Mostrando postagens com marcador Kitty Pryde. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kitty Pryde. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MEME: mulheres de quatro... ou melhor, de cinco autores

Conheço o Luwig já há um bom tempo. Começamos nesse lance de blog mais ou menos na mesma época. Escrevemos bastante - no caso dele, com quantidade e qualidade caminhando lado a lado. Seus textos apaixonados sobre HQs me inspiraram a seguir em frente, mesmo nos momentos de baixa. Indiretamente, ajudaram a manter este blog vivo (ou morto-vivo). Suas dicas e análises me ensinaram a ser um apreciador melhor e acredito que fizeram o mesmo por muitos outros. Tudo isso sem se render ao umbigocentrismo e ao alpinismo virtual. Muito menos à superficialidade com que o tema é frequentemente abordado.

Em outras palavras, é um cara que admiro. Mas não sabia que era tão vingativo! Como diz a velha máxima, aqui se faz, aqui se paga.

O que não significa que a sua intimação seja algum sacrifício. Pelo contrário, além de um exercício agradabilíssimo, é pretexto dos bons para revisitar aquele harém de coelhinhas a que tanto me rendi em tempos idos. Fechou? Não, fácil demais. O cabra paraibano atravessava uma pororoca de epifanias românticas - comparável, em efeito químico, à ingestão da produção anual da fábrica da Garoto, aqui em Vila Velha - e tascou uma pecha de personalidade e inteligência às homenageadas (e lá se vai meu plano de começar pela Psylocke). Felizmente, esse perfil tridimensional só deixou a lista mais interessante, contestadora e sexualmente revolucionária. Sutiãs em chamas e tudo o mais.


Então, ferro na boneca... a seguir, cinco autores que, ao inverterem a ótica masculina, desvendaram um pouquinho desse gigantesco mosaico que é a essência de uma mulher.

Aliás... quatro autores. Um é o couvert da casa. Nada mais justo pra quem ficava parado nas curvas-com-óculos da Tina.

("ficava"?)



As mulheres dos Hernandez Bros.


Love & Rockets foi o grande marco dos quadrinhos underground dos anos oitenta. Não só porque o sci-fi anárquico dos irmãos Mario (no início), Gilbert e Jaime Hernandez já adiantava desde 1981 o que cults afamados como Tank Girl fariam anos mais tarde. Ou porque o minimalismo visual e narrativo de Jaime arrancou elogios rasgados de Robert Crumb e Alan Moore ("é um dos quadrinhistas mais significativos do século 20 no topo de sua forma, onde cada linha é um casamento entre o clássico e o cool"). Nem porque a revista foi o equivalente dos quadrinhos ao do-it-yourself do punk 77, inspirando toda uma geração de jovens quadrinhistas a sair da fila de espera das grandes editoras e abraçar a independência. Mas porque suas personagens tinham vida própria.

Na ordem da imagem: Isabel "Izzy" Reubens, Margarita Luisa "Maggie" Chascarrillo, Esperanza Leticia "Hopey" Glass e Beatríz "Penny Century" García se tornaram maiores do que o título original. Como declarou Jaime anos depois, "passei a me preocupar mais com os personagens do que com os foguetes". Logo elas ganharam um spin-off chamado Mechanics, que depois virou Locas, cujo merecido sucesso ofuscou até L&R. Não é pra menos, elas eram irresistíveis. Passavam por fases, humores, mudavam de opinião tanto quanto de cabelo, engordavam (justo a Maggie), erravam e, não raro, persistiam no erro. Gente comum.

Izzy tinha uma bagagem de vida mais barra-pesada (com direito a um aborto entre uma coisa e outra) e era uma deprê profissional, mas nunca deixava escapar uma boa piada. Em contrapartida, a ensolarada e estonteante Penny era uma loira nada burra cujo esporte preferido era fazer o mundo se arrastar aos seus pés. Já as protagonistas Hopey e Maggie tinham uma dinâmica à parte.

Hopey era um espírito livre, deliciosamente impulsiva e provocadora. Tocava baixo nas piores bandas punk da Califórnia. Amante ocasional de Maggie (muito menos do que gostaria), diplomada em se esquivar das responsabilidades da vida adulta e, principalmente, das investidas de Terry, a guitarrista da sua banda.

Maggie, ex-mecânica de foguetes (lembra do "Rockets" do título?), era a girl next door doce e encantadora, mesmo quando estava fora de forma - ou principalmente quando estava. De todas, era a única que ainda tentava levar uma vida normal e careta. O que não a impedia de, vez ou outra, acordar com a cara enfiada numa privada depois de uma balada mais hardcore. Garotas comuns são o que há.


E não dá pra deixar de citar as amigas luchadoras Gina e Xo, protagonistas da excelente graphic Whoa, Nellie!. Ideal para relembrar o sentido da verdadeira (quando não ingênua) amizade e de como pode ser complicado lutar por seus sonhos, literal ou idealizadamente. E leitura obrigatória para conhecer um pouquinho mais dessas fascinantes mulheres de Jaime Hernandez.



As mulheres de Terry Moore


Década de 90. De um lado, tínhamos a era mais sexista e estereotipada dos quadrinhos injetando testosterona adulterada na cabecinha dos leitores. De outro lado, porém, tínhamos Terry Moore e sua cria máxima, Estranhos no Paraíso, correndo corajosamente por fora do sistemão (o que não o impedia de recorrer a ele às vezes). A série era sinônimo de independência, tanto no quesito criação-distribuição, já que era autofinanciada, quanto no perfil realístico de suas personagens. Sem exagero: relendo hoje as aventuras de Francine e Katchoo se tem uma boa pista de onde Brian Michael Bendis tirou inspiração para sua fabulosa Jessica Jones, em Alias, e Brian K. Vaughan para o mulherio insandecido de Y - The Last Man.

A série era repleta de nuances de ação, drama, romance e humor, mas o que importava mesmo era o triângulo/rolo amoroso central. A sexy, temperamental e determinada Katina "Katchoo" Choovanski ("The Original Angry Blonde!") é perdidamente apaixonada pela insegura Francine, sua melhor amiga, enquanto David é caidaço pela loira - não raro, parecia um intruso desastrado na relação ou mesmo um alter-ego do autor. Nada fica muito claro no início, mas depois as coisas vão se acertando - e se complicando, com o aparecimento da demoníaca Darcy, irmã de David, diretamente ligada ao passado escabroso de Katchoo.

Terry Moore concluiu (maravilhosamente) Estranhos no Paraíso em 2007, deixando uma legião de órfãos mundo afora. A série, aclamada pela crítica e premiadíssima (Eisner incluso), foi uma das melhores e mais sedutoras HQs publicadas nos anos 90. Lá por 94-97, então, não tinha páreo. Moore estava em sua melhor fase como desenhista e, como escritor, vivia criando ganchos de cair o queixo. Era quase impossível largar um arco antes da conclusão e imagino que a espera entre uma história e outra devia ser insuportável.

"Imagino", porque só fui completar a leitura há relativamente pouco tempo. A publicação da série no Brasil foi bastante irregular. Trafegou pela Abril, Pandora Books, Via Lettera e HQM, compilada sem muito critério em minis, álbuns e pocket-books.

Nada que uma edição brazuca da colossal Strangers in Paradise - Omnibus não resolvesse. Eu pediria falência feliz.



As mulheres de Craig Thompson


A esta altura, todos os grupos de discussão já devem ter exaurido o assunto. Retalhos (Blankets, 2003) cativou meio mundo e metade do outro com uma entrega e sinceridade poucas vezes vista nos quadrinhos ou mesmo na literatura, digamos, mais convencional. Se existe alguém que não foi arrebatado em alguma das 600 páginas do livrão de Craig Thompson é porque tem um bloco de gelo no lugar do coração. A sensibilidade e a resignação com que o autor olhou para sua infância e adolescência não pareciam a de um cara de só 28 anos. No mínimo, o dobro disso.

O trato com o sexo oposto, neste caso, tem fundamentos totalmente pessoais para o autor - porém, é justamente a parte em que mais me identifiquei. Nós, da turma do cromossomo Y, não somos tão diferentes assim. Aposto que muitos outros se identificaram também. Porque a paixonite terminal do jovem Craig pela suave e enigmática Raina é puro deslumbramento e projeção. Típico daquela idade. O diferencial (e aí já não sei quantos continuaram se enxergando ali) é que dali ele mergulhou fundo na idealização. E isso costuma doer mais que o Merthiolate da época. Dificilmente acaba bem. Nietzsche e aquela coisa sobre se fortalecer mandam lembranças.

Claro que é uma visão unilateral de um cara sobre uma garota que ele julga perfeita até em suas imperfeições (e o monólogo de Robin Williams em Gênio Indomável me vem à cabeça agora). Mas se encaixa neste contexto do meme se pensarmos que também é uma característica feminina inconsciente. Raina é Alison, Amy e aquela garota que o Marcelo Rubens Paiva viu passando num ônibus. Essas são eternas. Principalmente porque não sabem disso.

Acho que tenho que comentar da mamãe Thompson também. Apesar de subserviente ao puritanismo da igreja e ao autoritarismo do marido, salvou os traseiros do pequeno Craig e do seu irmãozinho de uma bela surra. Sempre que podia, contemporizava os ânimos, como uma mãe mesmo faz. E também o levou pra passar uns dias com a amiga. O que conta, afinal, é a intenção.



As mulheres de Joss Whedon


Pode se dizer que as mulheres são a base do trabalho de Joss Whedon. Qualquer coisa relativa aos homens é só consequência do que elas fazem. Demorou pra eu me convencer que o cara que repaginou Buffy, a Caça-Vampiros tinha desenvolvido um filão criativo de credibilidade. Mas a verdade é que, no pouco que vi da série, a protagonista não tinha nada de santa e nem de longe dava vazão à imagem valley girl da Sarah M. Gellar. Foi um bom sinal, mas não o suficiente pra me tirar o prazer de ignorar o programa.

A ficha só começou a cair após o longa Serenity, que refletiu todos os meus temíveis raios ômega. Avançou em queda livre com a série Firefly, conferida retroativamente, e se estatelou de vez com a surpreendente Astonishing X-Men. Extermínio total de paradigmas - pra não dizer da minha opinião equivocada.

A referência de todo mundo em relação à mulherada da Mansão X estava bem defasada. Grant Morrison? Preciosista demais e se via em cada personagem. Whedon não. Sem levantar bandeiras, ele mandava todas irem à luta. Aumentou o volume nas limitações e nos momentos de fraqueza, capturando a substância daquelas meninas. Mostrou do que elas eram feitas - e não era só de papel. O que ele fez com Emma Frost reluz de tão representativo.

Predadora por natureza, a Catherine Tramell mutante sempre foi retratada de forma unidimensional e vilanizada, o que, no fundo, era só um subtexto para punição e repressão. Por mais que a lingerie com espartilho e as frases clichês de dominatrix fossem uma massagem shiatsu pra este corpo cansado, Whedon, como toda razão e bom humor, ironizou o estereótipo. A ex-Rainha Branca agora utilizava sobriamente seus instintos de fêmea alfa - na maior parte do tempo, mais relevantes do que seus dons mutantes - e não hesitava em adiantar o seu lado. Scott que o diga. Em Astonishing #14 (X-Men Extra #68), ele foi seguidamente atropelado por uma Scania branca com um lindo capô.

Seguindo sua tendência natural para inverter posições (opa!), Whedon atingiu ótimos resultados até em dinâmicas en passant entre coadjuvantes. Foi assim na conversa entre Logan e a novata Hisako "Armadura" Ichiki e com o Fera e a normalmente profissional agente Brand.

Mas o grande achado da segunda temporada de Astonishing foi, sem dúvida, Kitty Pryde. Eu, que nunca gostei muito da personagem, fiquei, arram, surpreendido. Sem mais aquela de teenager modelo de comportamento virginal, emocionalmente frágil e vitimizada. Kitty agora tinha reservas de autoconfiança. Pegou o russo de jeito umas boas duas vezes em poucas edições. Ao longo da saga, confrontou e intimidou até a ameaçadora Emma, que em outros tempos foi a sua antítese literal. Teve moral e atitude suficientes pra justificar as referências mais lisonjeiras. Os créditos pela sequência eletrizante de ação girl-on-girl entre ela e ms. Frost são dos traços abençoados de John Cassaday, mas o toque final foi do Whedon. Classe.

E, pelamordeDeus, nem vou falar do final. Que me perdoem Mark Millar e Bendis, mas os desfechos de Guerra Civil e Invasão Secreta, juntos, não são 1/5 do que Kitty Pryde faz sozinha aqui. Virei fanzão da Lince Negra. Pena que, agora, à distância.

Whedon demonstrou tanta desenvoltura em tridimensionalizar suas garotas que não chegou a ser surpresa quando ele diversificou o cardápio da caça-vampiros. E a vacilante e já empacotada Dollhouse? Essas regras e suas exceções...



As mulheres de Carlos Zéfiro


Ah, os catecismos. Em tempos de sensações indie (Moon & Bá) e pirotecnias plasticamente impecáveis (Grampá), a trajetória e o legado de Carlos Zéfiro soam quase improváveis. Ele era indie autêntico e virtuose apenas nas curvas femininas, mas soube como ninguém dar vazão aos anseios e à imaginação de um povo soterrado numa ditadura militar. Pra muitos, Zéfiro era apenas sinônimo de revistinha de sacanagem, porém, houve uma época em que comercializar putaria, só se fosse na clandestinidade. A sacanagem, por si só, era considerada mais subversiva que sequestrar embaixador norte-americano.

O autor operou ativamente no olho do furacão, de 1948 até o final dos anos 70, mas durante a década de 80 ainda se encontravam nas bancas essas práticas revistinhas - os famosos "catecismos", que cabiam no bolso e assim apelidados porque eram vendidos camuflados em publicações religiosas. Dessa forma, gerações inteiras de moleques hiperativos descobriam a sexualidade pela primeira vez. Antes de comprar a minha 1ª Playboy (aquela da Ana Lima, prima da Druuna), estudei religiosamente nos catecismos. Amém.

Foi justo a Playboy quem desvendou o "Código Zéfiro", numa investigação levada a cabo em 1991. Após quarenta anos se reservando no mais absoluto anonimato, o icônico Carlos Zéfiro, por insistência dos filhos, decidiu finalmente revelar sua identidade ao público. Era o carioca Alcides Caminha, um respeitável funcionário do Departamento Nacional de Imigração. Autodidata no traço, se envolveu com o desenho erótico meio que por acidente e tomou gosto pela coisa. Resolveu vender alguns originais, a receptividade foi positiva, as tiragens aumentaram e o resto é história.

Na época, o funcionalismo público era regido pela antiga lei 7.967, que proibia envolvimento em escândalos. Temendo perder o emprego e, mais tarde, a aposentadoria, driblou a lei adotando o famoso pseudônimo. Criou uma lenda. A antológica entrevista que ele concedeu à revista Semanário, em 1992, tem a história completa.

Alcides também era um compositor de mão cheia. Escreveu algumas canções ao lado de Nelson Cavaquinho, entre elas, sucessos como "Notícia" e "A Flor e o Espinho" ("tire o seu sorriso do caminho/que eu quero passar com minha dor"... linda música). Talento pouco é bobagem.


Tal qual um Nelson Rodrigues dos quadrinhos, Zéfiro era mestre em erotizar situações corriqueiras do dia a dia. Empregadas domésticas, primas, amigas, esposas de amigos, amantes de amigos, cunhadas, professorinhas, beatas, matutas, viúvas, vizinhas e, pasme, até prostitutas. O universo Zefiriano era povoado por mulheres pegando fogo em momentos de pura lascívia. No fundo, era tudo sobre o fascínio que temos por elas. E era uma via de mão dupla, nunca totalmente masculinizada. A bem da verdade, suas mulheres jamais ficavam "na mão" (pelo menos, nos balõezinhos, elas falavam um monte...) e sempre tinham o controle da situação. Zéfiro colocava todas no pedestal.

Vez ou outra, o autor também mudava o target e incorporava outros elementos às histórias (sim, as revistinhas tinham histórias). Um bom exemplo foi a mistura de pornochanchada e comédia popular à Mazzaropi na hilária "Aventuras de João Cavalo", seu maior sucesso de vendas (será que P.T. Anderson toparia filmar?).

Alcides "Zéfiro" Caminha não chegou a colher os louros da fama recém-readquirida, fazendo sua passagem em 5 de julho de 1992 - menos de um ano após ter revelado sua "identidade secreta". Mas era um sujeito modesto e, mesmo com o hype iminente, não se deixou seduzir pelos famigerados quinze minutos. Ao ser perguntado se tinha consciência de que fazia parte da história cultural do país, Zéfiro respondeu: "não ligo muito para isso, não. Com sinceridade. Afinal é muita honra para um pobre marquês. Acho tudo na vida muito efêmero. Hoje se está no apogeu, amanhã no ostracismo e acabou".

Tantas pessoas deveriam seguir esse exemplo...


♠ ♠ ♠ ♠ ♠


A tradição dos memes manda o participante a indicar novos incautos à corrente hellraiser. Sem-expectativa-de-retorno mode on, vamos lá: Rafael Lima, do Na Cara do Gol, Thalita, do Pipoca no Edredom, Jotace, do El Blog de Jotace, Valeria D'Orazio, do Occasional Superheroine, e Becca, do No Smoking in the Skull Cave. Pelo menos, renderam bons links!

Ps: fico devendo menção a alguma autora de quadrinhos. Não acredito que não consegui em pensar em nenhuma...

segunda-feira, 29 de maio de 2006

$NIKT!



"No one ever talks about extermination. They just do it. And you go on with your lives, ignoring the signs around you. And then one day, when the air is still and the night is fallen, they come for you. Only then do you realize that while you're talking about organizing and committees, the extermination has already begun. Make no mistake, my brothers, they will draw first blood. They will force their cure upon us. There is only one question you must answer:
Who will you stand with?"


Como o mundo dá voltas. Durante muito tempo, adaptações cinematográficas de histórias em quadrinhos eram consideradas malversação de verbas dentro de Hollywood. Pra cobrir as lacunas no seguimento de ação blockbuster, os estúdios tiveram de fabricar seus próprios super-heróis. O resultado foi a safra de action-heroes dos anos 80 e parte dos 90. Com o tempo, as idéias foram rareando e a sempre crescente demanda por escapismo pueril eliminou essa triangulação criativa (que eu chamo de ágioarzenegger) e foi beber direto nessa fonte que usa colante e cueca por cima da calça. Mas primeiro tiveram de amansar a fera carnavalesca que existe lá. O pacote ganhou uma roupagem mais dark e sóbria (bastiões mitológico-freudianos como Homem-Aranha e Superman são a exceção) e o uso intensivo de CG para tornar o impossível possível. Entre uma coisa e outra, ocorreu um saudável troca-troca (no bom sentido) de posições (eu já disse que é no bom sentido) entre profissionais dos quadrinhos e do cinema.

Ainda assim, uma adaptação dos X-Men soava como um desafio-mor no contexto geral, justamente pela incompatibilidade dos fatores envolvidos. Personagens demais, tempo de menos e, se o diretor não for adepto de Roger Corman, orçamento exorbitante. Resolveram tentar. Tinha tudo pra ser um único longa constrangedor, tosco e fracassado, mas Bryan "Who's your daddy?" Singer provou que sim, era possível. Exibindo poderes mutantes, ele transmutou cash rasteiro e argumento simplório em personagens carismáticos, direção classuda e atmosfera envolvente. Olhando hoje, o filme-debut dos X-Men revela uma malandragem soberba de Singer em maquiar eventuais buracos e limites orçamentários. Tudo isso e mantendo um apelo popular que garantiu a boa carreira nas bilheterias e a inevitável continuação. Roteiro bem acabado, todos os atores principais de volta e um investimento more expensive: X2, foi um filme praticamente perfeito dentro de sua proposta, onde Singer pôde se dar ao luxo de apenas deixar fluir seu inegável talento. Quando as coisas são assim, não há nada a temer. Engraçado como isto se dá de forma quase matemática ("dê-me um orçamento decente, um bom diretor e eu mudarei o mundo" - dogg, filósofo iugoslavo). Para um projeto que já atraiu o interesse até de James Cameron (e ninguém me tira da cabeça que ele desistiu por considerá-lo infilmável), pode-se dizer que os mutantes, antes de tudo, já são vitoriosos por conseguirem concluir sua primeira trilogia, em X-Men: O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006). Hooray!


"Since the dawn of existence, there have always been moments when the course of history shifted. Such a turning point is upon us now. The conflict between the better and worst angels of our very nature. Whose outcome will change our world so greatly... there will be no going back. I do not know if victory is possible. I only know that great sacrifice will be required. And because the fate of many will depend on a few, we must make the last stand."


O processo não foi dos mais harmoniosos. Halle "Cat-Woman" Berry extorquindo atenção, Singer trocando a Mansão X por um condomínio em Krypton, um novo diretor catado às pressas... Achei que a coisa começava a adquirir contornos framboesísticos - impressão logo suplantada por um teaser do caralho que provocou a mesma sensação de quando reencontramos velhos amigos depois de muito tempo. Podia jurar que o espírito "singeriano" ainda estava por lá, em cada cena, em cada frame... do discurso inflamado de Magneto (Ian MacKellen) à voz compenetrada do Professor Xavier (Patrick Stewart), passando pelos urros de Wolverine (Hugh Jackman). No entanto, elementos meio duvidosos também davam as caras. Um roteiro estilhaçado entre uma suposta "cura" para o gene mutante e uma versão da clássica fase da Fênix Negra, enquanto tenta encerrar todo o primeiro momento dos X-Men nos quadrinhos, ainda às voltas com a antiga Irmandade dos Mutantes liderada por Magneto.

E havia a questão do diretor Brett Ratner, que, embora competente, era apenas um operário. Ainda que eu tenha gostado demais do seu trampo em Dragão Vermelho (nada, nada, Ratner superou Ridley Scott de longe na franquia do Lecter), sua missão era simplesmente concluir o trabalho concebido e desenvolvido por um dos melhores diretores da atualidade - servicinho, convenhamos, muito além de sua alçada. Não por acaso, X-Men 3 foi achatado em econômicos 104 minutos, como se o próprio diretor, consciente de seu lugar no Universo, adotasse a postura "fale pouco pra não falar besteira".


Enquanto X2 entrelaçava as subtramas William Stryker/Wolverine's past, X-Men 3 traz uma narrativa com elementos mais heterogêneos. De um lado, a estratégia do governo norte-americano para a contenção mutante trazida a público sob o rótulo de "cura" e do outro, o retorno de uma Jean Grey (Famke Janssen) com TPM suficiente para explodir a Lua. Isso, em particular, foi colocado da melhor maneira possível dentro daquele universo: sai a entidade alienígena incorporadora, entram os bloqueios psíquicos que Xavier implantou em Jean ainda jovem, com o intuito de protegê-la e aos demais de tamanho poder. Decisão necessária ou arbitrária? Xavier excedeu em sua prepotência e privou Jean de escolher seu próprio destino? A interessante questão foi levantada e, após uma ótima cena de discussão com Wolverine, só pude lembrar do Professor X autoritário e (supostamente) manipulador da versão ultimate.

Desde que a sinopse foi divulgada oficialmente, não fiquei muito empolgado com a premissa envolvendo a cura para a mutação. Sendo um admirador das HQs, vejo a principal característica dos mutantes como uma força irreprimível da natureza, um processo evolutivo inevitável. Mesmo assim, fui surpreendido pela funcionalidade de tal artifício. Serviu tanto para forjar uma bela introdução para Warren Worthington III, o Anjo, quanto para garantir seu futuro frente às Indústrias Worthington (mais precisamente, após usar sua mutação para salvar a vida do pai xenófobo). Além, é claro, de justificar a visível relutância em certas cenas que, teoricamente, fariam desta produção o capítulo mais "Jim Lee" da franquia.


"Don't you know who I am? I'm Juggernaut, bitch!"


Pelo que se vê na telona, o orçamento de - dizem - 150 milhões de doletas não pareceram suficientes. Para conhecedores dos quadrinhos então, é algo latente. Será que o Universo X é assim tão caro? Tudo bem, alguns momentos são mesmo de dilatar a pupila na tentativa de assimilar tudo o que está se passando. A antológica seqüência em que Magnus manipula a ponte é a principal delas - poucas vezes uma cena fez tanta justiça à sentença "isto é quadrinhos puro!" Ao mesmo tempo, vemos um Colossus (Daniel Cudmore) sem qualquer função prática, apesar da boa caracterização visual. A coisa chega a resvalar em pura displicência, quando o personagem, em sua forma metalizada, distribui porrada a granel em mutantes peso-pena, desconsiderando totalmente o seu elevadíssimo nível de força. O que nos leva ao juggernaut Fanático (Vinnie fuckin' Jones, man... e sem sotaque!), felizmente aqui, com a finesse de sempre. Pra começar, não há qualquer treta entre ele e o mutante russo. É um crime reunir estes dois num filme e não agitar aquele vale-tudo de trincar placa tectônica. Temos de nos contentar com um baculejo divertidíssimo entre o imparável Juggy e o "nanico" Wolverine na residência dos Grey. Mas é tudo tão breve que chega a ser crueldade com o espectador.

Outro flagrante do capital de giro fantasma é a ausência do Efeito Fênix, marca registrada da personagem. Mesmo assim, a sugestão visual empregada para ilustrar o incomensurável poder de Jean é de arrepiar - algo indomável, invisível, aterrorizante. Mas, sem dúvida, o imenso pássaro de fogo tragando tudo à sua volta fez falta... Não foi desta vez que a belíssima e aterradora visão de Chris Claremont/John Byrne ganhou vida nas telonas. Já a aguardada briga de torcida mutante, embora funcional na narrativa, ficou aquém do esperado. Mas nesse ponto, sou compreensivo. Se até nas HQs é raro um super-pancadão coletivo realmente empolgante, quem dirá a execução disso em live-action. Talvez no dia em que chamarem o George Pérez pra fazer o story-board de algumas cenas...


O roteiro, de Zak Penn e Simon Kinberg, pouco arrisca no que tange à interação entre os personagens. Neste sentido, é um tanto burocrático. Quando se solta um pouco, consegue um bom resultado. Um bom exemplo é a hilária troca de "gentilezas" entre Wolverine e Fera (Kelsey Grammer, o Frasier, arrebentando), aqui um representante da comunidade mutante no Orkut... digo, no Congresso norte-americano. Falando em Grammer, ele protagoniza uma cena sensacional, quando experimenta a sensação de parecer um homo-sapiens. Apenas com o olhar, ele transmite um misto de alívio, realização, melancolia e culpa. Naquele momento, ele poderia largar tudo pelo que lutava e acreditava. Tocante. Deus abençoe os bons atores. Outra sacada interessante foi a "quebra de contrato" entre Magneto e Mística (Rebecca Romijn-Dogg... não custa nada sonhar) - o que finalmente confere à fascinante azulzinha o caráter dúbio e individualista que ela tem nas HQs. Já a deslocada Vampira (Anna Paquin) ganhou o status de coadjuvante, enquanto o Homem de Gelo ("homem" o caramba, é o guri Shawn Ashmore) passou a ciscar no terreiro de Kitty Pryde (a bezerrinha Ellen Page), que, além de se tornar intangível, também tem o poder de ficar mais nova a cada episódio. Eu diria que o Iceman deu uma de papa-anjo ali, mas ia pegar mal pro Warren.

Como sempre, muitos criticarão o aparente descaso com o personagem Ciclope (James Marsden), ainda que esteja em concordância com sua relevância nos filmes anteriores. Já está na hora de aceitar que a dinâmica de uma adaptação não tem de ser, necessariamente, a mesma do material de origem. O que aconteceu foi apenas sintomático. Apesar de admirar o trabalho do Marsden (confira o filme 24º Dia), vejo a opção do roteiro como algo que pode render bastante no futuro. O mesmo se pode dizer do destino de dois outros personagens (ainda que, no caso da Jean Grey/Fênix Negra, a simples aproximação do mutante Jimmy "Sanguessuga" fosse uma medida menos extrema). Quanto ao que acontece com Xavier, achei ousado e muito bem tramado. Gostei bastante, tanto pela circunstância de quebrar o encosto da poltrona quanto pelo genial subterfúgio pós-créditos - além da esperta referência à "fase Shiar" do Professor X.

X-Men 3 é caótico, no bom e no mau sentido. Não tem o charme e a espirituosidade do primeiro filme, nem o esmero técnico e a força dramática do segundo, mas é corajoso, eficiente e, acima de tudo, fiel ao background estabelecido. Amarrou todas as pendengas sinistramente levantadas pelos dois anteriores e apontou novos rumos para os que virão - e com certeza virão. Com a 4ª abertura mais rentável de todos os tempos, já posso até ouvir o "snikt" dos executivos ecoando pelos corredores da Fox.

Que tal uns Sentinelas de verdade da próxima vez?



BLUE SIDE OF THE MOON


O Vigia Uatu tem novos vizinhos... Área Azul - Observatório de Quadrinhos, Filmes & Cultura Pop é um espaço mantido pelo renegado Vigia Aron (alcunha dividida pelo Fivo, JP Volley e este humilde arauto), com a finalidade de promover discussões sobre a nossa tão amada cultura pop e, principalmente, repensar questões acerca da 9º Arte. A proposta é bastante segmentada (levando-se em consideração que o próprio BZ já é um lance segmentado), mas o intuito é justamente este: oferecer uma opção de debate para quem procura algo mais instigante que a superficialidade habitual.

A Área Azul já está visível no horizonte. Confira... e dê a sua opinião.

segunda-feira, 4 de outubro de 2004

BONS "OFF RECORD"




Traduzindo: boas histórias ou seqüências de HQ sem vínculo direto com a cronologia normal. Às vezes, a partir de uma idéia rala, são criadas citações ou homenagens muito bacanas. Se são sem querer eu não sei, mas tudo indica que se tratam de felizes obras do acaso. Foi justamente isso que rolou em Super-Homem #146, quando a revista ainda era editada no Brasil pela Abril Jovem.

Ela fazia parte de uma ultra-hiper-mega-over-power-saga chamada Zero Hora - a trilionésima reformulação do Universo DC, que tinha como propósito zerar todas as edições da casa (e arrecadar uma graninha extra também). Com os zilhões de universos paralelos da DC colidindo, diversas anomalias temporais começaram a pipocar nas histórias. Em outras palavras, uma premissa tão porquinha que lembrava a pasmaceira Marvel vs DC ou algo vindo da mente de Kurt Busiek em dias de ressaca braba. Não cheguei a acompanhar a coisa de perto, pois a saga se estendia por todos os títulos da DC, obrigando o sofrido fanboy brazuca a comprar tudo que saía deles. Vai roubar a mãe. Hoje, com o encalhe a um módico R$ 1,00, já dá pra comprar. :D

Super-Homem #146 se destacou do mar de lama por oferecer mais uma palhinha do inesquecível Bruce DK (preciso explicar?). Foi muito legal rever o velhão novamente, ao lado do escoteiro Clark e destilando seu sarcasmo consigo próprio em uma outra versão. Sem contar a quase reedição da maravilhosa seqüência de batalha contra os mutantes em DK. Nessa, além dele e do Clark, participam "Batmen" de várias fases, inclusive da Era de Ouro.

Ó:






















Maneirinho. Ótimo para ler antes de Os Piores do Mundo.

Agora saca só:






Alguém de Sin City? Nem... essa aí é a Mulher-Hulk.

Seguindo a mesma lógica, ela ganhou uma senhora despedida da memorável fase John Byrne. A história Ele Morreu?!, publicada em Hulk #140 também pela AJ, tem a participação do próprio Byrne, e é de rachar o bico. É engraçada pra cacete, ri muito mesmo, e olha que eu sou um cara sério, praticamente o Kurt Russel de Soldado do Futuro, ou Bruce da JLA do Keith Giffen (Deus tá vendo).

O melhor de tudo é que essa festa de despedida teve mulher bonita e champanhe caro: participam Dave Gibbons, Walt Simonson, Frank Miller (claro), Howard Mackie, Adam Hughes (numa beeeela seqüência...), entre outros. Essa eu vou até botar na fita:

01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35

Reup em arquivo cbr em 05/09/2017

The next:


Também não pensei que sairia coisa boa de um conto de fadas contado pela mutante Kitty Pryde. Misturando um pouco com a seção "Resgate", a história Conto de Fadas (duh!), saiu na jurássica SAM #55, e é de um primor adaptativo digno de nota.

Kitty inventa uma historinha de ninar para Illyana, irmã de Piotr "Vou-retornar-e-ganhar-mais-um-troco-pro-titio-Quesada" Rasputin, vulgo Colossus, e acaba criando uma bela fábula em cima da mitologia dos mutantes. O ponto alto foram as transposições dos personagens, sendo que 3 deles ficaram fuderosamente legais: Noturno, que virou Bamf, um duende preto parecido com aquele babaquinha que se escondia nos desenhos da She-Ra - mas nem de longe tão chato; Pássaro Negro, o estiloso x-jato que virou o dragão Lockheed; e, principalmente, Wolverine, que virou Demônio, ou melhor ainda... Tacanho.






Da época em que o Chris Claremont sabia exatamente com quantos personagens mortos se faz um clássico. O traço de Dave Cockrum segue a tocada genial e dá saudades de revistas antigas e bem-desenhadas.

Pena que acabou por aí (pelo que eu saiba*). Essa bem-humorada versão matinê e "anti-ultimate" dos X-Men merecia mais. Segura:

01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21

Reup em arquivo cbr em 05/09/2017

* (ou não)

dogg, que não sabe se deixa ou tira os banners (pô, mais de 500kb já é tijolo pra mim!). Aliás, quero agradecer e me desculpar a todos que já comentaram aqui, pois mudei pro HaloScan (e automaticamente zerando os coments). Levei o capenga Blogger Comentários até onde deu, mas após a 4ª pane seguida em pouco mais de 1 semana... mandei catar coquinho. E completando a bilionésima audição de No Quarter, da dupla Jimmy Page/Robert Plant.