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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Não leia


Ano passado eu fui atropelado por um caminhão francês chamado Martyrs (2008). O filme é dos mais contundentes e transgressores exemplares do novo terror europeu. E estou sendo político aqui, já que o considero, fácil, o melhor filme que vi em 2009. É um tour-de-force niilista obcecado em mastigar e cuspir todas as convenções que Hollywood plantou no imaginário popular desde sabe-se lá quando. Através dessa poética tijolada na cara, pude mensurar o quão eu estava domesticado pela indústria de sonhos yankee. O filme me fez ter (muita) vergonha a cada falsa expectativa nutrida e a cada desejo involuntário por um deus ex machina que tive ao longo de seus 100 minutos.

E estaria desse jeito até hoje, me sentindo como um poodle boiola de madame de Beverly Hills, se Martyrs não tivesse o requinte de largar o espectador igual a uma barata esmagada na parede.

Seria fácil ceder à tentação e sair metralhando substantivos e adjetivos no frenesi da experiência. O que acabou sendo um entrave pra mim na época, já que respeito o filme demais para estragá-lo o mínimo que seja. Martyrs merece ser apreciado à caráter: nada de reviews na web, nada de sinopses, nada de trailers.

Até mesmo o counter (ou a barra de rolagem) deveria ficar fora de vista. Só você, o que você sabe sobre roteiros e o filme.

Sendo assim, essas linhas não tinham motivos para existir, até chegar a notícia de que Martyrs também ganhará um famigerado remake norte-americano. Que Hollywood está criativamente falida, todo mundo sabe, mas emular uma obra que é praticamente uma ode à sua desconstrução, chega a ser até irônico. O excelente cineasta Pascal Laugier cederá a cadeira a Daniel Stamm, diretor do irregular e mega-estourado O Último Exorcismo.

Ah, sim. Um dos produtores é Wyck Godfrey, o mesmo da série Crepúsculo. E já avisou que adoraria ter Kristen Stewart num dos papéis principais.


* * * * *

Como uma espécie de prêmio de consolação, Martyrs e suas vastas implicações renderam uma belíssima discussão com amigos. No meio do papo, perguntei como poderia escrever bem sem comprometer nada da história e recebi algumas boas dicas. Segue a mais sucinta:

"Vi um filme francês chamado Martyrs. Ainda não me recuperei. Poderia escrever 5 páginas aqui, mas estragaria o filme. Então não vou escrever nada, mas darei o link do torrent procês e ordeno que vejam."

Aqui o link.