sexta-feira, 23 de maio de 2008

A GUERRA DE MARK III-A / MODELO XIV


Quando as coisas vão mal, nada melhor que uma guerra. Ou duas. Até nisso a trajetória do Homem de Ferro avança em paralelo com o sistema tecnocrata que defende (já concluindo aqui o rompante Jabor'esco). E no caso do Latinha, as coisas estavam indo realmente mal. Após A Guerra das Armaduras, a clássica dupla formada por David Michelinie (argumento) e Bob Layton (desenhos e arte-final) permaneceu no título por algumas poucas edições. A saideira de Michelinie foi na divertida Iron Man #250 (lançada em GHM #41) e Layton apenas roteirizou esporadicamente. Com o rodízio de profissionais duvidosos que se seguiu - gente do calibre de Fabian Nicieza, Dwayne McDuffie e o terrível Herb Trimpe - praticamente todos os ganchos em andamento foram descontinuados em edições pra lá de capengas.

Foi neste clima que estreou a aguardada Guerra das Armaduras II, seqüência notável pela colaboração entre John Byrne e John Romita Jr. Mas antes de reingressar ao campo de batalha, o Vingador Dourado enfrentou algumas turbulências. Na derradeira fase escrita por Michelinie, Tony Stark fez uma série de "acordos" com o governo para escapar dos processos provenientes dos estragos causados na primeira guerra das armaduras. Depois, se aliou a um de seus piores inimigos com resultados desastrosos e, em seguida, foi baleado por uma ex-amante enciumada. Ficou paraplégico nessa (em um cliffhanger digno da novela das oito!), mas se recuperou com o implante de um microchip que substituía as terminações nervosas afetadas. Por fim, um quase-alento: a trégua com o Cap - embora constatando que a velha amizade havia acabado e as coisas nunca mais seriam as mesmas.

Já sem a batuta de Michelinie, o herói ainda teve de assistir sua nova e poderosa armadura sendo destruída por um subvilão de quinta. O que deu lugar à série Mark III-A e ao modelo XIV, o primeiro com o prático "display de interface por neurosistema", permitindo a Stark o acesso remoto às armaduras através de ondas cerebrais, mesmo a grandes distâncias. Uma espécie de embrião do conceito do Extremis.


Originalmente, a solicitação de Guerra das Armaduras II contava com Bob Layton no roteiro e Romita Jr. nos desenhos, mas a parceria durou apenas 1 edição (a sensacional Iron Man #256, publicada no Brasil estranhamente em Wolverine #21, ao invés da Incrível Hulk habitual). Num lance mal-explicado, Layton pulou fora para a Valiant Comics, sendo substituído por John Byrne em cima da hora. Sendo assim, o início oficial da continuação se deu em Iron Man #258 e durou até IM #266 (aqui, Incrível Hulk #127-136).

O arco começa com Stark e Rhodey testando as novas instalações de treinamento - um tipo de Sala de Perigo versão Latinha - e o desempenho de sua mais recente armadura. A seqüência inicial é eletrizante, com Stark controlando duas armaduras ao mesmo tempo contra um droid monstruoso e o traço do Romitinha em sua pegada mais hardcore. Após o "exercício", Stark sente algumas dores estranhas, logo preteridas por um incidente na usina nuclear da Stark Enterprises.

Chegando lá, o Homem de Ferro tenta conter um vazamento radioativo e enfrenta ninguém ninguém menos que o Homem de Titânio (morto durante Guerra das Armaduras). Incrédulo, o Latinha dribla o "fantasma" e consegue impedir a tragédia nuclear deslocando o reator inteiro para o fundo do oceano. O Greenpeace não aprovaria, mas...

Depois do sufoco, Stark tenta descansar e sofre um baita lapso de tempo, acordando após 3 dias, em outro estado (!), num quarto de hotel com uma ilustre e deliciosa desconhecida. Por sinal, este é um dos três subplots constantes em GdA II. Os outros dois respondem pela melhor personificação do vilão Laser Vivo e pelo retorno/releitura do adversário mais clássico do Homem de Ferro: o Mandarim.


O estado clínico de Stark se agrava, passando para perda total de coordenação motora e movimentação involuntária. Com isto tudo, o playboy (no bom sentido!) ainda tem de enfrentar a fúria do sindicato dos funcionários da Stark Enterprises, que estão em greve e ameaçam invadir a sede da empresa - revolta fomentada por um ex-empregado sindicalizado e baderneiro de carteirinha (qualquer semelhança com o atual MST é uma triste coincidência). O clímax é algo insólito, com o herói contendo uma multidão de grevistas, ao melhor estilo batalhão-de-choque-de-um-homem-só. Faltou só rolar "Street Fighting Man"... ou "Street Fighting 'Iron' Man".

Após vários exames em uma sala isolada, Stark descobre que estava sendo manipulado através do microchip que lhe possibilitou andar novamente. O microchip foi criado por uma subsidiária "laranja" da Corporação Marrs, dos irmãos Desmond e Phoebe Marrs, notórios desafetos do herói. A conspiração estava sendo dirigida pelo obcecado Kearson DeWitt, que buscava vingança por achar que Stark roubou o projeto do Homem de Ferro de seu pai, um brilhante engenheiro que morreu na miséria.

Vilão tridimensional, ponderado e, diria até, bem passível de uma adaptação cinematográfica.


No geral, a saga mantém uma narrativa acelerada, dinâmica, sem muitas pausas entre um gancho e outro. Mesmo com três plots intensos se desenvolvendo ao mesmo tempo, a unidade do arco é invejável. A reinvenção do Mandarim é simplesmente genial. Com uma roupagem bastante influenciada pelo nosferatu chinês Lo Pan (preciso informar o filme?), ele ainda ganhou a companhia de um ótimo personagem, o enigmático Chen Hsu. É de longe a versão mais interessante e poderosa do velhusco vilão, agora com bala na agulha até pra colocar o infame Fin Fang Foom como seu cão de guarda.

Curiosamente, toda essa linha narrativa transcorre independente das demais. O Mandarim e suas ações nunca chegam a interagir com o Latinha, servindo apenas como intro para a saga posterior - concluída em Iron Man #272 (GHM #48), já sem o nanquim abençoado de Romita Jr. Contudo, acabou rendendo uma edição espetacular (Iron Man #261/Incrível Hulk #130), onde cada página é dividida em duas situações distintas ocorrendo ao mesmo tempo. Uma grande sacada de Byrne, inquestionavelmente em seu auge como roteirista - detalhe que, sem dúvida, faz transparecer o espírito por trás do arco.

Guerra das Armaduras II vence pelos talentos individuais. Não tem qualquer ligação com a primeira aventura e acaba sendo comparativamente inferior - apesar da arte fabulosa e dos vários pontos altos do argumento. Se não fosse pelo final, com uma pancadaria titânica entre dois Homens de Ferro e o calculista DeWitt devidamente 'tunado', nem o nome da saga faria sentido. Fica óbvio que foi apenas uma estratégia comercial, visto que a idéia de uma seqüência tinha boa aceitação por parte dos leitores e o título (um dos mais longevos da Marvel) afundava numa crise interminável após saída de Michelinie.

Em seu site oficial, John Byrne chega a comentar a situação Defcon-1 a qual foi submetido pelo então editor da revista, Howard Mackie. Foi o seu melhor dentro de uma deadline absurda. Se isto for levado em consideração, o resultado final passa de ótimo para impressionante. E imperdível, note bem, pela química rara entre Romitinha e Byrne. Para admiradores da composição estética e narrativa da arte seqüencial, é um show de emocionar até o Scott McCloud. Resumindo, ficaria lindo num encadernado em cima da estante.

Há rumores de que a idéia original de Bob Layton para Guerra das Armaduras II - com Romita Jr. no traço - era fora-de-série. Tendo em vista a qualidade da edição única em que os dois trabalharam juntos (a já citada Iron Man #256), só posso imaginar o melhor. Mas isso é algo que jamais saberemos.


Na trilha: Sucking The 70's na agulha do winamp, fazendo a festa stoner aqui.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

IRON, IRON MAN


Stan Lee já dizia que Tony Stark era a persona quadrinizada de Howard Hughes, cujo talento pra fazer dinheiro só era comparável ao vício por adrenalina. Ou, nas palavras do homem, "um inventor, aventureiro, multibilionário, um sedutor e, finalmente, um maluco". 'Nuff said!

Homem de Ferro (Iron Man, EUA, 2008) parece buscar justamente essas coordenadas do mestre. E fica evidente que o grande achado do filme foi a escalação de Robert Downey Jr. Poucos atores são tão qualificados para personificar o playboy quanto ele - que conta, inclusive, com uma "valiosa" "experiência de campo", ao melhor estilo live fast, die young, que vitimou tanta gente boa ainda na curva ascendente. Mas onde Stark tem um quê de Willy Wonka, Downey tem de Keith Richards: talentoso, carismático (menção honrosa à Chaplin, de 1992) e quimicamente imortal. Um super-anti-herói da vida real, perfeito para o cargo - já comentei que ele aparenta ser um sujeito bacana?

Faço questão de destacar isso, pois nada pode ser tão definitivo numa adaptação. E raramente esses filmes têm acertado nas caracterizações. Felizmente, agora tem o Downey para engrossar a lista. Parece que já o estou vendo decidir entre a garrafa e a armadura. No filme, Stark se notabiliza por uma inesperada identificação com o espectador, senão na conta-corrente, ao menos no cinismo e falhas de caráter. Um ser humano de carteirinha, bon-vivant, mulherengo e um adorável calhorda.

Em outras palavras, um papel que é um verdadeiro presente para qualquer ator, mas não para qualquer ator.


O roteiro faz um mix bem resolvido do universo do personagem nos quadrinhos, desde a origem atualizada (à frente da ótima releitura de Warren Ellis, em Extremis) até citações para quadrinhófilos colecionarem e o ótimo desenvolvimento dos personagens secundários. Muitas informações em um curto espaço de tempo fluindo sem maiores desníveis narrativos, o que é, sem dúvida, sua maior virtude. Um grande trabalho do quarteto de roteiristas Mark Fergus, Hawk Ostby (ambos de Filhos da Esperança), Art Marcum e Matt Holloway.

O início da história é colocado para apresentar o espectador não-iniciado ao sempre espirituoso Tony Stark. Gênio inventor, bilionário e dono da Stark Enterprises (uma das maiores fornecedoras de armas para as forças armadas), ele é seqüestrado por um grupo de terroristas denominado "Os Dez Anéis" (boa!). Gravemente ferido, o magnata é salvo pelo Dr. Yinsen (Shaun Toub), também prisioneiro. No cativeiro, Stark se surpreende com o farto arsenal da guerrilha, fabricado pela sua própria companhia, e é forçado a reproduzir seu novo míssil tático, Jericho. Mas com ajuda de Yinsen, ele constrói na surdina uma armadura rudimentar à prova de balas e equipada com algumas armas.

Após uma fuga conturbada e de volta aos EUA, ele se dedica a aperfeiçoar o conceito da armadura (Projeto Mark) e dar fim à divisão de armas da Stark Enterprises. Para isto, tem de enfrentar seu sócio, o ambicioso e perigoso Obadiah Stane (Jeff Bridges). Ao seu lado, estão o Cel. Jim Rhodes (Terrence Howard, de Valente), seu melhor amigo, e Virginia "Pepper" Potts (Gwyneth Paltrow), sua leal assistente e um quase interesse romântico.


Homem de Ferro é um PG-13 de altíssimo nível e que não se deixa mutilar em criatividade por causa disso. Que nem antigamente. Existe aqui uma violência física considerável e algumas mortes, mas enquadradas de maneira implícita e até com certo bom humor, algo que Hollywood parece ter desaprendido nas últimas décadas. Há tempos eu me pergunto onde foram parar aqueles filmes tão divertidos que eu curtia na adolescência. Por esta facilidade em lidar com abordagens mais pop, o ator/diretor Jon Favreau se revela um cineasta da velha escola - mesmo sem pertencer à velha escola. Isto já era perceptível no ótimo Zathura: Uma Aventura Espacial (2005), bem como a sua simpatia por Caos & Destruição, aqui orquestrados com gosto de gás pela gigante ILM em associação com a Orphanage e a Embassy.

De fato, os efeitos são bem mais moderados que os de um Hulk (2003) ou de qualquer Homem-Aranha, no entanto, soam muito mais verossímeis, facilitados pelas composições geométricas do vilão e do herói. Que, aliás, conta com um elegante design, casando a concepção do artista Adi Granov com elementos de sua armadura clássica. Já o Monge de Ferro (apelido com que Obadiah se refere aos fabricantes de armas), que tem uma clara inspiração cinética no Cain, de RoboCop 2, é um protótipo maior e atualizado da armadura que Stark construiu precariamente. O que nivela o confronto final, onde Stark/Homem de Ferro se apresenta em péssimas condições - caso contrário, ele venceria facilmente com sua armadura, muito mais sofisticada. Uma boa sacada que talvez tenha arrefecido um pouco as possibilidades da seqüência. Decisão difícil, hein?

Um problema: Stark poderia ter sido mais poupado naquela aterrissagem de nariz, durante a fuga do cativeiro. Aquele trechinho sugeriu um direcionamento estilizado que pra mim teria sido o horror, o horror. Só pra não estragar a criança. Afinal, é o primeirão totalmente indie da Marvel Studios.


Acima de tudo, o que faz todos os mecanismos de Homem de Ferro funcionarem como um motor de uma Ferrari, é a interação do cast principal (incluindo aí as pontes que o roteiro cria entre os personagens e a direção técnica dos atores). Invejável. Aqueles quatro são a força do filme. Não vejo Gwyneth Paltrow soar interessante desde... desde... A Força de um Passado (sem trocadilhos, 1993). Pepper é tridimensional, frágil, corajosa e cativante. A cena em que ela dá uma "mãozinha" a Stark é uma das minhas preferidas, com humor - negro até - e uma boa troca dramática. Terrence Howard, apesar do espaço limitado, se sobressai ao espectro do mero sidekick, mesmo ao lado do magnético protagonista. Não é surpresa que tanto Pepper quanto Rhodes salvem o traseiro metálico de Stark em momentos-chave.

Outra boa idéia foi o JARVIS, acrônimo de "Just A Rather Very Intelligent System" (voz de Paul Betanny, o sujeito mais sortudo do mundo), e seus diálogos sutis e mordazes com o dono da festa.

E Jeff Bridges... é uma força da natureza. Sua caricatura vilanesca é uma delícia de se assistir, subvertendo aquela aura bom-mocista que predominou em sua carreira. Valeu cada fio de cabelo tosado. Com certeza, é o campeão do elenco - Downey Jr. não conta... é o próprio Stark cuspido pra fora dos quadrinhos.

Se esse filme fosse uma armadura, me serviria perfeitamente. Sem exageros: não saio do cinema tão satisfeito desde os anos 80, quando tudo parecia mais legal.


Mais uma coisa...


Não esqueçam do final dos créditos. Cameo mais cool do L.J. desde Irresistível Paixão?

A arte imita a arte que imitou a vida.


Na trilha: por coincidência, "Institucionalized", do Suicidal Tendencies, que rola no filme. Que trilha, hein.

terça-feira, 29 de abril de 2008

A GUERRA DE STARK


Bem antes da controversa Guerra Civil, Tony Stark já promovia sua própria guerra particular. Igualmente conturbada e batendo de frente com quem se colocasse em seu caminho - seja o governo, conglomerados industriais, vilões e mesmo seus superamigos. Aliás, esta sempre foi a característica mais interessante do personagem. Seu modus operandi é todo baseado numa visão macro dos eventos e, como nada é tão simples, isto acaba gerando uma intensa batalha interna pra que ele não perca o foco da situação. É mais ou menos como um "daqueles dias" na vida do Jack Bauer... Stark corre na contramão e contra o tempo, faz sacrifícios outrora impensáveis, não raro se vilaniza, mas vai até o fim, não importando os meios ou as conseqüências. Ou as questões éticas e legais envolvidas no processo.

Com esta peculiaridade em mente, é sempre um prazer revisitar uma de suas melhores sagas: A Guerra das Armaduras. Com roteiro de David Michelinie, desenhos de Mark D. Bright e arte-final de Bob Layton, o arco foi publicado no Brasil em 1991, em O Incrível Hulk, edições #102 a #107 (originalmente em Iron Man #225 a #231). A revista, por sinal, andava numa fase escabrosa. Convenhamos, o universo do "Tira-Teima" era puro trash e os desenhos do Jeff Purves pareciam feitos durante um terremoto. Ah, sim... tínhamos também as aventuras dos Novos Mutantes (irc!).

Então, literalmente afirmando, o Homem de Ferro salvava a pátria a cada edição. Michelinie e Layton já vinham de uma marcante cronologia com o personagem, sendo os responsáveis pelas mudanças mais importantes de seu perfil desde sua criação (alcoolismo, variação de armaduras, novos inimigos, etc). Certamente, uma das duplas mais representativas na história do Latinha.

Guerra das Armaduras foi um daqueles grandes momentos, inserindo os valores dúbios que hoje são sua marca registrada. O principal: controle... com mão de ferro.

Ah, os trocadilhos.



A história começa com Tony analisando a armadura do vilão Força, derrotado por ele meses antes. Tony descobre que grande parte da tecnologia da armadura foi criada por ele mesmo. Pressupondo uma situação de espionagem industrial, ele investiga o caso e logo chega ao industrial multibilionário Justin Hammer, notório e desleal concorrente da Stark Enterprises. Numa missão digna do roubo da lista NOC, em Missão Impossível, Tony, seu velho camarada Rhodey, o finado geek "Abe" Zimmer e Scott Lang, o Homem-Formiga, invadem os sistemas de Hammer e descobrem que as informações foram roubadas pelo 1º Espião-Mestre, pouco antes de sua morte.

Os dados indicam que a tecnologia foi adotada por vários supervilões em suas armaduras e demais trajes especiais de combate. A lista surpreende o Ferroso, que se culpa pelos inocentes mortos em função do uso criminoso de suas invenções.


Pra piorar, os caras maus não foram os únicos beneficiários, visto que agentes federais também se fartaram no high-tech rapinado - entre eles, o Arraia, os Mandróides da SHIELD, os Guardiões produzidos para o governo por Obadiah Stane ('El' Monge de Ferro, que está em carne, metal e Jeff Bridges no filme) e até num novo - e monstruoso - projeto do exército.

Um detalhe interessante foi Stark e Zimmer coibindo o vazamento da tecnologia pelo ciberespaço (anos antes da popularização da internet), criando um vírus programado para rastrear e apagar todos os dados referentes ao esquema das armaduras. Uma aula de como evitar rombos no roteiro!

Outra boa sacada de Michelinie são os upgrades do Homem de Ferro sendo colocados à prova. Alguns de seus velhos arquiinimigos eram pedreiras na "Era de Prata" (aquela, focada pelo ótimo [e aparentemente incomunicável] Âmago), mas, após a enésima versão da armadura, a maioria não passa de punguistas metalizados perto do Latinha.


A exceção, claro, são os que têm "patrocínio" e contam com suportes técnicos de alto nível - especialmente do governo. E para isto, Tony contava com um equipamento de primeira. Na época, ele tinha como titular o adorado e odiado Centurião Prateado, construído para suplantar o Monge de Ferro. Foi seu maior salto visual e tecnológico até então, ficando atrás apenas da transição Vingador Dourado/Protoclássica. Mesmo hoje, na "Era Granov", seu design soa bastante radical - embora longe de atrocidades conceituais como a armadura SKIN.

"Melhor, mais rápida e mais forte", a armadura era cheia de recursos, batendo facilmente os subvilões e fazendo frente a equipes inteiras de Mandróides e Guardiões - com ajuda de joguinhos duplos por parte de Stark, claro. É neste ponto que vemos um lado não tão heróico do personagem (os tais sacrifícios éticos), que passa a perna em Nick Fury, então diretor da SHIELD. Em uma seqüência antológica de canalhice suprema, ele neutraliza todos os Mandróides da temida superintendência, manipulando o cerco ao Homem de Ferro debaixo do tapa-olho do experiente diretor.

A desconfiança se instala, mas Tony consegue cobrir seus rastros. No entanto, o próximo passo se complica, pois envolve os Guardiões, que estão operando na Gruta, a prisão federal para supercriminosos. E em departamentos do governo, a jurisdição é de Steve Rogers, o Capitão América...

Stark e Rogers já se estranharam antes em algumas ocasiões, geralmente associadas à liderança dos Vingadores. Mas em Guerra das Armaduras, essa briga ganhou contornos muito mais pessoais e ideológicos, próximo do que acontece hoje - ironicamente, em lados opostos dos que seriam defendidos em Guerra Civil (aqui, o Homem de Ferro é um cruzado fora-da-lei e o Cap é uma máquina do estado). O resultado do confronto já era previsto, mas o mais importante foi a influência que ele exerceu sobre toda a cronologia posterior.

Sem dúvida, aquele era o início de uma péssima amizade.



Com quase todos os alvos do território norte-americano neutralizados, Stark inicia a missão mais difícil de sua cruzada: "desplugar" Dínamo Escarlate e o Homem de Titânio, seus velhos desafetos de Guerra Fria. Para tanto, dá um merecido descanso ao Centurião e opta pela armadura negra Stealth, mais leve e menos poderosa, mas perfeita para invadir o espaço aéreo soviético sem ser detectado, já que é, por assim dizer, stealth... duh!

Claro que encarar dois pesos-pesados com munição na conta é assinar um atestado de óbito. Mas Stark soube triangular o cenário e se utilizar da notória soberba de seus adversários, especialmente do Homem de Titânio (um anão cabeçudo chamado Gremlin). Além disso, ele preparou algumas supresinhas que fizeram toda a diferença.

Ao final, o Dínamo Escarlate teve seus circuitos destruídos e o Homem de Titânio, aparentemente, foi morto quando o Homem de Ferro elevou sua temperatura ao nível de combustão (quase 20 anos depois, o feioso ainda não reapareceu, então deve ter morrido mesmo).

Stark poderia dar sua guerra como encerrada, não fosse um projeto secreto dos militares que acabava de ser finalizado.



A armadura Poder de Fogo era uma monstruosidade bélica desenvolvida por um velho concorrente de Stark, Edwin Cord, a partir de seus projetos roubados. Era muito mais poderosa do que qualquer modelo da série Mark criado para o Homem de Ferro até aquele momento, incluindo o Centurião Prateado.

A batalha que se seguiu foi a mais eletrizante da saga. "Batalha" não... a surra. Jack Taggert, o homem que operava o Poder de Fogo, foi muito bem treinado e era extremamente violento em combate.

Mesmo após tomar ciência de sua superioridade, Stark não desiste até esgotar todos os recursos, mas é estraçalhado impiedosamente pelo gigante. Gravemente ferido, ele simula sua morte e faz uma retirada estratégica.

É o fim da era do Centurião Prateado.


Transição Centurião Prateado/Neoclássica: Bob Layton é mestre!

Com armadura e orgulho destruídos, Tony mergulha de cabeça na garagem. É hora de um novo upgrade: nasce a Neoclássica, que foi uma espécie de retorno às raízes no quesito visual, voltando ao vermelho e dourado básicos, mas anos-luz à frente em sofisticação e desempenho. O novo traje era tão avançado que a revanche contra o temível Poder de Fogo - já totalmente fora do controle dos militares - foi sopa no mel.

A Neoclássica era mais precisa, mais forte e mais rápida que o oponente. De quebra, salvou a vida do inimigo, já derrotado. Em outras palavras... Stark humilhou. Era a saga clássica do guerreiro se fechando em mais um ciclo.

Terminava aí a primeira Guerra das Armaduras, com direito a um epílogo escrito por Michelinie e ilustrado pelo grande Barry Windsor-Smith - um tanto dark, é verdade, mas necessário para não deixar apagar a chama do herói.

Guerra das Armaduras quase não envelheceu após todos estes anos e permanece como um dos momentos mais referenciais na cronologia do Latinha. Obrigatório num destes Maiores Clássicos da vida (alô Panini!).



"Tony Stark tira onda que é cientista espacial, mas também é Homem de Ferro, elétrico! Atômico! Genial! Dura armadura, Homem de Ferro, é lenha pura, Homem de Ferro!"
Hooray!


Assim espero, logo após o rascunhado do filme: Guerra das Armaduras II, por John Byrne e John Romita Jr. É a revolta dos Johns!


Patrô deste post:



Impressionante a cavucada arqueológica do site.


Na trilha: o que mais... "Iron Man", do Sabá, e "Machine Men", do Dickinson.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

ROCK AND SOUL


Motown vs. SubPop. MC5 + Aretha Franklin. The Stooges com Tina Turner no lugar do Iggy Pop. Para um crossover deste nível são imprescindíveis: talento, intima com o lado mais selvagem do rock'n'roll e a disposição de tornar tudo isto possível (e palatável). Calhou do californiano The BellRays ter estas três características em abundância.

Conheci a banda só ano passado, pelo excepcional álbum Have A Little Faith, de 2006 (pra que servem as listas, senão pra deixar alguém indispensável de fora?). É uma porrada na cara e um orgasmo para o espírito. Bob Vennum (baixo) e Craig Waters (batera) gerenciam uma cozinha pesada, carregada de grooves matadores, e a guitarra de Tony Fate parece uma cruza dos riffs de Wayne Kramer e Johnny Ramone.

Mas a estrela é mesmo a poderosa vocalista Lisa Kekaula. Quando ela começa a cantar, a mística deste mix entra em ação e faz todo sentido do mundo. Que voz. Que voz. Que voz.

Quem compareceu aos shows da banda no ano passado (no Inferno Club, em Sampa, e ao lado do Mudhoney no festival brasiliense Porão do Rock), com certeza saiu extasiado. Ainda mais com o presentão que ganharam no bis...



Angus ficaria orgulhoso.

The BellRays está de disco novo, Hard Sweet And Sticky. Já é o 9º álbum de sua discografia, fora os splits e EP's. Ainda estou degustando, mas a primeira impressão é de que a sonzeira agora flui mais acessível. Contudo, o punch rocker continua intacto - e o vozeirão também!


"Blues is the teacher. Punk is the preacher."

terça-feira, 15 de abril de 2008

MEME: filmes subestimados

A Thalita, do blog Pipoca no Edredom, me indicou para este MEME irresistível. Pô, listas e filmes? Já é. Cinco filmes subestimados pela crítica e/ou público. Tentei evitar superproduções e ser um pouco mais sutil.



Matador em Conflito (Grosse Pointe Blank, 1997)
Direção: George Armitage.

Top 3 de uma lista dos melhores do John Cusack. Aqui ele é Martin Q. Blank, assassino profissional de primeira linha e um dos mais requisitados no ramo. Na sua cola estão um concorrente traiçoeiro (Dan Aykroyd) e dois agentes da NSA, mas nenhum deles o irrita tanto quanto o convite para uma reunião de sua classe do colegial. Segundo seu terapeuta (Alan Arkin, impagável), podem haver questões mal-resolvidas aí - como o fato dele ter abandonado sua namorada e sua cidade logo após a formatura, sem aviso prévio.

A grande sacada do sumido diretor Armitage foi contextualizar essa gama distinta de linhas narrativas (ação, romance, comédia) com a delicadeza de dois trens em rota de colisão. Com diálogos afiadíssimos e uma trilha sonora espetacular (produzida por Joe Strummer), Matador em Conflito, senão subestimado, merecia ser superestimado.

Assim como o script, o título original ("Grosse Pointe Blank") está abarrotado de trocadilhos que se perdem na tradução. Point Blank (À Queima-Roupa, no Brasil) é um filme de 1967, estrelado por Lee Marvin e dirigido por John Boorman, sobre um matador de aluguel que revisita seu passado. Grosse Pointe é a cidade natal (e verídica) do protagonista Martin Blank. E o termo "point-blank" é usado pra designar a distância entre uma arma de fogo e seu alvo.



O Preço da Ambição (Swimming with Sharks, 1994)
Direção: George Huang.

Imagine uma mistura dos piores chefes com os quais você já o desprazer de trabalhar. Os mais egocêntricos, arrogantes, hipócritas, imorais e exploradores. Os de pior caráter. Ainda assim, não deve chegar aos pés de Buddy Ackerman, produtor cinematográfico interpretado desumanamente por Kevin Spacey. O esporte favorito de Buddy é massacrar o psicológico de seu assistente, Guy (Frank Whaley). A rotina de abusos e humilhações segue impiedosa, até que um belo dia, Guy resolve revidar...

Filme bastante tenso e recheado de humor negro. A vingança de Guy vem no mesmo valor (mas não na mesma moeda), culminando num interessante paradoxo caça/caçador. A moral da história seria algo como "não façam isso no escritório".

Foi adaptado para o teatro no ano passado, com Christian Slater no papel de Buddy.



Miracle Mile (idem, 1988)
Direção: Steve De Jarnatt.

Esse era hors-concours nos clipes do finado Cinemania, da igualmente finada TV Manchete. Anthony Edwards (o Dr. Mark Greene, de Plantão Médico) revira a cidade atrás de sua namorada numa corrida contra o tempo: mísseis nucleares soviéticos estão a caminho e, em 70 minutos, Los Angeles será varrida do mapa. Ou pelo menos é isto que ele acha, após atender um telefonema assustador.

Thriller surpreendente que dividiu a crítica e passou batido pelo público. Encabeçou a lista dos "filmes mais depressivos" da revista britânica Neon.




Alone in the Dark - O Despertar do Mal (Alone in the Dark, 2005)
Direção: Uwe Bo...

Brincadeira, brincadeira.

Este já foi devidamente pulverizado aqui, até com uma certa moderação, eu diria.


Próximo!



Sucesso a Qualquer Preço (Glengarry Glen Ross, 1992)
Direção: James Foley.

Uma firma imobiliária atravessa uma fase negra e estabelece novas metas e premiações para quatro de seus corretores. Quem vender mais, ganha um Cadillac, o segundo colocado ganha um conjunto de facas (ginsu?) e os demais ganham um pé na bunda. Obviamente, o que vem a seguir é um banho de sangue administrativo - incendiado ainda mais após o roubo de uma lista com dicas de clientes em potencial. Os corretores: Al Pacino, Jack Lemmon, Ed Harris e Alan Arkin, gerenciados de perto por Kevin Spacey.

Baseado numa peça teatral de David Mamet e adaptado pelo próprio, Sucesso a Qualquer Preço é um deleite cênico e performático. Como é de se esperar, as atuações são de níveis muito acima do standard hollywoodiano, mas Jack Lemmon está insuperável (e arranca até uma gargalhada involuntária de Pacino em uma cena).

Filmaço de atores, artístico per se. Até Alec Baldwin faz bonito aqui.



Os Matadores (1997)
Direção: Beto Brant.

A estréia de Beto Brant impressiona até hoje pela segurança e independência da estética Globo Filmes de se fazer cinema no Brasil. Filme com cara de filme mesmo, de cinema. Talvez tenha sido o primeiro de uma nova geração de cineastas transgressores e descentralizadores - geração que, anos depois, reproduziria os mesmos conceitos nos hits Cidade de Deus e Tropa de Elite.

O filme acompanha dois pistoleiros, o novato Toninho (Murilo Benício) e o veterano Alfredão (Wolney de Assis), virando a noite num bar na fronteira Brasil-Paraguai, aguardando um alvo. Enquanto esperam, eles conversam sobre a vida que escolheram e sobre o assassinato de Múcio (o ótimo Chico Diaz), o melhor pistoleiro da região. Wolney de Assis (foto) numa excepcional atuação, com um personagem de extremos dramáticos bastante complexos. Destaque também para a rápida e memorável participação de Stênio Garcia.

Tecnicamente, o filme é impecável. A montagem é um arraso, redesenhando a história à base de flashbacks, e a fotografia se mostra riquíssima, numa paisagem interiorana e terra-de-ninguém, ainda pouco explorada por cineastas brasileiros e hermanos. Não por acaso, a produção varreu os principais Kikitos de Gramado naquele ano - fora o sucesso atingido em outros festivais.

A crítica não subestimou, mas os que fariam este filme atingir um público maior, com certeza o fizeram.



Bom, é isto. Pelo que entendi, este MEME começou no Assistimos Muito e chegou até aqui via Blog do Vinicius, Cinéfila por Natureza, Caminhante Noturno Cinema e, finalmente, o Pipoca no Edredom.

E agora, repassando a corrente para os próximos cinco blogs, escalarei... hã, deixa eu ver os laureados... o bróder Sandro, do All Star Velho, o Luwig, do Pulse, o Rodolfo Castrezana, do OMEdI, o Érico Assis, do Parênteses, Inc., e a Ana Maria Bahiana, do blog dela mesma. :)

Vamos lá pessoal, animem-se. Este é mamão-com-açúcar e uma delícia de escrever. Notem que fiz a gentileza de não incluir O Gigante de Ferro. :P


Na trilha: o novo do Bob Mould.