segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Eu podia tá matando


Arrancaram Jack Bauer da aposentadoria. Após quatro episódios, já dá pra arriscar os primeiros chutes sobre a oitava temporada de 24: dinâmica mais cadenciada que a habitual, mas diametralmente impactante. E o início é surpreendente. Quando Jack apareceu pela primeira vez, pensei até que fosse um daqueles telefilmes família da Hallmark. Numa cena idílica, o ex-agente brinca com sua netinha enquanto assistem desenhos na TV. Ele parece finalmente levar a vida que sempre quis desde a primeira temporada. É a primeira vez que o vejo começar um desses "dias no escritório" totalmente absorto, descansado, em outro lugar. Curioso. Será um retrato da América atual, exausta de crises, ameaças e más notícias diversas lotando a grade da CNN? Seja como for, não demora até a vida real bater à porta de Jack respingando sangue e pronta para desconstruir o sonho americano, mais uma vez. Na trama, agora em NY, ele investiga uma conspiração para assassinar Omar Hassan, presidente de uma república fictícia simulando o Irã, e acaba cruzando com uma operação da máfia russa envolvendo canisters com urânio enriquecido. Familiar...

Não será fácil chegar ao nível da excelente temporada anterior, mas há várias pistas promissoras aqui. Os destaques até agora: a CTU reativada com tecnologia agressiva, uma desatualizada Chloe O'Brian (minha xodozinha nerd) e, especialmente, Renee Walker. Após um dia inteiro nadando em sangue ao lado de Jack Bauer, a ex-FBI agora é uma máquina de triturar suspeitos. A última cena do quarto episódio arrepiou Jack, eu, Leatherface, Jason e o Dr. Lecter. Essa promete.

Bem sacada a participação de Mykelti Williamson como o novo diretor da CTU, Brian Hastings. Ao que tudo indica, é mais um burocrata carreirista que ainda vai bater muito de frente com Jack. Particularmente, também gostei do retorno da Presidente Allison Taylor (a ótima Cherrie Jones) e da raposa velha Ethan Kanin. Mas fica sempre a torcida pela volta, mais uma vez, de Aaron Pierce e do saudoso Mike Novick.

De ruim: o plot-blackmail de Dana Walsh, analista sênior da CTU. Não dá pra crer que ela ajuda a salvar o mundo num minuto e abaixa a cabeça pra um zé-ninguém no minuto seguinte. Claro, tudo vai depender do background que ela tanto teme, mas, por enquanto, inverossímil. Outra coisa que desceu meio quadrada foi em relação à Kim (aaa... Delisha Cuthbert). Logo ela incentivando o pai a largar tudo pra sair por aí arriscando a vida?

Aliás, pra quem assiste Californication, vai ser meio esquisito ver o maluco Lew Ashby (Callum Keith Rennie) como um dos gângsteres barra-pesada. É só olhar pra cara dele que eu lembro das dúzias de mulheres peladas dançando ao som de Black Label Society...

E finalmente, um Prinze em Nova York. Mal me recuperei da notícia que revelou sua presença na série. 24 é a antítese de tudo aquilo que Prinze Jr. participou na sua vida profissional. Achei que nunca iria convencer como o "superior" de Jack, como noticiaram por aí. E achei também que não convenceria se tentasse parecer durão. Felizmente, não é nem uma coisa, nem outra. No papel do agente Cole Ortiz, ele está na mesma posição que Jack ocupava nas primeiras temporadas. Mas claro, longe daquela ousadia limítrofe: aqui ele é a correção em pessoa, só agindo by-the-book. Mas desde que conheceu Jack já distorceu um pouco seus princípios (por uma boa causa). A boa cena em que ele escolhe a alternativa à trair sua equipe reafirmou a integridade do personagem. Em contrapartida, o lado galã enraizado no ator continua lá, nos momentos com Dana, sua noiva.

Pelo visto, o maior trunfo do Prinze é esse mesmo: encarar o papel com seriedade, sem exageros e, principalmente, sem tentar ser o que não é. Os prognósticos são bons. Da última vez que ele esteve em Manhattan pelos meios pop...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Marvel Zombies des-animator


Com ferramentas simples (YouTube, criatividade & falta do que fazer), o user whoiseyevan resolveu homenagear os Marvel Zombies, bem como as capas putrefactas do artista Arthur Suydam. Para tanto, injetou uma overdose de trioxyna nas intros de dois desenhos desanimados da Marvel - aqueles, do estúdio Grantray-Lawrence - e do desenho clássico do Quarteto pela Hanna-Barbera.

Sabiamente, ele manteve as trilhas originais embalando toda a tosqueira gore. O resultado é hilário, outstanding, awesome, ducaraio e outros predicados igualmente lisonjeiros.


Thor!


Coronel América!


Os Quatro Fantásticos!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Dia de gibi novo

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Agitar uma seção nova: review de gibi novo! Eu sei, eu sei, não precisa me indicar ao Eisner de ideia do ano. O que não falta por aí é blog e fórum comendo HQ com farinha tão logo elas saem da gráfica. E não sou lá um privilegiado quando se trata de timing. Nas publicações da Panini, por exemplo, o canela verde aqui pena de 10 a 15 dias de delay em relação à São Paulo, mesmo nos títulos mensais mais carne de vaca. Mesmo assim, demanda há. Volta e meia eu fico na mão com a falta de análises críticas para algumas revistas. Uma opinião terceira nunca é demais pra ajudar na decisão de desembolsar uns suados merréis.

Toda referência é valiosa, até quando não se concorda com nada do que o sujeito escreve - a velha regra do "se ele não gostou, então vou achar legal... é cofre". Faço isso frequentemente (menos o uso do termo "é cofre"). Quase sempre fico satisfeito.

Outra coisa que acho importante (e não recebi um centavo pra isso, tsc) é tirar um pouco da pecha negativa que colocam sobre as revistas mix. Algum fanboy desvairado gritou lá do fundo "revistas mix são uma merda!", e todas as outras codornas fanboys saíram ecoando a sentença tresloucadamente por aí. O boca-a-boca em tempos de internet tem proporções godzíllicas e tsunâmicas. Só que o mercado nacional não é forte ao ponto de individualizar tantos títulos ou evitar o mix dos mesmos. E recorrendo ao chavão, "é um mal necessário".

Num mercado saudável, ainda teríamos as revistas próprias do Hulk e do Demolidor figurando tranquilas ao lado do Homem-Aranha e Wolverine. Não veríamos arcos consagrados lá fora desembocando por aqui em escalações levanta-vendas (Legião dos 3 Mundos em Superman/Batman?), nem cancelamentos sumários até de mixes teoricamente pop, como foi o caso da Marvel Action.

Com o atual êxodo de leitores para a terra prometida dos encadernados e one-shots (e para a terra encantada dos scans), fica mais fácil compreender algumas ações "obscuras e malévolas" das editoras - que são comércio, afinal. Muitos dos que abandonaram as linhas mensais reclamam da qualidade, mas não é bem assim. Tem muita coisa bacana sendo lançada, ainda que ao lado de algumas toscas. Essa má publicidade faz outros potenciais leitores virarem as costas e perderem excelentes momentos dos quadrinhos regulares. E pode acreditar, eles ainda existem.

Tudo bem que dói a retina ver o excelente Superman de Geoff Johns impresso ao lado das péssimas histórias da Supergirl (que tipo de gente consome isso nos EUA?), mas as últimas fases do Azulão são tão boas que se sobressaem de qualquer jeito. É assim também com o visceral O Velho Logan, de Mark Millar e Steve McNiven. O estiloso Demolidor de Ed Brubacker. O impagável Hércules de Greg Pak e Fred Van Lente. O frenético Motoqueiro Fantasma de Jason Aaron. E por aí vai.

Mas posso estar equivocado sobre tudo o que escrevi aqui (e ali) e as HQs mensais no Brasil já estão mesmo condenadas, bem como a impressão em papel de um modo geral. Futurólogos e early adopters queimam seus sutiãs todos os dias em praça pública e o Kindle já está aí, falta só melhorar.

Enfim, questões para serem discutidas numa roda de amigos com uma cerva gelando no bucho - de preferência, num mix de assuntos.


Marvel MAX #76


Formato americano, 100 páginas, papel Pisa-brite, R$ 7,50

Um dos poucos títulos que ainda compro todo mês desde a 1ª edição. Até hoje não teve um único número com 0% de aproveitamento, mesmo nas fases modorrentas do Wisdom e do Daimon Hellstrom. Chegamos então ao número 76 sem quedas aparentes de ritmo e quase sem sentir a longevidade do título. Elogio maior, impossível. Marvel MAX é festa punk.

Apesar da longa ausência de Tim Bradstreet nas capas da revista, das quatro publicadas nesta edição, a escolhida é realmente a melhor. Greg Land zumbificando o cartaz de Extermínio ao melhor estilo Arthur Suydam. Danny Boyle e Alex Garland aprovariam.

Aliás, essa edição em particular lembra certos jornais cariocas, como O Povo e Notícias Populares. Se torcer, jorra sangue. Às cotações:

Keith Richards - ♠ ♠ ♠ ♠ ♠
Lemmy - ♠ ♠ ♠ ♠
Angus Young - ♠ ♠ ♠
Slash - ♠ ♠
Chimbinha -


Marvel Zombies 3 #2

Ninguém esperava muito da terceira parte da saga dos Zumbis Marvel (nem eu!). Sem a sensacional dupla Robert Kirkman/Sean Phillips, surpreende que ela tenha chegado à sua 2ª edição (creditada erroneamente como "Marvel Zombies 3 - 1") mantendo um nível bem interessante. Sem poder contar com personagens de peso, o roteirista Fred Van Lente teve mais liberdade para injetar gore no universo 616, o Universo Marvel normal - afinal, ninguém iria sentir falta dos buchas aqui desmembrados e devorados sem dó.

Na premissa, alguns Zumbis Marvel conseguem chegar à Terra 616 para "espalhar o evangelho". Logo em seguida, uma missão é organizada pela A.R.M.A.D.U.R.A. (Agência para Rastreio e Monitoração Ampla e Duradoura de Urgências em Realidades Alternativas - os caras da Panini estão ficando bons nisso!). O objetivo é ir ao universo zumbi e buscar amostras essenciais para a cura da praga. Para diminuir os riscos, a agência recruta dois seres artificiais para o serviço: Aaron Stack, o Homem-Máquina, e seu antigo interesse robótico, Jocasta. Chegando lá, eles se deparam com uma grande organização de supervilões zumbis liderada por um Wilson Fisk desmorto.

Além do humor doentio de praxe, o roteiro de Van Lente rende algumas boas sacadas, como a cultura de clones e a xenofobia crônica de Aaron em relação aos "carniformes". Ele beira a ultraviolência, especialmente quando se vê livre para matar à vontade ("isto não é o universo zumbi... é o paraíso dos robôs"). E respeitando a cronologia, Van Lente manteve o background dos zumbis referenciando um momento do crossover Zumbis Marvel: Uma Noite Alucinante, quando o Rei foi fuzilado pelo Justiceiro.

O traço solto e sem firulas de Kev Walker lembra bastante o de Sean Phillips. Propositalmente, com certeza. E a tosqueira splatter está toda lá, cheirando a produção B da Troma Films - vide a cena escrotíssima envolvendo as entranhas do Abutre (imagina o John Malkovich ali). Nesse quesito, Walker já era especialista de longa data, visto que entre seus trabalhos antigos estão duas capas do podrão Autopsy (Severed Survival e Mental Funeral).

Até agora, um bom trabalho da dupla, que dribla a falta de hype com talento e desencanação. E uma carnificina das boas.

♠ ♠ ♠



Foolkiller: White Angels #1

Foolkiller foi criado em 1974 e ao longo dos anos ganhou várias versões e alter-egos. A repaginada mais relevante, no entanto, foi a última, pelo roteirista Gregg Hurwitz. A princípio, ele virou só mais um copycat do Justiceiro da versão MAX. Rendeu um razoável arco de estréia e segue agora de maneira estupidamente instigante. Nem imagino o que Hurwitz andou lendo ou assistindo nesse meio-tempo, mas a sua evolução na construção de climas e cenários é escandalosa.

No início da trama acompanhamos um ex-detento recém-saído da prisão e as dificuldades que enfrenta para se reintegrar à sociedade. A narrativa é tão eficiente em cativar o leitor, que fica difícil não torcer pelo personagem quando ele finalmente começa a dar a volta por cima. O clímax é fora-de-série. Hurwitz ainda introduz um grupo neo-KKK chamado Anjos Brancos, fornecendo o gancho necessário para o Matador de Idiotas intervir com som e fúria.

Os desenhos agora estão por conta do ótimo Paul Azaceta (B.P.R.D.: 1946), que se revela muito mais adequado àquele universo do que Lan Medina, o artista anterior. Com um estilo rotoscópico que lembra o de Michael Gaydos (Alias), ele também conta com um bom repertório de recursos sequenciais. Dá um show já nas duas primeiras páginas, com cinco quadros retangulares cada, ilustrando cenas do mortificante cotidiano da penitenciária.

Um excelente (re)começo. Tomara que a dupla mantenha o nível - e saiba tirar um bom proveito da participação especial do Justiceiro, mais pra frente.

♠ ♠ ♠ ♠



Terror Inc. #4

A história de um vândalo em pleno ano de 455 que, entre mortes, estupros e pilhagens, mata uma besta-fera demoníaca e acaba amaldiçoado a apodrecer em vida eterna. Uma espécie de Highlander sem problemas com decapitações, mas com o prazo de validade pra lá de vencido. Com o tempo, ele aprende alguns macetes sobre sua nova condição, como o estranho poder de incorporar órgãos e membros "extraídos" de outros seres. E até mesmo possuir novos corpos para assim descartar o anterior, deteriorado. Dois milênios depois, ele continua no ramo do assassinato - agora por contrato e sob a alcunha de Sr. Terror.

A primeira edição de Terror Ltda. foi bem curiosa e intrigante. Apesar de parecer um carnaval de vísceras e fluídos, o roteiro lovecraftiano de David Lapham consegue tecer um bizarro conto de origem para o personagem (certamente inspirado no abominável Dr. Phibes). Em particular, na fase passada em 1164, nas gloriosas batalhas contra os Cavaleiros das Sombras. Décadence avec élégance pra chuchu.

Mas verdade seja escrita... ainda que divertidas, as demais edições são grafismo puro e desmedido. Tem mais sangue e toucinho exposto aqui do que numa versão director's cut estendida de A História de Ricky! E mesmo a reviravolta preparada por Lapham (ganhador de um Eisner) soa bastante previsível.

Nada que a desqualifique, porém. O personagem é carismático e tem nuances interessantes, bem como a sua agente, a cool e gostosa Sra. Primo. Os bons traços de Patrick Zircher (Thor: A Era do Trovão) fecham a conta e garantem a perversão.

♠ ♠ ♠



Punisher MAX #54

Tem algo esquisito no ar quando um vilão como o Barracuda ganha a simpatia irrestrita do leitor. O cara não é como o Dr. Destino, o Darth Vader ou qualquer desses arquétipos icônicos. É vilão nível humano mesmo. Genocida canibal estuprador matador de criancinhas - sempre com um largo sorriso no rosto e uma piada pronta. Desconcertante. Mas não se engane, é só a diversão de Garth Ennis entre uma e outra incursão mais séria do Justiceiro.

Por isso que, mesmo sob um contexto tão barra-pesada, os dois arcos com participação do Barracuda, mais a sua minissérie solo, têm sabor inequívoco de entretenimento fácil. A walk on the wild side. E absolutamente imperdíveis.

Esta conclusão do arco A Longa e Fria Escuridão não nega sua vocação. São dois homens de ferro determinados a fazer o que for preciso para quebrar um ao outro, física, estratégica e psicologicamente. Quando o barraco explode de vez na reta final, são necessárias as duas últimas edições inteiras para estirpar na porrada a tensão absurda que foi construída. Uma pequena obra-prima demencial do reverendo. Amém.

Claro que sem o traço estilizado do croata Goran Parlov, o Barracuda não seria metade do que é - a primeira edição desse arco, desenhada pelo veterano Howard Chaykin (American Flagg) soou como uma introdução de luxo, mas na verdade teve pouco a ver com o personagem. A arte de Parlov está mais refinada do que nunca e se supera nas páginas 81-84 com os quadros em flashback destrinchando a vida caótica do vilão.

Vendo as cenas criadas pela dupla, sempre imagino como se fossem de algum longa animado hardcore. Sonhar não custa nada, afinal.

♠ ♠ ♠ ♠ ♠

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Zombie Lab


A notícia chegou como um zumbi se esgueirando nas sombras pronto pra dar o bote. Segundo o Bloody Disgusting, a MTV está planejando uma série de TV baseada no universo de Despertar dos Mortos - o Dawn of the Dead, de George A. Romero. Aquele do shopping. Clássico que transcendia o gênero com uma visão ácida sobre os vícios e maneirismos da sociedade e que ainda é mais atual do que nunca. O que imediatamente deixa qualquer associação com a MTV com jeito de hoax piadista. O post que reporta a história foi misteriosamente apagado, porém ainda consta no cache do Google.

É possível que seja apenas um rumor infundado, mas geralmente o site não dá bola fora. E como a network ainda está em supostas negociações pelos direitos do filme, o "efeito mordaça" é bastante comum nestes casos.

Dawn of the Dead foi coverizado por Zack Snyder em 2004, numa versão polêmica entre os cultuadores do original. Um dos motivos foram os novos zumbis velocistas, ao contrário da letargia massiva de outrora (reflexo da crítica social contida no roteiro). De um lado, tecidos e músculos em franca decomposição e articulações quase travadas com a rigidez cadavérica; de outro, um arranque de deixar o Usain Bolt comendo poeira. Muitos acharam um contrasenso. Mas isso deve chegar ao fim se a notícia sobre o projeto da MTV se confirmar. A nota destaca que a série terá tanto zumbis rápidos (os recém-infectados, ainda com alguma integridade física) quanto os zumbis lentos vintage (à medida que forem apodrecendo), o que faz muito mais sentido do que o tradicionalismo xiita dos fãs. Uma ótima ideia de fato.

Contudo, mesmo sendo otimista, dificilmente a MTV - que não produz nada decente desde os anos 90 - faria alguma diferença substancial no gênero. Nem mesmo algo próximo da excelente Dead Set, no mesmo formato. Atualmente, tudo na emissora é voltado para uma fatia específica do público - e fica impensável uma série sobre cadáveres canibais com uma introdução ao estilo dos reality shows que entopem sua programação: "quatro amigos (jovens e riquinhos) presos num shopping em Orange County, dividindo dramas, zumbis, amores & confissões".

Claro que tudo mudaria de figura se trocassem o M-T-V por H-B-O. Mas por enquanto, nada que tire a primeira ordem do dia até agora: a adaptação de The Walking Dead por Frank Darabont via AMC, com estreia prevista pra esse ano.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Bem-vindo à selva


Deu na Wired: com Avatar, James Cameron pode mudar para sempre a maneira como você assiste filmes. No mínimo, o épico 3-D deu um passo gigantesco nesse sentido. E mais importante, imprimiu no expectador um novo padrão de como ele quer consumir cinema daqui pra frente. Porque não dá pra sair indiferente de uma sessão de Avatar, como se fosse apenas um vislumbre do que virá num futuro provável. Com o filme, Cameron agendou a revolução pra ontem.

A excelente matéria da Wired não fica apenas na superfície do resultado final. Documenta a gestação de Avatar desde os primórdios da carreira do diretor. O ano era 1977. Cameron (ex-caminhoneiro e ex-estudante de filosofia) e um amigo acabavam de sair de uma sessão de Star Wars. O eterno hit de George Lucas tinha sido um entretenimento memorável para o amigo, mas para James Cameron foi muito mais que isso. O universo criado por Lucas bateu fundo na sua alma. Naquele momento ele decidiu que também queria criar o seu.

Vinte e três anos, um andróide e um transatlântico mais tarde, Cameron se reunia com engenheiros da divisão de câmeras HD da Sony, em Tóquio. O objetivo era criar uma nova tecnologia, transcendendo mais uma vez o (não tão) simples ato de se fazer cinema. As especificações da encomenda são fascinantes, mas o principal era que o cineasta finalmente agregava as condições necessárias para empreender seu Big Bang particular. E conseguiu.

Tudo o que se refere ao esmero plástico e técnico de Avatar é impecável. O 3-D digital imposto por Cameron ao estúdio e às redes de cinema norte-americanas são imediatamente justificáveis, ainda que tenha sido idealizado para exibição no IMAX. Pandora, a lua onde se passa o filme, é peculiar e funcional, uma exuberante explosão de vida, saturada de cores, nuances e grandiosidade - nada mal pra quem só havia trabalhado com o feioso LV-426, um planetóide rochoso e estéril que nem era cria dele. Sua população nativa, os Na'Vi, têm expressões faciais e linguagem corporal convincentes na maior parte do tempo e a fauna e a flora local são variações quase oníricas do que temos aqui, nesse planetinha solitário mas cheio de imaginação. É a Floresta Amazônica curtida em Santo Daime. Um espetáculo visual e sensorial que só Hollywood mesmo.

O roteiro de Cameron há muito já não traz mais o punch do novo. E isso já é de velho. Porém, nunca deixou de ser eficiente e isso se aplica aos escritos de Avatar. É uma aventura pop redonda "com mensagem" e várias daquelas convenções que marcaram época no mainstream, mas que jamais envelhecem nas mãos de um craque. Houve até um bafafá questionando a originalidade do filme, relacionando desde gibis obscuros (que eu li, é bacanão e tem até o Jimi Hendrix!) e animações meia-boca até o capista do Yes (semelhança, de fato, impressionante), além de um top 10 temático inteiro. Da minha parte, todas as espinafradas se esvaem no momento em que se pergunta: e ele fez um bom uso desses elementos?

Além do quê, tenho lá minhas próprias teorias pós-filme. Avatar é O Novo Mundo, do cultuado Terrence Malick. Similaridades permeiam desde a narração em off do protagonista, às duas visões da trágica história de Pocahontas até às circunstâncias profissionais dos dois cineastas: Cameron retorna após um sumiço de doze anos; Malick praticamente inventou os sumiços de mais de dez anos.

Quando o assunto é estilo, o diretor cita a si próprio na brilhante produção de Aliens, O Resgate - nestes termos, a primeira cena de Sigourney Weaver em Avatar é tão sutil quanto um show do Motörhead. Estão lá os mariners vindos direto do Texas, ajustando seus arsenais para a batalha iminente (por sinal, o ameaçador Cel. Miles se equipara ao Cel. Koobus, de Distrito 9). As unidades robóticas, os jatos, helicópteros e bombardeiros parecem da mesma indústria de armas e, mais uma vez, uma corporação sem rosto manipula as cordas do outro lado da galáxia.

No mais, é puxar pela memória. Cameron resgata aqui a latina durona Vasquez (Michelle Rodriguez), o heróico Hicks (Sam Worthington) e o corporativo Burke (Giovanni Ribisi), fora Sigourney Weaver no melhor papel de Sigourney Weaver. Ele poderia fazer mais meia dúzia de filmes assim, que ainda pediríamos continuações.

Avatar, embora estrondoso, não deve fazer James Cameron quebrar a banca de novo, nem sair abocanhando geral na cerimônia da academia. Mas o filme trouxe a "normalidade" de volta à vida do cineasta, que já conversa abertamente sobre seus próximos projetos - um bom sinal de que a espera será menor até a próxima escala. E, brincando, ainda rendeu o blockbuster do ano.

Rapaz, como esse cara fez falta!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MEME: mulheres de quatro... ou melhor, de cinco autores

Conheço o Luwig já há um bom tempo. Começamos nesse lance de blog mais ou menos na mesma época. Escrevemos bastante - no caso dele, com quantidade e qualidade caminhando lado a lado. Seus textos apaixonados sobre HQs me inspiraram a seguir em frente, mesmo nos momentos de baixa. Indiretamente, ajudaram a manter este blog vivo (ou morto-vivo). Suas dicas e análises me ensinaram a ser um apreciador melhor e acredito que fizeram o mesmo por muitos outros. Tudo isso sem se render ao umbigocentrismo e ao alpinismo virtual. Muito menos à superficialidade com que o tema é frequentemente abordado.

Em outras palavras, é um cara que admiro. Mas não sabia que era tão vingativo! Como diz a velha máxima, aqui se faz, aqui se paga.

O que não significa que a sua intimação seja algum sacrifício. Pelo contrário, além de um exercício agradabilíssimo, é pretexto dos bons para revisitar aquele harém de coelhinhas a que tanto me rendi em tempos idos. Fechou? Não, fácil demais. O cabra paraibano atravessava uma pororoca de epifanias românticas - comparável, em efeito químico, à ingestão da produção anual da fábrica da Garoto, aqui em Vila Velha - e tascou uma pecha de personalidade e inteligência às homenageadas (e lá se vai meu plano de começar pela Psylocke). Felizmente, esse perfil tridimensional só deixou a lista mais interessante, contestadora e sexualmente revolucionária. Sutiãs em chamas e tudo o mais.


Então, ferro na boneca... a seguir, cinco autores que, ao inverterem a ótica masculina, desvendaram um pouquinho desse gigantesco mosaico que é a essência de uma mulher.

Aliás... quatro autores. Um é o couvert da casa. Nada mais justo pra quem ficava parado nas curvas-com-óculos da Tina.

("ficava"?)



As mulheres dos Hernandez Bros.


Love & Rockets foi o grande marco dos quadrinhos underground dos anos oitenta. Não só porque o sci-fi anárquico dos irmãos Mario (no início), Gilbert e Jaime Hernandez já adiantava desde 1981 o que cults afamados como Tank Girl fariam anos mais tarde. Ou porque o minimalismo visual e narrativo de Jaime arrancou elogios rasgados de Robert Crumb e Alan Moore ("é um dos quadrinhistas mais significativos do século 20 no topo de sua forma, onde cada linha é um casamento entre o clássico e o cool"). Nem porque a revista foi o equivalente dos quadrinhos ao do-it-yourself do punk 77, inspirando toda uma geração de jovens quadrinhistas a sair da fila de espera das grandes editoras e abraçar a independência. Mas porque suas personagens tinham vida própria.

Na ordem da imagem: Isabel "Izzy" Reubens, Margarita Luisa "Maggie" Chascarrillo, Esperanza Leticia "Hopey" Glass e Beatríz "Penny Century" García se tornaram maiores do que o título original. Como declarou Jaime anos depois, "passei a me preocupar mais com os personagens do que com os foguetes". Logo elas ganharam um spin-off chamado Mechanics, que depois virou Locas, cujo merecido sucesso ofuscou até L&R. Não é pra menos, elas eram irresistíveis. Passavam por fases, humores, mudavam de opinião tanto quanto de cabelo, engordavam (justo a Maggie), erravam e, não raro, persistiam no erro. Gente comum.

Izzy tinha uma bagagem de vida mais barra-pesada (com direito a um aborto entre uma coisa e outra) e era uma deprê profissional, mas nunca deixava escapar uma boa piada. Em contrapartida, a ensolarada e estonteante Penny era uma loira nada burra cujo esporte preferido era fazer o mundo se arrastar aos seus pés. Já as protagonistas Hopey e Maggie tinham uma dinâmica à parte.

Hopey era um espírito livre, deliciosamente impulsiva e provocadora. Tocava baixo nas piores bandas punk da Califórnia. Amante ocasional de Maggie (muito menos do que gostaria), diplomada em se esquivar das responsabilidades da vida adulta e, principalmente, das investidas de Terry, a guitarrista da sua banda.

Maggie, ex-mecânica de foguetes (lembra do "Rockets" do título?), era a girl next door doce e encantadora, mesmo quando estava fora de forma - ou principalmente quando estava. De todas, era a única que ainda tentava levar uma vida normal e careta. O que não a impedia de, vez ou outra, acordar com a cara enfiada numa privada depois de uma balada mais hardcore. Garotas comuns são o que há.


E não dá pra deixar de citar as amigas luchadoras Gina e Xo, protagonistas da excelente graphic Whoa, Nellie!. Ideal para relembrar o sentido da verdadeira (quando não ingênua) amizade e de como pode ser complicado lutar por seus sonhos, literal ou idealizadamente. E leitura obrigatória para conhecer um pouquinho mais dessas fascinantes mulheres de Jaime Hernandez.



As mulheres de Terry Moore


Década de 90. De um lado, tínhamos a era mais sexista e estereotipada dos quadrinhos injetando testosterona adulterada na cabecinha dos leitores. De outro lado, porém, tínhamos Terry Moore e sua cria máxima, Estranhos no Paraíso, correndo corajosamente por fora do sistemão (o que não o impedia de recorrer a ele às vezes). A série era sinônimo de independência, tanto no quesito criação-distribuição, já que era autofinanciada, quanto no perfil realístico de suas personagens. Sem exagero: relendo hoje as aventuras de Francine e Katchoo se tem uma boa pista de onde Brian Michael Bendis tirou inspiração para sua fabulosa Jessica Jones, em Alias, e Brian K. Vaughan para o mulherio insandecido de Y - The Last Man.

A série era repleta de nuances de ação, drama, romance e humor, mas o que importava mesmo era o triângulo/rolo amoroso central. A sexy, temperamental e determinada Katina "Katchoo" Choovanski ("The Original Angry Blonde!") é perdidamente apaixonada pela insegura Francine, sua melhor amiga, enquanto David é caidaço pela loira - não raro, parecia um intruso desastrado na relação ou mesmo um alter-ego do autor. Nada fica muito claro no início, mas depois as coisas vão se acertando - e se complicando, com o aparecimento da demoníaca Darcy, irmã de David, diretamente ligada ao passado escabroso de Katchoo.

Terry Moore concluiu (maravilhosamente) Estranhos no Paraíso em 2007, deixando uma legião de órfãos mundo afora. A série, aclamada pela crítica e premiadíssima (Eisner incluso), foi uma das melhores e mais sedutoras HQs publicadas nos anos 90. Lá por 94-97, então, não tinha páreo. Moore estava em sua melhor fase como desenhista e, como escritor, vivia criando ganchos de cair o queixo. Era quase impossível largar um arco antes da conclusão e imagino que a espera entre uma história e outra devia ser insuportável.

"Imagino", porque só fui completar a leitura há relativamente pouco tempo. A publicação da série no Brasil foi bastante irregular. Trafegou pela Abril, Pandora Books, Via Lettera e HQM, compilada sem muito critério em minis, álbuns e pocket-books.

Nada que uma edição brazuca da colossal Strangers in Paradise - Omnibus não resolvesse. Eu pediria falência feliz.



As mulheres de Craig Thompson


A esta altura, todos os grupos de discussão já devem ter exaurido o assunto. Retalhos (Blankets, 2003) cativou meio mundo e metade do outro com uma entrega e sinceridade poucas vezes vista nos quadrinhos ou mesmo na literatura, digamos, mais convencional. Se existe alguém que não foi arrebatado em alguma das 600 páginas do livrão de Craig Thompson é porque tem um bloco de gelo no lugar do coração. A sensibilidade e a resignação com que o autor olhou para sua infância e adolescência não pareciam a de um cara de só 28 anos. No mínimo, o dobro disso.

O trato com o sexo oposto, neste caso, tem fundamentos totalmente pessoais para o autor - porém, é justamente a parte em que mais me identifiquei. Nós, da turma do cromossomo Y, não somos tão diferentes assim. Aposto que muitos outros se identificaram também. Porque a paixonite terminal do jovem Craig pela suave e enigmática Raina é puro deslumbramento e projeção. Típico daquela idade. O diferencial (e aí já não sei quantos continuaram se enxergando ali) é que dali ele mergulhou fundo na idealização. E isso costuma doer mais que o Merthiolate da época. Dificilmente acaba bem. Nietzsche e aquela coisa sobre se fortalecer mandam lembranças.

Claro que é uma visão unilateral de um cara sobre uma garota que ele julga perfeita até em suas imperfeições (e o monólogo de Robin Williams em Gênio Indomável me vem à cabeça agora). Mas se encaixa neste contexto do meme se pensarmos que também é uma característica feminina inconsciente. Raina é Alison, Amy e aquela garota que o Marcelo Rubens Paiva viu passando num ônibus. Essas são eternas. Principalmente porque não sabem disso.

Acho que tenho que comentar da mamãe Thompson também. Apesar de subserviente ao puritanismo da igreja e ao autoritarismo do marido, salvou os traseiros do pequeno Craig e do seu irmãozinho de uma bela surra. Sempre que podia, contemporizava os ânimos, como uma mãe mesmo faz. E também o levou pra passar uns dias com a amiga. O que conta, afinal, é a intenção.



As mulheres de Joss Whedon


Pode se dizer que as mulheres são a base do trabalho de Joss Whedon. Qualquer coisa relativa aos homens é só consequência do que elas fazem. Demorou pra eu me convencer que o cara que repaginou Buffy, a Caça-Vampiros tinha desenvolvido um filão criativo de credibilidade. Mas a verdade é que, no pouco que vi da série, a protagonista não tinha nada de santa e nem de longe dava vazão à imagem valley girl da Sarah M. Gellar. Foi um bom sinal, mas não o suficiente pra me tirar o prazer de ignorar o programa.

A ficha só começou a cair após o longa Serenity, que refletiu todos os meus temíveis raios ômega. Avançou em queda livre com a série Firefly, conferida retroativamente, e se estatelou de vez com a surpreendente Astonishing X-Men. Extermínio total de paradigmas - pra não dizer da minha opinião equivocada.

A referência de todo mundo em relação à mulherada da Mansão X estava bem defasada. Grant Morrison? Preciosista demais e se via em cada personagem. Whedon não. Sem levantar bandeiras, ele mandava todas irem à luta. Aumentou o volume nas limitações e nos momentos de fraqueza, capturando a substância daquelas meninas. Mostrou do que elas eram feitas - e não era só de papel. O que ele fez com Emma Frost reluz de tão representativo.

Predadora por natureza, a Catherine Tramell mutante sempre foi retratada de forma unidimensional e vilanizada, o que, no fundo, era só um subtexto para punição e repressão. Por mais que a lingerie com espartilho e as frases clichês de dominatrix fossem uma massagem shiatsu pra este corpo cansado, Whedon, como toda razão e bom humor, ironizou o estereótipo. A ex-Rainha Branca agora utilizava sobriamente seus instintos de fêmea alfa - na maior parte do tempo, mais relevantes do que seus dons mutantes - e não hesitava em adiantar o seu lado. Scott que o diga. Em Astonishing #14 (X-Men Extra #68), ele foi seguidamente atropelado por uma Scania branca com um lindo capô.

Seguindo sua tendência natural para inverter posições (opa!), Whedon atingiu ótimos resultados até em dinâmicas en passant entre coadjuvantes. Foi assim na conversa entre Logan e a novata Hisako "Armadura" Ichiki e com o Fera e a normalmente profissional agente Brand.

Mas o grande achado da segunda temporada de Astonishing foi, sem dúvida, Kitty Pryde. Eu, que nunca gostei muito da personagem, fiquei, arram, surpreendido. Sem mais aquela de teenager modelo de comportamento virginal, emocionalmente frágil e vitimizada. Kitty agora tinha reservas de autoconfiança. Pegou o russo de jeito umas boas duas vezes em poucas edições. Ao longo da saga, confrontou e intimidou até a ameaçadora Emma, que em outros tempos foi a sua antítese literal. Teve moral e atitude suficientes pra justificar as referências mais lisonjeiras. Os créditos pela sequência eletrizante de ação girl-on-girl entre ela e ms. Frost são dos traços abençoados de John Cassaday, mas o toque final foi do Whedon. Classe.

E, pelamordeDeus, nem vou falar do final. Que me perdoem Mark Millar e Bendis, mas os desfechos de Guerra Civil e Invasão Secreta, juntos, não são 1/5 do que Kitty Pryde faz sozinha aqui. Virei fanzão da Lince Negra. Pena que, agora, à distância.

Whedon demonstrou tanta desenvoltura em tridimensionalizar suas garotas que não chegou a ser surpresa quando ele diversificou o cardápio da caça-vampiros. E a vacilante e já empacotada Dollhouse? Essas regras e suas exceções...



As mulheres de Carlos Zéfiro


Ah, os catecismos. Em tempos de sensações indie (Moon & Bá) e pirotecnias plasticamente impecáveis (Grampá), a trajetória e o legado de Carlos Zéfiro soam quase improváveis. Ele era indie autêntico e virtuose apenas nas curvas femininas, mas soube como ninguém dar vazão aos anseios e à imaginação de um povo soterrado numa ditadura militar. Pra muitos, Zéfiro era apenas sinônimo de revistinha de sacanagem, porém, houve uma época em que comercializar putaria, só se fosse na clandestinidade. A sacanagem, por si só, era considerada mais subversiva que sequestrar embaixador norte-americano.

O autor operou ativamente no olho do furacão, de 1948 até o final dos anos 70, mas durante a década de 80 ainda se encontravam nas bancas essas práticas revistinhas - os famosos "catecismos", que cabiam no bolso e assim apelidados porque eram vendidos camuflados em publicações religiosas. Dessa forma, gerações inteiras de moleques hiperativos descobriam a sexualidade pela primeira vez. Antes de comprar a minha 1ª Playboy (aquela da Ana Lima, prima da Druuna), estudei religiosamente nos catecismos. Amém.

Foi justo a Playboy quem desvendou o "Código Zéfiro", numa investigação levada a cabo em 1991. Após quarenta anos se reservando no mais absoluto anonimato, o icônico Carlos Zéfiro, por insistência dos filhos, decidiu finalmente revelar sua identidade ao público. Era o carioca Alcides Caminha, um respeitável funcionário do Departamento Nacional de Imigração. Autodidata no traço, se envolveu com o desenho erótico meio que por acidente e tomou gosto pela coisa. Resolveu vender alguns originais, a receptividade foi positiva, as tiragens aumentaram e o resto é história.

Na época, o funcionalismo público era regido pela antiga lei 7.967, que proibia envolvimento em escândalos. Temendo perder o emprego e, mais tarde, a aposentadoria, driblou a lei adotando o famoso pseudônimo. Criou uma lenda. A antológica entrevista que ele concedeu à revista Semanário, em 1992, tem a história completa.

Alcides também era um compositor de mão cheia. Escreveu algumas canções ao lado de Nelson Cavaquinho, entre elas, sucessos como "Notícia" e "A Flor e o Espinho" ("tire o seu sorriso do caminho/que eu quero passar com minha dor"... linda música). Talento pouco é bobagem.


Tal qual um Nelson Rodrigues dos quadrinhos, Zéfiro era mestre em erotizar situações corriqueiras do dia a dia. Empregadas domésticas, primas, amigas, esposas de amigos, amantes de amigos, cunhadas, professorinhas, beatas, matutas, viúvas, vizinhas e, pasme, até prostitutas. O universo Zefiriano era povoado por mulheres pegando fogo em momentos de pura lascívia. No fundo, era tudo sobre o fascínio que temos por elas. E era uma via de mão dupla, nunca totalmente masculinizada. A bem da verdade, suas mulheres jamais ficavam "na mão" (pelo menos, nos balõezinhos, elas falavam um monte...) e sempre tinham o controle da situação. Zéfiro colocava todas no pedestal.

Vez ou outra, o autor também mudava o target e incorporava outros elementos às histórias (sim, as revistinhas tinham histórias). Um bom exemplo foi a mistura de pornochanchada e comédia popular à Mazzaropi na hilária "Aventuras de João Cavalo", seu maior sucesso de vendas (será que P.T. Anderson toparia filmar?).

Alcides "Zéfiro" Caminha não chegou a colher os louros da fama recém-readquirida, fazendo sua passagem em 5 de julho de 1992 - menos de um ano após ter revelado sua "identidade secreta". Mas era um sujeito modesto e, mesmo com o hype iminente, não se deixou seduzir pelos famigerados quinze minutos. Ao ser perguntado se tinha consciência de que fazia parte da história cultural do país, Zéfiro respondeu: "não ligo muito para isso, não. Com sinceridade. Afinal é muita honra para um pobre marquês. Acho tudo na vida muito efêmero. Hoje se está no apogeu, amanhã no ostracismo e acabou".

Tantas pessoas deveriam seguir esse exemplo...


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A tradição dos memes manda o participante a indicar novos incautos à corrente hellraiser. Sem-expectativa-de-retorno mode on, vamos lá: Rafael Lima, do Na Cara do Gol, Thalita, do Pipoca no Edredom, Jotace, do El Blog de Jotace, Valeria D'Orazio, do Occasional Superheroine, e Becca, do No Smoking in the Skull Cave. Pelo menos, renderam bons links!

Ps: fico devendo menção a alguma autora de quadrinhos. Não acredito que não consegui em pensar em nenhuma...

domingo, 15 de novembro de 2009

BIRTH OF A SPACEKNIGHT


Clique pra ver a arte inteira

Contribuição do desenhista Matt Timson para o projeto em benefício ao grande Bill Mantlo. A concepção é fantástica, mas funciona também como uma triste metáfora à condição atual do roteirista.

Se não fosse por Mantlo (ao lado de Sal Buscema), eu jamais teria lido uma HQ na vida. E nem teria aprendido a ler antes de ensinarem na escola.

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