domingo, 27 de outubro de 2013

Magia e perda


Lewis Allan "Lou" Reed (1942 – 2013)

Uma boa parte da parte boa do rock morreu hoje. Com o Velvet Underground, solo ou em parcerias, Lou Reed não apenas salvou a pop music de si mesmo em um bocado de momentos cruciais, como também lhe injetava neurônios sem moderação (às vezes sem moderação mesmo). Mais que isso, Lou representava a essência do que era ser nova-iorquino. Sua importância e seu legado são eternos, mesmo que a maioria das pessoas respire isso todos os dias em guitarras e versos alheios sem nem desconfiar.

Desde o post sobre os meus discos favoritos de 1992 eu andava numa fase de re(e re-re-re)descoberta de Lou. Há alguns dias atrás vi dois dos meus filmes de cabeceira, Cortina de Fumaça e a continuação, Sem Fôlego, onde Lou dizia que atuava. Memorável. Assim como as rusgas entre ele e Frank Zappa, a famosa "não-entrevista" com o Rev. Massari e o - entenda como quiser - louco álbum com o Metallica. Previsibilidade não era seu forte.


Eu que agradeço, Lou... eu que agradeço.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Soldado Invernal sob o comando dos Russos

Anthony e Joe Russo parecem os típicos nerds-alfa. Pelo menos é essa a impressão quando se vê os vários episódios de Community e Arrested Development constantes na ficha dos irmãos cineastas. Que também têm suas porcarias (quem não as tem, não é mesmo?). Sendo assim, eu podia até esperar por certa sobriedade fanboy na direção do novo Capitão América 2: O Soldado Invernal...

O que eu não esperava mesmo era ver um trailer tour-de-force à Michael Mann-dirige-um-Bourne-movie altamente climático e com cara de filmaço às 12 horas.


Só dia desses fui saber que existem firmas especializadas em montar trailers para cinema. Altamente profissional. E frio. Brr. Mas mesmo se os caras que fizeram esse forem os gênios da raça, de algum lugar eles tiraram essas cenas.

E só a do diálogo entre Robert Redford (!) conversando com o Capitão América (!!) já vale o filme em 3D inútil com a pipoca ruim do Cinemark.

I'll be dead

Qual não foi minha surpresa em saber que em seu novo filme, Arnold Schwarzenegger enfrentará zumbis. Maggie será um drama (!) passado num mundo onde os mortos-vivos tomaram conta do mundo, bem aos moldes dos filmes de George A. Romero pós-Despertar dos Mortos. Junto com ele está Abigail Breslin, que fará sua filhinha infectada pelo "vírus zumbi" e, portanto, com uma deadline literal.

O filme será digirido... e roteirizado... estreantes... bah. Henry Hobson e John Scott 3 são os nomes, só pra registro.

As filmagens começaram no final de setembro. Essa foto prova tudo:


Muitas coisas saltam à cabeça agora, sendo as mais inquietantes:

- Abigail Breslin, ex-menina prodígio, atual gata-gata-gata, voltando a uma "zumbilândia" e ironicamente pagando o preço daquela mentirinha (no filme ela simulava ter sido infectada);

- Plot, se bem desenvolvido, pode render à vera - vide o maravilhoso curta Cargo.

- Rota de Fuga, O Último Desafio, cameos nos Mercenários, boatos sobre novos Conan e Terminator e agora até um zombie movie... Schwarza tá pegando até resfriado;

- Ah, o e$trago que um divórcio não faz.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Abismo infinito


Gravidade é daqueles filmes de uma vida. Alfonso Cuarón pode pendurar a claquete a hora que quiser, sua missão na Terra (e no espaço) está cumprida. O que vier daqui em diante é lucro. James Cameron foi um dos primeiros a dar a letra: "Gravidade é o melhor filme de espaço já feito". Vou mais longe ao-infinito-e-além: é um dos melhores filmes já feitos. Daqueles que seguram sua mão e te levam pra passear pelo momentum cognitivo da 1ª vez que você entrou num cinema e saiu embasbacado com a experiência. O filme é bom assim. Ao final da sessão, meu primeiro impulso foi correr e avisar ao mundo as boas novas. Que o mainstream hollywoodiano ainda pode surpreender com conteúdo e inteligência. Que ainda tem capacidade para utilizar todos os seus incomparáveis recursos para um resultado diametralmente brilhante. Me contive, pra não incorrer naquilo que me faz azucrinar tanto amigos que disparam impressões a esmo pela rede no calor do momento e mandando às favas qualquer resquício de análise sóbria. Resolvi esperar a poeira baixar. Mas não baixou, longe disso.

Passados alguns dias, o filme ainda me acompanha com fidelidade canina, sempre me mostrando novos truques que eu ainda não havia percebido. Ainda estou lá, a 600 km acima da superfície terrestre, absorto em terror, incredulidade e ainda assim completamente maravilhado.

Gravidade me facilitou a vida: foi incrivelmente mais fácil e rápido registrar seu rating nos indexadores de filmes que utilizo (além de me lembrar como as raríssimas 5 estrelinhas embelezam o layout). Em contrapartida, me mostrou como ando condescendente com o cinema dito comercial produzido nos últimos 15 anos ou mais. Tive que rever a cotação de vários blockbusters que não têm nem a metade do valor artístico dessa obra-prima. Foi uma revisão leve mesmo, pois se fosse levar na ponta da faca, uns 60% deles seriam classificados automaticamente como lixos derivativos e sem alma. Obviamente não me refiro aos aspectos técnicos, nem tanto ao nível das interpretações. É o storytelling mesmo. Estão colocando nego mudo pra contar história. Gente que desconhece (ou esqueceu) noções básicas de construção, atmosfera, timing e tridimensionalidade. E malocando isso mal e porcamente atrás de montagens moderninhas e CGI vazando pelo escapamento.

Apesar do meu entusiasmo quase infantil, acho correta a afirmação de que dificilmente alguém terá adjetivos que façam jus à humilde grandiosidade do filme em sua complexa simplicidade (viu, ó o desastre). Talvez Jesus fase Sermão da Montanha e olhe lá. O que ficará para a posteridade é que Gravidade é uma celebração à tenacidade do ser humano frente às mais adversas situações, mas o filme é multifacetado demais pra ficar aí. Sua trama é um estudo sobre o existencialismo, a solidão, o desapego, a (in)finitude das coisas. É ambíguo sem ficar em cima do muro, humano sem tomar partido, ousado sem perder a mão, profundo sem descambar pro cinema francês.

O roteiro, do próprio Cuarón e su hijo, Jonás (niño de sorte), com contribuições de George Clooney, é extremamente bem concebido e preciso - não existem diálogos sobrando ou faltando, nada acontece gratuitamente e todas as ações terão suas reações até o fim da história.


História que, aliás, é tão minimalista quanto poderia: durante um reparo de rotina no telescópio Hubble, um time de astronautas da NASA é surpreendido por um acidente envolvendo um satélite russo. A partir daí, o filme usa e abusa da estrutura survival horror sem se render aos clichês do gênero e tão somente para atingir seus próprios objetivos. É difícil imaginar um ambiente mais inóspito e aterrador do que o espaço. Essa constatação vem em um tapete vermelho logo na primeira cena do filme, com uma espécie de manual de regras do jogo que virá a seguir. É vasto o espectro de possibilidades extraídas da situação, desde as menores e mais simples até as mais intrincadas e em larga escala. E tudo sem sair do campo do verossímil ou, no mínimo, da especulação bem sacada.

Em um aspecto, Cameron realmente foi no alvo. Gravidade tem a melhor caracterização de espaço já registrada. Até o formato 3D - que, não adianta, considero ofensivo e a maior falácia da indústria do cinema atual - serve com uma rara eficiência ao filme. O que faz a experiência de assistir no cinema algo necessário, obrigatório até. Aquele assalto sensorial jamais será reproduzido com tanta intensidade, fúria e beleza quanto na telona - a menos que você tenha um IMAX de três andares instalado no conforto de seu lar. Puramente pelo lado visual, já é o ingresso com o melhor custo-benefício desde Contato, de 1997. Como se não bastasse, o filme também consegue ser transgressor no modo de fazer "filmes de espaço".

Justiça seja feita, Guerra nas Estrelas não foi o 1º filme a propagar o som pelo vácuo, mas foi o que atualizou e institucionalizou de vez esse recurso clássico no ideário pop. Agradeço por isso, mas sempre me perguntei por que tinha que ser sempre assim. São poucos os filmes que retrataram o espaço com suas verdadeiras particularidades, mesmo sendo a ausência de som uma característica forte que merecia - implorava para - ser explorada. Cowboys do Espaço quase chegou lá, com grandes sequências filmadas pelo Clintão, mas ainda incorria no áudio. Foi Gravidade quem colocou a teoria em prática, com resultados de fazer cair o queixo e vê-lo se espatifando no chão como se fosse de porcelana. Nada grita mais alto que o som do silêncio, mesmo.

Cenas como as do acidente inicial têm impacto em dupla camada - a estética, vigorosa e gigantesca, com mais informações do que qualquer um poderia assimilar; e a psicológica, pois você vê o tamanho do monstro, mas seu ponto de vista mundano, pressurizado e atmosferizado, não consegue processá-lo como algo que se desdobra magnífica e violentamente diante de seus olhos sem gerar um único ruído. Só isso já é assustador o suficiente, mas o melhor de tudo é que você tem a plena consciência de sua insignificância enquanto é esmagado no processo e o único barulho ensurdecedor é o do desespero tomando conta dos seus pensamentos. É intimidante, sufocante, horrorizante, é puta que pariu, Alfonso Cuarón... Nem em meus pesadelos mais insanos eu senti algo assim.

Isso não significa que o cineasta abriu mão completamente do áudio não verbalizado. A trilha do britânico Steven Price é utilizada cirurgicamente, precedendo as tensas sequências "de ação" como se fosse os primeiros tiros de uma guerra. Sempre que aquelas notas distorcidas de sintetizador reapareciam no filme, uma linha de gelo subia pela minha coluna. Um grande trabalho, ainda que, por vezes, tenha ficado um pouco over nos momentos mais emocionais, reforçando um sentimento que já havia sido bem delineado pela atuação. E que atuação. Apesar de todo o esmero e arrojo técnicos, mais uma vez foi o elemento humano que fez a diferença.


Sandra Bullock é o alicerce de Gravidade. Muito provavelmente foi aqui que ela justificou a escolha de sua profissão. Fico feliz por ter sido ela a dar vida à astronauta-de-primeira-viagem Ryan Stone, embora, confesso, é sim um exercício interessante pensar no que fariam outras atrizes com um papel tão rico dramaticamente. Mas talvez seja isso mesmo que faça sua performance algo tão único. Não é superinterpretação - desse mal Sandra nunca poderá ser acusada - e muito menos um ensaio acadêmico sobre arte dramática. É mais a empatia ator-personagem, com todas as suas falhas e limitações. Sua performance é sublime e flui em uníssono com o roteiro. Desde o nervosismo de Ryan ao executar uma tarefa corriqueira, seu perfeccionismo desastrado, a postura reservada quanto à sua vida particular até lidar com mudanças radicais de worst case scenarios e ter que ser adaptar a elas rapidamente de qualquer maneira. E isso é apenas o aperitivo.

Ao ser submetida a uma série interminável de dilemas morais (e mortais), Ryan mergulha em uma experiência que pode ser tanto autodestrutiva quanto transformadora. O silêncio, mais uma vez, se revela um personagem ativo no filme. Na química quase intimista entre Sandra e Clooney, ele funciona como um terceiro elemento em cena, conduzindo alguns dos momentos mais arrasadores do cinema, justamente porque alguma palavra é - ou não - dita.

O paralelo entre Ryan e personagens como Ellie Arroway (Contato) e Elizabeth Shaw (Prometheus) é imediato, senão em suas longas danças com a morte iminente, na antítese: estas estavam dispostas a morrer por suas convicções, eram as Amelias Earhart das heroínas espaciais improváveis; Ryan ainda está pleno processo de transição, mas defendendo suas curtas janelas de tempo com a ferocidade e a desenvoltura de uma Ellen Ripley (Alien). Paradoxalmente, o subtexto de ser uma mulher tentando vencer num território predominantemente masculino faz a simbologia de seu nome soar além do subjetivo - e o filme traz uma explicação que estreita ainda mais essa metáfora.

Carregando uma tremenda bagagem de vida nas costas e sem muito mais a perder, seria muito fácil (e totalmente compreensível) pra Ryan se entregar à aparente inevitabilidade da situação. É disso que trata Gravidade: o misterioso elemento que nos move como seres humanos e a irresistível necessidade que temos de seguir em frente, muitas vezes sem nem sabermos porquê. E mesmo que encontremos uma resposta, esta raramente poderá ser mensurada com palavras. O que é ilustrado perfeitamente no clímax do filme.

E eu achando que um sujeito com Filhos da Esperança no currículo já tinha dito tudo o que precisava ser dito...

Gravidade é um clássico.

Gravidade ("Gravity", Estados Unidos/Reino Unido, 2013), 91 min.
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Orto Ignatiussen, Paul Sharma, Amy Warren

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Hoje é Thor's day!


Mais do que qualquer outro projeto da fase 1 da Marvel Studios, a ideia de uma adaptação do Thor era, de longe, a mais cabulosa. Difícil até de visualizar em minhas adaptaçõezinhas live-action mentais cultivadas em lugares edificantes como filas de banco, ônibus lotados, salinhas de espera e concursos do Banco do Brasil. Tudo bem, um inventor bilionário numa armadura voadora e um supersoldado da 2ª Guerra com síndrome de Rip van Winkle foram belas amostras do nonsense que permeia toda essa campanha de adaptações da Marvel, mas ao menos esses tiveram suas conexões com a realidade cimentadas com resquícios empíricos à base de ciência, empreendedorismo e futurismo pra viagem. Já um antigo deus nórdico pagão...

Mesmo com o conceito já filtrado e ocidentalizado pela "versão Marvel" dos precursores Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber (Thor acabou virando a puta paga do domínio público: a DC tem dois, a Image também e até a ilustre America's Best Comics deu uma bicada), a simples ideia de personagens mágicos surgindo em cena por si já perfaz uma ruptura do, arram, dogma tecnocrata vigente naquele universo cinematográfico. Se contextualmente era um backflip conceitual, comercialmente, porém, parecia o próximo passo lógico a ser dado. Afinal, se Voldemort e Sauron viraram rockstars, porque não Surtur?

Primeira boa surpresa: a escolha de Kenneth Branagh para a direção, puro futebol-arte. Quem mais qualificado para ilustrar poder, suntuosidade, loucura, tragédia, horror e dramaticidade épicas (ou divinas?) que o gênio que transmigrou Hamlet inteiro para um filme de quatro embasbacantes horas que passam voando? O horizonte ficou ainda mais promissor com a descoberta de que Branagh, além de um excelente vendedor de seus projetos, também era um profundo conhecedor do terreno em que estava pisando. Pra mim, era razão suficiente para celebrar a vida tomando porres de hidromel nas tavernas mais vis do reino.


Bom, Thor não teve Surtur, mas teve Loki, o deus da trapaça e das traquinagens, o Saci-Pererê do folclore escandinavo. Que por pouco não dribla todo o contingente celestial de Asgard e sai correndo com a taça de melhor personagem debaixo do braço. Toda divindade, mágica e mística foram jogadas na sacola da ciência do imponderável, entre planos interdimensionais e galáxias perdidas éter afora n'algum ponto indefinido das 11 supercordas. Resumindo, não eram deuses, eram astronautas. Enquanto isso, Branagh operava bem abaixo de suas capacidades, relegado quase a um timoneiro de luxo. Não de uma nau de guerra viking, mas de um caríssimo iate multiplex em meio a recifes e corais ameaçadores. Sem dúvida, a firma não quis arriscar e limitou os aguerridos movimentos wagnerianos do homem até o limite da completa descaracterização. Só isso explica porque o tom do filme saiu tão soft. Claro que eu não esperava por um Valhalla Rising 2: Ragnarök Now, mas esperava menos ainda pelos açucarados cubinhos de comédia romântica que frequentemente se dissolviam na tela.

Mas pensando bem, salvo em reimaginações autorais, o perfil do Deus do Trovão nos quadrinhos regulares da Marvel nunca foi o do viking primevo e animalesco empunhando um martelo do tamanho de um poste. E em seu universo havia ainda mais conflitinhos pessoais/amorosos do que no filme. Basta lembrar de seus alter-egos com vidas sociais bastante agitadas para um hospedeiro espiritual. O Thor do filme, além de cortar todo o papo furado de identidade secreta disfuncional para os dias atuais (paralelo ao Tony Stark na conclusão de Homem de Ferro), num primeiro momento faz questão de se auto-afirmar como o übermensch tanto no céu (Asgard/Jotunheim) quando na terra (Terra). Não o suficiente para configurá-lo como um überasshole, mas necessário para que sua transformação de um deus para uma pessoa melhor servisse como o rito de passagem que Odin tramava para seu filho e sucessor.

Do ponto A (o Thor imaturo e impulsivo) até o ponto B (o Thor paciente e compassivo) poderia muito bem ter sido um combinado entre a graphic Thor: A Era do Trovão, de Matt Fraction, com o Thor humanista/humanizado do universo Ultimate - especialmente no que tange à sua via crucis terrena.

E não faltam referências ao Cristianismo em Thor.


Muitos fragmentos da narrativa cristã têm passe livre na história, não só nos subtextos do roteiro, como também no timing, na dimensão dos eventos, nas motivações e principalmente no enorme apelo estético de algumas cenas. Temos lá Odin enviando seu filho à Terra despido de toda sua glória e completamente mortal; temos os amigos recém-feitos que, como bons discípulos hebreus, o seguem e o auxiliam em sua jornada, mesmo reprimidos por forças governamentais; seus ensinamentos meio revolucionários meio transcendentais meio bicho-grilo-mermão a esses mesmos amigos-discípulos; Thor se sentindo abandonado por seu pai todo-poderoso e quase perguntando o porquê disso - nem precisava -, reeditando uma famosa cena de sua versão Ultimate; a salvação através do sacrifício; a redenção e a ascensão aos céus; e, claro, a queda do vilão chifrudo do firmamento direto para o buraco (de minhoca?). E com certeza teve mais, muito mais.

Costumo pagar certo pau pro J. Michael Straczynski, que co-escreveu a história, mas gosto de pensar nessas analogias mítico-religiosas como um código Morse transgressor que Branagh enviou subliminarmente aos seus admiradores bem debaixo dos narizes dos censores da Disney-Marvel (eu copiei, Branagh, eu copiei, câmbio!). Porque não devia ser do interesse do estúdio bancar um longa com qualquer outra objetivo que não o de acessório promocional para o blockbuster que foi Os Vingadores. E de todos os filmes dessa primeira safra, Thor foi o que mais teve cara de brinde.

Isso a despeito dos valores de produção, explodindo na telona com a força de mil megatons nos segmentos passados em Asgard (uma magnífica renderização tridimensional da arte de Walter Simonson - a versão 3D do filme, no entanto, foi uma belíssima porcaria). Nem em meus sonhos marvetes mais psicodélicos pude vislumbrar um reino tão grandioso e deslumbrante, ainda que Bifröst pareça dar direto no Studio 54 em plena efervescência disco. Poderia até ter saído diferente, mas dificilmente melhorado - é uma ponte de arco-íris, queria o quê?

O mesmo alto padrão criativo se repete no CGI em torno dos Nove Mundos de Yggdrasil, onde o espaço mais parece um óleo sobre tela vivo retratando os efeitos especiais do filme Contato. A tela verde ainda não é amigável à presença dos atores, mas o espetáculo visual é inegável. Meus olhos saíram de barriga cheia.


Chris Hemsworth provavelmente é o melhor Thor Odinson que o cinema atual poderia vender. Não é como se ele fosse protagonizar a cinebiografia do Laurence Olivier. O filho de Odin é meio como se fosse o Conan ou o Tarzan. Aqui conta mais a postura, o sangue nos óio e o físico do jagunço. Fora que o rapaz nem é ruim, ainda mais beneficiado pelo fato de que a canastrice do Thor dos quadrinhos responde por boa parte do seu charme. E só não blasfemo que Anthony Hopkins nasceu para interpretar Odin porque esse posto já pertence a um certo psiquiatra glutão. Na época do casting, eu torcia por Stellan Skarsgård, por motivos óbvios, mas hoje vejo o quão sábia foi a escolha. Rene Russo, tadinha e ainda linda, teve suas cenas jazendo no Hel da sala de edição. Entrou muda e saiu quase calada. Não muito diferente da Frigga nos quadrinhos, por sinal. Já Colm Feore (esse cara me assusta) também foi desperdiçado, ainda que em menor escala.

Ironicamente, o papel de Loki era o mais traiçoeiro de compor. Facilmente poderia resvalar no histriônico, unidimensional e clichê. Uma verdadeira armadilha de urso que Tom Hiddleston soube evitar com notável destreza (lembra dessa expressão, fiel seguidor? 'Nuff said!). Seu Loki é conflituoso por natureza e tem seu caráter questionável, mas também consegue demonstrar dor e amargura diante de sua trágica situação (um imbróglio familiar interplanetário bem à Novos Deuses). No clímax do filme, Hiddleston manda um olhar de "você morreu pra mim" que é de cortar o coração e pendurá-lo em praça pública.

Os Três Guerreiros renderam a melhor piada do filme e, mesmo sendo esquisito ver um ex-Frank Castle pilotando a barriga do Volstagg, estavam muito bem caracterizados. Assim como - e comeria feliz - a mulher maravilha Jaimie Alexander recheando de curvas a armadura de Lady Sif e segurando o fator tomboy bem firme na coleira, afinal ela pode virar o interesse romântico do herói a qualquer momento, ou filme. Idris Elba, ameaçador. Até hoje não sei porquê o auê em torno da cor da pele do homem. A cota foi descarada, sim, mas ele consegue ser sensacional mesmo naquele modelito de rei da bateria. Ah, contextualmente... o Heimdall do filme não era germânico, nem caucasiano. Nem humano era. Reparou na altura dele em relação aos outros? Isso posto...

Do núcleo "turma de Asgard", senti falta do Balder. Talvez no próximo. Ou melhor, no próximo depois do próximo.


Skarsgård fez um melhor negócio ficando na pele do dr. Selvig mesmo. Além de coadjuvar neste filme, também foi um quase-MacGuffin em Os Vingadores e ainda pegou a continuação de Thor. Confesso que é um pouco estranho vê-lo tanto em filmes-pipoca, mas não tanto quanto ver a Kat Dennings como coadjuvante cômica meio sem ter nada pra fazer ali. Natalie Portman, que provavelmente ainda será adorável quando tiver uns 105 anos, encabeça o trio improvável com uma Jane Foster que não é enfermeira, mas uma astrofísica. Papel que ela interpreta com os pés nas costas e fazendo malabarismo com duas tochas, três gatinhos e quatro facas ginsu. Natalie é a Hit Girl da minha geração. E vem matando dragões há muitas eras antes de levar um Oscar pra casa. Foi bom vê-la ganhando uns milhões de doletas só pra se divertir, trocar umas ideias com o Branagh (a razão dela assinar o contrato) e dar uns amassos no galã musculoso. Ela merece.

O que faz Thor tão coxo quanto o dr. Donald Blake é sua falta de ambição. A cinematografia não chega a ser do tipo TV-movie, como os longas do Quarteto Fantástico, mas também não é muito mais além. A maior parte da verba destinada aos efeitos deve ter ficado nas contas de Asgard, porque na Terra o esquema é muito mais modesto. Toda a destruição do Destruidor (pleonasmo?) beira o inócuo, principalmente durante as investidas dos Três Guerreiros-mais-a-donzela, quando são simplesmente expelidos de um lado pro outros pelos raios do monstro. Thor conjurando o tornado mais fake do cinema e sua luta virtualmente inexistente com o Destruidor foi a cereja. Ou a framboesa. Nos quadrinhos, odes eram escritas em torno desse confronto titânico, que durava páginas a fio e, não raro, terminava mal pro loirão. Anticlímax é isso aí.

Sendo um pouco mais chato, o roteiro também não fez muita questão de esconder seus buracos. No ato final, os Três Guerreiros-mais-a-donzela desaparecem sem grandes explicações. Do mesmo jeito, Heimdall, que seria o cara que resolveria a parada ali pro lado dos mocinhos, evapora. E Odin não precisaria fazer absolutamente nenhuma escolha naquele momento, já recuperado do Sono e com seus superpoderes de deus bombando em suas sagradas veias. A impressão é que eles tinham uma agenda nas mãos, uma deadline no pescoço e nenhuma ideia brilhante naquele momento.

Por tudo o que já foi cometido em nome do personagem, Thor se sobressai com facilidade. Podia ter sido bem melhor? Vastamente. E tinha todas as condições pra isso. Essa permanece sendo minha maior frustração com o filme e que não influi no que ele realmente representa: uma super-produção no mínimo digna daquele Thor das HQs, que mesmo eu, com onze anos de idade, jamais acreditei que um dia sairia daquelas páginas para outro lugar que não fosse a minha imaginação fértil.

Sentimentos fortes no cinema aquele dia. Por um filme que se contentou em ser um mero passatempo.

Thor (EUA, 2011), 115 min.
Direção: Kenneth Branagh
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Stellan Skarsgård, Kat Dennings, Idris Elba, Jaimie Alexander, Ray Stevenson, Clark Gregg, Colm Feore

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Guillermo del Simpson

A essa altura, até a minha bisavó já viu a abertura d'Os Simpsons na versão do Guillermo del Toro. Mas o negócio é tão fabuloso que me senti na obrigação de fazer as honras por aqui também. Então toma.


Na minha opinião, a melhor coisa que del Toro faz em anos. E tome entrelinha.

Não podemos deixar de citar também a já clássica versão do(a) Banksy.


Banksy, nós não esquecemos de você!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Canadá off the Dead

Muitas pautas de âmbito global sendo discutidas atualmente, mas desde fevereiro último que o Canadá está na dianteira da grande questão que aflige o mundo. Foi durante uma sessão na Câmara dos Comuns, quando o congressista Pat Martin questionou o ministro das relações exteriores John Baird como vão os preparativos para o iminente apocalipse zumbi!

E aí Exmo. mr. Baird, como vão os planos de contenção?


Canadá representa.

O "deadicated" e o "categorecally" foram infames além da conta...

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A.d. Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão


Dizer que Agentes da S.H.I.E.L.D. tem tudo pra ser a melhor incursão da Marvel pela TV não é exatamente um voto de confiança. Ainda mais se tirar as animações da equação e triangular a coisa no formato live-action. Se muito, a Casa das Ideias apenas engatinha nesse terreno. Blade e Mutant X evaporaram sem deixar saudades; Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. e Geração X são aquelas bagaceiras classe Z que me divertem (cada um com seus problemas). Em outras palavras, o saldo é tão negativo quanto a minha conta bancária antes do fim do mês. Mas eis que a Marvel Studios, quem diria, se torna um dos tentáculos zilionários da Disney Company e as coisas começam a acontecer, novos horizontes e velhas gavetas se abrem, segundas chances são dadas...

Ok, o episódio de estreia sugere que a série não é pra mim, um adolescente voando rumo à meia-idade com o jetpack do Rocketeer. Parece ser para adolescentes adolescentes mesmo, o que também resulta numa certa confusão. O adolescente médio de hoje é aquele que se regozija com os banhos de sangue de franquias como God of War, Metal Gear, GTA, Assassin's Creed e por aí vão. E nada os impede de assistir séries adultas como Breaking Bad, The Walking Dead e Game of Thrones. Mesmo produtos pasteurizadinhos como Jogos Vorazes, o Battle Royale versão Crepúsculo, denota certo gosto dos guris por premissas mais gráficas. Por mais que a hipocrisia politicamente correta tente fazer parecer que não.

Apesar disso, o teor impresso nesse debut é flagrantemente infanto-juvenil. E com as marcações típicas dos enlatados investigation procedure, tão em voga desde que CSI deslanchou há 10 anos atrás. O redivivo agente Coulson (Clark Gregg) delega as responsabilidades e ocasionalmente gerencia, os agentes Melinda May (Ming-Na Wen) e Grant Ward (Brett Dalton) são os veteranos badasses encarregados do serviço braçal, enquanto Leo Fitz (Iain De Caestecker) e Jemma Simmons (Elizabeth Henstridge) compõem o núcleo geek, aquele que visualiza o rosto do assassino aumentando o reflexo na retina da vítima. A cereja fica por conta da personagem Skye (Chloe Bennet), realmente uma cereja de bonita e com todos os requisitos para capturar o imaginário dos frequentadores de Comic Con: jovem, sexy, fanática por computadores, super-heróis e conspirações e sempre com uma piadinha e uma referência pop na ponta de sua desejável língua.

Nada contra a fórmula, eu assisto até NCIS. E a produção é de primeira, expensive. O problema é o tom, jovial e ensolarado demais. Entendo que o pacote tem que ser pop, assim como foram os filmes dos quais a série spinoffeou-se. Mas, da mesma forma, podiam ajustar melhor o clima engraçadinho antes de se parecer com algo que Jon Favreau dirigiu no automático. Faltou punch, sobraram piadas (embora a entrada de Coulson tenha sido épica). E a geekstosa dando vários olés nos sistemas da SHIELD com um laptop velho também força a amizade.

Joss Whedon, aqui repetindo a parceria com o irmão Jed e a cunhada Maurissa Tancharoen no posto de showrunner, felizmente é cobra criada na TV-nerd. Cometeu tanto acertos quanto erros importantíssimos para o que seu trabalho é hoje. Isso inclui essa estreia não tão lá e nem tão cá de Agentes da S.H.I.E.L.D.. Espero que seu tempo de reação tenha melhorado.

Claro, foi só o primeiro episódio. Se contar isso, a experiência foi bem gratificante no aspecto fanboy. Afinal, revimos Cobie Smulders, mais crocante do que nunca no colante da Maria Hill, já vimos um flying car da SHIELD...


...e um genuíno Life Model Decoy (lembra deles?) com implantes de memória...


No aguardo pelos próximos. Logo mais tem outro.