quinta-feira, 13 de abril de 2006

TORNA-TE QUEM TU ÉS


Este local aqui não é muito usado para este tipo de texto, mas, como não deixa de ser uma mídia e definitivamente é veículo de cultura e entretenimento, vou falar sobre livros. Como todas as coisas, abordar este "negócio" tem um/vários lado(s) ruim(ns) e um/vários lado(s) bom(ns). Ruim pois é mais difícil inserir imagens com adesão satisfatória ao que se aborda, algo que textos sobre quadrinhos, música e filmes tem em abundância. Ruim também porque as imagens dão ritmo a textos longos – característica deste blog - , como pontos de descanso em uma trilha. E bom, pois, como não há precedentes por estas bandas, as reações ao texto são inteiramente novas, assim como novas pessoas podem surgir pelos comentários se o assunto falar mais ao pé d'ouvido.

Falar sobre as paixões que os livros criam, bem como a magia intrínseca à excitação das idéias causada apenas pelo velo das palavras e o desvelo da imaginação é chover no molhado, então vou abordar dois outros focos, um passional e outro oportunista.

O passional vem através de uma obra que se esconde por trás da frieza de uma lápide de racionalidade, mas olha enviesado para o calor da emoção fundamental; a aceitação pela convivência. Trata-se de "Quando Nietzsche Chorou" (When Nietzsche wept - Yalom, Irvin D.; 1992). O livro traz para o mundo da ficção o relacionamento de pessoas reais e relevantes na história de nossa sociedade: Friedrich Nietzsche – filósofo prussiano do século XIX, Josef Breuer – médico vienense e mentor de Sigmund Freud – "pai" da psicanálise. A relação de mentor e discípulo entre Breuer e Freud foi factual, mas Nietzsche (pronuncia-se "Nitch", mas sempre que falo assim, sou forçado a apelar pro Niétch para reconhecerem de quem falo) nunca encontrou com ambos.

Resumidamente, Nietzsche sofre de doenças terríveis e é convencido, através da ação da única mulher foco de seu amor recalcado, a tratar-se com o renomado Dr. Breuer. Até aí parece que é um livro maçante, mas a forma como a relação entre estes dois homens evolui é inapelável, além de contar com vários coadjuvantes de peso, bem como arranha a porta da aurora da psicanálise.

Não é qualquer livro que, focado em diálogos, consegue fazer alguém sentir-se em um liquidificador de emoções. Os diálogos que travam Nietzsche e Breuer são inebriantes, os duelos retóricos apaixonantes, as diferenças de personalidades praticamente saltam do livro, tomam vida, e o desfecho é um ensinamento. Não um ensinamento como estes filmes edificantes e redentores que surgem por aí, mas, ao menos para mim, um ensinamento cuja clareza chega a cegar, dado o espectro de situações que ambos vivenciam até chegarem às suas conclusões. Especifico o "ao menos pra mim", pois, cético que sou, nunca li palavras que estivessem tão ligadas à minha forma de pensar, quase fazendo-me sentir como se fosse minha própria mão, conduzida por algumas entidade mais esclarecida, que escrevera alguns trechos do livro. As tormentas que cada um deles passa são tão reais quanto às suas ou às minhas, mas exaustivamente, - e nem por isto arrastadamente - interpretadas. Sabe aquele sentimento que às vezes temos aqui dentro, mas não conseguimos verbalizar? Neste livro todas estas sensações são detalhadas, quase como se fosse um manual para quando sentirmos os sintomas de nossas angústias e quisermos nomeá-las. O real sentido de amizade sofre abordagem tão honesta quanto a forma como o escudo intransponível da razão dá lugar à sólida, mas permeável, emoção.

Não satisfeito, o livro é um manancial de frases-verdade; destas incontestáveis por quem entende que a vida é menos romântica do que se pensa. O que dizer, por exemplo, da frase "as pessoas, em verdade, amam o desejo e não a pessoa desejada"? Na minha fase de maturidade, não vejo verdade mais absoluta. A busca pelo desejar é arrebatadora, as pessoas desejadas são transitórias. E o "Transforme o 'assim se deu' em 'assim eu quis', caso contrário, não viverás uma vida, pois se não escolhes seu destino é a vida que te vive. Deseje o necessário e ame o que desejar. Amor Fati". Claro, são retórica e, por vezes, podem estar longe demais do que sentimos, pois falam à razão. Mas até isto o livro sabe e, para não permanecer imparcial, trabalha a conversão do discurso para a mente em discurso para o sentimento de forma natural, aproximando as palavras pensadas das palavras sentidas.

Na foto acima, à direita, temos Lou Salomé, Paul Rée e Nietzsche em foto cuja importância é bem destacada no livro.

Há tempos não leio algo tão bom, tão envolvente e com tanta mensagem, pois "bom" e "envolvente" vários são, mas também são rasos de significado. Li emprestado, vou comprar. E as obras de Nietzsche estão na mira, certamente, até porque após pesquisar sobre o cara na net, a wikipedia fez-me passear por conceitos impossíveis de se ignorar.

terça-feira, 11 de abril de 2006

QUE PAÍS É ESTE


"Estamos em 1988 agora. Margaret Thatcher está entrando em seu terceiro mandato e falando confiante de uma aliança inquebrantável dos Conservadores no próximo século. Minha filha mais jovem tem sete anos, e um jornal tablóide está circulando a idéia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados das tropas de choque usam visores negros, bem como seus cavalos, e suas unidades móveis têm câmeras de vídeo rotativas instalados no capô. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade e as pessoas já ficam especulando contra qual outra minoria irá legislar. Estou pensando em reunir a família e deixar o país nos próximos anos. Este lugar está virando uma terra fria e hostil, e eu não gosto mais daqui."
Alan Moore, março de 1988

Anos após a publicação original de V de Vingança, Alan Moore ainda penava com o cenário político de sua terra natal. Fascismo imperialista de extrema direita ditando as regras do jogo, em plena Guerra Fria. Reagan e Thatcher caminhando juntos e antevendo um futuro em chamas. Era desse futuro que tratava V, obra clássica que Moore desenvolveu ao lado do desenhista David Lloyd. Apesar de ainda em início de carreira, Moore discorre com maestria sobre temas não-usuais como favorecimento político, massificação e manipulação da mídia (isso te lembra alguma coisa?). Outro ponto que sempre me interessou em V, foi a opção do autor em observar de perto o impacto dessa repressão extrema sobre o cidadão comum. Mais ainda, sobre os próprios agentes do autoritarismo. O tal "elemento humano" que a Máquina é incapaz de processar com exatidão.

V apresentava um naipe de personagens complexos, tridimensionais, cada um enfrentando o seu próprio drama particular. Além de estarem de alguma forma ligados ao status quo, a única relação entre eles era a conseqüência das ações de um terrorista auto-entitulado V (ou "Codinome V"). Nada se sabe a respeito do indivíduo, apenas o que ele mesmo faz questão de deixar claro: travestido de Guy Fawkes (genial idéia de Lloyd, Moore odeia admitir), V faz de sua estréia um tributo ao mesmo e explode as casas do Parlamento britânico. Momentos antes, ele havia trucidado três agentes do governo (policiais à paisana, denominados "homens-dedo") para salvar a desesperada Evey Hammond da morte certa. Isso, logo nas primeiras páginas da graphic novel. A partir daí, Moore traça um painel amargo do que pode acontecer quando as pessoas erradas estão no poder. E faz questão de lembrar que a diferença pode sim ser feita por uma pessoa - ou uma idéia.


Agora, fãs da clássica Vendetta, vamos dar as mãos: que susto levamos, hein. Adaptação cinematográfica hollywoodiana feita no controle remoto por Matrix's Larry & Andy Wachowski? E quando soltaram aquele trailer japonês cheio de caratê e música tecno? Brrrr... gotas frias de suor caindo com efeito bullet-time. Po-rém... pensando friamente, os caras têm sim uma boa experiência no quesito "No Future/Fuck The System" - talvez sejam os profissionais top de linha no assunto atualmente - o que é, sem dúvida, indispensável para dar vazão à abordagem emputecida que Moore impregnou no texto original. E o diretor James McTeigue se mostra um controle remoto daqueles do tipo "universal", hiper-versátil. É dono de uma bela folha de serviços em blockbusters, como diretor de 2ª unidade e diretor assistente (em dois episódios de Star Wars e nos três, oohh... Matrixes), o que, categoricamente, não quer dizer porra nenhuma.

Mas nem tudo foi baixa expectativa. Acho humanamente impossível algum admirador de V não ter comemorado a inclusão de Natalie Portman no cast. Quase não consigo imaginar outra atriz melhor no papel de Evey (quase). A aura inocente, a jovialidade (aparentemente eterna), o olhar mezzo estarrecido mezzo intrigado, e, claro, sua beleza natural irresistível, seja pra homem, mulher ou GLS (desafio qualquer um a não ser um natalieportmanssexual). E ela ainda tem um background interessante com esta motivação em particular. A primeira vez que vi Natalie foi em O Profissional, aquela belezura de filme em que ela, ainda molequinha, fazia um mix de mocinha-em-perigo com sidekick de uma força da natureza ambulante, encarnada pelo Jean Reno. Juntos, eles enfrentavam a personificação de um sistema caótico e corrupto - o melhor papel de vilão do Gary Oldman. E ela roubou a cena dos dois. Perfeita. Já estava preparada para este papel desde aquela época. Tá contratada.

"Não há carne ou sangue dentro deste manto para morrerem. Há apenas uma idéia. Idéias são à prova de balas."
Codinome V

Uma pequena confissão: após meses acompanhando os percalços da produção, não sei porquê cargas d'água, acabei entrando no cinema sem a mínima idéia de quem interpretaria V. Incrível. Pode ter sido apenas uma monumental falta de atenção, mas prefiro acreditar que foi influência direta da revista, que minimizava ao zero absoluto a importância individual neste caso (afinal, ele representava, antes de tudo, "uma idéia").

Corta pra hq novamente (pulem esta parte, desafortunados que ainda não leram V... há spoilers aqui):

Quando li V pela primeira vez, eu já estava tão embriagado por aquele ideal libertário, que cheguei a torcer para que Evey não retirasse a máscara de V, já moribundo. No começo, é claro que estava curioso pra saber como ele era. Mas depois de toda aquela dicotomia revolucionária e subversiva, - e já totalmente "convertido" - fiquei com medo de virar a página e me sujeitar à uma desmistificação abrupta daqueles conceitos - que passei a tomar como preciosas informações. Ou que isso acarretasse o fim daquela viagem (cacete... Moore e seus argumentos que transcendem o final físico da história. Espero que este legado esteja sendo bem rateado por aí, pois de uns dias pra cá ando pensando muito nisto).


Hugo Weaving talvez não tenha o timbre de voz que eu imaginava (detalhe que, neste personagem, leva uns 90% do carisma). Pra mim, seria algo mais suave e melodioso. Em todo caso, até pelo tom áspero e o fôlego filhadaputa, a já conhecida mis-en-scene vocal do ator garantem a diversão (pô, a caricatura que ele fazia com o Agente Smith era demais)... e insólita, diga-se. Recitar riminhas complicadas pouco antes de deitar uns seis na mãozada é digno daquela reprise de Laranja Mecânica. Ultra-violência shakespieriana! Felizmente, as cenas de luta são filmadas de maneira digna, sem muitas novidades modernosas. Aqui não há nenhum pulinho, seguido de loop em 360º e chutinho que joga algum infeliz pra longe. As lutas são honestas, as facas são altamente letais (e estavam na hq... são faquinhas super-idôneas!) e as coreografias são decentes (a melhor foi a da fuga na estação de TV). Pero hay que endurecerse... a seqüência final foi inegavelmente matrixiana. Não que eu vá ignorar o que isso tecnicamente ofereceu de bom até certo ponto, mas ver as faquinhas girando em slow-motion-querendo-ser-bullet-time me irritou sobremaneira. Preciosismo altamente dispensável.

O produtor Joel Silver andou falando que Alan Moore só ficaria satisfeito com o roteiro se cada palavra do texto original fosse transcrita. Quem dera. Mas o trabalho de adaptação foi respeitoso em relação ao conceito, e, ao mesmo tempo, pra lá de ousado. O resultado foi bastante funcional. Os puristas vão engasgar com a pipoca devido ao efeito impiedoso da condensação e com a semi-inversão na ordem dos acontecimentos (disto eu gostei muito). E os cortes? O supercomputador Destino não aparece, assim como a obsessão do Líder Sutler (o grande John Hurt, desperdiçado). Também não aparecem personagens-chave que fizeram toda a diferença, como a ambiciosa Helen Heyes e a vitimizada Rosemary Almond. O assassinato de Lewis Prothero - ex-"Voz do Destino", rebatizado "Voz de Londres" - foi relegado à uma seqüência padrão que passa longe daquela maravilha ritual vista na hq (aquilo sim era uma vendetta!). Já Gordon Deitrich não pega Evey (muuuuito pelo contrário...), justamente pra não ofuscar uma infeliz opção do roteiro quase na reta final. E Stephen Rea, um ator que eu admiro muito e também nem imaginava que estaria em V, caiu como uma luva no papel de Edward Finch - papel este que seria memorável, caso não tivesse um final tão alterado.


Mas o que aparece transposto literalmente chega a ser emocionante. O processo de "purificação espiritual" a que Evey é submetida ficou uma beleza (e prova que Natalie Portman fica bonita até azul com bolinhas amarelas). As cenas e os flashbacks relacionados à carta sufocante de Valerie ficaram perfeitas, talvez o auge dramático do filme. Ótimas as seqüências de V despachando a amargurada Doutora Delia e o repugnante Bispo Lilliman. Irretocáveis.

Eu defendo até a atualização da geopolítica envolvida. Muito se fala que as referências ali são ao W. Bush way of life, e são mesmo. Fazer o quê, se a Inglaterra andou importando alguns mal-costumes de sua ex-colônia (vide a co-autoria na invasão ao Iraque e o caso Jean Charles)? Não que isso vá acontecer com eles mais pra frente... não apenas com eles. Hoje, esta não é apenas uma visão do futuro da Inglaterra, mas do mundo. Inclusive nós aqui. Sem querer soar condescendente... estamos num país onde milhões de dólares são saqueados de cofres públicos e políticos assumidamente corruptos se beneficiam de acordos para evitarem a cassação, enquanto uma doméstica desempregada fica cinco meses na cadeia por roubar um pote de manteiga. Não se engane, neste exato instante, vivemos no universo de V. Mas em breve teremos mais uma chance de mudar algo - não através da força, ainda bem.

"O povo não deveria ter medo do seus governos. Os governos deveriam de ter medo de seu povo."
Codinome V²

Temos muito o que aprender aí, com todos estes acontecimentos e informações disponíveis, com este filme e seu final apelativo e populista. O pedido por indignação e contestação se confirma quando os créditos sobem ao som do clássico stoneano Street Fighting Man - uma ode ao cara que vai às ruas lutar pelo que acredita. A palavra de ordem não é mais "acorde", e sim "reaja". Nada mal em se tratando de uma mega-produção hollywoodiana.

A revolução definitivamente não será televisionada.

quinta-feira, 6 de abril de 2006

ALTAR BOYS & THE ATOMIC TRINITY


Quatro amigos passam os dias vivendo (ou, na maior parte do tempo, bolando) grandes aventuras, enquanto encaram, cada um à sua maneira, o turbilhão da adolescência. A primeira vez que assisti Conta Comigo (Stand by Me, 1986), foi identificação no ato. Mesmo levando em conta a enorme diferença, sei lá, "existencial" entre eu e os personagens do filme, a sensação de que minhas memórias poderiam se encaixar perfeitamente dentro daquele contexto era quase tangível. O sentimento e a busca por adrenalina era o mesmo. O filme me fez lembrar que também fui revoltado como o Teddy, fútil como o Vern, escapista como o Gordie e que ao menos 1% da minha consciência me mandava fazer as coisas certas, igual ao Chris. Isso sem contar a narração intrigante e a breve participação de Richard Dreyfuss, e a linda Stand by Me na trilha, além do verniz suave que deixava a história acessível - ao contrário do ótimo-mas-pesadão Vidas Sem Rumo, de 83. Tudo muito distante dos bacanas e estereotipados Goonies (lançado um ano antes), dos maconheiros de Picardias Estudantis (nunca nem pitei) e do super-herói Ferris Bueler (Save Ferris!). Claro... cada um com a sua viagem, mas Conta Comigo tinha um apelo universal. Esse filme foi um divisor de águas e efetivou um estilo todo próprio de se contar uma história, até hoje revisitado à exaustão.


...talvez só encontre paralelo no ótimo Clube dos Cinco (Breakfast Club, 1985), disparado o melhor filme de John Hughes - mas ainda assim tem um target muito mais preciso.


Depois desse tributo aos deuses, já dá pra falar sem reservas de Meninos de Deus (The Dangerous Lives of Altar Boys, 2002), filme já bem rodado nas locadoras. Estrelado e produzido por Jodie Foster para sua Egg Pictures, o filme é a estréia de Peter Care na direção de um longa. Até então, ele havia dirigido vídeos do R.E.M. e Depeche Mode, entre outros. O título em português parece nome de filme sobre a vida de Joseph Mengele, mas tem lá a sua justificativa (detalhe inédito, visto que as distribuidoras nacionais sacaneam os títulos por hobby). A tradução literal seria "A Perigosa Vida dos Coroinhas (Estrelando Michael Jackson no papel de Padre Jacko)". Pegava mal pra uma certa instituição religiosa patrocinadora das Cruzadas (sabe aquelas revistinhas da Ediouro?).

Nos Estados Unidos, apesar das pressões, a jagunça Jodie Foster sacou a peixera da liberdade artística e manteve o título original - o mesmo do livro no qual é baseado, escrito por Chris Fuhrman, falecido pouco depois de terminá-lo.


O filme se passa em meados dos anos 70 e é protagonizado por dois amigos, Tim (Kieran Culkin, de Sempre Amigos) e Francis (Emile Hirsch, o vacilão morde-fronha de Show de Vizinha). Ambos cursam o ginásio de uma escola católica e auxiliam o Padre Casey (Vincent D'Onofrio!) como altar boys, digo, coroinhas. Ao lado de mais dois colegas, eles vivem armando trotes sem-noção, tipo aqueles do Delinqüente, Inconseqüente & Demente, e têm como alvo principal a severa e implacável Irmã Assumpta (Jodie Foster). Enquanto o grupo está próximo de aplicar o seu maior trote, Francis se apaixona pela doce Margie (Jena Malone).

O roteiro, adaptado por Jeff Stockwell e Michael Petroni, segue por uma linha aparentemente simplista, mas guarda várias surpresas, em sua maioria muito positivas. Os quatro amigos andam de bicicleta, bebem, fumam, enfim... curtem adoidado aquela fase de suas vidas, mas têm em comum uma paixão em especial: histórias em quadrinhos. Eles discutem sobre personagens, poderes, inventam super-heróis calcados neles mesmos (criam um supergrupo chamado "Trindade Atômica", ignorando um dos colegas, que desenha mal pra chuchu) e rabiscam sem piedade as páginas de seus cadernos de escola. Quem curtiu hq nessa idade, pode se preparar para um déjà-vu daqueles.

Destaque também para os temas abordados ao longo do filme. Alguns bem pesados para o consumidor acostumado à produções mainstream, mas que conferem toda aquela pecha alternativa heróica, típicas do circuito independente (além de serem únicas, artisticamente falando).

Uma boa sacada ficou por conta das intervenções animadas, que funcionam como uma metáfora ao momento que o grupo de amigos atravessa no mundo real. Ali, a Trindade Atômica ganha vida e, com o tempo, o ponto de vista vai se centralizando em Francis (o filme gira sob a ótica dele). Assistindo aos desenhos, fica mais clara a influência da Tragédia Grega no mito do super-herói. A dramaticidade é exagerada ao extremo, tanto nas posturas e ações físicas, mas sempre mantém uma analogia única com a realidade cinzenta. Outro detalhe bacana é que Francis é fã do Monstro do Pântano e sua contraparte animada por acaso é um ser vegetal chamado Samambaia - cuja trajetória acaba incluindo uma versão "guerreira" de sua namorada Margie (mais déjà-vu).


A inspirada animação ficou a cargo do businessman Todd McFarlane, notório criador do herói Spawn. Como de praxe nessa área, ele fez mais um bom trabalho, anos-luz à frente de tudo que já produziu nos quadrinhos (vide o excelente clip da música Do The Evolution, do Pearl Jam). Ficou tão legal que os extras do dvd trazem essas seqüências na ordem, compondo um único desenho independente do filme. Aliás, só soube agora que McFarlane abocanhou um cobiçado prêmio Emmy, pela série do Spawn produzida pela HBO.

Algumas pequenas falhas pipocam na narrativa, mas nada muito grave. Os dois amigos de Tim e Francis, p.ex., apresentam uma certa personalidade, mas acabam se tornando invisíveis ao longo da história. O filme chega a descartá-los por uma boa parte do tempo e quando eles voltam, a boa caracterização do início já evaporou. Francis, por sua vez, ganha a interpretação sempre relutante de Emile. Isso, diante do carisma agressivo de Kieran Culkin, é praticamente um suícido cênico. No entanto, soam absolutamente naturais em seus diálogos, o que salva a química de ambos. É fácil ver que os dois também são amigos longe das câmeras, facilitando a proposta do roteiro. Já o tal grande trote final tem uma tendência tão forte a dar numa merda sem tamanho, que arrisca seriamente a condição de "heróis-contra-o-sistema" dos garotos. Por fim, o momento em que Francis vê o espírito de uma mulher na casa de Margie fica em aberto, e nada mais é dito a respeito após a cena.

Por falar em Margie, ela é, de longe, a personagem mais complexa do filme. Jena Malone (a namorada do Donnie Darko e a versão jovem de Jodie Foster, em Contato) prova que é uma das melhores atrizes de sua geração, conferindo sutileza, introspecção e amargura à nuance mais densa e hardcore do filme. Quanto à Jodie Foster... puxa vida... desnecessário descrever o seu nível de atuação infinitamente superior ao da maioria dos colegas de profissão. Resta observar, humilde como um gafanhoto diante de seu mestre shaolin, o que ela pode fazer com uma personagem que é um dos estereótipos mais antigos do cinema. Não muito, pra falar a verdade. Nos extras, ela mesma explica que não poderia fazer a típica vilã caricatural, pois destoaria da atmosfera realista do filme. Na mesma entrevista, ela ainda dá uma bela alfinetada no roteiro por representar uma irmã de um modo tão maniqueísta. Jodie é foda.

Meninos de Deus está longe de ser perfeito, mas, antes de tudo, é bastante humano e cativante na medida certa. E é incrível como um filme independente, com orçamento pra lá de modesto, consegue ser muito mais criativo do que esses blockbusters barulhentos de verão. Viva a independência!

Ah... o Vincent D'Onofrio. Há uma "certa" tensão no olhar de seu personagem, o Padre Casey. Ecos do Recruta Pyle?



CINCO


Finalmente estréia na sexta-feira a adaptação cinematográfica de uma das hqs que mais me marcaram na vida. É até estranho dizer "foram os quadrinhos que eu mais curti" (essas coisas não se decidem assim, pois dependem do estado de espírito no momento), mas se me entendessem mal e ficasse por isso mesmo... tranqüilo pra mim. Anos após a primeira leitura, as idéias desenvolvidas em V de Vingança até hoje me assombram com a mesma intensidade. Principalmente sendo eu um brasileiro vivendo no Brasil, neste momento em específico. Talvez esta seja a explicação de tanta empatia.

Sem querer menosprezar os vindouros X-Men: O Conflito Final e Superman - O Retorno, esse é o filme mais aguardado do ano por este que vos escreve. Após tantas CPIs, absolvições, caso Celso Daniel, quebras ilegais de sigilo bancário, corrupção ativa e passiva... eu preciso deste filme. Com Joel Silver, Wachowski Brothers e tudo.


dogg... assistindo FHC no Jô Soares e pensando em dar à distinta Câmara do Congresso a mesma decoração que Codinome V deu ao Parlamento inglês.

quinta-feira, 2 de março de 2006

THE LIGHTMATES


Dessa vez eles se mexem. Tudo bem que não é aquela movimentação hiper-realista com que eu vivo sonhando desde Akira, mas está longe de lembrar aqueles desenhos desanimados dos anos sessenta. Logo nos primeiros instantes de Ultimate Avengers: The Movie (2006), não fica difícil imaginar que esta não é uma adaptação lá muito fiel. Sem chance de comparecer toda aquela malaquice anti-republicana, anti-democrata, anti-globalização, anti-Mac Donalds, anti-Marvel, anti-DC, anti-Bono Vox e anti-atitude-de-ser-anti-alguma-coisa, que fez a fama dos Supremos de Mark Millar e Bryan Hitch (já sinto saudades). Nada de Capitão América apontando o dedo pra cara de algum infeliz e sentenciando "son... you're goin' down", Hank Pym cobrindo Janet de bolacha, muito menos do Hulk vociferando que tá morrendo de tesão e que vai catar Betty Ross a todo custo. Ficou só a estrutura antenada da concepção Ultimate. O inusitado era saber como os Supremos se sairiam jogando pelas regras do standard que tanto debocharam nos quadrinhos.

A direção ficou a cargo de Steven E. Gordon e Curt Geda, que é profissional do ramo. Ele tem no currículo bons episódios de X-Men: Evolution (sim, eles existem!) e do interessante Projeto Zeta, além do excelente Batman do Futuro: O Retorno do Coringa.

A adaptação tem início em 1945, mostrando a última e fatídica missão do Capitão América na 2ª Guerra. Durante a batalha, Cap descobre que os nazistas tiveram uma mãozinha da perversa raça alienígena Chitauri em seu suporte tecnológico. Daí em diante, a história clássica retoma o curso: ao impedir a trajetória de um míssil intercontinental nazista, Cap cai nas águas geladas do Atlântico Norte e vira picolé de bandeira americana até os dias atuais, quando é resgatado pela SHIELD em perfeito estado criogênico. Reincorporado ao esforço de guerra norte-americano, Steve Rogers (o Cap) passa a fazer parte de uma nova linha de defesa pós-humana, que conta com outros integrantes também com "talentos" fora do comum: Hank Pym (a.k.a. Gigante, um cara que cresce), sua esposa Janet (a Vespa, que encolhe, cria asas, solta buscapés e não paga peitinho na versão animada), Natalia Romanoff (a Viúva Negra, aqui chamada de Natalia mesmo, em vez de Natasha), a supervisora de pesquisas Betty Ross e o Dr. Bruce Banner (esse dispensa apresentações).


Entre os relutantes com postura de participação esporádica, estão o bilionário Tony Stark (o Homem de Ferro) e o filho de Odin e ativista de plantão Thor. Clint Barton (Gavião Arqueiro), Pietro e Wanda Maximoff (respectivamente Mercúrio e Feiticeira Escarlate) nem chegaram a ser citados.

Ainda em fase de testes e sob a batuta de Nick Fury, diretor da SHIELD, o supertime encara a missão de escorraçar a ameaça alienígena de uma vez por todas, enquanto tenta lidar com a instabilidade emocional de Banner e de seu alter-ego indócil.

Apesar de ser ligeiramente acima da média, Ultimate Avengers deixa claro que uma animação com boa qualidade técnica não passa de um preciosismo dispensável para a indústria americana. É tudo tão padronizado, tão pré-moldado, que eu acho até que deve existir algum plug-in pra Photoshop que reproduz aqueles cenários fielmente. A fisionomia dos personagens segue o tal standard e remetem a qualquer sessão animê matinal de sábado. O que é um grande desperdício, se pensarmos que tudo foi baseado no conceito original criado por Bryan Hitch, um dos melhores desenhistas de quadrinhos da atualidade. Sem contar que isso revela uma absurda falta de timing e criatividade para criar muito com poucos recursos.

Digamos que cada frame adicional incrementaria sobremaneira uma animação, mas custaria os olhos da cara para os produtores. Sem problemas. Gente inspirada e inovadora como Genndy Tartakovsky (Samurai Jack, Star Wars - Clone Wars), Bruce Timm (Batman, Justice League Unlimited) e os artesãos shaolin da cultura anime, estão acostumados a tirar água de pedra, trabalhando e até utilizando longos quadros estáticos ao seu favor (retratando, p.ex., um momento de suspense). Até mesmo a relação estreita com a sétima arte já rendeu momentos memoráveis, como a despirocante série The Maxx, criada pelo insano Sam Kieth como se fosse uma transposição literal, mantendo o mesmo traço estiloso que fez a sua fama nas HQs.

No caso, sobraram apenas algumas cenas inspiradas no original, como essas aqui - pra quem acompanhou as histórias, fica quase irresistível a releitura das revistas.

Claro que pensar em Hitch como o ilustrador da adaptação é querer demais (se já é difícil ele manter a regularidade nas HQs...). Mas nos créditos finais, com uma seqüência de seus desenhos para a revista, transparece que esta talvez tenha sido uma possibilidade cogitada. No entanto, voltamos à questão do orçamento à toque de caixa, do lançamento em esquema direct-to-dvd (inequívoco sinal de estratégia mercadológica) e do "risco-Ultimate", que pesa o custo-benefício de se levar ao alcance das crianças um produto mais sofisticado que o bê-a-bá Stan Leeano (sem ofensas, mestre!).


Ultimate Avengers não reedita o tsunami anárquico das HQs e se o fizesse seria a animação mais revolucionária dos últimos dez ou quinze anos. Calma, fãs de A Viagem de Chihiro, Cowboy Bebop, Metropolis e Steamboy, já explico. Imagine essas HQs como um veículo pop, já que são produzidas por uma major editorial como a Marvel Comics ("não exatamente um bastião anti-capitalista"). O conteúdo polêmico que Mark Millar criou para os Supremos, apesar de se ater mais à geopolítica internacional, também critica furiosamente o próprio sistema do qual a editora faz parte. Isso pra não falar da veia "Nelson Rodrigues" existente na HQ - por si só, impublicável. Toda essa pólvora temática disseminada em um veículo ainda mais pop e sendo vendida aos lotes em gigantescas megastores, seria como a mordida final que o sistema daria no próprio rabo. Uma justiça poética que arrancaria um sorriso maquiavélico de Millar.

Teorias de conspiração à parte, Ultimate Avengers até que se sai bem como aventura descompromissada PG-13.

Apesar de exageradamente curto (72 min.), o desenho sintetiza de forma eficiente as tretas nazi-alien-Hulkísticas que a equipe enfrentou em seu 1º volume nos quadrinhos. Alguns designs foram até melhorados, como os porta-aviões aéreos, os aliens e as naves chitauri (que deixaram de ser arremedos de ID-4). Após uma lerdeza inicial, a ação fica mais solta, dinâmica, e finalmente se vê a influência de todos aqueles nomes nipônicos enfeitando os créditos finais. Um bom exemplo é a segunda vez que o Cap atira seu escudo em um alvo múltiplo (gesto tão tradicional quanto o Clark voando com o braço esticado na frente ou o Parker lançando teias). Bem melhor que da primeira vez. Outras nuances foram perfeitamente traduzidas, como a tragédia pessoal/temporal do Cap (que, estranhamente, não contou com a simbólica olhadinha na bandeira do original. Eu, que nem sou americano, achei um vacilo - mas acho que é só meu lado Michael Bay falando).

Hank Pym não faz Janet de sparring, mas a tensão doméstica existe e nota-se claramente que o cara não vale um copo de cachaça. A Viúva Negra, por outro lado, ficou tão gostosa quanto artificial, tendo como maior atrativo o sotaque russo canastrão. Já Nick Fury continua linha-dura e controlador - e é compreensível que ele não tenha herdado o famoso visual L. Jackson, mas bem que poderiam ter chamado o ator pra fazer a dublagem. Seria perfeito e ele já disse até que é fã dos quadrinhos. Tony Stark, do alto de sua playboyzice no jet set internacional, ficou bastante carismático. Pena que ele aparece muito pouco sendo Stark. E por falar em aparecer pouco, Thor consegue dar o recado apesar da participação reduzida e protagoniza a cena mais engraçada do filme ao recusar a oferta de Fury. Aquilo lá ficou muito melhor que na HQ...


O momento mais esperado, claro, é o inevitável confronto contra o Hulk. Não decepciona. O Golias Verde (aqui, Golias Eucalipto) arrasa naves chitauri, nocauteia o Gigante duas vezes, esfrega o chão com a cara do Cap, destroça o Homem de Ferro e até faz o Thor sentir o gostinho de levar com o Mjolnir na cara. Exagero bacana!

Talvez o maior defeito de Ultimate Avengers seja a falta de um target mais preciso. O principal vilão da HQ, o impiedoso Ming... digo, Herr Kleiser (um alien travestido de milico nazi), só aparece no comecinho e dali por diante figuram apenas aliens operários e anônimos. Fica uma certa ausência de clímax. Isso sem contar nas cenas em que a Viúva dá em cima do Cap. Muito forçado, e pra quem está acompanhando as últimas edições americanas da HQ soa mais absurdo ainda.

Dá pra afirmar que essa é a melhor adaptação animada de personagens da Marvel. É um passo à frente no que tem sido feito até então. E a conclusão indica que algo interessante pode rolar mais pra frente. Mas a sensação que fica é que poderia ter sido muito melhor - principalmente após o alto nível estabelecido pelas animações da Divina Concorrente.


Na trilha: CD I, do classudo Nightingale. Sabe, revendo os últimos posts... acho que vou mudar o nome do blog pra Zombie Ultimate.

quarta-feira, 1 de março de 2006

Rapidinha: o filme do GEN¹³ (da extinta seção "Merece uma caixa de Antarctica Original")


A adaptação animada de Gen¹³! Lançada sem muito alarde em 1998, o desenho baseado nos personagens criados por Jim Lee foi dirigido por Kevin Altieri (diretor de vários episódios do sem-comentários Batman: The Animated Series) e co-escrito pelo próprio ao lado de Karen Kolus.

Fiquei realmente impressionado, o desenho é bem melhor do que eu imaginava. E carrega bastante na violência. Certos momentos lembram até o clássico Akira...


...e não faltam algumas pseudo-cenas de nudez e a deusa Caitlin Fairchild em posições bem generosas.



O resultado é bastante fiel à HQ, a trama e o carisma dos personagens mantém o interesse (tem até uma revelação final de lambuja), Roxy tá uma gracinha punk e o Grunge (dublado pelo Flea, do RHCP) continua o mesmo zuado de sempre.

Ótima diversão. Pena que o caldo não rendeu e a conclusão - abertaça para uma seqüência ou uma série televisiva - ficou naquilo mesmo.

domingo, 12 de fevereiro de 2006

INSÔNIA: PURGATÓRIO


Impressionante como o senso comum é capaz de te afastar de coisas que nunca imaginamos que gostaríamos. Por diversas vezes já deixei de fazer, comprar, participar, assistir, ir ou qualquer outro verbo que tenha embutido o sentido de participação só porque ouvi aqui e ali que tal ato seria um desperdício de tempo. O mais esquisito disto tudo é que não é a primeira vez que sinto isto, pois já houve várias vezes em que o "caramba... se eu soubesse que era assim" veio à mente e mais de uma vez incorri no mesmo erro.

Desta vez o arrependimento de não ter visto no cinema recai sobre O Operário (El Maquinista, 2004, Espanha – é... também não entendi o porquê disto). Não digo que ouvi falar realmente mal a respeito, mas quando os comentários se prendem muito mais ao quanto um ator emagreceu do que sobre o filme em si – cujo adjetivo direto mais recursivo nas opiniões alheias foi "arrastado" – boa coisa não espero do que pode vir. Arrisquei.

E percebi mais uma vez que sou um babaca³.

E que filme bacana! Prometo novamente, de novo e mais uma vez que ouvirei mais às minhas impressões do que ao senso comum. O filme trata de Trevor Reznik (Christian Bale), um operário que não dorme há um ano por motivos que só serão elucidados com o tempo. Sua vida resume-se a ir ao trabalho, passar em uma lanchonete de aeroporto na saída e encontros casuais com uma prostituta "de fé", permeando esta estimulante rotina com o desenvolvimento de um físico cada vez mais raquítico. Em dado momento da vida o cara começa a conversar com um colega de trabalho que, não bastando o fato de transformar sua vida num inferno, faz parecer que o tempo que Reznik ficou acordado dissolveu alguns miolos responsáveis pela percepção de realidade x fantasia.

O desenrolar do filme vai soltando símbolos claros e descarados de que há algo de errado no ar, dando a impressão de que a qualquer momento aparecerá um apresentador no canto da tela dizendo "Olha... isto é uma pista!". Claro, no final tudo é bem e vagarosamente amarrado e, ao invés de se prender na tentativa de construir um final surpreendente, prefere conferir mérito às "provas" pregressas, mostrando como tudo aquilo contribui para o perfil de Reznik, à sua amargura e à opção de viver em meio a losers e atividades que resguardam sua auto-comiseração. Há questões que gostaria de comentar, mas são claramente spoilers, já sabe o esquema de selecionar abaixo, né?


"If we do not maintain Justice, Justice will not maintain us"




A criação de uma outra personalidade que confira redenção dos pecados não é novidade nenhuma. Este não é o "Big Deal" da coisa... a dupla personalidade, pedra fundamental de uma série de obras que brincam com isto, é minimizada aqui. O filme não nos trata como idiotas a ponto de fingir que não dá para perceber que Ivan e Trevor são a mesma pessoa, muito pelo contrário, deixa que percebamos de forma sutil e respeita nossa inteligência. O negócio é ver como ele faz este julgamento interno. As personalidades convivem, sendo que uma traz consigo a idéia de transgressão sem culpa, tirando da outra o ato hediondo. A outra, que deveria ter conseguido a tal redenção, sucumbe em culpa, tentando limpar a alma literalmente com alvejante toda vez que vai ao banheiro. As personas acusam-se mutuamente e ele percebe que a paz só viria com justiça. Assim ele mata a personalidade transgressora e se liberta numa atitude de redescobrimento e renascimento, mas nem por isto redentora. A paz que tanto buscou só chega quando ele sente que a justiça foi feita. Vemos este tipo de coisa em vários filmes que mostram a necessidade de justiça, mas não estou acostumado a ver esta batalha toda dentro de um homem apenas, mesmo que fragmentado.


Há de convir que não é um roteiro batido – questão que sozinha já merece uma Skol gelada, como diria o chefe. Os elementos que usa até podem ser tão antigos quanto a profissão da sua namoradinha – aquela... a "de fé", mas a forma como são arrumados o torna bem atraente, mas é que nem piada, tem que saber contar. Eu, por exemplo, sou péssimo. Conto e pronto... fico ali olhando a reação do pessoal. Só tenho sucesso quando a piada por si só se basta, mas um amigo meu consegue interpretar a mais idiota delas tão bem, com tantos maneirismos, que se você tiver ouvido 15 vezes a mesma coisa, vai rir mais ainda na décima sexta. Ou seja, para ele não basta ter uma boa história, tem que saber contá-la. E Brad Anderson – diretor de certa forma inexpressivo – sabe contar seu filme. A execução é muito bem acompanhada por diversos aspectos tão bem casados que me pego pensando como é raro ver isto: todos os elementos técnicos normalmente imperceptíveis e passivos têm contribuição ativa para a obra. Da fotografia ao ritmo, passando pelos enquadramentos quebrados e paradas propositais. Não sei se há algum parâmetro técnico que meça ritmo cinematográfico – edição talvez – mas, ao contrário da maioria, onde o ritmo é predefinido e reboca a personagem, aqui a sensação é de que a personagem estabelece o ritmo do filme, como se dissesse pro diretor: "Hey, com'on! Slow down, dude...". A câmera parece a reprodução da vida segundo os olhos de Reznik - a fotografia verde aqui e azul acolá nos coloca dentro de seu mundo insone e turvo. Entramos na estória e dá para imaginar nossa reação a um ano sem dormir e seus efeitos. De uma hora para outra a fisionomia esquálida de Bale parece a coisa mais natural do mundo.

E, já que falei dele, deixe-me cair no lugar comum. Ele simplesmente perdeu 28,5 Kg para compor esta personagem; um rascunho de si mesmo após passar um bom tempo vivendo de uma lata de atum e uma maçã por dia. É uma mudança no ritmo de vida tão brusco que é perceptível no final do filme, quando aparece com o corpo normal e nos faz pensar em quanto tempo teve para emagrecer e ficar daquele jeito, sendo que 4 meses depois teve que ganhar todo o peso de volta e mais 8,5 Kg para o papel de Bruce Wayne. Não bastando, sua atuação é convincente, cansada, perturbada e, sim, arrastada como devia ser. A preocupação que manifesta pela sua decadência física, aliada a algum tipo de resignação - como se seu estado fosse inexorável, insolúvel – é trabalhada de forma cuidadosamente medida, sem parecer forçado ou caricato em nenhum momento. Surpreende. Depois de achar que ele já havia se estereotipado em personagens como os de Psicopata Americano, Equilibrium e SHAFT, voltando ao padrão em Batman Begins, o cara dá uma guinada violenta de projeto, mesmo mantendo o perfil perturbado. Recentemente, só lembro de mudanças tão radicais quando Tom Hanks e Jim Carrey deixaram as comédias para fazerem Filadélfia e Show de Truman, respectivamente, mostrando que tinham talento para papéis mais densos do que os que vinham interpretando até então.

Curiosidade: Trevor Reznik é uma homenagem do roteirista a Trent Reznor, vocalista do Nine Inch Nails. Ele queria colocar músicas do NIN na trilha, mas Anderson achou que quebraria o clima do filme, optou por outra linha, mas deixou o nome.

Jennifer Jason Leigh, a "de fé", também está competente em seu papel, com aquela cara de paisagem de quem está esperando a vida passar para tentar de novo na próxima.

O Operário não é um filme maravilhoso nem tampouco inesquecível, mas é muito bom e destaca-se consideravelmente no cenário atual. E eu gostaria muito de ver Bale em outros papéis como este. O cara sabe fazer muito mais do que distribuir sopapos.


"Consciência é o impulso de fazer o certo porque é certo,
sem relação com o que pode acontecer consigo mesmo"

Margaret C. Graham

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

AS NOVAS AVENTURAS DO CAPITÃO SPAULDING


Na época do lançamento de A Casa dos 1000 Corpos (House of 1000 Corpses, 2003), fiquei com o pé atrás, achando que o diretor estreante Rob Zombie - um cara bacana - se deixaria levar pela empolgação natural de quem está realizando sonho antigo. Inexperiência técnica e excesso de informações também vinham no pacote. Com a missão de realizar uma produção B com um ar, digamos, despretensioso, Zombie acabou criando um pequeno divisor de águas. O filme, execrado por 2,98/3 da população terrestre, era um tour-de-force nonstop de cultura trash.

O estilhaço de história começava no padrão estrutural típico (adolescentes, postos de beira de estrada, casarões sinistros, caroneiros[as] suspeitos[as]), mas logo descarrilhava em um carnaval macabro com missivas nada sutis ao american way of life. Tudo isso com um climão que remetia a um director's cut de Contos da Cripta/Amazing Stories/Twilight Zone. A Casa dos 1000 Corpos foi um levante anti-genéricos de Pânico, uma distorção febril de Massacre da Serra Elétrica, exagerado, irregular, perturbador, injetado de referências cult e incursões experimentais. É horror B, mas na versão Pro, não a Home Edition.

Eis que chega Rejeitados Pelo Diabo (The Devil's Rejects, 2005), uma continuação do "incontinuável". Tudo me levava a crer que o Zé do Caixão gringo iria triplicar o tempero daquele acarajé coagulado, tornando a digestão ainda mais complicada. Mas não é que o cara se revelou um chef sofisticadíssimo? Acima de tudo, Rejeitados marca uma evolução aterradora de Rob Zombie enquanto idealizador e realizador de filmes. É absurda a segurança que ele adquiriu entre um filme e outro. Ao zerar toda a tralha estereotipada de outrora (e olha que era muita coisa), Zombie colocou os monstros pra brincar à luz do dia, sob um ponto de vista nítido e revelador. He let the dogs out. E também foi esperto ao livrar a cara de personagens que, embora fossem a quintessência genealógica das famílias Sawyer & Voorhees, eram tão fascinantes quanto um ser humano com opinião própria.

Como o diretor mesmo disse, Rejeitados não é uma seqüência literal de A Casa. De lá, herda apenas as conseqüências da matança generalizada (que vem na forma de uma caça às bruxas Texas Ranger style) e seus protagonistas mais carismáticos: o esquisitão Tiny (Matthew McGrory, o gigante de Big Fish), o sociopata Otis (Bill Moseley), sua irmã Baby (Sheri Moon Zombie, esposa do Rob - tá bem o maluco) e Mama Firefly (Leslie Easterbrook, perfeita no lugar de Karen Black), além, é claro, do singular Capitão Spaulding (Sig Haig, outra vez excelente). O processo de revisão não poupou nem os demais membros da família Firefly (como Rufus - aqui numa ponta feita pelo dentes-de-sabre Tyler Mane - e o Vovô Hugo), nem Dr. Satan e suas abominações genéticas conjuradas dos círculos inferiores (estes, além de Rosario Dawson no papel de uma enfermeira, aparecem na seção de cenas deletadas do DVD).

Realmente Zombie deu uma faxina no casarão mal-assombrado. Falando nisso, o casarão também foi pra escanteio.


Rejeitados começa sem pausa pra respirar, como se fosse a ressaca da farra do primeiro filme. A residência dos Firefly é cercada por uma força-tarefa policial liderada pelo xerife Wydell (William Forsythe, imerso no personagem), irmão do tenente Wydell (abatido no filme anterior), obviamente obcecado por vingança. Acuados, Otis e Baby conseguem escapulir do cerco e caem na estrada. Logo pedem auxílio ao Capitão Spaulding, que recomenda um ponto neutro como abrigo - no caso, um puteiro dirigido pelo seu colleague Charlie Altamont, interpretado pelo venerável Ken Foree (ator do clássico O Despertar dos Mortos, de George A. Romero).

Aliás, a fina flor do cinema outsider compõe a escalação. Além de Foree, também marcam presença o folclórico Michael Berryman (de Quadrilha de Sádicos), P.J. Soles (de Carrie, A Estranha e do primeiro Halloween), o veterano Geoffrey Lewis, o onipresente Danny Trejo (de Um Drink no Inferno e dá só uma olhada no 3x4 dele no IMDb!) e, por última, uma senhorita que acabou com o tédio das minhas tardes pré-adolescentes: Ginger Lynn Allen.

Já a trilha sonora é um primor de compilação southern rock, utilizada sem a menor parcimônia. Notável também é o "carinho" que Zombie demonstra pelos personagens, conferindo-lhes tridimensionalidade e motivações individuais críveis. Até o fato de não poupar nenhum deles da crueldade hardcore daquele mundo-cão denota um respeito absoluto às suas existências bem tramadas. Ao contrário de um thriller comum de horror, ninguém tem cara de presunto ali. A maioria é gente-fina que se meteu numa merda de dar gosto, na qual gentes-finas podem perfeitamente se foder. Um momento bem ilustrativo da malvadeza do diretor é a horripilante "cena do mascarado" (ma-gis-tral-men-te filmada, uma pérola), desde o momento em que ele sai do hotel até o final. É a vida (ou a arte).

E aí chegamos aos "rejeitados pelo diabo", Otis, Baby, Capitão Spaulding e Mama Firefly, selecionados por Zombie como se fossem os participantes de um Big Brother from Hell. Ao focalizar suas atitudes práticas no cotidiano, Zombie cria uma sensação incômoda e persistente para o espectador. De um modo insólito, eles parecem surpreendentemente familiares, donos de uma moral interna que vai de encontro à moral do resto do mundo, mas ainda assim uma moral. Otis tem pose de rockstar e contestador do Sistema. Baby é a típica garota-que-só-quer-se-divertir, provocante, sacaninha e que dispara palavras rápido como uma cigana (conheço umas vinte assim). A zelosa Mama Firefly é a coroa insinuante na idade da loba (aliás, Easterbrook e Forsythe protagonizam alguns dos diálogos mais deliciosamente insanos dos últimos tempos). E Capitão Spaulding... é praticamente o meu padrinho.

A partir daí, Zombie desenvolve um loop de percepção, que eleva o filme de entretenimento bacana para um veículo de um significado maior e desgraçadamente humanista, que antige seu clímax justamente na vingança tão almejada pelo xerife Wydell. E aí meu amigo... só terminando com um spoiler mesmo pra eu poder desabafar:

(antes que eu me esqueça, spoiler do filme Dogville também)



Ao virar a mesa sobre quem é a caça e quem é o caçador, Zombie formulou uma questão de apelo universal. Note bem, em nenhum momento criamos algum tipo de simpatia pela família Firefly, e Zombie jamais suaviza a mão nas atrocidades que eles cometem, exatamente para que isso não ocorra. Mas em compensação, ele nos enfia goela abaixo o sabor amargo da vingança, ainda que direcionada à assassinos tão cruéis. O ensaio de genialidade vem justamente aí: após impregnar a tela com uma seqüência visceral de atos hediondos, Zombie praticamente esgota a nossa crença em conceitos como humanidade e boa-fé. Mas durante o pau-de-arara físico e psicológico empregado por Wydell - quando o nosso espírito de solidariedade está lá no centro da Terra - o sentimento de compaixão inevitavelmente vem à tona, com força total.

Tive pena da Mama, de Otis, de Spaulding, e torci para que Baby conseguisse fugir em uma cena extremamente simbólica da "mensagem" embutida no filme - situação a qual não pude deixar de relacionar com Grace, de Dogville, e suas ponderações que variavam de um extremo a outro sobre o destino que escolhera para os habitantes daquele vilarejo (não poupando nem o bebê de sua algoz). Observando a trajetória de Grace, Wydell e de... minha nossa, alguém anotou a placa... Yu Ji-tae & Oh Dae-su, de Oldboy, me pergunto até onde a vingança é eficiente como cauterizador espiritual.

A constatação do que realmente Rejeitados Pelo Diabo trata, surpreende. Funciona tanto como alegoria à política dos EUA em combater o terrorismo com terrorismo, quanto como um olhar pungente sobre a pena de morte. A redenção chega (sim, ela chega), e não deixa de ser lírica - lírica de uma maneira reconfortante para os personagens e alienígena para nós (mas compreensível enquanto testemunhas de sua trajetória). E novamente retornamos ao padrão - afinal, é um loop - e o filme se despede como um legítimo road movie, ao som da bela Free Bird, do Lynyrd Skynyrd.



Confesso... esperava menos de Rob Zombie. Muito menos.

Rejeitados Pelo Diabo é um filmaço.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

HOUR CONCOURS


Antes de começar o post, devo informar que vou falar sobre todo o volume 2 de Ultimates até a nona edição. Aqui no Brasil acho que só publicaram a primeira ainda. Spoilers a granel, portanto.

Doggma registrou ano passado um depoimento de Mark Millar afirmando que um filme do arco Wolverine: Enemy of the State, que ele escreveu e John Romita Jr desenhou, teria um orçamento de 300 milhões de dólares. Brincou também dizendo que as proporções astronômicas do arco seguinte, Agent of S.H.I.E.L.D., duplicaria este orçamento se fosse filmado e colocou esta figura para dar uma idéia. Quase um ano depois temos The Ultimates v2 #09, também roteirizado por Millar, só que com o ultra-realista Bryan Hitch no lápis (sem desmerecer Romita Jr. de qualquer forma – ele é phueda demais, mas com outra proposta) e fica claro que o mega-roteirista tem uma tara secreta pela queda dos aeroporta-aviões "shieldianos", como pode ser visto na imagem acima: praticamente uma revisão do mesmo tema. Peguemos então as considerações a respeito do orçamento dos filmes do Wolverine e consideremos que o mesmo estaria para um filme dos Ultimates V2 como um Xuxa e os Duendes estaria para Senhor dos Anéis.

Não dá para apenas reverenciar Hitch em duas palavras no meio de um parágrafo. Certamente o roteiro de Millar é o maior responsável pelo sucesso dos Ultimates, mas estaria blasfemando se dissesse que é responsável único. A arte de Bryan Hitch, mesmo que constantemente atrasada, é de um realismo cinematográfico. Os enquadramentos, splash pages, seqüências, dinâmicas e fisionomias são embasbacantes, e ainda permite-se fazer citações claras a diversos filmes como, por exemplo, O Silêncio dos Inocentes. Assim como Millar, Hitch também parece que desenha tendo todo o arco de eventos na cabeça, capaz inclusive de realizar contrastes que cruzam várias edições para serem percebidos; visão que não é própria de qualquer artista por aí não.


Triskelion antes e depois do puxadinho (#1 e #9)

O volume 1 dos Ultimates já havia sido algo absurdamente impressionante no sentido de que tem sido difícil encontrar material deste nível dentre as HQ's mais – digamos – comerciais. Sim, temos coisa muito boa acontecendo por aí (destacando-se o samba do crioulo doido ocorrendo na DC, Supreme Power, Demolidor, Astonishing X-Men – segundo arco - e, como pôde ser visto no post abaixo, New Avengers), mas a maioria é concentrada em 4 ou 5 roteiristas que trabalham mais tempo do que as tais 24h que, dizem por aí, compõem um dia. Se pegarmos tudo que é publicado nesta linha (eixo comercial Marvel/DC, repito) por mês, a quantidade relativa de material extraordinário deve ser bem pequena.

Com isto, sempre que algo muito bom surge no horizonte, sentimos como quando aquela mulé muito-gata-arrasa-quarteirão enlouquece e se exibe contigo na rua, o que torna natural a expectativa ferrenha pela continuidade do sonho. A primeira temporada ainda tinha a preocupação de apresentar os personagens e dar um mínimo de background para cada um deles antes da porradaria desenfreada. Agora, um ano depois daqueles eventos, houve uma queda de ritmo sugerindo que a cadência seria mais light. E, cara, que orgulho de dizer que estava enganado! Não sei se alguém percebeu mais acima, mas ao invés de chamar o volume 2 de arco, classifiquei-o como temporada, o que me leva a dizer que Millar está sendo vanguardista numa forma de escrever quadrinhos como se fossem temporadas de tele-séries. Um tema que toma conta de um ano inteiro com eventos paralelos plenos e estufados de verossimilhança para dar mais gosto à massa, tudo isto com um paralelo político contemporâneo digno de palmas.

E as influências cinematográficas não param nos exemplos dados. Fora a primeira edição, sem título, todos os outros são cópias de títulos do cinema ou adaptações dos mesmos ou de outras mídias populares. Lidos em seqüência, praticamente contam a história por si só:

#2 - Dead Man Walking – referência a Os Últimos Passos de um Homem, filme com Sean Penn que mostra um homem condenado esperando o tempo passar no corredor da morte.

#3 - The Trial of the Incredible Hulk – Referência óbvia.

#4 – Brothers – Referência a filme homônimo que denota a existência de outros que nem eles.

#5 - The Passion Play – referência a uma peça homônima que representa a Paixão de Cristo.

#6 - The Defenders – O único caso que não achei referências.

#7 - The Wolf in the Fold - Referência à fábula do lobo em pele de cordeiro.

#8 - Born on Forth of July – Filme com Tom Cruise, mostrando o descaso pelo ex-combatente.

#9 - Grand Theft America – que é uma referência à cidade tomada pelos bandidos de Grand Theft Auto – o jogo.

Pois pergunto: como é que Millar consegue escrever o que escreve, vender aos borbotões e ninguém dizer o cara é um terrorista em potencial? Na temporada anterior já pintara um Capitão América que é o perfil comportamental da classe que comanda os EUA e sua relação com o mundo, agora toda a equipe e os eventos que participam tornam a visão mais sistêmica, abrangente, pintando os EUA como um elefante imenso em desabalada carreira, numa inércia impossível de conter. Todo o cenário faz companhia à postura intempestiva, autoritária e egoísta do personagem, dando ainda mais sentido de "vejam como eles são féladaputas" ao chamar atenção para as operações do grupo não mais restritas ao solo americano e aguçando os ouvidos da mídia.


Ihhh... Fodeu!

E é esta a linha principal: Ultimates sendo usados como milícia na defesa dos interesses norte-americanos onde quer que seja, mas de preferência onde não possam se defender e tenham algo de valor para ser tomado. Na tangente surgem diversas sub-tramas que, aparentemente, não têm como se cruzar, mas rapidamente nos surpreendem e vemos que tudo tinha que ser como está sendo mesmo e somos completamente tapados por não termos percebido antes! Elementar, meu caro Zombie-son!


"Algumas pessoas dizem que The Ultimates acabaram de passar um
pouco dos limites e usaram uma pessoa de destruição em massa
em um delicado caso político internacional."


Larry King – The Ultimates v2 #1


Parêntese: curioso notar como um personagem criado para envergar uma causa nacionalista legítima na aurora dos quadrinhos é chamado agora de "pessoa de destruição em massa", encarnando tudo de ruim que temos no direcionamento da postura americana.

Voltando: Por alguns momentos, como dito um pouco acima, chegamos a acreditar que as histórias paralelas, apesar de fantásticas independentemente, não teriam como convergir em algum ponto futuro de forma perfeitamente satisfatória e coerente, mas em 26 páginas da nona edição todos os nós são atados, mostrando que nada do que aconteceu até então foi gratuito. Vemos, depois de tropeçarmos em nosso queixo no chão, todo o cenário de conspiração global que sempre quisemos ver em qualquer veículo de entretenimento e ainda podemos brincar com novas questões nas próximas 3 edições. Mark Millar deve ser um enxadrista de mão cheia! Definida a linha central, para chegarmos ao que acontece na estrondosa nona edição, cabe um resumo do que aconteceu até aqui.

Senão vejamos: Após a ação no Oriente Médio, onde os Ultimates libertaram alguns reféns americanos, além da frase de Larry King acima, temos também Thor dizendo que a operação no Iraque ocorrida sob a bandeira de ajuda humanitária é, na verdade, um golpe publicitário para trazer a opinião pública para um lado favorável. Sugere que servirá para quando forem necessários futuros ataques preventivos.

Com o alerta de sacanagem no ar, surge a linha que coloca Thor em posição de louco megalômano tarado por teorias de conspiração – e aqui Millar brinca não só com a percepção que os personagens têm do Deus do Trovão, mas também embaralha qualquer coisa que nós, leitores (ou espectadores, as you wish) possamos vir a pensar. Quando lerem a estória onde acontece o almoço com Volstagg, reparem bem na figura asiática de verde que passa ao fundo.


Tá vendo a merda acontecendo?

Somos envolvidos, aparentemente sem motivo, nos problemas na relação entre Steve e Janet, narrados com propriedade ácida rodriguiana (assim como a sugestão da relação incestuosa entre Pietro e Wanda), ao passo que percebemos o acentuado isolamento de Hank Pym (humilhado, encostado nos Defensores e encoxando uma defensora pré-púbere) e Bruce Banner. Este último ainda coloca indiretamente mais óleo para a fritura de Thor, acusado de ter vazado as informações a respeito da natureza do Hulk e sua ligação com os Ultimates. Em paralelo, temos a informação de que há mais de dezoito meses os europeus vêm trabalhando no seu exército de super-soldados, dando pela primeira vez conotação de "corrida armamentista".


"A única coisa que precisam fazer é dizer 'armas nucleares' e vc sai
correndo para lutar contra quem quer que seja ao lado deles.
Suponha eles achem que a China é uma ameaça daqui a alguns anos."


Thor para Tony – The Ultimates v2 #6


A trama então elimina o primeiro peso pesado ao executarem o Hulk (ou pelo menos tentarem), enquanto mostra o envolvimento de Natasha e Tony Stark, uma relação clássica do universo normal que aqui toma rumos bem mais interessantes.

Thor é a bola da vez e Nick Fury não pensa duas vezes ao mandar que o cacem sob a alegação oportunista e super up to date de que o Deus Nórdico estivera "(...)encorajando o uso de violência contra governos democráticos eleitos". Parece Bush, mas foi Loki quem disse - o Deus da Farsa e Mentiras - que coisa não? A arte imita a vida. Aliás, esta edição merecia um post separado. Aqui ocorre uma verdadeira via-crúcis para Thor, justificando o título. É porrada do começo ao fim, grandioso como tem que ser e terminando com um "Father" que é praticamente um déja vu, além de referência que não lembro ter visto tão bem aplicada nesta mídia ou em outra qualquer.

Acontece então a primeira afirmação categórica de que existe um traidor no grupo e este procura Pym, o desacreditado e humilhado pseudo-herói. Ultimates e heróis europeus atuam no Oriente Médio e apreendem ogivas em "ataque preventivo". Esta ocorrência faz com que um chefe de estado da região – em Ultimates Annual v2 #1 – ameace Nick Fury caso ele continue com o programa de supersoldados.


"Nós acabamos de aleijar um país, Hank!"

O Traidor para Hank - The Ultimates v2 #6


Com dois pesos pesados fora de combate, chacinam a família de Clint Barton – o Gavião Arqueiro – e fritam mais um maioral: Steve Rogers. A personificação do perfil autoritário americano sucumbe ao próprio veneno, já que, depois de tudo o que fez pelos seus superiores, é caçado e derrubado após Fury dizer "Não posso acreditar em como foi estúpido. Como pude trazer este punk para o time só pela sua palavra quando fizemos seis meses de análise de passado de qualquer outro?".


Há espaço ainda para mostrar que o exército dos EUA, tradicionalmente extremista politico, mostra-se incomodado com o papel dos Ultimates solapando o seu, bem como verbalizam a insatisfação quanto ao desenvolvimento de tecnologia que Tony Stark provê à SHIELD e veda às Forças Armadas, deixando-os com recursos tecnológicos atrasados em 5 anos. Prato cheio para teorias da conspiração.

Sobram apenas o Homem de Ferro, Natasha, Pietro, Wanda e os reservas para começar a nona edição. E aqui a batalha toma proporções que nunca tinha visto na série até então. A seqüência inicial Oldboy style, onde a conspiração mostra como consegue os códigos de acesso ao Triskelion, é o prenúncio de que algo grande viria e, quando vem, não faz por menos. Com as defesas tecnológicas derrubadas e as super-humanas enclausuradas, o último peso pesado é pego numa autêntica chave-de-perna enquanto a(s) cidade(s) é(são) varrida(s) numa seqüência matadora (literalmente) de eventos. Em minutos os EUA estão no chão.


Ihhhh.. Fodeu³!!!!

Mermão... é uma trama de dar nó! Só um psicótico pensaria em algo deste tipo. Só que o cara não surpreende só por isto. Por mais paradoxal que possa parecer, já estamos nos acostumando a nos surpreender com sua criatividade chocante em diversas publicações, mas até em detalhes contingenciais ele se destaca. Assim como abusou da imaginação ao fazer o Capitão América derrubar o Gigante no volume 1 de forma crível, aqui ele chacina a tropa de gigantes de um jeito que só com muito scotch daria para imaginar (sacanagem falar isto... tá no meio de um tratamento quimioterápico - será que é por isto?)! Não satisfeito, foge da institucionalização natural dos roteiristas da cronologia normal e nos traz aquilo que seria o óbvio, mas era uma questão intocada até então: se Tony faz uma armadura para si, por quê não faz outras para outros membros? Somos agraciados pois com Natasha de posse de uma das maiores armas do mundo. Isto sim é uma pessoa de destruição em massa.

Poderia agora me meter a futurólogo e tentar prever o que vem por aí, afinal o desenrolar dos fatos mostrou que Pym e Banner estão por aí e querem voltar a ser gente, mas este é o tipo de coisa que, tratando-se de Millar, é muito arriscado tentar.

Durante algum momento cheguei a pensar que a evolução que esta armada teve necessitaria de um tempo de maturação que não existiu. No entanto, ao rever as edições anteriores para escrever este post, notei detalhes que antes não notara, como a quase onipresença de Loki no limite dos eventos, a passagem de um ano dos eventos do V1 para o V2, além da existência de 18 meses separando a adoção de Thor pelo grupo ainda no V1, quando a frente européia do programa de super-soldados já era bem evoluída. A cena final e o turbilhão de informações que voltam à superfície da memória nos faz perceber que as citações de Millar, além de oportunistas, não cessam. Loki tem aparência oriental e lidera o exército que derruba a grande potência do ocidente - o Grande Satã. Numa tacada só ele insere elementos que vão de Nostradamus à Bíblia (novamente).


Esquema ilustrativo do que aconteceu até agora

O detalhe é que Loki esteve inserido no projeto de super-soldados europeu desde seu início, o que leva a crer que a iniciativa oriental deve ser contemporânea - talvez anterior - à americana. Cabe lembrar que, dada a iniciativa de desenvolvimento tecnológico e criação do Homem de Ferro ser uma questão pessoal de Stark, além do patrocínio da S.H.I.E.L.D para Pym e Banner - este útimo só logrou êxito por acidente e de forma descontrolada - , o resto do programa de super-soldados americano era um fiasco, contando com dois mutantes desacreditados depois de Retorno do Rei e meia dúzia de agentes bem treinados, mas que de super não tinham nada. Creio que no fim tudo ficará bem e os EUA se reerguerão, mas aí é obrigação editorial comercial. O que importa é que todas as críticas internas e geo-políticas que queria fazer já foram feitas. No post sobre os Ultimates de quase um ano atrás, meu chefe brincou perguntando se já dava para chamar Millar de Mestre. E agora eu pergunto: Tem jeito de fazer diferente, gafanhoto?

O traidor? Não conto. Baixem e leiam, mas isto não me impede de deixar algumas questões que ficam no ar:

Thor é ou não um Deus pagão? Se é, por quê perdeu os poderes quando lhe tiraram o cinturão? Se não é, por quê o colocaram na cela destinada ao Hulk?

Qual a natureza daqueles soldados voadores que agiam como um enxame?

Os POD´s teriam sido os protótipos antigos do Homem de Ferro cujos projetos foram passados pela Viúva (ou pelos militares) para a armada inimiga?

Por fim: O que segura Thor e Capitão em suas celas no Triskelion agora que ele está sem energia? E Pym e seus "Visões"?

Para vocês brincarem: Quem seriam – além do Loki – os carinhas que estão nesta imagem aqui?

Faltando apenas 3 edições para o fim da era Millar/Hitch à frente dos Ultimates, digo que tenho medo, muito medo, pelo que Jeph Loeb e Joe Madureira - os novos responsáveis pela série - podem fazer. É de revirar o estômago. Sei que Loeb já acertou mais do que errou, mas não consigo – nem com muito álcool – ver como ele pode manter este nível. E Madureira e sua fúria mangá não tem nada a ver com a idéia de realismo que permeia tudo o que foi feito com o grupo até então. Podia ser, ao menos, Tim Sale (afinal, já é íntimo do Loeb e tem uma arte menos caricata), mas vendo o que vem sendo feito em Amazing Spider-Man, acho que Deodato seria o cara perfeito para o trabalho.

The Ultimates é seguramente o que de melhor vem sendo publicado nesta linha.


Tão esperando o quê? Leiam logo! Não sabem o que estão perdendo!

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Artigo 1



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SAM KIETH VAI ANIMAR A GALERA

Todo mundo já deve estar sabendo que Sam Kieth vai emprestar seu estilo cinematográfico-surrealista e seus pontos de vista únicos para o Batman, correto? Pois então: seguem dois links para download das duas obras independentes que Sam lançou nos últimos anos. Zero Girl e The Maxx. Cliquem nos nomes para baixar.

Não li The Maxx ainda, mas arrisquei ler 2 páginas de Zero Girl e só percebi que tinha sido capturado na terceira edição de um arco de 5. A última vez que lembro ter sido arrebatado assim por algo novo foi quando li 15 edições de Y - The Last Man seguidas. Zero Girl é original em tudo que mostra, até mesmo quando trata do clichê da outsider vs grupinho de malandras do colégio. Num universo com meia dúzia de personagens Kieth consegue fazer uma história com premissas absurdas ser completamente atraente. Tô bobo.


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PESQUISA DE OPINIÃO

O que vocês acham desta action figure? Se disser que comprei eu seria louco?