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terça-feira, 21 de setembro de 2021

Tragam-me a cabeça do Hulk!

Preço da gasolina explodindo, conta de energia derretendo a fiação, carne de 2ª a peso de ouro e uma única pergunta monopoliza meus pensamentos: por que diabo a Abril trocou a cabeça do Hulk na edição #30?


Publicada originalmente em The Incredible Hulk #279 (jan/1983), a capa é de autoria de Greg LaRocque. Nela, o Gigante Verde comemora com seus camaradas a aguardada anistia pelo governo americano. O semblante ameno e pacífico explicita o então recém alcançado controle do Dr. Bruce Banner sobre o monstro —os velhotes de plantão leram isso na Hulk #24. Mas, por alguma razão que só Uatu conhece, a capa nacional trazia uma montagem do Verdão com feições mais brutais e grotescas. Como na fase pré-Hulk inteligente.

Em geral, as capas da Abril sempre traziam alterações, em maior ou menor grau. Boa parte era necessária para diagramar a ilustração original com o título do gibi, o logo da editora, o preço e a chamadinha. As futucadas iam do cenário ou cor de fundo até o corte de elementos do desenho. Nessa capa mesmo foram pro caixa prego Reed Richards, Anjo, Quasar, Pássaro da Neve e o Gárgula II à esquerda e, à direita, a Felina ao lado da metade incolor do Sasquatch (efeito colateral da proximidade com a Mulher Invisível?). Retoquezinhos marotos, pro forma. O meio-Langkowski deixo na conta do prazo.

Nunca foi segredo —ao menos, para quem frequentava importadoras e, definitivamente, após a Internet— que a redação da Abril adorava "criar" as próprias capas. Era uma festa só.

Quem não lembra quando o Super-Homem do Garcia-López aterrissou no Nessie do Rei Kirby?



Ou aquela vez em que o Capitão América caiu na 23 de Maio, em São Paulo?


Não é à toa que as capas dos gibis de super-heróis da Abril sempre deram uma nova dimensão à expressão "acho que já vi isso antes". Déjà vu com esteróides.

Na capa de Hulk #30 é evidente que houve mais um desses recortes enxertados na arte original. Ou a simples intervenção de um "decorador" —os artistas das editoras que corrigem as falhas de traço geradas pelo processo de edição, tipo a perna do Wolverine, essas coisas. E no expediente da HQ, constava um núcleo de criação até bem generoso. Mas considero pouco provável, já que aqueles caras mal e mal conseguiam desenhar um Homem-Aranha. Um Homem-Aranha, pelamor do Tio Ben. É visível ali que tanto a expressão quanto o escalpo do Hulk são bem desenhados e finalizados.

O que chama atenção são as sombrancelhas enormes se confundindo com o sombreado cavernoso em torno dos olhos, dando um quê de sinistro à carranca. É Hulk de várzea. Jim Starlin é o 1º corno que me vem à cabeça, mas vai saber.

Me limito à pergunta universal: por que?

Será que a redação da Abril queria suavizar para o leitor médio (ainda) a transição do Hulk burro para o Hulk inteligente? Ou acharam aquele Hulk do LaRocque com cara de bonzinho demais e quiseram aumentar os níveis de testosterona-gama?

Ou, malandramente, tentaram se aproximar do visual do Gigante Verde da série animada exibida aqui na mesma época?



Não duvido, principalmente levando em conta o apelo comercial que os "heróis da TV" tinham com a Abril, algo até comentado pelo Jotapê Martins no podcast do Universo HQ (na marca dos 11'44''). Aliás, tanto Jotapê quanto o veterano editor Leandro Luigi Del Manto, donos de memórias prodigiosas, certamente responderiam essa de bate-pronto.

Por enquanto, a questão segue pegando poeira nos Arquivos de Casos Inexplicáveis da Abril...

...a menos que algum bom(a) samaritano(a) compareça com a elucidação via comentários ou e-mail, no qual serei imensamente grato e ainda parafrasearei o Golias Esmeralda na mesma edição.

domingo, 15 de março de 2020

Balão, papel & tesoura


De todas as idiossincrasias editoriais da Abril nos quadrinhos da Marvel e da DC, uma das mais curiosas, pra mim, era a supressão de textos. O objetivo, reza a lenda, era dar conta da enorme carga narrativa em formatinhos de 13,5 x 19 cm contra os folgados 17 x 26 cm dos originais. Dependendo do roteirista, não era mole mesmo. Chris Claremont que o diga. E Marv Wolfman, Steve Englehart, Len Wein, Bill Mantlo e mais uma caçambada de autores não muito conhecidos pela objetividade e poder de síntese.

Mas isso era só um detalhe de um expediente muito corriqueiro nas redações: o copy desk. Resumindo muito (ops), é a lapidação de um material previamente redigido - seja uma notícia, um artigo ou os diálogos de um gibi - até se tornar dinâmico e palatável para o leitor médio. É um processo que envolve várias etapas, da edição à revisão à remontagem à diagramação.

No caso das HQs da Abril, isso ia de um extremo ao outro. Podia ser uma adaptação comprimida de uma fala sem grandes prejuízos à trama, a omissão de referências a eventos não publicados anteriormente (criando uma bola de neve inevitável) ou a alteração e até a remoção de balões/recordatórios, já arranhando a lataria do material original - como foi o caso do nosso estimado Galactus multifacetado de John Byrne.


E, claro, isso chegava ao famigerado corte de páginas. Em alguns casos, parecia que o gibi era editado pelo próprio Edward Mãos-de-Tesoura!

Hoje, alguns leitores antigos não apenas defendem a supressão de texto, como vão além e elogiam os cortes de páginas da Abril. A alegação é que supostamente melhorava leituras que sofriam com textos prolixos e expositivos. Pura Síndrome de Estocolmo quadrinhística, ao meu ver.

Sempre preferi apreciar uma obra em sua totalidade, com todos os seus requintes e anacronismos, erros e acertos, partes legais e partes chatas (e o que seria das partes legais sem as partes chatas?). Enfim, a experiência Chris-Claremont-on-crack completa.

Essas malandragens de edição já existiam antes da Abril. Em muitos aspectos, a EBAL, a Bloch e a RGE faziam até pior. Mas também é inegável que foram os editores/tradutores Jotapê Martins e Hélcio de Carvalho que "aperfeiçoaram" o artifício quando a Abril adquiriu o licenciamento da Marvel em 1979. Inclusive isso é destrinchado sem nóias pelo próprio Jotapê quando está com bons entrevistadores (ao invés de ser lambido por algum youtuber) chegando mesmo a oferecer uma outra perspectiva do complexo cenário da época.

A verdade é que a cronologia fidedigna era impossível de ser transposta e mantida. O relógio estava correndo e algo precisava ser feito. Eram homens desesperados em tempos desesperados, goddamned! Mas esse é assunto pra outra hora.

(em alguma realidade paralela, Jotapê e Hélcio não copydeskaram nada, SAM, Heróis da TV e Capitão América foram canceladas após 6 meses e ficamos muitos anos sem material Marvel/DC no Brasil... acredite se puder)

A única certeza que tenho é da minha imensa admiração pelos letristas da época - profissionais como Edison Gasparim, Lilian Mitsunaga, João Anselmo N. Menezes, o pessoal do Estúdio Artecômix (de Jotapê, Hélcio e Dorival Lopes - os dois últimos fundadores da Mythos), etc. Mesmo recebendo um conteúdo consideravelmente reduzido, é quase inacreditável o fato de tudo aquilo ter sido feito à mão, balão por balão, recordatório por recordatório. Imagino que os ataques de LER eram frequentes ali - e não me refiro à leitura.

Mais embasbacante ainda são os tradutores e letristas franceses da Les Éditions Héritage, que, também à mão, traduziam tudo verbatim do original, sem pular uma única palavra e sem encostar nos balões e recordatórios. E ficava um troço espetacularmente zoado.




Pensou que aquele "F" era de "Brasil"?

Ps: esse post não foi copydeskado. Mas tenha uma ótima...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

¡Viva la "Revolución"!


E foi mesmo uma bela "tomada". Lembrei daquela piada dos dois advogados ("vamos tomar alguma coisa?").

E vai tentar debater, se informar sobre dados de tiragens, critérios de setorização, cancelamentos...


Ironias do destino extraídas de Novos Titãs #22 (janeiro/1988). Via Editora Abril, que também promovia onerosas revoluções.

Ps: não foi o Jotapê quem traduziu a recente Absolute Sandman? Será que se reservou alguma participação especial em homenagem aos velhos tempos?