domingo, 1 de novembro de 2020

😷 😷 😷 😷 😷 😷 Retrospec Outubro/2020 😷 😷 😷 😷 😷 😷

Finis. End. Fin. Fine. Ende. E aqui a tag Retrospec é arquivada indefinidamente como "missão cumprida".

Foi divertido fazer, mas muito menos divertido do que no início (desse ano, para ser mais exato). Ainda assim, pretendia seguir com ela até dezembro, para efeito estético. E a de outubro estava na ponta da agulha, mas preferi passar. 

Como toda boa conspiração, os motivos foram variados, entre os quais...


  • Excesso de notícias ruins. Um mês que tem as partidas de Eddie Van Halen, Johnny Nash (no mesmo dia!), Zuza Homem de Melo, do grande Cecil Thiré, de Tony Lewis (The Outfield) e Conchatta Ferrell (a inesquecível Berta) não é para fracos, mas terminar com Sean Connery emendando no dia seguinte com a passagem do bem humorado Tom "Louro José" Veiga já é sacanagem. Porrada demais para reviver masoquisticamente ao fim de cada mês.


  • O Novo Blogger. Da mesma forma que Twitter, YouTube, Facebook e outros alteraram drasticamente suas interfaces e funcionalidades – ficando todos muito parecidos, o que me leva a algumas suspeitas – o Blogger já vinha disponibilizando o novo formato de forma opcional até sua implementação definitiva, em setembro último. Para driblar a imposição e seguir utilizando o antigo esquema, durante algum tempo a url "LegacyBlogger=true#allposts" foi a salvação. Pelo menos até o dia 4 de outubro, quando foi eliminada. Escrever no Blogger hoje é brigar o tempo inteiro com formatações automáticas e lidar com duas ou três vezes mais cliques do que antes. Daria pra contornar alguma coisa na edição do html dos posts, se você estiver disposto a encarar o pavoroso novo html do Blogger. O da imagem acima equivale a um post do tamanho deste, por exemplo. Imagina o de um Retrospec. Ou de um Zombie de Ouro.

Hora de repensar o BZ. Sua missão, com certeza, já foi cumprida há tempos...

sábado, 31 de outubro de 2020

This Bud's for Michael

Em algum ponto de 1980, o jovem John Carpenter começava a esboçar – a contragosto – o roteiro da aguardada sequência do clássico Halloween. Em sua companhia, apenas sua máquina de escrever, vários packs de cerveja e um persistente bloqueio criativo.

Cenário improvável para um comercial da Budweiser, mas o suficiente para a agência paulista Africa reproduzir a atmosfera opressora e angustiante daqueles dias.


Sensacional.

E agora quero uma cinebio completa do João Carpinteiro... tsc.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Hulk esmaga o Coisa!


Certa vez, Rick Jones deu uma ideia do quão aterradora é a sensação de estar perto do Hulk. O velho e bom Rick é o melhor amigo do Verdão, mas mesmo ele não hesita em compará-lo a um caminhão se aproximando em alta velocidade. Com essa adorável visão em mente, o que seria então um confronto entre o Hulk e o Coisa?

Uma frota inteira de caminhões. Mineradores. Descendo a ladeira. Direto para um penhasco.

Benjamin Jacob Grimm, o Coisa (e sobrinho favorito da saudosa e gostosa Tia Petúnia), é o maior veterano da história das pancadarias gama. É uma rivalidade que remonta à Era de Prata da Marvel, sendo ele e o Golias Verde as duas primeiras powerhouses da editora – e, ainda em pleno Mês das Bruxas, os dois maiores monstros da Casa das Ideias.

Claro, é senso comum (e oficial) que o Hulk é "o mais forte que existe!!" e, portanto, o mais forte dos dois. Mas considerando a diferença relativa de seus estados iniciais de força e as variáveis a favor do Coisa, como destreza, resistência, sagacidade e proficiência em vários estilos de luta, é seguro dizer:

"Yes. Ben can."

É muito difícil, mas já aconteceu antes, num momento antológico do Latinha. E, recentemente, num momento igualmente antológico do próprio Coisa contra o Imortal Hulkcontrolado, mas ainda assim um Hulk. E que, por sinal, acabou de ser publicado aqui.

Do lado psicológico, o embate com o Hulk é uma das poucas ocasiões em que Ben se sente orgulhoso de ser o Coisa, superando até mesmo sua notória autopiedade. Afinal, é uma oportunidade de ouro para usar toda a sua força sem restrições, de descontar a sua raiva e frustração num oponente que não só vai aguentar o tranco, como irá revidar à altura – e acima...

Com o decorrer dos anos e após tantas batalhas contra o Golias Esmeralda, Titio Benji acabou cultivando algumas marcas de guerra. Não são raras as longas e melancólicas reflexões pré-confronto, tal qual um pugilista submerso na solidão e tensão do vestiário, minutos antes de subir ao ringue para a luta de sua vida.

Como se aquilo fosse uma grande luta de boxe, alegoricamente falando. Ou quase.


Ben é bom de metáfora

Daí que após o incrivelmente espetacular "hardcover virtual" Hiper-Almanaque Marvel - Hulk Esmaga o Homem-Aranha, nada mais lógico que Hiper-Almanaque Marvel - Hulk Esmaga o Coisa!® seja o próximo passo do brainstorm-gamma com o parceiro VAM!, da Batdeira. O VAM!, logicamente, com a concepção gráfica (Deluxe, diga-se... custaria uns 600 paus na promocha) e eu, com o papo-de-buteco sobre cada edição.

Que, modéstia à parte, poderia até entrar como extra em nosso Omnibus imaginário. Hoje em dia, qualquer um escreve "matérias", "prefácios" e "editoriais", não é mesmo?

Behold the cover!


Clique para ampliar

No primeiro volume, fizemos uma seleção com os melhores encontrões do Homem-Aranha com o Gigante Esmeralda, o que já é um tremendo contraponto em termos de dinâmica. O Teioso nunca teve intenção de encarar o Hulk diretamente; e o Coisa, apesar de reconhecer o perrengue, quase sempre segue em rota de colisão com o Golias Verde, invariavelmente com resultados imprevisíveis e pra lá de divertidos. A ideia básica pode até não ser original, mas a nossa versão é muito melhor, mais forte e mais rápida!

Mas chega de papo, porque... Tá na hora de esmagar!

Err...


Fantastic Four #12 (mar/1963)


A estreia foi já na edição #12 do Quarteto Fantástico. Na capa, uma amostra de como o Hulk era retratado em seus primeiros dias, traiçoeiro e amoral, se esgueirando para atacar a Primeira Família de surpresa. Produzida pela dupla Stan Lee/Jack Kirby, a história é simplesmente entitulada "The Incredible Hulk" (minimalismo é isso aí) e começa com o Coisa sendo confundido com o monstro - uma constante. A partir daí, o Quarteto é contatado pelo General Ross para auxiliar na captura do Verdão. O grosso da trama é ocupado por uma conspiração arquitetada pelo subvilão Destruidor; a luta em si é curta e inconclusiva, mas não faltam emoção e trash-talks disparados pelo Coisa, pelo Hulk e até pelo Titio Stan nos recordatórios. Ouro puro.

Por incrível que pareça, esse quadrinho clássico - ou, como anunciou hiperbolicamente nosso eterno fanfarrão Stan, "um dos momentos mais dramáticos da História da Fantasia & Aventura" - só foi publicado aqui duas vezes, pela RGE e pela Abril.

Momento Tá na Hora do Pau!: o Ben, a voz da emoção, e Sue, a voz da razão.


Fantastic Four #2526 (abr–mai/1964)


Hulk e Coisa são levados de volta ao ringue por Lieber-Kurtzberg apenas 1 ano após o primeiro combate. Menos por um tira-teima e mais para promover a nova formação dos Vingadores, agora liderados por um recém-descongelado Capitão América. Na história "The Hulk Vs. The Thing" (Fantastic Four #25), o Golias Verde decide ir até New York trocar uma palavrinha com os Vingadores após saber que foi substituído pelo Bandeiroso. Chegando lá, é recepcionado por 3/4 fantásticos: Tocha Humana, Mulher Invisível e nosso esforçado Coisa. Claro que o abacaxi acaba sobrando pro Ben numa luta divertida e com soluções criativas recicladas ad nauseum nas décadas seguintes. Na edição seguinte - aquela, da capa do Hulk Donkey Kong – com a auto-explicativa "The Avengers Take Over!", os Vingadores... tomam conta. Mas no final quem vence o Incrível Hulk é o Incrível Rick!

O detalhe é que Stan Lee estabelece de vez a superioridade física do Hulk; e foi o 1º registro da força do Verdão aumentando junto com seu nível de raiva/stress - mais de 1 ano antes da máxima "quanto mais furioso, mais forte o Hulk fica" estrear, portanto. Também ali o bom Doutor é sempre chamado de Bob Banner... eles estavam mesmo tentando evitar o, na época, "suspeitíssimo" Bruce.

Essas duas edições só saíram aqui pela EBAL, em preto e branco, num longínquo ano de 1971. Ainda há muito o que fazer, muito o que relançar...

Momento Tá na Hora do Pau!: Ben fazendo um ultimato pro Hulk enquanto foge de barco é o fino, mas fico com o... GERONIMO!


The Incredible Hulk #122123 (dez/1969–jan/1970)


De cara, essas edições tem alguns dos melhores desenhos do meu desenhista ruim favorito, Herb Trimpe. Ainda na veia Kirbyana, o artista não economiza nos detalhes e nos gadgets do laboratório do Quarteto Fantástico. Também fica evidente quando um roteirista fora da curva assume as rédeas do Verdão: nas histórias "The Hulk's Last Fight!" e "No More the Monster!", Roy Thomas não apenas se torna o 1º autor a "curar" o Hulk (temporariamente, claro), mas também o 1º a manter a personalidade e inteligência de Banner após sua transformação no Gigante Esmeralda. Mas o que interessa aqui é a porradaria e o Coisa tem que se virar quando o Hulk fica descontrolado em pleno Edifício Baxter. E se vira muito bem, diga-se!

Essas histórias saíram aqui pela EBAL em 1971 e pela Bloch em 1975 – milagre não pintarem o Hulk de amarelo.

Momento Tá na Hora do Pau!: Coisa dando um olé no Hulk duas vezes seguidas. É um craque!


Fantastic Four #111112 (jun–jul/1971)


O confronto da vez foi em grande estilo: "Big" John Buscema no traço, Joe Sinnott finalizando e o Tio Stan de volta ao roteiro. Nas histórias "Thing -- Amok!" e "Battle of the Behemoths!", Reed Richards consegue reverter Ben à sua forma humana, mas, claro, com um revés: ele se torna um sociopata. Provavelmente por isso, o Pedregulho não se segura e rende uma das batalhas mais equilibradas com o Golias Verde. Ora apostando nas diferenças físicas (força X velocidade), ora invertendo os papéis (Coisa esmagando tudo pela frente e Hulk usando estratégias!), é perceptível o carinho (e a torcida) que Lee tinha pelo Ben. Não fosse por uma pequena bobeada... Seja como for, é uma das tretas mais eletrizantes da dupla.

Fantastic Four #111 foi editada aqui pela GEA (Grupo de Editores Associados) em 1972. Já Fantastic Four #112, com a luta propriamente dita, segue inédita até hoje, mesmo com a GEA prometendo o "Duelo de Monstros!" para o próximo número – que nunca veio. Queria o quê, por 1 cruzeiro e 50 centavos?

Momento Tá na Hora do Pau!: Vem pro papai!


Marvel Feature #11 (set/1973)


A história "Cry: Monster!" tem argumento de Len Wein, desenhos de Jim Starlin e arte-final do operário-Marvel-padrão Joe Sinnott. É o 1º contato de Starlin com o crossover laranja-esverdeado – e parece que tomou gosto pela coisa, já que comandaria outros encontrões impagáveis da dupla no futuro. Fora que é dele o meu visual predileto do Coisa (sorry, Byrne & Pérez). Na trama, o Líder e Kurrgo – subvilão que o Quarteto baculejou em priscas eras – disputam o "direito" de controlar o Hulk e o Coisa. E para isso, nada mais racional que provocar uma briga entre os dois e fazerem uma apostinha entre cavalheiros!

Essa edição foi publicada pela Abril em 1992, no 1º volume da mini A Saga de Thanos (?!). Segundo o recordatório no final, tinha a ver...

Momento Tá na Hora do Pau!: Hulk acha "Hora do Pau" idiota!


Giant-Size Super-Stars #1 (mai/1974)


Não, os balões não estão trocados

Com roteiro de Gerry Conway, traço Kirbyano de Rich Buckler e arte-final de – adivinha!Joe Sinnott, a história "The Mind of the Monster!" traz Bruce Banner fazendo pior que Reed Richards ao tentar curar Ben Grimm e a si próprio: sua mente Hulkificada vai parar no corpo do Coisa e vice versa. Seria a chance do bom e velho Ben espancar o Verdão até 2040, mas sua adaptação lenta somada à fúria incontrolável do Coisa-Hulk pesaram na dinâmica e ele leva uma das maiores surras da vida... no corpo do Hulk. Então, pode-se dizer que o Coisa arrebentou o Hulk dessa vez, se é que você me entende.

Esse gibi nunca foi publicado no Brasil. Aliás, a única Giant-Size Fantastic Four que saiu aqui foi aquela do Madrox.

Momento Tá na Hora do Pau!: o Coisa-Hulk socando a Tundra achando que era um cara...


Fantastic Four #166167 (jan–fev/1976)


Escrita pelo grande Roy Thomas, a dobradinha "If It's Tuesday, This Must be the Hulk!"/"Titans Two!" tem algumas das maiores forçadas de barra já registradas numa HQ – e olha que estamos aqui em plenos anos 1970. Na premissa, o Hulk é derrotado pelo Quarteto Fantástico em tempo recorde (!), mas o piedoso Ben toma as dores do velho desafeto e o liberta. Na sequência, os dois fogem num jato e team-upeiam contra o Quarteto e, claro, o exército. Mesmo com momentos descendo quadrado (ah, a parte do avião...), a parte on the road – ou on the air – dos brutamontes tem boas tiradas. Traço do George Pérez de várzea nas duas edições. Na 2ª parte, Joe Sinnott, lógico, faz uma eficiente finalização; provavelmente para compensar a 1ª parte, onde Vince Colletta só reforça a munição de seus detratores.

Até hoje essas HQs não foram publicadas por aqui. E aposto que nunca serão...

Momento Tá na Hora do Pau!: SMRAASHH!


Marvel Two-in-One #46 (dez/1978)


Pra dar uma relaxada, uma história (ainda) mais fugaz e bem humorada. Em "Battle in Burbank!", o Coisa, em mais um de seus clássicos rompantes "tempestade em copo d'água", fica revoltado com um seriado televisivo com a cocotinha Karen Page estrelando ao lado do Hulk... quer dizer, não O Hulk, mas um dublê bom de imitação. Indignado, Ben parte pra Hollywood para cobrar dos produtores o seu próprio show de TV! E na mesma hora em que o verdadeiro Hulk está indo pra lá, furioso com o modo como foi representado na telinha!! E ao mesmo tempo em que a estrela Karen Page está sendo sequestrada!!! Pô!!!! Roteiro absurdista de Alan Kupperberg com um timing cômico que lembra as revistas satíricas da Marvel, tipo a Crazy e a Not Brand Echh. Aliás, a bela capa (de Keith Pollard com arte-final do Bob Layton!) engana, já que Kupperberg também desenha a história com pegada tosca e algo estilizada.

A edição foi publicada no Brasil pela RGE em 1979. E o pior é que tive essa, não muito tempo depois.

Momento Tá na Hora do Pau!: impossível não associar a Karen da fase pornstar com a manchete do jornal e o célebre grito de guerra do Coisa...


Marvel Two-in-One Annual #5 (set/1980)


A "Marvel Dois-em-Um Anual" #5 conta com roteiro e desenhos de Alan Kupperberg (ainda assinando "Kupperburg") salvos pela arte-final do grande Pablo Marcos, o artista peruano famoso pelas colaborações no Conan clássico da Marvel. Na trama, o estranho Estranho coopta o sobrinho mais famoso da Tia Petúnia e o Golias Esmeralda para ajudá-lo a impedir a destruição do Universo pelo vilanesco Plutão, o "Rei do Inferno"... mas não conte para Hela, Lúcifer, Zarathos, Belasco e muito menos para Mefisto e o novo capeta-sensação Aquele Abaixo de Todos. Como esperado em se tratando do título, rola aquela brodagem do trio contra um inimigo em comum, mas os dois brutamontes não deixam passar a oportunidade de um tira-teima (mais um) lá pelas tantas. Não que isso tivesse alguma relevância para a história.

Saiu aqui no Almanaque do Hulk #3, da RGE, há exatos 40 anos. Mano...

Momento Tá na Hora do Pau!: Benjy, Campeão Mundial de Trash-Talk a uma Distância Segura.


The Incredible Hulk #293 (mar/1984)


Em "Assassin!" não há um quebra real entre o Hulk e o Coisa, mas um quebra onírico, passado num baita pesadelo do pobre Dr. Banner. De fato, é uma história perturbadora, a começar pela famosa capa de Bret Blevins com o Verdão despedaçando o queixo do Ben. A trama escrita por Bill Mantlo, apesar de protagonizada pelo Hulk inteligente, tem um tom melancólico e amargo, com o personagem atravessando um tipo de PTSD-gama, após tantos anos de destruição e fúria. O traço de Sal Buscema também passava por uma profunda evolução (estava a meio passo da pegada mais sombria que adotou na fase da Encruzilhada), o que, sem dúvida, reforçou o clima taciturno. O título dessa história no Brasil era bem mais acurado: "Remorso".

Foi publicado aqui duas vezes. No formatinho da Abril e na abençoada Coleção Histórica Marvel, da Panini.

Momento Tá na Hora do Pau!: Hulk entregando um conjunto habitacional que ele destruiu anos antes. Redenção com gostinho de Minha Casa Minha Vida.


Marvel Fanfare #2021 (mai-jul/1985)


Sem a menor sombra de dúvida, as duas partes de "The Clash" seriam o carro chefe do compiladão. Fácil, um dos quadrinhos divertidos que já li na vida. Aliás, Jim Starlin escrevendo o Hulk e o Coisa já merecia um TPzinho honesto por si só. A exemplo daquela histórica Graphic Marvel #1, é sempre imperdível. Na história, o Coisa é convocado pelo Dr. Estranho para deter o demoníaco mago Xandu. Xandu, por sua vez, convoca o Verdão direto da Encruzilhada para equilibrar as coisas (ou o Coisa). As piadas são sensacionais e funcionam até hoje, os diálogos são afiadíssimos e a pancadaria corre lindamente por páginas a fio, sem apelar pro lugar comum. O roteiro e o traço de Starlin estavam irradiando inspiração. São tantos os momentos inusitados e impagáveis que dá vontade de citar cada página da HQ (na verdade, apaguei uns 15 parágrafos em que estava fazendo exatamente isso!). Li quando saiu e, desde então, reli um milhão de vezes. Definição de clássico? Isso aqui.

Absurdamente, a aventura saiu no Brasil uma única vez, nos formatinhos do Hulk da Abril. Já passou da hora de uma reedição marota em formato americano, capa cartão & papel offset filezinho.

Momento Tá na Hora do Pau!: Coisa espancando o Hulk como se não houvesse amanhã. Na hora, o Verdão estava zumbificado, mas foi bom enquanto durou.


Fantastic Four #320The Incredible Hulk #350 (nov-dez/1988)


As histórias "Pride Goeth..."/"Before the Fall" trazem uma quase redenção para o perseverante Ben. Na época, o Coisa estava curtindo os benefícios de uma estranha mutação. Embora estivesse com um visual ainda mais disforme, cheio de esporas e pontas pelo corpo, também estava muito mais forte e resistente. E o Hulk estava em plena fase "Sr. Tira-Teima", com terno, gravata, pele cinza e consideravelmente mais fraco. É nesse contexto que o Dr. Destino chantageia o Verdão, ou melhor, o Cinzão para que ele ataque o Super-Ben. Na 1ª parte, escrita por Steve Englehart, Ben atropela o Golias Cinza (sem saber que era o Hulk!), descontando com juros os anos de murros e voadoras que aguentou até ali. Tudo com a arte magnífica do Keith Pollard. Um sonho do Grimm realizado. Já na 2ª parte, o roteiro de Peter David vira o jogo e o Sr. Teima usa o que tem de melhor, a malandragem. Resultado: o Super-Ben quase vai pro saco e, o que é pior, na arte tosquíssima do Jeff Purves. Damn, Ben.

As histórias foram publicadas aqui em O Incrível Hulk #108 e #109, da Abril.

Momento Tá na Hora do Pau!: Coisa, o cara mais forte da cidade!


Hulk #9 (dez/1999)


A história "Chip on my Shoulder" (por aqui, "Acerto de Contas") abre e fecha com aquele solilóquio de Ben sobre seus encontrões com o Hulk – e traçando um paralelo muito bacana com a rivalidade entre os pugilistas Muhammad Ali e George Foreman. Ponto para o roteiro co-escrito por Jerry Ordway e Ron Garney. A mesma inspiração não se repete no miolo, mas o embate entre os nossos gigantes guerreiros é praticamente garantia de diversão. Pra sorte do Coisa, o Hulk aqui está sendo controlado pelo vilão rerererecorrente Tyrannus (já perdi as contas de quantas vezes esse cara morreu!), o que dá certa vantagem ao Pedregoso. Mas é o Hulk de qualquer modo e se Rick Jones o comparava a um caminhão se aproximando, a certa altura o velho Ben parte pra cima dele com um caminhão maior ainda. A fina ironia fica por conta da onomatopeia: RUMMBBLLE ...in the Jungle?

Essa edição saiu por aqui em Grandes Heróis Marvel #10, da infame linha Super-Heróis Premium da Abril, pioneiríssima no conceito de gibi gourmet. Conheço um cara que tem todas. Ah, playboy.

Momento Tá na Hora do Pau!: o Coisa jogando fora sua medalha de boa conduta. Quase deu certo. Wotta revoltin' development!®


E.... C'est fini.²

Editoras interessadas, ainda estamos abertos a propostas.



Panini, para negociações sobre um Omnibusaço disso aí, direto em pvt. Nem precisa traduzir.

Ps: meus sinceros agradecimentos aos srs. Benjamin Jacob Grimm, Robert Bruce Banner, à Tia Petúnia e, principalmente, ao VAM! Ilustrador, por mostrar um nível de paciência que nem imaginava que existia!

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Markus Sebastian Grayson trailer

Só soube outro dia que Invencível, de Robert Kirkman e Cory Walker, teria série animada via Amazon Prime Video. Mas os caras não estão nem aí e já despejaram o trailer na praça.


Qualidade de animação ligeiramente acima do padrão, a estética emula o traço do desenhista Ryan Ottley, algumas cenas são quase transposições do quadrinho, o Omni-Man soa ameaçador e p(h)oderoso. E, mais importante, o grafismo realmente bate o cartão na série.

Fiquei empolgado. Já passou da hora de alguém cutucar o (hoje, preguiçoso) domínio da DC no campo das animações. Nem que seja a improvável Image.

Aliás... momento oportuníssimo para republicarem Invencível por aqui. A defunta HQM levou seis anos para editar quatro volumes – cobrindo 19 edições das 144 totais. Uma opção seria a Mythos, que às vezes trabalha Image. Mas a titular da editora gringa é a Devir, com seu calendário de lançamentos baseado na passagem do cometa Halley. Enfim.

Ao menos foram 60 segundos de abstração e diversão, em que quase não pensei no Omnibus do Quatrocentos Fantást... digo, Quarteto Fantástico.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Ain't Talkin' 'bout Eddie


Quem acompanhou as notícias que surgiram nos últimos tempos já suspeitava. Mesmo assim, particularmente, não imaginava algo tão cedo. Estarrecedor.

Eddie Van Halen era uma das últimas grandes personificações vivas da guitarra – não um mero guitar hero, mas um símbolo mesmo, como algo indissociável da imagética do instrumento. Uma casta antiga e seleta da qual fazem parte Hendrix, Page, Blackmore e alguns poucos outros. Fim de uma era é pouco pra definir.

Um dos primeiros discos que comprei, ainda moleque, foi o bolachão do Diver Down (1982). Era o único do grupo que havia na loja, no centro de Vitória. Nem de longe é o melhor da banda, mas já foi o suficiente para a guitarra incendiária de Eddie derreter minhas orelhas e largar meu queixo estatelado no chão.

E a corajosa, desbravadora e arrasadora apresentação na selvagem Terra Brazilis de 1983?


Depois disso, inúmeras outras aventuras, reviravoltas e desafios se seguiram. E hoje, no dia 6 de outubro de 2020, termina a história do lendário (Eddie) Van Halen.

Que tempos surreais vivemos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

😷 😷 😷 😷 😷 😷 Retrospec Setembro/2020 😷 😷 😷 😷 😷 😷

#DaveBautista said that "pathetic" supporters of fellow #WWE Hall-of-Famer #DonaldTrump should be "ashamed to call themselves Americans."
Publicado por Bleeding Cool em Terça-feira, 1 de setembro de 2020

1/9 – E o Prêmio Pergunta Retórica do Mês já é de Dave Bautista. É um novo recorde!

2/9DC contrata ex-chefe de marketing da Activision como o novo gerente geral. Claro, afinal gibis e games são tudo a mesma merda.

3/9¹Robert Pattinson está com COVID-19 e a produção de The Batman está mais congelada que a mulher do Sr. Frio.

3/9² – A Pipoca & Nanquim anuncia a reedição de Cannon com luva vertical e, na manha, varre o chão com a cara da Panini.

3/9³O Poderoso Chefão - Parte III é mais um a ganhar um director's cut. Segundo Francis Ford Coppola, a nova versão será a mais apropriada para concluir a trilogia e, e, e, eeeee, vai limpar a barra da Sofia.

3/94 – A dublagem brasileira é a melhor do mundo, mas também é a mais problemática e vitimou ninguém menos que Kamen Rider Black, suspensa da programação da Band após um dia de exibição.

3/95Mike Flanagan, diretor do surpreendente Doutor Sono, é doido pra adaptar A Torre Negra, de Stephen King. Pelo amor de Randall Flagg, alguém faça acontecer!

3/96Primal, a fabulosa e sanguinária série animada de Genndy Tartakovsky, volta para a 2ª temporada. Estreia já em 4 de outubro!

3/97 – Teieira, a Sony Pictures TV está desenvolvendo uma série live action da spider-heroína Silk. Que certamente terá um grande apelo entre o público cannábico por conta de seu codinome no Brasil.

163º DIA DA PANDEMIA | Hoje estréia a segunda temporada da série The Boys no serviço de streaming da Amazon Prime, e eu só queria uma série da nossa carismática e afiadíssima super-heroína prostituta, THE PRO 💜
Publicado por Image Comics Brasil em Sexta-feira, 4 de setembro de 2020

4/9 – Olha, A Pro seria mágico, mas o momento nunca esteve tão Marshal Law. Só acho.

7/9Superman: The Final Cut é uma espetacular versão expandida e remasterizada que a editora de efeitos chilena Kathryn Ross montou para o icônico filme de Richard Donner. Por expandida, leia-se "com dezenas de cenas excluídas extraídas de diversas fontes, editadas na ordem e totalizando 3 horas de filme"; e por remasterizada, um nitro nos efeitos com CGI na medida. Uma experiência inesquecível de redescoberta do velho/novo clássico. E agora, a talentosa editora revela que abraçou um desafio ainda maior pela frente!





8/9²Flea descobrindo Cannibal Corpse foi a melhor coisa hoje. A menos que... nah, foi a melhor coisa.


9/9¹ – Sei, sei, cada um gasta seu suado dinheirinho como bem entende. Mas, parafraseando Dave Bautista, quem caralhos é o otário que vai pagar por um meet & greet virtual?

9/9² – Foi eterno enquanto durou: Jaspion, Changeman e Jiraya rodam da programação da Band. Nosso catecismo tokusatsu dominical sucumbiu diante do blitzkrieg futebolístico.


9/9³ – Bom, sou de reclamar e essa lombada aí manteve o mais puro padrão Porra, Panini!


10/9 – Se vai Dame Diana Rigg, aos 82. A multipremiada atriz britânica iniciou sua carreira no fim da década de 1950 no teatro. Foram mais de 60 anos de carreira e uma lista incontável de trabalhos (literalmente – a maior parte das fontes apenas compila trabalhos "selecionados"), mas certamente já estaria eternizada por três papéis antológicos: a Condessa Teresa di Vicenzo, esposa de James Bond em 007: A Serviço Secreto de Sua Majestade, a sagaz Rainha dos Espinhos Olenna Tyrell, de Game of Thrones, e, claro, a irresistível espiã Emma Peel, da clássica série Os Vingadores (1965-1968), autêntica musa cult homenageada diversas vezes nas HQs. Estupenda Emma!


12/9¹Se vai Toots Hibbert, aos 77, devido a complicações relacionadas à COVID-19. Líder do lendário Toots and the Maytals, o multi-instrumentista jamaicano foi um dos pioneiros que elevaram o reggae e suas vertentes roots (ska, rocksteady) ao circuito internacional já na década de 1960. Um gigante da música.

12/9²Young Justice: Phantoms é o título da 4ª temporada da sensacional série da DC. A data da estreia ainda não foi divulgada e, ao que parece, terá 26 episódios.

14/9 – Contra todas as (minhas) expectativas, a Panini desdescontinua as séries Quarto Mundo e Liga da Justiça Internacional. Não há uma semana de tédio nessa editora, hm?

15/9Aquaman forma um team-up com Cyborg. Cara, mas afinal quê diabo Joss Whedon aprontou com o Ray Fischer no set de Liga da Justiça? Roubou o lanche dele?

Torpedo 1972 da JBraga Comunicação está pronto!!! A campanha do Torpedo 1972 no Catarse chegou ao final. Apesar de não...
Publicado por JBraga Comunicação em Quarta-feira, 16 de setembro de 2020

17/9¹O Catarse de Torpedo 1972 não atingiu a meta (seus putardos!), mas a editora JBraga Comunicação segue em frente e vai publicar assim mesmo. Hooray!!

17/9² – Após as novas versões de A Espada Selvagem de Conan e Conan, o Bárbaro, chegou a vez da King-Size Conan. E a Marvel finalmente resolveu montar um timaço de roteiristas.

Por diversos motivos (saúde, falta de tempo, Internet do notebook, entre outros) a página entrará em recesso. Todos os...
Publicado por Todo Dia Um Erro Nos Quadrinhos Diferente em Quarta-feira, 16 de setembro de 2020

17/9³ – Consumir quadrinhos no Brasil sem a página Todo Dia um Erro nos Quadrinhos Diferente é como estar no mato sem cachorro. E já que a ordem do dia nesse país é "passar a boiada", pode se preparar para o maior estouro de erros de revisão já visto nesta indústria vital...

17/94 – Nada de Gina Carano, o negócio é Orphan Green: Tatiana Maslany será a Mulher-Hulk na série da Disney+. Tatiana é, fácil, uma das atrizes mais versáteis e fascinantes dos últimos anos, mas a tarefa é pra lá de arriscada. Muito curioso pra conferir issaê...


19/9 – Se vai o mestre Lee Kerslake, aos 73. O legendário músico iniciou sua carreira na emergente cena hard/heavy inglesa do final da década de 1960 e ficou consagrado como baterista do Uriah Heep. Também participou de dois clássicos maiúsculos de Ozzy Osbourne – Blizzard of Ozz (1980) e Diary of a Madman (1981). Nos últimos anos, se tornou pública sua disputa judicial com a família Osbourne pelos direitos autorais de suas contribuições nos discos. Kerslake lutava contra um câncer na próstata desde 2018, mas ainda teve tempo para uma reconciliação com o Madman.

20/9 – A excelente Watchmen da HBO faz o rapa na 72ª edição do Emmy. E já estou a fim de remaratonar a série toda. De novo.


22/9¹ – Se vai Gérson Rodrigues Côrtes, o Gerson King Combo, aos 76. O cantor carioca foi um dos precursores do soul e do funk no Brasil e um dos astros do movimento Black Rio da década de 1970. Paralelo à trinca sagrada Tim-Cassiano-Hyldon, Combo ganhou notoriedade cult a partir dos anos 90, ao lado de nomes como Tony Bizarro, Lady Zu, Don Salvador, Carlos Dafé, entre outros grandes talentos do passado. Mas no visual, sem dúvida, King Combo era o nosso "Soul BRother Number One".

22/9²A Supergirl da CW será encerrada na sexta temporada, prevista para o ano que vem. A gracinha Melissa Benoist de Kara vai fazer falta. Tudo bem que só aguentei ver a 1ª temporada da série (muito "pelo poder da amizade" pro meu gosto), mas ainda quero ver os episódios com o elogiado Lex de Jon Cryer. Vai ser difícil olhar pra ele sem dizer "Saia da minha casa, Alan!".


23/9¹Sâmela Hidalgo, assistente editorial da Devir, dá uma overdose de pílulas vermelhas aos milhares de pseudo-machos alfa especialistas em edição de quadrinhos. Fofa demais. Provavelmente vai arrumar confusão.


23/9² – Claro que adorou. Setembro está sendo um mês trilegal pro Levi!

PEACEMAKER with John Cena and James Gunn is coming to HBO Max. On a scale of 1 to F#CK!, how excited are you?
Publicado por HBO Max em Quarta-feira, 23 de setembro de 2020

23/9³ – Quem diria, o novo filme do Esquadrão Suicida nem saiu e o Pacificador (O PACIFICADOR!) já descolou uma série via HBO Max. Antecipação é isso aí.

24/9¹Dan Slott viu o que Zack Snyder fez. Limpa o veneno que respingou no teclado, Slott.

24/9² – Para salvar o decadente mercado dos comics, o veterano quadrinhista Gerry Conway propõe uma reestruturação geral na criação de HQs, começando com a extinção da cronologia de todos os super-heróis. Não sei se daria tempo pra parar a contagem regressiva, mas gostaria muito de ver isso em vida...


25/9 – Depois ele dá uma tergiversada de leve. Mas finaliza com uma fincadinha de pé.

28/9¹A Dark Horse vai publicar os sketches que Mike Mignola fez na quarentena. Bom, salvei todos à medida que ele ia postando no Twitter. Acho que vou publicar também, Opera Graphica's style.

28/9²A Tumba do Drácula saindo completinha na Panini Espanha. E a Panini BR parou faltando uns dois volumes. Animem aí, fiotes.

29/9¹ – Lembra do roteirista e puta desenhista Aron Wiesenfeld? Aquele, que na década de 1990 fez umas coisinhas aqui e outras acolá, mas marcou mesmo com o bacanudo crossover Deathblow e Wolverine? Pois é, o quadrinhista evoluiu e hoje é um "artista ilusório".

29/9² – Modesto, ele nem sabia que era isso.

30/9¹ – Por essa ninguém esperava (e, honestamente, queria): a Netflix está desenvolvendo um projeto para Conan, o Bárbaro. Que tanto pode ser filme, série, live action ou animação. Ou tudo ao mesmo tempo. A sempre difícil Conan Properties vendeu a alma para os feiticeiros do streaming. Crom!


30/9²Se vai Joaquín Salvador Lavado Tejón, o grande Quino, aos 88. O cartunista iniciou a carreira na década de 1950 fazendo sketches publicitários e colaborando em revistas de humor argentinas. Mas Quino é praticamente sinônimo de "pai da Mafalda", a menininha observadora e questionadora famosa no mundo inteiro e elogiada por gênios como Charles Schulz. As tirinhas da Mafalda foram originalmente publicadas de 1964 a 1973. Depois disso, apenas figurou em algumas campanhas pelos direitos humanos. Uma genuína confirmação da atemporalidade da personagem – e, claro, do autor.


30/9³ – E esteve também na trilogia nova. O que deixa o nível do debate pior ainda!



Ê, 2020 que não acaba.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

A gata de Schrödinger

Trailer de WandaVision em todos os lugares e aumentando diametralmente as probabilidades de uma boa série no horizonte.


Ou estaríamos todos na seca (e menos exigentes) após nove meses mergulhando de nariz nesse 2020 inesquecível? 50/50 se acotovelando quanticamente dentro da caixa.

Mas nota-se que a Disney+ não teve medo de esgarçar o bolso: a produção parece coisa de cinema, coisa linda, bem como o pano de fundo – basicamente, Pleasantville e A Rosa Púrpura do Cairo se entrelaçando na tela. E se o recurso Back to the Golden Age não é exatamente novidade (mesmo sendo bem vinda a revitalização), tampouco a resolução provável da equação Mas-o-Visão-não-foi-defenestrado-pelo-Thanos-em-Guerra-Infinita-pô?. Mole pra qualquer sommelier marvete de longa data:

Será tudo culpa da Wanda.

Com a real extensão dos seus poderes malandramente evitada nas produções da Marvel Studios, é quase certo que WandaVision trará sua capacidade de alteração de probabilidade, realidade, matéria e tempo at full throttle. E voilá, tá aí nossa geradora delivery de realidades alternativas.

Então, nada mais oportuno que me adiantar e mandar um daqueles textos for idiodummies que pipocarão por toda a internet ao fim da série, tipo "WANDAVISION: ENTENDA" ou "FINAL DE WANDAVISION EXPLICADO!". Que a Felicia Hardy me coma se um dia não bombo essa bagaça aqui.

Normalmente, recorreria a algum excerto clássico, mas como Agatha Harkness parecia mais interessada em transformar a Wanda no Mickey de Fantasia, é melhor buscar a nossa modelo de oráculo em outra realidade. No caso, na Terra 31916, com a Srta. Arcanna Jones.


Mais simples que isso, só desenhando igual ao Liefeld.

Em pese o fato de que a própria Arcanna pareça uma Garota Maravilha® de outra realidade, essa opção quântica deve cobrir as possíveis inconsistências que estarão em WandaVision – mais umas raspinhas de Visão do Tom King aqui e acolá – e, de quebra, irá reintroduzir o andróide, ou melhor, sintozóide à ordem do dia.

Além disso, o céu é o limite. Wanda ainda nem foi apresentada às delícias da supergravidez psicológica. E as mutações que estirpará em massa num dos futuros alternativos do MCU. Sem querer menosprezar a série, mas esses sim, serão verdadeiros wandalismos!

Mas o que sei eu. Ainda estou tentando decodificar as desventuras do casal Wisão (eu shippo) naqueles escalafobéticos formatinhos da Abril.


Sério, que cogumelos ingeriram Steve Englehart e Bill Mantlo?

Parece que foram para a Montanha Wundagore, se jogaram numa rave da DJ Bova (também parteira nas horas vagas), tiveram uma bad trip de ácido e mezcal com verme matrixiano no fundo da garrafa e saíram de lá balbuciando "Eu vejo Sem-Mentes" enquanto rolavam pela encosta.

Hmm... que dia acaba a quarentena mesmo?

WandaVision estreia em 27 de novembro. Há uma grande probabilidade, pelo menos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Tudo sobre minha mãe


O release do filme de Almodóvar trazia uma passagem intrigante:

"Um ditado grego diz que apenas as mulheres que lavaram os olhos com lágrimas podem ver claramente".

Isso descreve bem a personagem Mother em Raised by Wolves, série recém lançada pela HBO Max. Mother é uma andróide (termo também originado do grego) e o tempo todo tem a lógica inflexível de sua programação bombardeada por experiências perturbadoramente humanas. Uma metáfora-tempestade-perfeita sobre a natureza da maternidade. E as metáforas não param por aí.

Na literatura, é comum autores recorrerem a outros planetas ou realidades alternativas para falar de suas visões políticas, sociais, filosóficas, etc. Ridley Scott sempre inseriu o artifício em suas incursões sci-fi e sempre se utilizando dos andróides como pivôs. São os seus peregrinos enviados a terras estranhas.

Apesar de criados à nossa imagem e semelhança, não são reféns dos mesmos princípios éticos e/ou religiosos – sendo a clássica regrinha de três nada mais que linhas de comando obsoletas prontas para serem reescritas. Foi assim com Ash (Alien), que classificou tais princípios como "ilusões de moralidade", com o replicante Roy Batty (Blade Runner) e seu resignado monólogo "Tears in the Rain" e com o David e sua necessidade de transcender a condição de filho/criatura (Prometheus) para se tornar também pai/criador (Alien: Covenant).¹

1 – Mitologicamente falando, praticamente um remake. Malditos gregos.

Foi uma jornada e tanto. E continua sendo.

Já nos primeiros três episódios, Raised by Wolves traz Ridley Scott em sua experiência mais intensa de humanidade sob os olhos de um andr... uma "pessoa artificial". E também a 1ª gynoid da vida do cineasta. Foi mal, Pris.


Ele é um dos produtores executivos e dirige os dois primeiros episódios. Seu filho, Luke Scott, dirige o terceiro. Mas apesar dos temas e da ambientação bem familiares, a série é criação de Aaron Guzikowski, que roteiriza os 4 primeiros episódios.

Em se tratando de HBO, é até redundância mencionar o alto nível da produção, mas vamos lá assim mesmo: efeitos especiais grandiosos, cinematografia que sobrecarrega a retina e muita inspiração na estética eternizada na franquia Alien, incluindo aí as artes do mestre H. R. Giger, ainda que ligeiramente diluídas pra não dar muito na cara.

Descontando o fato de que Ridley Scott segue em sua fixação de destruir naves espaciais gigantescas, não dá pra evitar certas conexões. Várias, aliás.

A premissa é um exercício de futurismo sombrio e, ao meu ver, uma extrapolação flagrante do que vivemos na atualidade. No ano 2145, a Terra foi devastada por uma guerra entre religiosos e ateus. Os poucos sobreviventes ganham o espaço em busca de um novo lugar para recomeçar.

Em segredo, os andróides Mother (Amanda Collin) e Father (Abubakar Salim) são enviados com um grupo de crianças a um planeta promissor e aparentemente desabitado. A missão é estabelecer uma colônia humana regida pelo ateísmo e com valores estritamente científicos. Os anos passam com uma cota acachapante de percalços que é pontuada pelo maior deles: uma nave com um contingente de religiosos chega ao planeta.

Comentar mais é desnecessário, mas já dá pra perceber o caminho arriscado – e riquíssimo – que Raised by Wolves escolhe trilhar.


Mesmo sem travar uma hard talk entre religião e ciência, o roteiro consegue deixar claro o que está em jogo ali. Tão interessante quanto observar a predisposição (genética?) de uma criança à crença em um poder superior invisível é acompanhar a incansável retórica de Mother. Sentenças como "a crença no irreal pode confortar a mente humana, mas também enfraquecê-la" ou "nunca avançaremos, a menos que resistamos ao impulso de buscar consolo na fantasia" parecem extraídas de anotações do Richard Dawkins.

Se o modelo Hyperdyne 120-A-2 era disfuncional, o caso de Mother é a completa experiência materna on crack. Um elo perdido entre a precursora Maria (com referência no design em seu modo Necromancer/Mamãe É de Morte), a Banshee do folclore celta (embora tenha me lembrado mesmo a Banshee Prateada!) e, obviamente, a zelosa Sra. Norma Bates. Ainda assim, Mother é capaz de emocionar em momentos de notável sensibilidade ao lidar com questões como luto, culpa e redenção. Como toda mãe tridimensional que se preze.

Amanda Collin brilha. Sua atuação é visceral e performática, evidente em cada pêlo eriçado e veia saltada de seu rosto. Sistema Stanislavski adaptado de algum tablado hardcore dinamarquês, com certeza. Este post é dela, por obséquio, mas um grande jogador precisa de um grande time. E isso ela teve.

Abubakar Salim executa com perícia um trabalho dificílimo como o passivo e circunspecto Father, que, ao mesmo tempo em que administra os excessos de Mother, evita sucumbir à força da natureza que ela representa. Impossível não lembrar daquele antológico James Woods de As Virgens Suicidas.

O garotinho Winta McGrath como o relutante Campion também é uma grata surpresa. Travis Fimmel e Niamh Algar como o casal de ex-guerrilheiros e impostores Marcus e Sue estão corretos. A cena das cirurgias feitas por um andróide semicarbonizado (2º episódio) é ótima.

Assistir Mother defendendo no grito (literalmente) a santidade de seu dever – e frequentemente assumindo o inglório manto de anti-heroína – é uma análise do quão traiçoeira é a linha que separa o amor e o ódio. Ou o céu e o inferno.

Definitivamente, ser mãe é padecer no paraíso.