terça-feira, 9 de abril de 2019

Big Guy & Rusty sonham com ovelhas elétricas?


Deu no Guia dos Quadrinhos: há 10 anos, Big Guy & Rusty, o Menino-Robô era publicado no Brasil. Criado por Frank Miller e Geof Darrow em 1995, o título teve vida relâmpago, se bastando em duas edições fininhas lá na gringa via selo Legend, da Dark Horse. Mas rendeu uma moralzinha cult com direito a remasterização em hardcover, action-bonequinhos e uma série animada espetacular.

Mesmo com o hype há muito perdido - se é que teve algum naquela era pré-Internet - a microssérie acabou saindo por aqui 14 anos mais tarde. Provavelmente, a Devir deve ter visto ali a chance de uma capitalizadinha com a (acredito) boa receptividade da HQ mais conhecida da dupla, Hard Boiled - À Queima-Roupa, republicada aqui um ano antes. Com isso, fecharam em duas graphics os trampos do power duo em formatão magazine. Grandes caras.

E por que o formatão foi importante? Essa é fácil.




A arte de Geof Darrow é um show à parte, isso até a minha bisavó sabe. Mas com esse detalhismo obsessivo nem mesmo as dimensões 21 x 28 cm da brochura parecem segurar o rojão visual; e provavelmente nada menos que as medidas de um Wednesday Comics ou de um King-Size Kirby fariam justiça ao seu TOC preciosista-micronauta.

Era a trincheira perfeita para Miller sair metralhando suas críticas curtidas em humor negro-vantablack ao american way, ao capitalismo e ao consumismo desenfreado. Tudo no mesmo balaio do sci-fi militarizado de Hard Boiled, Bad Boy, Martha Washington e, Milton Friedmans me mordam, suas colaborações na franquia RoboCop. Só lembrando que se tratava daquele Miller recém-saído da DC cuspindo marimbondo contra a censura e o establishment - mas ainda não era aquele Miller pós-11/9, danificado e cheirador de napalm pela manhã. Ainda era um meio-termo anárquico, divertido e combinando genialmente panfleto com escapismo.

A respeito de Big Guy & Rusty, muito se comenta sobre a patriotada impressa por Miller na história. Mais especificamente, sobre o fator Complexo do Salvador Branco/Narrativa do Salvador Branco, explícito numa sequência em que autoridades do Japão delegam aos EUA o status de xerife do mundo. Isso rola, exato e previsível como um relógio suíço. A diferença é que os perdedores têm o seu lado da história contado por eles mesmos; e o lado dos vencedores é conduzido num tom conciliador e amigável, não superior ou sectário.

Em contrapartida, já desarticulando minha própria defesa, uma das melhores coisas de Big Guy & Rusty é justamente seu ufanismo americanóide. Tudo à moda antiga, cheio de valores morais ("Agora é matar ou ser morto! ...Não! Tem que haver outro jeito!"), cristãos ("Eu só tenho um Deus, meu chapa e, com certeza, ele não é um iguana supercrescido!") e todos aqueles anacronismos deliciosos convivendo com cenas frenéticas de ação em toda a sua glória chuta-bundas/yippee-ki-yay-motherfucker.

Dá pra ver quanto o Mark Millar bebeu daqui para compor seu Capitão América Ultimate. E até mesmo o Universo Cinematográfico Marvel recente - mas aí é só suspeita minha.


Fuck yeah.

Ao contrário do que geralmente ocorre, soube da existência de Big Guy & Rusty anos antes da HQ sair aqui, pela série animada. Foi co-produzida pela Columbia TriStar Television e Adelaide Productions - o mesmo pessoal das divertidas Men in Black: The Series e Godzilla: The Series - em conjunto com a Dark Horse Entertainment e exibida pela Fox Kids. Coisa linda de joint venture.

Na TV aberta, o desenho passou na Globo na década de 2000, ou seja, nos últimos suspiros da sua faixa infantil matinal. Nem imagino em qual programa - seria aquele com a ruivinha marota, a TV Globinho? Àquele ponto, eu já era um autêntico Sargento Rock de guerra civil brasileira, então é certo que conheci pela tevê de alguma repartição pública, enquanto me decompunha em vida com uma senha de atendimento na mão; por sinal, o mesmo cenário desolador que me fez descobrir o igualmente maravilhoso desenho Avatar: A Lenda de Aang. Como um alívio em meio a tamanha tortura, foi amor à primeira assistida.

O conceito era, basicamente, os ícones do cânone pop-animê (Astro Boy/Jet Marte, Gigantor, Pirata do Espaço) e da cultura kaiju (Godzilla, Gamera, Rodan) colidindo com a ficção-científica americana do pós-Guerra. Irresistível.

Uma das grandes sacadas do cartoon foi adotar a ingenuidade e bom-mocismo dos 50's, apesar de se passar num futuro próximo - e isso inclui a patriotada, assumida de forma ainda mais incisiva e paródica que na HQ. Sempre há uma bandeira tremulando em algum lugar, os valores americanos são repetidos como mantras, a propaganda da máquina de guerra yankee é massiva, a trilha tem várias passagens em ritmo marcial e até o tema de abertura lembra um orgulhoso e grandiloquente hino militar.

A galeria de vilões era esparsa e variada: robôs, alienígenas, aberrações genéticas (e nucleares e químicas), mais robôs, monstros interdimensionais, evil cientistas e ainda mais robôs. Dos poucos recorrentes, meus favoritos eram os masterminds terminators da Legião Pró-Máquina (Legion Ex Machina), que mereciam até um desenho solo. Apesar de censura livre, o desenho era generoso em gore e grafismo sugeridos. Por várias vezes pesquei referências às nojeiras de O Enigma de Outro Mundo, The Hidden - O Escondido, A Mosca e até Do Além. O simples design de alguns monstros já parecia quase demais para um desenho voltado para crianças.


A parte técnica era um primor, com animação acima da média e arte mimetizando, à medida do possível, os traços originais - tanto que impressionou o próprio Darrow. O elenco de dublagem era um dream team: Jim Hanks (irmão do Tom) como o Tenente Dwayne Hunter, o piloto de Big Guy; o saudoso R. Lee Ermey como o General Thornton; o veterano ator M. Emmet Walsh como Mac, o mecânico mais velho de Big Guy; Stephen Root (de Corra!) como o ganancioso Dr. Axel Donovan; Gabrielle Carteris (a Andrea de, opa, Barrados no Baile) como a Dra. Erika Slate; o grande Clancy Brown (a voz definitiva do Lex Luthor!) fazendo quase todos os integrantes da Legião Pró-Máquina; o mestre Tim Curry como o Dr. Neugog; e fazendo a voz estridente de Rusty, a talentosa Pamela Adlon - a impagável Marcy, de Californication.

Já a relação gibi-desenho era curiosa, considerando o minimalismo típico do Miller noventista. Além do trabalho de adaptação, o desenho desenvolveu todo o background da HQ, criando do zero quase todos os personagens, cenários, motivações e objetivos a médio/longo prazo. A única grande convergência é o episódio de estreia, que começa do ponto onde o quadrinho parou (Big Guy e Rusty salvando vacas de uma abdução alienígena!), mas na verdade é uma adaptação livre do gibi inteiro, com alguns diálogos e cenas adaptadas ipsis literis. Muito legal.

A grade de cartoons americanos sempre foi competitiva e implacável. Assim, Big Guy & Rusty, o Menino-Robô foi uma pérola de vida curta, durando apenas 26 episódios em 2 temporadas - e nenhum home video para a posteridade. Tive que me contentar com aquele pack TV-rip em baixa resolução da Baía do Pirata. Sem grandes revisionismos da velha geração ou reverências da nova, segui resignado com a certeza que a viagem terminava ali.

Contra todas as (minhas) expectativas, em julho de 2016 veio a quase-redenção: Big & Rusty, the Boy Robot finalmente foi lançado em DVD.


Não foi um home video per se, mas um DVD MOD (made on demand) exclusivo da Amazon. A prática é corriqueira da gigante americana e mostra que: 1) mesmo obscuras, algumas séries tem sim uma demanda expressiva, saudosista que seja; 2) é uma das maneiras mais fáceis de fazer grana investindo uma merreca: o DVD é o cúmulo do básico, com a capinha impressa em HP Deskjet e autorado sem extras de qualquer tipo, constando apenas o menu de seleção com o nome dos episódios. Consumidor de DVD MOD é second-class citizen na visão das distribuidoras.

Mesmo assim, estava disposto em converter meu desvalorizado, mas suado dinheirinho nos 27 Trump$ e 99 + shipping para ter em minhas mãos putrefactas este item superlativo da minha coleção pop por ordem autobiográfica®. Mas bucaneiro véio nunca se endireita, então resolvi fazer pequenas escavações atrás de um lendário baú do tesouro em forma de arquivos matroska/container do DVD da série. Ou ao menos um DVD-rip em mp4. E nada.

Fui procrastinando e enrolando o carrinho da Amazon-US igual noivo fujão. Até que, há algumas semanas, sob um ímpeto fecha-compra ferrado e com a página amazônica escancarada, fiz uma última busca no Yandex. Dessa vez, com um resultado novo por ali: uma página japonesa - com tudo o que isso representa - trazendo a lista dos episódios em mkv e um magnet link solitário lá no finzinho.

Colei no µTorrent sem grandes expectativas e... não é que milagres acontecem?

Hooray!

Clique aí no Tetsujin 28-go - o Gigantor, pô - para copiar o magnet link.


O torrent agora está na Baía do Pirata também. E em outras fontes.

Sobraram poucos seeds, é verdade. Demorei uma vida pra completar esse download. Então vou manter os arquivos semeando ainda por um bom tempo. Não direto 24/7, mas ao menos algumas horas, todos os dias à noite. E quase direto nos fins de semana.

E a quem colaborar possa: que tal degustar esse torresmo, subir os episódios em alguma conta do Mega ou Mediafire e espalhar a palavra? O espírito público agradece.

Maratonei o desenho reservando certa condescendência para um possível envelhecimento técnico e narrativo. Felizmente, foi desnecessário: a série continua tão espirituosa, eletrizante e divertida quanto da primeira vez. Pode até ser uma Síndrome de Peter Pan (é provável), mas já quero conferir mais uma vez os golpes movidos a plutônio de BGY-11, vulgo Big Guy, e os poderes núcleo-protônicos de Rusty - que, lembrando, não tem receptores de dor.

O tiozão do Anime Abandon concorda comigo.


Ps: é tarde demais pra sonhar com aquele live-action?

10 comentários:

Dan Bickle disse...

Sem querer parecer aquele nerd velho saudosista,mas já SENDO um...Tenho saudades da época em que os desenhos animados(mesmo que voltado para o publico infantil)tinham um design mais caprichado.
Hj em dia tudo parece ser feito na mesma panela que fizeram Gumball, mudando só um cabelo ou um nariz.
"Não é pra gente da sua idade" é a desculpa mais usada mas acho que idade não tem muito a ver com a questão.
Ben 10(a versão prime rsrs) nunca foi pra mim mas sempre achei conceitualmente bem legal e bonito pera caralho.
Até no japão a coisa anda meio capenga, mas enfim.
Falando da hq...deixei passar Big Guy mas ainda guardo na coleção Hard Boiled naquele mesmo formatão fudido de bom.
A arte do Darrow é hipnotizante mesmo.

doggma disse...

Fala, Bickle!

Esse "Não é pra gente da sua idade" é um migué para relaxarem a qualidade e enfiarem qualquer porcaria sem questionamento. Assim os pequenos vão engolindo esse lixo como se fosse normal e os pais, como se fosse algo moderno. Triste.

Se rastrear até as raízes da coisa, provavelmente chegaremos à simplicidade genial do Genndy Tartakovsky fase Cartoon Network e do Bruce Timm nas séries animadas da DC/Warner. Ou seja, o que começou como arte pop e exercício de estilo infelizmente foi subvertido em preguiça, mediocridade e comercialismo.

Ben 10 era esteticamente bem definido, realmente. Isso teve mais a ver com o fenômeno de merchandising calculado do que o desenvolvimento de personagens, de conteúdo, etc. E deu certo até demais.

Ah, Hard Boiled, cara... Só aquela sequência absurda de onze splash-pages do Darrow é pra fechar a conta e passar a régua. Espetacular.

Ps: Big Guy teve uma edição recolorizada em 2015 - e ficou bem melhor que a versão original (essa mesma da capa vermelha publicada pela Devir). Fica a torcida para publicarem a nova versão aqui. É meio difícil, mas...

Dan Bickle disse...

Quem sabe uma Mino(que ja publicou Shaolin Cowboy) ou Pipoca & Nanquim tragam de volta...não custa sonhar...

doggma disse...

Seria um sonho realizado mesmo, Bickle.

E acho que seria bem do perfil dessas duas (especialmente a Pipoca & Nanquim) dois materiais que há muito quero ver inteiras aqui: a holandesa "Storm", do Dan Lawrence (deixada incompleta pela Abril), e a belga "XIII", de Jean Van Hamme e William Vance (deixada incompleta pela Panini!). Mas como são séries serializadas, não sei se essas editoras iriam aceitar o desafio...

Um dia, quem sabe.

Abração!

Valdemar Morais disse...

Doggma, que pérola você resgatou! Fiquei muito interessado por esse pequeno tesouro dos anos 1990. Mas muito se deve à sua escrita, cara. Meus parabéns. Você tem uma capacidade de sintetizar conteúdo, crítica e bom-humor como poucas vezes vi. Estou sempre de olho no Black Zombie! Abraços!

doggma disse...

E aí, Valdemar!

Valeu pelos elogios, meu chapa. O texto às vezes é meio caótico e exagera nas referências (preciso maneirar isso, rs), mas se causou interesse sobre o assunto em questão, já cumpriu seu objetivo. E no caso do BG&R, pode acreditar, vale muito a pena. É legal demais!

"Pequeno tesouro dos anos 1990" - acertou no alvo.

Abração!

arlisson disse...

alguém, isso é sério! sabe algum link de pra download ou streaming mesmo, do desenho dublado?preciso mostrar isso pra uma turminha nova aqui .. vlw

doggma disse...

E aí, Arlisson!

Rapaz, durante muitos anos procurei um TV-rip da versão brasileira - e a dublagem nacional desse desenho é excelente! Mas sem chance. Já foi um milagre a Amazon relançar a série original em DVD lá fora.

Mas continuo caçando, para inserir a trilha com a dublagem nacional nesse DVD-rip filé do torrent.

Se um dia achar, ressuscito esse post.

Abraço!

JAGUARHX disse...

Obrigado por compartilhar o link do torrent, amigo. ;)

doggma disse...

Não há de quê, JAGUARHX!

Boa diversão!