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domingo, 10 de julho de 2005

O DIA EM QUE A TERRA APANHOU



"Através do golfo do espaço, mentes que estão para as nossas como as nossas estão para as feras da floresta, intelectos poderosos, frios e sem simpatia observavam esta Terra com olhos invejosos e lenta e inexoravelmente traçavam seus planos contra nós."

Esse é um trecho da abertura do clássico sci fi Guerra dos Mundos, escrito por H.G. Wells. Ele também comparece - de forma quase solene na voz de Morgan Freeman - logo nos primeiros minutos de Guerra dos Mundos, o filme. Aliás... O filme. Poucas vezes um orçamento de gente-grande foi tão bem utilizado quanto nessa produção. E mais raro ainda foi resistir à tentação de criar um espetáculo non-stop movido a CGI. Coisa de quem não se deixa deslumbrar fácil, de veterano calejado. Coisa de Steven Spielberg. Soa meio esquisito afirmar isso, mas Spielberg tem background de diretor de suspense. Os seus primeiros filmes (Encurralado, Tubarão) são legítimos representantes do gênero - mesmo o divertido Louca Escapada, de 74, tem elementos inequívocos dele. Depois, Spielberg misturou esse timing natural à uma fórmula pop e deu no que deu. Mas o tino pra coisa continua lá, intacto. Spielberg, quando quer, pára a respiração e o batimento cardíaco de qualquer um. E é o que ele exercita aqui, primorosamente. Morra de inveja, Brian De Palma.

Muito se falou que Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005) é um carro alegórico pra Spielberg acenar positivamente para a política predatória do presidente Bush. Tá, e eu vejo duendes. Pra começar, o filme segue uma linha paralela ao texto original, mas jamais modifica a estrutura dos eventos principais (aqui, em segundo plano), o que já descarta a teoria. A não ser que H.G. Wells tenha sido um partidário ferrenho de George MacBush, o pentavô de W. Bush. E Spielberg não se atém ao mero conceito do "ninguém invade o meu espaço" (ilustrado em alguns momentos no filme) e traça um perfil bem interessante da natureza irascível da humanidade - ainda que de maneira sutil.

Outra embaçada: as alusões ao 11/9. Parece que tudo é 11/9 agora. Até a inocente fonte Wingdings entrou no corredor polonês. Ah, mas certas analogias à data comparecem sim... plasticamente falando - vide a imagem do topo. Nothing more. Não há qualquer sinal de marciano árabe ou afegão por aqui (aliás... não existe nem a palavra "marciano"). O que há de referência ao fatídico dia é o inesperado da situação pegando todo mundo de calça curta. Explosões onde não deveriam haver explosões. Pessoas morrendo na sua frente da maneira mais improvável. Construções imponentes se desmanchando como um castelo de areia. Sim, já sei, somos formigas no Universo, mas em Guerra dos Mundos somos lembrados disso a todo instante. É uma ode reversa (e perversa) à brincadeira de torrar formiguinhas com uma lupa ao Sol.


A história, pra quem não conhece, é complicadíssima: os marcianos estão chegando. Ponto. Menos é mais e, no caso, o fermento rendeu bastante com a mudança de ângulo narrativo. Vemos todos os eventos se desenrolarem através dos olhos do despachado Ray Ferrier (o inconstante Tom Cruise), uma figura com tantas falhas e buracos no caráter quanto eu ou você que está aí (tá bom, tá bom... tanto quanto eu então). Comodista e pai desleixado, Ray faz da falta de compromisso seu esporte preferido, mesmo que isso lhe custe o respeito de seus filhos, Rachel (a futura oscarizada Dakota Fanning) e Robbie (Justin Chatwin, mais um teenager qualquer nota).

O ponto de vista é do egocêntrico Ray, então o recurso se torna funcional quando testemunhamos seu micro-universo particular e confortável indo às favas. A partir daí, a composição inicial de Cruise (à base do famoso sorrisinho confiante-e-idiota) é seguida por uma quebra de ritmo que começa em incredulidade, trafega pelo desespero e chafurda numa mortificante desolação. Ele entrou no clima e seu nível de atuação vai aumentando à medida em que o script explora as nuances do personagem, conferindo-lhe uma inesperada tridimensionalidade. Daí o "inconstante". Um pouco antes do final, Cruise justifica todas as vezes em que eu o defendi como um bom ator.

Com a história sendo assistida diretamente da "geral", alguns detalhes logo saltam aos olhos. Um deles foi o uso da dinâmica estilo Canal 100 em certos trechos, remetendo à ação descaralhante da meia hora inicial de O Resgate do Soldado Ryan. E fica aí o registro: a aparição do primeiro tripod é um dos momentos mais contundentes do cinema blockbuster nos últimos 15 anos. E o som da sala que eu estava era absurdamente alto. Tonteei. Outro detalhe foi a informação a conta-gotas. Sabemos o que Ray sabe, nada mais. Temos outras preocupações mais importantes (como permanecer vivo, p.ex.) do que desvendar os meandros da invasão. Daí que não existem maiores referências à procedência dos aliens - com design no padrão clássico - e nada muito além de suas intenções imediatas, que continuam como no original, ou seja, maniqueístas. E essas informações não fizeram falta, pois a saga de Ray e seus filhos não deixa a peteca cair nem um segundo. É uma porrada atrás da outra.

Existem dois momentos que podem ser considerados os mais não-Spielberg que Spielberg já filmou. O primeiro é quando Ray & cia trafegam de carro por uma rua lotada de refugiados. A seqüência chega a ser desoladora de tão real e ilustra bem até onde vai a nossa civilização. O segundo é um mergulho num oceano de tensão, e se passa num porão onde nossos heróis são acolhidos pelo personagem de Tim Robbins, excelente como sempre. Não há muito o que se possa comentar sem revelar um spoiler, mas pra quem já assistiu ao filme, apenas uma observação logo abaixo. Marque para ler.

O personagem de Robbins, o alucinado Harlan Ogilvy, pode ser relacionado a um manifesto político sem culpas, ao contrário da maioria das supostas mensagens do filme. Sua obsessão em se manter no "território ocupado" para atacar o inimigo por dentro, de surpresa, e a negação de Ray a essa atitude é claramente um protesto de Spielberg e dos roteiristas Josh Friedman e David Koepp à realidade do Iraque hoje. Por outro lado, o que Ray faz com Harlan no fim, soa como um recadinho malcriado aos terroristas. Aliás, a menção à Europa e ao terrorismo no mesmo diálogo, dentro do carro, foi uma infeliz coincidência com os atentados em Londres, na semana passada.

Guerra dos Mundos é um spin-off de uma premissa clássica. Tem um evento principal que começa e termina da mesma maneira como todos conhecem (ou deveriam conhecer, façam-me o favor...). Vocês já viram isso naquele outro filme, que ganhou até um upgrade mal-feito. Correndo por fora, tem a saga de Ray, que - essa sim - termina Spielberg's style, para o bem ou para o mal. Mas depois do exercício de nervos que ele proporcionou na hora e meia anterior, isso veio como uma brisa suave e providencial - e com todas as suas improbabilidades digeridas por este que vos escreve. Não tenho culpa se fiquei de bem com a vida... :P


Na trilha: o álbum WWIII, do KMFDM... uma porradeira eletrônica sinistra...

sexta-feira, 17 de junho de 2005

P. T. ANDERSON É REI



Magnólia (Magnolia, 1999) não é um filme unânime. Não há quem seja indiferente. Ou a pessoa adora ou odeia. Eu adoro.

Desde o começo percebe-se que é um filme atípico. Uma seqüência de acontecimentos que beiram o absurdo têm sua condição de coincidência posta em xeque, reforçando que em um universo crê-se que o acaso pode ser uma regra, as possibilidades são infindáveis. Este início poderia ser encarado como um prefácio de um livro, tal a forma como resume as idéias do todo. Magnólia poderia ser classificado como uma obra religiosa. Não uma obra religiosa ortodoxa, destas que esbarramos por aí, mas uma obra religiosa moderna, que usa de símbolos e rotinas do dia-a-dia de qualquer um para mostrar o quanto nós estamos sujeitos à ira divina, caso continuemos olhando para nossos umbigos. Diversos exemplos destas rotinas são mostrados e, se não conseguirmos encaixá-los em nossas próprias vidas, certamente conhecemos alguém que passa por isto: o homem formado e frustrado que fora um garoto brilhante, um bem sucedido profissional com pecados que destruíram sua família, o bom homem solitário cuja profissão o faz entrar em conflito com o que acredita, a mulher aproveitadora, o filho que usa os defeitos do pai para justificar os seus próprios etc. Tudo de uma só vez. Tudo tomando proporções bíblicas em um único dia.




O responsável pelo cruzamento destas histórias chama-se Paul Thomas Anderson. Dentre todas as nuances da vida mostradas no filme, destaca-se a capacidade que o ser-humano tem de julgar o próximo. O filme inteiro é baseado em julgamentos, com a direção competente que manipula os espectadores a ponto de encontrar-me também julgando fervorosamente as personagens que observo, apenas para, depois, perceber o quanto sou injusto e incapaz de julgar apropriadamente, já que nunca conhecemos todo o cenário. O tempo todo é possível olhar para si mesmo e ver quantas vezes já não fizemos o mesmo por aí. Uma frase da personagem de Tom Cruise, machista convicto, ao ter sua personalidade falsa desmascarada e ser indagado a respeito choca ao trazer para o mundo das palavras aquilo que sempre é sentido sem perceber:

"O que estou fazendo? Estou te julgando silenciosamente."




Não é só isto. A maestria como o diretor consegue interligar os fatos ocorridos e emoções sentidas durante o filme faz com que as frases de um se encaixem na vida de outros, como quando o homem que outrora fora uma celebridade infantil ouve que "é perigoso ver crianças como anjos", ao passo em que em outra 'vida' esmiuçada, um garoto é tratado exatamente assim.

Esta seqüência de julgamentos e o passeio que as personagens fazem por quase todos os pecados capitais – destaque para Avareza, Soberba, Luxúria, Ira e Inveja – geram no espectador um sentimento de angústia, fazendo-nos sentir o que aquela série de personagens também sentem, e levam o filme a um clímax que, para muitos, é surreal (e é mesmo), mas é um fecho com chave de ouro, seguido ainda de uma narração em off do policial – o único que, em tese, poderia julgar e não o faz – cujas palavras ecoam na mente por mais meia hora depois que as 3 horas de filme terminam.




Dica: Procurem perceber as variadas ocasiões em que os números 8 e 2 surgem no desenrolar do filme, principalmente no início. Depois recomendo a leitura de uma parte da Bíblia, o Êxodo 8:2. É curtinho, três linhas, não se cansará. Para ajudar, listo abaixo todas a vezes que os números aparecem no filme (peguei no IMDB). Arraste o mouse para ler.

Previsão do tempo: 82% de chance de chuva;
Um jogador precisa de um 2 no blackjack, mas ganha um 8;
O formato das cordas quando o garoto se joga do prédio;
A primeira leitura de temperatura;
O pôster na TV mostra a audiência;
O pôster de um filme num ponto de ônibus na Magnolia Boulevard;
O cartaz dos condenados ao enforcamento;
Número da caixa de correio de Jim Kurring's no tele-encontros;
O número do apartamento dos pais de Sydney Barringer é 682;
A convenção de ciências começa às 8:20;
Delmer Darion vira algumas cartas para mostrar o 8 e o 2 de ouros;
Logo depois de Jim Kurring ver Donnie Smith escalando o prédio, pode-se ver rapidamente um símbolo à beira da rua que diz "Exodus 8:2" (visível novamente quando os sapos caem e acertam o carro de Kurring);
O número do avião dos bombeiros;
Na foto da detenção de Marcy, seu número de registro é 82082082082;
Na cena do bar há um quadro de giz com dois times, o sapo e as nuvens, o placar está 8 a 2;
Spray pintado no cimento como graffiti perto do garoto;
Uma pessoa na platéia do game show segura um cartaz com Exodus 8:2 escrito;
As crianças estavam a dois dias de ficarem 8 semanas como campeãs;
O quiz kid Donnie Smith ganhou seus 100.000 dólares em 28 de abril de 1968;
Os dois primeiros números do Seduce and Destroy Hotline (1-877-TAME-HER) são 82;
Um dos homens enforcados tinha o 82 nas roupas.


Passando para a parte técnica, o diretor desenvolve um trabalho exuberante. Antes de Magnólia, PT Anderson já gozava de certo reconhecimento por Boogie Nights (1997) - sobre o qual não posso opinar pois não vi. Entretanto, vi Embriagado de Amor (Punch Drunk Love, 2002), onde consegue fazer Adam Sandler atuar. Sabemos que, dentre as funções de um diretor, tentar extrair o melhor de seus atores é o básico, o que faz-me concluir que este é um dom destacável de Anderson. Tom Cruise - ator mediano em minha opinião - consegue sua melhor performance na carreira, com um personagem intenso e complexo na medida correta. Destaca-se em um filme onde todos os personagens conseguem ser tridimensionais, coisa dificílima e rara principalmente com diversas histórias e em uma mídia cuja exposição flutua entre 2 e 3 horas apenas.




Destacam-se ainda Julianne Moore, esposa infiel de Earl Partridge, e Philip Seymour Hoffman, o enfermeiro gay e consumido em culpa do magnata.

A propósito, caso esteja divagando sobre o porquê de o filme ter o nome de Magnólia, é este o nome da rua onde quase todos os eventos acontecem ou onde os personagens moram e em quase todas as locações do filme há pinturas ou fotos da flor homônima.

A propósito²: Não há legendas nas fotos porque simplesmente acho que são auto-explicativas.

domingo, 29 de maio de 2005

MULDER WAS RIGHT


Saiu o trailer final de Guerra dos Mundos, o mais novo encontrão spielberg-cruisiano (o último full lenght dos dois foi o bonzão-mas-podia-ter-sido-genial Minority Report, de 2002). Mudando um pouco o estilo dos previews anteriores, Spielberg mostra um pouquinho mais dos tripodes e naves marcianas que arrasarão a Humanidade. Mas tudo naquele velho esquema old school de marketagem que o próprio diretor criou: imagens em cortes rápidos, de relance, em fade-out ou em meio à explosões visuais em que é difícil distinguir qualquer contorno mais revelador. Estratégia que corre contra a atual tendência de mostrar, hiper-expor e até divulgar spoilers que, não raro, funcionam como um verdadeiro anti-clímax.

Na verdade, não sei até que ponto a publicidade tímida dessa produção (em se tratando de um candidato a blockbuster) pode se fazer por si só. Afinal, trata-se de um filme com Steven Spielberg e Tom Cruise juntos, e o fator "nunca vi filme ruim com esse cara" tem lá a sua parcela garantida de retorno junto ao povão*. Mas, mesmo sabendo que não é bem assim, as chances parecem muito boas de o filme ser bem divertido, principalmente após ver esse trailer, que é um amálgama das melhores cenas que foram divulgadas até então. Tem lá o exército mandando bala, ao melhor estilo O Dia em que a Terra Parou (ê filmão que eu tenho saudade de assistir), uma balsa virando, uma gigantesca implosão no meio de uma avenida e a já famosa e impressionante cena da ponte sendo destruída. Em meio à tudo isso, refugiados se esgueirando nas ruínas buscando a sobrevivência, entre eles o personagem de Tom Cruise e sua filhinha, interpretada por Dakota Fanning, a tampinha mais talentosa a aparecer em Hollywood nos últimos anos (e já é o 3º filme-pauleira que ela faz quase em seqüência - os anteriores foram o malvadão Chamas da Vingança e a sessão da tarde do inferno O Amigo Oculto).

Sem contar que ela já tem experiência com aliens e abduções, como visto na minissérie Taken, de 2002 - por sinal, produzida por Spielberg. Dakota rulz.

* Por "povão", entenda-se pelo pessoal que não é tão tarado por filmes quanto eu ou você que está lendo. Sem qualquer referência elitista e/ou pseudo-intelectual, como eu tenho visto tanto por aí, infelizmente. Tem nego que não merece ser dono de um computador. Deveria era trocar por uma carroça - e não pra ficar no lugar do carroceiro.

Pelo currículo de Spielberg no trato com aliens, o filme deverá ser mais focado no drama humano. O contraste será a diferença de caráter das criaturas. No clássico Contatos Imediatos de 3º Grau , no melô E.T. - O Extra-terrestre e mesmo em AI - Inteligência Artificial (ah, se eu fosse o editor desse filme...) os aliens eram entidades quase angelicais, superiores em senso de Justiça, donos de um caráter benevolente e de uma enorme empatia espiritual em relação aos seres humanos. Bem diferentes dos martian boys casca-grossas criados por H.G. Wells. Eles são o próprio... hã, "lado negro" do maniqueísmo, a personificação das personificações do Mal. Vêm à Terra somente para destruir, pilhar e erradicar completamente a raça humana, impiedosamente. Os únicos sobreviventes humanos são transformados em força de trabalho escrava secundária. Enfim, é aquele mesmo pessoalzinho que vimos em ID-4. O curioso é que essas características em aliens são meio incompatíveis com o bom e velho Stevão (ele sempre gostou mais de descontar a sua raiva em nazis).


Alguns tentáculos e um Cruise desesperado lá no meio tentando fugir


Uma Guerra Interplanetária seria uma mão na roda para a economia norte-americana...


Diferente de Close Encounters, dessa vez é pra sair correndo mesmo

Ficam aí algumas dúvidas em relação à abordagem adaptativa, principalmente na procedência dos ETs. Serão marcianos mesmo? Parece que sim, pois alguns dos previews mostraram um planeta de cor vermelha. Então como não os encontramos... ou melhor, a Nasa não os encontrou antes, após décadas de estudo massificado do nosso planeta vizinho? Só assistindo mesmo.

Após ver o trailer, bateu vontade até de reler o segundo volume de A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, que traz um ataque marciano ao nosso lindo planetinha. Aliás, um design das naves, tripodes e armaduras dos marcianos foi divulgado recentemente pelo Ain't It Cool News e se aproxima bastante da versão clássica que foi adotada pelo Kevin O'Neill, nos desenhos de A Liga. Clique nas imagens e compare:


Agora que fiquei com vontade de reler mesmo... Estou segurando as ondas, pois não quero estabelecer um nível comparativo muito alto que possivelmente vá atrapalhar a apreciação isenta do filme. Mas provavelmente não agüentarei e lerei um dia antes da estréia. :)


Trailer final:
480x360 (23,5 Mb) - 320x240 (9,2 Mb) - 240x180 (4,1 Mb)



A trilha desse post foi o álbum Out of Exile, o novo do Audioslave

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

IT'S ONLY ROCK AND ROLL... BUT I LIKE IT!


Em julho do ano passado houve uma celebração de Rock'n'Roll de tremer o chão. Um show beneficente em Toronto, Canadá (na época, penando com a SARS - a tal gripe do frango), reuniu uma turba de 490 mil sortudos diante de um cast quase dos sonhos: The Isley Brothers, Guess Who, Rush, AC/DC e Rolling Stones. E o "quase" fica por conta da presença do The Flaming Lips e do deslocado Justin Timberlake. Entre uma coisa e outra, o divertido The Have Love Will Travel Revue (já explico).

Esse DVD é uma bela coletânea de rock'n'roll (principalmente na atitude rocker), que acaba sendo um tanto frustrante, visto que algumas apresentações são tão boas que mereciam o seu próprio especial. E o destaque também fica por conta das senhoritas da platéia... todas lindas e maravilhosas. Aparentemente não existe mulher feia no Canadá. Deve ser culpa da miscigenação francesa. Ulálá.


Eddie Isley, muuuiito bem acompanhado

Como todo mega-show, o evento começou com o sol à pino, então os grupos tinham mais é que chegar rasgando pra animar a geral. Mesmo assim, o idolatrado Flaming Lips não emplacou, mandando ver num repertório fraquim, fraquim. Muito fraca a banda, naquela linha melódica-alternativa chorosa. Mais uma razão pra eu não confiar em certos críticos musicais. Na seqüência, o fodão The Isley Brothers. Big-band seminal veteranaça de soul e funk pesado, mano. A negritude baixou no palco e mandou um swing tonelada de rachar o assoalho. O guitarrista dos caras - a cara do ator Ving Rhames - dá um show à parte, arriscando escalas hendrixianas, tocando com a guitarra nas costas, com a boca, invertida e o escambau. Como se não bastasse, eles ainda me colocam um pessoalzinho sinistro rebolando lá na frente. Bailão black de primeira, bróder.


Randy Bachman, do Guess Who (lembram do Bachman Turner Overdrive?)

The Have Love Will Travel Revue é a banda pós-Blues Brothers do ator Dan Aykroyd, agora acompanhado de Jim Belushi, irmão do John. Quem já assistiu Os Irmãos Cara-de-Pau já conhece o riscado. "Blues, man..." - - e uma turma de loirudas de resPeito na coreografia. J.Timberlake vem a seguir, e prova que é o sonho molhado das moçoilas do lado de lá. Popzinho inofensivo com um pé no soul. Não chega a ofender os ouvidos, mas o mérito maior foi trazer a mulherada pra frente do palco. E diga-se passagem, que mulherada!

Cenário propício para o Guess Who entrar matando a pau com uma versão arrasadora do mega-clássico American Woman, o que causou uma comoção no público feminino. As primeiras garotas de camiseta molhada e de biquíni com a bandeira americana estampada começam a aparecer na multidão. O Lenny Kravitz pode voltar pro laboratório que o criou, pois nem em mil anos ele executaria essa música com o clima de tesão original. Profissionais do rock, o Guess Who evidencia os anos de estrada tanto na postura de macho quanto nas caras enrugadas. Os velhões detonam!


Geddy Lee, do Rush, me lembrando daquele showzaço no Maraca

Já o Rush é canadense, está em casa, e a recíproca veio da multidão turbinada, que só faltou fazer uma ôla quando a banda entrou. Eles começam com um Limelight básico, emendam com a rapidinha Freewill e provam que o seu maior hit por lá ainda é Spirit Of Radio - espertamente precedida de uma citação do clássico stoneano Paint It Black. Rever as viradas supersônicas da batera de Neil Peart foi uma emoção só. O cara é o verdadeiro Dr. Octopus!


Brian Johnson e Angus Young, do AC/DC... "Rock and Roll Ain't Noise Pollution"!

Galera em êxtase, bonézinho de caminhoneiro e uniforme de estudante entram em cena. AC/DC é A banda de arena por excelência. Eles fazem música GRANDE, para GRANDES ESPAÇOS, para GRANDES AGLOMERAÇÕES, e já entram apelando mesmo, com Back In Black logo de cara, colada com a levanta-estádio Thunderstruck. Na muvuca crowdeada e sold-outeada, zilhares de garotas pagando peitinho começam a pipocar por todos os lados. Ah eu lá.


Keith Richards, aparentemente imortal

De repente, a noite cai sem aviso, aos primeiros acordes de Start Me Up. Os cavaleiros das trevas do rhythm'n'blues, a maior banda de rock'n'roll de todos os tempos, Sua Majestade Rolling Stones entra em cena com a mesma energia de, sei lá, trezentos anos atrás (quantos séculos tem o RS?). Chega a ser surreal ver Charlie Watts (batera), Ron Wood (guitarra), Mick Jagger (fudião) e, principalmente, a instituição Keith Richards ainda arrancando sangue do palco. Na performance você reconhece de onde veio o DNA de U2, Duran Duran, Guns 'N Roses, Iggy Pop, Sex Pistols, Metallica, Aerosmith, Queen, Led Zeppelin, e todas as bandas de pop rock que fizeram sucesso nos últimos 30 anos. Tudo veio dali, das pedras rolantes. É um troço inexplicável, vai ser seminal assim lá longe. Ruby Tuesday ainda é trilha sonora para amassos fervorosos e Miss You (com J.Timberlake) faz até o machão mais duro requebrar na discotéque.

Agora, um parágrafo da História foi escrito naquela noite. À certa altura, eles resgatam o ultra-mega-clássico Rock Me Baby, de B.B.King, numa jam-monstro com os "aprendizes" do AC/DC. Quê quê isso, meu cumpádi. Angus Young duelando com Keith Richards...? Arpejos bluesísticos demoníacos e rock'n'roll sacana vazando pelos ladrões...? Se você acha que conhece rock, assista isso aqui. Obrigatório.


H.G. WELLES


"Através do golfo do espaço, mentes que estão para as nossas como as nossas estão para as feras da floresta, intelectos poderosos, frios e sem simpatia observavam esta Terra com olhos invejosos e lenta e inexoravelmente traçavam seus planos contra nós."

Em 1898, o escritor inglês H.G. Wells já antevia no clássico A Guerra dos Mundos um apocalipse aterrador (como se existisse apocalipse não-aterrador...), onde hordas de naves alienígenas devastavam a Terra e a civilização como a conhecemos. Parece até o roteiro de ID-4. E foi mesmo uma grande injustiça essa produção não ter se assumido como uma adaptação do livro, principalmente por ter cumprido razoavelmente bem o seu papel na transição para uma premissa mais pop.

"Pânico nos Estados Unidos. O país está sendo invadido por hordas de marcianos. Eles já chegaram a Nova York, a bordo de suas naves futuristas. Não há como resistir: a superioridade dos alienígenas é incontestável."

O mais interessante da mitologia ao redor do clássico é que ela se estende por mais 40 anos - até 30 de outubro de 1938 (em pleno Halloween) pra ser mais exato - graças ao bizarro episódio protagonizado pelo genial Orson Welles. O Cidadão Welles adaptou a obra de H.G. Wells para um formato rádio-jornalístico, que, ao ser veiculado num dos programas de maior audiência na época, causou um verdadeiro frisson (pra não dizer cagaço) nos ouvintes. Relatos davam conta de que as pessoas saíam apavoradas de suas casas atirando em caixas d'água, certos de que eram discos voadores (putza... confundir caixa d'água com disco voador é muita lesêra). Na transmissão, ele anunciava que naves imensas pairavam sobre o edifício da rádio CBS, em Manhattan. Entrevistas com falsos especialistas e testemunhas davam um verniz de realismo na coisa toda.

Ao final, Orson Welles entregou o jogo e disse que "essa é a nossa maneira de comemorar o Halloween". Nunca a palavra "motherfucker" foi tão repetida na História. :)


Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005), o filme, conta com um dream team: o Peter Pan Steven Spielberg no manche, o brat-pack-que-deu-certo Tom Cruise no outdoor e menina de ouro Paula Wagner envolvida na produça, ao lado de Cocktail Cruise (estamos sarcásticos hoje hein).

Esse filme promete. Em certos casos a gente já pode esperar um certo nível de qualidade, ao menos na parte técnica. Spielberg tem a ILM no bolso e pode facilmente criar os melhores efeitos visuais desde a franquia Matrix. Conceber naves-mãe, robôs gigantescos, explosões dantescas, combates aéreos e monstrões cabeçudos cheios de tentáculos sugando a energia vital dos humanos seria bico. Aposto que só o palm top dele já dava conta do recado. Já Tom Cruise - um bom ator - é uma espécie de herói do sonho americano. Os caras lá gostam dele de verdade. Nunca o vi se dando mal em um filme e creio que não será dessa vez.


A concepção de H.G.Wells sobre a natureza dos marcianos é altamente maniqueísta. Parece até a visão norte-americana do comunismo, nos anos da Guerra Fria. Os marcianos têm toda uma carga de selvageria, antagonismo e negativismo, realçadas ainda mais pela sua origem. Marte é o deus romano da guerra (equivalente ao Ares grego), a personificação do aspecto sanguinário e selvagem das batalhas. Os marcianos eram maus mesmo. Viajaram essa distância absurda só pra sacanear com a nossa família. E talvez sejam esses detalhes que farão a maior diferença entre Guerra dos Mundos e ID-4.

No filme de Emmerich/Devlin não ficamos sabendo de onde os aliens vieram, nem o porquê da sua opção de colonizar o nosso já detonado planetinha. A única coisa que soubemos foi que eles precisam fazer um upgrade urgente no firewall da nave-mãe. Já em GdM, Spielberg tem algumas coisinhas a explicar. Ah, os caras são de Marte? Pô, legal, mas onde eles estavam que não os vimos durante todo esse tempo de observação? Se o filme fosse ambientado no século 19, igual ao livro, tudo bem, mas...

Seja como for, a megaprodução (US$ 128 milhões) está em ritmo de cruzador estelar durante uma dobra espacial: até seu lançamento nos EUA, em 29 de junho de 2005, serão parcos 8 meses desde o início das filmagens.


No primeiro teaser poster já podemos ver a mão de um dos monstrengos, e ao que parece o design deve ser bem parecido com o visto no clássico filme de 1953. Já o teaser trailer é bem econômico, mas traz uma atmosfera bastante sombria e intrigante. Se tudo der certo (leia-se: "boa bilheteria"), talvez possamos esperar por um futuro revival de ficção-científica cinqüentista. Remakes de clássicos do gênero com os efeitos visuais que sempre mereceram.

Já pensou, rever em grande estilo pérolas como o assustador Invaders from Mars, a tosqueira-mor Plan 9 from Outer Space, e o meu preferido, O Dia Em Que A Terra Parou?

E para homenagear a obra original e o vindouro blockbuster, nada melhor que um elseworld de leve.

Bem, na verdade existe coisa melhor sim, mas em termos de alcance imediato é isso aqui mesmo. :D




Esse aqui é interessante. O Clark desse especial não é aquele Clark "megafodônico" que conhecemos. É quase. Na verdade, o Super aqui ainda está em seus primeiros dias de capa vermelha, nos primórdios da Era de Ouro. Ou seja: "forte como uma locomotiva, rápido como uma bala e resistente como uma parede de concreto". Literalmente. Pra você ter uma idéia, ele ainda nem sabe que voa, e por isso se vale de saltos quilométricos, com toda a margem de erros que isso possa acarretar (e acarreta).

Superman - A Guerra dos Mundos não tem segredos, é simplesmente uma versão do clássico de H.G. Wells, com um kryptoniano no meio. Logo que Clark chega em Metrópolis, a Terra é invadida pelos marcianos comunistas, que destroçam as forças terrestres como se fossem o time do Botafogo. Obviamente, Clark - mais escoteiro do que nunca - sai no braço com os martian-boys, que rapidamente se interessam pela superioridade física do kryptoniano (que, aliás, desconhece sua origem kryptoniana).

Uma excelente HQ que retrata uma fase bem curiosa do maior ícone pop dos quadrinhos. E o final é bastante imprevisível, diga-se de passagem. Mérito do trampo "arqueológico" do roteiro de Roy Thomas e do traço providencialmente old school de Michael Lark. Até a lenda ambulante Eudes/The OutsiderZ já comentou sobre ela certa vez, então pode ir que é da boa. :P

Scans by: doggma - Link para o arquivo cbr, atualizado em 30/08/2017

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Klaatu Barada Nikto!


dogg... "rock me babeee... rock me aaaall night looong..."

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

QUERIA VER SE FOSSE COM O TRAVIS BICKLE


Se antes de assistir Colateral (Collateral, 2004), você quiser tomar um choppzinho de leve, esqueça. Tome um whisky, um martini, ou qualquer drink que possa levar on the rocks no sobrenome. Isso aqui não é Michael Bay, nem Simon West, nem Jan De Bont. Isso aqui é Michael Mann, man. Puro e sem gelo. Nada de baixaria gratuita na telona. Tenha em mente conceitos como urbanidade, vida noturna, decadence avec élegance e mundo-cão. Tudo realizado com muita classe e sem se importar com a urgência da geração MTV.

Mann não faz só "filmes para adultos". Ele faz "filmes para adultos inteligentes". Com a experiência adquirida em seus anos no memorável Miami Vice, e dono de um talento nato para thrillers policiais, Mann só escorregou uma vez em sua filmografia, no filme Ali (mas pô, eu ainda estava sob o efeito dos filmaços Quando Éramos Reis e Don King, O Rei do Boxe – ainda insuperáveis na área).


Adepto das peregrinações noturnas de Martin Scorcese, Mann foca suas lentes no vasto e solitário palco da noite metropolitana. O filme retrata um dia na vida de Max (o ótimo Jamie Foxx, foda desde Um Domingo Qualquer), um taxista pobretão, honesto, gente-boa, e que sonha em "brasileiro": ele encara o trampo como temporário, até ter grana suficiente pra montar o próprio negócio – e aí, vão-se os dias, meses e anos, sempre atrás do volante. Numa das corridas, ele é sorteado pelo assassino profissional Vincent (Tom Cruise, tentando, tentando) para ser o seu chofer enquanto ele vai "trabalhando". Max - sempre hesitante e refém das suas próprias limitações - e Vincent - sofisticado e ousado por natureza e profissão - são aparentemente dois extremos. A diferença entre as personalidades e motivações é explorada até eles surpreendentemente se identificarem.

Particularmente, eu sempre gostei da linha narrativa adotada por Colateral. A ação "em tempo real", durante a noite de uma grande metrópole, já rendeu bons filmes, como Uma Jogada do Destino e Depois de Horas, do próprio Scorcese. A diversidade oferecida pela locação urbanóide é de uma realidade acachapante. As áreas suburbanas se emendam na selva de pedra, com seus modernos arranha-céus, avenidas largas e vazias, bares decadentes e boates lotadas. A noite é solitária, mesmo quando se está rodeado de pessoas. Hoje, o individualismo é extremo e as relações interpessoais estão falidas, o que foi muito bem captado pela câmera (digital) de Michael Mann.


Apesar dessas observações mais sociais, o filme não se prende à isso e traz boas seqüências de ação, como na boate onde se encontra um dos alvos de Vincent. E traz também seqüências inusitadas, como no momento em que Max vai conhecer Felix (o grande Javier Bardem), empregador de Vincent. A cena em que Vincent conhece a mãe de Max também é responsável por um momento bastante insólito, pra dizer o mínimo. Achei meio forçado no começo, mas mudei de opinião ao ver o desenrolar da situação.

Talvez pelo roteiro (de Stuart Beattie, de Piratas do Caribe) não tão à altura do talento individual do diretor, pode-se isolar, com tranqüilidade, as melhores cenas do filme: o diálogo pra lá de delicioso entre Annie (Jada Pinkett-Smith, cada dia mais bonita e melhor atriz – maldito Will) e Max é do tipo que eu gostaria de ter umas dez vezes ao dia, a social cool as ice no single bar, com Max, Vincent, o jazzman Daniel e Miles Davis (a conversa foi tão bacana que eu bato uma aposta que ele estava lá), e o clima pré-tiroteio ao som da bela Shadow On The Sun, do Audioslave.


Apenas um porém causa um efeito colateral em Colateral (nossa, péssima): o destino reservado ao policial Fanning (o ótimo Mark Ruffalo). O trabalho do cara foi tão bom que a decepção com o roteiro foi inevitável.

Pra finalizar, o vencedor foi Jamie Foxx. Construir um personagem enfraquecido que depois se fortalece, como ele fez, é muito difícil. Já o Tom Cruise é um bom ator, do tipo que detona o sparring, mas na hora da luta de verdade, ganha por pontos. É a herança adquirida por pérolas como Cocktail, Top Gun e Dias de Trovão. Se ele não ganhou o Oscar de melhor ator por Nascido em 4 de Julho, e o de ator coadjuvante por Magnólia, aí não já não tem muito mais o quê fazer. O jeito é ralar por mais alguns anos e tentar ficar mais feio pra convencer os feiosos da Academia.


Não esperem ver em Colateral a velocidade non-sense de um videoclip. Michael Mann é cool. Ele fala, você cala a boca e escuta. Se você não gosta da dinâmica estilosa e cadenciada dele, vá assistir à MTV e não me encha o raio do saco. Michael Mann é bróder.

Anexo 02/09:
Se assistir propaganda durante uma sessão de cinema já é revoltante, imagina então ver a mesma propaganda duas vezes seguidas. Foi o que fizeram com um spot anti-pirataria que anda veiculando incessantemente pelos cinemas. Os caras devem estar desesperados pra chegar à esse ponto. Com uma edição rápida e trilha moderninha, o vídeo faz o estilão MTV de marketagem, e é até bem-feitinho. Tão bem-feito que em mim, particularmente, surtiu o efeito contrário. Após vê-lo, me bateu uma vontade incontrolável de baixar algum filme na web.


60 POSTS!


Seguindo a onda das "conquistas"... mas sem o glamour de um Blogs of Note (mesmo porquê, não sou mais de lá), nem de um contador registrando o milionésimo acesso (mesmo porquê, não tenho um contador - e sim, estou sendo despeitado :P).

Esse número é quase surreal visto que retomei o blog há pouco tempo e eu caio no rock praticamente todo santo dia. Agora, por exemplo... é pra onde estou indo. Mas deu tempo de postar antes. Conclusão: os posts do Black Zombie sobrevivem no underground do meu cotidiano. BZ é rock independente!

Hasta la vista!