
"O povo não deve temer o seu governo, o governo deve temer o seu povo" - em 2011 essa máxima foi executada na prática em proporções quase surreais. Ditaduras de décadas desmoronando como castelos de areia, mobilizações populares organizadas via Facebook, informações sigilosas atiradas no ventilador com um simples tweet... Mas esta semana o mundo teve um exemplo ainda melhor de como andam as regras do jogo. Isso graças a um anão sociopata com delírios de grandeza e tesão por ogivas nucleares. É quase inconcebível nos dias atuais que a morte de um dos maiores tiranos do planeta tenha demorado dois dias para ser divulgada - e por canais oficiais, como manda o figurino do miniditador moderno. É uma vitória do fascismo nesses tempos de democracia Jobs-Zuckerberguiana. Estaria comemorando efusivamente, fosse eu viúva do Mussolini ou do Costa e Silva. Heil!
Como quase tudo na vida, a coisa não funciona em preto e branco. O ser humano tem uma verve fascista natural que aflora ao primeiro sinal de problema. É um traço perigoso que, felizmente, é controlável. E um autêntico guilty pleasure quando projetamos cenários "E se...?". Na cultura pop tem aos montes: Dirty Harry, D-Fens, Tropa de Elite, Star Wars, Juiz Dredd, Justiceiro e, um dos meus preferidos, 24 Horas. No universo de Jack Bauer não existe fair play. Limite é só mais um obstáculo a ser superado, todos são inimigos em potencial, os fins justificam os meios e nice guys finish last. Me vendi fácil. No vício por adrenalina eu queria mesmo era ver o circo pegando fogo.
Em minha defesa, o contexto de 24 não deixava espaço para hesitação, trâmites burocráticos e amenidades microscópicas, como ética. 24 era a série pop dos republicanos e, por Deus, os caras sabiam se divertir. Até hoje reverbera em minha mente a cena em que enterraram uma faca no joelho de um terrorista durante um interrogatório.
Se 24 era uma imersão num extremo da América, então Homeland é o meio-termo. A série da Showtime lida com as mesmas situações em tons cinzentos e deadlines iminentes, mas faz questão de mostrar que limite não é só uma linha no chão. É um muro de dez metros com proteção eletrificada, seguranças G.I. Joe e cães furiosos à espera do primeiro infrator. O que não impede eventuais invasões em nome do bem comum, de forma bem menos frequente e sempre com graves consequências. De quebra, a série não faz vista grossa: enquanto Guantánamo e Abu Ghraib seriam só mais um dia no escritório em 24 Horas, aqui são vistos como constrangedores fracassos dos Estados Unidos no combate ao terror.

A premissa não é menos incendiária. Na história, a agente da CIA Carrie Mathison descobre que um militar norte-americano não-identificado teria se convertido à al-Qaeda. Curiosamente, a info vem à tona no mesmo período em que o sargento da Marinha Nicholas Brody é resgatado no Iraque após 8 anos de cativeiro. Recebido com glórias na volta pra casa, Brody vira uma espécie de ícone midiático, uma reafirmação da fé no sonho americano - que logo é capitalizada politicamente, afinal, o Salão Oval é logo ali. Carrie por sua vez, mergulha numa cruzada pessoal para saber se Brody foi corrompido. Na maior parte tempo, ela opera abaixo do radar e ninguém compartilha de suas suspeitas. Nem mesmo eventuais colaboradores, como seu mentor, Saul Berenson.
Homeland é baseada na série israelense Hatufim (aka Prisoners of War) e desenvolvida por Howard Gordon e Alex Gansa. A dinâmica é de um tenso thriller psicológico. Nada de ação vertiginosa e perseguições mirabolantes. Ganha quem tem mais bom senso, sutileza e capacidade para saber quando recuar. E apesar de não ter o body count insano de 24, a narrativa é igualmente impiedosa. Não por acaso, Gansa foi um dos roteiristas do 7º dia mais punk da vida de Jack Bauer.
A série tem um cast fantástico. Particularmente, acompanho a carreira de Claire Danes desde a bacanuda Minha Vida de Cão (série de drama teen: um dia todo mundo assistiu uma) e, desde então, ela nunca parou de evoluir. Carrie é um formidável desafio pra qualquer atriz que tem amor à profissão. Corajosa, intensa e tão cerebral quanto impulsiva - isso pra não citar seu pequeno segredo que deixa o cenário ainda mais complexo. Danes administra todas essas nuances de forma magistral.
Damian Lewis por sua vez está no topo da forma. E teve um belo laboratório para compor o sargento Brody. Na extinta série Life ele fazia um policial que passou 12 anos em cana por um crime que não cometeu e sentia na pele as agruras da ressocialização. Sua atuação não podia ser mais impressionante. Especialmente nas cenas em que Brody é colocado em situações-limite, o que rende sequências antológicas.

Não surpreende que tanto Danes quanto Lewis tenham sido indicados ao Globo de Ouro 2012. Merecidíssimo. No entanto, o melhor em cena na minha opinião é o veterano Mandy Patinkin, como Saul. Político e racional, ele é profundo conhecedor do sistema e o único que sabe como controlar e filtrar os extremos de Carrie, sua mais talentosa protégé. O tom paternal adotado pelo ator funciona até mesmo durante as cenas de interrogatório. Um bom exemplo é o sétimo episódio, onde ele escolta uma suspeita do México até Langley e faz uma pequena trip pessoal enquanto ganha a confiança da prisioneira.
É na relação dele com Carrie que fica evidente o grande trunfo da série: a química entre os atores.
A afinidade cênica entre Danes e Patinkin é algo que saltou aos olhos logo na première. Em contrapartida, a relação entre Lewis e Morgan Saylor, que interpreta a filha adolescente de Brody, foi uma grata surpresa construída lentamente ao longo dos episódios - e que pontua nada menos que o clímax do season finale numa sequência arrasadora de mandar legiões de cardíacos direto pro IML.
O elenco secundário também é afiadíssimo. É bom ver que a carioca Morena Baccarin não ficou chorando as pitangas após o cancelamento da fraca V. Aqui ela faz a esposa de Brody, a ex-viúva Jessica. Está mais linda do que nunca, by the way.
David Harewood está ótimo como David Estes, chefe de Carrie e um tremendo carreirista pé-no-saco, bem como Jamey Sheridan como o Vice-Presidente dos EUA (um retrato assustador do pensamento republicano) e o excelente ator iraniano Navid Negahban, como Abu Nazir, um dos líderes da al-Qaeda e o captor de Brody.
Não sei se será a série que substituirá 24 Horas, mas até aqui tem sido um paliativo de primeira linha. Homeland foi renovada para mais uma temporada de doze episódios. E a julgar pelo cliffhanger deixado no ar, será imperdível.
Cotação: