sexta-feira, 13 de maio de 2005

FELICITY


Há uns meses atrás teve nego que jurou de pé junto que Joss Whedon seria o diretor do novo filme dos X-Men. Como sabemos, não rolou. Mas a discussão gerada acabou por ser tornar interessante. Seria a mente por trás dos seriados Buffy - A Caça-Vampiros e Angel capaz de encarar tal empreitada? Talvez a resposta esteja em Serenity, produção baseada na finada série televisiva Firefly e encabeçada pelo próprio Whedon.

A premissa - 500 anos no futuro, as aventuras de uma equipe viajando pelo espaço em uma nave - é padrão Star Trek genérico, que, ao mesmo tempo, já rendeu algumas idéias bacanas (Farscape Season, Babylon 5) e outras nem tanto (Voyager, Deep Space Nine). Confesso uma coisa: os primeiros segundos do trailer são de tirar o fôlego e me deixaram realmente empolgado. Logo eu, que ainda estou com o sensorial estragado desde a chuva digital de Matrix Revolutions. Há, inclusive, vários daqueles efeitos complicadinhos à luz do dia (preste atenção na rápida perseguição de duas naves num deserto), que é uma espécie de prova de fogo para os profissionais da área.










Pelo visto, em matéria de bons efeitos, Serenity não vai morrer de fome. O problema é que o mesmo se pôde dizer de A Reconquista (excetuando-se aquelas vexatórias pernas de pau), e é isso e algumas coisas mais que parecem minar as boas impressões iniciais do trailer, do filme e do próprio Whedon. Esses shots aí em cima, lembram coisas de ID-4, MIB, V - A Batalha Final, Blade Runner e O Quinto Elemento (você saberá identificar o quê e onde). Nada da inovação de pauladas gráficas como Immortel e Casshern - mas até aí tudo bem, afinal Hollywood é mesmo uma indústria de reciclagem onírica e não seria justo colocar Whedon como bode expiatório. Mas o que lhe compete também não é mais animador.

Whedon parece ser um sujeito que tem boas idéias. Buffy foi um filme fracassado, mas ele teve a manha de reaproveitar o conceito para segurar uma série inteira. Foi muito bem sucedido, e arrebanhou uma legião de fãs. Angel, spinoff de Buffy, foi menos popular mas ainda assim fez uma certa carreira. O meu problema é que eu achava essas duas séries um porre total, embora com algumas boas sacadas. Era um tal de relacionamento amoroso à Barrados no Baile pra lá e um kung fu meia-boca pra cá, que era dose pra leão velho e desdentado. Mas esses eram subterfúgios televisivos garantidos, pré-estudados por uma equipe de profissionais e aprovados pelos índices de audiência. E é por isso que é meu problema. Sou eu quem tem de se mudar para um universo paralelo onde tenha tudo o que tem no meu mundo, menos as séries Buffy e Angel.

Mas aí a radiação romantic teenager contamina o circuito cinematográfico. Não que eu esteja afirmando que Serenity será mais um mac movie, mas alguns indícios comparecem faceiros e saltitantes no trailer - principalmente as cenas em que uma menina derruba alguns brutamontes, exibindo uma desenvoltura que não deve ter convencido nem os próprios brutamontes. Era o que mais me irritava em Buffy... ver a Sarah Michele Gellar, frágil como uma porcelana, espancando caras de 120kg (frase machista da semana: mulher bonita batendo e convencendo é quase tão difícil quanto técnico argentino vingando no Brasil).

O trailer acaba dividindo o que Joss Whedon (e J.J.Abrams, McG, Jon Peters, Michael Bay...) representa de bom e de ruim no comando de uma câmera: de um lado, seqüências vigorosas de ação digital e efeitos especiais com ISO-9000, de outro, romance de adolescente que finge ser adulto (e vice-versa) e dinâmica humana bem frouxa, tanto em atuação quanto em dinâmica mesmo. Pode ser até que esteja subestimando, mas cheguei à uma semi-conclusão: "What If Joss Whedon Had Directed X-Men 3?" - Wolverine teria ficado com Jean Grey recém-ressuscitada, Ciclope teria ficado com Tempestade, Vampira teria ficado com o Rapaz de Gelo, Colossus teria ficado com Kitty e cada um desses casais faria uma triangulação amorosa com o Noturno e a Mística - tudo isso ao som daquele CD dos Backstreet Boys que estava no carro do Ciclope em .

Serenity estréia em 30/9 nos EUA e em 11/11 por aqui. Tomara que eu esteja errado e que esse filme só lembre Felicity no nome.

Trailer: 480x360 (20,9 Mb) - 320x240 (8,4 Mb)


Na trilha... Backstreet... digo, uma lista com 66 mp3 só de stoner rock

terça-feira, 10 de maio de 2005

LAND OF THE ROMERO


Tempos atrás eu achava que George A. Romero seria mais um a figurar naquela longa lista de cineastas visionários, de apelo populista e quase totalmente esquecidos - como Mario Bava, Lucio Fulci, Dario Argento, José Mojica Marins, Abel Ferrara e tantos outros. Seu estilo antevia em algumas décadas vários elementos que viriam a ser reutilizados incansavelmente em produções posteriores, e que transcendiam o mero conceito de horror movie: o reencontro do ser humano com a sua própria natureza selvagem e sendo levado pelas circunstâncias de uma situação-limite, o caos iminente e sempre inesperado que derruba facilmente padrões de civilização milenares tão sólidos quanto um isopor, e eventos extraordinários violentando nosso mundinho seguro com conseqüências dolorosamente realistas. Tudo sob o olhar de uma terceira pessoa, tão atordoada quanto os personagens, o que nos coloca em um estado intrínseco de desespero, incredulidade e desamparo emocional. O equivalente psicológico à um soco na boca do estômago.

Uma das coisas mais legais sobre Romero é que o entendimento da sua arte tem uma fonte inequívoca e definitiva. Talvez seja essa a forma mais simplista de resumir a sua clássica "trilogia living-dead": A Noite dos Mortos-Vivos (1968),O Despertar dos Mortos (1978) e O Dia dos Mortos (1985). Não sei até onde eles foram prejudiciais em sua carreira (e provavelmente foram), mas esses filmes se tornaram referências imediatas não só no gênero terror, mas também de vários aspectos da narrativa cinematográfica. Estão lá a trágica condição humana, a Essência do Mal, ressequida, irreprimível e de origem desconhecida (e algumas centenas de analogias embutidas aí), e o clima de desordem urbana. Romero fazia horror sociológico.

Lembro da primeira vez que assisti A Noite dos Mortos-Vivos... deliciosamente em p&b, o ataque das criaturas lembrava muito um violento conflito de rua, com policiais de um lado e protestantes do outro. Anarquia geral. O clima de perturbação social - caótico por si só - se tornava congelante quando se percebia que um dos lados não era, ou não era mais, humano. A sensação era de que algo deu muito errado e que agora estamos pagando na forma de uma extinção lenta e simbolicamente fúnebre.

Acidente químico, biológico, nuclear? ...Juízo Final? Nunca se soube o motivo, pois Romero nunca revelou. Que continue assim.


Uma das partes mais interessantes do trailer de Land Of The Dead - o novo filme de Romero e que dará seqüência à mitologia estabelecida - é justamente no início, com a breve referência aos filmes anteriores. Totalmente sem redenções (marca registrada e meio cruel de Romero), o "universo living-dead" mostrava a podridão das criaturas se espalhando rapidamente, como se fosse uma pestilência desconhecida e fora de controle. No fim, os monstros tomaram a Terra e os poucos sobreviventes se espremiam em bunkers subterrâneos, tentando entender o caos, tentando encontrar alguma "cura" ou simplesmente tentando salvar a pele - obviamente que só adiavam o inevitável...

Pra quem assistiu aos filmes, ficou subentendido que a Humanidade foi reduzida à uma merreca de leitões prontos pro abate. Pela sinopse divulgada, em Land Of The Dead a situação parece bem mais "confortável". Os sobreviventes saíram dos claustrofóbicos bunkers para se abrigarem em fortalezas e edifícios quase impenetráveis. Entre os novos problemas está o capitalismo selvagem: os abrigos são dominados com mão-de-ferro por empresários ricos e inescrupulosos, enquanto a anarquia reina nas ruas. E a parte mais intrigante: as criaturas estão evoluindo de zumbis em slow-motion para uma "raça mais avançada".

Logo abaixo, em sentido horário: o morto-vivo que parece estar declamando "to be or not to be" tem pinta de ser o líder e já apareceu carregando uma metranca, o que é inusitado em se tratando de Romero; Tom Savini também é zumbi em Land Of The Dead. Veteranaço, ele foi o responsável pelos efeitos especiais e pela maquiagem do clássico O Despertar dos Mortos, além de ter dirigido um remake sensacional de A Noite dos Mortos-Vivos. Mas a nova geração deve conhecê-lo mais pelo seu papel em Um Drink no Inferno, de Robert Rodriguez; a musa dark Asia Argento (filha do Dario Argento, the man) quase servindo de lanche; Asia (olho nessa menina!), Simon Baker e um transeunte lá atrás, se preparando para explodir crânios apodrecidos.



O elenco principal também conta com John Leguizamo, Robert Joy e Dennis Hopper. E para os antenados... Simon Pegg e Edgar Wright fazem uma pequena participação! Eles são, respectivamente, o protagonista e o diretor do excelente Shaun Of The Dead - que Romero adorou, por sinal. Isso cria um curioso link entre influência e influenciados...

Recentemente também foi divulgado o primeiro pôster do filme (o da direita, logo abaixo). Eu achava que o pôster era esse da esquerda, mas pelo visto era só um teaser à Guerra dos Mundos. De qualquer forma, os dois são ótimos. Clique nas imagens para ampliá-las.


Land Of The Dead estréia em 24 de junho, nos EUA. Vou logo avisando: se demorar muito pra chegar aqui, vou fazer download ilegal do filme, roubar celular, carro e bolsa de madame.

Trailer 480x360 (15,5 Mb)


Na trilha: Decade Of Aggression (Live), Slayer

quinta-feira, 5 de maio de 2005

CARCAJU RELOADED, FESTA CYBERPUNK e APOCALYPSE 2, A MISSÃO

MARVEL KNIGHTS WOLVERINE
#26-#27



Holy moley! Agent Of S.H.I.E.L.D, o novo arco do Wolverine, é o cão chupando manga!! Nem era pra eu estar comentando isso agora, visto que o bicho vai pegar mesmo é na edição #28, mas não consegui ficar impassível... Em apenas duas edições o novo arco está conseguindo ser ainda mais emocionante do que o anterior, o já clássico Enemy Of The State! Tudo bem, não podia mesmo ser diferente com Mark Millar e John Romita Jr regendo essa verdadeira orquestra da destruição... mas quando achei que as situações anteriores estabeleceram um certo limite narrativo, fui atropelado por uma seqüência arrasadora de acontecimentos. Aí é parar por alguns minutos, dar uma respirada e, aos poucos, retomar a leitura.

No arco anterior, Logan sofreu uma lavagem cerebral hardcore. Cortesia de uma mega-operação conjunta da Hydra com o Tentáculo. Com muito custo, e após uma matança generalizada (incluindo aí o despacho de um herói mais ou menos conhecido), a S.H.I.E.L.D. finalmente consegue capturar o baixinho dos infernos. O problema é que a Hydra gostou da brincadeira e passou a coletar e condicionar vários heróis e supervilões do segundo escalão. Mas nem todos vieram do semi-anonimato... Elektra que o diga.

Aliás, quem conhece o background da ninja grega sabe qual é o modus operandi do Tentáculo. A maioria deve saber que ela foi ressuscitada em uma cerimônia promovida pela organização. O que Millar fez foi elevar a funcionalidade desse procedimento a uma escala real. Afinal, alguém que tenha esse poder certamente o usaria para fins mais abrangentes e ambiciosos do que o que foi executado até aqui. Já a presença da Hydra se justifica tanto pela eficiência logística e ultra-tecnologia envolvida, quanto pela elaboração prática dos planos - que envolvem o controle de um avançadíssimo terraformer criado em parceria por Reed Richards, Tony Stark e Henry Pym.

Sem contar que, ao longo do anos, a Hydra foi uma das únicas organizações a encarar de frente, de forma consecutiva e sem derrotas iminentes, pesos-pesados como os Vingadores e a... S.H.I.E.L.D.


Não é todo dia que se vê o famoso porta-aviões aéreo indo à lona. Só vi uma vez, numa história antiga da Mulher-Hulk. Certamente seria mais fácil abater o Air Force One. A mega-batalha que precede essa cena é de arrepiar, e detalhe: é só o começo. Lembra do Millar falando que Enemy Of The State era um filme de 300 milhões de doletas? Agent of S.H.I.E.L.D. duplica esse orçamento em apenas duas edições.

Algumas referências se fazem presentes no novo arco, principalmente em relação à Wolverine: Arma X. O processo de desprogramação de Logan é praticamente reeditado do clássico de Barry Windsor-Smith, inclusive com o mesmo jogo de ponto de vista que "engana" o leitor. Outra referência é à mitologia dos vampiros. O approach conferido às operações de condicionamento do Tentáculo se aproxima bastante do ciclo de procriação vampiresco. Isso ficou bem nítido na cena em que Elektra e alguns ninjas são flagrados assassinando um super-coadjuvante num beco escuro. Pra reforçar ainda mais essa impressão, o único método conhecido pela S.H.I.E.L.D. para evitar que as super-vítimas sejam ressuscitadas e dominadas é decapitando seus cadáveres. Millar é doente.

Coincidentemente, o início da edição #26 e o fim da #27 compartilham momentos singulares de preparação para a iminência de uma situação maior. No primeiro caso, logo nas primeiras páginas somos brindados com uma seqüência belíssima, cheia de poesia e lirismo, quase etérea e - constraste total - carregada de dinâmica física, agraciada por uma palheta de cores e uma fluência de elementos digna de um filme do Zhang Yimou. É linda mesmo. Mérito da arte irretocável de Romita Jr.

A dita seqüência você pode conferir na íntegra no Cag@mba e é protagonizada pelo sujeito aí embaixo.


Gorgon periga ser o vilão mais bacana da Marvel em muito, muito tempo (pra ser mais exato, desde os primeiros momentos do Rei do Crime após sua reinvenção por Frank Miller). Não consigo imaginar alguém ganhando desse cara no mano-a-mano. Sua técnica é inexpugnável (sempre quis escrever isso!). Não tem pra ninguém. Como se não bastasse, Gorgon é um mutante capaz de petrificar qualquer pessoa só com o olhar - um dom que ele dificilmente utiliza, para não desvirtuar sua honra e status de guerreiro nato. Millar também resolve dar uma colher de chá e faz um breve resumo de sua origem - que bem merecia ser contada mais detalhadamente em um daqueles belos encadernados especiais.

Ao final, vemos a reabilitação forçada de Wolverine e um fato em particular que o liberta de todas as amarras pra fazer o que sabe melhor - e sem qualquer senso de justiça ou de redenção por trás, e sim por pura, urgente e necessária vingança. Após uma rápida e aterradora "contabilidade" (numa ótima seqüência, óóóótimaaaa... típica de um filme imperdível), ele estipula a quantidade de cadáveres e sangue jorrando em bicas que irá fazer nas próximas duas, três, quatro edições. Ah, eu não falei... Agent Of S.H.I.E.L.D. é um arco em 6 capítulos.

A hora da retribuição chegou, e meu amigo... a Hydra que se cuide.


LIVEWIRES
#1-#2



Um tecno-furacão cyberpunk, insano e mangazístico com clima de spinoff. Essa é Livewires, mini em 6 capítulos que está saindo pela linha Marvel Next. A revista conta com a fina-flor dos quadrinhos para o século 21: o desenhista Rick Mays (Kabuki), o arte-finalista Jason Martin (Battle Chasers) e o roteirista, "sketchista" e maluco de plantão Adam Warren (Gen¹³, Dirty Pair). Sou fã do Warren já há algum tempo. É um dos únicos quadrinhistas que só produziram coisa boa, e olha que eu nem sou tão fã de mangá. Assim que vi seu nome nos créditos dessa HQ já me interessei de imediato. Seu estilo está lá, intacto... ação vertiginosa, dinâmica à velocidade da luz, diálogos abarrotados de informação, situações beirando o nonsense e pinups esfuziantes.

Na edição de estréia, Livewires é toda velocista. Começa à mil por hora e termina à dez mil, sem pausa pra descanso. Explosões, invasões, monstros, superpoderes, tiros e quebra-quebra generalizado, com uma nesga de história sendo contada nas entrelinhas. É ótima. Livewires é o nome de um projeto secreto do governo norte-americano que visa retaliar as ações de grupos terroristas ultra-avançados da Marvel, sendo a I.M.A. (Idéias Mecânicas Avançadas) o seu alvo primário. Como integrantes, cinco robôs humanóides trabalhando à paisana. Como de praxe, os personagens e seus codinomes são bem... "diferentes":


Gothic Lolita, ou "Ninfeta Gótica"... a que eu mais gosto. Devido ao seu smartware chamado Hulksmashitude (algo mais ou menos como "AtitudeHulksmaga"... idéia maluca do Warren) ela é tão forte quanto a Mulher-Hulk. Em contrapartida, o seu grito de guerra é dizer "mal-me-quer-bem-me-quer" repetidamente enquanto destrói criaturas gigantescas na base da porrada (outra idéia maluca)... Bem sisuda, ela é o lado introspectivo e sarcástico do grupo.

Hollowpoint Ninja... O "Ninja Ponta-Oca" é o cara da artilharia pesada, das infiltrações soturnas e das "técnicas avançadas de persuasão". É conhecedor profundo de qualquer tipo de armamento e estratégia de combate. Além disso, é muito ágil, rápido e extremamente habilidoso em lutas corporais. Fala pouco e de forma objetiva. É um ninja oras.



Hah... essa é Social Butterfly, a "Borboleta Social". É a gracinha simpática do grupo, e carinhosa até quando está ardendo em chamas. Seu poder só podia ter vindo da mente esquizóide de Adam Warren. Ela é capaz de controlar a vontade das pessoas através de expressões faciais, linguagem corporal, voz com sinais infrasônicos, produção artificial de feromônios (putz), campo indutor de manipulação cerebral, e "zilhões de outras maneiras de bagunçar a mente humana". É "Social" para os íntimos.

Cornfed. "Cansei de Cereais"...? Não duvidaria. Cornfed é o arranjador e despachante da equipe. Resolve os problemas de logística e eventuais falhas operacionais nas missões. Tem uma visão bem singular e irônica do propósito do grupo e de sua própria existência robótica. É uma espécie de Silent Bob artificial. Cornfed é gente-boa.



Stem Cell ("Célula-Tronco", huahuaheheuh), representa os olhos e a percepção desnorteada do leitor durante a ação ininterrupta. Ela acaba de ser construída e teve a memória bloqueada devido à uma pane em seu filtro neural - pretexto esperto para não deixar o leitor sozinho em sua confusão. Ela é uma espécie de central-monstro de dados especializada em engenharia tecnológica. Seu smartware reconhece e duplica qualquer construto já concebido pelo homem. Pode inclusive redesenhar esses mecanismos em versões mais avançadas. A idéia estranha da vez é a sua capacidade de reproduzir alguns equipamentos no estômago - na verdade uma usina de substâncias químicas manipuladas por nano-robôs programados para esse objetivo. Daí a visão linda dela vomitando pequenas baterias atômicas, pentes de metralhadoras, válvulas e por aí vai. Pobre menina.


E falando em nano-tecnologia, uma particularidade dos autômatos de Livewires é a sua conduta de reciclagem de equipamentos. A pele artificial, por exemplo, é feita com uma trama de exo-redes reaproveitáveis e rica em componentes nanotech codificados para qualquer smartware habilitado na equipe. Eles literalmente comem partes sintéticas dos robôs destruídos para conhecer todas as experiências e absorver as informações contidas neles. Em outras palavras, eles são adeptos da prática do canibalismo, e em um contexto igual ao da crença de certas tribos...


Adam Warren é doido. E Livewires é extremamente divertido.

Confira aqui uma divertida entrevista que o autor deu ao Newsarama - essa aqui também é ótima, de dois anos depois.


X-MEN: AGE OF APOCALYPSE - 10th ANNIVERSARY
Final



Sem muito hype, chega ao fim a extensão da extorsiva A Era do Apocalypse, mega-saga que obrigou os x-fãs a gastarem rios de dinheiro em meados dos anos 90. Três coisas: 1. extensão, porque essa mini-série em 6 partes não teve "cara" de continuação. Acho que o nome da saga original é imponente demais pra essa história que visou apenas aparar algumas pontas soltas e, claro, arrecadar um cashzinho de leve; 2. extorsiva, pois EdA se espalhou por todas as revistas mutunas da época. Quem queria entender alguma coisa tinha de comprar quase tudo; 3. A aliteração extensão/extorsiva foi sem querer.

O fato é que, se encarada sem muita expectativa, essa mini até que tem seus picos de qualidade e algumas boas sacadas. Principalmente na última edição. A história se passa 1 ano após a morte do vilânico Apocalypse, e o planeta está em franca reconstrução. Liderados por Magneto, os X-Men agora são a polícia do mundo contra os espólios terroristas remanescentes da antiga tirania. Essas poucas células inimigas são derrotadas até com uma certa facilidade pelos X-Men. E detalhe... agora eles raramente fazem prisioneiros. Uma nova ordem mundial se estabelece e Magneto aparece muito bem na foto. O crédito extra se deve todo à sua vitória pessoal sobre Apocalypse e ao fato de ter impedido o bombardeio nuclear em massa no fim da saga original. O problema - e que já foi detectado por aqueles que leram a saga - é que Magneto apenas matou Apocalypse. Quem salvou a Terra do ataque nuclear foi Jean Grey, não ele.

Esse segredinho obscuro elevou a moral de Magneto nos círculos políticos e na opinião pública, que passou a encará-lo como um líder da Humanidade. Além dele, o único que sabe disso é Nathaniel Essex, o tétrico Sr. Sinistro, até então dado como morto. Obviamente que a gente logo espera dele uma chantagem das boas. Mas o mistério só aumenta quando Sinistro reaparece para Magneto e simplesmente o obriga a esquecê-lo e a jamais tentar encontrá-lo. O que dá a entender que o vilão também guarda seus segredinhos sujos a sete chaves.


Se no início da mini-série o traço do Chris Bachalo estava bem mangazão, nas duas últimas edições ele partiu de vez para o estilo nipônico de HQs. Particularmente, muito me agrada o trampo do Bachalo. Quanto mais ele estiliza o seus desenhos, melhor. E pra cada narigão que ele desenha, existem umas três pinups interessantes pra compensar.

Como já comentei certa vez, o roteiro de Akira Yoshida não faz feio com o pouco que tem. Mesmo sem tentar (ou poder) desvirtuar a mitologia estabelecida pela obra original, ele conseguiu criar algumas situações inusitadas (como a relação entre Wolverine e X-23, sua suposta filha) e outras que acabaram se revelando bons achados (como o tal segredo que o Sr. Sinistro tanto esconde - se quiser conhecer esse spoiler, clique aqui).

Por outro lado, algumas cenas que ameaçavam se tornar viradas brilhantes e inesperadas na narrativa - como a pausa no combate final para uma instigante conversa entre Magneto e Sinistro sobre a validade de suas motivações - acabaram se limitando a uma mera introdução pra famosa pancadaria-resolve-tudo. Personagens marcantes (e importantes) de outrora, como Dentes-de-Sabre e Blink, embora vivos, foram apenas citados. E a conclusão, pra lá de aberta, sugere uma futura mini comemorativa. De quê agora... 11 anos?

No final das contas, X-Men: Age Of Apocalypse - 10th Anniversary é um passatempo interessante e pode, no mínimo, ser encarado como um caça-níqueis de luxo. Mas considerando a propagação do papel-jornal nas HQs publicadas por aqui, o custo-benefício desse níquel fica bem inflacionado.

Decide aí quando chegar. :)


dogg, ouvindo muito rock australiano. Na faixa... o álbum True to the Tone, dos maroleiros do GANGgajang.

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Operação Resgate
If you're looking for trouble... you came the right place!





Glenn Danzig é um cara que tem história pra contar. Embora seja pouco lembrado (ou conhecido) pela nova geração, o cantor influenciou muito os padrões do rock atual, inclusive aquele tipo que perambula incansavelmente pelo circuito pop. Ele criou o link definitivo entre música gótica, a atmosfera lúgubre e enegrecida do Black Sabbath e uma certa mis-en-scéne de horror, decodificada diretamente das pirações teatrais do Alice Cooper dos anos 70. Quem leva o crédito por traduzir essa carga gore-dark para o rock contemporâneo costumam ser grupos como Nine Inch Nails, Cradle Of Filth, Korn, White/Rob Zombie, Marilyn Manson, Dimmu Borgir, Slipknot e por aí vai, mas a coisa começou bem antes.

Egresso do grupo punk seminal Misfits e do cultuado Samhain, Danzig inaugurou a carreira de sua banda homônima em 1988 com um álbum supreendente. Limou todo o background psychobilly em favor de um crossover demoníaco envolvendo blues rock de bar vagabundo, o messianismo apocalíptico de Johnny Cash, doom metal, Black Sabbath e AC/DC, com vocais pendendo entre a introspecção rebelde de Elvis Presley e a ironia curtida à whisky de Jim Morrison. Adicione aí uma certa aura maldita e letras estilo filme B de terror, discorrendo sobre ocultismo, desordem, anarquia, orgias profanas, bruxaria, demonismo, súcubos e voilá... é uma festa no inferno ouvindo os discos do Danzig com o volume lá no céu (perdoai o trocadilho!).


Entre um petardo e outro, Glenn ainda lançou um álbum solo, Black Aria, de 1992, composto basicamente de... árias. Esse disco merece um destrinchamento todo especial, em uma outra hora.

A lista de fãs e eventuais "influenciados" inclui vários medalhões do som pesado, como Tony Iommi, o pessoal do Slayer, Pantera e, principalmente, James Hetfield e Lars Ulrich, do Metallica.

Apesar dessa química das profundezas ter dado muito certo nos 4 primeiros discos, um erro fudido de direcionamento balançou a carreira do Evil Elvis. Nos álbuns seguintes, o Danzig passou a ser uma banda bem meia-boca, com bons momentos dividindo espaço com inovações pra lá de equivocadas.

Então é isso aí. Na faixa, um resumão disco-a-disco...


DANZIG
(1988)


O primeirão do Danzig já vinha com uma capa bem "discreta" e com uma sonzeira blues rock digna daquele bar infernal do filme Um Drink no Inferno. Aqui, Danzig nos revela que é o próprio capeta (I Am Demon), fala de conflitos espirituais (Possession), mulheres demoníacas (She Rides), condenações (Soul In Fire, End Of Time) e tudo aquilo que Lúcifer costuma arquitetar em seu dia-a-dia. As faixas Mother e Twist Of Cain (com seu riff inesquecível) foram os maiores hit singles desse disco.

Talvez por ser justamente o debut, a execução é mais básica, fazendo o vocalista se destacar sobremaneira. Danzig evoluiu muito tecnicamente desde seu tempo liderando o Misfits. A formação era a clássica trinca dos primórdios da banda: Eerie Von no baixo, o ótimo John Christ na guitarra e o folclórico Chuck Biscuits na batera (ele é o fã número zero do Zé do Caixão!).

Um puta disco de rock'n'roll. Diria até que é um semi-clássico trilhando os mesmos caminhos mal-assombrados de Back In Black, Paranoid e The Number Of The Beast.


DANZIG II - LUCIFUGE
(1990)


E o enxofre-rock continua firme e forte! Mesmo carregando na pegada metálica, Danzig comete um discaço e, ao mesmo tempo, mergulha de cabeça no Delta do Mississipi. Aqui, o cara inicia o satanismo de histórias em quadrinhos que viria a ser sua marca 666 registrada. A produção está bem mais clara e o som está melhor trabalhado, com uns backing vocals até acima da média, naquele estilo chamado-e-resposta. Os refrões estão muito mais grudentos, vide Girl, Long Way Back From Hell, Her Black Wings, a maneiraça Devil's Plaything e Snakes Of Christ - que, além de ser ótima pra profanar a religião a plenos pulmões debaixo do chuveiro, também tem um riff totalmente assassino!

Já o blues comparece na ótima Killer-Wolf, e nas semi-acústicas I'm The One e na ótima 777, uma viagem movida a slide-guitar. Destaque também para a baladona presleyana Blood and Tears, linda, linda. The devil loves too!

O disco termina bem dark, com a soturna Pain In The World. O andamento lembra muito o clássico Dazed And Confused, do Led Zeppelin, o que é obviamente uma ótima referência.

Uma curiosidade... a capa alternativa de Lucifuge, com a foto de cada um da banda, é praticamente uma reedição da capa do clássico disco de estréia dos Doors. Dá uma conferida:




...qualquer semelhança é mera influência. E não é interessante ver que o Doors influenciou artistas tão díspares quanto Danzig e... sei lá, Echo & The Bunnymen?


DANZIG III - HOW THE GODS KILL
(1992)


Dizem que esse é o melhor do Danzig. Só não digo que é, pois essa primeira fase é realmente toda memorável. Em execução e produção está um passo à frente do disco anterior. É uma evolução natural, que no caso do Danzig resultou em uma pérola irretocável. Ao longo do álbum vão aparecendo algumas inovações, como barulhos e ruídos estranhos acompanhando as músicas, como se fosse o som de espíritos enfurecidos. Ecos distorcidos vindos de algum nicho infernal. Mas antes que eu comece a viajar demais, os tais sonzinhos foram feitos através de instrumentos convencionais, como breves estaladas no piano, cordas e o próprio aro da caixa da bateria.

Danzig começa a exercitar aqui o seu bom gosto artístico na arte gráfica dos discos. Ninguém menos que H.R. Giger assina a ilustração da capa. Ele já fez uma capa para os dinossauros do Emerson, Lake & Palmer, no disco Brain Salad Surgery (clique aqui para vê-la), mas dificilmente aceita trampos desse tipo. Danzig costuma dizer que ele só aceitou após ouvir uma cópia da fita master do disco. Giger ficou alucinado com o conceito do álbum. Um lance totalmente from hell...

O disco é uma coleção de "clássicos do terror", por mais cinematográfico que possa parecer. Mas é isso mesmo. Falta algum diretor esperto chamar o Danzig pra compor a trilha sonora de algum filme do gênero.

Godless, a faixa de abertura, começa com uma avalanche heavy e desemboca em versos praticamente declamados seguidos de uma batida lenta e carregada de suspense. Destaque para o piano mal-assombrado que persegue a quebradinha. Excelente. A música seguinte, Anything, abre bem suave, dá uma discreta inversão na melodia e tem uma leve mudança de tempo antes de cair na porrada. Awesome! Os 4 cavaleiros do Danzig fazem isso parecer fácil, mas não é não. A seguir, Bodies tem um ritmo à Booker-T (que fazia aquele tipo de blues quase-correndo) e uma guitarra de trincar os dentes. Lembra muito o The Doors nos seus momentos mais chapados e bluesy. Outros momentos arrepiantes marcam presença na grandiosa faixa-título, na largada thrasher de Left Hand Black, na introdução satan-soul em Heart Of The Devil, nas guitarradas heavy de Do You Wear The Mark e no riff tortinho de When The Dying Calls.

How The Gods Kill também traz duas das músicas mais representativas do Danzig. A bela Sistinas parece uma daquelas pop songs românticas dos anos 50, ainda mais rebuscada pelos vocais do Evil Elvis. Já a perfeita (isso aí... perfeita) Dirty Black Summer abre com um barulho de chuva, sai rasgando num riff que é maquiavélico de tão bom, e até hoje é hour-concours nos shows da banda.


THRALL - DEMONSWEATLIVE
(1993)


Inicialmente eram dois EPs separados. Thrall continha duas músicas inéditas, uma cover e uma versão remasterizada de Mother, e Demonsweatlive... era um ao vivo. Após um relativo sucesso no circuito metálico norte-americano, os dois passaram a integrar o mesmo pacote.

Das músicas inéditas, nota-se que a banda ainda estava no climão sombrio do álbum anterior. The Violent Fire tem aquela tradicional melodia darkótica, enquanto It's Coming Down soa mais despretensiosa, bem mais rocker. A cover citada é do clássico blueseiro Trouble - de Leiber & Stoller e imortalizado por Elvis Presley, claro. É aquele negócio... The Pelvis tirava onda de malvado e fodão já nos anos 50: "If you're looking for trouble... you came the right place... If you're looking for trouble... just look right in my face". Isso cantado pelo Danzig soa mais do que "apropriado".

Já a parte ao vivo é uma injeção de adrenalina. Com a banda em grande forma, público sold-out e Danzig cheio da moral, desfilam os clássicos (já?) Snakes Of Christ, Am I Demon, Sistinas e a emocionante Mother. Pena que são apenas essas, afinal é só um EPzinho. Com certeza, foi um showzaço.

Novamente, Danzig prova que tem bom gosto e convoca o genial Simon Bisley (Lobo, Judge Dredd, Sláine) para a fazer arte de capa. O resultado é bem ao seu estilo: selvagem, demoníaco e com aquele jeitão de barbarismo sangüinário.

Clique na imagem abaixo para ampliar a arte original:




E já que comentei do Simon Bisley, aproveito para recomendar a leitura da porradíssima insane epic tale "A Verdadeira História De Sansão e Dalila", escrita à ferro e fogo pelo Hulk. Desde o clássico Lobo Está Morto que eu não vejo tamanha perversão doentia arrombando os portões celestiais. Mas o quê o Bisley tem a ver com isso? Confesso que quando li a história, não pude deixar de imaginar uma HQ dela com o Bisley nos desenhos...

Thrall Demonsweatlive é um dos EPs mais divertidos que já ouvi (ao lado de Garage Days Revisited, do Metallica, e Broken, do Nine Inch Nails).


4P
(1994)


Esse disco costuma ser chamado por aí de 4, mas é 4P mesmo - Four P era o nome de um antigo culto satânico (alguns dizem que ainda está na ativa). Danzig não queria apenas reciclar a mesma fórmula dos álbuns anteriores ad nauseum. Então resolveu dar a primeira guinada sonora relevante na carreira da banda. 4P tem texturas mais ásperas, distorcidas e uma estrutura musical propositalmente instável, às vezes bastante turbulento, e às vezes calmo e ambient. Há uma profusão de elementos outrora "alienígenas" no som do Danzig, como vocais distorcidos, camadas de guitarras saturadas, samples, e um piano mais freqüente e sinistro escurecendo a paisagem. O próprio timbre dos vocais se reveza em vários tons inéditos até então.

Mal comparando (bem, não tão "mal" assim), o Danzig de 4P está para o velho Danzig como o U2 de Achtung Baby esteve para o velho U2 - a reinterpretação sonora do príncipe dark foi muito similar à experimentada pelo grupo de Bono Vox naquele disco.

Mas apesar do novo approach e de algumas reestruturações sérias, as bases do velho Danzig ainda estava intacta. É só descontar o susto inicial e rever a bagunça habitual com o hard rasgadão de Brand New God e Bringer Of Death (com uns tiros de metralhadora, no maior clima de guerra), a climática Little Whip (que abre com aquelas guitarras surf music à Ventures) e a rifferama experimental de Until You Call On The Dark.

Alguns destaques saltam inevitavelmente aos ouvidos e... Cantspeak é a melhor música do Danzig que não parece com Danzig. Nem os vocais! Por muito pouco se nota que é o cara cantando. A batida hipnótica e várias camadas de guitarra em fade out remetem a música para algo próximo das primeiras fases do Gang Of Four e do Sonic Youth (!). Going Down To Die é a power ballad da vez, e a que mais lembra a fase inicial da banda. Simplesmente maravilhosa. A maravilhosa I Don't Mind The Pain e a linha soturna de Dominion são os momentos mais introspectivos do disco. Aliás, compare a melodia desta última com a de Until It Sleeps, do Metallica... coincidência? Sadistikal é o momento mais singular. Toda feita à base de samples, Danzig vocifera os versos com seu vozeirão seco sobre uma batida industrial cadenciada. Esquisita e assustadora ao mesmo tempo. Me lembrou muito o trampo paranóico de uma banda iugoslava chamada Laibach. Já Son Of The Morning Star (homenagem ao personagem da Vertigo?), é uma viagem dark old school à Planet Caravan, do Sabbath, com as guitarras levantando no refrão.

4P foi o tipo de experimentação corajosa que deu certo e que apontou novos e intrigantes caminhos para o som da banda. Único, inovador, carregado de fúria negra. Talvez boa parte disso tenha sido ao acaso... mas um feliz acaso.

Em tempo... após a última faixa existe uma daquelas famosas faixas escondidas... trata-se de umas passagens com órgão de igreja e algumas vozes ao fundo. O detalhe é que, não satisfeitos em inserí-la na faixa #66, ainda deram um jeito do display marcar exatos 66:64:41.


DANZIG 5 - BLACKACIDEVIL
(1996)


A famosa "escorregada no tomate". Como diria o Mestre Yoda, perigoso é o Lado Negro do Experimentalismo... Aqui a coisa não fugiu à essa regra e resvalou todo o brilhantismo do álbum anterior para uma espécie de Lei de Murphy musical. Se você acha St. Anger, do Metallica, a maior decepção sem sentido dos últimos tempos, ouça Blackacidevil. Melhor ainda, não ouça...! Apenas confie em mim. Talvez seja o registro musical mais equivocado da História recente.

Dizem que foi uma fase cheia de problemas internos no grupo. O batera Chuck Biscuits andou chapando além da conta e tomou um pé na bunda, o que inspirou o patrão Danzig a reformular o grupo inteiro. A banda acabou entrando no estúdio com um punhado de pára-quedistas de última hora: Joey Castillo (bateria), Joe Bishara (teclados e programações... opa, programações?!) e Josh Lazey (baixo). Apesar disso, baixou um espírito one-man-band em Danzig e ele também resolveu tocar baixo, guitarra e teclados.

Danzig é um frontman. Ponto. Essa coisa de one-man-band é para artesãos como Trent Reznor (NIN), Al Jourgensen (Ministry) e Richard Patrick (Filter) - e olhe lá ainda por cima. Há sempre uma chance ínfima de uma banda se dar bem em um contexto que não lhe é natural - o que não acontece acontece aqui em nenhum momento. A impressão que dá é que o grupo se esforça ao máximo pra soar inaudível. Existem formações que conseguem dar sentido ao Caos e reunir os pedaços em quadros instigantes, como se fossem um mosaico niilista em homenagem à Destruição (como bem fazem o Atari Teenage Riot e o Cubanate), mas as batidas tecno socadas, os samples barulhentos, o feedback no talo, os guinchos electro-noisy e as guitarras e vocais hiper-ultra-distorcidos que povoam o disco inteiro acabam com qualquer linha musical compreensível/aceitável.

Trocando em miúdos, as músicas são horrorosas, mesmo para o paladar radical de um fã de Riistetyt, Rattus ou Napalm Death fase Lee Dorrian. Dificilmente um ser humano sem poderes mutantes consegue ouvir Blackacidevil até o fim, de uma tacada só. Duvido.


B lack

A ci

D evil


Com muita boa vontade dá pra encarar Sacrifice, Hand Of Doom (do Sabbath) e Ashes.

Talvez vire cult daqui há uns 25, 30 anos... da mesma forma que o doidaço Metal Machine Music, do Lou Reed.

Mas pensando bem... acho que não.


6:66 SATANS CHILD
(1999)


Três anos depois e o Danzig acorda da ressaca industrial do disco anterior. O senhor das profundezas deve ter chamado a atenção do guerreiro doom, e por isso a banda voltou mais direta, enxuta e sem as tralhas high-tech de outrora. Mas ressaca é ressaca e 6:66 Satans Child, apesar de poderoso, passa longe da energia criativa da saudosa fase inicial. A sonoridade agora é bem mais minimalista, com quase nada de riffs e solos, e basicamente movida à levadas de guitarra-base e bateria. Simples assim.

Algumas bases são realmente possantes como demonstram a faixa de abertura, Five Finger Crawl, e a faixa Unspeakable. Já a ótima Cult Without A Name talvez seja a mais próxima do climão gótico das antigas. East Indian Devil (Kali's Song) trafega perigosamente pela atmosfera experimental, mas fica só na sugestão (ainda bem). Firemass também dá um susto com uma batida meio "ritmada demais", mas as guitarras bem colocadas logo modificam o contexto da música (que acabou me lembrando o Killing Joke do disco Pandemonium). A faixa-título é bem diferente e tem uma estranha quebrada de guitarra, estilo Tool. Mas o refrão cavernoso é Danzig puro.

Chega a última música, Thirteen - que já foi até regravada/imortalizada pelo venerável Johnny Cash - e temos um melancólico retorno às raízes. Nesse momento, senti que o Danzig já tinha atravessado a faixa amarela e que os bons tempos ficaram mesmo para trás. Que o digam Henry Rollins, Metallica, Living Colour e Red Hot Chili Peppers. Sinal dos tempos...

E a capa tem um jeitão de HQ não é à toa: é novamente Simon Bisley quem assina a arte. Muito bacana, por sinal.


LIVE ON THE BLACK HAND SIDE
(2001)


Os fãs do Danzig nunca tiveram muito problema com a escassez de discos ao vivo, mesmo que o único registro oficial desse tipo tenha sido o EP Demonsweatlive, de 93. Isso porque a quantidade de material pirata que circula da banda por aí é de assustar. Pra cada show deles pipocam uns quatro ou cinco CDs e DVDs ao vivo no mercado negro - alguns com uma qualidade excelente. Mas fora os parcos registros live em home-vídeos, faltava o famoso disco ao vivo do Danzig. Live On The Black Hand Side é o próprio e em dose... digo, CD duplo.

Assim como Ozzy Osbourne, Glenn Danzig é um bom escalador de instrumentistas. Seus shows sempre exibiram técnica e energia de sobra, não importando a fase em que a banda se encontrava, e isso é bem demonstrado aqui. As primeiras oito músicas do CD 1 foram extraídas da tour Halloween, de 1992 (a mesma de Demonsweatlive) e têm a mesma clássica line-up: Danzig-Christ-Von-Biscuits. As últimas 6 faixas são da tour de 4P, com Joey Castillo no lugar de Biscuits. Memorável.

Já o CD 2...

...muito mal gravado (cheio de microfonias e com várias quedas no som da guitarra), o CD 2 traz faixas mais recentes, inclusive 7th House do infame "Bad". A energia habitual e a força de composições como Her Black Wings, It's Coming Down, Do You Wear The Mark, Twist Of Cain e Mother acabam salvando o segundo disco de um belo naufrágio. Mas que eles deram um mole federal com essa produção tosca, isso deram. Já ouvi piratões muito melhores!


777 - I LUCIFERI
(2002)


Para registro: o início de 777 - I Luciferi é magistral. Unendlich é uma breve introdução com reverbers de guitarra fazendo um dueto com uma espécie de canto gregoriano fantasmagórico. Na seqüência, a pesadona Black Mass dá a tônica do que vem a seguir. Em um contexto geral, I Luciferi retoma a linha de Satans Child, mas de forma mais básica e rocker. Algumas passagens new metal se fazem presentes aqui e ali (como os "apitos" de guitarra), mas não sei ao certo quem é o ovo e que é a galinha nessa história. De qualquer modo, não é algo que chega a desvirtuar o que se espera do Danzig - o problema é que, após essa seqüência de altos e baixos, o quê exatamente se espera do Danzig...?

Como você já deve ter percebido, comentar sobre os discos do Danzig é quase como escrever um tratado metafísico pra mim. Não consigo simplesmente classificá-los com um 'bom' ou um 'ruim', mesmo no caso do "Bad". É foda. Na próxima vez vou escrever sobre o Ramones... dá menos trabalho e os meus neurônios não precisam ser obrigados a trabalhar sob efeito maciço de cafeína. :)

Mas voltando à lida...

Após o início demolidor, o disco segue com a ritmada Wicked Pussycat. A levada é largadona e a letra é meio s&m. God Of Light (que não é uma homenagem ao pessoal de Furnas...) tem aqueles irritantes apitos de guitarra que eu mencionei. Desde que o Machine Head começou com essa praga, há alguns anos atrás, passei a viver num mundo pior. Na seqüência, Liberskull chega rasgando com uma slide guitar canibal e um ritmo cadenciado. Sonzeira. A gótica Dead Inside é um daqueles momentos mais ternos e viajantes. Pena que o refrão fica bem aquém do climão escuro do início. Aí chega Kiss The Skull... essa guitarra foi sampleada de Beautiful People, do Marilyn Manson, ou estou ouvindo coisas?! Na boa Danzig... tu roubou legal. Mas a música é ótima. Parece o hino marcial do 66º destacamento de infantaria do exército do inferno.

Na seqüência final, a faixa-título cria uma atmosfera bem tétrica. Já Naked Witch (adorei esse título) quase nos remete ao blues rock do início. Se não fosse a mixagem abafada dos vocais... tsc! Na música The Coldest Sun... mais uma pós-pré-referência. Explico... o andamento slow heavy com o gancho poderoso de guitarra e a vocalização estrondosamente grave é Type-O Negative puro. Tirando o refrão, a voz de Danzig está idêntica à do vampiro Peter Steele, do Type-O.

Considerações finais... 777 - I Luciferi é sim um bom álbum, e muito funcional no que propõe, mas tem uma particularidade que costuma irritar muitos: é exageradamente referencial. Tanto é que citei aqui, de relance, umas três ou quatro bandas que lembrei enquanto o disco rolava. O detalhe é que todas essas bandas, sem exceção, foram largamente influenciadas pelo Danzig. Então, o que Danzig faz aqui é quase uma autofagia por tabela. Em I Luciferi ele imita aqueles que passaram a vida toda o imitando. Estranho ciclo, não?


CIRCLE OF SNAKES
(2004)


Como o Danzig já vinha com um direcionamento new metal, nada mais natural que Tommy Victor assumisse a guitarra. Victor é o líder do Prong, e foi um dos caras que mais influenciaram o tão discutido "novo metal". Mas calma lá... o Prong é uma grande banda (apesar de há tempos não produzir nada do calibre de Beg To Differ, Prove Your Wrong e Cleansing - todos clássicos), e esse lance de "influência" é a coisa mais fácil de sair do controle e se desvirtuar - vide o legado do Faith No More e seu Angel Dust.

Circle Of Snakes é um retrato do Danzig atual, e ele é bem diferente daquela banda que esculpiu hits memoráveis como Twist Of Cain, Am I Demon, Mother e Snakes Of Christ. Mas que Circle Of Snakes é uma porrada desembestada, isso é. E se você não tem problema com nego que se distancia do próprio passado então... é colocar o CD no volume 11 e esperar a casa ruir.

Tommy Victor é um mestre na guitarra, isso é fato. Ele não é o típico guitarrista hendrixiano, cheio de longos solos operísticos. Ele vive de detalhes. É um miniaturista por natureza e, sempre que pode, insere aqueles detalhezinhos que fazem toda a diferença no resultado final. E quando resolve partir pra grosseria, não tem nada igual.

O álbum começa com mais uma introdução demoníaca, dessa vez mais "instrumental" do que na intro de Luciferi. Seguem as pauladas de Skincarver e da faixa-título, e Victor mostra como se faz uma "guitarra com apito" decente. O cara é foda. Na seqüência, 1000 Devils Run. É uma porrada sensacional, mas verdade seja escrita... ela parece saída das sessões de gravação de Cleansing, do Prong. Tem até aquele ritmo pára-e-começa característico! Outro destaque é Hellmask, uma zoeira guitarrística de te fazer perder o rumo de casa. Meu amigo, que guitarra base é essa... parece um furacão! When We Were Dead tem uma pegada mais cool e viajante. Parece uma daquelas baladas pesadas do Pantera. Já Night, Besodon tem um clima tão desobediente, maléfico e infernal que dá vontade de sair por aí anunciando o fim do mundo com uma metralhadora na mão. Eu queria que o mundo acabasse com essa música rolando. A ótima Black Angel, White Angel lembra o Danzig das antigas, sempre querendo acertar um anjinho com uma bazuca.

Ao final fica a impressão que você ouviu um bom novo disco do Danzig. É um disco de guitarra, porradão, straight, pra macho. Sem o charme diabólico e bluesy dos primeiros álbuns, é verdade, mas com tudo o que se pode fazer com uma boa banda de rock moderno.

E destaque para a capa, que mostra uma espécie de Górgona bio-mecânica à H.R. Giger. Mas a ilustração não é dele não, e sim do artista Dorian Cleavenger. Pelo jeito, até os Gigers de hoje são outros.



Danzig é um aficcionado por filmes e quadrinhos de terror tão fanático quanto o Rob Zombie. Atualmente ele anda dividindo seu tempo com vários projetos, entre eles a continuação de seu álbum solo, Black Aria, dessa vez contando a história de Lilith (que teria sido a primeira esposa de Adão). Outro projeto a ser acompanhado cuidadosamente é a sua estréia como diretor. O filme Gerouge mostrará um ataque de mortos-vivos em New Orleans, possivelmente em 1854. Promissor. A história é baseada em uma HQ publicada pela sua própria editora, a Verotik Comics. Nunca li nada de lá, mas à primeira vista, o clima geral parece ser de "total liberação"... ou seja, muito sangue, violência, misticismo, sexo explícito e belezinhas afins.

Um detalhe interessante é que o carro-chefe da editora é a HQ Satanika - xará da SataNika, do blog Que Te Importa?! ... Será que a "heroína" da revista é uma homenagem? :P


Anexo 30/4


Enquanto passava o olho no texto, notei uma certa profusão do dígito 6 na tela. Juro que não é nenhuma mensagem subliminar da minha parte, mas que realmente parece obra do cão, parece.

Hum... "cão"... "dogg"... putz. :)


"If you wanna find hell with me... I can show you what it's!"

domingo, 24 de abril de 2005

MAIS UM! MAIS UM!


Acho que estamos testemunhando o nascer de uma nova era na história da Publicidade. É incrível... parece que foi ontem que Steven Spielberg malocou os dinos ultra-realistas de Jurassic Park até o dia de sua estréia nos cinemas. Até George Lucas e seu último Star Wars entraram na dança. Pelos atuais padrões, segredo já não é mais a alma do negócio e sim a super-exposição em seu aspecto mais instigante. É justamente isso o que nos gritam os marketeiros responsáveis pela divulgação de Sin City, Quarteto Fantástico e, principalmente, Batman Begins. No caso desse último, não que eu esteja reclamando. Tudo o que foi liberado - incluindo aí fotos oficiais, de externas de produção, teaser-trailer, pôsteres, trailers, spots para TV e Superbowl - é de um extremo bom gosto e só me deixaram ainda mais atraído pelo filme. Ou seja... sou uma vítima da mais nova tendência publicitária de Hollywood. Virei um mero número positivo naquele grande quadro de estatísticas, gostando ou não.

Mas eu sou suspeito, pois sou fã do personagem. Quando Batman for embora, quero ver como vai ficar esse carnaval de spoilers em forma de propaganda.

Logo abaixo, um seqüência com os pôsteres divulgados até agora. Um mais lindo que o outro. Clique nas imagens para ampliar.



A propósito, o lançamento da trilha sonora de Batman Begins, composta por James Newton Howard (A Vila) e pelo honorável Hans Zimmer, será num dia curioso: meu aniversário. :P


O KRYPTONIANO DA MÁFIA


Vinnie e Clark... separados na maternidade

The World Finest! Falei do Bruce, tinha de falar do Clark. Antes de mais nada... não é que o Brandon Routh é mesmo a cara do Vinnie Terranova? Pra quem não lembra, Vinnie foi o protagonista da ótima série O Homem da Máfia (Wiseguy, 1987-1990), e era interpretado pelo ator Ken Whal. Aliás, essa lembrança nem foi minha, foi do Castrezana - pra fazer um link desse nível, só ele mesmo. Mafiosos do mundo, tremei... vocês têm um kryptoniano infiltrado.

Mas voltando ao assunto... logo após os shots de Routh caracterizado como o repórter Clark Kent, a semana ganhou outro super-susto com a primeira imagem do ator usando o uniforme do Superman. Estava lá, bem entre o Ratzinger e o Lula liberando asilo político para aquele ladrãozinho equatoriano. Acho que ninguém esperava por essa imagem tão cedo. Pelo que li/ouvi por aí, as opiniões são hilariamente divergentes. Hilário, porque se trata de um uniforme simplista ao extremo, com linhas e cores bem minimalistas, e mesmo assim, virou pauta para discussões acirradas. A verdade é que o uniforme do Super está com um design mais rebuscado que aquele utilizado nos filmes anteriores. Chega a lembrar o traje de suas primeiras aventuras na Action Comics e daquele seriado em p&b dos anos 40. Se o "S" no peito fosse menos estilizado então... seria back-to-the-basics total.

Na minha opinião, não ficou necessariamente bom ou ruim (isso não mesmo), apenas diferente e um tanto intrigante. Mas que é uma boa contradição lá isso é, visto que o diretor Bryan Singer disse que o conceito da produção será uma continuidade dos 2 primeiros filmes. Então, não seria melhor se o visual do uniforme fosse mais "moderno" ou ao menos similar aquele que imortalizou Christopher Reeve?

De qualquer forma, já pipocam pela web versões photoshopísticas do uniforme oficial. Algumas realmente muito boas e até... hã, melhores, eu diria. Como essa aí logo abaixo.

Clique na imagem para vê-la ampliada e na íntegra.


Superman antes e Superman depois... do Photoshop

...mal aê Singer. Libera um trailer bacanão aí pra eu poder nivelar a parada. :)


dogg, tomando café forte e sem açúcar, ao som de "Garotos", do Leoni... bela letra com um violão chupado de "More Than Words", do Extreme