quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Zombie de Ouro 2012


2012 até que foi um ano de lançamentos interessantes. Vários veteranos voltaram aos estúdios - Aerosmith, Van Halen, Rush, ZZ Top - e muitos grupos apostaram em guinadas de estilo. Da cultura undergound, com seus guetos ultrassegmentados, ouvi pouca coisa digna de nota, incluindo trabalhos de gente geralmente boa, o que é uma pena. Nesse ponto, 2011 foi muito melhor e mais produtivo.

No obituário anual (ê fixação mórbida), alguns dos meus velhos heróis fizeram suas passagens: Levon Helm (The Band), Ronnie Montrose (Montrose), Jon Lord e, quase na saideira, Mike Scaccia (Ministry, Rigor Mortis). Até que foram poucos na escala de um ano, embora Jon Lord, para mim, tenha sido algo do tipo "o-fim-de-uma-Era", Dio's style. Não dá pra esquecer.

O cinemão pop teve um ano bem agitado: Os Vingadores, O Espetacular Homem-Aranha, MIB³ - Homens de Preto 3, Jogos Vorazes, 007 - Operação Skyfall, o conturbado Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e dá-lhe mainstream superaquecido. Particularmente, o que mais me surpreendeu positivamente foi Prometheus, de Ridley Scott.

Segue então o Zombie de Ouro 2012, pós-apocalíptico, sem ordem de preferência - ou quase - e com uns bônus extra-musicais na reta final. Filtrei o máximo que pude para tornar possível a publicação disso antes do Big Crunch. Então só entrou o filé. Material "bom" ficou de fora. Simbora, gente.


Melhores discos do ano


Sem entrar no mérito sobre quem é melhor, Sammy Hagar ou David Lee Roth (gosto do Sammy, mas Lee Roth é um outro nível), é um imenso prazer ver o Van Halen com o irmão pródigo de volta. E em grande forma, já que Different Kind of Truth é um ótimo, quase excelente, álbum de retorno. As músicas reeditam aquela mesma vibe divertida (e atemporal) dos primeiros discos, o timbre da voz de Roth continua assombrosamente o mesmo de 1984, a guitarra incendiária de Eddie ainda reina suprema e o bom humor finalmente retornou à banda. Pena que o baixista Michael Anthony não quis participar da festa. Mas o mancebo Wolfgang, filho do Eddie, fez o dever de casa direitinho e mandou bem nas quatro cordas. Ê guri sortudo...



Há anos o quinteto sueco Meshuggah vem desenvolvendo uma musicalidade abrasiva, intrincada e anticonvencional - e sobretudo difícil de digerir. O rótulo "metal experimental" é vago, mas certeiro. Ouvir um álbum do grupo é como mergulhar na bad trip de um estranho. Poucos conseguem chegar até o final, mas o clube seleto dos que conseguiram conta com admiradores do porte de Al Jourgensen e Mike Patton. Eu achava que eles já tinham atingindo seu ponto de efervescência há algum tempo atrás, em discos como Catch Thirtythree (2005) e obZen (2008). Ledo engano. Koloss - apenas o seu 7º álbum em mais de 25 anos de estrada - mostra que ainda há muito o que perfurar até que o grupo atinja seu núcleo sonoro. Brutal e genial de um modo bizarro.



Família e metal extremo geralmente rendem bons frutos. Max e Iggor Cavalera (Sepultura) e John e Donald Tardy (Obituary) são dois exemplos clássicos. E Joe (vocal/guitarra) e Mario Duplantier (bateria), do Gojira, são uns dos melhores exemplos recentes. Quatro anos depois do excelente The Way of All Flesh, o grupo francês volta à carga com L'Enfant Sauvage e cumpre a difícil missão de não apenas manter o nível, mas principalmente evoluir a sua visão musical. Em essência, a sonoridade é aquele choque entre technical death metal e groove metal, mas apenas em uma forma básica, vestigial. O Gojira há muito transcendeu categorizações. E seu status atual é acima de tudo intrigante. Só não vou chamar de "obra-prima" porque o próximo pode ser ainda melhor. Mas bem que merecia.



Habituados a hiatos discográficos, digamos, "progressivos", o Rush acaba gerando certa expectativa sobre o que trarão em seu próximo disco. Foram cinco anos desde Snakes & Arrows, o que para o m.o. recente deles foi até rápido. Clockwork Angels desenvolve o diálogo que o grupo vinha mantendo com uma sonoridade mais coesa, sintética e dinâmica. O que mais impressiona no trio canadense - e que brota aqui a cada acorde, virada e sessão melódica - é sua capacidade natural de se adaptar a novos padrões de som sem ignorar as informações que incorporou ao longo das décadas. O que se sente em Clockwork Angels é uma banda no auge da maturidade e completamente apaixonada pelo momento que atravessa. Pra mim é um dos grandes álbuns do Rush.



Houve uma época em que Jimmy Cliff era o maior astro vivo do reggae mundial. Com todo o respeito à Peter Tosh e aos Wailers, durante os anos 80 Jimmy era o grande arauto de Jah-lactus na Terra, sem dúvida alguma. Mas após o Rock in Rio 2, em 1991, ele se mudou para o Brasil e simplesmente evaporou do mapa (e da memória). Por isso, Rebirth é um título que soa tão direto quanto justificado. O disco é um renascimento na mais pura acepção da palavra. Produzido - quiçá resgatado - por Tim Armstrong, do Rancid, Jimmy retorna não apenas ao reggae de raiz, mas ao rocksteady jamaicano original. É como um velho mestre que reencontra a perfeição na simplicidade. Um disco fantástico e muito inspirador pela história que traz consigo. De quebra, as rendições a "Guns of Brixton" e "Ruby Soho" (nem precisa dizer qual é de quem) são emocionantes.



Don't Hear It... Fear It!, debut do Admiral Sir Cloudesley Shovell, foi lançado pela Rise Above, tradicional reduto stoner, mas foge um pouco aos padrões do selo. O grupo é um filhote bastardo do hard blues progressivo do início dos 70's, praticado por bandas como Ten Years After, Wishbone Ash e Captain Beyond. Dosagens mastodônticas de space rock e lisergia também dão o tom. Pela descrição, parece um grande shake setentista caótico, mas todos os elementos são colocados para interagir de maneira brilhante. E o "pouco" que foge aos padrões do stoner rock é literal mesmo, já que a dinâmica das músicas é uma verdadeira pedrada, com peso, sujeira e riffs infecciosos que não deixam nada a desejar perto de um Fu Manchu ou de um Orange Goblin. Discaço.



Aqui faço uma réplica a todos que alardearam que Enslaved, do Soulfly, era um retorno aos roots de Max Cavalera (não o Bloody Roots, mas à estética sonora dos velhuscos Morbid Visions/Schizophrenia). Max nunca praticou um som tão nitidamente death metal quanto em Enslaved. Diferente dos primórdios do Sepultura, quando as opções de radicalismo musical eram poucas pra quem não se identificava com o som punk - especialmente na chinelagem brazuca do-it-yourself-te-vira-aí-mermão - agora Max está a milhões de anos-luz daquelas limitações e claramente quis fazer a alegria da torcida. Tirando a intro climática, desta vez não tem lugar pra batuque, telecoteco e ziriguidum. O negócio aqui são evil riffs, solos supersônicos, growl vocals, blast beats e tudo o mais. From hell com gosto. O resultado não poderia ser outro: tô igual pinto no lixo! Eu e todo mundo, aliás.



Em Dark Roots of Earth, o veterano Testament segue firme na curva ascendente que vem mantendo desde... desde muito tempo - do Low pra cá não teve disco ruim e lá se vão 18 anos. A diferença é que o álbum sobe em vários pontos esse padrão e reflete um momento mais ligado às suas raízes no thrash metal americano dos anos 80. A grande façanha foi reconstituir a velha tradição de peso e fúria com a técnica melódica da dupla de guitarristas Alex Skolnick/Eric Peterson sem esquecer que estamos no século 21 (estamos?). Ou seja, nada datado ou revivalista, como muitos grupos da nova geração thrash deveriam aprender. De quebra, tem o grande Gene Hoglan nas baquetas, provavelmente se segurando pra não executar algum blast. Um álbum eficiente e divertido como antigamente, mas calibrado pros dias atuais. Só espero que lancem o sucessor ainda nesta década, pra variar. Ps: a edição especial traz ótimas versões para pérolas do Queen, Scorpions e Iron Maiden.



Home Again, do soulman inglês Michael Kiwanuka, é um disco que me traz sentimentos conflitantes. Sou fascinado pelo funk, soul e r&b norte-americano das décadas de 60 e 70. Wilson Pickett, Sam Cooke, Marvin Gaye, Otis Redding, Aretha Franklin, James Brown... adoro. E apesar de também gostar de algumas coisas atuais, não posso deixar de sentir que a black music (perdoe o estereótipo) está sendo vilipendiada além da conta por hitmakers digitais e por supercantoras umbigocêntricas. O soul hoje está sem alma. Aí aparece esse garoto (24 anos) se embriagando na era de ouro da Stax, Motown e da sua própria gravadora, a Polydor, e produzindo um debut absolutamente refrescante, vibrante e orgânico. Um dos melhores do ano, fácil, e uma das estreias mais brilhantes que já ouvi. Mas aí vem a pegadinha... tudo, desde o timbre e a colocação da voz, os arranjos e os valores de produção remetem a algum ponto dos anos 60. Como se dissesse "está vendo como a música de antigamente era muito melhor?" E realmente. Esse álbum dá um banho em 90% do que é feito hoje na área. O que é uma satisfação. E também uma triste constatação.



Após o excepcional Hisingen Blues, do ano passado, eu achava que o Graveyard havia atingido o seu ponto de perfeição. E ouvindo Lights Out vi que estava certo - por hora. Porém, o hard rock retrô do grupo sueco segue num nível de qualidade estratosférico. Se no álbum anterior eles estavam mais ou menos lá por 1969-1970, ensaiando num estúdio ao lado do Led Zeppelin e do Savoy Brown, em Lights Out eles seguem anos 70 adentro, na estrada com Moody Blues, Grand Funk e Humble Pie. É uma trip fantástica e ao contrário do que essa montanha de referências pode aparentar, tem vida própria e autenticidade. Mais um disco maravilhoso desses meninos. Pena que o termo "Lights Out" ficou só no título mesmo. Uma cover do clássico homônimo do UFO teria tudo a ver ali. Quem sabe na edição japonesa...



Demorou, mas saiu o novo do Witchcraft. Cinco anos após o maravilhoso The Alchemist, a banda sueca emerge com Legend de forma surpreendente. O álbum é marcado por uma daquelas guinadas sonoras que dão uma assustada de cara, mas que alegram logo que a porrada é assimilada. O som passou por um feliz downgrade, incorporando elementos do heavy clássico, com nuances melódicas por vezes remetendo a algumas relíquias da NWOBHM (Holocaust, Demon, Bleak House). Isso tudo mantendo a aura misteriosa e enegrecida de sempre. Várias possibilidades se abrem agora para o escopo musical do Witchcraft - coisa que não aconteceria se ainda estivessem atrelados exclusivamente ao doom metal dos primeiros dias. E palavras não são suficientes para descrever como é bom ouvir a voz de Magnus Pelander novamente. Como canta esse filho da puta!



Quem diria que o Prong um dia faria um back-to-basics tão radical. Carved Into Stone é um álbum para aqueles que nunca tiraram o Beg to Differ de seus CD-players. Tommy Victor deve ter encontrado seu doppelgänger de 1989 e se trancado num estúdio para uma jam dos infernos. As faixas revivem aquele momentum onde o Prong rascunhava sua própria versão do hardcore e do thrash. Nada de climas industriais ou groove metal - no máximo, resíduos fósseis de sua influência básica, o Killing Joke. A capa neanderthalesca e iconográfica com detalhes à Voivod ganha todo sentido quando o som começa a rolar. Resumindo, um disco sensacional e inesperado, vindo de um grupo sempre tão obcecado em delinear o "som do futuro". Referenciando outra pancadaria pronguiana dos primórdios: primitive origins total...



Meio que correndo por fora nos últimos anos, o Therapy? continua lançando álbuns bacanas, como este A Brief Crack of Light. Talvez seja o momento mais experimental e pesado do trio irlandês  desde seus primeiros discos. Por vezes a rifferama violenta chega a lembrar o Prong, mas aí não dá pra saber quem é o ovo e quem é a galinha. Eles também incorporaram um sem-número de micro-informações nos arranjos - tem um baixão à Peter Hook ali, um electro-dub à Scorn acolá e por aí vai - enriquecendo e muito a audição, especialmente nos fones de ouvido. Andy Cairns e sua gangue seguem mandando bem.



Fico muito feliz e surpreso em ver que o trio Stinking Lizaveta ainda está por aí. E com as mesmas idiossincracias que os fazem tão especiais. A proposta musical da banda é pra lá de segmentada: um Black Sabbath instrumental e jazzístico com ocasionais convulsões post-rock. E dá barato, pelo menos pra mim, que os marquei no meu Top 5 de 2007. 7th Direction é distorcido e ultrapesadão como de praxe, mas é um pouco mais acessível que os anteriores, com nuances melódicas menos turbulentas e mais groovy. Mesmo assim, ainda é totalmente fiel ao nome de seu atual selo, Exile on Mainstream. Que continuem desse jeito enquanto houverem boas trincheiras underground.



Conheci o canadense Godspeed You! Black Emperor junto com tudo mundo, durante o filme Extermínio. Mais um pra conta do Danny Boyle, então. O som do grupo é inclassificável. Mistura percussões cacofônicas, loops de tapes, violinos, cellos, guitarras, duas baterias, etc. Tudo executado por nove malucos. As músicas têm em média 15 minutos. E é instrumental. E post-rock. E ambient. E experimental. Alguma coisa. Às vezes passa tranquilo por música incidental. O novo disco 'Allelujah! Don't Bend! Ascend! vem desse mesmo vórtice sonoro e até que não é tão radical assim em comparação com os anteriores. Mas é igualmente fantástico. É som pra embarcar sem horário pra voltar - ou sem garantia de.

Ps: amigo meu costuma correr ouvindo GY!BE no iPod. Ou é maluco ou gosta de pensar que está fugindo de zumbis raivosos enquanto se exercita. O que não deixa de ser um ótimo incentivo!



Sou novato no território sombrio do Melvins. Antes de ouvir este Freak Puke, a única referência que eu tinha é que era banda do Buzz Osbourne (ou King Buzzo), que entre outras coisas foi colega de escola de Kurt Cobain. Mas essa primeira experiência foi das melhores. O conceito da banda é realmente ímpar. Existem coisas aqui que nunca ouvi antes, ao menos não nessa roupagem. O som é uma espécie de sludge metal avant-garde com quedas para o progressivo do bom (os vocais remetem aos primeiros discos do Pink Floyd). Pesado ao extremo, mas também calmo e atmosférico quando se faz necessário. Esse álbum me acertou em cheio - e nem vou falar nada da excepcional versão de "Let Me Roll It", de Paul McCartney & Wings. Acho que vou gostar muito de explorar essa discografia...



Uma coisa que admiro no Phil Anselmo é sua atitude em relação à própria carreira. Seria muito fácil montar um Pantera 2.0 ou mesmo agitar uma reunião meia-boca. Saídas fáceis para todos os lados - todas elas, aposto, ofertadas numa bandeja de ouro pela gravadora. Ao invés disso, o cowboy from hell foi do hardcore (Arson Anthem) ao black metal (Superjoint Ritual) até ao doom/sludge metal com o Down. E se Pepper Keenan (Corrosion of Conformity) e Kirk Windstein (Crowbar) neglicenciaram suas respectivas bandas nos últimos anos, foi por uma boa causa. O Down está cada vez melhor, como atesta esse Down IV Part I – The Purple EP, provavelmente seu momento mais lúgubre e sabbáthico, em detrimento das influências southern rock dos registros anteriores. EPzinho matador. Pena que passa voando, à despeito do estilão arrastado característico.



Psalms for the Dead marca o fim da era Robert Lowe no Candlemass. Cá pra nós, o cantor (que pediu as contas seis dias antes do lançamento do álbum) nunca conseguiu levar o grupo de volta ao status lendário da época da "montanha cantante" Messiah Marcolin. Mas também nunca chegou perto da inexpressividade das passagens dos cantores Thomas Vikström e de Björn Flodkvist. Na verdade, seus discos à frente da banda são muito bons, sendo Psalms for the Dead o que captura melhor o feeling doom dos primórdios. Aquela saudável bruxaria old school de grupos como Witchfinder General, Pagan Altar e Pentagram, com produção moderna, peso estrondoso e Lowe se valendo de técnica e dramaticidade na medida certa. E os econômicos toques de órgão (Hammond?) são absolutamente deliciosos. O crooner saiu por cima.



Primeiro álbum de inéditas do Soundgarden em 16 longos e gélidos anos. King Animal ganhou pontos comigo logo na primeira audição: o disco não era ruim. Que alívio. Estão lá novamente os talentos individuais de Chris Cornell, Kim Thayil, Ben Shepherd e Matt Cameron, todos trabalhando por um só propósito. Seria broxante ver uma reunião de todos esses elementos raros em uma química com validade vencida. Felizmente, o espírito ainda está lá e pra gostar do álbum efetivamente foi um pulo. Não é enfurecido e visceral como os primeiros discos, nem pesado e lírico como os últimos antes da separação, mas quer saber? Nem deveria. King Animal segue sua própria jornada. Se for a saideira definitiva, me dou por satisfeito. Mas se for o primeiro passo de uma nova aventura, quero acompanhar isso até onde for.



É notável a longevidade musical de Ian Astbury e Billy Duffy à frente do The Cult. Especialmente em se tratando de um grupo hard rock - não exatamente a classe mais antenada e/ou afeita à novidades. As décadas que se vão, as tendências, a troca das gerações de ouvintes e as inovações tecnológicas parecem não causar a menor estagnação no som da banda - que soa como se tivesse apenas alguns anos de vida, não 30. Choice of Weapon mantém a ótima sequência de álbuns do Cult - na verdade, é o melhor desde sua reativação, em 1999. Rockão moderno, ganchudo e versátil, com os IDs intactos de Astbury e Duffy (seus solos são inconfundíveis) mais a superprodução do velho conhecido Bob Rock e do master of reality Chris Goss. Esses caras vão chegar à década de 2020 tinindo. Como diria o Ibrahim Sued: "ademã, que eu vou em frente!"



Li na Wikipedia agora: Tempest é o 35º álbum de estúdio de Bob Dylan desde 1962. Pra qualquer artista que chegou a esses números pouco importa qualquer crítica, elogiosa ou não. Pouco importa qualquer coisa, aliás. O sujeito já passou há muito tempo dessa estação. E se ainda faz o que faz após todo esse tempo, quando poderia estar bronzeando as canelinhas brancas e encarquilhadas em Acapulco só na base de royalties infinitos, é porque gosta de briga mesmo. E porque sabe que briga bem. A banda que acompanha é uma maravilha, tradicionalesca e orgânica à moda antiga, com todos os banjos, violinos, mandolins e acordeons a quem tem direito. E mr. Dylan, com sua sabedoria de 70 e poucos e uma voz estragadaça, manda algumas das letras mais fodas do ano. Esvaziar umas garrafas de Johnnie W. com esse cara deve ser qualquer coisa...



Em meio à tanta enganação faceira travestida de "indie" que andou assolando o pop brasileiro nesses últimos anos, eu já tinha entregue os pontos há muito tempo. Mas vinda da mesma seara, a paulista Tulipa Ruiz demonstrou em Tudo Tanto uma característica que a transformou numa alienígena naquele meio: ela realmente tem talento. Algum ranço da velha MPB ainda permeia o doce pop/trip hop da moça e, apesar de ser bem absorvido/devolvido, pra mim marca como algo a ser extirpado/cauterizado. A ótima faixa de abertura é um bom exemplo - lembra Peeping Tom, mas envereda por algumas passagens que me trazem de volta à Terra em velocidade de dobra. É mais ou menos a tônica do álbum, mas o saldo, claro, ainda é muito positivo. Destaque para a boa intervenção do hitmaker Lulu Santos. Aguardo ansiosamente pelo próximo disco e, só pra enfiar um trocadilho perneta, espero do sucessor de Tudo Tanto um tanto de tudo de tocante que Tudo Tanto teve. Ps: o álbum ainda está disponível para download em alta qualidade no site oficial da artista. Ela é espetacular até nisso.



O Gravelroad foi umas das sensações do cenário blues norte-americano em 2012. Psychedelta é seu 3º álbum e mostra bem o porquê do hype em torno desse trio de Seattle. Delta blues eletrificado, cru e rústico, com vocais rasgados e um toque de psicodelia emaranhado entre a slide guitar e os grooves hipnóticos da bateria. Também há uma vibração de banda de garagem, recheada de energia primal, aos moldes dos primeiros trabalhos do The Black Keys. Genuíno diamante bruto. As encruzilhadas do Mississippi continuam rendendo bons negócios.



Desde a divulgação do projeto, o disco O Embate do Século: Ultraje A Rigor vs. Raimundos prometia ser muito divertido. E acabou superando minhas expectativas. A reverência entre influenciador e influenciado se deu no melhor aspecto possível: versões que não têm medo de ousar e tatuar suas respectivas marcas sem sacrificar o que os hits originais tinham de melhor. O resultado é o disco de roque brazuca mais legal do ano. Isso posto, não fica esquecida a sensação de que as duas bandas merecem muito mais do que vêm recebendo nos últimos tempos. À despeito de suas atividades atuais, elas deveriam estar fazendo o que bandas de rock fazem: turnês sold out país afora (e fora dele), aparecendo no Faustão, em capas de revistas, tocando nas rádios, ganhando grana, comendo mulher, etc. Mas cadê?



Chega a soar improvável a qualidade e ousadia do power trio mato-grossense Macaco Bong. Eles já tinham deixado meio Brasil (ou quase) boquiaberto com o excelente disco Artista Igual Pedreiro, de 2008. Dessa vez reforçaram a dose com This is Rolê, disco de título infame, porém igualmente impactante. Não "só" pela sonzeira instrumental post-rock com influências hardcore e que por vezes lembra o metal ritmado do Helmet, mas também pela decisão em novamente apresentar o álbum gratuitamente pela internet. Surpreendente e desafiador, o Macaco Bong é um verdadeiro alento em meio a toda essa mediocridade que parece ter virado a ordem do dia no cenário nacional.



O Torche é uma banda que eu venho acompanhando juntamente com o Baroness. Os dois grupos tiveram pontos de partida semelhantes na seara stoner/sludge metal e optaram por evoluções musicais mais acessíveis e menos segmentadas. Pra mim, o Torche se saiu melhor no álbum Harmonicraft (daí a ausência do aclamado Yellow & Green, do Baroness, nesta lista). O quarteto consegue fugir do lugar comum aliando as atmosferas esparsas e arenosas do rock oitentista - são frequentes os déjà vu's melódicos à U2/Simple Minds durante as músicas - com o peso e a técnica vigorosa de seus primeiros dias. Radio friendly, pero no mucho. O único senão é que acaba rápido demais apesar de seus quase 40 minutos, provavelmente por causa das músicas curtinhas.



O Enslaved é black metal norueguês da gema. E de linhagem pagan/viking metal, predominante por aqueles terreiros ragnarókicos. O primeiro álbum do bando saiu pelo selo do Euronymous, o infame. Enfim, todos os elementos para uma perfeita true metal band, sem nenhum apreço por musicalidade, melodias, acessibilidade ou boa produção - mas é exatamente isso o que se ouve em RIITIIR. O álbum é surpreendente pelo desapego às (muitas) convenções do gênero. Não fosse pelos ocasionais urros vindos diretamente do living room do capeta, daria até rolar nas rádios em horário normal. Quer dizer, em termos, já que uma forte pegada progressiva se faz presente na maioria dos sons, que ultrapassam fácil os 7 minutos. Se bobear, o melhor disco de "black metal" moderno que já ouvi.



Tame Impala é o australiano Kevin Parker, compositor, multiinstrumentista e produtor. Praticamente uma one-man-band, não fossem as parcas contribuições do chapa Jay Watson. Lonerism é seu 2º disco e chegou acompanhado de um grande auê por parte de indies, alternativos e bichos-grilos em geral. Don't believe the hype. O álbum é ótimo, mas não é o Lennon voltando do além para compor com McCartney com Jimi Hendrix na guitarra e John Bonham na bateria, como assim fizeram parecer os reviews que pipocaram por aí. O som é rock psicodélico circa 1968/1969 com sutil dinâmica moderna e produção low-fi na medida. O aussie realmente é talentoso. Da minha parte, me rendi e ainda ouço bem - mas nada que ameace o lugar do Ozric Tentacles no meu iPod.



Foi complicado manter o álbum In The Belly Of The Brazen Bull, do trio de irmãos The Cribs, em meio à tantos cortes difíceis e dolorosos. Mas sempre que ouço, todas as células do meu corpo dizem "siiiimmm". O problema é que não tem nada demais. É simplesmente um álbum de rock. E rock anos 90, do tipo indie, com vocalzinho pós-adolescente e recheado daquelas canções-single que costumavam figurar no programa Lado B, do rev. Massari. Datado? Com certeza. Mas o fato é que há tempos eu não me deparava com um álbum de "rock alternativo" tão gostoso de ouvir. Dificilmente fico só numa faixa. Sim, o Steve Albini é o produtor. Mas sinceramente, meu interesse mesmo é aprender a cantarolar aqueles refrães...



À primeira vista pode parecer que Al Jourgensen mudou de ideia e decidiu envelhecer como Steven Tyler e Mick Jagger, mas a verdade é que o Ministry nunca parou totalmente. Estão aí dois álbuns de covers (Cover Up, de 2008, e Undercover, de 2010), dois de remixes (The Last Dubber, de 2009, e MiXXXes of the Molé, de 2010) e um CD/DVD ao vivo (Adios... Puta Madres, de 2009) que não me deixam mentir. Seja como for, Relapse inaugura uma nova fase de inéditas do mesmo ponto onde a sonoridade do grupo taxiou, lá na trilogia anti-Bush. Estão de volta os parceiros Tommy Victor (Prong) e o veterano Mike Scaccia (que Dio o tenha), além do colaborador mais recente Sin Quirin - e Paul Barker, pelo jeito, prefere manter essa página virada. Dessa vez não há nenhum hino fim-dos-tempos e às vezes soa acessível como nunca antes (talvez flertando com novos caminhos?). Mas o metal eletrônico come solto do início ao fim, inclusive com um cover do S.O.D. só pra não perder o costume. Enfim, tecnoporradaria de primeira linha, sem pausa pra descanso, nem pra falsas promessas. Relapso sim, graças a Deus.



Essa banda merece um full-length por uma grande gravadora o quanto antes. Na ativa desde 2010, o trio britânico XII Boar ainda navega pelos mares da independência e só lançou dois EPs até aqui. Split Tongue, Cloven Hoof traz um mix de sludge, stoner e heavy rock 'n' roll dos bons. Lemmy certamente pagaria uma rodada de cerveja pra esses caras - aliás, o XII Boar seria a banda de abertura ideal para um show do Motörhead. Disquinho eletrizante (e de graça!). Pena que são só quatro faixas em velozes e furiosos 20 minutos.



Só nesse país (e talvez na Jamaica) que um grupo como o Black Drawing Chalks não tem nenhum hit rolando febrilmente na FM, MTV e o escambau. Geralmente associado ao stoner rock, o quarteto goiano mira alvos bem além desse gueto. O novo álbum, No Dust Stuck on You, mostra claramente o talento dos chalks em talhar canções chicletudas e imediatas, sem soarem pueris. São bem dançantes até. Mais um grande disco, no mesmo nível do excelente registro anterior (Life is a Big Holiday, de 2009). O único senão é em relação à produção, clean demais. Um pouco mais de peso e sujeira ia bem...



Nesses 41 anos (!) de trajetória discográfica, o ZZ Top se aventurou algumas vezes para atualizar seu boogie/blues rock de acordo com a época. Especialmente na fase tecnológica durante a década de 80. Logo que o southern e o rock tradicional voltou à baila em meados dos anos 90, o trio se livrou de toda a tralha high tech e fincou os pés na essência, dessa vez em definitivo. Em La Futura, os barbudos (e o bigodudo) seguem chafurdando no melhor do seu mundo, embargados em groove blueseiro, slides cortantes, peso e feeling. É disco que cheira a gasolina, cerveja e strip club vagabundo. Bem que podiam aproveitar o clima do álbum e obrigarem sua gravadora a relançar todos os discos da fase clássica com o mix original, sem a terrível remasterização moderninha que fizeram nos CDs.


Melhores discos ao vivo


Apenas algumas poucas almas iluminadas tiveram a honra de estar na O2 Arena no dia 10 de dezembro de 2007 para ver o Led Zeppelin ao vivo. A vida é injusta. Mas assim como no antológico No Quarter, de 1994, alguma compensação divina se fez presente. Mais ainda no caso de Celebration Day, já que dessa vez Robert Plant e Jimmy Page repatriaram o grande John Paul Jones, além de convocarem Jason Bonham, filho do Bonzo. O registro do show é magnífico, mágico, poderoso. Uma grande celebração ao rock and roll. Led Zeppelin, enfim...



De todos os artistas do pop rock nacional dos anos 80, Lobão talvez tenha sido quem mais sofreu com a qualidade das produções da época. Lobão Elétrico: Lino, Sexy & Brutal foi alardeado incansavelmente pelo grande lobo como o disco mais bem produzido de sua carreira. Descontando a autopromocha básica, ouvindo o álbum, é difícil não concordar. Além de uma bem-apanhada compilação dos seus grandes momentos, o que se ouve é uma sucessão de versões definitivas para os mesmos. Méritos de um dos melhores times de músicos que já o acompanharam, dos arranjos impecavelmente minuciosos e de uma qualidade de áudio que periga ser inédita no rock nacional. Mas, principalmente, mérito do próprio Lobão, com seu estilo peculiar de interpretação em sua melhor forma, revisando hits e anti-hits - inclusive com a justa incorporação do clássico "Ovelha Negra", de Rita Lee, a pedido da carapuça e da emoção. Arrasador.



A capa lembra um campo de concentração nazista, mas é o Tate Modern, museu londrino de arte moderna considerado um dos mais importantes do mundo. Foi lá que o Laibach escolheu gravar seu disco ao vivo. Típico. Esses loucos eslovenos formam um dos grupos mais avant-garde da música contemporânea. "Industrial marcial", é o que arriscam por aí, mas é só a ponta do iceberg. Wagner, noise, eletrônica, progressivo, gótico... tudo desembocando num som estranho, opressivo e assustador. Perto deles, o Rammstein fica parecendo o Linkin Park. Mas também sabem ser impagáveis, como na citação a"Tico-Tico no Fubá" que surge lá pelas tantas. Para veteranos, Monumental Retro-Avant-Garde é exatamente aquilo que se espera desses doidos: o imprevisível como fio condutor - embora possam se surpreender com o crescendo rítmico que compõe o álbum de cabo a rabo. Para neófitos, sugiro começarem por Opus Dei (1987) e pelo revisionista Let it Be (1988). Se sobreviverem, sejam bem-vindos.



Após algumas tentativas frustrantes de modernização, o Machine Head vem reescrevendo sua história no cenário metálico mundial. Essa virada foi pontuada por dois álbuns fora-de-série: The Blackening (2007) e Unto the Locust (2011), responsáveis pela evolução mais relevante do thrash metal em muitos anos. Não por acaso, o set list de Machine Fucking Head Live contempla 3 músicas do 1º e quase todas do 2º. Talvez fosse um pouco cedo demais para outro álbum ao vivo (e como isso tem cara de acordo com gravadora), mas serve como uma prévia de como esses verdadeiros nukes sonoros funcionam on stage. Destruidor. Rock in Rio já.



Juntamente com a edição comemorativa de 30 anos de Cabeça Dinossauro, este Cabeça Dinossauro: Ao Vivo 2012 fecha um tributo decente ao maior clássico do Titãs. Apenas "decente", já que tanto a reedição quanto este álbum ao vivo poderiam ter vingado como peças imperdíveis, o que, apesar dos atrativos, não são. Talvez apenas para velhos admiradores, como eu. No caso do 1º foi a carência de material extra no digipack magricela: nada de livreto com depoimentos, textos, fotos exclusivas ou comentários faixa-a-faixa, naquele esquema dos relançamentos clássicos dos gringos. Já no Ao Vivo saltam aos ouvidos as ausências dos ex-titânicos Arnaldo Antunes e Nando Reis em suas respectivas faixas - pô, "Porrada" tinha que ser com o Arnaldo e "Igreja" tinha que ser com o Nando. Será que não dava pra agitar um cameo dos caras? A ocasião mais do que merecia. Felizmente, a diversão é garantida (nos dois casos), já que não tem como errar com esse material. Mas bem que tentaram.


Blockbuster do ano


The Avengers - Os Vingadores (Marvel Studios/Paramount Pictures)

Não deu nem pro Cruzado Encapuzado. Mesmo com todos os clichês e uma compreensível falta de ousadia, Os Vingadores foi divertido, pop, convincente e algo surreal - afinal, heh, são os Vingadores em carne e osso! Joss Whedon certamente encontrou a Manopla do Infinito em algum lugar e realizou o impossível.


Melhor série


Homeland, 2ª temporada (Showtime/Fox 21)

Homeland teve uma 2ª temporada praticamente perfeita e ainda melhor que a 1ª, com alguns dos roteiros e atuações mais marcantes que já vi no formato. Não foi à toa que a série fez o rapa no Globo de Ouro, mais uma vez. Já está virando hors concours.


Melhor série animada


A Lenda de Korra (Avatar: Legend of Korra, Nickelodeon)

Um dia pretendo comentar sobre Avatar: A Lenda de Aang e limpar um pouco da má impressão deixada pelo filme. A série é um clássico moderno, algo que vou levar provavelmente pro resto da vida. Dessa forma, A Lenda de Korra tinha uma missão difícil, que era dar uma boa continuidade àquele universo tão carismático. Não só cumpriu seu objetivo como promoveu uma evolução daquilo tudo, sendo comparativamente mais madura e dark que a original no mesmo ponto da narrativa (1ª temporada ou "Livro"). Teve lá sua cota de decisões equivocadas, especialmente na reta final, mas nada que ofuscasse o brilho desse início tão promissor.

2º lugar colado: a excelente Young Justice que, sem dever nada às melhores séries animadas da DC/Warner, só perdeu a ponta por causa da sua exibição errática ao extremo. Por diversas vezes tive que confirmar se a série ainda estava em andamento ou se havia sido cancelada, tamanho o hiato entre os episódios.


Troféu framboesa de lata


Metal Open Air, imbatível. Até onde sei, o fiasco ficou por isso mesmo - o poder público nada fez, o produtor Felipe Negri mudou a razão social e o povo que se desventurou por lá ficou a ver navios, ou melhor, vazios. Mas pelo menos rendeu um verbete na Wikipédia, eternizando assim o maior King Kong da história do metal nacional.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Até que os mortos os separem


Sem querer ser um daqueles saudosistas reclamões (já sendo), esse velho hit do início dos anos 80 me lembra como era bom ligar o rádio e ouvir música pop boa de verdade. E olha que nem curtia tanto assim, apesar de ter envelhecido otimamente bem.

De quebra, o vídeo tem uma minitrama que traz muito do que penso sobre certas coisas - além de uns pseudo-zumbis compondo uma metáfora tão bacana e pungente quanto um shopping ou uma prisão.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Alea jacta Ash


Mesmo com o aval de Sam Raimi e Bruce Campbell (o Ash, em carne, osso e motosserra), meu ceticismo pelo remake de Evil Dead parecia possuir minh'alma como se fosse um demônio invocado pelo Necronomicon. Mas esse trailer "banda vermelha" deu uma decepada substancial nessa má vontade. É muito divertido. E por vezes genuinamente macabro, como foi o primeiro filme, mas sem as micro-inserções de humor. Agora fiquei curioso pra ver o que esses moleques aprontaram.

sábado, 29 de dezembro de 2012

20 Years Later


Não, não são zumbis.

1992 no Brasil não foi para fracos. Éramos um país quebrado. Ainda novatos nos meandros da democracia, tivemos nosso primeiro presidente impedido de fazer mais besteiras exercer sua função. Nosso mais alto funcionário público sendo demitido por justa causa. Um arrojo só. Foi bonito ver como os brasileiros ainda se importavam o suficiente após tanta porrada no bolso e na auto-estima. E deu resultado, com ou sem ação Illuminati por trás (epa!). Mas sem querer apagar o brilho patriótico daquele momento, a coisa toda funcionou mais para as primeiras páginas dos jornais e para as capas das revistas. Na prática, aqui no front da guerra civil brasileira, a coisa seguiria praticamente imutável até... bom, até hoje.

(sim, temos banda larga, sinal digital, smartphones, tevês de última geração por preços palatáveis... pena que não se pode dizer o mesmo de bobagens como segurança, saúde, educação, transportes, urbanização, etc ad infinitum e vai embora. De quebra, aquele nosso antigo funcionário voltou das trevas como se nada tivesse acontecido... e fazendo mais alianças que um joalheiro)

(claro que nada disso nos surpreendeu, calejados brasileiros velhos de guerra. Nós comemos PIBs de 0,6% no café da manhã. Com guaraná Dolly! E segue a vida)

Essa síntese rasteira do Brasil de 1992 - as melhores partes ficam pra versão director's cut de quem vivenciou aquilo - serve pra contextualizar o sucateado cenário do pop-rock brasileiro daquele período. A geração da década de 1980 ainda não havia encontrado seus sucessores. Aquele divisor de águas essencial em qualquer cena musical saudável não despontava no horizonte. No mainstream, as gravadoras apostavam todas as fichas no pagode, no breganejo e na novidade axé.

Até haviam alguns esforços heróicos de renovação criativa, como foi o selo Tinitus, do produtor Pena Schimdt, que apesar de algumas boas apostas (Virna Lisi, Yo-Ho Delic) não vingou ninguém no 1º escalão (excetuando, talvez, o ex-cantor da Banda Bel?). Enquanto o pop-rock agonizava, o metal, o punk, o eletrônico e o hip-hop seguiam isolados em seus guetos. O mar não estava pra peixe.

Foi ano de Hollywood Rock, com um cast não tão impressionante - especialmente em comparação com a incendiária edição seguinte. Lá fora o bicho pegava: Metallica excursionando com Guns 'N Roses, mais Body Count, Motörhead e Faith No More abrindo (Nirvana foi chamado, mas recusou); um Reading Festival muito bacana (e bem transmitido aqui pela TV Bandeirantes!); e um Lollapalooza mais bacana ainda.

E sim, também saíram vários discos legais. Muitos deles foram minha trilha sonora diária, rolando no walkman durante o trajeto do meu 1º emprego remunerado até a escola (era o 2º ano do 2º grau). A primeira vez que ouvi "N.W.O." e "Mouth for War" foi num ônibus abarrotado em pleno fim de expediente. Imagina o perigo de um mosh descontrolado ali...

Nos moldes da lista de 1991, segue abaixo uma relação desses álbuns que tanto me marcaram há vinte anos atrás e que ainda ouço regularmente, como se tivessem sido lançados na semana passada. Única ressalva: não inseri discos daquele ano que só descobri tempos depois e hoje teria como essenciais - portanto nada de The Chronic, In Search of Manny, Dry, Little Earthquakes, Check Your Head, T.V. Sky...



Psalm 69: The Way to Succeed and the Way to Suck Eggs (ou ΚΕΦΑΛΗΞΘ) é uma obra-prima da música pesada. O bonde Ministry e sua fusão perfeita de thrash metal, hardcore, eletrônico e industrial tomou o mundo de assalto e influenciou muita gente em várias esferas da música pop. Nunca foi igualado em equilíbrio, definição e intensidade, nem mesmo pelo próprio grupo. Ao lado de Reign in Blood, Psalm 69 segue como a trilha sonora oficial do fim do mundo.



Confesso que não recebi muito bem o sucesso dos cowboys from hell. Um novo nome forte no metal USA justo na hora em que nossos "garotos da selva" conquistavam o mundo? Mas acabei ouvindo a banda praticamente sem querer, no rádio. Fui fisgado na hora. Eram tempos difíceis e, desde a capa até o som, o Pantera nos fazia extravasar todo aquele sentimento de raiva e frustração diante de um futuro incerto. Vulgar Display of Power funciona até hoje.



No EP Broken, o Nine Inch Nails (codinome: Trent Reznor) pavimentou uma vicinal alternativa ao espectro sonoro inaugurado pelo Ministry. O mix partia de suas origens no cenário synthpop e das esquisitices do pós-punk e chapava forte em Bowie (da aclamada "fase Berlim" até Scary Monsters). Tudo absurdamente caótico, selvagem e visceral, com algumas das maiores perversões de sintetizadores e baterias eletrônicas já registradas. Um memorável passeio pelo inferno.



"O futuro do death metal". Ah, esses revisionismos editoriais... Não era nada disso, mas o Helmet projetou algumas saídas para o rock pesado e influenciou muita gente. É verdade que o grupo veio de uma seara de bandas post-hardcore do underground nova-iorquino, mas Meantime era um inédito passaporte pra fora do gueto. Tinha todo o barulho e a violência minimalista daquela turma ao mesmo tempo em que soava acessível na medida. Além disso, os caras tinham o diferencial de uma formação musical mais clássica, inserindo nuances de jazz ao contexto - vide "Give it", uma das músicas mais groovy e pesadas já compostas. Experimentalismo para iniciantes e bastante satisfatório para veteranos. Um discaço.



Era ponto pacífico que o Faith No More não iria parir um novo The Real Thing cheio de hits para as rádios. Não com o fugitivo do manicômio Mike Patton por lá. Mas também ninguém esperava por Angel Dust. O álbum era uma espécie de avant-garde demencial na forma de um metal progressivo com grooves bizarros e enlouquecidamente anticomercial, mas que não reprime a vocação natural do grupo para montar as estruturas básicas do pop (melodia, cadência, refrão, etc.). A ensolarada "A Small Victory", por exemplo, tocou bastante no rádio. Já "Malpractice" nem sonhando.

Foi um disco de difícil digestão, mas que, ouvindo hoje, soa quase totalmente decodificado. De razoável assimilação até para os moleques mais novos, o que creio ser o reflexo de 20 anos de uma profunda influência dentro do cenário do rock pesado. Nem sempre bem administrada, claro.



Apesar de ter curtido o debut, achava que o Alice in Chains não iria muito além daquele grunge hard rock qualquer coisa. Ledo engano. Dirt é um dos melhores álbuns daquela década, um refinamento do melhor aspecto do grupo em seu disco de estreia: temáticas depressivas e mórbidas embaladas por um som opressivo e claustrofóbico. A sensação é de estar preso debaixo de toneladas de escombros - ou fundido inexoravelmente ao chão, tal qual a garota da capa. Absorvendo de forma inteligente o legado do Black Sabbath, o AiC exibia uma versatilidade sonora invejável, sendo as estrelas do show o guitarrista e cantor de apoio Jerry Cantrell e o finado frontman Layney Staley. Viciante.



Fui um dos entusiastas do funk metal durante seu auge, do fim dos anos 1980 até o início dos 1990. Mas em 92, o estilo era notícia velha. Daí o pouco crédito que dei logo de cara ao debut do Rage Against the Machine e seu discurso politizado. Com o tempo, percebi que o som demandava audições mais atenciosas para uma assimilação decente. Culpa das bases que emulavam espertamente o DNA zeppeliniano e um guitarrista que era um dos mais inventivos a despontar no cenário pop em muito tempo.

Mais que um simples registro funk metal (ou rap-metal, etc), Rage Against the Machine, o álbum, passou com louvor no teste do tempo - como ainda atesta um dos finais de filme mais bacanas dos anos 90.



Com seu álbum de estreia homônimo, o Body Count jogou gasolina no incêndio dos distúrbios raciais de Los Angeles em 1992. Além das várias provocações espalhadas pelo disco, uma música em particular foi endereçada aos policiais de LA com a sutileza de um Tomahawk: "Cop Killer". O lobby caucasiano reagiu rápido: banida das rádios e das lojas, a faixa teve que ser cortada das prensagens seguintes, sendo apenas encontrada em compactos vendidos nos shows do grupo. Virou artigo de colecionador, mas na prática era só mais uma engrenagem do disco, que metralhava tudo e todos sem piedade. E sem esquecer da bandidagem e putaria características das rimas de Ice-T - ainda estou pra ver alguém compor algo mais sacana que "Evil Dick". Já o som, era uma maravilha de hardcore/thrash/rock 'n' roll barulhento, tosco e furioso. Divertido até hoje.

Tive esse disco em várias edições. Com exceção do K7 lançado na época, "Cop Killer" estava em todas, provavelmente solta sob condicional. Sinal dos tempos. E Rodney King, pivô daquilo tudo, morreu em junho último, com 47 anos. Sem revolução dessa vez.



O melhor show do Hollywood Rock '93, fácil. A discografia do L7 beira o impecável, sendo Bricks Are Heavy seu momento mais pop. A equação sonora era perfeita (Ramones + Motörhead + Joan Jett + Black Sabbath x Suzi Quatro), mas para domar o furioso punk metal de garagem dessas belas-feras foi preciso ninguém menos que o Midas grunge Butch Vig. O resultado não podia ser diferente: um álbum pesado, ganchudo, espirituoso, emputecido e acima de tudo divertido, vertendo uma velha máxima dos 80's para os 90's: "Riot grrrls just wanna have fun".

Eu amo essas garotas e queria ser o cachorro delas.



Dirty ainda é meu disco favorito do Sonic Youth. Sei, sei, Sister, Daydream Nation e Goo são os queridinhos da torcida, mas o páreo é duro. Novamente, culpa do então onipresente Butch Vig na produção e um senso mais palpável de acessibilidade envolvendo o noise obsessivo do grupo. Logicamente foi mais uma das tentativas das grandes gravadoras de encontrar um novo Nirvana. Não vingou simplesmente porque o Sonic já tinha uma personalidade muito bem definida e nem um pouco preocupada em agradar a todos. Mas rendeu um discaço.



Incesticide não era exatamente o disco que estava nos planos de Kurt Cobain para o Nirvana pós-Nevermind. Mas seu aval foi relativamente barato: o controle criativo do design gráfico do álbum, incluindo a pintura (dele mesmo) que ilustra a capa. Ainda bem, já que Incesticide - composto por lados B, demos, outtakes, covers e performances em rádios - foi a última chance dos admiradores do excelente Bleach de ouvir o Nirvana cáustico e cru dos primórdios.

Esse eu tive em fita cassete. Tempos depois, em CD. Atualmente voltou aos fones de ouvido em formato, digamos, "compacto".



Os anos 70 estavam sendo pilhados naquele início de década, mas o grupo californiano Kyuss abraçava uma vertente mais underground (e mais legal) que seus colegas de Seattle. Se era pra seguir os passos de Ozzy, Iommi & cia, então que fosse pra valer. E dá-lhe afinações subterrâneas fazendo a ponte entre a psicodelia e o groove dos power trios dos 60's e o heavy metal dos 70's. Blues for the Red Sun era apenas um bando de moleques se divertindo. E fazendo história.



Na época, comprei esse LP num sebo pouco depois do lançamento, por uma ninharia, junto com o New York. Deus abençoe a ignorância alheia. Lou Reed compôs Magic and Loss inspirado pelas mortes de dois amigos (Doc Pomus e Rotten Rita). É um álbum conceitual sobre a morte e o processo que leva a isso. É sobre resignação, arrependimentos, dor, solidão e... lâminas. Apesar de parecer muito deprê - e é - o disco tem um certo humor cruel, uma riqueza textual e uma beleza dramática únicas. Musicalmente, é rock de raiz interiorana, soturno e intimista ao extremo, pra ouvir em silêncio e de luzes apagadas. Esse merece a total atenção.

Foi o 1º disco em que não larguei o encarte até conseguir traduzir e interpretar tudo do início ao fim. Foi um parto, mas valeu a pena. Era eu e meu fiel dicionariozinho do cursinho de inglês contra o mundo...



O Screaming Trees já era um veterano quando estourou com a faixa "Nearly Lost You" na esteira da onda grunge. Ao ouvir o bolachão de Sweet Oblivion logo percebi que a musicalidade do grupo estava muito acima de seus colegas de cavanhaque e camisa de flanela. Mais ligado ao hard blueseiro e ao southern rock (Allman, Lynyrd) com boas doses de psicodelia e country do bom (Gram Parsons), os Trees eram músicos de verdade. Na bateria estava o grande Barrett Martin (QotSA, REM, Nando Reis), na guitarra e no baixo estavam os hermanos Gary Lee Conner e Van Conner e na voz curtida à bourbon e gin tônica, a entidade estradeira Mark Lanegan. Aí compadre, é calar a boca, abrir um JD e apertar o play...



Eu já desconfiava que a pecha de "melhor banda ao vivo do mundo" era viral de assessoria de imprensa. Mas na época ouvi muito o LP de Grave Dancers Union, do Soul Asylum (que comprei junto com o Sweet Oblivion... incrível como a gente lembra dessas coisas após tanto tempo). O disco sentiu um pouco os efeitos do tempo, mas ainda sinto o feeling verdadeiro registrado ali, que tem muito a ver com a evocativa e belíssima capa - retirada de uma fotografia do artista tcheco Jan Saudek - e a interpretação desavergonhadamente entregue de Dave Pirner.

Ainda me arrepio com o clipe de "Runaway Train". E mais ainda com seus diferentes resultados, felizmente em sua maioria positivos.



Difícil descrever a sensação que tive ao ouvir esse álbum pela 1ª vez. Em Images and Words, o Dream Theater promovia uma inesperada fusão de Metallica e Rush com arranjos soberbos e revelando uma técnica absurda ao lidar com o progressivo, o jazz e o AOR. E sem soar chato ou elitista, ainda que muito pretensioso (também, né!). Pra mim, é o ponto de perfeição do grupo e certamente o disco que definiu o prog metal.



Quando ouvi o White Zombie pela 1ª vez achei que se tratava de alguma incursão solo ou mesmo um projeto paralelo do James Hetfield. Isso graças ao timbre da voz do Rob Zombie, idêntico ao do colega da Bay Area. La Sexorcisto: Devil Music, Vol. 1 era um pandemônio sonoro: riffs à Slayer conduzindo um climão de horror B sugado diretamente da fonte de Cramps, Kiss e Black Sabbath com uma massa ectoplásmica de samples que iam de Faster, Pussycat! Kill! Kill! e Despertar dos Mortos à Plano 9 do Espaço Sideral e O Massacre da Serra Elétrica. Em suma, irresistível.



Burning in Water, Drowning in Flame é o primeiro e melhor álbum do Skrew. Metal industrial über-abrasivo, com um paredão de guitarras e drum machines que socam no peito até romper a caixa toráxica. A versão do clássico "Sympathy for the Devil" lembra um Slayer acordando de ressaca dentro da Matrix. Segundo consta, o disco teve co-engenharia de Al Jourgensen, além de contar com a participação do mesmo e do recém-falecido guitarrista Mike Scaccia, também do Ministry. Perfeitas más companias, como convém.



Cool World - por aqui, Mundo Proibido - só fui assistir tempos depois, quando já sabia quem era Ralph Bakshi. Mas a trilha sonora caiu em minhas mãos bem cedo, num daqueles saldões "pague 2, leve 3". Peguei só pra completar. E, sim, pela loira cartunizada da capa. Mas quando ouvi tive uma bela surpresa. Com exceção de David Bowie, Electronic, The Cult e talvez Brian Eno, o disco reunia nomes ainda pouco conhecidos no Brasil (Moby, The Future Sound of London, Pure), traçando um instigante cenário da música alternativa lá de fora. Por exemplo, foi aqui que tive acesso pela 1ª vez a algum material do My Life with the Thrill Kill Kult, que comparece em duas faixas.

Analisando em perspectiva, a seleção ainda hoje surpreende pela qualidade e ousadia. Mesmo os momentos puramente dançantes (Da Juice, Mindless) ou cabeções (Eno) são bacanas, além de terem contrapontos de peso. Que tal curtir o trance viajandão do Future Sound of London e logo após se deparar com o terremoto provocado pelo Ministry em "N.W.O."? Insano.



Sem contar a fase inicial insuperável, Mondo Bizarro talvez seja o meu álbum favorito do Ramones. O disco não trazia nenhum clássico per se, nem um hit do calibre de "Pet Sematary" - no máximo, "Strength to Endure", a balada "Poison Heart" e a porrada "Tomorrow She Goes Away" foram relativamente bem veiculadas. Mas era o Ramones se preocupando apenas em ser o Ramones. Punk rock 'n' roll alto, rápido e bagunceiro, com a guitarra do inesquecível Johnny soando como há tempos não soava e a voz do Joey idem.

A inspiração e o tesão haviam voltado. Boa parte do crédito é de Ed Stasium, produtor da maioria dos principais álbuns do quarteto e que não comparecia ali desde Too Tough to Die, de 1984. Ainda ouço no volume 10, com a mesma frequência de quando saiu.


Bonus tracks:



Somewhere Between Heaven and Hell, do Social Distortion, é o azarão da vez. Fiquei na dúvida se incluiria, já que nunca tive em formato oficial, pois era muito difícil - pra não dizer impossível - encontrá-lo por essas bandas. Tive foi uma fitinha Scotch gravada do LP importado de um amigo (pirataria à moda antiga), já bastante detonada pelo tempo e pelas execuções infindas. Não era pra menos. Difícil crer que uma combinação de country e hardcore seria tão acachapante. Não tem bola perdida aqui, todas as faixas são arrasadoras. All killer, no filler total.



RDP ao Vivo do Ratos de Porão não podia faltar, claro. Esporro altamente concentrado de Gordo & cia e um dos melhores discos ao vivo já registrados em terras tupinambás - mas vou te dizer... se tiver a chance de conferir o show do Ratos in loco não perca. É a versão Godzilla disso aqui.



Lançado lá fora no final de 91, Decade of Aggression até que não tardou em aportar em terra brazilis. Eu ainda nem conhecia todos os discos - só o Reign in Blood e o South of Heaven - mas quando a agulha começava a correr naqueles sulcos de vinil enxofrento a sensação de violência e malevolência (não confundir com malemolência) era indescritível.

Ou melhor... até era descritível, mas pra isso terei que apelar para um excerto um tanto quanto "empolgado" da revista Rock Brigade da época em que ainda era datilografada e mimeografada (sério):

“Os guitarristas do Slayer rasgam os seus dedos, destroçando as cordas do mais perfeito instrumento projetado pelo capeta. Power metal (sic!) elevado á última instância, tempestuoso e corrosivo, feito somente para headbangers. Roncando e vomitando fogo, como se um cometa explodisse dentro de um vulcão em erupção!”

(...)

“Misericórdia não existe! Não cabe na filosofia Heavy, por isso que Dave Lombardo pulveriza as moléculas do ar com suas patadas letais na mesma medida em que o terremoto provocado pelo baixo de Tom Araya invoca Satanás para a destruição! Não tem música melosa! A mais lenta faz qualquer um sair por aí chamando urubu de ‘Meu Loro’ e Jesus de Jenésio.”

Créditos da resenha headbanger-true-of-death: Berrah de Alencar (sério²).


Como vociferava o Gordo nos bons tempos do Garganta e Torcicolo...

SLAAAAAAAAAAAAYEEERRRRR!!!