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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

To Hell and Back


Hellraiser finalmente deixou de ser sinônimo dos dois, três... vá lá, dos quatro primeiros filmes. Admito que já havia dado baixa mental e espiritual da franquia há tempos — para ser exato, desde o pastelão Hellraiser: Revelações, de 2011. Desse modo, nem imaginava que um novo longa estava a caminho via Hulu e que me levaria da total ignorância ao deslumbre em meras duas prévias. Muito menos que a produção faria um reboot radical, com Cenobitas clássicos totalmente recauchutados e apresentando alguns novos padres da Igreja Pentacular de Leviatã. Dever cumprido com maestria, dadas as circunstâncias.

Como que submetida aos deleites sadomasoquistas da série, a jornada não foi das mais tranquilas. Trocas de estúdios, diretores (até Pascal Laugier, de Martyrs, assumiu a cadeira por um tempo), roteiros reescritos, disputas legais, incluindo do próprio Clive Barker, e toda a sorte de contratempos conspiraram para a franquia cinematográfica purgar indefinidamente n'alguma gaveta esquecida no inferno da burocracia. Mas, parafraseando o famoso motto de Pinhead, a série ainda tinha visões incríveis para nos mostrar.

E mostrou. Não tudo, mas o suficiente para um recomeço.

Resolvidas as pendengas estruturais e legais, com direito à benção e co-produção de Barker, a produção foi alinhada entre a Spyglass Media Group e a Phantom Four Films. A direção ficou a cargo de David Bruckner, do bom A Casa Sombria (The Night House, 2020) e do melhor segmento de V/H/S ("Amateur Night"). Não me admira que este Hellraiser '22 tenha se desenrolado bem distante do crivo público. Com a marca completamente esculhambada, apenas aficcionados die-hard seguiram naquele trem. A (falta de) receptividade aos dois últimos filmes, Revelações e Julgamento, de 2018, só pode ser comparada à do infame Hellboy de 2019, pra ficar no Hellxploitation.

Até abaixo, diria. Lá pela profundidade do 9º círculo. Ou mais.


Agora o brinquedo vem com manual

A intro é à caráter: a boa e velha puzzle box da Configuração do Lamento sendo reavida no mercado negro e levada para uma festinha privada na mansão de um magnata hedonista (Goran Višnjic, renascido sabe lá de onde). Seu objetivo é usar o artefato para exigir uma audiência com Leviatã, o deus da dimensão dos Cenobitas. Cortando para seis anos depois, os junkies Riley (Odessa A'zion) e seu namorado Trevor (Drew Starkey) invadem um armazém abandonado e encontram a caixa de forma suspeitíssima. Dali até os Cenobitas se refestelarem num bacanal de correntes, sangue e vísceras é um pulo.

O roteiro foi desenvolvido por Ben Collins e Luke Piotrowski a partir de um plot da dupla com o onipresente David S. Goyer. Originalidade passa longe. Mas é funcional e confere uma perspectiva moderna e alternativa da novela original. Em nada lembra o antológico filme de 1987 — ainda o melhor, que conste nos autos — e não apenas recoloca o mythos de volta aos trilhos, como aponta para novas direções. A esta altura, era exatamente o que Pinhead e a gangue do Labirinto precisavam.

Provavelmente por ver este Hellraiser mais como um ponto de partida para voos futuros, foi fácil fazer vista grossa para as presepadas do script. Algumas são protocolares, como, por exemplo, a incrível estupidez dos personagens. Da mesma forma que vermes alienígenas precisavam ser engolidos pelas vítimas para existir uma história em A Noite dos Arrepios, a caixinha precisa ser manipulada e decifrada para os Cenobitas aprontarem suas peripécias. É uma longa caminhada do ponto A ao ponto Z, portanto.

Considerando que o Necronomicon precisa ser lido ao menos uma vez em bom sumeriano em Evil Dead para a diversão correr solta, aqui também há uma tolerância implícita que cobre as primeiras mortes — convenhamos, no mundo real, caixinhas vintage não são portais para freaks extradimensionais fãs de bondage extremo fincarem ganchos acorrentados no rabo alheio. Do terço inicial em diante, a repetição da armadilha só funciona na base da burrice mesmo. Especialmente quando os personagens já estão mais ou menos escaldados das consequências deste ato.

A partir de certo ponto, algumas atitudes me lembraram até o meme do macaquinho Curious George.


Jamie Clayton, creditada simplesmente como The Priest, é pura força magnética. Difícil desviar a atenção daquele visual, ainda mais quando ela serve como uma perfeita mestra de cerimônia. Toda a nova concepção dos Cenobitas, por sinal, está espetacular. The Gasp (Selina Lo), The Weeper (Yinka Olorunnife), The Asphyx (Zachary Hing), o novo The Chatterer (Jason Liles), a perturbadora The Mother (Gorica Regodic) e, meu predileto, The Masque (Vukasin Jovanovic) estão irrepreensíveis e praticamente imploram por spin-offs solo. A química estava afinada e o árduo trampo de F/X brilhou na tela.

Um único porém foi o preço: com tantas criaturas promissoras estourando a retina, o tempo de tela foi muito econômico. E diria quase comportado no quesito sanguinolência, sendo que meio minuto de Frank no Hellraiser '87 já supria essa demanda.

No final, o sentimento é bem satisfatório. Podia ter sido melhor? Bastante. Mas em tempos de vigilância paranoica 24/7, diria que a criação de Clive Barker atingiu a transgressão uma vez mais. E aguardo ansiosamente pelas próximas.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Helltrailer!

EsaiuotrailerdeHellraiser...


Não é um red band trailer, o que é ótimo. Muita estética, cinematografia e a apresentação dos novos Cenobitas, pra quebrar o gelo. Tudo muito agradável, mas fiquei particularmente emocionado com o Leviatã de soslaio e a Configuração do Lamento... configurando lamentos.

A expectativa por bons sofrimentos está lá em cima!

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Shenobita


Missão cumprida para a Spyglass e o Hulu. Reverberou bastante a 1ª imagem oficial da atriz transgênero Jaime Clayton personificando Pinhead, o ícone de Hellraiser. Gostando ou não (sem fazer juízo de valor, ainda), a franquia retorna ao interesse público após seu sucateamento na última década. Primeiro, pela Dimension Films, que, para segurar os direitos, rodou um longa em questão de semanas, resultando no pavoroso — no mau sentido — Hellraiser: Revelações, de 2011. Depois, pelo curioso, mas mambembe Hellraiser: O Julgamento, de 2018, que nem o Clive Barker deve ter assistido.

A verdade é que a série sempre foi problemática. Parte disso é a dificuldade em traduzir a carga conceitual dos livros para a dinâmica cinematográfica.

Tudo em Hellraiser é sobre conceitos e abstrações (prazer, dor, inferno, dualidade, existencialismo). A falta, na época, de uma "percepção Hellraiserverse" limitou o desenvolvimento nas telas, com justa exceção aos dois primeiros filmes. Neste aspecto, as quadrinizações se saíram bem melhor, em particular as brilhantes HQs da Epic.

Essa percepção já existia nas obras originais. Vide as histórias do "detetive do oculto" Harry D'Amour, da série Livros de Sangue, situadas no mesmo universo de Hellraiser. Ou as várias conexões com o livro/filme Raça da Noite/Raça das Trevas. Fora as suspeitas — alerta de fan theory — de que ninguém menos que Candyman seria um Cenobita. Candyman, um Cenobita sem mestre... o quão foda é isso?

Voltando ao novo Padre do Inferno (ou seria Madre do Inferno?), é seguro afirmar que segue à risca a deixa do livro, onde Pinhead é descrito como um ser andrógino com uma "excitada voz feminina". E pelo visual, arrisco que aqueles tais conceitos não estão apenas integrados, mas literalmente estampados no rosto dela.

As trilhas de sulcos que ligam os pregos estão mais pronunciadas, como se remetessem ao mundo labiríntico dos Cenobitas.



Um tributo à dimensão infernal direto na própria carne. Pareidolias me mordam.

E não só: a nova Pinhead também tem adornos metálicos crivados no pescoço. Parece uma reverência saudavelmente blasfema a Leviatã, o deus dos Cenobitas e o senhor supremo daquele mundo. Algo relativamente simples, mas creepy as hell.

E falando em creepy, uma novidade promissora é o estreante The Masque. Com um visual perturbador e bizarro, o Cenobita lembra o fruto de uma transa louca dos autômatos do Kraftwerk com o jurássico Jogo da Operação, da Estrela®.


Vukašin Jovanović como The Masque

No mais, vale sempre destacar a opinião do Príncipe Sombrio da Dor em carne, couro e pregos, Mr. Doug Bradley:
“Tudo sobre Hellraiser sempre foi transgressor. Tudo, sempre, do início ao fim. Não é uma ideia nova nesse sentido, mas estou intrigado. Estou na mesma posição que todo o resto de vocês, eu acho, para ver onde isso vai.”
Hellraiser estreia pela Disney Platform Distribution via streaming exclusivo para o Hulu dia 7 de outubro. Odessa A'zion, que por sua vez também não é uma nova Kirsty, protagoniza. O roteiro é co-escrito pela dupla Ben Collins/Luke Piotrowskido e, ave mãe, David S. Goyer. Direção de David Bruckner.

Admito que as imagens me deixaram pilhado em devaneios. E, por que não, empolgado até.

Se não corresponder... aí, a Configuração do Lamento vai gemer pra cima dos envolvidos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Tá chegando o Busão da $JA...


Finalmente a editora Panini inicia a pré-venda do 1º omnibus da elogiada fase da Sociedade da Justiça da América de Geoff Johns, James Robinson, David Goyer (quá, quá), Carlos Pacheco e grande elenco. São 1.224 páginas a um precinho recorde rumo ao pentacampeonato dos 500 reais—e a propósito, são trigêmeos. Mais barato do que a importada da Amazon lá fora (só em marketplace) e da Amazon aqui dentro.

Vi as lombadas grossas e redondíssimas—fíu, fíu—desses busões em mais estantes de youtubers que a hashtag "recebidos" web afora. Em outras palavras, a tentação é grande, mas, ainda assim, tentação. E nesse momento, não sei se sou digno de erguer o Mjolnir. Maldita falha de caráter.

Sem maiores digressões, ficam as dúvidas:

💀 Quem vai?

💀 A Panini sabe que a única vantagem de uma pré-venda é um belo desconto no preço? Isso até a Mythos sabe, Sombra.

E a seção de aquisições segue versando mais sobre o que gostaria de adquirir e menos sobre o que adquiri de fato. Preocupado, eu?

Ps: Do Vale, ainda mantém o "Nem reclamo mais, SÓ QUERO QUE VENHA" jovem e inconsequente da outra vez? Aquilo foi lindo, cara.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Nick Fury: Agent of M.A.L.I.B.U.


Não só as franquias cinematográficas do Marvel Studios são planejadas por fases. Na estreia de Agents of SHIELD, via ABC, a Casa das Ideias também inaugurou uma nova fase em seus planos de dominação (midiática) mundial. Com a série, a Marvel fará o sentido inverso da estratégia da Distinta Concorrente: se lançar à TV embalada por uma trajetória pra lá de rentável no cinema. O novo projeto retoma o mesmo núcleo de personagens que a Marvel fracassou retumbantemente em engatar nas telinhas a exatos 15 anos atrás, em Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. (Nick Fury: Agent of S.H.I.E.L.D., 1998).

Uma bela ironia do Dr. Destino que certamente merece uma Operação Resgate®.

O piloto foi exibido pela Fox numa época em que não haviam quaisquer dos parâmetros estéticos e conceituais que temos hoje no segmento cinema/super-heróis. Blade, talvez o primeiro filme "super" contemporâneo a trabalhar o gênero com seriedade e estilo, só seria lançado alguns meses depois. O influente Matrix, só dali a 1 ano. X-Men de Bryan Singer, dali a dois. Batman Begins ainda nem sonhava em existir. Em suma, um cenário inóspito e radicalmente diferente de tudo o que temos hoje.

Pra piorar, as vibrações camp de Batman & Robin, lançado apenas 1 ano antes, ainda ecoavam fortes pelas salas de cinema e comic shops.

Esse período de entressafra também se estendia aos seriados daquele finzinho de século. A lua-de-mel do público sci-fi com Arquivo X já havia acabado e o formato estava flagrantemente defasado - algo que só viria a se recuperar com alguma qualidade na virada para os anos 2000.

Nesse contexto de adversidades e descrédito, é seguro dizer que foi uma missão suicida, daquele tipo que sempre é lembrada por agentes veteranos para assustar os novatos. Difícil acreditar que o staff da Marvel conseguiu convencer os executivos da toda-poderosa 20th Century Fox a bancar a aventura.

Não duvidaria que muitos acordos paralelos surgiram na ocasião, especialmente envolvendo os direitos para o cinema de alguns mutantes e de um certo quarteto.


Com a internet ainda engatinhando na cultura pop e a maioria das novidades da TV e do cinema relegadas à revistas especializadas, qual não foi a minha surpresa em ver o VHS de Nick Fury figurando entre os lançamentos das locadoras. E com o David Hasselhoff no papel, um dos canastrões que eu mais assistia quando guri, em A Super Máquina - e depois, não tão guri, em SOS Malibu (bom, não era ele quem eu assistia...).

Mas verdade seja dita, fisicamente, ele ficou muito parecido com o carrancudo diretor da SHIELD. Não o gangsta Fury, feito à imagem e semelhança de Samuel L. Jackson, mas o Fury original. Aquele mix de James Bond com Sargento Rock concebido por Stan Lee e Jack Kirby e posteriormente elevado à l'état de l'art pelo megalomaníaco Jim Steranko.

Essa primeira impressão ligeiramente positiva não durou muito. Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. era um made for TV com tudo o que tinha direito: produção a toque-de-caixa, efeitos dos anos 1970, trama ridícula, direção de jardim de infância e presepadas em geral. Como o tempo é um traidor de percepções, eu imaginava se havia sido duro demais com o filme ou até mesmo se ele envelheceu melhor do que o esperado - o que é algo meio idiota de se pensar, mas que até faz sentido quando se tem alguma afinidade com as tosqueiras B que a vida nos traz. Se algo ficou melhor no filme, com certeza vai depender do senso de humor do espectador.

A história foi escrita pelo onipresente David S. Goyer. Mas poderia ser de algumas páginas que Jeph Loeb descartou do roteiro de Comando para Matar, tal a profusão de ideias jeniais, diálogos bisonhos e frases de (d)efeito.

No início do filme, vemos uma infiltração numa base da SHIELD - só para registro, Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão em português, Strategic Hazard Intervention, Espionage and Logistics Directorate nos quadrinhos atuais e Strategic Homeland Intervention, Enforcement and Logistics Division no filme. Ufa. A ficha cai quando o espião entra num setor chamado Cryogenics Section, que, certamente, serviria como uma espécie de fonte de supervilões projetado pelos produtores.

O que não é de todo uma má ideia. Uma fonte de matéria-prima para eventuais episódios "monstro-da-semana" sempre foi um dos recursos mais utilizados por séries de TV. De Arquivo X e Sobrenatural até Fringe, todos tiveram os seus.

E o arqui-inimigo da vez era realmente o 1º arqui-inimigo da SHIELD.


"Olá, velho bastardo..."

O Barão Wolfgang von Strucker foi o líder da organização terrorista HYDRA. Por que ele é mantido em permanente estado de sorvete nazi não se sabe, já que o filme não faz nenhuma menção a isso.

Mas a intenção e a procedência do agente infiltrado ficam bastante claros, ainda que o agente Clay Quartermain (lembra dele?) não se dê conta disso e apareça de surpresa para um descontraído papo de cafezinho.


BLAM! (onomatopéia aqui)

Pelo visto o papo não descontraiu e Quartermain leva um pipoco nos rins.

Vale observar que nos quadrinhos, Quartermain sempre foi um tipo pomposo e arrogante, mas aqui o ator Adrian G. Griffiths parece ter composto o personagem se inspirando no Chet, o irmão mais velho do Wyatt de Mulher Nota 1000. Ele parece um bully sociopata que realmente merece levar um tiro.

E queria muito encenar uma morte num filme, já que supervaloriza a coisa e demora uns 5 minutos para finalmente desabar no chão.


"Yippee-ki-yay, motherfuckeeeeer!"

Mas não tão rápido! Enquanto o resto da base é neutralizada por um ataque a gás, Chet Quartermain sobrevive e encontra uma máscara pra se proteger.

E depois se dirige heroicamente ao encontro dos invasores...


"Perigosa, êêêê... ela é perigosa... êêêê..."

...apenas para levar uma saraivada de tiros de AR-15 e AK-47 por todo o tórax, mostrando que esqueceu qualquer treinamento envolvendo pontos cegos e autopreservação durante um tiroteio.

Como a dona Morte devia estar dando uns amassos com o Thanos àquela altura, inexplicavelmente Quartermain ainda sobrevive para levar uma bicuda nas costelas e descobrir quem é sua algoz, que deixa um recadinho malcriado para Nick Fury na microcâmera do agente.

"A vingança será minha", diz ela.

Atenção na loira.

Ela é a filha do Barão Strucker, Andrea von Strucker, a vilã da trama. No filme ela usa o codinome Viper, num caso de flagrante apropriação indébita. Nos quadrinhos, Viper é Ophelia Sarkissian, anteriormente conhecida como Madame Hydra. Aquela, das volumosas madeixas verdes. E Andrea, juntamente com o irmão gêmeo Andreas, tem o codinome Fenris. Vai saber porque inverteram a coisa toda. Mas isso é o de menos...

Andrea é interpretada pela suíça Sandra Hess, que, apesar de bonita (foi a Sonya Blade até), é a responsável por boa parte da ruindade deste filme. É uma das atrizes mais canastronas que já vi exercendo a profissão. Não vejo nada igual desde Cinderela Baiana. Com muita boa vontade, daria pra elencá-la no cast do seriado do Batman dos anos 60. E mesmo assim correríamos o risco de um ataque de pelanca por parte de Adam West e Burt Ward.

Se a intenção dela foi soar forçada, histriônica e incrivelmente poser, parabéns. Missão cumprida e com louvor.

Mas voltando...

Mediante à invasão da base, ao roubo do corpo do Barão e aos seguidos assassinatos do agente Quartermain, a solução foi recorrer a um veterano-aposentado-brucutu-fodão.

Aquilo que comentei sobre Comando para Matar...


"Será que é ele mesmo nessa caverna? O famoso Nick Fur..."


"Deixa pra lá"

O ex-soldado John Rambo participava de sangrentas lutas com bastões na Tailândia. O ex-coronel John Matrix cortava sequóias para abastecer sua lareira. Já Nicholas Joseph Fury curte a aposentadoria trabalhando 23 horas por dia numa mina abandonada.

Sol, cerveja gelada e bem-alimentadas garotas de biquíni são para fracos!

Quem faz o contato inicial é o novato Goodwin Pierce, papel do ator Neil Roberts. O agente é o alívio cômico da história e não só é chatinho, como de fato lembra muito Ramon, o infame "pool guy" de Seinfeld. Deve ser primo.

Obviamente, ele não consegue despertar o menor interesse no atarefado Fury, que tem sua cota de dissabores com a velha organização. Mas nada tudo é tão ruim que uma abordagem correta não conserte.


"Eita!"


A expressão de fracasso do aspira é comovente

Essa é Contessa Valentina de Allegro Fontaine. "Val" para os íntimos. Personificada pela Lisa Rinna e seus lábios abnormalmente carnudos e entorpecivelmente convidativos.

Infelizmente, ela não comparece paramentada como nos quadrinhos...


...mas vemos la doce Rinna correndo pra lá e pra cá com um uniforme de couro justinho e fazendo biquinho de mean girl. Também sabemos aí que ela já foi território de Nick.

Val informa a Fury que abotoaram o paletó de seu velho chapa Quartermain, concluindo com um diálogo badass tão clichê que ficou até bacana:

Val: "Soou como se tivessem te mandado uma mensagem" 
Fury: "Parece que ouvi!"

Daí pra Fury tirar a poeira do seu distintivo e ir para o helicarrier é um pulo.


O famoso porta-aviões aéreo não ficou tão tosco quanto se poderia supor, logicamente descontado o CGI primário do orçamento disponível. O curioso é que mesmo com a fachada de alta tecnologia, a estética e o visual interno da nave é de um antigo encouraçado, com porões, portas de escotilha e afins. De uma maneira um pouco melancólica, me recordou dos saudosos tempos de Space Battleship Yamato.

Já a bordo, Fury reencontra velhos amigos dos tempos de Guerra Fria, como o Dr. Gabriel Jones (Ron Canada) e o bonachão modafócka Timothy "Dum Dum" Dugan (Garry Chalk).

Quer dizer, "bonachão modafócka" nos quadrinhos...


No filme ele parece meu professor de matemática do 2º ano.

Na sequência, Fury faz um breve tour para se atualizar e logo flerta com o estilo Dredd de ser: conhece uma agente telepata - Kate (Tracy Waterhouse), a única personagem dotada de algum superpoder no filme - e ganha uma pistola configurada com sua assinatura térmica (quem tentar dispará-la ficará eunuco). Muito sutil.

Mas Fury se espanta mesmo com a última novidade da SHIELD: os replicantes LMDs (Life Model Decoys). Inclusive havia um quase pronto e personalizado com a fuça do caolho.


"Now that's a scary shit!"

Todos nós já sabemos onde isso vai dar (shame on you, Goyer!). Mas o crédito tem que ser dado. Esses replicantes não apenas existem nas HQs como fazem parte dos recursos jurássicos da SHIELD criados originalmente pelo dynamic duo Lee & Kirby.

Enquanto isso, Andrea e Andreas planejam os toques finais de sua vingança. A ternura e o afeto entre os irmãos remete ao Pietro e à Wanda do universo Ultimate.


Mas trabalho é trabalho e Andrea aproveita pra dar uma prensa nas cabeças da HYDRA instaladas no Cairo, Londres, Praga e Osaka. À toa, diga-se, já que eles não aparecem mais depois disso.

Em seguida, os heróis seguem uma pista até Berlim. Lá, encontram a agente alemã mais estereotipadamente noir que a produção conseguiu fazer. Juntos, enfrentam alguma resistência até prenderem e interrogarem o infame Arnim Zola, gênio geneticista da HYDRA, que não é o Toby Jones, nem tem a cabeça no meio do tronco. Aqui ele é só um velhinho muito encarquilhado em uma cadeira de rodas.


Teimoso, Zola se recusa a dar pistas sobre o paradeiro de Andrea. Kate então tenta ler a mente do sujeito e não gosta nem um pouco do que vê: trechos de antigos documentários sobre a 2ª Guerra e filmagens de arquivo de testes nucleares que até a minha avó tá careca de assistir, revelando que Zola é um ávido espectador da TV Cultura.

E não para por aí: Zola fez um condicionamento cerebral que o protege contra hackeadas mentais e ejeta os invasores de sua cachola embolorada. Ok, isso foi bem legal.

Não muito longe dali, Nick acha que é seu dia sorte e que está prestes a pegar uma gata pomerana do serviço secreto. Contudo, ele é traído e, através de um beijo, envenenado com uma toxina de rã (é sério!).

Pra piorar, ele descobre que a loirinha na verdade é...


"Oh, shit... Andrea?! Continua!!"

De volta ao QG voador, Nick é informado que só tem até o fim do filme pra encontrar um antídoto, prender os bandidos, dar umazinha com a Val e ainda conseguir fechar com a Fox a produção de uma temporada inteira disso aí.

De repente, surge um andróide-clone do atual diretor da SHIELD, que é um baita pé-no-saco. Talvez por isso que é prontamente recebido a bala por Fury.

Nesse momento me ocorre duas coisas.



1) Esse Nick pode não ser gangsta, mas atira igual a um mano!

2) Como diabos o andróide chegou ao porta-aviões aéreo pairando a quilômetros de altura?

Isso permanecerá um mistério para a posteridade, mas o fato é que ele traz um SMS ameaçador de Andrea.


A HYDRA irá atacar New York com mísseis contendo o supervírus Death's Head, a menos que sejam depositados 1 bilhão de clintons em suas contas nas Ilhas Maluf.

Mas o pior ela deixa pro final, na forma de um trocadilho ultra-infame vindo direto da mente prevelejeada de Goyer:

"Against HYDRA, there's no shield!" (escudo)

Urgh.

Tem início então uma corrida desesperada dos mocinhos em busca dos terroristas. Fury, Goodwin e Kate vão ao encalço de Andrea, enquanto Val lidera uma equipe tática para vaculhar a Big Apple atrás dos mísseis.

Nesse ponto desperta um certo déjà vu.


O cerco a um furgão parado num beco, Val reportando à base em tempo real, a arriscada missão de desativar uma arma de destruição em massa no centro de uma metrópole, o clima de tensão no ar...

Caramba... 24 Horas puro! Quase dá pra ver o Jack Bauer ali falando "Dammit Chloe, we're running out of time!".

Faltou só o... o...

Peraí... Curtis?


 Curtis, é você mesmo, meu filho?



Curtis!!

Confesso que foi uma grata surpresa rever o Curtis Manning - aqui creditado apenas como "Shield Agent #1" - chutando bundas terroristas novamente. Ou melhor, anteriormente, visto que o agente Bauer só começou a interrogar pobres almas em 2001.

Como a vida de herói não é fácil, o furgão era uma pista falsa. A carga na verdade estava sendo transportada num caminhão de lixo.


Por sinal, o caminhão de lixo mais suspeito da história da espionagem.

Só o naipe do motorista já derruba qualquer disfarce.


Um pequeno adendo aqui... Andrea é assessorada por um time de lacaios idênticos, algo robóticos, de terno, gravata, óculos escuros, parecendo agentes M.I.B. albinos.

A trama nunca revela qual a natureza desses drones esquizóides, tampouco se formam a guarda de elite pessoal da vilã. No filme, a HYDRA conta com vários tipos de mão-de-obra especializada em suas fileiras (espiões, técnicos, cientistas, soldados, etc.), o que os deixa muito redundantes no quadro geral.

Nos quadrinhos, a força de trabalho da HYDRA é só um exército de stunts com uniforme verde e pronto. Menos é mais.

Mas voltando... por incrível que pareça, os vilões atravessam a cidade numa boa e estabelecem a base num cais abandonado (onde mais?). Lá, os mísseis da HYDRA são ativados, configurados, preparados...




E apontados para...


Oh, man.

Lembrando que, em 1998, essa não era uma possibilidade nem um pouco plausível. E que outros filmes também já exploraram a ideia de forma ainda mais incisiva. Mas que deu um frio na espinha, isso com certeza.

Sem muita dificuldade, Val consegue encontrar o covil e enfiar um balaço na cabeça do Andreas, mas o ataque ainda é iminente, já que os mísseis foram programados e a contagem regressiva já começou.

Impressionante como preferem esperar pelo Nick ao invés de removerem a plataforma inteira dali, evacuarem as torres ou chamarem o esquadrão anti-bombas.

No outro front, os mocinhos caem numa cilada e são capturados por Andrea, já testando o figurino que usará em seu aguardado ensaio para a Penthouse.


Fury não tira um olho

Após uma fuga mirabolante do calabouço, onde Fury literalmente arranca um C4 na cavidade ocular baldia atrás de seu tapa-olho (desafio qualquer um a não rolar de rir com a cena), os heróis travam uma batalha épica contra o time HYDRA.

O primeiro a rodar é Arnim Zola, que tenta atirar em Fury com a arma dele...


...e fica eunuco no processo. Não que vá fazer falta.

Tem início então um mano a mano entre Fury e Andrea, em que ele consegue perder no braço pra magrela. A vilã termina o serviço crivando de balas o veterano agente, cujo corpo se estabaca no chão, sem vida.

E é aí que vem uma das cenas mais sensacionais do filme.


"Ahahahah, se fodeu Bátema... digo, Fury. Se fodeu, se fod... hã?"


"Não fui eu quem morreu, sua putinha relaxada, foi meu clone eunuco!"

Depois dessa, Andrea manda tudo à merda. Ela é presa, o antídoto que existe em seu sangue é recolhido e os códigos para o desarme dos mísseis são extraídos de sua mente à fórceps.

O dia está salvo!

Mas a filha do Barão é guerreira. Consegue se libertar das algemas (?), driblar todo o contingente da S.H.I.E.L.D. que abarrotava seu QG naquele momento e fugir com o corpo criogenizado do papai Strucker.

E ainda joga beijinho.


"Tchau, seu corno manso, a gente se vê na Batcaverna!"

Com tudo resolvido, Fury finalmente acerta as velhas pendências com a S.H.I.E.L.D., retoma seu lugar na cadeia de comando e ainda arma aquela bimbadinha exxxperta com a Val.

Isso não vemos, mas somos brindados com um lindo final romântico com direito à pôr-do-sol visto do helicarrier...


Droga.

Mas espere. Isso é um filme pra TV. E também um piloto. Tem que reforçar a continuidade.

Ou seja...


Castelo sinistro, check. 


Vilã ressurgindo das sombras ostentando um enorme camel toe... check. 


Barão Strucker voltando aos negócios, check. 


Mais demonstração de carinho familiar WTF, check. 


HUAHEUEHUAEUHAUE vilânico... check! ✓✓✓✓✓✓✓✓✓

E esse foi o epílogo feito especificamente para dar base aos vindouros episódios... que nunca vieram.

É claro que não dá pra esperar nada muito louvável de Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D.. Mas se o espectador casual se aventurar no filme com isso em mente, é provavel que saia recompensado no final das contas. Com certeza, o filme oferece bem mais risos e diversão involuntários do que a maioria das produções atuais feitas para esse objetivo. E não apenas para quem tem boa tolerância à tosqueira. 

Excetuando se for fanboy de qualquer tipo ou cinéfilo restrito a superproduções sisudas e candidatas a épico. Nesses casos, passe muito longe e fuja, fuja para as montanhas!!

Bom, S.H.I.E.L.D. TV em dia.

Agora deixa eu ver como anda aquela season premiere que eu joguei no uTorrent...


Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. ("Nick Fury: Agent of Shield", EUA, 1998), 90 min.
Direção: Rod Hardy
Elenco: David Hasselhoff, Lisa Rinna, Sandra Hess, Neil Roberts, Garry Chalk, Tracy Waterhouse, Tom McBeath, Ron Canada, Peter Haworth

domingo, 20 de julho de 2008

O REI DA COMÉDIA


Nunca achei que pensaria assim após três longos anos, mas lá vai: perto de Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, EUA, 2008), Batman Begins foi brincadeira de criança. Um dia ensolarado no parque. O lado mais pop e acessível do Batman na visão de Christopher Nolan. Agora a ordem do dia é chutar as crianças da sala. Livre das amarras ligadas ao passado negro da franquia, o cineasta britânico não perdoa. O roteiro escrito por ele, seu irmão Jonathan Nolan e David S. Goyer é dinâmico, inteligente, impactante e, acima de tudo, corajoso. Isto somado à montagem ríspida e uma marcação cerrada sobre as performances individuais - e pode crer que Nolan drena as capacidades cênicas de cada envolvido -, sedimentam bases ainda mais sóbrias do que as do primeiro filme. É um tour-de-force desmistificante.

A percepção de versão alternativa do herói triplica nesta seqüência, com a veia autoral de Nolan pulsando vertiginosamente - o que não deixa de estabelecer um paralelo insólito com Batman, de Tim Burton, e mais ainda com Batman: O Retorno, extremamente de Tim Burton. O que temos aqui é novamente um trabalho de reinvenção, porém minucioso e criterioso. Assim como Burton, Nolan "seqüestra" o personagem, mas as semelhanças acabam aí. Numa das cenas-chave, Cavaleiro das Trevas claramente dialoga com o Batman de 1989 e não parece dizer nada muito elogioso.

Se em Begins era notável a preocupação com praticidade e verossimilhança, Cavaleiro das Trevas assume o viés em toda a sua extensão. Começando por Gotham, que perdeu aqui todo o seu potencial turístico. Despida do art et décor faraônico e de gárgulas por toda a parte, a cidade acorda de seu sonho gótico para uma estética ordinária, anônima, ultra-realista, típica de qualquer centro urbano. Sem dúvida, transmigrou a locação para as telas. Gotham é Chicago. Mesmo os elementos tradicionais dos quadrinhos não passam intactos neste live-action-per se. O bat-sinal, por exemplo, não passa de um borrão ininteligível no céu nublado. Há várias tomadas à luz do dia. O arsenal utilizado é modesto, não existem raios da morte ou mecanismos milagrosos de nenhuma espécie. O Espantalho (Cillian Murphy) é colocado em seu devido lugar logo de cara, neste universo cuja Física se aproxima muito da nossa. E, como tal, também tem o Caos como uma força obscura da natureza.

O Coringa de Heath Ledger é incorruptível, imprevisível, irracional e... irremovível. O ator se entrega de maneira incondicional à sua psique grotesca e estilhaçada, com trejeitos desajeitadamente épicos, numa atuação que se desenrola imune à edição abrupta (o único personagem a ganhar esse luxo, aliás). O Coringa/Ledger passeia livre em cena, com o tempo e os olhares do mundo ao seu favor. E é realmente irresistível, magnético, trafegando com absoluta naturalidade entre o excêntrico, o engraçado e o aterrorizante. Ao longo da projeção, o personagem vai se transformando numa verdadeira entidade terrorista desconstruindo Gotham sistematicamente. Dos cidadãos comuns, às autoridades instituídas até seus maiores defensores. É a antítese caótica da simbologia de ordem e justiça que o Batman tenta inspirar. Para isso, o Coringa Bin Laden seleciona cuidadosamente a escória que servirá à "causa": bandidos de segunda para ações convencionais e legalmente insanos (loucos de pedra!) para as missões suicidas.

Suas maquinações são um show psicopático à parte. Desdobrando-se em etapas cada vez mais ousadas e letais, elas acabam se revelando um único e grandioso esquema ao estilo caixa-dentro-da-caixa. Sempre didático em suas piadas, se faz entender tanto com toneladas de explosivos quanto com meros utensílios básicos, como na já antológica cena do lápis (uma aula de como monopolizar a atenção!).

O Coringa definitivo, atemporal, merecedor com mérito de todas as homenagens e premiações póstumas. Para ser lembrado como algo único e referencial. No fim, uma dúvida para a eternidade... teria sido seu auge ou apenas seu início?


Dizer que Christian Bale foi ofuscado por Ledger pode ser até mais simples, mas não totalmente verdadeiro. O roteiro equilibra pelo menos cinco personagens de peso, cujas intervenções são fundamentais na resolução da trama. Assim, toda a narrativa envolvendo Batman/Bruce Wayne transcorre apenas um pouco acima das demais (e em alguns momentos até abaixo). Há eventos cruciais no roteiro operando fora do alcance e mesmo do conhecimento do protagonista, demarcando territórios com prognósticos inexistentes e conferindo tridimensionalidade ao contexto. Uma arrepiante seqüência envolvendo dois barcos foi emblemática neste sentido: sem exceção, todos são importantes aqui - principalmente a inteligência do público, jamais subestimada durante as duas horas e meia do filme.

Cavaleiro das Trevas situa-se pouco tempo após Begins. Com a mansão Wayne em reconstrução, Bruce utiliza um quartel-general provisório (quase um franchising do Inmetro), onde aprimora seus veículos, equipamentos e, em particular, sua armadura - muito pesada e pouco flexível, atestando que os realizadores estão cientes de que o design ainda está longe do ideal. Nas ruas, a lenda urbana do Batman está em franca ascensão, gerando controvérsias nos altos escalões. Toda a questão do vigilantismo é bastante discutida no filme e cria o gancho perfeito para a introdução do promotor Harvey Dent. Uma espetacular introdução, por sinal.

Celebrado como o "cavaleiro branco" de Gotham, Dent é visto com olhos esperançosos pela mídia e, especialmente por Bruce, que o considera uma alternativa mais civilizada (e menos fascista?) que a existência de um Batman. Isto até a grande virada do personagem, onde suas convicções morais e éticas são jogadas literalmente na brasa, dando origem ao trágico vilão Duas-Caras. Terrivelmente desfigurado aqui, ele supera de longe as cicatrizes bobinhas (e agora até charmosas) dos quadrinhos. Ao contrário da explosão anárquica do Coringa, o Duas-Caras é ironicamente unidimensional. Numa consciente abordagem, Aaron Eckhart manteve o mesmo tom de austeridade antes e depois do trauma. O que era virtuoso ficou diametralmente impiedoso no instante seguinte, o que é algo assustador de se imaginar.

Numa proposta em que dramaticidade e personagens são priorizados, o grande Gary Oldman recebeu um verdadeiro presente. Seu carismático Tenente Gordon foi elevado a um novo patamar, exercitando uma gama de nuances complexas em situações-limite e co-protagonizando o filme com maestria. E virou comissário, finalmente. Já Michael Caine adotou uma postura bem mais incisiva. Alfred - um lobo em pele de cordeiro - está muito mais influente e revela que nem sempre foi mordomo, o que só contribuiu na excelente química com Bale. Fora que o timing cômico dos dois é fabuloso.

Morgan Freeman teve poucas novidades com seu Lucius Fox, o Q do morcegão. Excetuando sua última cena (num gancho sutil e genial), ele apenas reeditou a pegada de sua participação anterior. E a personagem Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo bem Katie Holmes) finalmente encontra lugar e relevância à altura da franquia, se é que você me entende.

O Cavaleiro das Trevas não é perfeito como a anfetamina midiática distribuída nos últimos meses levou a crer. Ainda assim, é muito mais do que apenas o melhor filme baseado em quadrinhos. É um marco. O precedente que, tomara, redefinirá o modo como serão adaptados os próximos exemplares da nona arte. E no que depender do box-office, serão mesmo.

sexta-feira, 1 de julho de 2005

INTROSPECÇÃO


O sentimento que predominou de um ano pra cá foi de urgência para fazer a coisa certa. Pôsteres, trailers, spots e até dez minutos de gorjeta foram generosos aperitivos e pareciam dizer "ei pessoal, dessa vez estamos fazendo o que vocês estão pedindo". Mas não é pra menos. Batman Begins (2005) representa uma volta por cima que durou longos (e compreensíveis) oito anos - resumida no filme com a retórica "por que nós caímos?", no tom mais auto-referencial de redenção que se possa imaginar. Conferindo a trajetória do filme, nota-se um paralelo interessante aí, no qual o próprio personagem se torna uma espécie de pivô por acidente.

No passado, seu universo havia recebido uma nova linha de possibilidades via Frank Miller e seu Cavaleiro das Trevas, que foi solenemente ignorada em nome de uma pretensa "reinterpretação autoral", jogando no fundo da latrina uma boa oportunidade de fazer História. Contudo, o pior ainda estava por vir e o resgate camp daquele clima do bat-seriado dos anos 60 foi a pá de cal definitiva. Paralelamente, Miller se aventurava em uma decepcionante experiência inicial na sétima arte, como roteirista. Resultado: todos na geladeira por tempo indeterminado. Anos depois, estamos todos aqui (a A.C.M.E. network, Frank Miller e nós, os clientes). Mais velhos, calejados, fazendo uso da nossa visão periférica e tentando não repetir os mesmos erros. Ao mesmo tempo que Miller comete a mais fiel adaptação de uma história em quadrinhos para o cinema, Batman Begins reduz consideravelmente a distância entre o texto original e a telona. Já é um bom "começo".

Apesar da ficha impecável, a presença do diretor inglês Christopher Nolan pouco minimizou a aura de incógnita que permeava a nova incursão do morcego nas telonas. Estiloso e contraventor, Nolan saiu do circuito independente com um nervoso suspense revirado ao avesso (Amnésia... lembra? ...foi mal, não resisti) e seguindo adiante em um thriller policial cuja atmosfera estática era a matéria-prima (Insônia... teve quem não gostou). Nos dois casos o clima predominantemente soturno e introspectivo foi elevado a um acachapante realismo cotidiano. Mas nenhum deles teve a responsa de acomodar uma figura tão fantástica quanto um vigilante psicótico vestido de morcego e cheio de armas high-tech. Então o trabalho era dobrado.

Como um perfeito artesão de atmosferas, Nolan tratou de dar a devida atenção ao palco de toda aquela loucura. O resultado é a melhor Gotham City já vista no cinema. Cinzenta, caótica, corrupta e, ao mesmo tempo, glamourosa, viva e grandiosa, a cidade se transformou num elemento à parte dentro do filme. E crível. Gotham foi personalizada, mas sem sair do chão. A sua caracterização não passa ao largo das peculiaridades urbanóides de uma Pequim, uma New York, um Rio de Janeiro ou uma Amsterdã. Mais do que ver Gotham, nos sentimos em Gotham, com tudo o que isso tem de bom e de ruim. Atmosfera pronta e - agora sim - só faltava algo acontecer.

Atualmente, David S. Goyer é o operário padrão dos roteiros de filmes baseados em HQs. O que não quer dizer "garantia de qualidade", entretanto. Ao lado de momentos inspirados (Blade 2 e, vá lá, Cidade das Sombras) ele coleciona belos frangos em final de campeonato (Nick Fury - Agent of SHIELD e o xaropão Blade Trinity). "Irregular" é o seu quarto nome. Seja como for, ele acabou por realocar as melhores motivações e subterfúgios narrativos possíveis dos quadrinhos para o filme. A opção de investir em uma primeira hora inicial bem diferente do que se viu até hoje a respeito do personagem (mesmo para os fãs das HQs) demonstrou uma inegável disposição de construir um background sólido - independente do apelo pop que teria um início clipeiro com ação à mil por hora e nenhum resquício de neurônio-at-work. Méritos também para as referências espertas que pipocam lá e cá. Umas mais óbvias, como Ano Um (Bruce Wayne se readaptando à decadente Gotham), outras mais figurativas, como Cavaleiro das Trevas (o pega-pra-capar final no subúrbio de Gotham e a Mansão Wayne indo pro saco). Praticamente não existem escorregões por aqui, apenas leves "água-planagens", como a máquina de microondas unodirecional - depois misteriosamente omnidirecional - com microondas que só atingem água em canos de esgoto - quase tão esquisito quanto radiação em slow-motion que transforma homo sapiens em homo superior ou "o poder de um Sol na palma da mão".

Pode-se dizer que Batman Begins soa como um extremo da passagem de um material livre para um contexto mais realístico. Isso é conseqüência direta da tentativa de nos aproximar da persona fascinante e não-usual de Bruce Wayne - um playboy triliardário e profundamente traumatizado que arrisca o pescoço à noite como vigilante - de fato, uma tarefa bem mais difícil do que nos identificarmos com um loser retraído e sem um tostão no bolso.

Um aprendizado tortuoso à base de contusões e hematomas, motivações bem direcionadas e um ator principal imerso, exalando credibilidade e jogando para o time. E que time. Christian Bale é o Batman. Tem toda aquela aura enegrecida e o olhar assassino necessários ao papel, fora o seu passado regado à personagens cruéis e dark - como visto nos filmes Psicopata Americano e Shaft. O resto é competência cênica e fotogenia. Sinceramente? Melhor que na HQ. Confesso que sempre gostei de Katie Holmes, mas não conseguia vê-la muito além da doce Joey, sua personagem na série Dawson's Creek. Apesar do charme suburbano (ela é linda e poderia ser a minha vizinha - quem dera), essa minha velha impressão se confirma aqui, reforçada pelo fator "mocinha em perigo" - um clichê que nasceu com o Cinema. Mas no final foi por uma boa causa. Algo maior que sua participação, influiria na história de tal modo que seria melhor terem contratado logo uma atriz com envergadura de top model (ao exemplo de Kim Basinger e Nicole Kidman). Nada recomendável... não agora.

Michael Caine é daqueles que envelhecem com dignidade. Deixando definitivamente pra trás toda a tralha que insistia em manchar sua filmografia, ele talvez seja o Alfred ideal nesse momento da vida de Bruce. A classe e a frieza que lembram o mordomo Stevens (personagem de Anthony Hopkins, em Vestígios do Dia) são amaciadas pelo mesmo calor humano que sir Caine exercitou no filme Regras da Vida, principalmente no que tange ao trato com crianças. E aí vai a bomba: chegou a entrar um cisco no meu olho quando ele abraçou Bruce-boy. Já Morgan Freeman, além de ser o Bastião da Confiabilidade, é o coadjuvante de luxo. No papel de Lucius Fox, ele é o braço direito de Bruce nas Indústrias Wayne e seu providencial tech-dealer. É através dele que Bruce descola seus brinquedinhos caríssimos, em um esquema de malocagem que faria inveja aos nossos políticos em Brasília. Excelente background que nunca recebeu uma explicação decente (e que seria completamente ignorado se o filme estivesse nas rédeas de um mané qualquer). Outra coisa... mr. Freeman está se divertindo como nunca. Seu sorriso chega a ser contagiante durante o teste no protótipo do Batmóvel. Eu não via um veterano tão à vontade desde que Al Pacino deixou escapar uma gargalhada no meio de um diálogo entre Jack Lemmon e Kevin Spacey, em Sucesso a Qualquer Preço (cena que foi devidamente mantida para a posteridade). Mas aí já foge ao escopo "filme de super-herói". Ou será que não?

Filme de super-herói pode alcançar o nível de excelência cinematográfica, transcendendo o rótulo de mera diversão pueril?

Inicialmente, eu achava que Gary Oldman e seu eterno ar dirty outsider soavam incompatíveis com o austero e incorruptível Jim Gordon. Mais chegado aos papéis soturnos e aos vilões forjados pelo mundo-cão, Oldman se saiu discretamente em uma atitude de desvínculo. O caldo ficaria no ponto se as influências de DK se fizessem presentes em um Gordon mais incrédulo, amargo e pragmático, mas acima de tudo um lutador que coloca seu dever e a Justiça acima de sua própria vida. Daria um belo spinoff protagonizado pelo futuro Comissário - com o Oldman tranqüilamente figurando no papel principal, pois aqui ele já fez por merecer.

Liam Neeson é hoje uma espécie de certificado ISO de atuação em blockbusters. Remanescente daquela mesma safra de bons profissionais que ia de Ralph Fiennes e Daniel Day Lewis a Billy Bob Thornton, Neeson sempre cultivou uma imagem meio relacionada a um certo messianismo paternalista, ao mesmo tempo em que mantinha um perfil envolvente e sedutor (ecos de Schindler?). Funcionou como uma beleza em Star Wars: A Ameaça Fantasma (na parte da responsa que lhe dizia respeito), e aqui ele emenda o mesmo approach com uma verve mais severa e sem rodeios. Este é o Ducard, personagem-carta na manga com nuances até meio inesperadas no contexto de Batman Begins.

Aliás... só um filme de qualidade insuspeita teria um (sub)vilão como Jonathan Crane, o Espantalho ("um mané com spray"), em sua melhor concepção e sem estranhamento. Não houve o menor sinal de carnaval fora de época aqui. Goyer não exagerou, Nolan não exagerou e nem o ótimo Cillian Murphy (de Extermínio) exagerou. Ficou tão bom quanto poderia ser - e confesso que tomei um susto com a primeira borrifada do gás do medo.


Eu poderia chegar aqui e enumerar as melhores cenas, mas... o início, mostrando Bruce em busca de si mesmo, seu treinamento ninja - e aquela prova final simples-mas-bem-sacada, momentos históricos como a criação do conceito de um vigilante que utiliza o medo como cartão de visitas (finalmente!) e a estratégia para despistar isso com uma vidinha party all night long, a carismática cidade de Gotham (mezzo burguesia clássica mezzo Cozinha do Inferno como deveria ter sido no filme do Demolidor), o devastador Batmóvel (cabrón... eu cansei de falar isso aqui), a verdadeira face de Batman sob o olhar de um Espantalho alucinado, o destino incerto e apropriadíssimo de Ra's Al Ghul (de acordo com proposta realística e com um Poço de Lázaro conceitualmente subjetivo) e o final arrasa-quarteirão - ou quarteirões! - que culmina num descarrilhamento monumental.

Mas talvez... talvez... o momento que ficou talhado na BIOS da minha cachola tenha sido esse - um Batman live-action que se reencontra com o seu espírito original, que passa a fazer todo o sentido do mundo e que justifica o primeiro subtítulo que a produção recebeu: "intimidação". Só esse momento já vale a veneração desse ídolo maldito por dez gerações.

Na categoria "poderiam ter feito isso, mas nem eu sei se ficaria bom" (modalidade altamente lisonjeira, diga-se de passagem), ficaram ausentes referências mais específicas a Tália, filha de Ra's, e uma justa homenagem a Mike W. Barr, autor de O Filho do Demônio, a melhor história já escrita sobre Batman, Ra's e Tália - mas preferiram homenagear o Jeph Loeb.

Ah, sim. Filme de super-herói pode alcançar o nível de excelência cinematográfica?

Pode... e precisei assistir Batman Begins para saber disso.

Na trilha: Nine Inch Nails - CRC Sessions (Acoustic in Chicago)