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sábado, 5 de novembro de 2011

Working class superhero


Há apenas oito anos atrás, Superman: Legado das Estrelas dividia opiniões sobre a necessidade de recontar uma conhecidíssima história - no caso uma já muito bem recontada por John Byrne em Superman: O Homem de Aço, de 1986. Felizmente, em nome da globalização e de um projeto muito bem cuidado pelo roteirista Mark Waid e pelo desenhista Leinil Francis Yu, a empreitada acabou se justificando. Mas como os melhores inimigos do Superman, o famigerado relaunch sempre retorna. Ele está para a DC assim como a "morte" está para a Marvel. E em ambas as editoras, conceitos como bom-senso e continuidade parecem ter retornado pra caixa de sugestões.

Ciente de que não estou revelando o mistério da energia escura aqui, lá vai: relaunch é uma merda. Ruim se for de um único personagem, pior se for de todos excetuando o que é conveniente. Decisão editorial do tipo que me faz lembrar que leitores de Tex, Zagor, Mister No, Dylan Dog, Martin Mystère, Júlia Kendall e Mágico Vento nunca reclamam. Nada, nem um pio. Taí um clube que eu gostaria de entrar. Mas as coisas são o que são. Metallica e Lou Reed gravaram mesmo juntos, colocaram o Kelso no lugar do Charlie e o Flamengo foi espancado na Sul-americana. "Keep calm and..."

Ao menos a nova proposta para o Azulão é original. Ou quase. É inovadora pra quem tem menos de 60 e não acompanhou outro perfil do Clark que não aquele ideal americano encarnado - a um mícron do übermensch fascistóide explorado em abordagens mais ousadas, como Superman: Entre a Foice e o Martelo (queria eu ter uma foice e um martelo pra acertar na moringa de quem criou esse título) e até a inesquecível série animada Liga da Justiça Sem Limites. Sendo assim, parabéns aos editores da Panini pelo timing afiado: DC+ Aventura #3 é uma modesta porém bela introdução para esse recomeço do Superman.

Na história "A Cara do Autor", um jornalista da velha guarda inadvertidamente dá vida ao velho Superman dos anos 30. O problema é que seu ideal de justiça límpida e efetiva não se aplica à complexidade dos dias atuais. O roteirista Joe Casey sabiamente evita situações apelativas (como um embate físico entre dois Supermen) e faz uma singela homenagem aos valores que o herói defendia em seus primeiros dias. Confesso que essa história me emocionou um tanto mais do que eu esperava, particularmente na resolução do entrevero. Muito bom. De bônus, a edição finaliza com a origem do Superman por Jerome Siegel & Joe Shuster, em duas páginas da mais pura síntese narrativa. Minimalista é pouco.

Action Comics #1 mostra que o novo Superman bebe na fonte primordial de Jerry Siegel, Bill Finger (co-criador não-creditado do Batman) e Don Cameron. Sem mais guerra dos mundos, hipervilões-deidades e space operas em 89 capítulos e 52 tie-ins (por enquanto). Clark voltou a ser o herói dos oprimidos, o defensor da classe operária, o sal da terra. E o escolhido para guiar o novo rumo do personagem talvez seja o mais apto em todo o cenário dos quadrinhos atuais.

Traça que é, Grant Morrison deve ter salivado com a possibilidade de usar tudo o que sabe após todos esses anos de acesso ilimitado aos Arquivos DC. E também deve ter chorado de amargura quando percebeu que nem tudo funcionaria de acordo com o objetivo comercial do relaunch. A coisa toda teria que ser adaptada aos novos tempos. Tempos de Zeitgeist, WikiLeaks, Anonymous, Occupy Wall Street. Tempos de recessão mundial. Estados Unidos e Europa pulando juntos para o abismo. Máscaras de Guy Fawkes dobrando as esquinas.

Desde o nada discreto título da história, "Superman versus The City of Tomorrow", até a dinâmica re-re-repaginada do herói, agora com os pés atolados no chão (literalmente, já que não voa, apenas salta), tudo está em plena sintonia com as pessoas que defende - todo o proletariado que uma grande metrópole como New York, ou Metrópolis, pode comportar. Já de cara, Superman detona um mega-empresário corrupto que celebrava seus novos ativos em seu luxuoso prédio, com direito a champanhe na sacada. Ficção? Talvez o título mais adequado para a história fosse "Superman versus The 1%".

Esse populismo todo provavelmente não vai durar. A 2ª edição já traz um gancho que sugere a volta do antigo background com ênfase no ficcional. Mas a mensagem da estreia não deixa dúvidas.

Narrativamente, porém, Morrison lança mão de alguns recursos bem previsíveis. Cidadãos comuns defendendo o Superman num momento de aperto e a vidinha suburbana do Clark praticamente reedita a fórmula consagrada pelo Homem-Aranha/Peter Parker. Uma operação militar tentando capturar o "monstro" também lembra a rotina de um certo grandalhão esverdeado. Se não depõe contra, muito menos a favor.

E o mais importante: o novo Superman, badass? Acalmai-vos, nerds exaltados de Midgard. Mais reacionário, talvez. Daquela grosseria da Era de Ouro pouca coisa foi mantida, mas nada que lembre a saudável (e visceral) rivalidade com Fletcher Hanks nos áureos tempos. Morrison se segurou, por motivos óbvios.

Ainda não será dessa vez que ele fará o "escoteirão" escapar de uma perseguição sem deixar testemunhas.




DC+ Aventura #3


Action Comics #1