solidão e relevância das relações inter-humanas de um mundo pasteurizado. Michael Winterbottom dirige este filme e, na minha opinião, poderia aproveitar muito melhor a idéia apresentada.



"Acho que vi um piolho por aqui"


É o primeiro produto que vejo deste diretor reconhecido por obras que tocam públicos que parecem escolhidos a dedo, especificamente sintonizados com o que se passa na tela, como se trabalhasse em modulação de freqüência. Antes fez A Festa Nunca Termina (24h Party People, 2002) e depois 9 Canções (9 Songs, 2004). O primeiro não me tocou e o segundo não passa de um porno movie rock'n'roll sem sentido. O pessoal mais inteligente até diz que tem uma mensagem ali. Eu não peguei a idéia.



Falsificando o Vale Transporte do futuro


Quanto aos atores, gosto particularmente de Tim Robbins. Adorei seus papéis em O Suspeito da Rua Arlington (Arlington Road, 1999), Um Sonho de Liberdade (Shawshank Redemption, 1994), Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, 2003) e vários outros, mas aqui ele desempenha uma atuação automatizada. Talvez seja justamente esta a intenção, já que reflete bem o meio frio em que está inserido, onde nada é intenso, nada é vivido, nada é superlativo (reforçado pela fotografia azulada). Ou melhor... de superlativa, só a apatia. Opa, acho que estou começando a entender a atuação do cara e pode ser que ele tenha sido perfeito...

Samantha Morton contracena com Robbins e repete não só o tom de atuação do parceiro como o papel da pre-cog de Minority Report (2002), inclusive com o mesmo visual, mas com um momento de exposição do seu "eu" bem interessante (quem viver, verá!), mas que parece coisa de dublê de corpo. Aliás, creio que está ficando marcada como atriz de filmes que poderiam ser mega-foderosos e ficaram pelo caminho.

domingo, 12 de junho de 2005

SAMARA FEZ ESCOLA COM VIRGINIA WOOLF



Eu sou um cara que, às vezes, sem motivo algum aparente, toma tamanha antipatia por alguns filmes que impeço-me de assistir algumas obras realmente interessantes. Quando isto acontece, só uma força sobrenatural é capaz de me arrancar da letargia e escolher o filme na locadora (claro... porque quando o preconceito vem, não vejo no cinema por nada neste mundo). As Horas (The Hours, 2003) é um destes casos; não sei se a sinopse simplesmente me afastava, se era minha implicância com a Meryl "arroz de festa" Streep ou porque não consigo entender que grande trabalho de maquiagem no nariz da Nicole Kidman é este que a inteligentsia tanto elogiou. Fala sério... é só um nariz!

A força sobrenatural da vez foi uma promoção "pague dois e leve três" que, associada à inexistência de outros títulos não vistos e interessantes, permitiu-me a oportunidade de usufruir daquela história (vamos combinar algo daqui para frente... nunca mais vou escrever "estória" – primeiro porque acho feio bagarái e segundo porque a norma usual já aceita o "história" como uma generalização de ambos os casos). Aviso que daqui para a frente podem haver alguns spoilers, ou não, dependendo do ponto de vista. Continue por conta e risco.



Morreu e não sabe


As Horas conta a história de 3 mulheres em tempos diferentes, mas com alguma coisa em comum. Que nem Free. Uma destas mulheres é Virginia Woolf, a Nicole nariguda que até manteve-se pegável (caso alguém discorde, deve lembrar que estou convalescente e com uma ordem médica de abstinência sexual por 3 meses, mais do que motivo para chamar urubu de meu louro), escritora PMD responsável por Mrs Dalloway e que não imaginava como esta obra teria influência na vida de duas gerações surgidas quase meio século depois. Pelo menos segundo o livro que inspirou o roteiro.

Stephen Daltry (de Billy Elliot) dirige um filme que nos apresenta diversas abordagens interessantes das relações humanas. O livro de Virginia não deixa de ser uma obra pseudo-auto-biográfica, já que a todo momento vemos Nicole Woolf entretida com frases e fases de sua "heroína" (com e sem trocadilho, por favor) e a forma como aquilo reflete-se na sua própria história. A vida de Virginia Kidman seria digna de um filme por si só – certamente rivalizaria com Réquiem para um Sonho no quesito "vou cortar os pulsos depois da projeção", e mesmo assim interessante – mas a forma como o roteiro nos mostra a absorção de seus pensamentos por Julianne Moore anos depois, bem como o impacto do simples apelido na psiquê fragmentada e dependente da personagem de Meryl Streep eleva à décima potência a percepção dos reflexos de uma mente niilista contestadora (redundante não?) no seu meio.




Nicole está ótima no papel, passando a amargura de uma personagem cheia de cicatrizes psicológicas com maestria (tá bom... o nariz a deixa muito diferente, assumo). Uma mulher inteligente, ácida, incapaz de sentir-se à vontade no mundo, intrigada/conformada com o conceito de morte, e deixada de lado por todos exceto o marido. Os momentos que passa no processo criativo de seu livro reforçam a idéia de auto-reflexão ao mostrar com que dedicação procura por cada frase. Mereceu cada grama do dourado careca que ganhou.

Esta dedicação sugere a inequívoca intensidade na construção do texto, claramente percebida na reação de uma Eva Brown (Julianne Moore) destroçada, incerta de sua sexualidade e dos conceitos sociais que deve seguir, mecânica até na forma de demonstrar apreço pelo marido e filho (falta pouco dar um tapa na cabeça do moleque e gritar Pedala Robinho!).



Pedala Robinho!!


Aham... continuando: As decisões que a personagem de Julianne toma durante o filme estilhaçam a personalidade do filho que, pelo que vemos, passou boa parte da vida sentindo-se menos que um ser humano. Incompreendido e incapaz de compreender o que há à sua volta, traduzindo esta confusão em seu próprio livro. Pessoas assim contrariam o dito popular que prega a união entre opostos e só conseguem ser orbitadas por pessoas igualmente auto-destrutivas. Normalmente um dos dois passa a ser muleta do outro. E é aí que entra a personagem de Meryl Streep. Em um momento de fragilidade na juventude ouviu o apelido que parece ter desmoronado com suas convicções, fazendo com que o livro de Woolf tome um aspecto maldito, destruidor, quase como uma chamada telefônica do filme O Chamado. A diferença é que Samara Morgan matava em 7 dias. Mrs Dalloway mata na hora, sendo que a pessoa continua neste plano, vagando para lá e para cá esperando o momento em que poderá deixar a vida de zumbi e tentar de novo em outra encarnação, enquanto "as horas" ainda precisam ser vividas.

Parece fúnebre, mas tive a vontade de ler o tal livro depois de ver o filme (escrevendo este texto resolvi consultar o preço na internet... 10 reais, baratinho... comprei). Não, não sou suicida nem nada, mas uma frase onde diz que "se nos encontramos acuados, sem perspectivas, temos que encarar a vida, olhá-la de frente, e depois podemos largar tudo"; merece ser lida dentro de um contexto. Não é bem assim não, mas é parecido...

quinta-feira, 9 de junho de 2005

V - COMO ID4 DEVERIA SER



V – A Batalha Final (V – The Final Battle, 1984) foi uma série que a Globo passou por aqui em 1985 ou 1986 (caceta... eu tinha entre 8 e 10 anos... de onde eu tirei esta lembrança?) na esteira do sucesso de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of Third Kind, 1977) e E.T – O Extraterrestre (E.T.- The Extra-Terrestrial, 1982), filmes blockbuster que consolidaram a imagem de Spielberg e provocaram a ressurreição do gênero "eles estão entre nós", cuja última chama de apelo ocorrera na geração anterior com os clássicos Guerra dos Mundos (The War of the Worlds, 1953) e O Dia que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1951).

Entretanto, ao invés da postura boazinha dos ETs Spielberguianos, os Visitantes de V tinham objetivos um pouco mais egoístas, querendo acabar com a espécie humana e dominar o mundo. Na verdade, a mini-série original que passou nos EUA chamava-se apenas V e foi produzida em 1983, sendo que no ano seguinte foi produzida a continuação que, por mostrar os esforços da resistência contra os lagartões invasores, recebeu o subtítulo "A Batalha Final". Aqui no Brasil as duas foram unidas e passaram de uma só vez na TV Globo, anos depois reprisados no SBT.

Esta produção serviu de debut para Robert Englund. Não que já não tivesse atuado em outros filmes, mas aqui ganhou destaque e no mesmo ano foi imortalizado na pele de Freddy Krueger, sendo o único ator do elenco a ganhar algum renome no futuro.



Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro seria esta: usem o filtro solar!


V nos apresentava as primeiras imagens realmente convincentes de dominação, com efeitos especiais bem competentes para a época e uma nave-mãe de respeito, praticamente copiada em Independence Day. As metáforas ao Macartismo e fascismo por trás das atitudes alienígenas, assumo, passaram em branco por mim, que só fui tomar conhecimento anos depois lendo a respeito. Aliás, seria demais esperar que um moleque pré-púbere soubesse isto; nerdice além do aceitável. À época eu estava muito mais preocupado em assombrar-me com as peles saindo e revelando os lagartos comedores de ratinhos. Ainda hoje tenho a lembrança do sentimento de repulsa que tive ao ver a Diana comendo aquela ratazana gigante, só deixando o rabinho (heh... ela não come o rabinho... aham... hummm... voltando ao assunto:), apenas aplacado pela semelhança absurda que os módulos de transporte tinham com meu Playmobil Space.



Igualzinho ao Playmobil Space


Em 1995 ainda outra continuação em forma de mini-série foi feita, mas não passou no Brasil. Em 2004 e 2005 nova continuação tomou corpo com o elenco original (os que estão vivos, claro), mas sempre que pesquiso no IMDB, o negócio está em post production.



Diana não come o rabo dos ratinhos


O DVD das 3 séries oitentistas vendeu como água nos Esteites, pena que não lançam aqui. Cerca de um ano atrás consultei o Submarino acerca da possibilidade de importação, mas recebi a resposta de que não há sequer prazo.





HAVIA CÉREBRO ANTES DE JASPION



Certamente posso estar chovendo no molhado ao resolver falar sobre estes programas já tão abordados em sites do gênero, mas a percepção da não planejada datação de uma época através dos temas abordados pelos programas abordados a seguir merecem uma abordagem conjunta. Pirata do Espaço, Patrulha Estelar e Ultraseven foram três ícones do entretenimento infantil surgidos no final dos anos 70, com sucesso nos 80, que diferem muito de alguns contemporâneos e de todos os que o sucederam. Dois animes e um live action que foram originariamente voltados para o público infantil, mas os dramas vividos nas três produções encontraram eco no coração de muitos adultos e jovens da época, abordando assuntos de difícil digestão para o público original. Isto fez com que, à exceção de Pirata do Espaço (ignorado no Japão, mas com sucesso retumbante na Itália e considerável no Brasil), tenham sido encarados como obras cult e formaram uma legião de fãs na faixa da juventude.




As três séries compunham o primeiro movimento de retorno dos programas japoneses à TV desde National Kid. Pirata do Espaço (Groizer X) não primava pela qualidade técnica, mas era uma desgraça atrás da outra, fazendo com que os espectadores lidassem com aspectos de vida/morte diferentes da forma leve como outras produções infantis apresentavam. Claro que o visual do robozão, suas armas e a música-tema (botão direito e "salvar destino como") favoreceram muito a aceitação dentre o grande público brasileiro, mas os aspectos de roteiro é que constituíam a verdadeira novidade. Mais informações sobre Pirata do Espaço podem ser encontradas aqui.


A série não teve o sucesso esperado no país de origem, motivo pelo qual não foi muito longa, mas foi inspiração para o surgimento de diversas variações sobre o mesmo tema. Uma das mais famosas, a ponto de criar frisson nos EUA e iniciar a influência da cultura televisiva japonesa naquele país, foi Patrulha Estelar (Ushuu Senkan Yamato). Esse sim ganhou reconhecimento amplo, recebendo inclusive nomes ocidentais ao entrar na indústria americana.

Mais informações sobre Patrulha Estelar podem ser encontradas aqui.


Ultraseven foi o terceiro membro da família Ultra que passou por nossas terras. Sucesso estrondoso no Japão, passou aqui aproveitando a ótima repercussão que Ultraman e O Regresso de Ultraman (além do genérico Spectreman) tinham à época. Entretanto, enquanto seus primos protagonizavam aventuras lineares, mais do mesmo, Ultraseven e seu alter ego (que não era humano) Dan Moroboshi diferia dos outros por motivos e conflitos já identificados neste texto. Não sei dizer se é o único Ultra-membro que tinha esta abordagem, já que devia haver para mais de dez ultra-primos em exibição no Japão, mas certamente foi o personagem que mais se destacou, alcançando a maior longevidade com suas séries. Clicando aqui (botão direito e "salvar destino como"), você baixa a música da abertura.

Mais informações sobre toda a família Ultra podem ser encontradas aqui.



Clique na imagem para uma versão um pouco maior da família reunida


Aqui e aqui há dois artigos do Omelete que esgotam o tema "Ultraseven".


À exceção de Pirata, as outras séries foram transformadas em boxes de DVD lá fora. Surpreende-me que até hoje não tenha sido lançado no Brasil. É o tipo de coisa que vende fácil.

terça-feira, 7 de junho de 2005

SESSÃO DO HUGHES



E não é que este negócio de licença médica me premiou com mais um filme digno de um post? Nesta terça-feira passou na Sessão da Tarde Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller's Day Off, 1986), obra prima das comédias adolescentes de High Schools americanas.

Este filme é certamente outro dos tijolos que construíram o conceito impregnado no inconsciente coletivo de minha geração (tenho 28 anos) como um dos "filmes maneiros – MESMO - de antigamente". Certamente é motivo para eu tomar alguns Valiuns, pois a primeira vez que vi foi na Tela Quente, quando só passava filme inédito. É muito tempo, vamos concordar! Ainda mais se pensarmos que hoje já é clássico da Sessão da Tarde e todos sabemos que um filme, para almejar este posto, além de impreterivelmente exibir aquela dublagem perfeita de antanhos, tem que gastar muita cabeça de vídeo da Globo para chegar lá!

Mas este sentimento de velhaco vai embora rapidinho ao percebermos como aquelas comédias, para serem ótimas, não precisavam apelar para piadas de baixo calão nem para atitudes Michael-Baynianas para divertir a platéia. É o tipo do filme que faz o espectador sentir-se leve e satisfeito com o que viu, guardando-o na memória, coisa tão rara hoje em dia. Leveza e competência semelhante só vim a sentir novamente pouco tempo atrás ao assistir Simplesmente Amor (Love Actually, 2003). Foi o primeiro (e último) em muito tempo que conseguiu estampar o sorriso bobo no meu rosto como se fosse algo inédito, mesmo sendo outro estilo.




John Hughes é o responsável por esta pérola; é praticamente o Papa das comédias adolescentes, o dono da Sessão da Tarde. Foi responsável, além deste, por O Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985) e Mulher Nota 1000 (Weird Science, 1985). Seus filmes são tão venerados mundo afora que hoje são vendidos como uma espécie de box especial de filmes de High School para DVD. Este box tem ainda as obras onde suas outras participações, bem numerosas por sinal, foram no roteiro (Garota de Rosa Shocking e Esqueceram de Mim, por exemplo) ou na produção.

Curtindo a Vida Adoidado nos apresenta um personagem que faz com que qualquer moleque com calos na mão direita (esquerda para os canhotos) queira ser um Ferris Bueller. É o cara que consegue ser querido por todos (tá certo que toma contornos exagerados durante o filme, mas serve para ilustrar), mais esperto que todos, aproveita a vida como ninguém, sempre se dá bem e ainda por cima tem uma namorada muito gata. Lembro-me que passei alguns dias em casa, tal qual um babaca, tentando reproduzir o truque do manequim na cama e do ronco no micro-system, sempre me frustrando.



Viu? Sei fazer cara de pato!!


O curioso disto tudo é que Ferris, apesar de ser um bon vivant, devia ser um geniozinho do crime, pois não é qualquer um que, na era pré-Internet (dez anos antes da popularização da www), sem redes de informática, consegue invadir o micro da escola para reduzir suas ausências. Nem tampouco é trivial para um estudante do segundo grau a montagem do circuito da campainha integrado a um gravador e ao interfone. Estas bugigangas só reforçavam o sentimento "Quero-ser-Ferris-Bueller" que eu e meus colegas de escola alimentávamos.



Jo te quiero!


O filme tornou-se tão popular que ganhou uma série fracassada em 1990. Curioso que os personagens principais não tenham servido para construção de sólidas carreiras no futuro. Charlie Sheen, fazendo ponta (teve que ficar acordado mais de 48 horas para conseguir ficar com aquela cara de viciado), conseguiu muito mais destaque que Alan Ruck (Cameron) e Mia Sara (Sloane).

Matthew Broderick, que disputou o papel com Eric Stoltz, compôs um personagem cínico e boa praça na medida certa, aproveitando o sucesso alcançado com Feitiço de Áquila (Ladyhawke, 1985) um ano antes. Daí esperava-se o surgimento de um nova mega-estrela carismática de comédias, a exemplo de Tom Hanks em Quero ser Grande (Big, 1988), mas surpreendentemente só estrelou filmes de qualidade duvidosa, apenas conseguindo algum destaque novamente ao emprestar sua voz para o Simba, de Rei Leão, 8 anos depois. Tentou então uma ressurreição frustrada com O Pentelho (Cable Guy, 1996) passando ainda por Godzilla (1999) e Mulheres Perfeitas (Stepford Wives, 2004) - todos fracassos.



Vocês vão ver como vou me dar bem depois do filme


Por tudo isto, sou obrigado a concluir que o cagado diretor do colégio de Ferris, Ed Rooney, vivido por Jeffrey Jones, acabou conseguindo sua redenção na vida real. Apesar de não conseguir protagonizar nenhum filme, coadjuvou várias obras de relativo sucesso e/ou qualidade, como Os Fantasmas se Divertem (Beetle Juice, 1988), Valmont (1989), Advogado do Diabo (Devil's Advocate, 1997), A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (Sleepy Hollow, 1999) e muitos outros.

Durante o filme, para reforçar a identificação com minha geração, somos apresentados a várias situações que repetiam-se identicamente nas nossas vidas, como a irmã recalcada, os pais cegos para o que fazemos e o professor chato bagarái que fica repetindo "Alguém sabe? Alguém?" naquele tom monocórdio.



Então em 1500 o Brasil foi descoberto por... alguém sabe? Alguém? - Cabral.


Curiosidade: o professor de economia realmente era um cara formado em economia que nem usou script naquela cena. Entretanto, daí para frente o cara coadjuvou diversos filmes, a maioria comédias infantis.

Curiosidade²: os atores que fazem os pais de Ferris acabaram casando-se na vida real depois do filme.

Estes artifícios de identificação com o público são normais, assim como os papos que Ferris bate com a câmera, mas nada funciona tanto quanto o sentimento de comoção geral que toma conta na antológica cena em que Ferris dubla Twist and Shout em um carro alegórico na Von Steuben Day Parade de Chicago. Aquele povo todo cantando/dançando e a paixão que Matthew empresta ao personagem fazem com que até o mais frio espectador seja arrebatado e sinta vontade de cantar também. Não satisfeito com este golpe baixo populista, John Hughes ainda faz com que um grupo dance na escadaria reproduzindo exatamente a coreografia de Thriller, vídeoclip-supra-sumo de Michael Jackson que todo mundo adorava na época. É golpe baixo. Sacanagem mesmo. Mais fdp, só o Capitão Ultimate.




Não sei se foi proposital ou se é um lance de época, mas é impressionante ver o roteiro que os personagens seguiram para alcançar aquilo que mais a frente seria definido como "aproveitar a vida". Hoje em dia, ao perguntarmos para qualquer adolescente o conceito de "aproveitar a vida", certamente as respostas serão concentradas em dois ou três itens fisiológicos regados a sexo. Certamente isto é ótimo, mas não é tudo.



Cameron, intrigado com um quadro no museu


Aqui o conceito é transladado um pouco, pois os protagonistas vão saudavelmente apreciar a vista do alto da Sears Tower (um dos prédios mais altos do mundo), almoçar em um ótimo restaurante, assistir a um jogo de baseball, curtir uma no Art Institute of Chicago (onde várias obras são mostradas, bem como o efeito delas sobre os personagens), o desfile e uma piscininha no final da tarde. Não dá para negar que foi um dia muito porreta, afinal, como o próprio Ferris diz no final, "a vida é muito curta. Se você não parar um pouquinho de vez em quando e vivê-la, estará perdendo tempo".


PS: Cabe dizer ainda que foi a primeira vez que vi usarem os créditos para passar algumas seqüências interessantes, saindo do lugar comum das letras subindo no fundo negro que a Globo sempre corta. Mesmo assim, para não perder o costume, a Vênus Platinada ainda meteu a tesoura na última parte do filme, quando o protagonista sai do banho e diz "Vocês ainda estão aqui? Acabou! Vão embora!" Esta eu tinha decorado!

sábado, 4 de junho de 2005

AVENTUREIROS DO BAIRRO ESTELAR

Com vocês, a mais nova adição do BZ: Fivo, the contributor...




Ficar acamado tem uma série de situações ruins, dentre as quais posso destacar o sentimento de perda de dignidade quando duas mulheres de vinte e poucos anos te dão banho numa cama e não há tesão algum nisto. Só que, se não formos muito derrotistas, situações como esta destacam dentro de nós a filosofia de Polyana, fazendo-me encontrar o tal do lado bom até disto. O tempo de convalescença permitiu-me, dentre outras coisas, descobrir que o Louro José, o coadjuvante da Ana Maria Braga, é um cara brilhante e muito mais interessante que a protagonista do programa, mas tudo isto merece um texto à parte e em outro local. O importante é que serve como introdução para falar da sensação de prazer que apoderou-se de mim em cada tarde nostálgica de devoção à Sessão da Tarde.


Numa destas tardes a Globo reprisou Aventureiros do Bairro Proibido (Big Trouble in Little China, 1986). Tipo do filme que conseguia colocar em um só saco tudo aquilo que um moleque de 10 anos queria ver na televisão: porrada, seres fantásticos, pitadas de terror e heróis canastrões quase carnavalescos. Sempre figurou no meu top ten dos filmes mais divertidos que já vira e temia absurdamente vê-lo novamente.


Medo? Explico: como tem sido cada vez mais corriqueiro, os medalhões de minha juventude não têm sobrevivido bem à minha idade. Cada vez que vejo algo outrora fantástico e insuperável, percebo como a maturidade é capaz de ser muito mais severa do que qualquer dos vilões quase imbatíveis que acompanharam meu crescimento. Já esperando conclusões nesta linha, estava preparado para mais um ícone desnudo, mas fui extraordinariamente surpreendido quando percebi que Aventureiros conseguiu passar incólume pelo "meu" tempo. Incólume não – seria impossível – certamente percebemos que a tecnologia de hoje faria milagres naquele filme, mas a forma como foi construído, bem como a miscelânea de estilos, cenários, temas e referências consegue manter o filme atemporal.


No caminho inverso do esperado, minha dita maturidade ainda enriqueceu meu prazer em assistí-lo e perceber como, propositalmente ou não, foi influenciado e influenciou muita coisa da cultura pop destas duas ou três décadas que passaram.


O enredo todos conhecem, mas não custa dar uma lembrada: Jack Burton (Kurt Russel) é um caminhoneiro que vai com seu amigo chinês até o aeroporto para buscar a noiva deste último, mas esta é raptada por uma gangue chinesa e inicia-se uma perseguição para ter a garota de volta. Até aí, nada demais. Típica linha mestra de papo de bar com a profundidade de um pires, mas então John Carpenter nos presenteia contando mais-do-mesmo e tudo parece novo.


Carpenter é aquele tipo de autor/diretor de filmes B para quem fãs costumam sacrificar em seu altar um ou dois artistas pop semanalmente. Não o acho brilhante; vejo-o na verdade como um cara muito irregular. É capaz de obras-primas como Eles Vivem (They Live, 1988), O Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982) e Aventureiros – cada um no seu estilo – ao passo que também é responsável por crimes como Fantasmas de Marte (Ghosts from Mars, 2001) e Vampiros (John Carpenter's Vampires, 1998), passando ainda por filmes mais ou menos - como a série Halloween – e cults, como Fuga de Nova Iorque (Scape from New York, 1981).



Han Solo e Princesa Leia


A filmografia mostra que o diretor tem certa predileção por Kurt Russel. Atorzinho canastrão ao máximo, cujo sucesso é inteiramente devido a três dos filmes citados acima. Não culpo Carpenter, pois curiosamente sempre gostei muito de Russel e não sei explicar muito bem o porquê. Talvez seja justamente porque é canastrão, sabe que é canastrão, gosta de ser canastrão e não vai deixar nunca de ser canastrão, ou seja, é autêntico. Diferente de Stallones da vida que tentam ser o que não conseguem.


O jeitão dele combina perfeitamente com Aventureiros. O estilo "sou brucutu e mando pacas", com aquela roupinha mamãe-tô-forte-e-uso-bota casa com o clima do filme que nem queijo e goiabada, construindo um contra-ponto perfeito à personagem de Dennis Dun, o chinesinho mirrado que se acha o Pai Mei (este aí, depois daqui, só apareceu em O Último Imperador).


O mais gostoso de assistir este filme depois de 15 anos é perceber as influências sofridas e impostas. Não sou fã tarado de Star Wars, então não posso dizer se estou "no clima" de Episódio III quando digo que vejo referências da mitologia de Lucas em quase todo o filme. Certamente é ambientado no planeta Terra, mas a forma como a estória se desenrola te arranca de qualquer sociedade conhecida e em pouco tempo nos encontramos afogados em uma mitologia-colcha-de-retalhos. Jack Burton é um Han Solo estilizado e caricato com seu amigo carismático que precisa resgatar sua contraparte feminina. Trata seu caminhão à semelhança da importância que a Millenium Falcon tinha para Harrison Ford da trilogia original e passeia por ambientes que chegam a lembrar o triturador de lixo de Uma Nova Esperança.



Fla x Vasco no Maraca


Quando a perseguição os leva para os becos chineses, somos apresentados a um mundo fantástico, colorido, que desafia o bom senso e me leva à "Viagem de Chihiro". Logo ao entrar neste mundo temos um embate de exércitos idênticos – não... neste caso não farei alusão ao exército de clones, pois qualquer grupamento militar é caracterizado pela uniformidade visual – subitamente interrompidos por três figuras míticas simbolizando a Chuva, o Trovão e o Relâmpago. Aqui temos uma óbvia influência para a criação, uma década depois, de Raiden, do Mortal Kombat.




Somos apresentados então à toda uma sorte de criaturas que te afastam ainda mais do mundo real. Um "chefão" imortal que não passa de um cruzamento de Darth Sidious com Shang Tsung. Curiosidade interessante aqui é que o efeito do poder desta personagem serviu de clara influência para os efeitos especiais de Eles Vivem, filmado dois anos depois.



Hummmm... Acho que vou usar este efeito no meu próximo filme...


As influências não param. Uma espécie de "olho que tudo vê" circula pelos subterrâneos da cidade onde nossos heróis passeiam e é claramente um Jabba The Hutt estilizado. O trajeto pelos esgotos enevoados cheios de seres esquisitos nos remete ao planeta onde Luke foi treinado por Yoda em O Império Contra Ataca e, claro, este último não poderia ficar sem sua referência na pele da personagem Egg Shen, vivido por Victor Wong. É o ancião que detém os conhecimentos e o poder para fazer frente à verve mística do lado negro. Em dado momento ele chega a conceder a "força" a seu exército de "jedis", ao oferecer-lhes uma poção que confere poderes para quem a bebe.



Há uma cena igualzinha em Episódio II,
quando Yoda defende-se do ataque de Dookan


Quando o filme termina, percebemos uma série de buracos na estória, bem como motivações pequenas demais (resgate do caminhão) ou justificativas estapafúrdias (a necessidade da moça de olhos verdes para conferir mortalidade ao "Imperador"). Entretanto, temos a certeza da diversão, de ter visto o suicídio mais maneiro de todos os tempos e Carpenter apenas assegura a máxima de que no universo nada se cria. Tudo se transforma. Até o Chewbacca.



by Fivo (ainda em fase de testes)