domingo, 7 de julho de 2024

Good Golly Miss Waller

Tema de abertura da série Suicide Squad ISEKAI naquela pegada dark pop animê (Death Note, Demon Slayer). Já o tema de encerramento... é um disparo cavalar de JAPÃO na aorta.

Confira comigo a Amanda Waller's Bizarre Adventure na marca dos 1:30.


Isso precisava existir em algum ponto da história humana.

Suicide Squad ISEKAI está em seu 4º episódio (de dez) dessa primeira temporada – no Japão, ainda está no 1º ep., veja só que sacanagem com os meninos. Farei tudo o que estiver em meu alcance para assistir a bagaça com as vozes japonesas. Do contrário, seria uma falha de caráter da minha parte.

Com isso, creio que já cobrimos tudo que precisávamos sobre a Ms. Waller.

Ou estou enganado?


Agora sim, case closed.

(e não veria isso sozinho nem por todo o whisky da Escócia, obrigado)

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Jerry & Joe, Joe & Jack


Que Jerry Siegel e Joe Shuster comeram o pão que a DC amassou por causa do Superman, todo mundo sabe. A pindaíba da dupla foi nervosa: Siegel, a esposa e a bebê passavam fome num apartamento minúsculo sob constantes ameaças de despejo e Shuster, quase cego e sem condições de desenhar, dormia em bancos de praça. Já a DC, bem... Superman tinha vendas mensais estimadas em mais de 1 milhão de exemplares na época em que os dois foram demitidos.

Eventualmente (e por intermédio de Neal Adams), a editora do Detetive resolveu levar à dupla alguma justiça, ainda que tardia e irrisória. Mas durante aquele meio-tempo, só restava a Siegel fazer o que sabia melhor, escrever. E muito. E com raiva, muita raiva. Ele escreveu inúmeras cartas diretamente para a DC descascando a editora e seus diretores.

Hoje em dia, Jerry Siegel seria infernal nas redes sociais.

Escavando ao acaso pelo site-lojão MyComicShop, topei com algumas dessas correspondências à venda. Uma delas é a notória "Maldição de Natal" que Siegel enviou para Paul Sampliner, fundador da distribuidora Independent News Co., braço da National Periodical Publications, do grupo DC.


O que, decodificado pelo Google Translator e copydeskado pelo escriba da casa, seria algo como:

“Paul: Pode aumentar a alegria de sua festa de Natal saber que terei que ir para o Relief.* — Enquanto você ganha milhões com as minhas criações... — Você não me daria a chance de escrever novamente e ter uma vida decente. — Ao se apropriar do SUPERBOY, você me destruiu. — Mas todo mundo sabe como você recompensou o criador de SUPERMAN e SUPERBOY por ajudá-lo a fundar seu império de quadrinhos. — Você pode ver o que eles realmente pensam de você, não nas palavras deles, mas no que eles NÃO dizem... e nos olhos deles. — Eles sabem que você me destruiu por lucro e que não está oferecendo ajuda à minha família para que possamos sobreviver. — Como você pode usufruir suas conquistas, sabendo que elas estão sendo construídas sobre a minha carreira destruída? O DINHEIRO vale isso? Quando você enfrentar seu criador, ele aceitará as letras miúdas dos ‘#legalismos’ de seu advogado? Você está preocupado com sua alma imortal? — Quando você come, bebe e tem abrigo, lembre-se de que o homem que você destruiu enfrenta a pobreza. — Quando você comemorar na sua Festa de Natal, lembre-se que estarei lá em espírito, olhando para você, caminhando ao seu lado e perguntando: — POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COM OUTRO SER HUMANO? — POR QUE VOCÊ ESTÁ ME FORÇANDO A IR AO RELIEF? — ENQUANTO EU VIVER, E DEPOIS, ASSOMBRAREI VOCÊ E OS SEUS. DIANTE DE DEUS, COLOCO UMA MALDIÇÃO SOBRE VOCÊ. — Jerry Siegel”
* um dos programas sociais do governo americano.

Outra missiva era uma singela lembrança a Jack Liebowitz, fundador da National/DC Comics, pelo casamento de sua filha. Nos dias atuais, uma medida protetiva e um processo por stalking seriam certos.

“Querido Jack: Congratulações pelo noivado de sua filha Linda Ann com Ronnie Stillman de University Heights, Cleveland. — UMA VEZ, morei em University Heights, Cleveland, em uma bela casa, até que uma injustiça podre arruinou a minha vida e a minha carreira. — Sinceramente, Jerry Siegel — Criador do SUPERMAN”

Mas a carta mais surpreendente, sem dúvida, veio dos geniais Jack Kirby e Joe Simon... em apoio à DC contra o malévolo Jerry Siegel!

“Prezado Sr. Liebowitz: Foi com um sentimento de profundo desgosto e vergonha que lemos a literatura malévola publicada por um antigo contemporâneo, Jerry Siegel. — Tendo sido anteriormente associados à sua organização em uma capacidade semelhante, sentimos que é nosso dever desmentir uma exibição tão chocante e indecente e assegurar-lhe que as opiniões mordazes do Sr. Siegel certamente não são compartilhadas por ninguém da antiga equipe da D.C. Estamos em contato com todos eles e eles estão tão indignados quanto nós com a injustiça deste ataque. — Tenha certeza de que sua justiça e generosidade, especialmente durante os anos de serviço de guerra, embora obviamente perdidas pelo Sr. Siegel, não foram esquecidas por aqueles que conhecem a verdade. — Sinceramente, Joe Simon e Jack Kirby”

Lembrando que, nesse período (circa 1951), Kirby e Simon estavam nadando em dinheiro com os quadrinhos românticos que faziam para a Crestwood Publications. Só as revistas Young Romance e a spin-off Young Love, juntas, vendiam dois milhões de cópias/mês.

Seis anos depois, porém, o próprio Kirby passaria a sentir o que sentia Jerry Siegel.

Instant karma é isso aí. Felizmente, quem é Rei...

domingo, 30 de junho de 2024

Homens de boa fortuna


Em 1995, Neil Gaiman foi convidado pelo The Comics Journal para entrevistar os irmãos Jaime e Gilbert Hernandez. E conversaram muito sobre rock & roll, filmes, mulheres e, lógico, sobre os quadrinhos dos três e dos outros. A coisa começa com o ex-jornalista entrevistando seus ídolos, mas logo o fluxo se inverte (“Virou ‘a entrevista de Neil Gaiman’”) e, em seguida, emenda num papo delicioso de pub enfumaçado fora de qualquer script. É sensacional.

A Veneta – a casa atual dos irmãos Hernandez no Brasil – resgatou esse momento ímpar em outubro do ano passado numa bela edição física. Que, advinha, perdi na época. Felizmente, a editora disponibilizou esse material em seu site pelo módico preço de R$ 0,00.

"Comprei" há uma semana e já reli três vezes. Recomendadíssimo. Melhor custo-benefício de todos.

Pra fechar, cacei uma imagem registrando o encontro do trio por toda parte e em todos os perfis (incluindo o da Carol Kovinick, fotógrafa da entrevista e esposa do Gilbert), sem sucesso. Então, vai uma foto do Neil lendo o Jaime, retirada do perfil dele no Facebook.


Gaiman com cara de “como é que esse chicano caladão tem essas mulheres incríveis vivendo na cabeça dele?”

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Nosferatu de Henrik Galeen

Nosferatu parece trazer um Robert Eggers diferente de tudo o que ele mostrou até aqui. Ou talvez seja o trailer aplicando um corta-luz em quem esperava drops atmosféricos de slow burn.


Produção suntuosa, tomadas épicas, cenografia lindamente gótica, trilha histriônica na veia da velha Hammer. Um grande exercício de estilo, como Drácula de Bram Stoker foi há 32 anos.

Plus, as filmagens foram na República Tcheca, como convém, o tétrico Conde Orlok é personificado pelo Bill Skarsgård e o lançamento será em pleno Natal. Tudo muito promissor.

O clássico expressionista alemão está em boas mãos garras. Mas nada que ameace o reinado da melhor releitura de Nosferatu já feita.

Irônico ver o Willem Dafoe retornando aos domínios nosferatescos, só que desta vez do outro lado das presas...

domingo, 23 de junho de 2024

Departamento de antigos Devaneios


Realizado, falido e felizaço-aço aqui nas catacumbas. Só queria espalhar isso aos quatro ventos.

Câmbio, desligo.

Ps: como diria o Columbo, só mais uma coisa: FINALMENTE.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

A águia voou


Donald McNichol Sutherland
(1935 - 2024)

Se foi o Donald Sutherland. Ficam a lenda, a obra fantástica, o senso de humor inabalável e a cara de pau inacreditável que exibia nas entrevistas e aparições públicas. Sutherland não era só grande, era gigante como a vida.

A eulogia escrita por seu filho Kiefer, além de poderosa e tocante, cunha uma sentença que define a carreira do homem:
Nunca se deixou intimidar por um papel, seja bom, mal ou feio.
Ele interpretou de tudo mesmo. Em 65 anos de profissão, nunca se deixou apanhar pelo typecasting. Nada mais foi preciso, apenas o seu incondicional amor à arte.

Não que seja algo que já não faça há eras, mas a hora é de homenagens e de umas Sessões Donald Sutherland. Não podem faltar os hits Inverno de Sangue em Veneza, Klute - O Passado Condena, Casanova de Fellini, A Águia Pousou, Os Doze Condenados, M*A*S*H, O Buraco da Agulha e, lógico, Os Invasores de Corpos. Só filmaços, impressionante. E o melhor de tudo, não são nem a ponta do iceberg.

Thank you for everything, Mr. Sutherland

A Saga do Surfista Cromado


Houve um tempo em que perfumarias em gibis eram raridade. Coisas como hot stamp dourado/metalizado, reserva de verniz, capas em acetato e afins passavam longe das mentes (e orçamentos) das editoras. Quando vinham, eram como um merecido afago no fiel leitor. Mas mesmo com todo o deslumbre e boa vontade, foi difícil identificar o que era aquela massaroca cromada à frente do Thanos na capa de Superaventuras Marvel #153, da Abril Jovem (março/1995). Não reconheci o Surfista Prateado nem de 1ª, nem de 2ª. E ainda hoje tenho que me lembrar do que se trata quando olho pra ela.

É triste a comparação com a The Silver Surfer #50 original (junho/1991). A gringa tinha uma capa laminada com relevo simples-pero-eficiente em cima da arte do Ron Lim. Já a nossa queridona e saudosa SAM, até trazia um relevinho, mas usava aquele filme com efeito holográfico, o BOPP (polipropileno biorientado). Isso deixou a textura do Surfista muito uniforme e que, depois, foi "melhorada" com uns retoques/riscos feitos pelos artistas da redação. E ainda ficou caolho.

De todo modo, fazer os recortes no logo e no corner box do gibi deve ter sido um teste de paciência e perseverança. O Jotapê já comentou algumas vezes como era complicado fazer qualquer brincadeira nas edições, pois o departamento de arte e as gráficas simplesmente não acompanhavam. Deve ter sido uma loucura nos bastidores para acertar essa arte de capa e com aquela tiragem ainda enorme para os padrões atuais. O Claudio Carina, então editor da SAM (hoje, diretor da Wordplay Serviços de Tradução), deve lembrar bem desse gibi. Mesmo que na forma de TEPT.

Sendo justo, mesmo lá fora o projeto não foi exatamente uma uva. Na prensagem, choveram erros de laminação – todos superfaturados como $ouvenirs, lógico. Esses caras são mestres na arte da limonada.

Tenho um fraco por esses mimos. Durante um período, eles saíram bastante por aqui. Minha massaveística Super-Homem Versus Apocalypse: A Revanche reluz num canto da estante até hoje. E me arrependo de ter passado pra frente as edições de O Reino do Amanhã, da Abril.

Nada que se compare à enxurrada de capas metalizadas publicadas lá fora, contudo.



Claro, existe sempre a possibilidade de meter a mão nas HQs antigas e aplicar aquele do it yourself maroto.


Mas aí já é nível Nerdmaster Ômega.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Entre morcegos e lobos


Que leitura. Batman: Gritos na Noite é considerada uma das histórias mais pesadas do Cruzado Encapuzado. E, adivinha, é pesada mesmo. Nem foi necessário recorrer ao Coringa, ao Duas-Caras, ao Espantalho ou qualquer residente do Arkham. Só precisou do elemento humano, no seu mais errático, imperfeito e trágico. Figurinhas tão triviais quanto o colega de trabalho, o vizinho que acena, o parente próximo. E isso é assustador.

O roteiro é do lendário Archie Goodwin, que co-argumentou a premissa com o artista Scott Hampton (Lúcifer, Deuses Americanos). A trama gira em torno de chacinas brutais de famílias de Gotham City, uma nova e poderosa droga que está agitando as ruas e casos de abuso infantil. Temas sombrios por natureza, nunca abordados de forma tão nevrálgica num quadrinho mainstream. Eu, pelo menos, nunca vi.

Lá fora, Gritos na Noite saiu em outubro de 1992. Foi publicada aqui pouco depois, pela Abril, em dezembro de 1993. E foi publicada novamente pela Panini no finzinho do ano passado, exatos 30 anos depois. Acompanhei essa cronologia in loco. Velho é pouco. Mas meu 1º contato não foi dos melhores: na época, achei a história arrastada, a arte muito escura e um tom geral de "quadrinho adulto" que não apeteciam aquele leitor espinhento viúvo de Heróis da TV. Pérolas aos porcos, é o que dizem.

Precisei desses 30 anos – mais seis meses até tirar do plástico (as páginas do bendito couché já começavam a colar) – para adquirir o cabedal necessário para apreciar a graphic com propriedade. Trata-se de uma obra sui generis, perturbadora, atual e necessária.


A arte aquarelada e suja de Hampton é o coração da HQ. O artista trabalha em diferentes tons escuros conferindo uma sensação opressiva, pesarosa e desesperadora à narrativa. É incrível como uma história que investiga a escuridão da alma humana tenha acertado tanto na escolha de seu artista.

A Gotham de Scott Hampton é apavorante. Parece situada n'alguma dimensão fantasmagórica, trevosa e obscura, como o Outro Mundo (Silent Hill) ou o Mundo Invertido (Stranger Things). Ou, melhor ainda, no Umbral.

Como ele mesmo chegou a brincar:
“No que me diz respeito, ninguém em Gotham City tem nada superior a uma lâmpada de 20 watts.”

Definição melhor, impossível.

O contraste entre as cenas escuras e as cenas claras também é espetacular. Literalmente uma supernova direto no olho logo após um longo blecaute.

É uma leitura que demanda tempo e atenção. Não foram poucas as vezes em que precisei acostumar a retina até capturar tudo o que estava acontecendo num quadro.


Assim como não foram poucas as vezes em que achei que havia algo e era apenas a transparência de algum balão na página de trás. Duh.

Sabiamente, Hampton evita qualquer traço de virtuosismo, o que cortaria a sua fina sintonia com a trama. Ainda assim, em vários momentos, acaba lembrando uma cruza dos mestres John J Muth e Richard Corben. O que não é nada mal para um autodidata confesso.

Mesmo esse evidente compromisso com o espírito da história rende cenas que são um convite a uma bela moldura.


Bons tempos em que isso era mais valorizado

Nunca vi um Bruce Wayne no papel do playboy-filantropo-bon vivant tão soturno, tão pouco à vontade, tão Batman. E Jim Gordon, ainda imundo das ruas em suas primeiras horas como Comissário, é o protagonista moral aqui. Complexo, obstinado, falho e, novamente, humano.

Gritos na Noite justifica o título. É um thriller psicológico barra pesadíssima que bem poderia ter sido a fonte de consultas para David Fincher em Se7en (1995). Especialmente fortes são as duas sequências das páginas 51–55, inesperadas para um comic book e difíceis de ler, nauseando o leitor com uma impotência que remete aos próprios personagens. É um quadrinho que te traga para dentro, gostando ou não.

A conclusão, inevitavelmente pós-traumática, sugere até certa natureza elseworld, à Piada Mortal. Algo para refletir.

Difícil saber onde estavam as mentes dos quadrinistas quando escreveram a história. Hampton costuma dizer que é uma HQ muito pessoal, seja lá o que isso quer dizer.

E o veterano Archie Goodwin, falecido em 1998, trabalhou nas revistas Creepy e Eerie na década de 1960, foi editor da Epic Illustrated e, depois, do selo Epic, na Marvel, por dez anos. Estava acostumado com temáticas hardcore e mundo cão, mas nada assim.

A única coisa que sei é que o Batman era seu personagem predileto da DC. E talvez isso tenha sido o suficiente.