Parece que foi ontem, mas a antológica
J. Kendall - Aventuras de uma Criminóloga #11 foi publicada pela
Mythos há longínquos 15 anos. Na história
"Repouso Eterno", a irresistível bonequinha de luxo/especialista forense
Júlia Kendall (
bem vinda!) investiga um pavoroso assassinato em uma casa de repouso da fictícia Garden City.
Menos é mais, porém não resisto a comentar que são
três subtramas em paralelo. Pessoalmente, não consegui antecipar aquele final nem com meus chutes mais mirabolantes.
"Repouso Eterno" ainda vai além do roteiro sempre inspirado de
Giancarlo Berardi: a HQ é marcada pela arte do genial artista milanês
Sergio Toppi. Foi uma daquelas ocasiões, por assim dizer, de rara beleza.
Apesar de já ter feito um
Martin Mystère aqui e um
Nick Raider acolá, Toppi aceitava essas empreitadas mais pela
amizade que tinha com o Sergio Bonelli. 300 páginas de um
Texone então, nem pensar.
O que é totalmente compreensível.
Como visto nos inebriantes volumes de
Sharaz-De, Toppi e o formato limitado de uma publicação convencional –
fumetti ainda – não poderiam soar mais dissonantes. Então, essa é uma experiência imperdível tanto por ser
Toppi-desenhando-Júlia como pelo exercício de estilo fora de sua zona de conforto.
E um senhor
objeto de estudo para qualquer um que se atreva a segurar um lápis com pretensõezinhas supostamente criativas.
Uma maravilha em dosagem (quase) controlada.
Ainda assim, é duro ver um maestro do calibre de Sergio Toppi criminosamente negligenciado no Brasil. Em que pesem os heroicos esforços da
Figura Editora, sua bibliografia lançada até aqui
ainda é anêmica. O pior é que material compilado em alta definição não falta: a editora francesa
Mosquito vive publicando Toppi – piscou,
lançou outro álbum. Então não vejo muita explicação que não seja aquele velho amadorismo endêmico que tanto nos queixávamos até... ontem.
Não é, Mythos?
J. Kendall - Aventuras de uma Criminóloga #11 está sendo republicada em formato italiano na série limitada
Júlia - Aventuras de uma Criminóloga (já sartando das
amarras autorais envolvendo o nome). Porém, num olé monstro que a Mythos aplica em si mesma, Toppi não é
sequer mencionado na pré-venda da loja virtual, nem no blog e nem em suas redes sociais. Conferi agora e não tem nada, nadinha.
Júlia-gibi é um troço absurdo. Metanfetaminicamente viciante. Quase impossível largar antes de terminar. Pelo Toppi, então... Um negócio desses era para ser alardeado desde o início do ano. Ou da série. Mas nem tentaram. Estratégia de marketing do mínimo esforço possível.
Como problema pouco é bobagem, não é de hoje que a Mythos tem sérias questões com a qualidade da impressão de seus títulos. Isso era para ter sido sanado nos relançamentos em formato italiano (
Júlia,
Dylan Dog), que têm a vantagem do miolo em papel offset, mas não foi bem isso que vimos ultimamente.
Ainda assim, não deverá ser pior que a versão anterior, impressa em pisa-pobre numa HP achada no lixão e recondicionada.
Assassinaram sem dó o magnífico chiaroscuro do Toppi.
Sad face aqui, por favor.
Aliás,
nerd leitor teimoso que sou (já fui mais), fico martelando como seria tão melhor se essa história fosse publicada na
Júlia Graphic Novel. Toppi equivale a exatos 10 gazilhões de Antonio Marinetti (titular do nanquim no 1º volume). E assim a qualidade editorial, de impressão e tudo o mais estariam assegurados na jurisdição Prime Edition – afinal, algo tem que justificar aquele infame
hot stamp dourado/licença para matar o bolso alheio.
Mas desconfio que a redação da Mythos esteja mais empenhada em
outros assuntos. Azar o meu.
Seja como for, sempre terei a Júlia. E as hilárias justas entre ela e o Webb.
Papo antigo...