quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O herói do cidadão comum


Eugene Allen “Gene” Hackman
(1930 - 2025)

Foi a primeira notícia do dia pra mim. 95 anos, 50 de carreira e aposentado há 20. A partida do Gene Hackman é aquela notícia inevitável e até esperada, mas que ninguém queria receber, nunca.

Sua carreira extensa e recheada de clássicos se confunde com a própria História do cinema americano do século 20. Das produções da "Nova Hollywood" setentista, à década dos excessos seguinte e longas indie disputando sua agenda com blockbusters de ação, Hackman era uma força da natureza. Seja no drama, na comédia, em policiais, no faroeste, em thrillers de suspense e espionagem, era sempre um masterclass. Como bem disse Clint Eastwood, ele não entregava uma única nota fora do tom.

Talvez mais do que isso, a figura durona, enérgica e pouco sofisticada do astro trazia uma simplicidade que tinha bastante ressonância com o homem comum. Seja como anti-herói ou vilão, a conexão com o sujeito era quase imediata.

Só o Gene para arrancar lágrimas do espectador logo nos primeiros segundos de um filme de guerra. E sem dizer uma única palavra.


Eu cresci vendo esse homem trabalhando. E foi uma honra.

Obrigado por tudo, Gene Hackman.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Para Karla Sofía Gascón, obrigado por tudo!

Ainda não assisti Emilia Pérez. Apenas acompanhei, junto com o planeta, o desmonte público de sua estrela (cadente) Karla Sofía Gascón na corrida pelo Oscar. Polêmicas à parte, só agora acordei: o diretor do filme, Jacques Audiard, tem dois longas espetaculares no currículo: O Profeta (Un Prophète, 2009) e Ferrugem e Osso (De Rouille et D'os, 2012), obsessões que cultivei com muito carinho num grupo de e-mails que participei.

Seguem minhas impressões rápidas & rasteiras da época conservadas em carbonita pelo Gmail.


22 de jan. de 2011 — O Profeta. Impressionante como uma premissa tão simples (novato "se educando" na prisão) ainda pode render tanto. Mas não é por acaso. O roteiro é um primor. Consegue lidar com situações complexas com uma acessibilidade notável, sem soar didático e sem fazer concessões. E as atuações são fantásticas. A tensão entre os dois protagonistas, Malik e Luciani, é de gelar a espinha. O que foi aquele tiroteio, cara. Puta que os pariu. Filmaço. E o último resquício de credibilidade que o Omelete tinha foi pro saco.*

* mas isso faz tempo, hein.


19 de fev. de 2017 — Ferrugem e Osso é muito bom. Um Rocky realista com foco na Adrian. Drama contundente e concussivo, pungente e pugilista. E a Marion Cotillard é fantástica demais.

De lá pra cá, reassisti ambos algumas vezes e sempre achei a experiência ainda melhor que anterior. Já está na hora de revisitar.

Valeu o lembrete, Karla.

Ps: gafanhoto(a), fecha logo esse navegador e corra atrás desses filmes no streaming/torresmo mais próximo!

Leiturinha matinal


Curtinhas da Laerte quando ainda era o Laerte. Benzetacil de nonsense e felicidade na testa. Ganhei de sorteio do Guia dos Quadrinhos.

O lado "ruim" é que destravou uma vontade implacável de mergulhar em minhas velhas edições da Circo, Chiclete com Banana e Piratas do Tietê... que estão no ponto mais difícil da Cordilheira das Caixas – na última fileira embaixo, no canto.

Academia pra quê.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

A vinda do Fantástico

Trataram logo de tirar o Coisa do meio da sala.


Não passa despercebida a atitude Die Hard Silver Age à James Gunn no trailer de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos. Não tenho a menor dúvida que o diretor Matt Shakman mergulhou de cabeça nessa fonte. Sem medo de ser feliz, a produção assume todo o colorido, o farsesco, o H.E.R.B.I.E. e o Ben Grimm mais fiel aos quadrinhos desde o Quarteto Furado do saudoso Roger Corman. Assume o fantástico, enfim.

Confesso não estava dando a mínima para a proposta. Mas até a estética retrofuturista, calcada no genial Syd Mead, ficou linda. Só perde mesmo para a Sue Storm Vanessa Kirby, uma mulher nada invisível para 400 talheres. Agora o filme tem a minha atenção.

Se bem que aquele Galactus, assim, na seca, sem nem um drinkzinho antes, ativou os sensores de alerta do Edifício Baxter...

sábado, 25 de janeiro de 2025

A longa caminhada


Pareceu uma eternidade. E foi. Em 2023, quando Silo fechou sua excepcional 1ª temporada, não economizou no cliffhanger. Deixou o espectador perdido num limbo de tensão, incerteza e horror, com um de seus personagens mais queridos marchando para a morte certa. Em outras palavras, fez o dever de casa com proficiência sádica. A expectativa, já alta, foi ampliada pela greve da SAG-AFTRA, que paralisou a indústria e atrasou o lançamento da 2ª temporada em mais de um ano.

De lá pra cá, não teve fórum e lista de discussão que suavizasse a abstinência. Estávamos todos no mesmo barco. Ou melhor, silo.

A série da Apple TV+ é uma adaptação da trilogia escrita por Hugh Howey, composta pelos livros Silo, Ordem e Legado, todos publicados no Brasil. A saga será condensada em 4 temporadas (a 3ª está sendo filmada neste exato momento). Se o mundo não acabar até lá, é provável que saia pelo 1º semestre do ano que vem. É tentadora a vontade de cair logo de cabeça no material original. Porém, o esmero na produção, a construção dramática, a dinâmica em tela daquele universo e o nível absurdo das atuações garantem o payoff. Mas será difícil resistir. Ainda mais após este season finale arrasador em que as apostas foram triplicadas.

É verdade que os mecanismos do roteiro estão mais visíveis, utilitários. A pegada é bem diferente da ação e da urgência impressas na eletrizante 1ª temporada. O desafio agora era realocar toda a premissa do ponto A até um ponto B para estourar num ponto C. O resultado foi uma desacelerada no ritmo da série e a evolução do plot em detrimento da evolução individual de cada personagem. É temporada-entressafra.

Apesar da puxada no freio de mão, foi um movimento necessário. Como sabemos, adaptação de livro não é bolinho. Mesmo assim, esta 2ª temporada traz as pauladas mais contundentes da série até aqui.

Spoilers às 12 horas apenas para membros do Clube do Silo.


Um dos melhores aspectos da série é não embromar no pós-cliffhanger. Em regra, a história é retomada exatamente do ponto onde parou, sem enrolação ou elipses safadas. A 2ª temporada já começa a mil, respondendo várias questões que assombravam o espectador e outras que ele sequer sabia que existiam. A sequência de abertura, com o clímax da revolta civil de um silo, é tão espetacular quanto trágica. A transição da cena para a protagonista Juliette Nichols caminhando pela Terra devastada é nada menos que arrepiante. Personagem esta, não custa lembrar, defendida com sangue, muito suor e lágrimas pela maravilhosa Rebecca Ferguson.

Aliás, pobre Juliette. Pobre Rebecca.

Com o foco mais na trama do que nos personagens, elas foram as maiores prejudicadas. Assim mesmo, no plural com TDI. Presa a uma interminável lista de side quests e outros contratempos (de infecção e doença descompressiva até uma flechada!), Juliette não tem nenhuma evolução pessoal durante a temporada. Tudo é arquitetado para adiar até o último episódio seu retorno triunfal ao Silo. Dá pra sentir na pele toda a sua frustração e inconformismo sempre que é obrigada a resolver mais um perrengue complicado justo quando precisa correr contra o tempo.

Em contrapartida, é nestas cenas que a atriz supervaloriza seu passe numa performance física invejável – em boa parte sem dublês, trabalhada na força do Girl Power mesmo. Do primeiro ao último episódio, a mulher só faz trabalhar e arriscar o seu lindo pescocinho. Sem dúvida, suas participações na franquia Missão: Impossível renderam frutos.

O contraponto da Nichols nesta 2ª temporada é novamente Bernard Holland, chefe de TI do Silo e o real manda-chuva do faraônico construto. Interpretado de forma brilhantemente paranoica por Tim Robbins, ele luta contra o símbolo de liberdade que Juliette se tornou após seu exílio mortal. Um símbolo que não fica nada a ver para a máscara de Guy Fawkes. Bernard, o retrato da máquina fascista, é um personagem ambíguo em seus extremos. Tem o dom de enxergar o grande quadro, porém isso o arrasta para sacrifícios cada vez mais hediondos em nome da integridade do Silo. As cenas que ele divide com a Juíza Mary Meadows (da austera e classuda Tanya Moodie) são uma pintura dramática. Particularmente, a belíssima e comovente cena do jantar. Uma obra de arte em movimento. Que atores.

A trajetória de Bernard nesta 2º temporada é um passo a passo de como os regimes autoritários, por mais equipados e eficientes que sejam, inevitavelmente caem. Irônico como as instruções do Pacto para desarticular rebeliões a cada 20 anos se encerram num ciclo dentro de um ciclo – afinal, Bernard também descobre que não está e nunca esteve no topo da pirâmide, sendo ele próprio uma parte descartável das engrenagens.

O que nos leva ao inesperado retorno do personagem Lukas Kyle.


Nem de longe antevia sua volta e muito menos a importância que teria nos rumos da série. Lukas é como aquele reserva recém-saído da base que entra aos 43 minutos pra marcar o lateral e acaba fazendo o gol do jogo. Interpretado com inteligência e discrição por Avi Nash, o personagem protagoniza o momento mais revelador e impactante da série. E, adivinha, uma das únicas exceções àquela regra da elipse pós-cliffhanger. Foi por uma boa causa, já que este segredo é revelado aos poucos e, literalmente, até os últimos segundos do season finale.

Dica importante: vale a pena um recap, ao menos das cenas-chave. Muitos fragmentos de informação pertinente são espalhados ao longo da temporada e só são plenamente compreensíveis quando se encaixam. E ao menos que você tenha memória eidética, vai se embolar. Ao rever algumas partes, me surpreendi com a quantidade de pistas valiosas soterradas pela trama principal. Novamente, aquele negócio: narrativa literária versus transposição live action.

Do elenco regular, Chinaza Uche com seu Xerife Paul Billings mantém a passividade da temporada prévia, agora resvalando na quase irrelevância. Pena. O mesmo pode ser dito em relação a Common como (!) o agora Juiz Robert Sims. Seu trunfo, no entanto, é sua esposa Camille, interpretada com diligência por Alexandria Riley. Astuciosa, com uma inteligência emocional e uma visão estratégica afiadíssimas, Camille passeia com facilidade pelos territórios mais cinzentos. Aos poucos, se mostra um dos segredos mais bem guardados da série. Já Shane McRae como Knox e Remmie Milner como Shirley, os líderes revoltosos da Mecânica, continuam naquele mix de coragem, impulsividade e burrice. Com o passar dos episódios, acabam se afinando (inclusive, entre eles). E a inglesa Harriet Walter segue roubando cenas como Martha Walker, mecânica veterana e a mãe postiça de Juliette. E rende algumas cenas de confronto memoráveis com Tim Robbins.

A novidade da vez é a participação especial do sumido e subestimado Steve Zahn no papel de Solo, último sobrevivente original do silo vizinho. Dá para presumir o mistério que o cerca com alguns episódios de antecedência, mas seu desenrolar é pontuado de forma magistral. Chocante até. E está diretamente ligado à épica sequência de abertura da temporada. Quanto ao grupinho dos "Garotos Perdidos" é meramente funcional. Está lá apenas para atrasar o corre da Juliette. E encher o saco do espectador.

Não dá pra deixar de mencionar também o surpreendente epílogo da temporada. Sendo sincero, achei que era alguma falha de streaming – ou, no caso, compressão. Após trocentas horas imerso em tons sépias e escuros (nota: assistir Silo de dia, sem cortina blackout, é impossível), foi surreal ver cenas dos dias atuais na série. Acachapante a sensação de irrealidade. E adicionou uma generosa leva de peças faltantes ao quebra-cabeça.

Não faço a menor ideia de como isso vai acabar. Mas a jornada está incrível.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Hoje o mundo ficou menos estranho


David Keith Lynch
(1946 - 2025)

Se foi o grande David Lynch. E escrever isso traz uma sensação tão surreal quanto seus filmes. Há tempos o homem virou uma ideia e, como ensinaram, ideias não morrem.

Lynch nunca teve a menor intenção de agradar, pelo contrário. Esse negócio de zona de conforto não era com ele. Fez videoclipes, projetos para a TV, toneladas de curtas, comerciais e até webséries, mas, paradoxalmente, contabilizou apenas dez longas em 57 anos de carreira. Mas que longas.

A estreia radical já com Eraserhead (1977) e seguindo com o humano O Homem Elefante (1980), seu divisivo Duna (1984) que cresci assistindo e adorando, o platô de perfeição cinemática atingido em Veludo Azul (1986) e Coração Selvagem (1990), a série-evento Twin Peaks (1990-1991), os labirintos neo-noir de A Estrada Perdida (1997) e Cidade dos Sonhos (2001) até a ternura raiz de História Real (1999); todos brilhantes aos seus modos e obsessões.

Ainda não assisti a saideira, com Império dos Sonhos, de 2006, nem o seu retorno a Twin Peaks, em, duh, Twin Peaks: O Retorno, de 2017. Mas tive um último aperitivo de luxo: sua ponta como o lendário cineasta John Ford, na melhor cena de Os Fabelmans (2022), de Steven Spielberg.

Lynch é, fácil, um dos caras que mais reassisto na vida. E o fascínio segue o mesmo. A mágica, a estranheza e a transgressão não vão se exaurir nunca.

It is with deep regret that we, his family, announce the passing of the man and the artist, David Lynch. We would...

Publicado por David Lynch em Quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Bravo, Mr. Lynch!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Zombie de Ouro 2024


Tá todo mundo puto!

2024, o ano das tretas milimetricamente calculadas para alimentar as redes sociais. Quase nem dá pra explicar o que justifica um viral atualmente porque na maioria das vezes não faz o menor sentido. E me pergunto se é isso que sobrou da tal "atitude rock & roll". Saudades do Lobão mandando todo mundo pra onde o sol não bate num estádio lotado. Ao invés disso, o que recebemos foram coisas como um filhinho da mamãe talentoso mais uma vez despejando chorume verbal e um monumento canarinho vandalizado por gringos ignorantes.

Paralelo a isso, toda essa onda reacionária, já em estado avançado de decomposição, ainda incita aparelhos atirados na parede após cinco minutos de navegação pela mediocridade generalizada. Tá foda.

Lá fora, pelo contrário, a paz e o amor reinam numa celebração fraternal com irmãos se reconciliando para shows e discos. Lindo i$$o.

Acho que temos muito o que aprender com os alemão.


Ou talvez não.

QUEBRA TUDO, ALEXA!


Playlist do ano

* Nada de discos ao vivo ou regravados, salvo nas menções honrosas



Então a menos que o King Gizzard & the Lizard Wizard lance mais um álbum até as 23:59 do dia 31, Flight b741 será o único disco do grupo lançado em 2024. Raridade. A ironia é que o gênero-alvo da vez é o hard rock dos anos 1970 – época em que era comum bandas lançando de 2 a 3 álbuns por ano. De todo modo, Flight b741 é um intensivão do hard blues rockeiro daquela era: é Free, é Aero, é Lynyrd, é Mountain, é Eagles, é Kansas, é Kiss. E muito cowbell!





O Escuela Grind chega ao 3º disco mais coeso do que nunca. Dreams on Algorithms é seu melhor álbum, tanto em composição quanto em produção. O som segue o esquema de sempre: de grind mesmo, não tem quase nada. O forte do quarteto é seu deathão turbinado com grooves levantando a bola perfeita para os guturais cavernosos da 'fessorinha Katerina Economou, uma das melhores gritadoras da sua geração. De apavorar qualquer reunião de pais e mestres.





Confesso que nunca digeri bem a carreira de Jack White pós-The White Stripes. Sempre me pareceu reverente demais aos primórdios do rock ao custo da sua própria identidade. No Name, pelo contrário, é o disco que mais lembra seus tempos de Stripes. Blues rock de garagem tocado alto, pesado e sem polimento. Resultado, nunca reouvi tanto um disco do Jack na vida. Bolachinha viciante.





O Judas Priest tem me deixando mais feliz e satisfeito a cada disco. Aleluia. Com uma produção impecável de Andy Sneap, Invincible Shield resgata aquela pegada oitentista clássica, desta vez até com as tinturas synthrock do delicioso e por muito tempo mal-compreendido álbum Turbo, de 1986. Um acerto de contas com o passado. E com o futuro.





Um dos dois melhores discos de 2024, na minha opinião. Confesso que não tinha grandes expectativas, mas a diva alternativa Kim Gordon me calou os pensamentos. The Collective é um disco de hip-hop? Sim. E trip-hop, trap, industrial, shoegaze, kraut, dub. E noise, ah, o noise. Um registro de arregaçar os sensórios.





Um dos dois melhores discos de 2024, na minha opinião. Tecnicamente, Lives Outgrown é o debut solo da indefectível Beth GibbonsOut of Season, de 2002, é uma colaboração com o músico Rustin Man e Henryk Górecki, de 2019, é uma incursão ao lado da Sinfônica Nacional Polonesa. Lives Outgrown trafega por climas sombrios e intimistas, lógico, mas com melodias e vocalizações mais vívidas e esperançosas... apesar do disco ser, nas palavras dela, sobre morte e desesperança. Amo muito.





Songs of a Lost World não é apenas uma surpreendente volta do The Cure ao estúdio após 16 anos (!), como periga ser o melhor álbum da discografia irrepreensível da banda. Mas isso só o tempo irá confirmar. O que sei até o momento é que a assimilação tem sido gradual e extasiante. O mundo precisava de mais um disco do The Cure? Pelo visto, precisava. In Robert Smith, we trust.





O álbum de despedida do veterano X saiu melhor que a encomenda. Smoke & Fiction traz a formação original – a frontwoman Exene Cervenka, o baixista e vocalista John Doe, o guitarrista Billy Zoom e o batera DJ Bonebrake – num dos mixes mais energéticos de punk, surf music e garage rock já produzidos. É irresistível. Será que ainda mudam de ideia...?





Coisas do destino. To All Trains é o sexto álbum do Shellac e foi gravado homeopaticamente ao longo de 7 anos – e exatos dez dias antes do lançamento, seu líder, o ícone alternativo Steve Albini, fez sua inesperada passagem. Se serve como testamento de fé, que seja. O som continuou o esporro math rock/pós-hardcore de sempre. Thank you and Rest in Noise, Albini!





Quando vi o enorme contingente de rappers convidados no novo álbum/mixtape de Denzel Curry, fiquei com o pé atrás. Felizmente, em King of the Mischievous South Vol. 2 o South Coast hip hop do cara segue engenhoso e furioso. Não é a reinvenção da roda (aro 20), mas nem precisa. Pancadão de primeira.





Humble as the Sun é o disco mais hip hop do duo punk Bob Vylan. Sem cerimônia, os garotos batem no liquidicador grime rap, rock, reggae, dub, dancehall e drum 'n' bass. O resultado é efetivo, refrescante e deveras metanfetamínico, se é que você me entende.





Freedom, Sweet Freedom é o 3º disco do Regional Justice Center e não tem esse título à toa. Assim como o próprio nome da banda, ele foi inspirado pelas idas e vindas dos integrantes e seus familiares do xadrez – em especial, pela soltura recente do vocalista Max Hellesto (irmão do líder, Ian Shelton) de uma cana de seis anos por agressão. Motivos para um álbum puto da cara não faltam, portanto. Esse é o combustível infinito para o HC powerviolence do grupo de Seattle. Ouça naqueles dias particularmente irritantes e evite você mesmo uma temporada no sistema penitenciário.





Milton + esperanza não é apenas o álbum mais bonito de 2024, é uma genuína carta de amor da multi-instrumentista, cantora, compositora e produtora Esperanza Spalding pela música do gênio Milton Nascimento. Ao lado do próprio, Esperanza – que já até figurou aqui no ZdO, que bom pra ela – conduziu um registro sublime, perfeito de ponta a ponta. Ou de esquina a esquina...





O Zeal & Ardor andou irritando sua parcela de fãs black metal from hell die hard com o novo álbum, GREIF. Isso porque o grupo suíço reduziu suas nuances de metal extremo significativamente (mas não totalmente) em favor das tradicionais influências soul, spiritual e r&b. E deixou a sonoridade ainda mais contagiante e diversificada. Se vamos pra o inferno, então que seja com classe. Discaço. Mais um.





Com Hell, Fire and Damnation, o Saxon chega à surreal marca de 24 discos de estúdio (!). Pra mim, é o melhor álbum de heavy tradicional do ano, pau a pau com o Judas novo. E também foi produzido pelo figura Andy Sneap, que aparentemente sabe como extrair um pré-sal de energia de poços aparentemente exauridos. Curto os velhinhos da NWOBHM há tempos e sinceramente não esperava maiores erupções desse vulcão. Feliz engano.




+ Plays memoráveis:

Cavalera Conspiracy - Schizophrenia (Max e Iggor, pelo amor do Marley, parem essas regravações por aí! Não encostem no Beneath the Remains!!)
Khruangbin - A La Sala
Ben Katzman's DeGreaser - Tears on the Beach
Willie Nelson - The Border
Willie Nelson - Last Leaf on the Tree
Etran de L'Aïr - 100% Sahara Guitar
Mdou Moctar - Funeral for Justice
Manu Chao - Viva Tu
Jerry Cantrell - I Want Blood
Godspeed You! Black Emperor - ''NO TITLE AS OF 13 FEBRUARY 2024 28,340 DEAD''
Marilyn Manson - One Assassination Under God - Chapter 1
Ty Segall - Three Bells
The Troops of Doom - A Mass to the Grotesque
Chelsea Wolfe - She Reaches Out to She Reaches Out to She
The Jesus Lizard - Rack
St. Vincent - All Born Screaming
Childish Gambino - Bando Stone & the New World
The Lunar Effect - Sounds of Green and Blue
Body Count - Merciless
Pet Shop Boys - Nonetheless
Suki Waterhouse - Memoir of a Sparklemuffin
Cancer Christ - God Is Violence
Hail Darkness - Death Divine
Seasick Steve - A Trip a Stumble a Fall Down on Your Knees
Slash - Orgy of the Damned
The Angels - Ninety Nine
Rosalie Cunningham - To Shoot Another Day
Los Bitchos - Talkie Talkie
God Is an Astronaut - Embers
Black Country Communion - V
The Lostines - Meet the Lostines
Blackberry Smoke - Be Right Here
High on Fire - Cometh the Storm
Sarah Shook & the Disarmers - Revelations
Scarlet Rebels - Where the Colours Meet
Slower - Slower e Rage and Ruin
The Jesus and Mary Chain - Glasgow Eyes
Exhorder - Defectum Omnium
Deicide - Banished by Sin
Fleshgod Apocalypse - Opera
Oceanator - Everything Is Love and Death


Gibis do ano

* Como de praxe, só material inédito e séries iniciadas este ano


Hombre (Figura), da sacrossanta dupla Antonio Segura/José Ortiz, foi uma obsessão realizada. Conheci o quadrinho escavando velhas edições da Cimoc em hubs empoeirados do DC++. Nunca sequer me ocorreu que um dia isso sairia aqui. O tomo compila a coisa toda – 42 histórias em 544 páginas – e finalmente pude conferir na íntegra aquela cruel e visceral realidade pós-apocalíptica – cujos desdobramentos soam mais prováveis nos dias atuais do que na época! Um clássico.



Adastra na África (Trem Fantasma) foi lançado em outubro de 2023, exclusivo para o clube de assinantes da editora, mas só este ano foi disponibilizado para o público em geral, via Catarse. Práticas meio bostas à parte, esta pequena obra-prima do mestre Barry Windsor-Smith traz o que seria a conclusão de seu belíssimo arco “Morte em Vida”, protagonizado pela Tempestade e republicado recentemente em A Saga dos X-Men vols. 4 e 9. Foi uma jornada difícil, mas assim como a vida, Adastra encontrou um caminho.



Quem diria que um maneta beberrão e dono de um saloon vagabundo protagonizaria uma das primeiras tretas do ano no mercado nacional de quadrinhos. Bouncer: Primeiras Histórias (QS) compila na íntegra a fase inicial do gibi quando ainda era publicado pela Les Humanoides Associés de 2001 a 2009. Já Bouncer: To Hell and Back (Comix Zone) traz as desventuras do anti-herói publicadas pela Glénat em 2012. A fricçãozinha entre as editoras (uia) foi inevitável – e a ironia do destino, considerando os plêierrs. O fato é que o gibi é espetacular. O texto mordaz da entidade Alejandro Jodorowsky e a arte mesmerizante de François Boucq estão níveis acima de tais questões mundanas. Paz acima de tudo. Literalmente: o tradutor Fernando Paz fez um grande trabalho nas duas edições. A ironia não para...



No quesito visual, Os Exércitos do Conquistador (Pipoca & Nanquim) é um dos quadrinhos mais deslumbrantes que já vi na vida. A arte primorosa de Jean-Claude Gal é um meio termo celestial entre John Bolton e Brian Bolland. Pode dar um Google aí, se não conhecia. De nada. O texto e os diálogos de Jean-Pierre Dionnet não ficam atrás e cobrem o cenário arquetípico da fantasia heróica com tons violentos e raramente redentores, se aproximando das histórias mais sombrias de Bran Mak Morn. Quadrinhaço.



A passos largos, Daniel Warren Johnson vem sedimentando uma carreira autoral promissora, ao mesmo tempo em que lida com as majors. Talvez seja o Adam Warren que os Gen Z-ers precisavam. O recente Powerbomb! Faça uma Superbomba (Devir) é uma extrapolação divertidíssima do universo do wrestling profissional, com direito a um rasante pela dura realidade dos bastidores – nesse ponto, chegou a me lembrar Whoa, Nellie!, de Jaime Hernandez. Elogio maior, impossível.



Fatale (Mino) é a experiência místico-lisérgica de Ed Brubaker e Sean Phillips. Uma alquimia fina unindo thriller pulp/neo noir com terror cósmico lovecraftiano. É o quadrinho mais estranho e fora da curva da dupla. E mesmo após dois volumões generosos, ainda foi pouco. A deusa fatale Josephine e meu coração apaixonado por ela mereciam novos capítulos.



Em O Papa Terrível: A História de Júlio II (Conrad), Alejandro Jodorowsky e ThéoTheoCaneschi fazem uma continuação virtual da graphic Bórgia, que Jodora fez ao lado de Sua Santidade Milo Manara. E tal qual a saga blasfema de Rodrigo Bórgia, a história do Cardeal Giuliano Della Rovere, o Papa Júlio II, é de estremecer os alicerces do Vaticano. Ainda hoje.



E falando em continuações virtuais, esse também foi o caso da fabulosa Graphic Disney O Destino de Patinhas (Panini), do artista e roteirista italiano Fabio Celoni (Dylan Dog). Os desenhos de sobrecarregar as retinas, a narrativa frenética e o texto sagaz do quadrinista já garantem a diversão, mas é algo imprescindível a leitura da história clássica “As Lentilhas da Babilônia”, publicada aqui no gibi O País dos Metralhas – que está fora de catálogo há tempos, mas que é facilmente encontrada por aí após digitar as palavras mágicas... morou?



A impressão é de que se Sean Phillips desenhasse um bonequinho de palito num guardanapo e Ed Brubaker rabiscasse uns garranchos por cima, ainda assim iriam pras cabeças do ano. É desumano o volume de produção vezes o padrão de qualidade da dupla. Onde o Corpo Estava (Mino) é uma temporada true crime brilhantemente fragmentada em múltiplas perspectivas. Em estrutura, lembra o plot do filme Ponto de Vista (Vantage Point, 2008), mas é infinitamente melhor resolvido. Até aqui, 100% de aproveitamento e hors concours ad eternum.


Livros mui apreciados


Tudo Passará: A Vida de Nelson Ned, o Pequeno Gigante da Canção (Companhia das Letras), de André Barcinski, foi uma das experiências mais densas e fascinantes do ano. Escrevi um texto sobre o livro, mas a trajetória caótica do Pequeno Gigante ainda roda vertiginosamente em minha mente. Se existe justiça nesse mundo, um dia essa história vai parar nas telonas. Ou nas melhores telinhas de streaming.



Lee Falk, a Lenda dos Quadrinhos (Noir) é um necessário tributo do escritor, pesquisador e jornalista Gonçalo Junior ao criador do Fantasma e do Mandrake (e do Lothar!). O Brasil tem tudo a ver com essa história, visto que o Espírito-que-Anda encontrou aqui um de seus maiores públicos no mundo – Falk, inclusive, esteve por estas bandas em 1970. Mas o autor também foi um incrível personagem da vida real, atuando como espião durante a 2ª Guerra e como ativista pelos direitos civis dos negros. Leitura essencial.



Todas as Aventuras Marvel (Conrad) e a incrível história de como Douglas Wolk zerou TODA a cronologia da Casa das Ideias. Escrevi sobre a façanha e até agora estou com o meu queixo batendo na canela. Dica altamente prolífica d'O Escapista Luwig.


Filme(s) do ano


Não vi tudo o que queria em 2024. Mas acho difícil assistir uma cena mais aterrorizante do que a protagonizada por Jesse Plemons em Guerra Civil. Com um ator desconhecido num papel quase-extra creditado simplesmente como "soldado", Alex Garland mostrou como a coisa pode ficar (muito) feia no jogo político dos próximos 5 anos. O filme inteiro segue nessa pegada pré-apocalíptica com atuações estelares de Kirsten Dunst, Wagner Moura e Cailee Spaeny. Já em Herege, de Scott Beck e Bryan Woods, Hugh Grant destila carisma, inteligência e perversidade como o assustador Mr. Reed. E as performances excepcionais das jovens Sophie Thatcher e Chloe East só elevam a escalada da tensão. Empate inevitável.


Valem a pena ver de novo:

Alien: Romulus (Fede Álvarez)
Entrevista com o Demônio (Late Night with the Devil, Colin & Cameron Cairnes)
A Primeira Profecia (The First Omen, Arkasha Stevenson)
LongLegs: Vínculo Mortal (LongLegs, Oz Perkins)
A Substância (The Substance, Coralie Fargeat)


Série do ano


Melhor série – no caso, minissérie – iniciada e concluída no ano, não teve pra ninguém: Pinguim, da showrunner Lauren LeFranc, leva com as asas amarradas nas costas. Mais do que um thriller policial ou um derivado do subgênero super-heróis, é um verdadeiro tratado sobre amoralidade. Colin Farrell devia usar aqueles 120 kg de látex e enchimento o tempo inteiro daqui pra frente. Aliás, Farrell, Cristin Milioti, Rhenzy Feliz, Deirdre OConnell, Clancy Brown e Carmen Ejogo... Brincadeira o que esse elenco faz em cena. Antológico.


Desenho do ano


X-Men '97 não foi uma temporada perfeita, mas chegou perto. Mesmo sem uma ligação nostálgica com a animação dos anos 90 (que poxa), pude perceber toda a reverência àquele zeitgeist. Foi uma atualização competente e, por que não, emocionante, divertida e absurda, como só um novelão mutante poderia ser. É a melhor série animada da Marvel desde... sempre? Apostaria minha X-Men Gigante #1 nisso.




Esqueci alguma coisa? Minhas opiniões são estúpidas e equivocadas? Colaborações, correções e iluminações na caixinha de comentários logo abaixo.

Contribuir calma e ordeiramente, por obséquio.



Excelente 2025 e além! Até a próxima, pessoal!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

O Superman pré-Crise está aqui


E o temAÇO clássico também.


Atualização 20/12


O Escoteirão não merecia nada menos.