domingo, 5 de janeiro de 2014

Zombie de Ouro 2013


E vamos à listinha da ressaca anual, o Zombie de Ouro 2013. Num período em que elevei minhas técnicas de esquiva contra memes supermassivos ao nível Super-Shaolin de Aço, acumulei mais material pra conferir do que de fato conferi. A internet abriu todas as comportas da cultura pop e as pessoas, por sua vez, querem mostrar o que andaram criando - mesmo que nem tenham terminado de criar. O tempo hoje é escasso tanto pro criador quanto pro público, então priorizar virou a ordem do dia. O que isso pode trazer de consequências negativas (além, é claro, dessa ininterrupta rave de informação) ainda vamos descobrir. Teorias não faltam.

Antes, uma nota em homenagem à Alvin Lee, Clive Burr, Ray Manzarek, J.J. Cale, Jeff Hanneman e Lou Reed, alguns dos grandes da música que fizeram suas passagens em 2013. E no cinema, Jess Franco, Roger Ebert, Ray Harryhausen, Dennis Farina, James Gandolfini, Peter O'Toole e Paul Walker. Pessoas que, de uma forma ou de outra, deixaram as suas marcas neste mundo - e vão continuar deixando nos tempos que virão.

De todas as listas de melhores discos, essa foi a mais, digamos, selecionada. Não há nenhum filler (aproveitando um jargão da indústria musical), e me doeu excluir artistas que curto, mas que lançaram álbuns apenas medianos. Fora os outros tantos que eu simplesmente ainda não tive tempo de ouvir ou de assimilar apropriadamente.

Mas vamos nessa, que 2014 já começou a mil por hora!






EU VOLTEI, AGORA PRA FICAR


Mesmo sem Bill Ward, 13 é provavelmente o mais próximo de álbum clássico do Black Sabbath em pelo menos 40 anos. A química não só ainda existe, como está mais poderosa (que monstro dos riffs é esse Iommi), inventiva (que linhas de baixo [e texto] do Geezer) e filha da puta (ah, Ozzy) do que nunca. Se for o último mesmo, God bless you all. Esse foi digno daqueles quatro cabeludos de Birmingham sem um puto no bolso e cheios de ideias malucas na cabeça.



Do auto-exílio e dos rumores sobre problemas sérios de saúde a um espetacular comeback, com direito a um dos álbuns (e vídeos) mais comentados do ano. Só David Bowie mesmo. Parece que fez só pra calar a boca dos pobres mortais e dar mais uma provinha de seus poderes ilimitados dentro do panteão pop. Musicalmente, The Next Day se situa em algum ponto entre Scary Monsters (and Super Creeps) e Let's Dance. Só o climão da faixa "Love is Lost" (a irmã mais nova e gótica de "Cat People (Putting Out Fire)") já fez valer a espera.



De todos os retornos ultra-aguardados, o do My Bloody Valentine parecia o mais improvável. Quase uma lenda urbana. Com sua taxa frenética de 1 álbum/década e uma mística genuinamente alternativa, a impressão era de que os irlandeses iriam cozinhar esse caldo indefinidamente, em nome do status cult. Mas eis que voltaram com a formação clássica e um disco que honra o legado dos icônicos Isn't Anything (1988) e Loveless (1991).
m b v soa mesmo como uma sequência natural de Loveless, mais atmosférico e shoegazer. Isso se explica pelo fato de que o figura Kevin Shield começou a compor o disco em 1996 (!). Se o delay foi devido a problemas técnicos (acho que não) ou bloqueio de autor (acho que sim) não importa. O que importa é que o resultado foi excepcional. E isso ao vivo deve ser uma imersão num ofurô cheio de Santo Daime sem hora pra sair.



Ok, sempre fui apaixonado pela Hope Sandoval. Eu beijo o chão que ela pisa. E esperava por um disco novo do Mazzy Star desde... pô, desde o último, Among My Swan, de 1996. Então sou suspeito pra elogiar ou recomendar Seasons of Your Day. Mas, por Vênus, que disco intoxicantemente delicioso. O dark/atmospheric/dream pop perfeito do grupo está com texturas mais acústicas e rústicas, incluindo até ocasionais slides (vide "Spoon" e "Flying Low") e aquela aura décadence avec élégance que faria Lana Del Rey desistir de sua pseudo-melancolia e ir vender sanduíche natural em Arraial D'Ajuda.


Menção honrosa: Magic Hour (Luscious Jackson)



I WANT TO BREAK FREE


The Raven That Refused to Sing (And Other Stories) é o 3º solo do músico Steven Wilson, frontman do Porcupine Tree. E como o fruto não cai muito longe da árvore (perdão, não resisti), o que se ouve é um autêntico som progressivo com doses de fusion. Mas sem chatices virtuosas com trocentas escalas pentatônicas - e se há em algum nível, é sempre em favor do lirismo, da música. A banda é genial, e as faixas têm arranjos incríveis e repletos de detalhes que, sozinhos, justificam atenciosas audições nos fones de ouvido. Como se não bastasse, o disco tem um conceito meio Neil Gaimaniano e cada faixa conta uma história envolvendo de alguma maneira o sobrenatural - o lindo vídeo de "Drive Home" dá uma boa ideia da atmosfera. É um álbum realmente especial que merecia ser descoberto fora de seu fandom.


Menção honrosa: The Winery Dogs (The Winery Dogs)



BIG WHEELS KEEP ON TURNING


Seasick Steve nunca saiu do meu playlist desde que conheci o sujeito. E o novo disco, Hubcap Music, tratou de estender essa "parceria" por mais alguns anos. Muitas coisas mudaram para Steve desde então. Outras não. Mesmo colecionando discos de ouro e platina, ele continua fiel às suas origens. A capa e o título do álbum - literalmente "música de calota" (de carro) - é um bom exemplo de sua atitude, digamos, autossustentável, felizmente com excelentes resultados. E na banda ainda estão os mesmos Dan Magnusson e o mestre de obras-primas John Paul Jones. Jack White toca guitarra na música "The Way I Do". E os caras do Sigur Rós empurram o carro de Steve quando não quer pegar. Todos estão a serviço do hobo!


Menções honrosas: Wrote a Song for Everyone (John Fogerty), Foreverly (Billie Joe Armstrong & Norah Jones)



PAID THE COST TO BE THE BOSS


Tão simples que parece fácil, mas não é não: é genial. AOR é um tributo apaixonado de Ed Motta ao adult oriented rock - mais especificamente ao West Coast AOR, cujo perfeccionismo e sofisticação foram tão disseminados por grupos como Hall & Oates, Spandau Ballet e, especialmente, o grande Steely Dan. De fato, AOR parece herdeiro direto não apenas do Dan, mas também do disco The Nightfly, o excepcional debut solo de seu co-fundador, Donald Fagen. Melhor referência, impossível. Há poucos artistas vivos no Brasil capazes de visitar essa sonoridade com o nível que lhe é característico. E Ed Motta está no topo da lista.



Em 2013, o desconhecido soulman Charles Bradley pegou todo mundo no contrapé com uma antológica versão de "Changes", do Black Sabbath. O que foi uma promoção de luxo para seu segundo disco, o excelente Victim of Love. Funk, soul e r&b de primeira. Clássico e moderno ao mesmo tempo.



BOING · BOOM · TSCHAK


É possível atingir o novo sob uma visão retrô? Se Random Access Memories não responde essa questão, não sei o que conseguiria. O duo francês Daft Punk não apenas manteve o alto nível de sua discografia (incluindo aí a fantástica trilha de Tron: Legacy) , como quebrou uma porção de paradigminhas que vinham se arrastando décadas afora: que disco é um subgênero de baixa qualidade, que artistas da música eletrônica não são músicos de verdade, que o pop precisa ser pedestre pra ser popular e por aí vai. Com o álbum, eles fizeram o "dever de ca$a" com a estourada "Get Lucky" (além da coleção de joias pop que a acompanha). Mas o ouro mesmo é a faixa "Giorgio by Moroder", uma obra de arte áudio/biográfica em homenagem ao veterano produtor italiano. Sozinha, a música já vale o disco, a banda, a carreira.



Curioso ver grupos seminais como o Depeche Mode administrando o boom revivalista dos anos 80. Pra eles, basta voltar às raízes. Ao exemplo do The Human League (que lançou um bom álbum nesses moldes em 2011), o trio Martin Gore, Dave Gahan e Andy Fletcher abraça sem pudor a synthplicidade dos primeiros álbuns pós-Speak & Spell. Mas a tarimba e a carga emocional são de raposas velhas. Delta Machine traz texturas melódicas no auge da refinação e Gahan está cantando como nunca - vide a belíssima "Heaven" e o bluesão eletrônico "Slow", na melhor tradição do DM. Trent Reznor deve ter ficado horas debaixo do chuveiro em posição fetal se perguntando como eles conseguem. E Nicolas Winding Refn mataria Ryan Gosling com um elmo viking para ter uma dessas canções em algum filme seu.



Gary Numan fez o que o Nine Inch Nails não fez em 2013. Em Splinter (Songs From A Broken Mind) o pioneiro synth britânico mostra que é a sombra por trás de cada músico que já olhou pra um sintetizador com cara de pervertido. Ok, ok, o mesmo vale para Kraftwerk, Silver Apples, Devo, Suicide, a türma do kraut rock... mas no ramo de injetar electronices e esquisitices na seara pop é ele quem responde. Ainda. Em Splinter, Gary está mais atual do que nunca - e mais Numan do que nunca também.


Menções honrosas: Kunst (KMFDM), LowCityRain (LowCityRain)



21st SCHIZOID MEN


Pra mim, "OddfellowS" é o melhor álbum do Tomahawk. Pronto, escrevi. O som atual parece um mix das bandas mais famosas dos integrantes Duane Denison (The Jesus Lizard), Trevor Dunn (Mr. Bungle), John Stainer (Helmet) e, claro, Mike Patton (Fenemê). Em algumas faixas, soa como se todas elas se juntassem para dar sua versão para o rock de FM. E se eu fosse o dono de uma, tocaria esse disco até furar.



Lydia Lunch é uma cultuada personalidade no wave do submundo nova-iorquino. Cantora, compositora e escritora, ela já trabalhou com vários dos grandes transgressores da cena alternativa, de Sonic Youth e Jim "Foetus" Thirlwell ao Einstürzende Neubauten. Seu atual grupo, o Big Sexy Noise, dá continuidade aos seus projetos bizarros, sempre longe do esquemão e das amarras do gosto popular. Dessa vez, a parceria é com integrantes do sensacional grupo londrino Gallon Drunk - o guitarrista James Johnston, o saxofonista e organista Terry Edwards e o baterista Ian White. O resultado é uma massa sonora pesada, ganchuda, com um pé na garagem e outro no jazz, com um senso melódico sombrio, algo sarcástico (cortesia do timbre meio Marianne Faithfull da voz de Lydia). É o Black Sabbath, se fosse banda de cabaré vagabundo em New Orleans.

O duplo Collision Course & Trust the Witch traz uma performance ao vivo na Itália em 2011 e o terceiro álbum do grupo, lançado no mesmo ano. O que sugere até certa estabilidade em se tratando da inquieta Lydia. Tomara que essa piração dure por mais alguns discos.

Site oficial (com som, NSFW)



Em One One One, o Shining está naquela calmaria. Ainda mais comparando com o álbum anterior, o psicótico Blackjazz. É como se o Napalm Death de repente virasse o Foo Fighters. Mesmo assim, a índole hostil do grupo norueguês segue imutável: free jazz, noise rock, heavy metal, industrial e King Crimson sendo batidos num gigantesco colisor de hádrons operando no limite. Só que agora dá até pra assobiar as melodias, espia só. Coisa de maluco e pra maluco.



O trio californiano Death Grips começou a chamar atenção com o incendiário mixtape Exmilitary, de 2011. O som é inclassificável - convencionou-se chamar de hip-hop experimental, o que não dá a noção exata, já que o trip hop de um Tricky, por exemplo, já fazia um delivery similar, mas nem de longe tão minimalista, caótico e niilista. O novo disco, Government Plates, é exatamente isso. É sonoridade fim-da-linha, catártica e impondo uma experiência completamente individual de assimilação. Digo sem medo de errar que serão os mesmos 0,01% de fugitivos do hospício a voltarem dessa lobotomia sonora pedindo bis.


Menções honrosas: Ultraviolet (Kylesa), Pain is Beauty (Chelsea Wolfe)



THE DEVIL SENDS THE BEAST WITH WRATH


Ao lado do Back Sabbath, o Carcass deu uma aula de como se grava um álbum de reunião de alto nível. E da mesma forma que o quarteto de Birmingham, o quarteto de Liverpool também teve que encarar o estúdio desfalcado de um jogador importante. Felizmente, os ícones do metal extremo não foram lá pra perder viagem: Surgical Steel é um destruidor álbum de death metal com aquele mix de técnica absurda e as rebuscadas nuances melódicas em que o Carcass fez escola, para o bem e para o mal. Só não é melhor que o insuperável Heartwork - mas justiça seja feita, o disco ainda precisa envelhecer alguns anos para que a comparação seja feita com o devido equilíbrio. Por hora, cuidado com qualquer mosh ao som de Surgical Steel. Vai ser sanguinário.



O hype e as juras de amor não foram à toa. The Wild Hunt, do trio sueco Watain, transcendeu a violência over-the-top unidimensional das formações black metal escandinavas. Debaixo daquela saraivada infernal de acordes encontram-se influências atípicas de noise rock, shoegazer e até pós-punk, com bases espertas que inovam no louvor ao capeta. O grupo usa até o silêncio, como num bom filme de horror. Aliás, as letras são puro satanismo trash, com rituais demoníacos de sacrifícios de bebês ("The Child Must Die"), odes à Sauron ("Black Flames March"), fanfics de Evil Dead ("Sleepless Evil") e outras delicadezas tão sapecas quanto.

Geralmente, antes de elogiar qualquer banda viking/pagan/black metal, dou um baculejo virtual nos meliantes pra checar se são simpatizantes neo-nazi arrombados, mas pelo que li, os Watain-boys são barra-limpa. Inclusive o baixista chileno Alvaro Lillo, que atua nos shows, ainda respira, então acho que tá tudo ok.



Gosto de muita coisa do Sepultura com o Derrick Green nos vocais. Mas acho que o guitarrista Andreas Kisser, franco líder do grupo, ainda não atingiu a sonoridade que tanto persegue, gerando resultados irregulares ao lado de ideias refrescantes e promissoras. The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart (ufa) tem o nível mais alto de acertos do Sepultura da fase Green. Não sei se pela produção casca-grossa de Ross Robinson (de Roots), se pela performance explosiva do prodígio Eloy Casagrande ou se porque o... coração dos caras estava no lugar certo. Ainda não chegaram lá, mas o que o Sepultura é hoje está bonito de ver. E de ouvir.



Se nos últimos discos o Voivod andou taxiando em pistas stoner e punk, Target Earth marcou seu retorno ao thrash progressivo/space/jazzy em tempo integral. O guitarrista Daniel "Chewy" Mongrain realmente deve ter ouvido muito o grupo na fase Nothingface, visto que o estilo e até o timbre que utilizou são os mesmos eternizados pelo saudoso Denis "Piggy" D'Amour. Uma homenagem muito bem-vinda. Mais um álbum espetacular de uma banda, ainda, única.

Site oficial (com som, NSFW)



O veterano Genocídio tem conseguido encaixar uma sequência bacana de álbuns, sem tantos hiatos entre eles (ainda que fossem Hiatus...). No excelente In Love with Hatred a banda do mítico W. Perna se afasta um pouco das influências vanguardistas e pós-punk da fase Posthumous em favor do aspecto thrash-death-doom clássico. Isso feito por quem conhece do riscado, é garantia de headbanging desenfreado. Um álbum direto e pungente que poderia inspirar quem só sabe reclamar da "cena", do público e da falta de apoio ao metzzzz...


Menções honrosas: Diabolic (Accu§er), The Dream Calls for Blood (Death Angel), Colored Sands (Gorguts)



WE ARE MOTÖRHEAD


Em 2013 Lemmy deu uma apavorada na geral com uma baqueada estranha na saúde. Parece que a coisa foi séria, muito embora o Motörhead tenha roncado furiosamente em Aftershock. É um álbum que tem um pouco de tudo pra todos: rock 'n' roll do puro, rockões quase hardcore, rockões quase thrash, blues pesados (ah, a maravilha que é "Lost Woman Blues"), hards com aqueles grooves malvadões e até um baladão southern estradeiro como só os brutos são capazes de fazer ("Dust and Glass", fabulosa). Ainda ouço Aftershock quase todo dia, tocando febrilmente a minha Rickenbaker imaginária...



PUNK'S NOT DEAD I KNOW


Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine é a nova piração hardcore do lendário Jello Biafra. O som é uma batida de frente entre Dead Kennedys e o Lard sem a tralha high-tech. Já o cinismo e o humor negro continuam corrosivos ao extremo. White People and the Damage Done (título sensacional!) é o 2º disco do grupo e mostra toda a virulência do cancioneiro Biafrano. Suas letras são de mijar de rir - a de "Shock-U-Py" é um primor - e, ao mesmo tempo, o discurso é uma coturnada na boca. O melhor HC que ouvi em 2013.


Menções honrosas: True North (Bad Religion), 13 (Suicidal Tendencies)



KICK OUT THE JAMS, MOTHERFUCKER


Full On, da banda The Freeks, foi uma das grandes surpresas do ano. Em suas fileiras estão ex-integrantes do Fu Manchu, Nebula e Roadsaw - ou seja, só craques na distorção desembestada. Curto e grosso, o som do quinteto remete à energia primal de bandas como MC5, The Stooges e New York Dolls, devidamente atualizada e acrescida de algumas doses de anfetamina. Um puta fuzz-fest.



A maleta com o 1 milhão de dólares do Mudhoney ficou mesmo pelo caminho. Por algum motivo, eles nunca deram um tempo nas atividades para colher os louros que só a fama cult é capaz de trazer. Acho que estavam mais preocupados em continuar gravando ótimos discos no mesmo esquema quase-underground desde sempre. E Vanishing Point é daqueles ótimos com um plus no final. Pra mim, é o melhor deles lançado neste século. Esse é pra ouvir com o volume no talo.



Vista Chino é a nova banda de John Garcia e Brant Bjork, respectivamente o vocalista e o baterista do cultuado Kyuss. Essa dupla é uma verdadeira instituição do stoner e do heavy psicodélico e, salvo alguns projetos sazonais lá e acolá, já eram considerados desaparecidos em combate. Peace, o disco de estreia, veio pra mudar um pouco esse cenário - com a ajuda do baixista Nick Oliveri (também ex-Kyuss, ex-Queens of the Stone Age e já saído do Chino após as gravações). Não é foda como o Kyuss. Mas o grupo nem quer isso: apesar de algumas porradas na boa e velha escola, a parada aqui é menos Sabá no deserto e mais acid rock na garagem. Saca as jams hipnóticas da JPT Scare Band? É por aí. Os moleques cresceram...



Soponcio é uma surpreendente banda de Valparaíso, Chile. Nos papos de release e divulgação, o trio lista influências de grupos como Kyuss, QotSA e Truckfighters. Mas apesar do sangue stoner realmente correr pelas veias do grupo, o que esse 2º álbum homônimo realmente lembra é um In Utero latino. Isso mesmo, o In Utero, do Nirvana, desde os acordes barulhentos conduzindo a linha melódica e os vocais esgoelados (em bom espanhol) até os valores de produção "Albinianos", com bateria e guitarra mixadas bem na cara. Um belíssimo disco de rock visceral. E disponível no Bandcamp da banda no esquema pague-quanto-quiser-e-se-quiser. Del carajo!


Menções honrosas: Sound City: Real to Reel (The Sound City Players), Defcon 5... 4... 3... 2... 1 (Man or Astro-Man?)



CHILDREN OF TODAY ARE CHILDREN OF THE GRAVE


Se houve um reflexo negativo do retorno do Black Sabbath com o monumental 13, foi a sombra eclíptica que gerou sobre outros grandes lançamentos do estilo que criaram. E entre todos, o mais prejudicado foi o antológico The Last Spire, da veterana banda inglesa Cathedral. Antológico por dois motivos: primeiro, é um monolito negro que reúne toda a carga sonora acumulada pelo grupo em 24 anos de estrada - portanto temos aí uma sensacional viagem pelo doom metal com nuances góticas, progressivas e psicodélicas; segundo, é o álbum de despedida de Lee Dorrian, Garry Jennings & cia., que já fecharam os portões dessa Cathedral no momento em que escrevo isto. Um canto do cisne negro digno da história da banda. Sem dúvida, os melhores alunos do Sabbath original. Vida longa e próspera.



Uma pintura esse The Mouths of Madness, segundo disco do quarteto californiano Orchid. O som está ainda mais intenso em seu mix de doom, blues rock, rifferama Iommica à beira de um processo de direitos autorais e até uma vibração meio dark sixties à The Doors (talvez pelas intervenções sutis, mas espirituosas, de teclados e harmônica). Não dá pra pensar em algo melhor pra ouvir numa estrada empoeirada dentro de um Maverick invocado.



'Desperate Souls of Tortured Times', estreia do quarteto londrino Age of Taurus, é outro registro que reflete os melhores aspectos da herança do Black Sabbath. Doom metal por natureza, mas em sua versão mais palatável, com pitadas stoner conferindo um certo arranque e influência do lado mais macabro da NWOBHM representado por bandas como Witchfinder General e Holocaust - especialmente nos vocais do barbudão Toby W. Wright. Peso de classe.



Abra Kadavar é o segundo álbum do trio alemão Kadavar e vem sedimentando sua boa fama nos círculos especializados em retro-rock. As impressões gerais e o próprio release vendem um parentesco com o kraut e com formações clássicas do occult rock, mas no geral a coisa puxa mais pro hard blues progressivo, na cola do Wishbone Ash e Ten Years After. O peso, contudo, é massivo. Claro, não tem como não notar algumas safadezas dos germânicos: a quebra rítmica no meio da faixa de abertura, "Come Back to Life" é quase sampleada de "Gypsy", do Uriah Heep, o riff de "Doomsday Machine" aprendeu a ser assim com o riff de "Victim of Changes", clássico do Judas Priest, e por aí vai. Felizmente, isso não tira o brilho do álbum (só pega emprestado). Afinal, tradição por tradição, temos aí um looongo histórico de "coincidências" no Livro do Rock...



Sina é o segundo disco do power duo sergipano The Baggios. O som é uma rendição ao hard lisérgico, com influências que vão de Led e Grand Funk até Secos & Molhados. O sotaque carregado dos vocais conduzindo levadas mastodônticas de guitarra e bateria é um negócio acachapante. Esses caras deviam tocar em estádios lotados, com motoqueiros fazendo a segurança e groupies pagando peitinho. É fácil um dos melhores grupos de rock 'n' roll nacional da atualidade. E o álbum ainda está disponível de grátis no site oficial:

http://site.thebaggios.com.br/

Mas vê se compra. Esse vale, vale, vale...



O grupo pernambucano Anjo Gabriel já tinha surpreendido meio mundo com o discaço O Culto Secreto do Anjo Gabriel, de 2011. Sua música é cheia de trips percussivas multiculturais, riffs sabbáthicos, space rock à Hawkwind e até elementos do Pink Floyd doidão e genial dos primeiros dias. Lucifer Rising é mais ou menos o certificado ISO-666 do bando. No álbum, eles dão sua versão para a trilha sonora do filme homônimo dirigido pelo Kenneth Anger - uma história à parte que, entre outras coisas, teve a trilha oficial assinada por Bobby Beausoleil, um dos seguidores assassinos de Charles Manson, e uma trilha original composta por Jimmy Page e apenas lançada em 2012. Agora é a vez do Anjo Gabriel louvar a Ascensão de Lúcifer em dois faixões Lado A-Lado B. Como nos velhos tempos. É só pra quem pode. E conhece.



Uma coisa dá pra afirmar com certeza sobre Infestissumam: quem detesta o Ghost continuará detestando, mas que quem curtiu o primeiro disco vai poder chafurdar nessa brincadeira por mais algum tempo. Esses últimos também adoram a mise-en-scène de horror B, as capas-paródia, o som de guitarra limpinho-quase-glam, as covers nonsense e a influência bem administrada do King Diamond. A bença, Papa Emeritus II.



If You Have Ghost só reafirma o que foi escrito antes. A começar pela capa, uma gracinha, até as covers de "I'm a Marionette" (ABBA), "Crucified" (Army of Lovers), "Waiting for the Night" (Depeche Mode) e, pra acender uma vela, "If You Have Ghost" (Rocky Erickson). O EPzinho sombrio mais pop e ensolarado que já ouvi.


Menções honrosas: Last Patrol (Monster Magnet), Moons in Penumbra (Sheavy), Indigo Meadow (The Black Angels), Back To Land (Wooden Shjips)



FILME DO ANO


Com um pé nas costas e em Gravidade zero.


Menções honrosas: Antes da Meia-Noite, Os Escolhidos, Invocação do Mal, A Caça (2012)



MELHOR DOC MUSICAL VISTO EM 2013


Searching for Sugar Man, de 2012. Uma história-quase-fábula das mais surpreendentes e emocionantes da música pop.



MELHORES HQS


Revival é uma intrigante série de Tim Seeley que parece um encontro entre Arquivo X e Twin Peaks. Saga traz a espetacular parceria entre Brian K. Vaughan e Fiona Staples em uma espécie de underground marginal do universo de Star Wars. Pra quem quiser sair da mesmice e se aventurar por territórios estranhos e atraentes, ambas são imperdíveis.

(Ao que consta, Saga será publicada no Brasil pela Devir)


Menção honrosa: Supurbia, minissérie de 2012 (pelo inusitado da proposta)



MELHOR SÉRIE DE TV ADAPTADA DE HQ


Arrow nem de longe é perfeito, mas sabe que o caminho mais curto entre dois pontos (no caso, o espectador e a satisfação) é uma linha reta.



SÉRIE DE TV ADAPTADA DE HQ MAIS DECEPCIONANTE SOBRE AGENTES DA SHIELD


Agentes da SHIELD. O incrível é eles têm tudo, orçamento, bons atores, ideias (uma Casa delas)... mas a dinâmica juvenil e a falta de ousadia predomina. Só assisto pelo agente Coulson - Clark Gregg é o cara - e pelas SHIELDzetes.


Por enquanto é só, pessoal. Reações, adições, subtrações, discussões e correções nos comentários.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

You can dance, you can bite

Já fazem uns bons 30 anos desde que John Landis botou os mortos-vivos para balançarem os esqueletos (literalmente) no icônico vídeo de Thriller. O grupo indie rock John Butler Trio resolveu dar continuidade à tradição e deu uma entortada no mortus operandi das criaturas, resultando num mix desengonçado-mas-bacanudo do clássico do Jacko com o filme Meu Namorado é um Zumbi.


Segundo o próprio John Butler:

“‘Only One is one of those ‘turn around’ songs. The idea of a Zombie love story came to me a while ago. I wanted the song and video almost to be juxtaposed but still somehow have an element of love… and humour. I think we made a seriously cool and funny video. I love it. Even if I do look dead!”

E ainda ficou parecendo os mariachis de Um Drink no Inferno, caso tivessem sido mordidos por um zumbi ao invés de um vampiro. Dadas as condições de trabalho no Titty Twister... wrong undead.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

We have a Hiddleston


Thor: O Mundo Sombrio adota parcialmente a estratégia bigger-stronger-faster das sequências cinematográficas. No caso, maximizando apenas alguns dos ganchos do Thor edição #1, sendo o mais proeminente o inusitado humor físico - com resultados pra lá de variáveis, é verdade, mas, ei, estamos vivendo num mundo onde se produzem continuações ao vivo & arrasa-quarteirão do Thor... o quão orgástico é isso pra quem um dia teve que se contentar com os desenhos inanimados da Grantray-Lawrence? Além do mais, se na estreia do asgardiano imperava uma vibração condescendente e refém do evento Os Vingadores, O Mundo Sombrio se revela mais independente, malandro e ambicioso. Ao menos bem mais do que, por exemplo, Homem de Ferro 3.

Uma das maiores qualidades do filme é justamente a valorização da química proposta na primeira aventura. Voltam todos os elementos grandiosos/hollywoodianos de Asgard e o microcosmo indie terrestre - algo montado até com certa ousadia pelo diretor Alan Taylor e pelo roteiro a 3 mãos (chutando que nenhum é ambidestro) de Christopher Yost, dos divertidos Hulk vs., Christopher Markus e Stephen McFeely, que souberam extrair novamente bons frutos da colisão improvável entre esses dois extremos. Nota-se que não apenas apostam, mas de fato acreditam no material que herdaram. Claro, nem tudo é perfeito e o filme tem lá sua dose brobdingnaguiana de clichês e forçadas de amizade, mas até aí, a cota está dentro dos limites do cinema mainstream - não só o dos EUA.

A abertura de O Mundo Sombrio é praticamente um revamp da intro do primeiro filme, retrocedendo em 1 geração a família de Odin e apagando os Gigantes do Gelo para colar os Elfos Negros por cima. Remanescente de uma época em que ainda não existia a luz, a raça ancestral é liderada por Malekith, que pretende usar uma força obscura chamada Éter para jogar o universo de volta à escuridão, mas é derrotado por Bor, governante de Asgard e pai de Odin. Nesse ponto fiquei pensando como seria interessante uma abordagem maior desse personagem, que, apesar de sábio e o deus-in-chief, transparecia ser pouco mais que um guerreiro rústico e selvagem, fazendo o contingente asgardiano atual parecer um catálogo de modelos da Gucci. Só que a batalha é mostrada já em seus momentos finais (o ator, Tony Curran, sequer é creditado) e a narração em off de Anthony Hopkins, o Odin em pessoa, logo dá lugar a uma sitcom na Terra. Bizarro assim. Mas um bizarro bom.

Por incrível que pareça, esse crossover de gêneros funciona, já que o roteiro é bastante espirituoso ao desenvolver o segmento pessoas/rotina/perrengues do dia-a-dia. E o elenco, agora radicado em Londres, retoma a sintonia: Natalie Portman reprisa sua Jane Foster amargando uma fossa pelo sumiço do seu Deus do Trovão favorito enquanto tenta fazer a fila andar a contragosto (pueril, mas ótimo momento o do encontro no restaurante, graças ao timing cômico de seu parceiro de cena, o inglês Chris O'Dowd); Stellan Skarsgård faz um dr. Erik Selvig completamente noiado após sua experiência em Os Vingadores (impagável, mas eu podia passar sem vê-lo balangando as castanhas em Stonehenge); Kat Dennings continua fazendo com sua Darcy o que faz com toda personagem que cai em suas mãos, ou seja, cara de whatever; já o novato Jonathan Howard, que interpreta o estagiário Ian, é um raro caso de coadjuvante cômico da coadjuvante cômica (Darcy), também não muito feliz em nos fazer felizes.


Enquanto na Terra a vida segue, em Asgard, Thor (Chris Hemsworth, completamente à vontade) e seus camaradas concluem uma guerra de 2 anos que pacificou os Nove Reinos após as traquinagens de Loki - que pode até não ser um deus per se, mas com certeza dividiu o calendário de Tom Hiddleston em "antes de Loki" e "depois de Loki". Tudo corre bem, Asgard está em paz, Loki está em cana e Thor vê a sucessão de Odin cada vez mais próxima, mas aí o caldo entorna com o retorno de Malekith - que não desistiu de restabelecer seu antigo way of life, não hesitando em sacrificar seus semelhantes pela causa - e do reaparecimento do Éter, o elemento que fará a diferença numa guerra contra a toda-poderosa Asgard.

Há uma metáfora redondinha aí sobre a política externa dos EUA e seus reflexos pelo mundo, com direito à nave batendo em torre e tudo. É o tipo da coisa que o cinemão hollywoodiano vomita sem perceber e que faz o Žižek lavar a égua com Lux Luxo. Mas vou praticar o silêncio de rádio aí, pois a vida é muito curta. Apenas uma coisa: não há lugar melhor para captar o pensamento norte-americano, conservador ou liberal que seja, do que num blockbuster. Não pela mensagem que eles querem transmitir, mas pela mensagem que eles nem imaginam que estão transmitindo. Spy this, NSA.

Não deixa de ser instigante a estética Terra-Média-encontra-Guerra-nas-Estrelas da periferia asgardiana. Um saudável fuzuê pop-cultural com trolls, alienígenas e cavaleiros se digladiando com machados, espadas e armas de raios é a liberdade criativa primitive-future definitiva. Sword & sorcery &, porque não, sci-fi. He-Man e os Defensores do Universo agradecem. Thundercats e Thundarr, o bárbaro, mais ainda. Ver a Natalie Portman mais uma vez se aventurando nesse contexto foi um agradável déjà vu. Igualmente curioso é o centrão de Asgard, com arquitetura à Oscar Niemeyer in the 25th Century e naves "aladas" que lembram coisas d'O Incal, do mestre Moebius. Meio acachapante ver isso com tamanha amplificação sem esperar. Durante a invasão dos Elfos Negros eu queria mais era descer ali numa avenida qualquer e interagir com os cidadãos, conhecer a gastronomia local, bater umas fotos...

Esse esmero visual se repete no filme inteiro harmoniosamente; ao contrário do anterior, não há efeitos de 1ª convivendo com outros meia-boca. Pena que o coração nem sempre esteve no lugar certo. Um bom exemplo foi a deliciosa referência sabor Harryhausen à primeira ameaça que Thor enfrentou nos quadrinhos - um legítimo kronan da raça de guerreiros de pedra que o loirão combateu em sua estreia, muito bem-feito e impressionante. Aquilo foi de encher de amor e ternura o coração fanboy, mas a conclusão incrivelmente abrupta foi como levar um fora via SMS com emoticon triste no final. Por ali já dava pra ver que o cineasta Alan Taylor (claramente um não-nerd), ao contrário de Joss Whedon (obviamente um nerd), não ia se render tão fácil ao doce prazer culpado de gastar alguns milhões do orçamento em uma sequência de porradaria-pela-porradaria igual aos quadrinhos.

Aliás, Taylor deixa seu DNA profissional bem impresso ao longo da trama, particularmente a experiência acumulada em séries de ponta. As conspirações, subtramas, dramas familiares e anti-heroísmo têm um pé fincado em Game of Thrones, Roma e Família Soprano, sempre para o melhor. Em contrapartida, o delivery escancarado pra mocinha boba suspirar alto denuncia os vários episódios que dirigiu em Sex and the City. Pela primeira vez as namoradinhas de plantão vão gostar de ter ficado até o fim dos créditos. E pela primeira vez, eles não.


O Malekith do ótimo Christopher Eccleston é mais sombrio e unidimensional que o dos quadrinhos, onde era um tipo manipulador e shapeshifter, Loki-like. Em compensação, era bem menos poderoso, então fica elas por elas. Kurse nos quadrinhos era mais legal, mas esteticamente impraticável num filme - podiam ao menos ter poupado aquela bobagem de guerreiros "kursed". Já Odin, está mais irascível e menos ponderado, o que é compreensível dadas as recentes guerras e turbulências familiares, enquanto a Frigga de Rene Russo finalmente tem algo a dizer e fazer, sendo vital para uma das reviravoltas da trama.

Os Três Guerreiros tiveram uma participação tímida (Hogun foi dispensado logo de cara), com exceção do novo Fran "Chuck-você-por-aqui?!" dal, estranhamente destacado e mostrando que o agente de Zachary Levi é dos bons. E foi um crime o desperdício da Sif da deusa Jaimie Alexander. Além de boa atriz que convence nas cenas de ação, as diferenças parsecquicas entre Sif e Jane renderiam um triângulo promissor com o rapagão do martelo, o que foi tratado de forma apenas superficial.

Um dos aspectos discutíveis foi a superdosagem de humor, principalmente na 2ª metade. Se no filme de Kenneth Branagh o clima jovial já trafegava no limite, aqui a coisa acelera na ladeira - a já citada presença de dois coadjuvantes cômicos, mais Skarsgård no Jackass mode, não é menos do que sintomático. Chega a prejudicar a sequência final, diluindo qualquer tensão e sensação de perigo relativa ao ataque dos Elfos Negros em Londres. Até a luta entre Thor e o Malekith deusificado pelo Éter - bacana e expensive, se revezando entre dois mundos - ganhou toques engraçadinhos. Era só o universo conhecido que estava em jogo ali.

Fora que já deu assistir vilões de filmes conquistando seus respectivos MacGuffins-fontes-inesgotáveis-de-poder, pra depois não saber o que fazer com eles e, pior, serem derrotados num mano a mano com o herói. Thanos, a maior antítese disso nos quadrinhos, que se cuide.

Algumas inconsistências também batem ponto no roteiro, sendo a maioria TOCs aparentemente incuráveis do cinemão pop. Então dá pra eleger uma preferida e abstrair o resto em nome da busca pela felicidade: fico com a cena em que Jane e Thor se abrigam na mesma caverna onde está o portal de convergência com a Terra, no exato momento em que o celular dela está tocando por lá. Uma beleza de atentado ao item #19 das regras do bom roteiro propostas por Emma Coats, da Pixar. Escolhi bem ou não?


Como sequência, Thor: O Mundo Sombrio cumpre seu papel sem fugir ao script, não fosse um trunfo que o projeta sensivelmente acima do padrão: Tom Hiddleston, sério candidato a maior rockstar da Marvel Studios pós-Robert Downey Jr., talvez até apressando esse fim de era. Com um senso soberbo de continuidade, o ator não parou de evoluir e enriquecer o personagem em relação às já memoráveis performances em Thor e Os Vingadores - até porquê é evidente que ele está se divertindo pra caralho ali - e ainda gera interesse de sobra para justificar novas situações e aventuras. Solo, inclusive.

Ao final, fiquei muito mais curioso pelo "what's next?" de Loki do que o de seu meio-irmão. Fez por merecer essa sua "trilogia trapaceira" (a única do gênero!) e, tomara, os vários capítulos que virão, como deixa antever a conclusão.

Em Loki eu confio. Epa...

Thor: O Mundo Sombrio ("Thor: The Dark World", Estados Unidos, 2013), 111 min.
Direção: Alan Taylor
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Kat Dennings, Stellan Skarsgård, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Christopher Eccleston, Jaimie Alexander, Zachary Levi, Ray Stevenson, Idris Elba, Rene Russo

Ps: então... Guardiões da Galáxia será esse camp todo mesmo? Schumachers me mordam.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Kneel before Thor


Nem sempre são as grandes produções que nos marcam. Às vezes, esse papel é assumido por filmes com ambições mais modestas, escapistas, não raro beirando o guilty pleasure. Foi mais ou menos meu caso com Uma Noite de Aventuras (Adventures in Babysitting, 1987), com a adorável Elisabeth Shue no auge de sua adorabilidade. A história era um Depois de Horas adolescente safra anos 80, levando o(s) título(s) ao pé da letra. Figurinha fácil na Sessão da Tarde até uns anos atrás. E eu, telespectador fácil do filme, sempre que podia. Por uma inesperada afinidade.

Por exemplo: um dos garotos é apaixonado pela personagem de Shue, a tal babá (leia-se garota mais velha-quase mulher), que se mostra compreensiva, lisonjeada, doce e totalmente demais ao lidar com esses sentimentos (por causa dessas coisas que ele se apaixonou em primeiro lugar) antes de tentar dissuadí-lo com pretextos do calibre de você-tem-a-vida-inteira-pela-frente e o destruidor a-nossa-amizade-é-muito-mais-importante e se voltar para o seu verdadeiro target romântico, que é independente, descolado e está na mesma faixa etária que ela... ai... alguém mais precisa uma bebida?

Se isso bateu forte, o que dirá da irmãzinha caçula do rapazote de coração partido: um autêntica fanboyzinha do Thor, colecionadora de gibis e pôsteres do herói, e que usa roupas com as cores dele - com direito à elmo com asinhas e um Mjolnir de plástico!

Logicamente, ela e seu ídolo são zoados o tempo todo pelo irmão mais velho, mas isso até ela e o próprio "Deus do Trovão" salvarem a pátria numa cena emocionante...


Confesso que só um tempão depois percebi que era o Vincent D'Onofrio ali. Ator improvável, atriz improvável e até herói improvável (Thor, referenciado numa comédia juvenil em plena década do neon?). Mas de alguma forma a química aconteceu e até a essência do que é ser um herói está lá, fazendo o que os heróis fazem: a diferença.

Uma das homenagens mais bacanas que o cinema já prestou aos quadrinhos.

God of Thunder vs. Black Metal King!

Achaste que o Thor do estúdio The Asylum e o Thor do velho seriado do Hulk eram os piores deuses do trovão já personificados? Digo-te não!, valoroso amigo! Há muito, muito tempo atrás, num mundo muito, muito distante (o 1º) havia uma famosa revista especializada em heavy metal...


Publicada na Kerrang! em 1984, a presepada fotonovela "Thor versus Cronos: When Titans Clash!" trazia protagonistas que eram seus próprios personagens, por assim dizer: o bodybuilder, ator e cantor Jon Mikl Thor, da banda de heavy/hard Thor, e Conrad "Cronos" Lant, baixista e vocalista do Venom.

Considerando que Thor (o Jon Mikl) construiu toda a sua "carreira" em cima do mito nórdico e que Cronos é o tataravô do black metal, ambos sempre com indumentárias de guerra e tudo, pode-se dizer que o Bem e o Mal estavam bem representados. E que qualquer senso de ridículo foi completamente desintegrado em nível atômico. Se existe uma prova de que os dois entraram pra esse negócio pra valer é essa.

Além das bravatas falaciosas, sangue falso e canastrice suprema até para fazer poses, destaque para a amada do herói, a "Pantera" mais famosa do metal até o surgimento de Phil Anselmo & cia...


Detalhe para os créditos, com desculpas prévias à Stan Lee. Chorei.

Via Bazillion Points.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Poderoso Thormento


Esculhambar O Poderoso Thor é muito pior que chutar cachorro morto. O longa para TV foi mais uma incursão do estúdio The Asylum, desta feita, para capitalizar em cima do hype do Thor da Marvel Studios. Então era mais que óbvio que sua natureza seria de subproduto genérico rasgado. Mas O Poderoso Thor consegue ser avant-garde em sua incompetência. A produção está muito abaixo do status de ruim, pois até pra isso existe o pré-requisito básico de querer ser um filme. E essa ambição em nenhum momento se desenha nessa pilha fumegante de estrume. Qualquer esforço em racionalizá-lo enquanto forma de arte - mesmo a mais pedestre possível - supera facilmente todos os esforços dispendidos desde sua concepção até a sua exibição - no que, creio, ter sido uma noite trágica para o canal Syfy.

Em comparação ao Thor-filme, às diversas versões de Thor dos quadrinhos, ao da mitologia clássica, à reimaginação alternativa bitolada que seja, é o equivalente filmográfico à restauração do Cristo de Borja, sem o apelo da piada involuntária. É um antifilme mais carne de pescoço que muito filme experimental por aí.

Enfim.

Fica claro que o orçamento foi todo captado no semáforo com a venda de paçoquinhas superfaturadas. Qualquer sombra de técnica e planejamento inexiste, soando como se tivesse sido criado na hora em que as câmeras foram ligadas, num único take é-tudo-ou-nada na "melhor" tradição de Ed Wood. Mesmo assim, um bacana chamado Christopher Ray (de Mega Shark vs Crocosaurus!) assina a direção, deixando Uwe Boll feliz da vida ao parecer Stanley Kubrick perto dele. Pessoalmente, acho que qualquer pobre coitado, na condição de apaixonado por cinema, conseguiria salvar um abacaxi desse, mesmo sem um tostão no bolso e nenhuma linha decente no roteiro. O fator diversão está aí pra isso mesmo.

Em O Poderoso Thor ele também aparece, à prestação e por puro acidente, espremido entre a preguiça mastodôntica da trama escrita (sic) por Erik Estenberg e a canastrice de todos os envolvidos.


Esqueça qualquer fidelidade ao panteão de divindades nórdicas, porque o roteirista aparentemente nunca ouviu falar em ninguém ali. No início, vemos Odin e seus filhos Baldir e Thor, fugindo de Loki... isso mesmo, fugindo (!)... enquanto tentam salvar uma Asgard em CGI de 8-bits do ataque iminente do deus da trapaça. Loki planeja destruir a Árvore da Vida (Iggdrasil, que, logicamente, nunca é citada aqui) e assim apagar o universo e recriá-lo à sua imagem e semelhança.

Para isso ele precisa do Martelo da Invencibilidade (!!) - na verdade um enorme paralelepípedo num palito - que pertence à Odin (!!!). Durante a luta, Loki mata Baldir e Odin (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) e a responsabilidade de guardar o Martelo fica com o jovem e inexperiente Thor.

O parentesco entre Loki, Odin e Thor nunca é mencionado (quiçá conhecido pelos realizadores) e seu visual parece um filhote do Edward Mãos de Tesoura com o que restou da fantasia do Esqueleto de Frank Langella.


Por sinal, é difícil precisar se sua fisionomia disforme e decrépita é resultado da maquiagem ruim ou se sequer houve maquiagem mesmo, já que se trata do ator Richard Grieco no papel. Sim, o Richard Grieco.

Antes de prosseguir, um pouquinho de cultura inútil para quem tem menos de 35...

Na reta final dos anos 1980, Richard Grieco era uma das figuras mais promissoras de Hollywood, encabeçando a turminha pós-brat pack que formaria a próxima safra de novos astros. No caso dele, graças ao sucesso de um dos personagens mais populares da série 21 Jump Street (aqui, Anjos da Lei) - onde, dizem, rivalizava feio com Johnny Depp - e inclusive ganhando até uma série spin-off. Grieco era um dos maiores salários da TV na época.

Na crista da onda, ele pediu as contas da telinha e aterrissou de 1ª classe em Hollywood. Espião por Engano (If Looks Could Kill, 1991), seu 1º filme "solo", porém, não teve uma grande receptividade da crítica e nem do público. Mas serviu para marcar território.


Grieco era jovem, galã e famoso, o franco next-big-thing daquela geração. Só que o rapaz tomou uma série de decisões pra lá de equivocadas: sucessivas plásticas que detonaram seu rosto, um mergulho de cabeça (de nariz, pra ser mais exato) num relacionamento cocainômano com a ex-deusa Yasmine Bleeth (de S.O.S. Malibu), escolhas medíocres de filmes e a carreira de ator sendo gradativamente colocada de lado para dar lugar aos seus trabalhos como pintor abstrato, músico e poeta.

Não deu outra: Grieco evaporou. Acabou virando uma lenda urbana para assustar atores e atrizes iniciantes em Hollywood. Um manual prático de tudo o que não deveria ser feito naquele negócio.

Mas voltando (tsc)...


Com esse background todo, ele acaba deixando um pouco mais fácil comprar o ódio e a frustração de Loki, que em nenhum momento é contextualizado apropriadamente. Aliás, ninguém é contextualizado ali. Nunca.

Minha primeira pista de que eles estavam pouco se estrepando para o que filmavam foi Odin. Um brutamontes musculoso e cheio de tatuagens, o Allfather mais parecia um motoqueiro hell angel. Ou um wrestler. E eis que o sujeito, chamado Kevin Nash, é mesmo um wrestler!

Por mais estranho que pareça, essa foi uma boa ideia derivada daquele fator diversão anteriormente citado. Ok, é preciso um certo paladar B para apreciar tal iguaria. Tenha em mente o Papai Noel hardcore da versão Santa's Slay ou o de Lobo Paramilitary X-Mas Special...

Mas, novamente, foi apenas acidental, pois essa deixa para o escracho nunca é aproveitada como deveria.


Com Odin e Baldir despachados pro Valhalla, o que se segue é Loki perseguindo Thor para obter o tal Martelo da Invencibilidade (Mjolnir quem?). E assim vai até o final, assassinando sem a menor piedade tudo o que o conceito de narrativa nos proporcionou desde os tempos do teatro grego.

No papel do deus do trovão está Cody Deal, a resposta norte-americana, com juros exorbitantes, ao cigano Igor. Dizer que ele é péssimo seria corroborar de algum modo que ele é, de fato, um ator, então prefiro me abster. Mas infelizmente não é só isso. De "poderoso" esse Thor não tem nada. É covarde, burro, chato, pedante, infantil, cara de mamão, uma bruta sacanagem que fizeram com o viking.

Teria apanhado muito mais de Loki, não fosse o auxílio de Jarnsaxa, guerreira e ex-serva de Odin, que salvou seu rabo de ser fritado quatrocentas e oitenta e oito vezes no resto da bagaça. Fora as vezes que o impediu de fritá-lo ele mesmo em algum de seus acessos de idiotice.



Pra ser sincero, Jarnsaxa foi a única razão de eu ter conseguido chegar ao fim de O Poderoso Thor. Mesmo durando cerca de 1 hora e meia (com os créditos), é uma das coisas mais inassistíveis que já tive o desprazer de testemunhar. Chegou a me dar saudades daquele tratamento de canal.

Como uma feliz providência do destino, Jarnsaxa foi interpretada pela Patricia Velásquez (a Anck-Su-Namun, a amada do feiticeiro Imhotep, da franquia A Múmia), ainda espetacular aos 40 e poucos anos e parecendo uma Sandra Bullock latina. E você que reclamava do Heimdall afro.


Apesar de Patricia quixotescamente tentar atuar ali, foram as coxas esculpidas e o umbiguinho libertino de Jarnsaxa que me guiaram através daquela provação.

Já na Terra, onde todas as ruas são transitadas pelas mesmas 5 pessoas, Jarnsaxa ensina algumas coisinhas bacanas a Thor.


Óbvio que sem grandes resultados práticos, mas que, visualmente, até têm seu apelo. É mais uma daquelas boas ideias mal-aproveitadas.

Muito mal-aproveitadas, aliás.


Quando Thor eventualmente é derrotado por Loki, que se apodera do Martelo e o manda direto para o Hel, os realizadores também tiveram outra grande sacada - só que desta vez, admito, apenas para sommeliers da cultura trash: em meio ao inferno escandinavo, Thor extrai matéria de um veio de lava e começa a moldar um novo martelo...

...forjando na porrada!


Além de séria candidata à cena WTF da Década, também serviu pra me acordar, pois àquela altura Jarnsaxa já tinha mandado tudo às picas e ido cavalgar com suas priminhas Valquírias (óóó, spoiler...?), apesar de, na mitologia nórdica, ela ser uma jötunn.

Mais uma vez, foi um mero lampejo de docaralhismo isolado. Eu encararia na boa um filme de horinha e meia só com essas maluquices.

No final das contas, Thor foge do Hel voando e, com seu novo martelo, destrói o Martelo da Invencibilidade - que na verdade era o Martelo da Imbecilidade - e, no processo, manda Loki também pra cucuia (não pergunte como). De quebra, salva a Árvore da Vida, a Terra, Asgard, etc., sem muitas explicações. Graças ao meu bom Odin.

Viva! Cheguei ao final!

Excelsior!!
O Poderoso Thor não é filme, é uma arma. Usado com responsabilidade, é ideal pra espantar visitas indesejadas ou partir pros finalmentes com o ser amado sem a preocupação de estar perdendo algo que preste. Do contrário, os danos psicológicos serão catastróficos e irreversíveis. Agora me dá licença que tá na hora do meu remedinho.

Ah... obrigado, sra. Hatchet. Posso tomar mais um? Por favor...

O Poderoso Thor ("Almighty Thor", Estados Unidos, 2011), 92 min.
Direção: Christopher Ray
Elenco: Richard Grieco, Patricia Velásquez, Kevin Nash, Jess Allen, Cody Deal