Que leitura.
Batman: Gritos na Noite é considerada uma das histórias mais pesadas do Cruzado Encapuzado. E, adivinha, é pesada mesmo. Nem foi necessário recorrer ao Coringa, ao Duas-Caras, ao Espantalho ou qualquer residente do Arkham. Só precisou do elemento humano, no seu mais errático, imperfeito e trágico. Figurinhas tão triviais quanto o colega de trabalho, o vizinho que acena, o parente próximo. E isso é assustador.
O roteiro é do lendário
Archie Goodwin, que co-argumentou a premissa com o artista
Scott Hampton (
Lúcifer,
Deuses Americanos). A trama gira em torno de chacinas brutais de famílias de Gotham City, uma nova e poderosa droga que está agitando as ruas e casos de abuso infantil. Temas sombrios por natureza, nunca abordados de forma tão nevrálgica num quadrinho mainstream. Eu, pelo menos, nunca vi.
Lá fora,
Gritos na Noite saiu em outubro de 1992. Foi publicada aqui pouco depois, pela Abril, em dezembro de 1993. E foi publicada novamente pela
Panini no finzinho do ano passado, exatos 30 anos depois. Acompanhei essa cronologia
in loco. Velho é pouco. Mas meu 1º contato não foi dos melhores: na época, achei a história arrastada, a arte muito escura e um tom geral de "quadrinho adulto" que não apeteciam aquele leitor espinhento viúvo de
Heróis da TV. Pérolas aos porcos, é o que dizem.
Precisei desses 30 anos – mais seis meses até tirar do plástico (as páginas do
bendito couché já começavam a colar) – para adquirir o cabedal necessário para apreciar a graphic com propriedade. Trata-se de uma obra sui generis, perturbadora, atual e necessária.
A arte aquarelada e suja de Hampton é o coração da HQ. O artista trabalha em diferentes tons escuros conferindo uma sensação opressiva, pesarosa e desesperadora à narrativa. É incrível como uma história que investiga a escuridão da alma humana tenha acertado tanto na escolha de seu artista.
A Gotham de Scott Hampton é apavorante. Parece situada n'alguma dimensão fantasmagórica, trevosa e obscura, como o Outro Mundo (
Silent Hill) ou o Mundo Invertido (
Stranger Things). Ou, melhor ainda, no
Umbral.
Como ele mesmo chegou a brincar:
“No que me diz respeito, ninguém em Gotham City tem nada superior a uma lâmpada de 20 watts.”
Definição melhor, impossível.
O contraste entre as cenas escuras e as cenas claras também é espetacular. Literalmente uma supernova direto no olho logo após um longo blecaute.
É uma leitura que demanda tempo e atenção. Não foram poucas as vezes em que precisei acostumar a retina até capturar tudo o que estava acontecendo num quadro.
Assim como não foram poucas as vezes em que achei que havia algo e era apenas a transparência de algum balão na página de trás.
Duh.
Sabiamente, Hampton evita qualquer traço de virtuosismo, o que cortaria a sua fina sintonia com a trama. Ainda assim, em vários momentos, acaba lembrando uma cruza dos mestres John J Muth e Richard Corben. O que não é nada mal para um autodidata confesso.
Mesmo esse evidente compromisso com o espírito da história rende cenas que são um convite a uma bela moldura.
Nunca vi um
Bruce Wayne no papel do playboy-filantropo-
bon vivant tão soturno, tão pouco à vontade, tão Batman. E
Jim Gordon, ainda imundo das ruas em suas primeiras horas como Comissário, é o protagonista moral aqui. Complexo, obstinado, falho e, novamente, humano.
Gritos na Noite justifica o título. É um thriller psicológico barra pesadíssima que bem poderia ter sido a fonte de consultas para David Fincher em
Se7en (1995). Especialmente fortes são as duas sequências das páginas 51–55, inesperadas para um
comic book e difíceis de ler, nauseando o leitor com uma impotência que remete aos próprios personagens. É um quadrinho que te traga para dentro, gostando ou não.
A conclusão, inevitavelmente pós-traumática, sugere até certa natureza
elseworld, à Piada Mortal. Algo para refletir.
Difícil saber onde estavam as mentes dos quadrinistas quando escreveram a história. Hampton costuma dizer que é uma
HQ muito pessoal, seja lá o que isso quer dizer.
E o veterano Archie Goodwin, falecido em 1998, trabalhou nas revistas
Creepy e
Eerie na década de 1960, foi editor da
Epic Illustrated e, depois, do selo Epic, na Marvel, por dez anos. Estava acostumado com temáticas hardcore e mundo cão, mas nada assim.
A única coisa que sei é que o Batman era seu
personagem predileto da DC. E talvez isso tenha sido o suficiente.