Os Novos Mutantes - Entre a Luz e a Escuridão, de Chris Claremont & Bill Sienkiewicz. Esse encadernado é parte de um sonho tão antigo que só poderia ser datado via carbono-14.
Ok, ok... esse sonho vem desde 1989, quando peguei numa banquinha O Incrível Hulk #72, formatinho da Abril em que os mancebos mutunas estreavam seu novo desenhista em muito boa companhia: o Verdão em plena fase John Byrne e um divertido Roger Stern escrevendo seus Vingadores da Costa Oeste - que considero o molde utilizado pela dupla Giffen-Dematteis em sua posterior "Liga tosca". Pois bem, meu bem.
Já na 1ª folheada fiquei assombrado com a pegada vanguardista de Sienkiewicz, mesmo nas dimensões pra lá de compactas do gibizinho. Já conhecia seu estilo peculiar pelo Cavaleiro da Lua fase Moench na revistinha do Capitão América, mas pesava lá a forte influência de Neal Adams e da estética de violência urbana do início dos anos 1980. A diferença daquele momentum criativo para o state d'art atingido em Novos Mutantes chega a ser objeto de estudo.
Em que pesem termos como "atmosfera de pesadelo" e "tensão psicológica" surgindo na mente sem aviso, a fluência gráfica de Sienkiewicz vai muito além disso. Há tantas informações por quadrinho, passagens entre-quadros e splash-pages quanto possível antes da coisa degringolar pro surrealismo.
De quebra, um posfácio muy espirituoso de 5 & 20, mais esboços e estudos de personagens nos extras. Menção honrosa para os bons esforços do líbero Bob McLeod na edição Anual, lá pela meiota do livro, pra dar uma quebra.
E Chris Claremont. O homem era uma força da natureza - isso não é necessariamente um elogio. Na década de 80 ele estava em todo lugar, inevitável. Talvez seja o escritor que melhor se adequou aos ditames da indústria e quid pro quo. Com todos os vícios e virtudes, ignorando categoricamente qualquer tentação autoral, virou um zeitgeist perneta dos quadrinhos mainstream daquela era.
Sua passagem pelo roteiro da jovem equipe não foi diferente. Nesse compilado de nove edições, Claremont brilha tanto quanto apronta: meu absurdo favorito acontece justo na edição da capa, New Mutants #21, quando Illyana, durante um pega com o alien biomecânico Warlock, ressurge inexplicavelmente num traje espacial segurando alguma metranca futurista - uma "looonga história" revelada apenas na edição #63, quatro anos mais tarde.
Toda essa quizumba e uma análise minuciosa do run de Claremont-Sienkiewicz você encontra no belíssimo artigo de Greg Burgas para o CBR.
Pelas minhas contas, em cinco anos, 3/4 daquele sonho foram realizados. Nada mal. Falta então apenas mais um...
...que, por acaso, segue como uma das maiores injustiças do mercado editorial brasileiro de HQs.

Vamos lá, Panini. Você consegue. Nos faça acreditar mais uma vez.















