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quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Uma lenda para a eternidade


Geoffrey Arnold "Jeff" Beck
(1944 - 2023)

2023 só está começando e já não é para fracos. O lendário Jeff Beck se foi no último dia 10, surpreendendo todo mundo.

Beck estava a toda, gravando, excursionando e fechando colaborações várias. Quando ouvi suas participações em duas músicas de Patient Number 9, último álbum do Ozzy, me admirei com sua disposição, técnica e musicalidade inesgotáveis.

E assim tem sido sua carreira, sem parar, desde 1962. Seja com sua antológica passagem-relâmpago pelo The Yardbirds (recomendado pelo irmão-de-armas Jimmy Page para o posto que era de Eric Clapton), com a superbanda Beck, Bogert & Appice, como The Jeff Beck Group ou na sua longeva discografia solo.

Mesmo transitando sem o menor pudor pelo blues rock, eletrônica, jazz fusion, hard rock, funk e rockabilly, Jeff Beck era uma rara unanimidade. Influenciou gerações e era admirado por todos. Inclusive pelos maiores...


E este pobre mortal não ousa comentar mais nada.

Aliás, só mais uma coisa: assim que puder, o Blow by Blow vai direto pra agulha (simbólica) no volume 11...

sábado, 22 de outubro de 2022

Tim Maia em suas próprias palavras


Difícil pensar numa conexão mais esdrúxula que Frank Zappa e Tim Maia. Mas a docussérie Vale Tudo com Tim Maia, produção da Globoplay codirigida por Nelson Motta e Renato Terra, mostra que existem mais similaridades entre o fusionista de Baltimore e o soulman da Tijuca do que julga a vã filosofia. A começar pela própria natureza musical: compositores multi-instrumentistas autodidatas (apesar de Zappa dominar tudo de teoria) que estrearam na carreira como bateristas. E um dos aspectos mais importantes, que era a saudável mania de registrar tudo o que fosse possível, de conversas informais e coletivas de imprensa a ensaios e bastidores.

Uma semelhança em vida que tornou possível uma bem vinda semelhança póstuma.

No doc Eat That Question: Frank Zappa in His Own Words (Thorsten Schütte, 2016) — que já mencionei en passant, inclusive — fiquei maravilhado com a proposta old school de conduzir o filme apenas com materiais de arquivo. E mais ainda com o volume impressionante desse material, que possibilitava uma narrativa com início, meio e fim amarrando cenas bem difundidas com outras obscuras e/ou raríssimas. Tudo isso sem apresentadores ou narrações em off, apenas com breves legendas para efeitos contextuais e cronológicos.

É muito bom ver que o formato não só foi possível no caso do Síndico, como funcionou à perfeição. Tim Maia era o melhor promotor de si mesmo. A série em três capítulos reúne registros pessoais doces e bucólicos com sua família e com as crianças do orfanato Lar de Narcisa (graças à colaboração de seu filho Carmelo) ao lado de típicos "momentos Tim Maia", antológicos, e muita, mas muita música. As sequências da fase de shows em bailões de subúrbio, em particular, são sensacionais, com lotação sold out e público enlouquecido. E claro que as pirações-Maia também têm seu espaço garantido. A fase Racional tem o merecido lugar de destaque, bem como a entrevista de um Tim doidão para o Otávio Mesquita após um show caótico em que até o Fábio Jr. foi convocado ao palco para dar uma "ajudinha" nos vocais.

Essenciais também são as passagens de Tim pelo Cassino do Chacrinha. O cantor trovejando no palco cercado pelas gostosíssimas Chacretes é o puro suco de Brasil dos anos 80. E bola dentro para a inclusão da bizarra cena que resultou na briga do Síndico com o Velho Guerreiro.

Em contrapartida, o mesmo programa foi palco do lindo dueto de Tim e Gal Costa, que simplesmente para de cantar só para ficar admirando o vozeirão do homem. Momento fanzoca total, paralelo ao trecho da entrevista no programa Gente de Expressão, da Bruna Lombardi. Num momento confessional sobre a dualidade da fama e o preço da solidão, Tim derrete o coração da entrevistadora com uma palhinha de "Não me Iludo Mais". E emenda com um "mas a voz é foda, né?", quase como se estivesse se referindo a outra coisa ou pessoa. Um momento que sintetiza todo o embate entre o Tim e o Sebastião.

Uma amostra da esportividade de um dos realizadores foi a inserção do dueto ao vivo de Tim e Marisa Monte. Cantando "Chocolate" abraçadinho com a artista, Tim dá uma provocada: "Nelson Motta, cê tá cheio de ciúme, né? Nós estamos só vendo que música que nós vamos cantar, cara. Calma, bróder." Divertido, com certeza, mas ganha a ressonância de piada interna para quem leu a bio/ensaio Noites Tropicais (2000), do notório produtor.

Vale Tudo com Tim Maia é uma deliciosa (e rápida) viagem pela carreira do Síndico. Imperdível documento histórico para admiradores do músico ou simplesmente de música popular brasileira. E funciona ainda melhor em conjunto com o especial de tevê Por Toda a Minha Vida: Tim Maia, de 2007, e, logicamente, o livraço Vale Tudo: o Som e a Fúria de Tim Maia (2006), de Motta.

Ao contrário do Tim, esses não podem faltar...


sábado, 8 de maio de 2021

Cedo ou tarde vem


Genival Cassiano dos Santos
(1943 - 2021)

Se foi o gênio Cassiano. E consigo levando todo um ciclo da música brasileira, mais um punhado de certezas inconvenientes.

Quem conhece do riscado carregou silenciosamente por décadas o dilema "vai chegar o dia em que Cassiano vai partir e, com muita sorte, vai sair uma notinha de rodapé nos jornais". E, infelizmente, foi isso mesmo. Só que nos portais. A crônica de um absurdo há muito anunciado. Se o mundo fosse justo, o velho mestre paraibano teria a fama e a conta bancária do Roberto Carlos.

Ex-ajudante de pedreiro, Cassiano iniciou a carreira na música em 1964, tocando violão no grupo Bossa Trio. Mas logo ele trocou o samba jazz do conjunto pela influência do fervilhante soul e rhythm and blues americano no grupo vocal Os Diagonais. O amigo Tim Maia adorava. Tanto que Cassiano assinou quatro músicas do disco de estreia do Síndico, entre elas os diamantes "Eu Amo Você" e "Primavera (Vai Chuva)".

Com a excelente repercussão e a moral nas alturas, ele finalmente deu início à sua curta carreira discográfica solo com três clássicos atemporais: Imagem e Som (1971), Apresentamos Nosso Cassiano (1973) e Cuban Soul – 18 Kilates (1976). Álbuns essenciais em que Cassiano expande as possibilidades do soul, do funk, do r&b e do rock com toda a sofisticação e hermetismo que foram suas marcas registradas – e que, provavelmente, selaram sua carreira à margem do grande público. Afinal, para cada hit certeiro como "Cedo ou Tarde", "Coleção" e "A Lua e Eu", coexistiam releituras excêntricas (e brilhantes) de gênero como "Castiçal", "Cinzas" e "Onda". Sua inventividade era um dom implacável.

Com a palavra, Nelson Motta.


E foi isso. Ou quase.

Quinze anos depois, Cassiano passou por uma parca tentativa de revival com o disco Cedo ou Tarde (1991). Lotado de participações (Luiz Melodia, Djavan, Marisa Monte, Ed Motta, etc), o álbum funciona apenas como curiosidade e pelos breves lampejos em que o mago do soul vence a sonoridade pasteurizada e a direção musical equivocada da produção despejando todo o feeling e groove acumulados em anos de ostracismo. Uma master class para poucos.

Cassiano era um gigante, mas o velho dilema melancolicamente se cumpriu.

O lado bom? Onde quer que esteja, com certeza está desfrutando de uma companhia à altura. E sedenta por uma jam com o homem.