quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O universo e um pouco de nós


Em se tratando quadrinhos nacionais, Mauricio de Sousa® ainda é, de longe, nossa melhor história de sucesso. Boa parte dos leitores brasileiros em algum momento se rendeu à galeria de personagens do autor. Foi o meu caso: bem guri, me iniciei nos gibis direto com o Incrível Hulk e o Homem-Aranha, no meio daquele típico tiroteio narrativo. Fui fisgado de primeira, mas foram as criações do Mauricio e do mestre Ziraldo que, logo depois, amaciaram o processo, tornando-o mais amigável e didático. Pra mim, funcionaram como uma perfeita escada para compreender mundos mais cinzentos e complexos.

O paralelo com os quadrinhos da Disney era quase imediato: historinhas curtas e lúdicas convivendo com aventuras mais rebuscadas e ambiciosas. E entre todos os integrantes da "turminha", o Astronauta era certamente o mais audacioso ao protagonizar antigos dilemas humanos sob uma cortina de escapismo infanto-juvenil. O personagem estreou nas tirinhas do Diário de São Paulo, no longínquo ano de 1963. A corrida espacial estava no auge e, junto com os quadrinhos do Flash Gordon de Alex Raymond, foi uma grande influência para Maurício. Mas foi seu toque pessoal, um tanto melancólico, que deu uma alma para o herói.

Astronauta Pereira - é o nome dêle mesmo² - explorador espacial da BRASA (Brasileiros Astronautas!), desbrava mundos estranhos e eventos cósmicos nos confins do universo enquanto morre de saudades de sua terrinha natal e da sua namorada, a Ritinha. Uma premissa simples e de apelo universal que ilustrava verdadeiras metáforas à passagem para a vida adulta e às coisas tão importantes que deixamos para trás. Ele poderia muito bem ser o protagonista da música "O Portão", do Roberto Carlos.

Em Astronauta: Magnetar, o roteirista Danilo Beyruth (Necronauta, Bando de Dois) não apenas resgata esses valores abstratos e perenes, como também os amplifica, conferindo uma notável carga de dramaticidade. Daquele humor ingênuo, há pouco ou nada - no máximo, momentos de tensão mais baixa funcionando como doses homeopáticas de alívio. O que não significa que o clima sombrio monopolize o conto: apesar do suspense e da atordoante vastidão do espaço ocupar boa parte do sensorial, é difícil não se sentir seduzido por aquele espetáculo misterioso, imponente, indescritivelmente belo e, parafraseando Ellie Arroway, poético.


Na história, Astronauta cruza o espaço para investigar de perto um magnetar. O objeto cósmico, sugestão de um amigo astrônomo de Beyruth, é dos mais intrigantes e é apresentado com detalhes ao leitor, ao melhor estilo Ler e Saber - Enciclopédia Juvenil em Côres (estamos saudosistas hoje!). O que, por si só, já renderia um belo exercício de imaginação e ciência, porém o enredo ainda reserva um uso muito bem dosado de alguns velhos artifícios cinematográficos. Beyruth fuçou fundo no seu baú de referências da 7ª arte - todas impressas no imaginário popular desde que ganharam o mundo.

Estão lá as experiências extra-sensoriais de 2001 - Uma Odisseia no Espaço, o suspense petrificante de Alien, droids médicos que parecem saídos de O Império Contra-Ataca e até mesmo uma cena com Astronauta selecionando um de seus trajes como se fosse Tony Stark escolhendo uma de suas MARKs. Mas talvez a maior aproximação - provavelmente involuntária - tenha sido com Solaris, filme de 1973 de Andrei Tarkovsky adaptado do romance de Stanisław Lem.

Em meio aos sintomas demenciais causados pelo longo período de isolamento (retratado de maneira genial por Beyruth), há uma conexão profunda serpenteando matreiramente entre as obras. Solaris teoriza sobre o encontro de humanos com seres tão diferentes de nós que qualquer tipo de comunicabilidade é virtualmente impossível - um dos itens mais inquietantes do Paradoxo de Fermi, por sinal. Durante a leitura da graphic, percebi que isso poderia facilmente ser estendido não apenas ao conceito de vida que nós conhecemos, mas principalmente àqueles que mal concebemos sua existência.

Tal qual Solaris, um planeta senciente, e a influência devastadora que exerce sobre os astronautas que se aproximam dele, qual seriam os efeitos que um evento da magnitude de um magnetar causariam em uma pessoa em um nível psicológico e/ou químico?

É o abismo olhando de volta...


Criada e batalhada pelo Sidney Gusman, a série Graphic MSP teve em Astronauta: Magnetar um debut de primeira linha, aliando boas opções de formatos/preços (o calcanhar de Aquiles da série MSP 50) a um produto de excelência, como se vê na qualidade gráfica irrepreensível. Isso não apenas reflete o ótimo momento do mercado editorial brasileiro como propõe novas abordagens para a formação de futuras bases de leitores. A importância disso vai muito além de uma boa jogada comercial.

A nota destoante vai para os créditos quase en passant dedicados à talentosa colorista Cris Peter, cujos tons ousados e sui generis fogem do lugar-comum e fazem toda a diferença no quadro geral. O diálogo de suas cores com a arte-final cria momentos de tirar o fôlego, como na magnífica splash-page das páginas 68-69.

Como bônus especialíssimo, nada mais adequado do que o posfácio escrito pelo navegador, escritor e aventureiro Amyr Klink. Foi até covardia. E fecha uma viagem inesquecível para o leitor e transformadora para o personagem.

Afinal, novamente citando 2001, foi uma oportunidade única podermos testemunhar o nosso bom e velho astronauta Pereira mergulhando em paradoxos existenciais tão incríveis quanto os do astronauta Bowman.


In an interview with Rolling Stone, Waters explained that the song's lyrics were an attempt to describe "the potential that human beings have for recognizing each other's humanity and responding to it, with empathy rather than antipathy." He has also stated in many interviews that this song is the ideological predecessor to The Dark Side of the Moon, for in "Echoes" he began to focus the music of Pink Floyd on people and the issues facing humanity rather than fantastical space trips and psychedelic imagery — Via

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

OMNI Produtos para o Consumidor® orgulhosamente apresenta:


Diretivas parciais:

1. Sai Capitão Nascimento, entra Neill Blomkamp e Dredd 2012;

2. Efeitos, ação e sci-fi genéricos + iRoboCop 5G + longas apresentações em flash holográfico;

3. Peter Weller > Joel Kinnaman | Michael Keaton = Steve Jobs;

4. ?


Ps: só lembrando do tempo em que as reuniões da OMNI eram mais animadas...


...e nada PG-13.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

The Dark Affleck Returns

O anúncio foi feito, não adianta espernear. E vai se acostumando, pois a coisa deve ir longe.


"Sim, Comissário. É o Batman."

Grandes estúdios não têm o hábito de plantar trollagens em escala global sobre seus projetos mais aguardados. Sendo assim, vamos destrinchar um pouco melhor essa porrada que você tomou quando abriu seu browser naquela manhã de sexta-feira (que não era 13, mas era 23).

O projeto do crossover cinematográfico do Batman com o Superman não é novo. Há pelo menos 10 anos vem sendo ruminado pela Warner, mesmo antes do boom super-heróico via Marvel Studios. Mas sempre retornava à gaveta, talvez pela falta de precedentes de um universo integrado dos quadrinhos no cinema. O mais perto que chegaram foi em 2002, num projeto que seria dirigido por Wolfgang Petersen (Mar em Fúria) e que acabou não saindo do papel - felizmente, visto que o script era uma trasheira de grosso calibre.

Mesmo o enorme sucesso da trilogia do Batman de Christopher Nolan não parecia animar os executivos a apostarem numa série de franquias interligadas. Mas os filmes da Marvel chegaram e mudaram as regras. Foi um sinal verde para a Warner e até para a Fox, que já quer os X-Men coexistindo com o Quarteto Fantástico no cinema.

Parafraseando Marcelo Rezende, corta pra 2013: Ben Affleck como o novo Batman já é o maior meme ligado à adaptações de HQs dos últimos anos. Fazia tempo que um filme em pré-produção não gerava tanto feedback - a esmagadora maioria negativa (71% dos tweets, desde a última medição), num consenso que reconhece a trajetória ascendente de Affleck como cineasta, mas que ainda não o livra da condicional por ter protagonizado Demolidor - O Homem Sem Medo em 2003.

É injusto dizer que foi culpa exclusiva dele o fato dessa adaptação ter sido decepcionante. Mas teve a sua parcela...


Em geral, as vozes a favor defendem sua evolução como ator e/ou condenam veementemente a expressão de opiniões sobre algo que ainda nem saiu do papel. Mas dedução e especulação são habilidades desenvolvidas pelo ser humano ao longo de milhares de anos de evolução. Não vamos reprimi-las agora, não é?

Primeiro os contras.

A contratação de Affleck representa não apenas um enorme retrocesso no programa de adaptações cinematográficas da DC, mas principalmente, revela que os executivos da Warner ainda não compreenderam o fenômeno. Herói com um rosto conhecido do grande público? Não há necessidade disso e talvez nunca houve. O público que irá lotar as primeiras sessões será o mesmo que compra os quadrinhos religiosamente há anos e o mesmo que espalhará a palavra aos 4 cantos da internet. Simples assim. Essa estratégia de "rostos familiares" como chamariz de público leigo deve ser relegada ao núcleo coadjuvante, como foi feito em O Homem de Aço - e penso agora que a escolha de Henry Cavill deveu-se mais à influência de Christopher Nolan que qualquer outra coisa.

Talvez a ideia seja fabricar um novo Robert Downey Jr. que conduzirá a DC à terra prometida de Hollywood. Mas parece que esqueceram que Downey Jr. foi cozinhado em fogo brando nos dois longas que precederam Os Vingadores e, principalmente, esqueceram quem ele era antes de vestir a armadura do Homem de Ferro. Uma dica: não era um mega-star.

O fim da trilogia "realista" do Batman também marca o início do grandioso UDC nas telonas. Isso não é pouco. Estamos num daqueles momentos-chave, onde novos conceitos e abordagens têm que ser explorados. E o morcego, com perdão do trocadilho, precisa de sangue novo. Não de um déjà vu.

Há uma sensação muito forte de que Ben Affleck não é Bruce Wayne. Nunca imaginei o sr. Wayne com a cara do Christian Bale também, mas, além de ser um ator diferenciado, Bale emergia de um background sombrio, perturbador e visceral, construído com performances memoráveis em filmes como Psicopata Americano e O Operário. Em outras palavras, não deu certo por acidente. Bale já estava com um pé no velho poço abandonado.

Também foi escrito por aí, ad nauseum:

"A escolha de Heath Ledger para o papel do Coringa também foi duramente criticada na época e antes ele era o cara de '10 Coisas que eu Odeio em Você'". 


Primeiro, as reações nem chegaram ao calcanhar do Bat-Affleck. Segundo, o Coringa é um passe livre para a anarquia, do tipo do-or-die/tá-com-medo-pra-quê-veio, sem meio-termo, um presente pra qualquer ator com sede de improvisação. Já o Batman é outra viagem, completamente oposta em tom, atitude e racionalização.

Quanto à 10 Coisas, uma comédia inofensiva, foi o pior argumento usado até agora. Afinal, até James Cameron carregou piano.

Também tem a variação piorada: "...antes ele era o cowboy boiola de 'Brokeback Mountain'".

O que, ao meu ver, é um grande elogio. Ledger, que já tinha impressionado em Os Reis de Dogtown, demonstrou ali o reflexo de um ator comprometido com a arte, ciente do papel e da dimensão de sua profissão e sem medo de desafios. Ou seja, a escolha só revoltou neófitos mesmo. Definitivamente, o Ledger-Coringa não é o parâmetro para essa comparação. Pelo menos não numa conversa séria.

Mas o maior problema é que Ben Affleck (ainda) parece um garotão boa-praça. Não vejo amargura, obsessão, rancor ou austeridade no seu olhar. Não consigo vê-lo dando esporro no "Clark" e enfiando lições de vigilantismo cinza-fascistóide naquela mentalidade pacata do Kansas.

Os prós?

Affleck de fato evoluiu como ator na última década. Nada estratosférico, apenas o suficiente para transitar pela tela discretamente e não cimentar os personagens em seus próprios maneirismos. Inclusive aprendeu até a dissimular tensão e seriedade de forma natural e convincente.


"Sr. Wayne, seu projeto de pesquisas está pronto." - "Obrigado, Lucius."

A maioria das críticas lembra de sua atuação como o Demolidor, pela semelhança óbvia de ser outro vigilante noturno dos gibis. Mas esquecem seu eficiente desempenho na pele do agente Jack Ryan, no thriller A Soma de Todos os Medos (2002), sucedendo ninguém menos que Alec Baldwin e Harrison Ford. Foi um dos melhores laboratórios que um ator poderia ter feito para o papel de Bruce Wayne/Batman. Espionagem, conspirações nos altos escalões do governo e deadlines dramáticas dividindo espaço com intensas sequências de ação - parece mesmo um dia no escritório do cruzado encapuzado.

Mas o mais importante é que Affleck transmitia credibilidade no papel. Sim, ainda soava como um novato, porém, um talentoso, confiável e obstinado. E com segurança o suficiente para duelar com gigantes do porte de Morgan Freeman, James Cromwell e Ciarán Hinds. A longeva aura de californian boy foi quase totalmente apagada.

Isso foi há onze anos - curiosamente, um ano antes de Demolidor. Se o Batman de Affleck for mais Jack Ryan e menos Matt Murdock, já é um começo.

Talvez o melhor aspecto dessa improvável parceria seja as ramificações do misterioso contrato. Os burburinhos dos sites de cinema dizem que o acordo é multifranqueado. Affleck se tornaria assim o responsável pelos próximos longas do Batman no cinema. Um acordão.


É inegável que Affleck se tornou um cineasta muito interessante. E não é de hoje: já em sua estréia na direção, no bom Medo da Verdade (2007), ele impressionou com uma construção sólida e um storytelling seco, sem perfumarias. Aliás, o crescendo atmosférico é das suas melhores características. Ele não tem pressa e valoriza o build up, ao contrário do estilo recortadinho de Nolan. Outro destaque é a sua estratégia de deixar os atores bem à vontade e com bastante espaço para trabalhar, mostrando que ele viu com atenção os filmes dirigidos pelo Clint Eastwood.

Sem dúvida, é um diretor cuja visão do Batman eu gostaria muito de conferir. Mas, pesando os prós e os contras do que sei sobre o dossiê Affleck, não diria que foi uma boa escolha como o ator que envergará o manto. Ainda mais com tantos candidatos em que a carapuça (ou a capa) cairia mais naturalmente. Aquele lance da afinidade com o lado negro, saca.

Enfim, coisas da Warner, como sempre. E tome o vídeo do Kevin Smith de novo.

Aliás...


...fico só imaginando o que Holden acharia disso.

Ps: Ok, ok, Bryan Cranston como Lex Luthor foi bola dentro...

sábado, 24 de agosto de 2013

Assim é como a diversão começa

E olha que trailer bacana da HQ de apocalipse zumbi do Archie:


Afterlife with Archie tem roteiro do Harveyrizado Roberto Aguirre-Sacasa e desenhos do Eisnerizado Francesco Francavilla. Pelas prévias que foram liberadas recentemente, parece que o ectoplasma ainda encarnado de George A. Romero vai baixar com vontade em Riverdale.

Sente o drama:


Até Hot-Dog foi pro saco!

Recado da Archie Comics Publication:

"...will be Archie's first direct market only, NOT for all ages, horror title"

Imperdível é pouco. Afterlife with Archie começa a ser publicado dia 9 de outubro. Lá fora, claro. E aqui, ali... depende das suas fontes.

sábado, 17 de agosto de 2013

O homem que não tinha tudo


Sempre achei meio complicado comentar qualquer filme do Superman. Sou da 2ª geração de guris arrebatados pelo saudoso Christopher Reeve em sua personificação do herói. Meu caso, por sinal, é perdido: até hoje sou fascinado pela quadrilogia inteira, mesmo com a metade dela sendo muito ruim e toda ela muito envelhecida. O que nunca foi problema pra mim. Revejo aqueles filmes como alguém que relê um bom gibi da Era de Prata. Fora isso, tenho a forte sensação, não apenas nostálgica, de que aquela (ingênua) mensagem de respeito, caráter, esperança e altruísmo jamais será igualada. Ou mesmo almejada. Os tempos são outros. Mas pelo próprio bem do personagem, a necessidade de se aventurar nesse mundo atual cinzento com matiz verde-blockbuster é prioridade.

Em 2004, quando a Warner contratou Bryan Singer para dirigir o novo filme do Superman, houve uma celeuma natural entre os fanboys, ávidos por um herói atualizado em discurso, estética e, principalmente, ação, ah, a ação. Poucos pareciam tão aptos para a tarefa quanto o sujeito que viabilizou os X-Men nas telonas. Para desespero do público, Singer se deixou seduzir novamente pela magia temporã de Richard Donner e fez da produção um tributo aos dois superfilmes que, de um jeito ou de outro, levaram a sua assinatura. Apesar de alguns poucos terem se reconectado uma vez mais àquele espírito e secretamente agradecido ao Singer por isso (arram), todos concordaram que foi uma chance desperdiçada de repaginar o herói para uma dinâmica moderna e assim seguir em frente com a mitologia.

A possibilidade de ver o Superman do cinema enfrentando ameaças da sua ordem de grandeza - entre as numerosas opções de sua galeria de vilões - voltou a ser longínqua e onírica, quase improvável. Parecíamos fadados a reprises de Neo vs. Agente Smith e devaneios à base de Dragonball Z. Porém, com a ajudinha indireta de um colega de capa, uma nova chance não tardou.

O Homem de Aço (Man of Steel, 2013) veio para assumir essa responsabilidade e, com a direção nada sutil de Zack Snyder, fez o que parecia impossível, possível. Felizmente, meus temores se revelaram infundados. O filme não só apresenta o personagem para o século 21, como responde sem firulas velhas trivias nerd sobre sua contraparte cinematográfica. Por exemplo, qual o estrago que um ser como ele poderia fazer numa metrópole - ou Metrópolis - retratada da forma mais realista possível para uma superprodução hollywoodiana. Nada muito reflexivo ou existencialista, mas a pegada principal não era essa.

Ainda que David S. Goyer tenha acumulado pontos via Batman, seu roteiro, baseado na premissa concebida com o normalmente cerebral Christopher Nolan, se rende com frequência ao fan service. O que, em teoria, não é diferente do praticado no cinemão pop estadunidense pelos Bays e Emmerichs da vida, não fosse por um detalhe primordial: é um filme do Superman, a.k.a Clark Kent, rapaz do Kansas criado por pais adotivos com um grande senso moral e uma visão humanista do mundo. Eventualmente, isso entra em conflito com o perfil blockbuster da história e também mostra que O Homem de Aço herdou mais da trilogia quiróptera de Nolan do que um mercado comercialmente favorável.


O começo do filme é punk puro. Vemos os turbulentos dias finais de Krypton, outrora uma grandiosa civilização interplanetária, agora decadente e varrida por uma tentativa de golpe liderada pelo renegado General Zod (Michael Shannon). Completando o worst case scenario, o núcleo do planeta entrou em colapso e está na iminência de explodir, impossibilitando assim qualquer chance de sobrevida, exceto uma: o codex genético no qual estão armazenadas as linhagens de toda a raça kryptoniana. Não por acaso, é o objeto de desejo máximo de Zod, que planeja erguer uma nova Krypton sob seu comando, aplicando seus próprios parâmetros de eugenia.

Como uma última grande conquista do Krypton way of life, Zod e seus seguidores - entre eles a formidável operativa Faora-Ul (Antje Traue) - são derrotados, presos e enviados à Zona Fantasma. Tudo graças à intervenção do líder cientista Jor-El (Russell Crowe), que frustra os planos do militar ao mesmo tempo em que envia seu famoso filho recém-nascido à Terra para escapar do destino de Krypton. Adotado pelo casal Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), Clark, a.k.a Kal-El (Henry Cavill), atravessa a vida escolar deslocado e solitário, até que um dia sai pelo mundo em busca de suas raízes. Pelo menos, até ser rastreado pela repórter investigativa Lois Lane (Amy Adams). Assim, nasce uma mitologia moderna - que logo é posta à prova quando Zod e seus camaradas aportam na Terra com intenções nada diplomáticas.

Snyder deixa claro que o objetivo é reformar o universo do Superman desde as bases mais profundas. Krypton nunca foi visto assim fora dos quadrinhos. O que era um planeta asséptico e estéril em sua concepção prévia, virou uma esfera terrígena cheia de vida, não fazendo feio nem perto de Pandora, embora nitidamente debilitada pela falência de seus recursos naturais. O estilo da arquitetura traz a impressão de estarmos vendo alguma splash page do saudoso Moebius ganhando vida. Sendo apenas uma introdução, pouco é revelado sobre a cultura e o contexto social. Percebe-se o contraste de uma sociedade avançada para os padrões humanos, mas não tanto a ponto de abrir mão de trabalho animal ou de superar dogmas arcaicos. Um toque bastante mundano por parte do roteiro. E sobretudo, eficiente: ao mesmo tempo explica por que Krypton abandonou a expansão para outros planetas e suas respectivas terraformações (ou seriam kryptoformações?) e por que não iniciou um êxodo pelo espaço para salvar seu povo da extinção.

Esse aspecto também ajuda a compor a inesperada tridimensionalidade do personagem Zod.


Diferente do oficial aristocrata eternizado por Terence Stamp, o Zod de Michael Shannon é um nacionalista, um soldado comprometido com a missão da sua vida. Portanto, nada de "kneel before Zod". Do levante antigovernista em seu planeta natal até suas ações genocidas na Terra, seu intento é um só: a salvação da sua raça, não importa o custo. E pensando bem... importaria? Se qualquer um faria o mesmo em seu lugar ou se Krypton já teve sua chance é uma questão ética que sustenta uma boa discussão. O fato é que resumí-lo como vilão com uma raison d'être tão autêntica já não fica tão simples assim. A cena em que Zod, desesperado, apela para que a esposa de Jor-El, Lara (Ayelet Zurer), não lance a nave com o codex (e seu filho) destaca ainda mais a ambiguidade da situação.

Mais pra frente, o filme acaba cedendo ao tomar partido na cena da bad trip do Superman, onde ele descobre os planos de Zod para os nativos da Terra, mas até ali o saldo conceitual era muito positivo. É mais do que se poderia esperar de um filme-pipoca. E não para por aí.

A cinebiografia do Clark pré-Superman ainda é escassa em detalhes, mas ganhou no filme uma profundidade inédita até então. Cair na estrada como um benfeitor anônimo, ao velho estilo "David Banner", se revelou um recurso ainda eficiente. Foi uma boa estratégia pra ficar fora do radar e, ao mesmo tempo, antenado com o mundo à sua volta, atrás de qualquer sinal de anormalidade que possa ter alguma conexão com a sua origem - com direito a uma certeira inserção de "Seasons", do Chris Cornell. Cavill convence como bom-moço mezzo decidido mezzo inexperiente. Conseguiu não apenas caracterizar o Superman em formação, como também guiar o espectador pela trama.

A única ressalva vai para a quantidade pífia de linhas à sua disposição. Mesmo transmitindo serenidade no papel, Cavill foi um tanto amordaçado pelo script, sugerindo um certo pé atrás do diretor com seu ator - quase reeditando a tática de Bryan Singer com o então novato Brandon Routh, no Super 2006.

Bobagem. É fácil ver a competência dele, especialmente na cena breve, mas marcante, que dividiu com Kevin Costner. Que, por sinal, foi uma excelente escolha para o pai adotivo do escoteirão. Com sua bagagem de veterano e de ex-#1 de Hollywood, Costner passa toda a confiabilidade e afetuosidade que se espera do papel. Mas, ironicamente, veio do personagem dele o primeiro sinal de que havia algo de errado no ar.

Na verdade, "sinal" é pouco... eu diria mais um direto de direta, onde Jonathan mostra que não é um caipira do Kansas e sim dos Ozarks:

"Clark, you have keep this side of yourself a secret."
- "What was I supposed to do, just let them die?"
"Maybe."

E conclui:

"There's more at stake here than just our lives and the lives of those around us."

Grande Júpiter.

Ou ele projetava um Clark sociopata e tirânico para o futuro ou foi substituído por um Jonathan Bizarro com as melhores (ou "piores") intenções. Logo ele, recém-saído da boa caracterização de John Schneider na série Smallville. Aconselhar Clark a não salvar a vida de inocentes - crianças ainda - para esconder o que fosse nunca fez parte de seu perfil, seja em qual versão ou mídia. Jonathan seria expulso do Hall dos Mentores das HQs na hora, pelo Ben Parker em pessoa, que entoaria sua mais célebre frase com a voz de James Earl Jones pra ele nunca mais esquecer.

Desnecessário chafurdar a fundo nesse absurdo, mas vamos considerar que essa é sua natureza no filme, de alguém preocupado e temeroso pelo futuro do filho, como qualquer pai seria. Dadas as circunstâncias, faltou um "pouquinho" mais de fé no garoto ali. Especialmente num garoto invencível e invulnerável que literalmente foi um presente dos céus. Ou seria tudo uma alusão ao homem comum de hoje, mais amargo, pragmático e menos afeito à solidariedade e amor ao próximo, valores esses massacrados diariamente nas manchetes policiais? Se foi, faltou combinar.

De quebra, Jonathan ainda sai de cena vitimado pela própria lógica, de forma ainda mais melancólica, mesmo que pontuada pela soberba atuação de Costner. Nem todos os memes disponíveis na web fariam jus a esse tremendo fail do roteiro de Goyer, mas, como consolo, foi fichinha perto do que estaria por vir.


Verdade seja dita, nenhum filme baseado em quadrinhos de super-heróis teve sequências de ação como O Homem de Aço. É o mais próximo de um vale-tudo entre superseres que o cinema produziu até hoje. Não deixa de impressionar a evolução na área desde X-Men, há exatos 13 anos atrás - e que agora fica parecendo até um filme do Roger Corman. Isso graças à mão pesada e vertiginosa de Zack Snyder, muito bem captada pela equipe de 2ª unidade, que, segundo me disseram, são os criativos e os operários por trás do espetáculo. E por incrível que pareça, sem uso compulsivo de câmera lenta, o crack de Snyder desde muito tempo.

Pelo contrário...


Ao ilustrar a supervelocidade dos kryptonianos em tempo (sur)real, o diretor dá a dimensão exata do poder e da ameaça que eles representam - aspecto conduzido com perfeição pela assustadora Faora. Que não é a misândrica radical dos quadrinhos, mas também é objetivista, sem remorsos e, aparentemente, ainda mestra em Horu-Kanu (o Krav Maga de Krypton). São dela as melhores brigas do filme, que passa como um rolo compressor por cima do exército e do azulão. Antje Traue, do bacanudo Pandorum, funciona tão bem no papel que quase chega a apagar da tela um gorila kryptoniano de 4 metros que comparece no campo de batalha.

Seu visual também é um deleite: a beleza e o olhar gélido da atriz alemã caíram como uma luva na indumentária futurista e meio dark - pessoalmente, um déjà vu e tanto. Entra tranquila no clube de coadjuvantes sinistros que roubam a cena com cotação recorde: 5 Darth Mauls de 5.

Paradoxalmente, é em meio a esses acertos que surge a pior faceta de O Homem de Aço. Dando plena e furiosa vazão aos subtextos proferidos pelo cajun Jonathan no 1º ato do filme, o que se vê na reta final é uma sinfonia da destruição executada no último volume. Até aí tudo bem, a Metrópolis dos quadrinhos é varrida do mapa quase toda quinzena e finalmente temos a tecnologia para simular isso num filme; o problema é quando cruza a fronteira da negligência, atropelando nada menos que a índole do escoteirão. Sua luta contra Faora em Smallville já era um prenúncio do megadeath iminente: além de salvar um ou outro militar (por fins práticos, buscando gerar confiança?), o herói pouco faz em relação aos civis residentes e trabalhadores no local.

No máximo, aconselha um grupelho de coitados a se trancarem nos estabelecimentos - os mesmos que ele e Faora moem durante o quebra, sem preocupação aparente com quem está lá, sejam mulheres, idosos, crianças, pandas, coalas, o que for. Mas a coisa desanda mesmo quando Superman e Zod fazem Metrópolis de octógono.


A tensa sequência em que Perry White (Laurence Fishburne) e mais um sujeito tentam retirar uma colega dos escombros é, talvez, a mais reveladora de O Homem de Aço. Na hora, lembrei de uma cena similar e a mais emblemática de Superman - O Retorno: Lois, seu filho e seu marido contemplando a morte certa presos num barco afundando. Singer estica a virada sadicamente até o limite, arrematando com um gancho que sintetiza, sem que nenhuma palavra seja dita, a essência do Superman. Ou, pelo menos, daquele o qual estávamos acostumados. No novo filme, a coisa é bem diferente. Com uma máquina do Juízo Final bombando a poucos metros dali e com seus esforços se mostrando em vão, em dado momento White decide entregar os pontos e permanecer ao lado da amiga até o fim inevitável. Naquele momento, eles só tem um ao outro e nenhuma esperança. Ninguém veio. Ninguém virá. Você tem um homem de aço na sua cidade, mas está por sua conta. Sem essa de superamigo.

Agora imagine quantas dessas microssituações dramáticas se deram entre os escombros de Metrópolis enquanto dois deuses trovejavam no céu e derrubavam mais prédios? Dante Alighieri manda lembranças.

Longe de querer um caos ordenado que se auto-justifica a cada 5 segundos. É óbvio que um evento dessa magnitude faria cadáveres brotarem do chão. Acontece todo tempo nas histórias do herói, ainda que implicitamente, mas sempre administrado por uma atitude protecionista em relação aos frágeis e mortais terrestres. Não de forma que interrompa o fluxo da ação ou da narrativa, mas em breves cenas sugerindo que ele fez o que pôde antes de se dedicar à pancadaria em definitivo - é o padrão desde sempre, nas HQs, nos longas animados e, adivinha, nos filmes com o Reeve. Haviam opções para mover o confronto para outro lugar, como no espaço, onde ele até tentou (só que, infelizmente, sempre caíam nos mesmos lugares... magia do Caos, for sure). O oceano era logo ali. Desertos, cânions e o pólo ártico não eram nem na esquina pra eles.

Se foi inexperiência, compro até certo ponto. Mas fica complicado quando o único civil que Superman se digna a salvar é exatamente a Lois - três vezes durante o filme, sendo a última delas um deus ex machina que faria corar até o T. Rex do final de Jurassic Park. Se isso tudo fosse uma análise comportamental sobre ele, como eu deveria interpretar?

E por incrível que pareça, nem menção posterior há aos prejuízos astronômicos e às prováveis milhares de vítimas das ações dos kryptonianos (todos eles). Algo que poderia muito bem ser resolvido de uma forma sutil, emocionante e respeitosa sem gastar tanto tempo ou baixar uma nuvem deprê no contexto PG-13.

O Homem de Aço se compromete com o aspecto humanista e sociológico da situação, mas não segura o rojão. E olha que não sou de nenhum Comitê dos Direitos Humanos dos Seres Vivos Fictícios. Sou fã de cinema-destruição. Rio muito sempre que o Lobo lembra como destruiu seu planeta natal. Darth Vader explodiu Alderaan e tenho um Vaderzinho de chumbo na minha mesa. Meu personagem favorito dos quadrinhos é Galactus. Nenhum deles tenta ser o que não é - ou mais do que é.

Diante disso, ficaria feliz em não ter mais nada a questionar, porém, a vida não é fácil pra quem detesta fazer coro com rebanho moralista. E calhou disso acontecer justamente na cena mais polêmica do filme.


Spoiler?

De um lado, uma linda família caucasiana recém-saída das filmagens de um comercial de margarina. De outro, Superman aplicando um mata leão em Zod, que diz em alto e bom som que vai flambar todo mundo porque Kal-El não tem cojones de aço pra impedi-lo. Além de recorrer a uma imagética vexaminosa de tão apelativa e maniqueísta, a edificante solução encontrada pelo roteiro de Goyer não poderia ser mais populista em sua visão mais primária e obtusa da Justiça, eliminando qualquer fagulha de inspiração e idealização que poderia advir do Superman. Ufa. Como bem disse Brainiac em saga recente, é uma decepção ver um filho de Krypton reduzido a um bruto.

Sério que ele não conseguiu pensar em nada, mesmo com Zod dominado numa super-gravata? O Super mesmo foi nocauteado por Faora e o gigante em dado momento, então isso era possível na lógica do filme. Ele poderia ter apertado mais até o vilão perder os sentidos. Ou, sei lá, socado sua cabeça até conseguir. Depois poderia tê-lo levado até a nave exploradora e buscado intel para contê-lo (radiação do sol vermelho, simulação de atmosfera kryptoniana, etc). Provavelmente até acharia por lá um daqueles pen-drives kryptonianos com o Jor-El backupeado, pronto para auxiliá-lo a despachar novamente o general para a Zona Fantasma. Ou qualquer coisa.

Mas preferiram colocar o Superman matando no primeiro filme da sua muito aguardada reabilitação cinematográfica. Pior, se submetendo ao joguinho de manipulação do vilão, descendo assim ao seu nível. Em algum lugar de uma galáxia distante, Luke Skywalker dá um facepalm.

Ironicamente, soou como um upgrade da infame cena "América para os americanos" do Superman II original. Isso, mais o fato do mundo fora dos EUA ser retratado no filme como uma terra de ninguém terceiro-mundista, constitui uma clara mensagem pra quem se atrever a pisar no quintal gringo. Slavoj Žižek aproveitaria até a raspa desse tacho. Sem medo de soar purista, filme de Super-Homem não é lugar para pregações reacionárias. Não dá pra corroborar com um Superman que age como alguém sem superpoderes, sem perspicácia e sem opções, rendido pela máxima popular do "bandido bom é bandido morto" - com certeza existe mais de um equivalente republicano-redneck disso aí.

O desenlace do final foi igualmente atordoante, no mau sentido, com Clark indo trabalhar no Planeta Diário. É exigir demais da suspensão da descrença. Dá a impressão que Goyer já havia perdido completamente o controle e apressou a conclusão o mais rápido possível para evitar mais danos, tal qual um piloto de airbus que descarta o combustível em pleno ar, certo de que o pouso será de nariz.


O lado positivo disso tudo é que Henry Cavill se sobressai ileso aos carrinhos criminosos do roteiro com uma atuação digna e segura, até mesmo em sua reação após o "inevitável". O que, sem dúvida, foi essencial para a boa química de Clark e sua mãe adotiva, Martha - uma ótima Diane Lane com maquiagem envelhecedora pra chocar os trintões. E eu ainda nem terminei de suspirar por ela em Ruas de Fogo...

"Knock, knock" - "Who's there?"
- "It's your lucky day..."
Só elogios para a encantadora Amy Adams, que, mesmo sendo jogada de lá pra cá de forma pouco criteriosa, faz uma Lois sexy, atrevida, sagaz, no tom certo de humor - e aparentemente velocista nível mach 10, já que faz o eixão meio-oeste/costa leste norte-americana em tempo recorde.

Foi bem sacada a escalação de Richard Schiff para o papel do Prof. Emil Hamilton, personagem pouco conhecido do público em geral, mas frequente colaborador do herói nas HQs e nas séries animadas. Igualmente para a participação do grande Christopher Meloni como o coronel extrassacudo que chama Faora na chincha não uma, mas duas vezes. Já Russell Crowe apenas não compromete, embora tenha ficado um tanto galhofeiro e fanfarrão nas cenas do Jor-El holográfico. E desceu quadrado o cacete que ele, um cientista, deu em Zod e mais uns capangas no início do filme, mas deixa baixo.

A edição meio truncada e corrida, à Nolan, também não funcionou a contento. Apesar de turbinar a dinâmica, suprime momentos potencialmente emocionais como a cena em que Jonathan revela a cápsula para Clark - numa notável atuação do garoto Dylan Sprayberry, por sinal. E a tão alardeada estreia do "universo compartilhado" da DC nos cinemas foi tímida: limitou-se a um logo-Lex aqui e um satélite Wayne acolá. Pouco pra quem tem a pretensão de reeditar a campanha bem-sucedida da Marvel Studios, ainda mais considerando que o UDC sempre foi mais integrado que a concorrência. Em contrapartida, a justa homenagem ao Christopher Reeve foi arrepiante.


A cena que fecha o filme é evocativa e belíssima. Clark bem menino, brincando no quintal de casa com seu cachorro, em meio aos varais e roupas estendidas. É universal. E ao mesmo tempo, não podia ser mais íntimo. Talvez seja aí que resida a verdadeira força de O Homem de Aço, perdida entre o filme que há muito queríamos ver, o filme que nos foi dado e o espírito e o coração do velho Superman.

Ps: o Luwig fez um fantástico texto sobre o filme com referências e especulações a granel.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A fantasma da máquina

Alguns projetos pedem por um Kickstarter, outros simplesmente tornam isso algo obrigatório. Eu preciso dar o meu dinheiro pra esses caras!

PostHuman foi concebido pela Colliculi Productions em parceria com o estúdio Humouring The Fates e dirigido pelo ilustre e talentoso desconhecido Cole Drumb. Um frenético e bem sacado mix de referências pop (Akira, Ghost in the Shell) com a porta da frente bem escancarada acenando para o futuro. Tomara que dê frutos, ao exemplo dos excelentes Mamá, Ataque de Pánico! e R'ha.

De bônus, a voz sensual e aveludada da personagem Kali é de ninguém menos que a deusa Tricia Helfer. Além de tudo, ainda é cool, essa fugitiva do Monte Olimpo.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Não morreu, descansou



MTV Brasil
* 1990  † 2013

Só ela me fazia escalar o telhado pra fuçar febrilmente na antena externa até conseguir uma imagem menos deplorável. Bons tempos.

Obrigado pelo Fúria, Garganta e Torcicolo, Gordo a Go-Go, Hermes & Renato, Gás Total, Lado B, Mondo Massari, Teleguiado, Barraco, Yo!, Sabrina Parlatore, Fernanda Lima, Cuca, Soninha, Marina Person e Didi.

R.I.P.!

Uma notícia trazida até você pela funerária Cavallote.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sex and the Krypton


Novo filme do "Homem de Aço" despontando no horizonte, de volta à lida kryptoniana no cinema. Com tantas prévias, trailers e spots, qualquer preparação fica redundante, embora ache que o escoteirão mereça o esforço. Só que dessa vez vou passar. Em parte, pra não contaminar a experiência que será ver essa nova abordagem do Clark - supostamente feita para entregar aos fãs tudo o que eles reivindicaram por décadas - e em parte, porque involuntariamente já estava fazendo isso.

Nos últimos meses andei meio obcecado pelo Superman II no corte do diretor Richard Donner. As sequências "novas" de Christopher Reeve, Margot Kidder e Marlon Brando, a divertida malandragem de Gene Hackman, as boas cenas da versão original que foram excluídas injustamente...

Tudo muito fascinante, mas alguns dos meus momentos favoritos desse revisionismo já estavam lá desde o começo: a dinâmica interna do trio de kryptonianos renegados, em particular General Zod e Ursa.


O tom mezzo cruel mezzo ingênuo adotado pela atriz Sarah Douglas foi sob medida. É ótima a cena em que Zod descobre que o Super se importa com os humanos. Genuinamente intrigada, Ursa pergunta: "como animais de estimação?". Outro momento, muito revelador, é quando os três vilões estão na sala oval da Casa Branca com todo o seu staff subjugado. Ursa passa os generais em revista com um olhar de puro desprezo enquanto ridiculariza seus uniformes cheios de condecorações, ao mesmo tempo em que arranca uma insígnia pra adicionar em seu próprio uniforme como troféu - entregando aí a mesma tendência masculina por ostentação e objetificação de poder, sem absolutamente nenhuma consciência disso naquele momento.

Ursa é cria do godfather Mario Puzo, pensada exclusivamente para os dois primeiros filmes. Só debutou nos quadrinhos em 2007, numa ótima saga escrita por Richard Donner em parceria com Geoff Johns e Adam Kubert. Demonstrava ali a mesma aversão doentia a todos os homens, com exceção de Zod, a quem nutria uma obsessão cega. Sendo uma evolução natural de seu perfil nos filmes, acabou soando como resultado de condicionamento típico de fileiras militares ou de grupos fundamentalistas. Isso tudo deixa ainda mais interessante a escolha de um dos vilões do novo filme.

Faora Hu-Ul de Alezar foi criada pelo desenhista Curt Swan em 1977, num arco em três partes escrito por Cary Bates e ilustrado por Swan e Tex Blaisdell. Era uma vilã tão atraente quanto letal: foi condenada a 300 anos de reclusão na Zona Fantasma pela morte de 23 kryptonianos em seu próprio campo de concentração masculino (!). Eventualmente, ela escapa da prisão para aterrorizar Metrópolis e, claro, o Superman. Uma kryptoniana assassina em massa turbinada pelo nosso sol amarelo pode parecer preocupante, mas para o Super é como um passeio no parque, certo? Não exatamente...

Faora era mestra em Horu-Kanu, a "forma de combate físico mais mortal de Krypton". A arte marcial é baseada em ataques aos pontos de pressão do organismo kryptoniano. Os golpes variam de quebrar ossos (lógico), forçar reações reflexas e a cereja do bolo, o Dyr-Ynn, o toque fantasma da morte. Além disso, Faora tem disciplina suficiente para usar a raiva (!!) do Azulão contra ele e até exibir certos dons psíquicos, como autoprojeções e relâmpagos mentais. Derrotado, o Super evadiu do local em velocidade de dobra, não apenas reconhecendo a vasta superioridade de Faora como também se refugiando na Zona Fantasma!

Faora foi criada apenas um ano antes de Ursa, mas realmente parece ter sido a sua precursora. Em termos de psicologia (de boteco) não é a mesma personagem. Mas o que elas têm em comum é um detalhe crucial, que para Ursa é como uma suave brisa de verão e para Faora é a grande mancha vermelha de Júpiter: a misandria.

E ela sorve isso como se provasse o melhor dos vinhos.


E começou como se fosse um causo do Zéfiro...

O que poderia ser um pretexto para diminuir seus méritos pessoais e reduzí-la a uma estressada superpoderosa com TPM infinita. Mas felizmente o roteiro de Bates evita clichês sexistas e constrói uma vilã ameaçadora, inteligente e carismática. E nem é tão doida. Ela só odeia mortalmente todos os seres vivos do sexo masculino, extermina alguns ocasionalmente e quer fazer o planeta ajoelhar aos seus doces pés. Nada que um ditador terráqueo não almejaria.

Tenho a impressão de que a Faora do filme não herdará muito de sua personalidade original, mediante a aparente posição subalterna before Zod. Faz parte do jogo. Nos quadrinhos os dois já se encontraram e até uniram esforços por um objetivo comum, mas o buraco era bem mais embaixo.


Kneel before Faora, male pig!

Duvido muito que no filme ela esculache assim o sexo frágil (nós!). Mas torço pra que não seja apenas um pau mandado do General de cinco estrelas. Afinal, como bem disse o Clark na estreia da moça, ela é uma "man-hater". 

Eu já diria mais: ela é uma "maneater".


Para o cinema e avante!