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segunda-feira, 19 de março de 2007

SOEM AS TROMBETAS


Já começou. Ashley J. Williams, Ash para os íntimos, os putrefactos Deadites e o "Ancião Livro Sumeriano dos Mortos", vulgo Necronomicon, voltaram a aterrorizar este plano da existência. Aliás, este plano não... outro, tão mórbido e apocalíptico quanto: o mundo zumbificado dos superpoderosos Marvel Zombies. É como se escancarassem os portões do inferno, vociferassem "tomem o que é de vocês... e não façam prisioneiros!!", e os pobres humanos ficassem contando aqueles minutos intermináveis que precedem a carnificina iminente. Este é o feeling desta primeira edição de Marvel Zombies vs Army Of Darkness, uma belezinha de crossover em cinco partes que junta a surpresa cadavérica de 2006 com a cria máxima de Sam Raimi. Fico feliz só em lembrar que tem mais quatro pela frente.

Talvez o maior problema que poderia surgir aí - uma eventual descaracterização de Ash [anti-herói por excelência] e dos elementos-chave de Army Of Darkness - foi sabiamente evitado pela qualidade do material escrito por John Layman, que acabou contando com a providencial assessoria do zumbiólogo Robert Kirkman (Zumbis Marvel, Os Mortos-Vivos, comparecendo aqui como consultor criativo - ou "recreativo", pois é evidente que o cara está curtindo muito tudo isso).

A arte também me preocupava um tanto, já que eu estava totalmente rendido à crueza tétrica de Sean Phillips em Zumbis Marvel. Mas o talentoso Fabiano Neves (de Americana/SP!) se mostrou uma escolha certeira, mantendo uma dinâmica eficiente e criando uma esperta variação do estilo clean de Greg Land, em particular nas expressões faciais.

A capa - uma adorável subversão slasher de Uncanny X-Men #141, edição da clássica Dias de um Futuro Esquecido - mais uma vez ficou a cargo do necromaster Arthur Suydam. É um espetáculo à parte.


A história é suculenta. Ash chega ao universo Marvel bem ao velho estilão fui-cuspido-por-uma-fenda-interdimensional, ativa o seu Politically Incorrect Full Mode (a primeira piada é até meio cruel) e se depara com um quebra-pau entre Demolidor e o super-vilão Maça, da Gangue da Demolição. Após interceder, em nome da Lei e da Ordem, a favor do Maça, Ash topa com o primeiro evil dead naquele mundo. A entidade demoníaca anuncia o fim de todos os seres vivos e dá uma boa pista do por quê nosso herói foi parar lá.

Percebendo que o tempo não tardará a fechar, o calejado Ash tenta se acostumar à idéia de que está num planeta lotado de "palhaços fantasiados" e imagina que até viria a calhar uma ajudinha turbinada contra o famigerado Exército da Escuridão.

Claro que não é tão fácil: o eterno predestinado bate na porta da mansão dos Vingadores, mas o máximo que consegue é arrancar algumas risadas do supergrupo. É quando chegam notícias dando conta que algo estranho está acontecendo no centro da cidade...

O roteiro bem sacado de Layman revela vários trunfos escondidos na manga. Traz, inclusive, vários detalhes novos sobre a mortificação generalizada vista em Zumbis Marvel - a história aqui é ambientada antes mesmo da estréia dos zumbis-marvetes em Ultimate Fantastic Four #21 (publicada no Brasil em Marvel Millennium Homem-Aranha #56). Neste sentido, é o que parece ser o ponto alto da série. Principalmente em cenas pra lá de intrigantes, como uma em que um determinado herói é apontado como sendo o primeiro da prole maldita. Ou mesmo insinuando que este foi o causador de todo o megadeath living-dead.

Nada é explicado efetivamente, mas é sugerido que as próximas edições reservam algumas reviravoltas bem interessantes (além da pororoca de sangue e vísceras!). O certo é que o que está acontecendo aqui é absolutamente empolgante e, além dos méritos próprios, Marvel Zombies vs Army Of Darkness é um saboroso aperitivo para o banquete que será Marvel Zombies: Dead Days, projeto de volta com Kirkman/Phillips, que promete dissecar esta desgraceira toda.

Agora deu até fome.


Uma última raspinha de miolo neste crânio:


"...seu nome era Morte e o inferno o seguia"

O ótimo remake Madrugada dos Mortos, dirigido por Zack "Trocentos" Snyder, inspira opiniões bem antagônicas. A grande maioria relacionadas à simples falta de empatia com o gênero imortalizado por George A. Romero. Outras, mais passíveis de discussão, reclamam da ausência das críticas sociais constantes no filme original - aqui limadas no processo de adaptação.

Seja como for, a intro é território neutro. Ou deveria. Com um clima de desordem social e pesadelo urbano, a abertura do filme tem como trilha a canção "The Man Comes Around" - um pequeno e aterrador vislumbre do Apocalipse, segundo o man in black Johnny Cash (*1932 †2003). Não poderia ser mais adequado.


O dia que um cavaleiro chamado Morte cruzar o seu caminho, saia correndo. O inferno vem logo atrás dele!

domingo, 2 de maio de 2004

MADRUGADA DOS MORTOS


Zebra post-mortem!! E não é que Madrugada dos Mortos é um puta filmaço de ação/terror? E olha que essa combinação não é lá muito fácil de digerir não. Geralmente resulta em filmes como Resident Evil e Freddy Vs. Jason, que, dadas às devidas peculiaridades, não passam de "tsc, poderia ser melhor". Felizmente, esse sentimento passa longe dos 97 minutos de sangria desatada e bem-sacada.


Uma providencial montagem warp nos situa na história com poucos instantes de projeção. Ana (Sarah Polley, mandando muito bem) é uma enfermeira saindo de seu plantão no hospital, quando "as coisas" começam a ficar esquisitas no pronto-socorro. A garota, cansada, racha fora pra casa, faz uma média com o marido e vai dormir. No meio da madrugada, sua vizinha, já zumbificada, invade seu quarto e dá aquele trato no maridão, que logo acorda cheio de fome também. Ana escapa por pouco, e sai rasgando com seu carro no meio de uma cidade que já se tornou um puro caos.

Rola tudo isso em alguns minutos, e o que vem a seguir é uma melhores seqüências de abertura que já vi. A câmera vai se afastando do carro de Ana, e revela uma cidade completamente tomada pela loucura. A cena é recortada com flashes de noticiário relatando a barbárie que está tomando conta do mundo inteiro. Ao fundo, um Johnny Cash arrepiante, com "The Man Comes Around" anunciando o Apocalipse iminente. Pelo caminho, Ana se junta à alguns poucos sobreviventes, como um policial durão (o durão Ving Rhames). Logo, eles se abrigam em um shopping (quase) abandonado. Daí por diante, é aquele famoso "um por todos e todos por um" se transformando lentamente em "cada um por si e Deus por todos".


Um detalhe interessante do filme, é que os monstros são focados de longe, na maior parte do tempo. Apenas quando eles se aproximam, é que você consegue distinguí-los de humanos normais. Isso dá uma sensação de falsa segurança muito legal. Outra boa novidade é a adição do Sistema Morto-Vivo GTI 2.0 Turbo. Os bicharocos fazem inveja à qualquer triatleta, de tão rápidos. Aqui, a concepção dos monstros é similar aos raivosos de Extermínio: a "epidemia" se espalha através de qualquer ferida que os não-vivos causam nos vivos. Daí, a vítima adoece rapidamente, morre e vira monstro canibal em pouco mais de um minuto. O processo todo é um pouco mais lento que em Extermínio, que era praticamente instantâneo. Ah, e uma convenção instituída por George A. Romero (o criador do filme original) continua lá: um morto-vivo sem cabeça é um morto-vivo morto.


Pra finalizar, os (muitos) méritos da produção têm de ser devidamente repartidos. Sarah Polley (do ótimo Vamos Nessa!) segura o filme todo, mesmo sem precisar, como a frágil e corajosa Ana. Ving Rhames, excelente como sempre, está em casa, explodindo dezenas de cabeças apodrecidas com uma 12 cano serrado. O resto do elenco também está ótimo, mas não dá pra ficar falando, senão eu conto o final.

Outro destaque são as pontas de bambas do terror, como o Tom Savini no papel de xerife-colecionador-de-cabeças-de-mortos-vivos, e Ken Foree (ator do filme original), como um pastor televisivo declamando o clássico "quando o inferno ficar cheio, os mortos caminharão sobre a Terra".

O roteiro de James Gunn é todo muito bem sacado, com algumas poucas falhas e o dobro de acertos, como a amizade (através de cartazes) entre o policial de Rhames e Andy, dono de uma loja de armas, "ilhado" em sua cobertura. Ele também foi esperto ao não tentar explicar o fenômeno. Então, nada de conspirações, produtos químicos ou magia negra por aqui. Melhor assim. O desconhecido sempre foi mais aterrador do que qualquer explicação.


Agora, o diretor Zack Snyder está de parabéns, e não é só pelo nome legal dele não. Mesmo sendo 100% estreante (é ex-clipeiro), ele conseguiu tirar do filme aquela aura de "refilmagem de um clássico", que sempre rola nessas situações. Mesmo com a edição modernosa, cheia de cortes rápidos, ele criou um clima tétrico o suficiente para rechear o terror presente na telona. Chamar esse filme de "refilmagem" seria até diminuí-lo. Não supera o original, mas é divertido bagarai.