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quarta-feira, 23 de agosto de 2023

O Silo da Caverna


Assisti a 1ª temporada de Silo há alguns dias e minha cachola ainda está fervilhando. Vou além: neste momento, tudo o que queria era contratar os serviços da Lacuna, de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, e apagar esses 10 episódios da memória. Só para experimentar tudo de novo do zero, clean install. Não que a série de Graham Yost seja um diamante perfeito, não mesmo. Mas ela envolve até a medula. Já chego lá.

Silo é co-produzido pela AMC para a Apple TV+, cada vez... +... ganhando terreno da concorrência com seu catálogo diversificado e interessantíssimo.

A história é uma adaptação da série de livros Wool, iniciada em 2011 pelo self-made bestseller Hugh Howey. O escritor é relativamente novo no mercado – suas primeiras publicações datam de 2009 – e já registra um volume de produção impressionante. Molly Fyde, The Sand Chronicles, Beacon 23 e Wayfinding são algumas das séries de livros que ele vem lançando sem parar. Todas autopublicadas em parceria com a Kindle Direct Publishing, do nosso tubarão do varejo predileto, e em acordos diretos com distribuidoras. Mas foi Wool, com seus nove títulos (e mais um a caminho), que acertou em cheio a Maçã.

Inicialmente, a obra seria adaptada para o cinema pela finada Fox. Graças aos céus pela fome do rato corporativo. O conceito de um mundo fechado, opressivo, Orwelliano, pós-apocalíptico, se desenvolve muito melhor de forma seriada. É um caso que lembra, inclusive em premissa, a graphic novel O Perfuraneve, de Jacques Lob e Benjamin Legrand, adaptada para os dois formatos live action.

Wool também ganhou quadrinização escrita por Jimmy Palmiotti e Justin Gray com desenhos de Jimmy Broxton. Saiu pela Grande Irmã mesmo.


Rebatizar Wool para Silo foi, sobretudo, providencial. Além de funcionar igual para uma porrada de idiomas, é uma palavrinha que captura a essência da série, inclusive sua natureza misteriosa e claustrofóbica. O tal Silo é uma estrutura subterrânea abismal que abriga 10 mil pessoas distribuídas em 144 níveis. É uma comunidade autossustentável administrada pelos xerifes de cada setor, pela prefeita, pelo chefe de TI e pelo temível Judicial. Tudo é controlado com rédea curta, da taxa de natalidade ao acesso à informação, inclusive as de natureza histórica.

A ambientação e as condições são muito similares às do filme Cidade das Sombras (City of Ember, 2008), com Bill Murray e Saoirse Ronan. Que também foi adaptado de um livro, The City of Ember, de Jeanne DuPrau, lançado em 2003, oito anos antes de Wool. 🧐

🧐 E se fosse elaborar mais, apontaria que o caso repete ipsis litteris o que ocorreu com o livro/filme Running Against Time (1986/1990), e o livro/série 11.22.63 (2011/2016). Mas isso é papo para outra vez.

O Silo existe há gerações imemoriais. Ninguém sabe quem o construiu, nem por quê. O que se sabe é que houve uma grande revolução interna em determinado momento. Para prevenir novos distúrbios, os chamados Fundadores criaram o Pacto, um calhamaço de leis draconianas para serem seguidas à risca. Entre os maiores crimes, estão a posse de objetos pré-revolução, de brinquedos a HDs (comumente ligados ao passado pré-Silo), a busca por informações sobre as origens do lugar e até avanços tecnológicos/científicos não autorizados.

Mas ainda existe a ofensa mais grave, que parafraseia o nosso Capitão Nascimento: pedir para sair.

Tudo o que os habitantes do Silo conhecem do mundo exterior está exibido em monitores ligados a uma única câmera. O alcance do equipamento é limitado: o pouco que se vê é uma paisagem estéril e inóspita. Quem se atreve a sair, mesmo com traje de proteção, morre fulminado após 1 ou 2 minutos. Mas não sem antes atender um último pedido dos residentes, que é levar um pano para limpar a lente da câmera, já bastante empoeirada (por motivos óbvios) – daí o substantivo "Wool", de tecido de lã, em contraponto com a gíria "Wool", de coragem, determinação, caráter.

Isso parece remeter diretamente à engenheira Juliette Nichols, personagem defendida pela atriz sueca Rebecca Ferguson.


Em Nichols, Ferguson desenha uma autêntica anti-heroína, mas orgânica, com seus traumas, falhas e valores pessoais lhe servindo de guias – ou obstáculos, dependendo da situação. Já é uma das minhas personagens favoritas dos últimos anos. Infelizmente, não dá para esmiuçar os detalhes sem comprometer a experiência inteira.

Em geral, costumo fugir de premissas mystery box que enrolam o espectador ad eternum, mas o caso de Silo, assim como o de Ruptura, é de puro talento mesmo. Cada episódio é, no mínimo, um espetáculo técnico e artístico. O design de cenários e figurinos é absurdo, com muita influência steampunk. E o elenco brilha na escuridão.

É impossível não passar a temporada inteira pensando no Xerife Holston, personagem de David Oyelowo, e sua esposa, a técnica de TI Allison Becker, da talentosa Rashida Jones. Só assistindo para entender a extensão desse elogio. Outro destaque é a britânica Harriet Walter, que confere humanidade e sabedoria como Martha Walker, veterana engenheira elétrica e uma figura materna para Juliette. Já o ator e rapper Common, mesmo carismático, se limita a uma austeridade meramente clichê com seu Robert Sims, o ameaçador chefe de segurança do Judicial.

Quem é escolado, sabe exatamente por que o Will Patton está ali no meio, como o Delegado Marnes. Provavelmente o telefone do Sean Bean estava ocupado. O exato oposto é o ator escocês Chinaza Uche, como o delegado aspirante Paul Billings. Pai de família exemplar, Billings é um ex-associado do Judicial. Apesar de adepto fervoroso do Pacto e do sistema, ele esconde que é portador da Síndrome, uma condição que causa tremores e o desqualifica para o cargo. Papel ambíguo e repleto de camadas, que Uche potencializa com discreta maestria. Uma atuação imensa que vai se revelando (bem) aos poucos.

Sem maiores comentários sobre o grande Tim Robbins no papel de Bernard Holland, o pragmático chefe de TI. Apenas que Robbins não é um calouro em futuros autoritários e distópicos. E que, além disso, também figurou no elenco subterrâneo de Cidade das Sombras...

Claro que é preciso comentar sobre o início, o meio e o fim com aqueles SPOILERS MOLEQUES NO TEXTO OBSCURECIDO.

No desktop e notebook é só marcar o texto. No celular, é Até a próxima, pessoal!


Para mim, David Oyelowo e Rashida Jones entregaram as melhores atuações da série. E isso é um problema, já que ambos vão para o céu distópico logo nos dois primeiros episódios (!). O trabalho dos atores foi tão marcante que fica a expectativa de que eles retornarão vivos e serelepes na reviravolta final. Vai querendo.

Amo a Rebecca Ferguson (ei, Becky, luv u!). Até hoje, sua assustadora e sexy Rose Cartola, de Doutor Sono, não sai da minha cabeça. Mas Juliette e seu tom introvertido, com um certo TEPT, não coaduna com o de sua contraparte mirim, interpretada pela ótima Amelie Child-Villiers. Nada que atrapalhe, porém.

Toda a sacada da Martha Walker mobilizando esforços da Mecânica para trocar as fitas de vedação e salvar a vida de Juliette no mundo exterior foi antológica e emocionante. Mas nunca é explicado por que o ar externo é tão letal. Pela velocidade das mortes, dá para descartar radiação e patógenos. Só pode ser algum agente químico, desses de uso militar. Porém, quando Juliette cruza a borda da cratera, se vê ao longe a silhueta de uma metrópole em ruínas (que já descobriram ser Atlanta — https://imgur.com/a/KwSPW1i ), o que inviabiliza minha teoria. Em parte.

Outra tese que foi para o vinagre é a de que tudo não passava de um O Show de Truman pós-apocalíptico. E que o personagem de Robbins exercia o mesmo papel de Ed Harris naquele filme(aço). Parecia uma boa.

Fica claro que o holograma de uma Terra verdejante e cheia de vida é exibido apenas no visor do capacete (que tecnologia, hm?). Mas não explicam a motivação de todo esse engodo para alguém com apenas mais alguns segundos neste plano. Conforto na hora da morte seria uma explicação, se o Judicial ou o TI tivessem alguma empatia por alguém. É mais provável que seja um incentivo para o condenado limpar a câmera e revelar para todos os internos a linda paisagem que só ele está vendo. Que sacanagem.

Na cena final, é revelado que eles são vizinhos de vários outros Silos – no mínimo 18, se considerar a numeração do HD-MacGuffin com o desenho estrutural da edificação. Inclusive a porta gigantesca que jaz nas fundações do Silo deve ser a ligação com os demais. Neste caso, eles são, literalmente, "vizinhos de porta".

E por que a tal porta sempre foi mantida fechada e deliberadamente apagada dos registros? O que escondem os outros Silos? Ou quem...



Se na próxima temporada (já confirmada) ao menos metade destas questões for respondida, topo até um tour pelo Silo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Halloween Ends é o fim


Halloween Ends merecia ser empalado numa parede pelo próprio Michael Myers. Mas não sem antes rastejar agonizando por uns bons metros, como manda o figurino.

Tive tempos difíceis com a trilogia de David Gordon Green. Halloween e, especialmente, Halloween Kills: O Terror Continua tiveram recepções mornas e atravessadas, mas sempre os defendi (quando não preguei para o mais gélido vácuo). Felizmente, não vou passar por isso de novo com Ends. Só irei atualizar a disputa de pior filme da franquia, ao lado de Halloween VI: A Última Vingança (1995), Halloween: Ressurreição (2002) e Halloween II (2009). Páreo duro!

A vontade de elaborar sobre a história coescrita por Green, Paul Brad Logan, Chris Bernier e Danny McBride é a mesma de querer ser apunhalado por Michael Myers nos bagos. O legendário John Carpenter já havia comentado que o filme era um "afastamento" dos dois capítulos anteriores. Foi gentil. Green foi mais incisivo: antecipou que Ends tem inspiração em Christine (1983) sob uma narrativa coming-of-age. É exatamente isso. E é muito pior do que parece.

Difícil enumerar todas as forçadas do roteiro para estabelecer o novo cenário. As sobreviventes Laurie Strode e sua neta Allyson tentando uma idílica vida nova, os habitantes de Haddonfield ainda celebrando Halloweens mesmo com Myers foragido, o local manjadíssimo que serviu de esconderijo para o monstro por três longos anos, a polícia quase inexistente, a profunda ligação de Allyson e Laurie virando fumaça de uma hora pra outra e por aí vai.

Mas isso ainda é bico perto da grande novidade do filme: o protagonismo-surpresa de Corey Cunningham.

Interpretado por Rohan Campbell, o personagem é uma tentativa de personificar toda a extensão do mal causado por Michael Myers em Haddonfield. Após o massacre dos dois primeiros filmes, a comunidade ficou doente. A comprida introdução da trama demonstra isso até bem, destacando o estado contínuo de medo e ansiedade impregnado nas pessoas. A conclusão inesperada — e de arrepiar — já dá uma noção do tom a seguir.

Excetuando o deliciosamente surreal Halloween III (1983), este é o Halloween com a menor participação de Michael Myers em toda a franquia. O que sobra são muitas D.R.'s, traumas, conflitos geracionais, familiares e até o velho bullying escolar. É a parte coming-of-age da receita, enquanto a imersão de Corey na escuridão corresponde à parte Christine. Tudo o que nunca procurei num filme da série.

Divagando em certo momento, lembrei que no Halloween II do Rob Zombie houve cenas hardcore de revirar o estômago, mas que, sozinhas, eram incapazes de salvar o filme do desastre. É o mesmo caso aqui. Quando a violência chega, é uma pauleira só (vide a sequência no ferro-velho), mas já é tarde demais e ainda partindo de um contexto totalmente equivocado.

A própria natureza inumana de Michael Myers soa confusa e indecisa, à mercê das conveniências do roteiro.

Se nos dois filmes anteriores, The Shape era um apex predator dotado de uma disposição sobrenatural, sendo atropelado, baleado, esfaqueado, queimado, linchado, etc, sem diminuir o ritmo das matanças, em Ends, ele parece doente e envelhecido (ok, ele é um idoso nesta timeline, mas não é essa a questão). Em determinado momento, ele chega a ser dominado no mano a mano em uma cena que faria o saudoso Dr. Loomis dar um tiro na tampa do caixão. Em contrapartida, Myers tem a capacidade de "ler" o passado traumático de Corey com um simples toque, entre outras habilidades — para depois, novamente, perder todo o mojo.

Outro ponto contra é o pouco caso do ótimo casting, incluindo o retorno de Will Patton como o Delegado Frank Hawkins, criminosamente relegado à pontas românticas (pior ainda com o Omar Dorsey, voltando como o Xerife Barker num rasguinho de script), e Karen (Judy Greer), a filha de Laurie, que, por pouco, é sequer mencionada após aquele final em Halloween Kills. Já Andi Matichak, apesar das linhas aborrescentes da Allyson, mostra que sabe trabalhar mesmo em condições adversas.

De alguma forma, todos esses problemas pouco afetam a presença indefectível de Jamie Lee Curtis, que aqui provavelmente se despede de seu maior hit. Entre mortos e feridos (e uma cena terrível de reviravolta com Corey), Laurie conquista a tão merecida redenção que, de um modo brutal e melancólico, é coerente com a sua jornada e digna da sua importância.

Valeu pela emoção, tanto na tela quanto fora dela. Mesmo que a saideira tenha sido uma droga.

A Scream Queen #1 finalmente poderá descansar. Long live the Queen.

terça-feira, 1 de março de 2005

VAI CHOVER!


Eu sabia que um dia iria comentar sobre eles: o remake de O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 2003... 2003... 2003!!!) e a reestréia nas tel(inh)as de O Justiceiro (The Punisher, 2004). Dizer que "esperei muito" por essas duas produções seria de uma modéstia franciscana. O que aconteceu aqui foi o cúmulo da trapalhada na distribuição setorizada de filmes. Tudo o que podia dar errado, deu, e tudo o que não podia acontecer, aconteceu. Chegou num tal ponto, que, no caso de Massacre, a coisa descambou para uma tragicomédia com um lado cruel predominante. O filme fez até aniversário em terra brazilis, com sua estréia sendo adiada seguidamente (e sadicamente), para desespero dos fãs (ok, meu desespero). Já o pobre Frank Castle nem sentiu o gostinho das telonas, sendo encaçapado direto para as locadoras.

Não fiquei revoltado por causa desses filmes em particular (ou pela estréia defasadíssima dos dois volumes de Kill Bill), mas devido a uma tendência de atrasos que está se tornando cada vez mais constante por aqui - principalmente em produções com uma temática mais seguimentada e menos mainstream. Seria exagero dizer que estamos voltando ao Brasil sisudo do final dos anos 70/início dos 80, quando um filme/LP/livro/o-que-for demorava 2 ou 3 anos pra chegar aqui. É exagero mesmo, mas só o fato desses episódios terem me lembrado dessa época...


O Massacre da Serra Elétrica original foi um marco underground dos filmes de horror. Dirigido por Tobe Hooper, essa produção de 1974 acertou em cheio ao transformar aparentes deficiências técnicas em exercícios alternativos de estilo. Filmado em 8mm, ele causava a impressão típica de um snuff movie, criando uma atmosfera de pesadelo realístico tão impressionante quanto doentia. Quem assistiu o Massacre original, jamais irá esquecê-lo, mesmo que não tenha apreciado/suportado a bad trip.

A história, escrita por Hooper e Kim Henkel, foi baseada nos crimes do assassino em série, canibal e necrófilo (urgh) Ed Gein, que, junto com Ted Bundy e John W. Gacy, foi o 'muso inspirador' de 80% dos filmes de horror das últimas três décadas. Isso sem contar o maior mérito do filme (na minha opinião): a maravilhosa quebra de narrativa do meio pro final. A nervosa calmaria da primeira metade é atropelada sem cerimônia pelo massacre da segunda. É um filme praticamente dividido em dois. Obrigatório é pouco.

Michael Bay, quem diria, foi a via para realização do remake. Isso ainda não o redime daquele Pearl Harbor xaropão e de suas produções bróqui-bâster com o Jerry Bruckheimer, mas ao menos dessa vez ele segurou a serra elétrica do lado certo. Quem viu o arrepiante trailer, pode ficar tranqüilo - o filme, dirigido pelo clipeiro Marcus Nispel, corresponde a expectativa.

Na verdade, a nova versão é bem mais do que uma refilmagem. É uma releitura mesmo. Vários elementos novos pipocam aqui e ali, e são suficientes para criar uma nova mitologia, sem se apoiar excessivamente na original. E isso é ótimo! Além de driblar o óbvio (numa tentativa frustrada de reeditar o mesmo impacto do 1º filme), essa nova versão confere um novo fôlego a uma estrutura que já foi imitada ad nauseum desde seu lançamento. Méritos para Scott Kosar, que trabalhou o novo argumento em cima do clássico roteiro de Hooper/Henkel.


No filme original, após uma introdução sinistra que narra o ocorrido ao melhor estilo Caso Verdade, a história acompanha cinco jovens (dois casais e um carinha numa cadeira de rodas) viajando numa van. Em certo momento, o grupo dá carona a um sujeito, no mínimo, bizarro. Logo acabam parando numa teia de aranha disfarçada de posto de gasolina e daí pra se aventurarem pela vizinhança da família Sawyer é um pulo.

Na nova versão, há algumas mudanças, sendo todas relevantes. O novo grupo de jovens é formado por Erin (Jessica Biel), Morgan (Jonatan Tucker), Pepper (Erica Leerhsen), Andy (Mike Vogel) e Kemper (Eric Balfour), que estão vindo do México numa van cheia de marijüana malocada. Já o "caroneiro" da vez é uma mulher bastante desorientada que está vagando sem rumo no meio da estrada. Não demora muito e "nossos heróis" param no velho posto de gasolina atrás de ajuda. Daí pra frente é só descida. Eles fazem uma tour pelo assustador casarão-açougue e a quantidade de esguichos de sangue vai aumentando até culminar na mais que esperada primeira aparição de Leatherface, aqui encarnado pelo gigantesco Andrew Bryniarski (o Zangief, do buscapé Street Fighter: A Batalha Final, e o Lobo, do ótimo curta Lobo Paramilitary Christmas Special).

Com certeza, Bryniarski é o melhor serralheiro da série, depois do honorável carniceiro Gunnar Hansen, do clássico original. Entre Hansen e ele, vestiram a camisa 10 do Leatherface: Bill Johnson (The Texas Chainsaw Massacre 2), R.A. Mihailoff (The Texas Chainsaw Massacre 3) e Robert Jacks (The Texas Chainsaw Massacre: The Next Generation [blergh!]).



Os Sawyer agora são os Hewitt (um nome tão dechavado quanto "Voorhees"). Originalmente, o velho Leather chamava-se Bubba Sawyer e aqui ele foi rebatizado como Thomas Hewitt ("um bom garoto, mas com uma terrível doença de pele"). Fora ele, a formação da família recebeu um providencial upgrade. O excelente R. Lee Ermey passou a ser o "social" do bando. Quem conhece esse sensacional ator-por-acidente já sabe o que esperar de seu personagem (um xerife!). Outra adição foi o guri-monstrinho de bom coração Jedidiah (David Dorfman) e o velho escroque Monty (Terrence Evans, um maldito sortudo... assista pra saber por quê).

No "núcleo carinhoso" do filme, três senhoras esquisitas marcam presença - uma delas, a Henrietta, me impressionou pela ótima interpretação da atriz Heather Kafka... as feições de seu rosto mudam de "adorável" para "psicopata raivosa" com uma facilidade incrível. Aliás, a seqüência dentro do trailer funciona como uma pausa no pique-pega infernal, mas, ao mesmo tempo, é responsável pelo momento mais tenso e inquietante do filme - substituindo, naquela hora, o horror físico por um horror bem mais psicológico (devidas as proporções).

À princípio, o filme sugere um direcionamento de suspense teen, mas graças a São Jason, esta primeira impressão logo é arremessada na vala à base de serradas e desmembramentos. A fotografia (do mesmo Daniel Pearl do filme original), embora não traga aquela crueza visual de outrora, é de uma sujeira cavernosa, beirando a decadência dark. E repare na "participação especial" do ícone gordinho da cultura pop Harry Knowles, do site Ain't It Cool News. É dele a cabeça que está numa bandeja no casarão dos Hewitt. Isso que é fazer uma ponta.

O filme soa como um banho de sangue refrescante para qualquer fã de terror. Ele funciona. É catarse em celulóide. Perverso, desumano e cruel. Leatherface sofreu em continuações pífias onde foi reduzido a um mero brutamontes bobão ("muito trabalho e pouca diversão"). Mas aqui, ele voltou a ser aquele vagalhão demoníaco de mutilações e violência primal, atravessando portas como se fosse um trator descendo a ladeira.

A nova versão de O Massacre da Serra Elétrica entra tranqüilo na lista dos grandes remakes "que-são-muito-mais-do-que-isso", como A Noite dos Mortos-Vivos, de Tom Savini, e Madrugada dos Mortos, de Zack Snyder. Elogio maior, impossível.

E outra coisa: Jessica Biel correndo por aí com uma camiseta molhada e amarrada acima do umbigo... Nossa, esse filme é muito mais do que eu pedi a Deus.


Apesar do tsunami de adaptações de quadrinhos para o cinema, o Justiceiro, um dos personagens mais populares da última década, não teve moleza. Com uma campanha de marketing levada nas coxas, um trailer meia-boca à Temperatura Máxima e uma carreira internacional irregular, o filme obviamente foi um fracasso de bilheteria. Mesmo assim, está conseguindo uma sobrevida com as ótimas vendagens do DVD - fator que está se tornando cada vez mais decisivo nas previsões orçamentárias dos estúdios (vide os rumores sobre Hulk 2). Outro desafio era levar às telonas um personagem cujo universo e motivações já foram exploradas zilhões de vezes desde o primeiro Desejo de Matar, de 1974 (também o ano da criação do Frank Castle). A comparação com produções mais recentes, como O Vingador, com Vin Diesel, só servem para minar ainda mais a credibilidade do filme. Com um cenário nada amigável, o longa do Justiceiro se tornou persona non grata na originalidade temática do cinema atual. E não foi por falta de chances, pois o personagem perdeu a sua em 1989, num filme fraquinho pra chuchu com o Dolph Lundgren.

O que acaba restando como diferencial é a índole de anti-herói nato do Justiceiro. Mas essa só é reconhecida por fanboys, o que descarta uma maioria que não sabe nem o que significa "HQ". Portanto, de fanboy pra fanboy... O Justiceiro traz várias discrepâncias em relação aos quadrinhos, mas todas sem modificar o seu já conhecido perfil psicológico - muito pelo contrário, algumas até sendo mais coerentes com a mentalidade extrema de quem anda por aí atirando sem remorso.

Sai o Lundgren (com aquela cara de tuberculoso terminal) e entra o parrudo Thomas Jane, que é ator de verdade e absurdamente como eu sempre imaginei que o Castle seria em live-action (se bem que às vezes ele manda um olhar que é igualzinho ao do Christopher Lambert). Foi uma ótima escolha. Jane está para o Castle como o Jackman esteve pro Wolverine e como o Hasselhoff esteve pro Nick Fury... brincadeira.

Em sua estréia na direção, Jonathan Hensleigh (que também escreveu o roteiro) fica bem no meio-termo da fidelidade às HQs. A origem do Justiceiro sai do Central Park para uma idílica casa de praia em Miami, e ao invés de ter "apenas" esposa e filhos assassinados por criminosos, ele tem a família inteira chacinada (pais, tios, avós, papagaios, etc). Cabe aí o mérito para a interpretação de Jane, pois o seu sarcasmo e bom-humor iniciais se transformam num silêncio introspectivo e mortificante após o massacre. O culpado pelo genocídio é Howard Saint (John Travolta), um chefão do crime cujo filho morreu durante uma operação liderada por Castle contra o tráfico de armas. Completam a 'legião do mal' a voluptuosa esposa de Saint, Livia (Laura Harring), e seu capanga number one, Quentin Glass (Will Patton). Castle também arrebanha alguns simpatizantes: a triste e amargurada Joan (a maravilhosa Rebecca Romijn-Stamos) e uma dupla de outsiders/coadjuvantes cômicos.

Como visto, a história não traz nenhuma novidade, então o que sobra é a maneira como ela é conduzida. Vamos tomar como parâmetro o Castle malvadão de Garth Ennis (aquele que todo fanboy considera um legítimo Castle safra 74). Ele jamais se associaria a três pessoas extremamente comuns e que não teriam nenhuma serventia prática para ele (como o Microchip nas HQs, p.ex.). Mas como alívio narrativo para o espectador médio eles funcionam. E em nenhum momento Castle se deixa contagiar pela normalidade destes, o que rende algumas cenas até engraçadas de fato (como a do jantar). Nas seqüências de ação, fica evidente que o modus-operandi de Castle não é o de um sujeito normal. Ele mata com gosto, cheio de preciosismo. Numa das cenas, ele esfaqueia um inimigo abaixo do queixo, deixando à vista a lâmina atravessada dentro da boca.


E é aí que algumas seqüências realmente fazem O Justiceiro acontecer. A luta entre ele e o monstruoso Russo (Kevin Nash) poderia ser aquele churrasquinho de gato igual ao filme do Demolidor, mas acaba revelando uma insuspeita inventividade à base de narizes quebrados e nacos de carne arrancados, sendo, ao mesmo tempo, espirituosa e carregada de humor negro. Só essa briga, apesar de curtinha, já vale o aluguel.

Por outro lado, certos joguetes não soam nada naturais, como a intriguinha que Castle cria colocando Saint contra Glass. Apesar de curiosa, não tem nada a ver com o Justiceiro. John Travolta, por sua vez, leva tudo no controle remoto. Seu personagem é por demais contido em relação aos sucessivos ataques de Castle. Se tivesse a mesma presença maligna do vilão que ele interpretou na metade de A Outra Face, seria diferente. Ainda não foi dessa vez que o Justiceiro ganhou um antagonista à altura. Também não levou a nada a cena em que o mariachi assassino faz um número para Castle dentro de um bar, numa citação mais do que deslocada da trilogia de Robert Rodriguez. Outro furo - dessa vez colossal - foi o desaparecimento da polícia da metade pro final, mesmo após Castle ter deixado claro para dois oficiais que iria fazer justiça com as próprias flechas.

Entre mortos e feridos, O Justiceiro acaba conseguindo ser, por breves momentos, o filme que o personagem merecia. Do jeito que está, ele não é o diabo que pintaram por aí, mas também não é o filme com o qual Garth Ennis se emocionaria.

Pelo menos Castle não é grego. Nem ninja.


dogg, surdo e rouco... e na trilha, I Love The World, do sumido New Model Army - a primeira coisa que escuto desde o acachapante show do Anthrax...