A coisa mais interessante do MCU atualmente é observar como a Disney tenta lidar com o Justiceiro, esse enorme caveirão branco no meio da sala. É um personagem que o público neófito adorou, mas nem sempre (quase nunca) por motivos nobres. No meio do tiroteio ideológico que custou até o símbolo-logo do vigilante nos gibis, a Marvel tenta equilibrar a balança enquanto faz a reintegração de posse de seu anti-herói. Sob esta ótica, o especial O Justiceiro: Uma Última Morte é mezzo thriller de ação mezzo TCC de ciências sociais.
É sempre engraçado ver a Disney pulando de um pé para o outro na tentativa de amaciar o Frank Castle. Dar ao personagem uma motivação suficientemente digna e justificável para metralhar, estripar, empalar, esquartejar e explodir uma galera – e ainda divertir o público como um todo, não apenas o time do bandido-bom-é-bandido-morto. Há um problema óbvio aí que é humanizar um personagem desumanizado. Mesmo bom de narrativa, o diretor Reinaldo Marcus Green não consegue evitar a pieguice que sabota o bom andamento da matança sem piedade.
Na trama, o Justiceiro (Jon Bernthal) encara o que sobrou da Mama Gnucci (Judith Light), que busca uma vendetta pela chacina de sua famiglia após a série da Netflix. Ao mesmo tempo, ele tenta salvar inocentes em pleno caos urbano provocado pelo vácuo de poder. Aposto uma garrafa de Blue Label que não era nisso que Garth Ennis, Steve Dillon e Jimmy Palmiotti pensavam enquanto concebiam o arco original das HQs.
O Justiceiro é uma figura à Monstro de Frankenstein (não confundir com o Franken-Castle). Odiado por muitos e temido por todos, independente da inclinação moral. Castle é um outcast, uma sombra. Além da redenção. Aproximá-lo do cidadão comum é arrancar o que ele tem de mais legal e colocar coisas não tão legais no lugar.
Essa pegada do "Castle Amigão da Vizinhança" gera outro problema, que é a subversão da própria mensagem. Enquanto age como GCM hardcore, ganhando até abraço e lembrancinha de uma criança após trucidar 8 filhotes do capiroto numa lanchonete, Frank acaba remetendo ao Justiceiro original Paul Kersey, da série Desejo de Matar. Especificamente, ao Kersey de Desejo de Matar 3, objeto-mor de idolatria reaça e uma comédia involuntária insuperável para assistir com os amigos.
Quem não lembra do Kersey largando o aço no icônico Risadinha e recebendo uma salva de palmas dos moradores do bairro? Absolute cinema.
Em Uma Última Morte, Castle quase chega lá. E tem até um Risadinha para chamar de seu, mas com tratamento VVIP em comparação e cenas de um maniqueísmo raso e constrangedor (pobre doguinho). Desse modo, a Disney se vale de uma espécie de "candura" para alcançar o gatilho reaça que existe em cada um e assim conquistar a empatia do público médio da plataforma – também conhecido como Geração Z. Nos anos 80, esse malabarismo todo seria obliterado por saraivadas de balas de festim, explosões de verdade, milhares de squibs sanguinolentos e indefectíveis frases de efeito.
Admito, talvez esteja Žižekeando demais com o filme, mas é inevitável. Há muito acontecendo aqui e nem arranhei a lataria.
Voltemos ao basicão.
O roteiro foi co-escrito por Green e pelo próprio Bernthal e, na real, é ruim. Se o ultimato da matriarca Gnucci era compartilhar a localização do edifício de Castle para todos os criminosos da cidade, bastava ele se mudar de endereço. E aquele comerciante pode até ser dedicado, mas abrir as portas no meio de um The Purge é atestado de burrice. E ainda levar a filhinha para o trabalho naquele cenário apocalíptico configura inclusive negligência parental. Justiceiro do Antigo Testamento nele!
A despeito disso e do excesso de sacarina que abre e fecha o média-metragem, Jon Bernthal tem um trunfo incontestável: ele mesmo. O recheio de Uma Última Morte é um rodízio espetacularmente coreografado de tiro, porrada e dinamite. Isso, o Jão entrega como poucos. Literalmente, salva o dia.
E, quem sabe, o futuro.
Nota final: dois Risadinhas e meio (de 5).




.jpg)
5 comentários:
O que acontece com o Justiceiro na Marvel é, em menor escala pois personagem menor, o que ocorre na DC em relação ao Batman. A questão é que tem uma galera muito estranha que está andando com a lorota da guerra cultural embaixo dos braços e desesperado por se apropriar de ídolos da cultura pop, distorcendo suas características, pois na vida real seus ídolos se revelam o tempo todo serem de barro.
Bela analogia. Estenderia até ao Snyderverso como um todo. E é a mesma galera que toma o Patriota/Homelander como o herói de The Boys.
O Jon é ótimo, mas não me desce esse Justiceiro choroso. O tom melancólico que aparecia pontualmente foi desvirtuado, MAS é assim mesmo. Outrora, ainda me importaria, hoje só penso que não é mais pra mim.
Tinha algumas dúvidas com relação ao Castle mas acredito que seu texto me elucidou. Sempre estranhei a demora do Frank em meter o caveirão no peito. Nesse média só aparece no finzinho. Na série eu nem vi, pois abandonei lá pro fim pq não faz sentido o Frank sem caveira. Pra mim, vira um matador genérico. Mas ao ler o texto parece que a caveira virou símbolo de algum grupo reaça. É isso mesmo ou é viagem da minha cabeça? Dito isso, ainda não vi o Frank 100% nas telas. Eu peguei os anos 90 dele nas HQs. Então o sarrafo tá lá em cima.
à bessa, essa sensação de "não é mais pra mim" é uma constante pós-40. E só vai piorando, rs.
Mas estamos por aí... e ainda gosto de me iludir que a partir de agora, o Castle vai trocar esse vale de lágrimas por um (DO) VALE DE SANGUE.
💀 💀 💀 💀 💀
Millão! O sarrafo seguiu lá em cima por um bom tempo ainda. Também curto muito as fases 80/90's do Steven Grant, Carl Potts, Mike Baron, Chuck Dixon (!)... mas preciso recomendar a fase do Justiceiro MAX escrita pelo Garth Ennis a partir de 2003. É a melhor coisa que já li do Castle. Um absurdo de HQ.
Pois é, meu amigo... Marvel/Disney ficaram muito reticentes em ostentar a Caveira novamente. Rolou muito "build up" antes pra chegar até aquela ceninha final. E a razão foi essa mesma: a onda de extrema direita que varreu o mundo nos últimos anos que agregou muitos símbolos da cultura pop ao seu discurso reaça.
https://x.com/SiteJamesons/status/1637487834901762050
https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/01/10/criador-do-justiceiro-condena-policiais-que-usam-personagem-como-simbolo.htm
https://jovemnerd.com.br/noticias/hqs-e-livros/justiceiro-deixa-um-recado-para-policiais-que-usam-o-simbolo-dele
E logicamente a onda também chegou aqui em círculos mais, digamos, patriotários. Ainda hoje se vê por aí camisetas da Caveira em manifestações antidemocráticas, stickers em carros, todo tipo de produtos com estampas misturando a Caveira com a bandeira, etc.
Ah, e alguns de nossos agentes da lei também aderiram: https://www.instagram.com/p/CHe0daAgIJj/
Abraço!
Postar um comentário