sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Gatos de destruição em massa


Nobel de Física em 1933, o austríaco Erwin Schrödinger foi autor de algumas das bases essenciais da Mecânica Quântica, notadamente na equação que leva seu sobrenome. E é também o grande arquiteto por trás da aguardada, adiada, quase mitológica, última edição de Planetary, a fantástica aventura de Warren Ellis e John Cassaday pelos espólios da história humana. Já vimos séries atrasarem, outras atrasarem mesmo e outras atrasarem pra valer, mas como Planetary não teve igual. Foram parcas vinte e sete edições em dez anos - começou bimestral em abril de 1999, foi suspensa no período 2001-2003, retornando esporadicamente sempre que as agendas de Ellis e Cassaday davam uma folga. E assim foi até a atual #27, lançada com um gap de três anos desde a última edição (outubro/2006).

Dessa forma, cada novo capítulo lançado era algo especial lá fora. E, para os leitores brasileiros, quase um evento (um evento fechado num clubinho ultrarrestrito, mas ainda assim um evento). Após uma pífia tentativa de periodicidade pela Pandora Books, a série foi compilada em dois encadernados pela Devir (Mundo Estranho e O Quarto Homem). Em seguida, a Pixel Media retomou o título do ponto onde a Devir parou, finalmente alinhando a série com a cronologia estática lá de fora. O que foi, provavelmente, a única incursão 100% bem sucedida da Pixel Magazine durante seu tempo de vida.

Com os títulos da WildStorm agora sob a tutela da Panini, Planetary se encontra atualmente nos planos a longo prazo da editora (que, nesse primeiro momento, publicará do selo apenas Frequência Global). Segundo o Oggh, Planetary será uma das séries que a Panini "dará sequência" - o que é ótimo, mas... só falta mais uma edição para ser lançada. Não seria melhor desancar isso logo de uma vez?

Ou que tal fazer um esforço em nome do bom gosto e relançar tudo desde o início naqueles TPB's Deluxe que ficam lindos meio tombados na estante? Eu compraria.


Planetary #27 fecha com chave de ouro a saga dos arqueólogos do impossível. Funcionando mais como um epílogo do clímax que foi a edição anterior (com a vitória/vingança definitiva de Elijah Snow sobre Randall Dowling, dos Quatro), a conclusão pode não ser tão espirituosa e evocativa quanto foi a de Y: The Last Man, mas, sem dúvida, é tão emocionante quanto.

De fato, essa é sua maior característica: emocionar mesmo naquele oceano de retórica e racionalidade impostas pela presença gigante de Snow. Até a durona Jakita aparece bastante fragilizada em determinado momento. Contudo, a edição pertence mesmo ao Baterista. Ele é o condutor da trama, despejando compulsivamente toneladas daquela fringe science que se tornou a especialidade de Ellis após todos esses anos. Só que o McGuffin da vez é virtualmente inalcançável, reluzindo num terreno extremamente arriscado, até para os padrões do Planetary.

É nessa hora que eles mergulham de cabeça em mais um dia no escritório, imbuídos pela velha dedicação suicida e o foco obsessivo, supermotivados pela única crença de Snow: "Esse é um mundo estranho. Vamos mantê-lo assim."


Schrödinger é quem dita as regras nessa reta final. Por ironia, o bom doutor tem seu experimento mais pop e surrealista - o Gato de Schrödinger - convertido por Ellis numa espécie de força da natureza destruidora de multiversos. O certo é que a teoria, em princípio até lúdica, nunca foi visualizada nesse ângulo tão hardcore. E isso garante um longo solo do Baterista.


Spoilers
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Nada mais justo do que encerrar (em definitivo?) a trajetória do Planetary resgatando um antigo membro. Ambrose Chase nunca saiu dos planos de Elijah Snow, se tornando uma citação recorrente ao longo das edições. Ellis já vinha rascunhando esse timing há tempos, sem sombra de dúvida. Por isso a cena-referência em Planetary #24 soa tão genial agora.


Recapitulando, Chase foi aparentemente morto em missão (Planetary #9), numa sequência altamente sugestiva.


Isso foi em abril de 2000. O que impressiona - além da pegada cinematográfica de Cassaday - é a criação consciente do "plot Ambrose", deixado em aberto para ser revisitado apenas na edição final. Coisa linda de ler.

O gancho relacionando a natureza dos poderes de Chase com o dilema temporal foi muito bem sacado. De uma libertinagem criativa meio trekkie, até.

O uso do Gato como recurso dramático é avassalador (bem como o fato de, após 1 ano, só terem mapeado 20% do banco de dados de Dowling). Uma viagem temporal que pode sugar e colidir todos os futuros possíveis de volta ao segundo em que a máquina do tempo foi acionada é o pesadelo de H.G. Wells. Você viaja até o futuro ou os futuros possíveis infinitesimais viajarão até você? Levando em conta que as partículas subatômicas - a matéria-prima da Mecânica Quântica - são afetadas pela observação, parafraseio o Baterista: qual a razão de tudo acontecer se já aconteceu? O colapso total seria inevitável.

O que tornaria injustificado o De Volta para o Futuro 2 (heresia!), mas que também coincide com a lógica do filme. Segundo o Batera, uma máquina do tempo só pode deslocar alguém até o ponto onde uma máquina do tempo foi ligada pela primeira vez (princípio da causalidade, discorrido quase didaticamente no ótimo thriller espanhol Los Cronocrímenes). Então, esse limite não se aplicaria ao DeLorean mais famoso do cinema - não importa onde no passado, ele sempre será a máquina do tempo ligada pela primeira vez.

A história também pode ser encarada como mais uma referência de Ellis aos comics americanos. Dessa vez, não a algum personagem, mas a um lugar-comum (Chase, o herói "ressuscitado"). Obviamente, com a inteligência e a classe que faltaram aos universos - e aos escritores - tradicionais.




Essa capa merece um quadro... assim que eu tiver uma parede grande o suficiente

A publicação errática ao extremo se tornou uma tradição de Planetary com o passar do tempo. Acabei me acostumando. E imagino que quem chegou até aqui também. A revista mudou bastante desde aqueles primeiros números, como que traçando uma grande analogia à nossa própria vida nesses últimos dez anos. Muitas coisas aconteceram desde então. Entre uma e outra, uma nova edição aparecia de repente e sempre encontrava seu lugar.

A viagem chegou ao fim e a ficha ainda não caiu - nem sei se vai. Planetary é fora do comum até pra fazer falta.

Obrigado Ellis, obrigado Cassaday.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

APOCALIPSE AFTER


Dia desses, numa roda virtual de amigos, comentei que David S. Goyer "é tão diretor quanto o Maradona é técnico". Pesou na equação sua desenvoltura na direção perigosa de Blade Trinity e Alma Perdida, que deveria se chamar "Hora Perdida" (mesmo com um pôster subornando simpatia). Também opinei que, como roteirista, ele tem a qualidade de tornar eventuais furos irrelevantes diante do objetivo principal. Se não tããão irrelevantes, pelo menos uma coisinha assim, digamos, mais perdoável se a farra for boa no saldo final. Obviamente que, quem execrou Dark Knight inteiro porque não recebeu um relatório detalhando tudo que o Coringa fez depois da invasão à festa, não vai concordar. Mas numa análise simplista, porém limpinha, é mais ou menos isso aí: o cara supervaloriza a relação dos personagens com a premissa e isso é quase tudo o que importa. Os detalhes discutíveis ele deixa para os fóruns de discussão.

O que me faz imaginar se ele não seria o escritor perfeito para algo como Heroes. No mínimo, a salvaria do tédio total. E antes que me esqueça, ao inferno com Heroes. Essa eu abandonei faz tempo - embora considere seriamente um comeback depois que a Mia, de Californication, abriu os horizontes da Clair-bear. Cruzamentos interséries são o que há!

Sempre achei que uma boa edição e uma equipe competente de revisores resolveriam as deficiências de Goyer. E a teoria se confirmou há pouco: FlashForward busca essa mão-de-obra especializada na melhor fonte da atualidade, a indústria americana de telesséries. Os dois primeiros episódios são as melhores coisas que já vi com ele na direção, fácil. Narrativa fluída, promissora, climão de apocalipse-na-hora-do-rush, personagens e plots bem conduzidos e triangulados com facilidade notável.

Goyer, que, ao lado de Brannon Braga, adaptou o roteiro baseado no livro de Robert J. Sawyer (nunca fui apresentado), realmente fez um trabalho muito bom... para o que se espera dele. O terceiro episódio, dirigido por Michael Rymer, é ainda melhor no que diz respeito à cadeira do chefe. Mas vamos dar um desconto. Não dá pra exigir que ele encarne um Orson Welles de uma hora pra outra.


A premissa de FlashForward reafirma o apelo comercial do sci-fi dos dias atuais. O gênero está mais em alta do que nunca, à frente de temas místicos/sobrenaturais e até dos policiais, que até pouco tempo eram os hors concours da audiência. Muito disso se deve ao sucesso Lost, da mesma ABC que adquiriu a opção de FlashForward da HBO. As duas séries não dividem apenas a network, mas também o conceito básico: distorções no tempo servindo como pano de fundo para dramas pessoais. Adicione à fórmula uma boa dose de suspense e ação policial e temos aí um case pop funcional e impecável. Até agora, pelo menos.

No plot central, todas as pessoas do planeta sofrem, ao mesmo tempo, um apagão que dura pouco mais de dois minutos. É mais do que o suficiente para uma tragédia generalizada. Aviões caem aos milhares, hospitais se transformam num caos, o trânsito vira uma Death Race 2000. Nas ruas, o cenário é de horror. Corpos amontoados, carros destruídos, prédios em chamas. Após o susto inicial, descobrimos que o apagão não foi um simples lapso de tempo. Em comum, todos tiveram uma premonição: uma visão de si mesmos, seis meses no futuro. Ou seja, um flash forward (duh!). Enquanto o mundo vai se recuperando, o FBI inicia uma investigação, encabeçada pelo agente Mark Benford (Joseph Fiennes), que, na sua visão, estará muito próximo de desvendar o fenômeno. A trama ganha ares de conspiração quando a câmera de segurança de um estádio registra uma figura misteriosa caminhando tranquilamente durante o apagão.

O maior gancho da série é o impacto psicológico do evento na vida de cada um. As reações são tão variadas quanto fascinantes - desde o flash forward do personagem Aaron Stark, onde a sua filha aparece viva, quando ele acreditava que ela havia morrido no Afeganistão, passando pelo Dr. Bryce Varley, que estava prestes a cometer suicídio quando viu que tudo iria melhorar no futuro, até a agente Janis, que estará grávida mesmo que no presente não tenha nenhuma expectativa disso acontecer. Mais complicado é o flash da esposa de Benford, a Dra. Olivia (Sonya Walger, a Penny, de Lost), que se viu corneando o marido dali a seis meses - mesmo o amando tanto quanto, sei lá, a Penny ama o Desmond.

Mas em termos de "dead line" (literalmente), ninguém bate o drama do agente Demetri, parceiro de Benford, que não vê nada em seu flash.


Na ficção, distúrbios temporais sempre dão boas deixas para zoar com a percepção do espectador. Pequenos detalhes que vão se concretizando como uma versão Godzilla do déjà vu mais forte que você já teve. Em FlashForward, os detalhes das previsões vão dando as caras mesmo quando o personagem em questão os evita - ou seriam eles desencadeados justo porque o personagem tenta evitá-los? Esse tipo de discussão não tem fim. Se continuar sendo bem desenvolvida, a ideia pode render mais que os seis meses regulamentares.

Também existem várias convergências com Fringe, especialmente no terceiro episódio. Quando Benford viaja até um presídio alemão para negociar informações cruciais com um prisioneiro (um velho nazi escaldado), a lembrança de Olivia Dunham confrontando o assustador David Robert Jones, na mesma situação, é quase imediata.

A abordagem "distorção temporal vs. prazo limite" já rendeu ótimas séries no passado, como Seven Days e a saudosa Early Edition, embora seja em Lost que FlashForward encontre sua maior referência - bem mais no estilo narrativo irresistível do que em easter-eggs largamente viralizados.

Certamente, há muitas possibilidades a serem exploradas naquele universo. Afinal, só agora tivemos o primeiro flashback em FlashForward...

domingo, 11 de outubro de 2009

ARKHAM TOWN


Era pra ser só mais um trailer ao acaso, mas a sensação foi de um cruzado no queixo. Dois motivos: é instigante e é mais uma refilmagem de um filme de Romero - um, aliás, que eu não assistia há muito tempo. The Crazies resgata a produção homônima de 1973, agora com direção de Breck Eisner (Sahara) e roteiro adaptado por Scott Kosar (O Operário) e Ray Wright (Pulse). No elenco estão Timothy Olyphant, Danielle Panabaker (do Sexta-Feira 13 2009) e a Radha Mitchell, cuja presença, pra mim, é quase um selo de garantia.

A atriz é pé-quente e já salvou de adaptação de game a filme de crocodilo, que são trasheiras (quase sempre) assumidas. Tomara que a bola da vez não seja a exceção da regra.

O filme original é uma pérola pouco conhecida do mestre Romero, perdida ali, entre os clássicos A Noite dos Mortos-Vivos e Despertar dos Mortos. Virou cult. No Brasil, foi batizado O Exército do Extermínio, título que coincide com uma curiosidade pra quem enxergar na nova versão um mero clone de Extermínio: o filme não tinha zumbis e sim infectados raivosos barbarizando uma cidadezinha. Mas ao contrário do petardo de Danny Boyle, os infectados mantêm a inteligência (mas não a sanidade).

Certamente merece uma reprise, tão logo eu termine de... hã, adquiri-lo.




Espero que não seja um daqueles casos de trailers incrivelmente eficientes. The Crazies estréia nos EUA em 26 de fevereiro de 2010. No Brasil, do jeito que a coisa anda, talvez depois da Copa.

E vamos peneirando por uma versão R5 de Zombieland...

sábado, 3 de outubro de 2009

UM ZUMBI NO CAMPO DE CENTEIO


Criador de uma verdadeira mitologia moderna, George A. Romero resgatou os zumbis do regionalismo arcaico que os envolviam. Desde 1968, ele vem universalizando as criaturas, num avanço através de fronteiras culturais e midiáticas que ganhou contornos de cruzada pessoal. Diferente de outras figuras míticas e folclóricas, os conceitos dos zumbis não ecoaram por séculos ou milênios de superstições populares. Ao retirar o morto-vivo das aldeias haitianas, Romero repaginou tudo, das regrinhas mais básicas ao contexto social, há somente quatro décadas atrás. Porém, ele também foi deixando uma trilha de questões não resolvidas pelo caminho. Fora o ciclo de contaminação e o ponto fraco dos zumbis, pouco foi descoberto daí em diante. Perguntas do tipo quem são/de onde vieram/pra onde vão, ainda persistem.

É certo que o elemento desconhecido conferiu um charme único às criaturas. Com o tempo, virou parte integrante do cenário, tão importante quanto a análise do comportamento humano em situações de crise e o sangue jorrando com nacos de carne mastigada (slurp). Romero brincou com a curiosidade do público e instigou mais ainda. Já em seu clássico inicial, A Noite dos Mortos-Vivos, ele colocava sobreviventes se afogando num oceano de informações desencontradas - desde radiação trazida por um satélite retornando de Vênus e um vírus transmitido pelo ar até a clássica punição divina: "quando o inferno estiver cheio..."

E assim caminham os mortos-vivos, felizes da vida (ou da morte) com sua origem à francesa. Isso, pelo menos até julho do ano que vem.


"The Living Dead" será o debut de Romero na literatura e vem sendo saudado como o Corão zumbi. Segundo a editora britânica Headline, o livro "contará a história completa dos mortos-vivos: como eles foram criados, o que podem e o que não podem fazer". Tudo começa em San Diego, quando um cadáver levanta durante uma autópsia e começa a andar, enquanto um repórter de Atlanta transmite flashes do caos tomando conta do globo. O editor Vicki Mellor prevê para o próximo ano uma onda de livros com zumbis (em contraponto aos incontáveis livros com vampiros publicados em 2009) e que certamente será encabeçada pelo mestre Romero. Faz sentido, afinal, seria algo como um CliffsNotes para o Necronomicon escrito pelo próprio capeta.

Romero finalmente - ou infelizmente - vai esclarecer a tão misteriosa origem de seus zumbis. Após tantos anos, o mestre vai vender o ouro pelo vil metal ($300.000 só de adiantamento pelo livro e mais uma sequência) e provavelmente não irá superar a expectativa, esse monstro obscuro que ele mesmo alimentou por décadas a fio.

Meu sentimento a respeito é meio dúbio. Lerei, obviamente. Até porquê, já faz algum tempo que minha imaginação implora por algo mais que o (ótimo) Guia de Sobrevivência a Zumbis. Contudo, não estou, nem nunca estarei preparado para tal desmistificação. Não se pode ter tudo, mesmo quando se tem.

Info: The Guardian

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

DISTRITO BLOMKAMP


2009 ainda não acabou, mas já é de Distrito 9. É violento, gore, divertido, impactante, dramático, consciente e tão desgraçadamente humano que não tem como superar - pelo menos no que diz respeito ao campo do sci-fi. Um filmaço. E sem diretor ou atores famosos. Particularmente, nunca tinha ouvido falar de Neill Blomkamp. Este cineasta sul-africano já pode ser considerado a melhor surpresa do gênero nos últimos sessenta e cinco milhões de anos.

Vale a pena conferir no YouTube não só os excelentes virais do filme (coisa rara no formato), como também os quatro curtas anteriores do diretor. O primeiro deles, Alive in Joburg, de 2005, já trazia vários conceitos de Distrito 9.

Logo abaixo:



O filme estreia no final de outubro. Até lá, novas reassistidas pra ajudar a assimilar a porrada.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

ULTIMATES ASSEMBLE!


Logo no início de Ultimate Comics Avengers #1, um estarrecido Nick Fury resume o sentimento dos leitores (em geral) após Ultimates 3 e Ultimatum - ambas escritas, ou melhor... excretadas por Jeph Loeb e seus desenhistas sem-mente de estimação. Mais que isso, a cena ilustra o espanto do próprio roteirista Mark Millar frente ao caos instaurado em sua cria mais notória. É a velha e boa ironia escocesa de volta ao batente Ultimate - e pra quem sabe ler, um %@#& é letra. Ainda olhando para um Triskelion em reconstrução, Millar-Fury emenda: "eu sumo por dez minutos e o lugar inteiro vai pro inferno". Pode crer que ele não estava se referindo só ao QG dos Supremos.

Após aquela fatídica primeira edição de Supremos 3 eu achei sinceramente que Joe Quesada estava de sacanagem. Que aquela escalaçãozinha Loeb/Madureira rebuscando toda a tralha noventista da era Image foi mais um plano sórdido do rotundo editor. Autosabotagem declarada para, talvez, enxugar a linha Ultimate, mantendo só o baratinho e rentável Homem-Aranha teen - com entregas sempre no prazo e um comercialmente saudável público unissex. Conspiração demais? Pode até ser, mas nada explica essa line-up sucedendo uma das duplas mais sensacionais dos quadrinhos da última década. E mais uma vez, Quesada e sua gangue fizeram muito bem aos cofres da Marvel e muito mal pro bolso do leitor.

É um baita administrador, vamos combinar. Pode não ser o cara que controla o abre e fecha da carteira, mas é quem a enche. Não fosse ele, a Marvel, se ainda existisse, seria propriedade da Wal-Mart ao invés da Disney. Vi-va.

Mas antes de tecer previsões apocalípticas sobre como a casa do Mickey irá descaracterizar o Universo Marvel ao longo dos anos que virão, vou tentando entender como Millar vai restaurar sua fabulosa sátira ao american way. Porque tá difícil. Mas essa primeira (e curtíssima) edição já traz algumas pistas.


O plot básico é aquele novelão cheio de cliffhangers pontiagudos que Millar fez tão bem nos dois primeiros volumes dos Supremos. Começa com Fury sendo cicceroneado pelo Gavião Arqueiro de volta ao Triskelion ("quase 75% operacional"), não para reassumir seu velho posto, mas para resolver uma antiga merda envolvendo o Capitão América, agora um renegado. Corta para um dia antes. Cap e Gavião estão em perseguição aérea a uma unidade de assalto da I.M.A. (Ideias Mecânicas Avançadas - até onde sei, em seu debut no universo Ultimate). O ato termina com Cap confrontando seu mais clássico inimigo, o Caveira Vermelha, e também com uma revelação-bomba daquelas de fazer o chão desaparecer. Existem novelas na Escócia?

Coube ao artista Carlos Pacheco a difícil missão de substituir Bryan Hitch e dar vazão às epifanias cinematográficas de Millar. Pacheco sempre foi competente, mas vive hoje seu melhor momento, de longe. Da grandiosa capa e do Triskelion de tirar o fôlego na primeira página à sequência de ação desenfreada da metade pro final, o cara foi arrasador. Existe alguma emulação da linguagem visual de Hitch aqui, mas usada como uma ferramenta para deslanchar sua própria dinâmica. Os melhores momentos, claro, são os que trazem recursos mais hollywoodianos (pular com uma moto de um edifício em direção a um helicóptero e uma queda livre sem paraquedas nunca soam cansativos), neste ponto lembrando um pouco a antológica "edição Matrix" do volume um (Ultimates #8).

O texto nem um pouco sutil de Millar traz de volta aquele coice anárquico dos personagens e seu eterno sarcasmo em relação à malaquice republicana dos EUA. Como não podia deixar de ser, o astro principal é o Cap, com as conhecidas frases de efeito reafirmando suas convicções de macho-man militarista ("que tipo de garota é detida por uma bomba?" - adivinhe a autoria e ganhe uma bandeirinha do exército confederado) e seu modus operandi discutível no combate ao terror - vide a cena em que ele joga soldados inimigos desacordados de um helicóptero a trocentos pés de altura com a serenidade de quem põe o lixo pra fora.

A interação com Pacheco destila fluidez e ainda resgata aquelas boas sequências de briga quadrinhística, como no momento em que o Cap leva uma surra homérica do Caveira. Destaque também para o diálogo de Carol Danvers, atual comandante da SHIELD, tentando em vão reconvocar Stark, que está chapado num puteiro bondage.

Uma primeira edição que é um colírio para os olhos e uma injeção de adrenalina para a alma. É Millar no seu mais tradicional: iniciando um arco no auge e cheio daquela energia insana e irrefreável para terminar Deus sabe como. Só não entendi porque mantiveram a infame máscara do Gavião. Apesar dele ter participação ativa nas cenas mais eletrizantes, não dá pra olhar pro personagem sem antes confundi-lo com algum integrante do Youngblood. Provavelmente Millar esteja preparando alguma catarse antes de desmascará-lo definitivamente - bem como a bagunça que fizeram durante a sua "saída de dez minutos" - e talvez assim, deixar de vez os anos noventa lá nos anos noventa.