Caçada (
Hunter Hunter, 2020) estava disponível na minha fila de filmes desde o dia um. Após o lançamento, quando pipocaram os primeiros burburinhos embasbacados, o promovi e joguei na pasta de prioridades. Mas, por algum motivo que só a minha procrastinação pode explicar (depois), fui conferir a produção apenas esses dias, à fórceps e em grupo. E até agora estou (estamos) juntando os cacos e administrando o inevitável TEPT. Porque o longa dirigido, escrito e coproduzido pelo canadense
Shawn Linden é impiedoso com a sanidade alheia.
O que me chamou atenção primeiro, confesso, foi a escalação de
Devon Sawa e
Nick Stahl, duas figuras que já sentiram o gostinho dos holofotes e que há tempos vagam proscritos pelas searas do terror e do suspense. O primeiro encarnou a
forma humana do Gasparzinho logo no início de carreira e atraiu atenção quando estrelou o terrir
A Mão Assassina e o 1º filme da série
Premonição. Já o segundo, se destacou no início dos anos 00 numa levada promissora de casts: foi o John Connor em
O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas e o psicopata Ethan Roark Jr., o "Assassino Amarelo", de
Sin City, além de protagonizar a macabra e subestimadíssima série
Carnivàle, da HBO.
Não é a primeira colaboração dos dois, mas ainda não deixa de ser pitoresco.
Na premissa, uma família luta para se manter em tempos difíceis numa região selvagem nos cafundós do Canadá.
Joseph (Sawa) é um irredutível seguidor de uma linhagem ancestral de caçadores. É modelo e inspiração de vida para sua filha adolescente
Renee (
Summer H. Howell) — e é só o que ela conhece mesmo da vida. Sua mãe
Anne (
Camille Sullivan) é a única que almeja um retorno à cidade, dividida entre a vida dura que escolheu ao lado do homem que ama e em apresentar Renee ao mundo do qual ela foi privada. Um mundo mais seguro, menos sofrido e repleto de opções. E, em meio aos questionamentos, uma terrível ameaça espreita pelas redondezas.
Agora já posso escrever sinopses para a
America Video.
Infelizmente, não dá para comentar muito sobre
Caçada sem sabotar suas melhores qualidades. Na maior parte da metragem, o filme tem aquela pegada quase documental de Homem X Natureza, à
Inverno da Alma (
Winter's Bone, 2010) e, sei lá,
Na Natureza Selvagem (
Into the Wild, 2008), com um núcleo pequeno de personagens e locações. É aquele feijão com arroz de mundo-cão-interiorano já conhecido, mas bem temperado. E as atuações levam boa parte do mérito.
Sawa está irreconhecível como o patriarca caçador. Durão, indomável, o sal da terra. Assistiria fácil a um filme só do cara caçando e olha que não sou fã de caçadas. A menina Howell, uma
veterana de Chucky's, mostra uma segurança absurda na transição bravura-ternura-fragilidade. Nick Stahl faz um exercício de jogo para o time, interagindo na medida com a atuação de Camille Sullivan. Que é magistral, diga-se.
É impressionante a habilidade de Linden em trabalhar tons cinzentos e pesados de drama familiar/social com suspense psicológico e terror sem perder o foco, patinar em exageros e soluções mágicas. O não-dito exerce um papel fundamental em momentos cruciais e no destino dos personagens. E o roteiro, sempre sóbrio, árido e verossímil, nunca entrega nada tão fácil — mesmo aquilo que você, traquejado de outros carnavais, já vislumbra pelo horizonte. Tudo isso converge como uma perfeita sinfonia de elementos para o final mais
brutal que vejo em muito tempo.
Sem dúvida, a "cena com walkman" mais impactante que vi este ano.
Ps: desculpa aí, Kate Bush.