O anúncio foi feito,
não adianta espernear.
E vai se acostumando, pois a coisa deve ir longe.
"Sim, Comissário. É o Batman."
Grandes estúdios não têm o hábito de plantar trollagens em escala global sobre seus projetos mais aguardados. Sendo assim, vamos destrinchar um pouco melhor essa porrada que você tomou quando abriu seu browser naquela manhã de sexta-feira (que não era 13, mas era 23).
O projeto do
crossover cinematográfico do
Batman com o
Superman não é novo.
Há pelo menos 10 anos vem sendo ruminado pela Warner, mesmo antes do
boom super-heróico via Marvel Studios. Mas sempre retornava à gaveta, talvez pela falta de precedentes de um universo integrado dos quadrinhos no cinema. O mais perto que chegaram foi em 2002, num projeto que seria dirigido por Wolfgang Petersen (
Mar em Fúria) e que acabou não saindo do papel - felizmente, visto que o
script era uma trasheira de grosso calibre.
Mesmo o enorme sucesso da trilogia do Batman de
Christopher Nolan não parecia animar os executivos a apostarem numa série de franquias interligadas. Mas os filmes da Marvel chegaram e mudaram as regras. Foi um sinal verde para a Warner e até para a Fox, que já quer os
X-Men coexistindo com o Quarteto Fantástico no cinema.
Parafraseando Marcelo Rezende, corta pra 2013:
Ben Affleck como o novo Batman já é o maior meme ligado à adaptações de HQs dos últimos anos. Fazia tempo que um filme em pré-produção não gerava tanto feedback - a esmagadora maioria negativa (71% dos
tweets, desde a
última medição), num consenso que reconhece a trajetória ascendente de Affleck como cineasta, mas que ainda não o livra da condicional por ter protagonizado
Demolidor - O Homem Sem Medo em 2003.
É injusto dizer que foi culpa exclusiva dele o fato dessa adaptação ter sido decepcionante. Mas teve a sua parcela...
Em geral, as vozes a favor defendem sua evolução como ator e/ou condenam veementemente a expressão de opiniões sobre algo que ainda nem saiu do papel. Mas dedução e especulação são habilidades desenvolvidas pelo ser humano ao longo de milhares de anos de evolução. Não vamos reprimi-las agora, não é?
Primeiro os
contras.
A contratação de Affleck representa não apenas um enorme retrocesso no programa de adaptações cinematográficas da DC, mas principalmente, revela que os executivos da Warner
ainda não compreenderam o fenômeno. Herói com um rosto conhecido do grande público? Não há necessidade disso e talvez nunca houve. O público que irá lotar as primeiras sessões será o mesmo que compra os quadrinhos religiosamente há anos e o mesmo que espalhará a palavra aos 4 cantos da internet. Simples assim. Essa estratégia de "rostos familiares" como chamariz de público leigo deve ser relegada ao núcleo coadjuvante, como foi feito em
O Homem de Aço - e penso agora que a escolha de Henry Cavill deveu-se mais à influência de Christopher Nolan que qualquer outra coisa.
Talvez a ideia seja fabricar um novo Robert Downey Jr. que conduzirá a DC à terra prometida de Hollywood. Mas parece que esqueceram que Downey Jr. foi cozinhado em fogo brando nos dois longas que precederam
Os Vingadores e, principalmente, esqueceram quem ele era antes de vestir a armadura do Homem de Ferro. Uma dica: não era um mega-star.
O fim da trilogia "realista" do Batman também marca o início do grandioso UDC nas telonas. Isso não é pouco. Estamos num daqueles momentos-chave, onde novos conceitos e abordagens têm que ser explorados. E o morcego, com perdão do trocadilho, precisa de sangue novo. Não de um
déjà vu.
Há uma sensação muito forte de que Ben Affleck
não é Bruce Wayne. Nunca imaginei o sr. Wayne com a cara do Christian Bale também, mas, além de ser um ator diferenciado, Bale emergia de um
background sombrio, perturbador e visceral, construído com performances memoráveis em filmes como
Psicopata Americano e
O Operário. Em outras palavras, não deu certo por acidente. Bale já estava com um pé no velho poço abandonado.
Também foi escrito por aí,
ad nauseum:
"A escolha de Heath Ledger para o papel do Coringa também foi duramente criticada na época e antes ele era o cara de '10 Coisas que eu Odeio em Você'".
Primeiro, as reações nem chegaram ao calcanhar do Bat-Affleck. Segundo, o Coringa é um passe livre para a anarquia, do tipo
do-or-die/tá-com-medo-pra-quê-veio, sem meio-termo, um
presente pra qualquer ator com sede de improvisação. Já o Batman é outra viagem, completamente oposta em tom, atitude e racionalização.
Quanto à
10 Coisas, uma comédia inofensiva, foi o pior argumento usado até agora. Afinal, até James Cameron carregou piano.
Também tem a variação piorada:
"...antes ele era o cowboy boiola de 'Brokeback Mountain'".
O que, ao meu ver, é um grande elogio. Ledger, que já tinha impressionado em
Os Reis de Dogtown, demonstrou ali o reflexo de um ator comprometido com a arte, ciente do papel e da dimensão de sua profissão e sem medo de desafios. Ou seja, a escolha só revoltou neófitos mesmo. Definitivamente, o Ledger-Coringa não é o parâmetro para essa comparação. Pelo menos não numa conversa séria.
Mas o maior problema é que Ben Affleck (ainda) parece um garotão boa-praça. Não vejo amargura, obsessão, rancor ou austeridade no seu olhar. Não consigo vê-lo dando esporro no "Clark" e enfiando lições de vigilantismo cinza-fascistóide naquela mentalidade pacata do Kansas.
Os
prós?
Affleck de fato evoluiu como ator na última década. Nada estratosférico, apenas o suficiente para transitar pela tela discretamente e não cimentar os personagens em seus próprios maneirismos. Inclusive aprendeu até a dissimular tensão e seriedade de forma natural e convincente.
"Sr. Wayne, seu projeto de pesquisas está pronto." - "Obrigado, Lucius."
A maioria das críticas lembra de sua atuação como o Demolidor, pela semelhança óbvia de ser outro vigilante noturno dos gibis. Mas esquecem seu eficiente desempenho na pele do agente
Jack Ryan, no
thriller A Soma de Todos os Medos (2002), sucedendo ninguém menos que Alec Baldwin e Harrison Ford. Foi um dos melhores laboratórios que um ator poderia ter feito para o papel de Bruce Wayne/Batman. Espionagem, conspirações nos altos escalões do governo e
deadlines dramáticas dividindo espaço com intensas sequências de ação - parece mesmo um dia no escritório do cruzado encapuzado.
Mas o mais importante é que Affleck transmitia credibilidade no papel. Sim, ainda soava como um novato, porém, um talentoso, confiável e obstinado. E com segurança o suficiente para duelar com gigantes do porte de Morgan Freeman, James Cromwell e Ciarán Hinds. A longeva aura de
californian boy foi quase totalmente apagada.
Isso foi há onze anos - curiosamente, um ano antes de
Demolidor. Se o Batman de Affleck for mais Jack Ryan e menos Matt Murdock, já é um começo.
Talvez o melhor aspecto dessa improvável parceria seja as ramificações do misterioso contrato. Os burburinhos dos sites de cinema dizem que o acordo é multifranqueado. Affleck se tornaria assim o responsável pelos próximos longas do Batman no cinema. Um acordão.
É inegável que Affleck se tornou um cineasta muito interessante. E não é de hoje: já em sua estréia na direção, no bom
Medo da Verdade (2007), ele impressionou com uma construção sólida e um
storytelling seco, sem perfumarias. Aliás, o crescendo atmosférico é das suas melhores características. Ele não tem pressa e valoriza o
build up, ao contrário do estilo recortadinho de Nolan. Outro destaque é a sua estratégia de deixar os atores bem à vontade e com bastante espaço para trabalhar, mostrando que ele viu com atenção os filmes dirigidos pelo Clint Eastwood.
Sem dúvida, é um diretor cuja visão do Batman eu gostaria muito de conferir. Mas, pesando os prós e os contras do que sei sobre o
dossiê Affleck, não diria que foi uma boa escolha como o ator que envergará o manto. Ainda mais com tantos candidatos em que a carapuça (ou a capa) cairia mais naturalmente. Aquele lance da afinidade com o lado negro, saca.
Enfim, coisas da Warner, como sempre. E tome o
vídeo do Kevin Smith de novo.
Aliás...
...fico só imaginando o que Holden acharia disso.
Ps: Ok, ok, Bryan Cranston como Lex Luthor foi bola dentro...