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sábado, 29 de julho de 2023

He's too old for this shit


Sempre gostei de retornos triunfais. Podia jurar que a Ordem Jedi renasceria das cinzas numa eventual sequência de Star Wars. E que a SHIELD se reorganizaria no Universo Cinematográfico Marvel uma hora ou outra. Talvez por serem instituições tão canônicas e ainda com tantas possibilidades, que parecia o óbvio próximo passo. Me lasquei nos dois casos. Os igualmente canônicos Luke Skywalker e Nicholas Joseph Fury também têm muito em comum em suas versões mais velhas e cansadas. Aliás, cansadas é eufemismo... exaustas.

Invasão Secreta tem o objetivo de amarrar uma ponta solta deixada por Capitã Marvel: a situação Skrull. Prato cheio para analogias à manipulação da opinião pública e à geopolítica atual, com a Guerra Fria 2.0 e a crise global de refugiados. E consegue, na medida do possível para um produto Disney+. Nestes termos, surpreende uma minissérie com tantos tons cinzentos, torturas e mortes. O sangue – seja vermelho ou roxo – jorra sem cerimônia. E isso é ótimo. Mas não o suficiente.

Criada por Kyle Bradstreet e dirigida por Ali Selim, Invasão Secreta mostra Nick Fury e Talos lidando com um grupo terrorista Skrull liderado pelo ex-aliado Gravik. Ao seu lado, estão dezenas (centenas?) de Skrulls revoltados pela promessa não cumprida de reassentamento de sua espécie após 20 longos anos de espera. As semelhanças com os quadrinhos são apenas incidentais. Mesmo o plot pouco lembra o material original, de escopo vastamente maior.

Nas HQs, a saga de Brian Michael Bendis não era lá aquelas coisas, a despeito da construção interessante e da genial ação de marketing da Marvel – tudo foi bem até as derrapadas e inconsistências estourando nas páginas do ato final. Na série que abre a Fase 5 do MCU, sem o contingente de personagens do 1ª escalão e completamente despida do elemento cronológico, a maior parte das boas intenções ficou só no papel pisa-brite. Mas ainda escaparam algumas.

Nick Fury autoexilado na estação espacial S.A.B.R.E. foi um bom paliativo. Justifica muita coisa que passou sem o seu crivo no pós-Blip. O que deve soar grego para quem não acompanhou as séries e filmes da Fase 4. Outra sacada simples e bacana é a base dos terroristas Skrulls localizada numa usina nuclear russa abandonada e com altos níveis de radiação – da qual eles são naturalmente imunes.

E se não tem o Super-Skull Kl'rt (o original, com os poderes do Quarteto Fantástico), nem Rl'nnd (o Super-Skrull com os poderes dos X-Men), tem lá uma nova variação de Super-Skrull com os poderes de vários heróis dos filmes. Maior, melhor, mais rápido... você conhece o esquema.

A série cria um bom slow burn e mexe em alguns vespeiros do mundo real, especialmente em se tratando da terra de Putin, o Terrível. O elenco é afiadíssimo. Olivia Colman e Ben Mendelsohn, respectivamente Sonya Falsworth e Talos, matam a pau, literal e figurativamente. E têm muito menos tempo de tela do que eles e os espectadores mereciam. E boa estreia da Emilia Clarke no papel de G'iah, filha de Talos. Já o Gravik de Kingsley Ben-Adir é puro niilismo e tensão masculina. As referências do núcleo são os thrillers que misturam drama e espionagem, particularmente filmes sobre as ações do IRA ou do ETA durante os anos 1970/1980. Era só substituir os Skrulls por informantes e agentes infiltrados e voilá.

Uma pena que o roteiro a 10 mãos opte por decisões controversas, como as mortes estúpidas de dois personagens marcantes. Certamente para enxugar o elenco do MCU para as vindouras etapas. E não ajuda o fato de que as poucas sequências de ação sejam mal concebidas e incrivelmente mal filmadas. A do ataque à comitiva presidencial numa estrada é péssima.

Mas o que pesa mesmo é o grande astro da série.


Daquela sagacidade e energia habitual do Samuel L. Jackson dos primeiros filmes como o superespião caolho, sobrou pouco. Um tanto pela própria trama, com a proposta de um Fury ol' dog e relapso enfrentando pecados do passado (ou pecados pretéritos, à moda HQ). E outro tanto, me parece, pelo próprio L. Jackson, desmotivado e exaurido no papel, talvez ciente de que o melhor da festa já passou. Isso fica nítido quando ele divide as cenas com o Don Cheadle exercitando estilo furyosamente num take alternativo de seu James Rhodes.

No fim, quando Fury ascende mais uma vez aos céus (olha o spoiler do final) soa quase como um alívio. Ou uma aposentadoria merecida.

Ps: e, como bom aposentado, o pepino que ele deixou para trás é monumental...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Fui metralhado, esmagado, despejado, sequestrado, traído, espancado e tudo que ganhei foi essa camiseta da I.M.A.


Uma coisa é certa: Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, 2013) não joga na retranca. O filme é uma surpresa total. Recapitulando, Jon Favreau trouxe uma bagagem muito bem definida quando assumiu a franquia e a mesma se fez sentir em cada frame de Homem de Ferro e Homem de Ferro 2. Houve uma saudável relação de troca entre mitologia e contador. Com Shane Black não foi diferente, por mais heterogêneos que os elementos pudessem parecer. E nem eram tanto assim, afinal. Favreau é cria pop dos anos 2000, enquanto Black foi um dos principais idealizadores do cinema de ação dos anos 80. De tal modo que a bagagem, dessa vez, era pop, mas numa versão estrondosa. Para manter a coesão, prevaleceu a melhor constante da série: o bem-calibrado elenco conduzido por um Robert Downey Jr. tão viciado em dopamina quanto o Wolverine de Rafael Grampá. Ainda assim, os efeitos da nova fórmula foram mais visíveis que uma superdosagem do Extremis do filme.

Homem de Ferro 3 é um curioso exercício de estilo feito pelo cara que criou alguns dos meus heróis de adolescência. É bem interessante fruir o filme por essa perspectiva, ainda que aqueles que nasceram a partir de 1988 (como eles estão se proliferando!) não façam a menor ideia do que eu estou querendo dizer. O ponto é: estreitam-se os laços com o cinema, projetando os personagens e seu universo a um status cada vez mais liberto de suas origens, só que preservando suas características mais caras e sua paixão. O que os torna cinematograficamente mais genuínos, por assim dizer, e com menos fuça de fast-food prensado na chapa por uma joint venture.

O que pode advir disso, no futuro? Filmes "de super-herói" com tramas totalmente originais, sem relação direta com histórias ou arcos pré-existentes? Um universo 100% autossuficiente e independente dos quadrinhos, com legitimidade o bastante para interagir com eles como uma autêntica realidade alternativa from another media? Só Stan Lee sabe.

Por hora, o pacote garante apenas o que estava no anúncio - Shane Black dirigindo um Homem de Ferro. Para bom comedor de pipoca na casa dos 30, a sensação de déjà-vu era até esperada: uma aventura com obstáculos aparentemente intransponíveis para os (as) mocinhos (as), um vilão com delírios de grandeza, conhecedor do potencial destrutivo da mídia e com tentáculos estendidos até a banda podre do sistema e, claro, um ato final nitroglicerínico em uma enorme estrutura de trabalho operário onde os dois pólos finalmente colidem num porrada-palooza que resolve até questões que não podem ser resolvidas via porrada. Black não se furta nem em detonar a casa do herói, ao melhor estilo Máquina Mortífera.

Riggs & Murtaugh approves!


O roteiro, escrito por Black em parceria com Drew Pearce (Pacific Rim), trabalha o protagonista fora do contexto a que todos se acostumaram. Mas antes faz questão de marcar o território em que pisa, resgatando o típico m.o. hedonista de Stark, que já começa o filme estendendo uma festa de reveillon para uma one night stand de responsa com a cientista Maya Hansen (Rebecca Hall). Na mesma tocada, aproveita para reconstituir o background típico do vilão-cientista louco com um Aldrich Killian (Guy Pearce) socialmente disfuncional e sumariamente humilhado pelo herói em seus dias pré-redenção. Clichê, é verdade, mas daquele tipo que funciona pela simplicidade.

A mesma impressão se faz presente na figura do misterioso Mandarim (Sir Ben Kingsley), o clássico antagonista do Homem de Ferro nos gibis, aqui introduzido por flashes televisionados que o vendem como a maior ameaça ao "mundo livre". O que inicialmente gera certa dúvida sobre quem é o vilão principal, tal qual ocorreu com a dupla Ivan Vanko-Justin Hammer na aventura anterior. Mas à medida que a trama avança, os papéis vão sendo gradativamente ajustados - e que papéis.

Também revemos a gangue Stark quase intacta, à exceção da Viúva Negra e do agente Coulson, compreensivelmente indisponíveis. Estão lá o best buddy de Tony, ex-Máquina de Combate e atual Patriota de Ferro, Rhodey (Don Cheadle), o ex-motorista e atual chefe de segurança Happy Hogan (Fraveau, ex-diretor) e a adorável Pepper Potts (a adorável Gwyneth Paltrow), como sempre cobrindo os plantões do chefe/namorado. Mas ao contrário do que parece - e isso é uma constante na franquia - ela não fica relegada ao arquétipo da mocinha em perigo e influi ativamente na história, mesmo nas sequências de ação. E o faz de forma séria, sem autocaricatura, com entrega e conteúdo, inclusive na bonita cena inspirada na irmã do Ayrton Senna, Viviane.

Tudo bem que Pepper é raptada e amarrada lá pelas tantas, tal qual uma pin-up dos anos 40, mas isso ainda é Hollywood... a quase-festa do pijama dela com a fabulosa Rebecca Hall valem por qualquer deslize e minutinhos extras lá na terra de Morpheus.


Essa característica mainstream também se estende à Cheadle, dono de uma grande capacidade dramática, mas aqui a serviço de um thriller de ação dos anos 80 - e se divertindo muito com isso, diga-se. Definitivamente está mais à vontade e afinado com a proposta. A gag em que ele recebe um telefonema de Stark durante uma batida como o "Patriota de Ferro" é ótima. Já Favreau se destaca mais pela imensa humildade aqui demonstrada (artigo raro naquelas colinas) do que pelo perfil canastrão de seu Happy Hogan. A saída meio à francesa foi sob medida.

Obviamente, a produção é esteticamente desnorteante, explosiva e frenética, mas sem muita aderência nos neurônios. É um autêntico blockbuster padrão da Hollywood atual, ainda carente de novos Steven Spielbergs, Ridley Scotts e James Camerons. Podia muito bem ser o Michael Bay ali, sem que isso seja necessariamente algo ruim - e muito menos um elogio. O diferencial é o crossover envolvido: heróis que se arrebentam, sangram, erram, precisam de ajuda e vazam quando estão em desvantagem é herança oitentista do diretor; esses mesmos heróis sendo arremessados de um lado pro outro por uma explosão ou invés de morrerem carbonizados, desmembrados ou retalhados é convenção cartunesca daquele cinemão. Shane Black, por sinal, fez um excelente estudo sobre isso há alguns anos.

Da mesma forma, para espectadores veteranos, colocar Miguel Ferrer como o vice-presidente daqueles estados é entregar o jogo muito antes dos play-offs. Ficou tudo meio óbvio no momento em que seu nariz cruzou a tela. "Let the sun come out, you big, bad G.I. Joe"...

Eventualmente, a tal credibilidade cinematográfica entra em rota de colisão com tudo aquilo que faz os quadrinhos tão apaixonantes para os leitores - e que é aguardado silenciosa e khomeínicamente numa transposição o mais literal possível, ignorando até mesmo o fato de ser uma experiência em celulóide, não celulose. E o que vi em Homem de Ferro 3 foi o prenúncio de uma inssurreição fanboy.

Sabres de luz, pistolas Zillion e nunchakus do Panthro em riste! Morte aos infieis! Excelsior!!


O Mandarim clássico das HQs personificava o velho estereótipo chinês negativo tão disseminado na ficção ocidental de tempos idos, de Ming, o Impiedoso até o Dr. Fu Manchu. Com a escalação de Kingsley e seu visual sugestivo, com calça militar, óculos Ray-ban e pose de “el General”, era fácil chutar que a coisa não seria a epítome da fidelidade. O Mandarim aqui lembra uma batida de frente entre o comandante Fidel Castro e o extravagante Muammar Gaddafi. É um mashup de ditadores terceiro-mundistas que desqualifica até mesmo as raízes chinesas de seu codinome. Parecia até proposital...

Apesar das suspeitas, não cheguei a ir tão longe a ponto de decifrar o "Código Mandarim" antes do tempo. Me perguntava sim, onde um icônico, épico e defasado vilão se encaixaria numa trama já comprometida com Extremis, dra. Hansen e Killian com sua agenda de vingança contra Stark. Seria muito longa pra pouca metragem. Naturalmente, a surpresa foi grande quando a cortina finalmente se abriu, aliada a uma boa dose de incredulidade e confusão. Curti or not curti, eis a questão.

Igual à maioria dos leitores de gibis com barba na cara e contas chegando sem parar, sou um entusiasta dos clássicos. Detesto quando modernizam meus personagens favoritos ou quando pretensamente os "melhoram". Mas tento ser razoável e sensato na medida do possível, pautando minhas opiniões nos resultados práticos. Mandarim era um mastermind megalomaníaco e estilizado cujas motivações arcaicas já não cabem na concepção cinzenta de mundo que se tem hoje. Particularmente, a última vez que o vi em ação nos quadrinhos, semi-repaginado, a coisa terminou muito mal pra ele.

O que fariam agora? Descaracterizariam tudo em nome dos novos tempos? O reciclariam para uma melhor analogia ao cenário atual, com uma China comercialmente aquecida e economicamente instável? Ou mergulhariam como kamikazes na Era de Prata, o fazendo encontrar dez anéis místicos dentro da espaçonave avariada de um dragão alienígena? Realmente esse não é dos personagens mais fáceis de se trabalhar em outro contexto - isso já tinha ficado claro em sua versão "abstrata" na animação O Invencível Homem de Ferro.

Mesmo assim, a saída pela esquerda foi de uma frieza estratégica notável. Ainda mais sabendo que foi aprovada pelo crivo da Marvel Studios, até aqui bastante criteriosa com a adaptação de seus personagens. Essa bateu até o "Sentinela" de X-Men 3. No âmbito narrativo, no entanto, foi genial o recurso do hoax. Impactante e desconcertante ao mesmo tempo, contrariando todas as expectativas. Gostando ou não, ninguém ficou incólume: todos se importaram o suficiente para defender uma opinião a respeito. Tal qual o herói, o espectador também foi arrastado pra fora da sua zona de conforto. Missão cumprida, roteiro.

Ainda acho que o Mandarim daria um grande vilão numa adaptação pra valer (é difícil, não impossível), assim como acho que uma coisa necessariamente não invalida a outra. A facção terrorista Os Dez Anéis realmente existe naquele universo, tendo sequestrado Stark no primeiro filme. E provavelmente não adotaram esse nome porque são fanboys de J.R.R. Tolkien. Killian pode ter se apropriado de uma lenda urbana à Keyser Soze sobre um suposto Mandarim que seria o #1 da organização. Talvez tenha até despertado a fúria do verdadeiro Mandarim, que até então só operava nas sombras, providenciando assim um arqui-inimigo definitivo para futuras sequências.

Sabe o que dizem sobre sonhar...


É notório o quão estreitos são os vínculos de Robert Downey Jr. com o personagem Tony Stark. Chega ao ponto de poucos saberem exatamente onde termina a persona de um e onde começa a do outro. E os filmes anteriores espertamente trataram de deixar isso bem nítido, às vezes até em sacrifício da narrativa. Com as regras ligeiramente alteradas, foi fascinante observar "ambos" despidos de seus superpoderes e comendo poeira ao nível do cidadão comum. Boa parte de Homem de Ferro 3 envereda no formato road movie + cidadezinha do interior, com direito a ajudinha de ilustres desconhecidos, como o hilário "cara da TV" e até um coadjuvante cômico mirim (não-chato, o que já é algo positivo). Chega a evocar o mesmo sentimento de solidariedade popular visto nos filmes do Aranha pelo Sam Raimi - aliás, uma de suas qualidades mais pungentes. E, principalmente, foi uma jornada que serviu para reparação não apenas da nova armadura, mas do próprio Tony, em plena ressaca de Os Vingadores.

Foi uma bela sacada focar o impacto psicológico sofrido por um gênio narcisista convicto após ser atropelado por uma situação muito além de seu controle e compreensão. Deuses, alienígenas, monstros, tecnologias desconhecidas, buracos de minhoca... o estrago pós-traumático beira o colapso total e, apesar de Tony se desconectar do espectador algumas vezes em decorrência disso, rende muito em tridimensionalidade. Afinal batia mesmo um coração lá dentro daquela armadura.

Claro, como fã da obra de Warren Ellis e Adi Granov, eu gostaria que a história fosse adaptada na íntegra, com todo seu potencial intacto, não que o Extremis fosse reduzido a uma mera batidinha de chili com lava. Talvez fosse pedir demais que Tony sofresse tal upgrade, ao invés do downgrade brochante, mas coerente, do final. Fora a negligência criminosa do roteiro ao mandar aquele maravilhoso e vasto catálogo de armaduras direto pro Valhalla. Mas, felizmente, o filme se garante como puro entretenimento à moda (não tão) antiga. Então consigo lidar com tudo isso numa boa.

Talvez com exceção de uma coisa... sem AC/DC?

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Tony Stark 2 (Retro-review)


Homem de Ferro 2 (Iron Man 2, 2010) foi sintomático no que tange ao bem sucedido processo de adaptação do herói para o cinema. É um legítimo blockbuster com cara de blockbuster e gostinho de verão, pipoca e feriado de 4 de julho yankee. Entre uma coisa e outra, vêem-se as virtudes, sintetizadas no tratamento de luxo que só uma marca de sucesso tem o direito, como também os defeitos. Aqueles mesmos que acometem o cinemão do Tio Sam temporada após temporada e que tem um pouco a ver com o mercantilismo agressivo em cima da arte e a facilidade de informação gerando um contraditório emburrecimento das novas gerações. Um pouco, porque o ingrediente principal trouxe um princípio ativo tarja preta: o hellraiser Robert Downey Jr.

Se no filme original o estilão solto e desencanado do diretor Jon Favreau fez do Latinha um personagem de cinema viável e carismático, em Homem de Ferro 2 ele quase rodopiou na pista. Todas as traquitanas high tech inacreditáveis, os dilemas morais advindos da parceria com os militares e o pega-pra-capar dos bastidores da alta classe executiva ficaram minúsculos diante do personagem magnético e larger-than-life que é Downey Jr./Tony Stark, alter-ego do herói. Favreau, talvez percebendo que o roteiro de Justin Theroux (Trovão Tropical) não daria conta sozinho, recorreu ao que funcionou melhor no 1º filme, que foi o bom-humor e a despretensão. Que em Homem de Ferro 2 traduziu-se em quase desleixo e um pé no besteirol.

Talvez fosse o caso de terem apostado numa abordagem mais sombria e menos piadista, um "O Império Contra-Ataca" versão Latinha. O timing era apropriado. Mas preferiram seguir a velha receita hollywoodiana do "bigger, stronger & faster". Afinal de contas, Downey Jr. e Stark eram agora grandes e ensolarados astros pop, certo? Mais ou menos. Grandes sim, mas ensolarados só na crosta. O fator que alçou ambos ao sucesso foi justamente suas nuances mais obscuras e lascivas. Quando anunciaram o 1º filme não faltou quem relacionasse o estilo de vida de Downey Jr. a de um certo hedonista ficcional envolto em escândalos com mulheres, alcoolismo e altas cifras. Eles nasceram um pro outro.

Não que eu esperasse uma dramatização deprê de O Demônio na Garrafa, queria apenas ver o protagonista soando mais humano e não tão acima do bem e dos maus. Mas no final das contas, até que o estrago não foi tão grande assim. Poderia ter sido muito pior.


Um aspecto positivo do filme foi expandir o cenário corporativo em torno das empresas Stark, algo bem recorrente nos quadrinhos que rendeu (e ainda rende) uma galeria de CEOs rivais do herói - dos irmãos Desmond e Phoebe Marrs, da Corporação Marrs, até Edwin Cord, dono da Cord Conglomerate, além de Ezekiel Stane, filho do aparentemente finado Obadiah "Iron Monger" Stane. O escolhido da vez, no entanto, foi um inimigo mais tradicional: Justin Hammer, encarnado pelo sempre ótimo Sam Rockwell. Providencialmente rejuvenescido, motivado e sem escrúpulos como manda o figurino Armani dos jovens multi-bilionários empreendedores. É mais um concorrente do que propriamente um arqui-inimigo. Mas carece da malícia e do intelecto que já fez o Tony Stark dos gibis comer o pão que Mefisto amassou várias vezes. O que é um pouco frustrante e se fez sentir quando Hammer é ingenuamente levado no papo pelo 2º vilão constante no filme.

Ivan Vanko foi interpretado laconicamente pelo freak Mickey Rourke, escolha tão estranha quanto o mix no qual foi criado. Vanko é uma mistura do bandido de 5ª Chicote Negro com o manipulador e vingativo Kearson DeWitt (de Guerra das Armaduras II), cujo background e motivações foram transpostos integralmente para o filme. Munido com um visual de figurante de Mad Max e um sotaque atroz - ah sim, e com dois chicotes de energia - Vanko até ameaça um páreo mental interessante com Stark. A cena em que Tony vai vê-lo na detenção e comenta onde ele errou na luta é de um cinismo faiscante. Poderia ser o início de um belo embate entre dois talentosos inventores, mas a coisa segue por um caminho um pouco mais rasteiro.

Uma notinha bizarra (outra) vai para o destoante bichinho de estimação de Vanko, uma cacatua ou algo parecido. Coisas de Mickey Rourke, sem sombra de dúvida.

Do lado dos aliados, a coisa rende melhor. Clark Gregg novamente preenche as lacunas como o intrigante personagem agente Coulson, mas não está só. Além da presença mais frequente do Nick Fury de Samuel L. Jackson - finalmente liberto do gueto end credits - Homem de Ferro 2 marca a improvável estreia da Viúva Negra nas telonas. Scarlett Johansson, sempre eficiente e bombshell toda vida, não tem a postura e o olhar de quem já passou um dobrado com lavagens cerebrais, treinamentos desumanos e missões suicidas. Nem cara de russa ela tem. E admito que, apesar de adorar a Scarlett, eu torcia por Emily Blunt, a primeira atriz considerada para o papel. Seria perfeita, mas o agente dela não fez o dever de casa, então estamos aqui com uma boa Viúva, mas não a Viúva dos meus sonhos.

Em que pese a favor da menina a evidente dedicação nas cenas de luta, bem frenéticas, coreografadas e visualmente generosas, se é que você me entende.


Mas a escalação mais complicada talvez tenha sido para o tenente-coronel James "Rhodey" Rhodes, amigão de Stark e seu eventual insider nos círculos militares. No 1º filme Terrence Howard havia oferecido uma atuação discreta, mas marcante. Mesmo o gancho que teve com a armadura do Máquina de Combate ganhou em proporção e acabou gerando certa expectativa. Que, graças a desacordos financeiros, ficou no vácuo. Então, por mais que o novo titular, Don Cheadle, fosse um bom ator - não é; é um brilhante ator; dê um play no seu DVD de O Diabo Veste Azul e fuce nos extras o teste de elenco que o homem fez em 1995, mas segure o queixo - o desafio seria considerável ao lidar com um personagem que já tinha rosto, tom e personalidade.

Se Howard era mais informal e flexível ao administrar a ponte Stark-Exército, Cheadle é mais austero e comprometido com os irmãos de farda. Querendo ou não, o perfil psicológico do personagem acabou redesenhado. E acaba sendo irônico o fato dele protagonizar com Tony a sequência mais dispensável e nonsense do filme: a treta do Homem Bêbado de Ferro com o Máquina Militar de Combate numa festinha privada na bacanuda casa de Stark em Malibu - poderia ser o Charlie Harper vomitando ali na armadura.

Camp até o talo, a tal cena remete às brigas de herói versus herói mais forçadas e sem sentido dos quadrinhos. Não sou um patrono da minha querida 9ª arte, mas não gostei de ver uma de suas piores facetas indo parar na telona quando tem coisa bem melhor esperando a vez. Nesse ponto, pensei que o run do Jon Favreau na franquia já estava mesmo de bom tamanho.

Aliás, é bom ver as pequenas participações do 1º filme sendo mantidas, como o próprio Favreau como o buddy-driver Happy Hogan e mesmo a teteia Leslie Bibb como a jornalista que Stark papou logo na arrancada. E Gwyneth Paltrow faz o que pode pela Pepper Potts que é ser, rigorosamente, Gwyneth Paltrow. Não a Gwyneth Paltrow enigmática e cool de A Força de um Passado, mas a Gwyneth Paltrow pós-Oscar, facinha e pura brisa de verão. Geralmente não sou de aplaudir casaizinhos em tela - acho isso um passo e meio para o fim - mas considero acertada a união dos pombinhos hesitantes aqui presentes.

Ainda que bastante previsível, o ato final é bastante divertido e guarda lá sua cota de referências futuras (Mandróides da Shield?) ou alternativas (o que não é aquele exército de robôs militares senão uns Sentinelas prontos pra arrebentar os malditos mutunas?). Justin Hammer paga por sua mediocridade nesta encarnação e Ivan Vanko volta para o mesmo lugar de onde saiu - ou talvez até pra outro melhor.


Homem de Ferro 2 está longe de ser ruim, mas acaba prejudicado por um excesso de situações em tela e pouco controle sobre elas. As subtramas envolvendo envenenamento por paládio e a mensagem ultra-mega-insanamente-truncada que o pai de Stark deixou pra ele soam tão esticadas quando vazias. Talvez Favreau não seja talhado para temas mais dramáticos e sérios. Ou talvez o roteiro não soube como matar essa bola dentro do contexto de um filme pop.

Favreau despediu-se do comando com uma tremenda façanha no currículo (Homem de Ferro, ícone pop? Get outta here...), o universo Marvel nos cinemas expandiu-se para além de Midgard e a Marvel Studios/Robert Downey Jr. garantiram a faculdade de seus trisnetos. O filme em si não é aquelas coisas, mas o terceiro lugar no pódio ninguém tasca.

Fase 2 aqui vou eu.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

HOJE EU ME SINTO MENOS HUMANO


O cinema às vezes é menosprezado quando colocado na balança contra outros veículos culturais. Estou acostumado a ver o pessoal dito "mais culto" (ou os que querem posar de) colocar que o teatro é algo tão acima desta coisa mundana onde o cinema chafurda que até penso se não era para eu me sentir culpado por adorar tanto aquela telona! Não nego que, dada a natureza eminentemente autoral dos palcos, contrastando com a maioria esmagadora de blockbusters do cinema americano, realmente faz com que a idéia tenha lá seu quê de lógica, mas seria uma tremenda falta de respeito – para não dizer cegueira voluntária – com todas aquelas obras tão autorais quanto e que ficam ombro a ombro com outras que usam bem o poder de criação de realidades para passar algumas mensagens só possíveis no cinema.

Já há algum tempo, vivendo numa cidade grande como a minha – e que não é diferente em absoluto da cidade grande que você aí e você também vivem – passei a perceber que o respeito pelo próximo e pelo próprio corpo/vida têm se transmutado em descaso. A vida alheia tem se mostrado cada vez mais descartável, trazendo como conseqüência a falta de entendimento que as dificuldades do seu vizinho podem vir a se tornar suas também. Ninguém passa incólume por isto, nem eu. Quando garoto, costumava ir a pé para o colégio e sempre passava em frente à banca de jornal perto de casa. Nesta época, o jornal O Povo (um diário do Rio de Janeiro, não sei se em outros estados também circula) começava com suas edições de certa forma inovadoras: as capas sempre traziam uma manchete praticamente medieval que acompanhava uma foto de meia página de algum cadáver chocante ou pedaço de, sendo que o recheio do tablóide não era diferente. Praticamente dava para torcer o jornal e encher um copo de sangue. A quantidade de pessoas que parava em frente à banca para ver aquela imagem não fazia frente nem à quantidade de crianças na porta das casas no dia de São Cosme e Damião. O horror contagiava e continua contagiando. O tempo passou e as percepções também. Naquela época, as pessoas ainda se sensibilizavam com um assalto ocorrido na esquina. Hoje, se um arrastão tiver passado na mesma esquina e largado alguns corpos pelo chão, não haverá sensibilização alguma além de um: "é... de novo".

Como disse mais acima, ninguém passa incólume por isto. Nem eu. Amadureci e continuei convivendo com a violência – não nego que gosto de alguns filmes violentos, mas estes trazem a idéia inequívoca de ficção. Folheava a parte sobre "O Mundo" do jornal e via aquelas fotos de refugiados indo daqui pr'ali: Etiópia, Libéria, Bósnia, Albânia, Palestina etc. Eram apenas fotos de jornal acompanhadas de, no máximo, 40 palavras. Ocupavam meu tempo apenas enquanto não mudava para a página dos esportes. Achava que tinha perdido a capacidade de me sensibilizar, de me indignar.

Graças a Deus o cinema não é tão vulgar quanto pregam aqueles do começo do texto. Ontem vi Hotel Ruanda (Hotel Rwanda, 2004 – EUA, Itália, GBR e África do Sul) e confirmei que a sétima arte consegue fazer-me perceber que ainda sou capaz de sentir algo que transcende o entretenimento barato. O filme, dirigido pelo estreante no cinema Terry George, é baseado em fatos reais vividos e contados por Paul Rusesabagina, encarnado primorosamente por Don Cheadle. Sabe quando temos aquela sensação de legitimidade quando nos deparamos com ela? É mais ou menos isto! Nunca vi o tal Paul, mas a sensação que tive durante o filme é que o cara deve ter sido tão bem encarnado quanto foi Ray Charles por Jamie Foxx (não por acaso, foi seu algoz no Oscar passado).


E Paul nos conta que em 1994 ocorreu uma guerra civil na Ruanda entre as duas castas que habitavam o país: a maioria Hutu contra a minoria Tutsi. Conta também que, quando da colonização, os belgas, naquele afã de controlar o país tendo alguém nativo ao seu lado que seja o menos diferente possível – e de quebra criando um racha humano que sempre favorece o controle pelos colonizadores – pescaram dentre a população aqueles com nariz mais afilado, maior estatura e fisionomia mais delicada, ou seja, o mais próximo possível do padrão europeu, mas negro. Chamaram estas pessoas – minoria, cabe reforçar - de Tutsi e os colocaram para mandar no país do restante Hutu – os baixinhos de nariz achatado. Todos sabemos que se um irmão é tratado com privilégios que outro não tem, fatalmente brigas virão; o que dirá de uma nação fragmentada desta forma? A carnificina seria questão de tempo, e aqui estamos falando de números como 40 mil corpos encontrados em um lago e 1 milhão de ruandeses assassinados nas ruas. A título de comparação, a 2ª Guerra MUNDIAL matou 6 milhões de judeus.

"Quantos atos genocidas são necessários para haver um genocídio?"

Então a frase acima, proferida em um programa de rádio, seguida de respostas escorregadias de uma entrevistada européia das Nações Unidas, nos acorda com um tapa na cara. A vida humana passa então a ser uma questão de interpretação de expressões oficiais que os países ditos desenvolvidos – comandantes da ONU – torcem ao seu bel prazer, de preferência para onde dá mais votos – como disse o personagem de Nick Nolte, com aquela interpretação insossa de sempre.

É nesta hora que a pessoa que ainda guarda um pouco de dignidade encontra-se perguntando: "Como é que não fizeram nada? Como deixaram aquilo tudo acontecer sem ninguém se meter? Cadê a tal da luta pela garantia de liberdade? Como podem invadir um país em busca de armas fictícias de destruição em massa ao lado de campos de petróleo e deixar uma estrada inteira ser pavimentada com corpos a perder de vista feitos na base da faca?" - e somos lembrados que na mesma época a Bósnia era violentada e estampava os jornais. Mas ao menos a Bósnia é européia - dá ibope!, diria João Cléber.

O que é relatado no filme foi em 1994, mas se esticarmos o braço para o lado, pegarmos um jornal e apenas o folhearmos, certamente encontraremos algum somali ou angolano numa foto da Reuters fugindo de um campo de refugiados para outro. Todo dia aquilo que o filme mostra acontece novamente, numa repetição incessante que até chega à tela do Fantástico, mas segue-se exatamente como a personagem de Joaquin Phoenix prevê: "As pessoas olham, exclamam 'O Horror! O Horror!' e voltam a jantar".


E aqui vem a mea culpa. Não posso me resguardar atrás do recrudescimento do espírito derivado dos anos de exposição à vulgarização da vida, sob pena de incorrer no mesmo erro da secretária de Hitler em A Queda, quando diz que não há desculpa para este tipo de coisa. O filme é impiedoso. As cenas pungentes se sucediam com eficiência na busca pela derrubada de minha indolência: o contraste do ônibus acomodando brancos retirados do Hotel pela ONU e deixando-o recheado de mortos-vivos, o extermínio de crianças para eliminar uma geração, o fornecimento de armas para o exército pelo governo francês, as cenas de colinas verdejantes com a música alegre do começo contrastando com todo o desenrolar do filme... enfim... tudo. Um país movido a suborno para toda e qualquer atividade não poderia existir sem ajuda do mundo, mas quando ouvimos falar da África? Nunca! Mais da metade das pessoas de nosso país certamente acha que aquilo tudo é selva, da mesma forma que os americanos acham que o Brasil é habitado por Blankas, Pelés e Ronaldinhos que andam por aí balançando-se em cipós. Então o pensamento viaja até a personagem de Rachel Weisz em O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener, 2005) e de como eu já me senti envergonhado vendo o que aquela mulher era capaz de abrir mão em função do próximo, mas minha vergonha vendo Hotel Ruanda tomou proporções absurdas. O que me consola é que Paul, assim como eu, no começo tinha a mesma postura de "as coisas se acertam", até perceber que "as coisas se acertam" só se alguém for o sujeito da oração. Caso contrário, não há como as coisas se acertarem; neste caso não há verbo reflexivo nem sujeito indefinido. Desnecessário dizer que o que aconteceu ali tem chance e caminha firmemente para acontecer aqui se não fizermos nada.

As lágrimas de raiva e vergonha não conseguiram se conter no final, assumo, assim como o punho cerrado. A parte boa disto é que estas lágrimas trouxeram consigo a certeza de que, se hoje realmente me sinto menos humano, ainda consigo manter aqui dentro a sensibilidade para dizer "Porra... eu me importo!" e começar a tentar fazer algo para meu semelhante.

Se tivesse visto este filme uma semana e meia antes, diria que foi o melhor de 2005. Ao menos para mim.