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segunda-feira, 13 de abril de 2020

Acabou Moreira


Cresci ouvindo a música de Moraes Moreira. Não porque eu procurava: era só passar em frente a qualquer tevê ou rádio ligados. Moraes era a personificação da cultura popular brasileira, sem fazer esforço. Nos anos 1980 era a trilha - involuntária que fosse - de qualquer feirinha de rua, de qualquer periferia, de qualquer Carnaval dentro e fora de época.

E isso tudo porque eu ainda peguei o bonde andando. No fim da década de 1960, ele fundou os Novos Baianos juntamente com Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão. Uma das melhores seleções já montadas na Música. Com Moraes foram apenas seis anos (a mil) que entraram para a História.

Redescobrir os Novos Baianos anos depois foi, para mim, como a "2ª vinda". Moraes deixou de ser a trilha incidental de todos os dias para virar objeto de culto. De estudo. De paixão pela música e seus trocentos significados.

Novos Baianos F.C. (Solano Ribeiro, doc, 1975)

"Na verdade, quando o Moraes estava nos Novos Baianos, nós dividíamos a direção musical. Eu acho que o Moraes foi e é a principal figura, centralizada, dos Novos Baianos, porque tudo nascia do Moraes. Eu tenho a maior convicção de falar isso, porque o Moraes tinha uma maneira de fazer música que era só dele. Ele pegava as letras do Galvão, que na maioria eram livros, não eram letras, e começava a destrinchar aquilo de uma maneira, tirava aqui, encostava ali e eu ficava observando aquilo. Ele foi uma grande escola para mim em termos de composição, porque hoje eu tenho um trabalho de composição também, que acontece dentro da minha história. Eu ficava colado com o Moraes o tempo todo e por meio desse relacionamento musical a gente desenvolveu essa coisa dos Novos Baianos, a direção musical dos Novos Baianos. Quando o Moraes saiu, em 1974, eu me senti um pouco sozinho, porque eu estava segurando uma onda em que, na verdade, todo mundo já sabia o que queria ser. Nessa época, eu chamei o Jorginho para me ajudar, meu irmão Jorginho Gomes, que é um músico extraordinário e me ajudou, ainda que os Novos Baianos mais agonizassem do que sobrevivessem nos quatro anos seguintes, com quatro discos, porque com a saída do Moraes ficou uma lacuna musical, dentro da parte de composição. O Moraes era aquele empuxo, a turbina que dava a largada para a gente chegar em cima e cada um colocar sua onda, mas a gente conseguiu sobreviver e fizemos bons discos, como o Caia na estrada…, que é um excelente disco. Com a saída do Moraes e o Jorginho em ajudando, a partir daí eu comecei a ser mesmo o diretor musical dos Novos Baianos."

– Pepeu Gomes.

Moraes Moreira, o líder musical de um grupo de exímios craques. Hoje o Brasil deu adeus a um mestre.

Muito obrigado por tudo, Moraes!

domingo, 30 de junho de 2019

Retrospec Junho/2019


3/6¹ - Robert Pattinson é o novo Batman dos cinemas e Zack Snyder curtiu isso. No Vero. Quem é que usa o Vero? Os mesmos que usam o Telegram? Goddamn early adopters.

3/6² - A Mauricio de Sousa Produções anuncia o lançamento de Turma da Mônica Geração 12, o primeiro título da linha Mangá MSP. Os olhões gigantescos a turminha já tem...


3/6³ - Daniel Lopes, da editora Pipoca & Nanquim, publica um inocente gif e o gerente do banco me liga dizendo "não!"

4/6¹ - Alguém lá na editora Lorentz cabulou a aula de utilização de crases e de por que/porque/por quê/porquê. Resultado, a graphicaça Alvar Mayor, de Carlos Trillo e Enrique Breccia, se torna uma das recordistas de erros da página Todo Dia um Erro nos Quadrinhos Diferente. Para ser justo, nenhum dos erros diminui ou altera a percepção/compreensão da obra. Mas podiam ter prestado mais atenção, né...

4/6² - Deadly Class e Happy! canceladas pela Syfy. Bastardos!

5/6¹ - Fofocas indicam que a Marvel Studios está programando a volta do Quarteto Fantástico nos cinemas para 2022. E Peyton Reed (Homem-Formiga) está louco para dirigir.

5/6² - Fora isso, a Marvel Studios também está negociando com Keanu Reeves e Angelina Jolie para estrelarem Os Eternos. Calma aí, Marvel. Calma aí.


6/6¹ - Partiu Malcolm John Rebbenack Jr., o lendário Dr. John, aos 77. Veterano do blues, rock, r&b, funk e boogie-woogie, o bom Doutor estava na estrada desde a década de 1950 e gravou mais de 30 discos solo, fora álbuns ao vivo e um oceano de colaborações com outros artistas. Um mestre que se vai.

6/6² - E Swamp Thing já está cancelada. Alguns boatos dão conta de diferenças criativas - time do direcionamento de terror vs. time do formato CSI-da-semana - e conflitos com a mudança na plataforma streaming da WBTV.

6/6³ - Nada disso: as razões foram mais práticas. Parecia até praga do Arcane, mas foi só a Warner fazendo merda de novo.


7/6¹ - Se vai Sérgio Augusto Bustamante, o Serguei. Tão rockeiro quanto folclórico, Serguei nunca saiu da década de 1960, mas sempre fez o que quis - e foi o que quis - até o fim. Personalidade e carisma únicos.

7/6² - Após a editora Record perder o passe, Asterix vai parar na Panini. Perdeu, gaulezada.

Sábado, 8 de junho de 2019

8/6 - Andre Matos faz sua passagem, aos 47. Cantor e multi-instrumentista talentosíssimo, Matos construiu uma trajetória sólida e respeitada, seja em carreira solo ou com as bandas Viper, Angra e Shaman. Sempre admirei a representatividade da obra do músico, especialmente em se tratando de power metal/heavy metal melódico produzido em pleno Brasil. Inesperado, pra dizer o mínimo.

11/6¹ - Em matéria entitulada "O Dia em que a Música Queimou", o New York Times revela a verdadeira extensão do incêndio nos estúdios da Universal em New England, em 1 de junho de 2008. Um desastre sem precedentes que pode ser facilmente considerado o pior da História da Música, mas que, até hoje, permanecia criminosamente acobertado. Não é brincadeira: quando mencionam a destruição das masters originais de Guns N' Roses, Nirvana, Soundgarden, R.E.M., Nine Inch Nails e outros artistas contemporâneos, é quase como se estivéssemos no lucro. Preste atenção na 1ª e na última leva de gênios musicais mencionados pelo jornalista Cunha Jr. no programa Metrópolis. É chocante. Que ano, meu amigo. Que ano.


11/6² - A editora Figura abre um Catarse para a obra Tanka, do mestre italiano Sergio Toppi. Repetindo: Sergio Toppi. Agora vá lá colaborar.

11/6³ - Parece que Swamp Thing tinha um objetivo de 3 temporadas para lançar uma série da Liga da Justiça Dark. E tudo seguia muito bem até a Warner se dar conta disso.


11/64 - Quentin Tarantino vai dirigir um Star Trek para maiores de 18 anos. No aguardo para a cena do Dr. McCoy ressuscitando o Scotty de uma overdose de heroína com um shot de adrenalina direto no coração. Vida longa e próspera, motherfucker.

11/65 - Sob ataque cerrado de zilhares de DCminions raivosos, Rob Liefeld abandona sua conta no Twitter. Ao menos deixou um bonito legado de desafetos, desenhos colossais e seguidas redescobertas de sua própria jenialidade. Em dois dias ele volta.

12/6¹ - Quer ver um decenauta véio e acabado chorando? Conta pra ele que Scott Snyder vai trazer a Sociedade da Justiça de volta.

12/6² - O roteirista Al Ewing e os artistas Joe Bennett e Paul Mounts incorporaram o John Carpenter de O Enigma de Outro Mundo em Immortal Hulk #19. Nojeira da braba!


12/6³ - Autoridades americanas desarticulam uma quadrilha que traficava metanfetamina cristal para a Austrália dentro de gibis da DC. Bem debaixo do nariz do Bátima! Opa...

12/64 - Lobo sai de Krypton e ganha sua própria série via Syfy. Será que o Maioral finalmente vai chegar lá?


12/6 - Jason Aaron e Esad Ribic se reúnem para concluir seu épico do Deus Trovão em King Thor #1! Lançamento em setembro. Aye!!

13/6¹ - Se vai André Midani, o homem que reinventou o pop brasileiro.


13/6² - Jimmy Fallon é um bosta, mas esse hino do derrotismo interpretado pelo Fat Thor foi no alvo.

13/6³ - O run de 100 edições do Batman por Tom King acaba de se transformar em um run de 12 edições de Batman/Catwoman devido a compromissos recém-assumidos do roteirista com um longa dos Novos Deuses e uma série de TV ainda não divulgada. Entendi direito, produção? Quantos dias a DC estava sem fazer merda mesmo?


14/6¹ - O filme já deve ter ido pro pau, mas que se-phoda-se: Bill Sienkiewicz e Chris Claremont se reúnem para New Mutants: War Children #1. O one-shot (então porque o #1, com mil diabos?) será lançado em setembro nas comic shops americanas - e 1.2 segundos depois, num compartilhador de arquivos pertinho de você. Excelsior!


14/6² - HAHAHAHAHAHAHA... cara, isso foi errado em muitos níveis, da disseminação do preconceito à completa desonestidade editorial, mas puta que par... Porra, Abril! HAHAHAHAHAHAHA!!


14/6³ - 3ª temporada de Young Justice: Outsiders a caminho. E com a Vovó Bondade cheia de amor pra dar.

15/6 - Se vai o produtor, diretor e ex-senador italiano Franco Zeffirelli, aos 96. Esse era dos grandes. Foi muito popular entre o público brasileiro por suas versões de A Megera Domada (1967), Romeu e Julieta (1968), o belíssimo Irmão Sol, Irmã Lua (1972), Jesus de Nazaré (1977), Amor sem Fim (1981) e, especialmente, pelo dramão de boxe O Campeão (1979), com Jon Voight e Faye Dunaway. Haja lencinho de papel.

16/6 - O diretor e roteirista Todd Philips diz que o filme do Coringa será Rated R (menores de 17 anos, só acompanhados dos pais ou demais responsáveis). Mas ainda não levo fé, avisem pra ele.


17/6¹ - Dave Mustaine está com câncer na garganta. Nossa torcida para o MegaDave!

17/6² - Lembra da Red Monika? Ou melhor, de Battle Chasers, a série de fantasia do Joe Madureira? Diz ele que quer continuar com a história de onde ela parou, no #9, há dezoito anos. E precisa de ajuda.

19/6¹ - Realmente não entendo a polêmica sobre a fase de Tom King no Batman. Por exemplo, aquela cena dos Batmans papeando e arrastando um caixão pelo deserto tem uma porralouquice à Zero Hora e ainda lembra o crássico vídeo Um pistoleiro chamado Papaco. Melhor que isso, só o Feira da Fruta.

19/6² - Um caminhão de escritores e artistas canadenses foi incumbido de trazer a Tropa Alfa de volta à ordem do dia em Alpha Flight: True North. Espero que a Marvel não tenha se esquecido de que, além da nacionalidade, é essencial que todos os envolvidos detestem o supergrupo. Deu certo com o John Byrne.

20/6¹ - Nepotismo é (d)o caralho: J.J. Abrams e seu filho de 20 anos, Henry, estão escrevendo um gibi do Homem-Aranha. Nem sei o que dizer. A única coisa que me vem à mente agora é "Meu garoto... meu pai-pai..."


20/6² - A crítica anda meio dividida com Superman: Year One #1, da dupla Frank Miller/John Romita Jr. Uns acham que é exageradamente sexista e ufanista; outros acham que o escoteirão virou um sociopata. Da minha parte, ainda estou lidando com a capa do Romitinha.

21/6¹ - Em setembro sai o especial Satanika Vs. Morella's Demon, escrito por Glenn Danzig com desenhos de Simon Bisley. Esse vai ser osso pra achar no DC++.

21/6² - Ao lado dos roteiristas Ange e Patrick Renault, o desenhista Charlie Adlard (The Walking Dead, óbvio) publica em setembro sua graphic francesa The Walking Vamp... ops, Vampire State Building.


21/6³ - E... lá se vai o selo Vertigo.

21/64 - Millennium Films substitui o queimado Bryan Singer por Jill Soloway (da série Transparent) na direção do filme Red Sonja. Com isso, aumentaram a testosterona do projeto em 400%.

21/65 - O Los Angeles Times lamenta que a Marvel tenha fechado seu selo Vertigo 1 ano após o aniversário de 25 anos da editora. É realmente triste saber que não teremos mais gibis do Fantasma. :´(


22/6¹ - Paulo Antônio Figueiredo Pagni, o P.A., se vai, aos 61. Baterista do RPM, P.A. foi um dos poucos músicos que soube o que era ser um rockstar nesse país (RPM era rock, vai). Dessa vez, infelizmente, não era fake news.

22/6² - Após a estarrecedora matéria do New York Times revelando a verdade sobre o incêndio no estúdio da Universal, chovem processos de todos os lugares - inclusive do além, com o ator e rapper Tupac, morto em 1996.

24/6¹ - Já vi esse filme antes, mas vá lá: Danny Boyle confirma que um terceiro filme da série Extermínio voltou à mesa de planejamentos. Daqui a 28 meses teremos mais notícias.

24/6² - Deadly Class foi cancelada mesmo, não vai para nenhuma outra rede e Rick Remender (o criador do gibi) está em paz com isso.


24/6³ - Gail Simone está trazendo o Daredevil de volta. Não o Matt Murdock, mas o Daredevil original da Lev Gleason, priminho do Homem 3-D, e agora rebatizado Death Defying 'Devil - literalmente, 3 D's. Melhor que a D... ynamite ser processada pela D... isney. Damn.

26/6¹ - Neil Gaiman twitta que pediu à Marvel TV para escrever uma série de 1602 e eles nem ligaram. Captamos a vossa mensagem, Neil. Eu levo os coquetéis molotov.


26/6² - Max Wright se vai, aos 75. O ator ficou famoso no Brasil no fim dos anos 1980 com o personagem Willie Tanner, pai de uma típica família de classe média americana no sitcom Alf: o ETeimoso. Depois disso, Wright passou maus bocados na vida pessoal, daqueles dignos de figurar no E! True Hollywood Story - o que parece ser uma triste constante no mainstream americano.

28/6¹ - Steven Adler, ex-baterista do Guns N' Roses, é internado após cravar uma faca em si mesmo. Eita.

28/6² - Segundo um representante de Adler, a autoesfaqueada foi acidental e o ferimento, superficial. Em alguma mansão de LA, Axl está dizendo "arram, sei".


28/6³ - James Hetfield pira o cabeção ouvindo Angel of Death no carro. Quem lhe dera, hein James. Quem lhe dera...

30/6¹ - Sandman, a série, está em desenvolvimento pela Netflix.

30/6² - E aí vem Rien...


...a filha de Wolverine. Ah, para, Marvel. Para.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Música, Ídolos e Midani


André Haidar Midani
(1932 - 2019)

Não me estranha que a partida de André Midani, ontem, 13 de junho, tenha repercutido muito mais pela "grande mídia" do que pela "baixa mídia". Embora qualquer brasileiro acima dos 30 anos tenha vivido e respirado o trabalho de Midani durante toda a vida, a maioria nunca se deu conta disso. Ex-gigante da indústria fonográfica e incrivelmente low profile, Midani reinventou a história da música brasileira como um Forrest Gump tupiniquim. Tupiniquim sírio, mas brasileiro com honra ao mérito da malandragem e da boa lábia.

Uma enorme parte do que esse país já produziu em termos de música pop desde 1955 (!) foi por intermédio dele. Isso inclui não apenas discos e artistas, mas gêneros musicais, abertura internacional e modernização da indústria, mesmo com os inúmeros bloqueios da ditadura.

Falar do trabalho de André Midani com artistas é até demais pra comentar. Passou pelo seu crivo uma verdadeira constelação, indo de Tom Jobim, Elis Regina, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Ben Jor a Tim Maia, Guilherme Arantes, Erasmo Carlos, Raul Seixas, Camisa de Vênus e quase todo o Rock Brasil dos anos 80. E isso nem é o começo.

Como leitor véio de publicações musicais, como a finada Bizz e qualquer Caderno Dois ao alcance das mãos, já conhecia o peso e a importância do nome Midani. Mas não tinha ideia do tamanho do peso e o tamanho da importância. Pelo menos até ler Música, Ídolos e Poder: do Vinil ao Download (Ed. Nova Fronteira), que ele escreveu e lançou em 2008.

Meu objetivo era pesquisa, pura e simples. Queria retroceder na timeline da música pop brazuca, até descobrir "o que havia antes". O que tocava no rádio. O que as pessoas cantarolavam por aí. O que era um hit do verão brasileiro no início da década de 1950, muito antes da Bossa Nova, da Jovem Guarda, do Tropicalismo.

Como seria a figura de um popstar nacional daquela época? E o que acontecia ali que sobrevive até hoje, contra todas as probabilidades?

O livro me respondeu a todas essas questões e ainda me ofereceu uma visão muito mais ampla da indústria e, por que não, da essência do nosso país. Fora que é um belíssimo relato de uma vida plena e fora-de-série - se você não se emocionar logo nas primeiras páginas com suas memórias de criança se esgueirando por uma França sitiada pelos nazistas, é porque você tem um pedaço de barbante no lugar desse coração de gelo.

Até concordo com algumas críticas reclamando da excessiva discrição de Midani. Boa praça, no livro ele pouco se aventurou por algum caso mais polêmico envolvendo nossas queridas estrelas. Se tivesse contado 2% do que sabia e do que já viu em todas essas décadas de mainstream canarinho, provavelmente o palco iria desabar. De novo.

Mas a pegada é outra, igualmente recompensadora. E há poucas referências com tanto conhecimento de causa no que tange ao tino para os negócios.

Escolhi um trecho que serve como lição pra vida (especialmente dos sonhadores):

"Os danos que os tecnocratas estão causando à indústria fonográfica, ao cinema, à TV, às publicações, à Broadway e às empresas de publicidade têm que ser confrontados pelos líderes criativos de amanhã, antes que seja tarde. Terão que inverter o lema “lucros e criatividade” para “criatividade e lucros”. No entanto, para alcançar esse objetivo, deverão aprender a entender, e até gostar, do mundo das finanças para se tornarem presidentes de suas organizações, descobrir o prazer de estudar os balanços financeiros das suas empresas, ler através dos números e compreender o que significam. 
Richard Branson, os irmãos Weinstein, Ted Turner, Steve Jobs, Bill Gates, Larry Page, John Hegarty são alguns exemplos que podem servir de inspiração. Os líderes criativos vão ter que aprender a ser tão impiedosos quanto os tecnocratas, aprender o linguajar de Wall Street e convencer todo esse mundo de que somente a criatividade genuína e o planejamento a longo prazo levam a uma lucratividade segura e duradoura. Vão ter o desafio e a responsabilidade de inverter os papéis e conseguir que os tecnocratas trabalhem para eles, em vez deles trabalharem para os tecnocratas."

Descanse em paz, Midani. E obrigado por tudo.

sábado, 9 de abril de 2011

The wolf is on the table


Lobão, Live in Polinter (1987)

Sempre achei curioso como alguns ícones do pop rock nacional dos anos oitenta me foram revelados de forma pontual e nada oficiosa. Já conhecia toda a galeria via FM e não sei se foi o uso abusivo do ska como solução rítmica ou a produção de som datadíssima ante os padrões gringos, mas, pra mim, não representava mais do que um levante new wave de personagens pouco distinguíveis entre si. Assim foi até o Legião Urbana tocar "Faroeste Caboclo" inteira no Globo de Ouro, em 1985. Depois foi a vez dos Titãs, berrando "vão se foder" a plenos pulmões no hit "Bichos Escrotos" - vamos combinar que, em 1986, isso era como chutar a santa em sua própria paróquia. Nesse mesmo ano, o Camisa de Vênus arrepiava o chá das cinco na ABL com "Sílvia", igualmente massificada nas rádios. Mas nada foi tão desordeiro e sui generis quanto o vai-e-vem carcerário de Lobão no período 1987-1989.

Lembro dessa "revelação" como se fosse ontem. Era mais uma noite trivial lá em casa, a TV ligada no monocórdico Jornal Nacional trazendo as últimas sobre José Sarney, Dilson Funaro, Delfim Netto e quejandos. De repente, eis que Lobão aparece sendo detido ao desembarcar de um voo vindo de Los Angeles. Algemado e conduzido por policiais direto para a delegacia, ele não parecia triste, nem aborrecido. Pelo contrário. Cabeludão e transbordando galhofa, fazia o sinal de paz & amor (ou o "V" da vitória, vai saber). Não vou negar, a cena era tragicômica. "Pô, de novo esse cara foi preso?", comentei na hora. Era 1989. Nas rádios, a música "Vida Bandida", do LP homônimo, ainda sendo executada à exaustão...

Timing absurdo, verdadeira atitude rock and roll ou um proto-winning?

Segundo o livro 50 Anos a Mil, as três coisas juntas, em doses nada homeopáticas. A ideia de um livro não é nova. Lobão - ou o réu João Luiz Woerdenbag Filho - pretendia usá-lo pra registrar seu perrengue judicial repleto de ceninhas sórdidas de bastidores. Um roteiro de intrigas pra Oliver Stone filmar. Pelo visto, a ideia maturou no porão e ganhou uma versão long play, décadas mais tarde.

Quem conheceu o lobo mau no fim dos anos 80, já esperava por um conteúdo que não diluiria nem se fosse administrado no oceano Pacífico. Uma autobiografia do Lobão é sinônimo de buchas de C4 plantadas democraticamente nos pilares do mainstream canarinho - com quantidade à volonté nos QGs da "máfia do dendê", com rima e pandeirinho.

Pode ter sido pela estratégia factual (ou talvez por receio de soterrar o ventilador), mas, como o próprio Lobão admite, o livro acabou saindo menos inflamável do que o esperado. O que não arrefece nem um pouco a leitura. 50 Anos a Mil é anárquico, divertido, dramático, com momentos que parecem saídos de algum ensaio obscuro do Nelson Rodrigues e, acima de tudo, muito esclarecedor e sincero.

Não queria bater nessa velha tecla, mas há uma carência absurda por documentos assim no Brasil. O que proporciona, sintomaticamente, uma cavernosa lacuna na memória cultural. Vide a biografia de Garrincha, escrita por Ruy Castro, a bio de Roberto Carlos, por Paulo Cesar de Araújo, e a bio de Noel Rosa, por João Máximo e Carlos Didier. Todas embargadas por processos judiciais. Dos artistas do pop rock nacional, então, nem se fala. É um sindicato fechadíssimo, gerido por assessorias de imprensa e cujo protecionismo foi herdado diretamente dos medalhões da Tropicália. A exceção só poderia ser mesmo o Lobão, o único sem mordaças majoritárias e sem medo de exposição - pré-requisito básico pra qualquer artista independente, aliás.

Em termos de estilo, Lobão optou pelo acessível e coloquial, no que parece ser um exercício de jornalismo gonzo autodirecionado. Nesse esquema, alguns vacilos de revisão e vícios de linguagem se fazem presentes, porém foi fundamental para transcrever a sensação dos momentos mais tensos e eletrizantes, culminando num resultado, por assim dizer, feérico (isso pega!).

Assessorado pelo jornalista Claudio Tognolli (que contribuiu compilando trechos de reportagens dispostos cronologicamente entre os capítulos), Lobão exibe uma memória paquidérmica no primeiro terço do livro, cujo foco é família, infância, adolescência e o amor à primeira vista pela bateria. Tudo muito rebuscado, cheio de sons e imagens docemente bucólicas - um contraste com o prólogo-porrada digno do Danny Boyle em seus tempos de underground inglês.

Quando Lobão começa a ganhar o mundo (e vice-versa) é que a leitura dá uma acelerada e muitas lendas e fatos mal-explicados ganham uma versão. A maioria, pela primeira vez.


Nos primórdios com o Vímana, nos anos 70, e com a Blitz, em 1982 (clique para ampliar)

Muito me agradou a dissecada que o Vímana teve no livro. Pelo menos, a partir da entrada do lobo até o fim de suas atividades, no final dos anos 70. Até então, o que eu sabia sobre o grupo era mais ou menos o que todo mundo sabia: cult progressivo de onde saíram Lobão, Lulu Santos e Ritchie. E que trocaram um contrato promissor com a Som Livre pelo deslumbre de serem arrendados por um "popstar internacional" do cenário progressivo.

Tudo é esmiuçado sem pudores. No fim, lembra muito aquelas bandas iniciantes que tomam decisões equivocadas que nada têm a ver com música e que implodem suas carreiras antes mesmo de começarem.

E pelo que está registrado no livro, a "saga" foi sintetizada à perfeição por Lulu Santos em entrevista ao então VJ Edgard Piccoli.


Mas o lobo era um andarilho e tome história pra contar: a parceria/irmandade com Cazuza e Julio Barroso (líder da Gang 90 & Absurdettes), o genial elástico pra cima da Blitz na capa da revista Isto É, o primeiro quebra (literal) com uma gravadora, o romance com a Alice Pink Pank (que inspirou seu maior hit), a treta histórica com Herbert Vianna, a relação extremista com a mãe, a abreviada trajetória d'Os Ronaldos, o consumo industrial de farinha e outros quitutes, as várias tentativas de suicídio (a do canal raso no Leblon ficou de fora), a péssima fama adquirida (gerando reações que só esperaríamos ver no sul dos EUA), juízes sem o menor senso de humor, prisões hardcore, incursões em escola de samba, bandidagens joselitas no alto do morro, mais prisões, a apresentação apoteótica no Hollywood Rock, a vaia apocalíptica no Rock in Rio 2, o divórcio litigioso com as grandes gravadoras, a carreira na UTI, a sobrevida na independência, a luta pela numeração dos CDs, o Acústico MTV (polêmica ordem de fatores), a reinvenção midiática... esses 50 anos foram a muito mais que mil.

Confesso que a imagética de alguns momentos fizeram minha imaginação fluir vertiginosamente. Lobão no meio de um pandemônio cocainômano enquanto tenta manter uma conversa ao telefone com o João Gilberto foi uma delas. Dividir um quarto com a Marina Lima no auge do sex appeal foi outra - lendo, me senti um garotinho de 14 anos prestes a aprender que a vida é boa.

O final do livro é arrematado com uma série de entrevistas com amigos próximos. Alguns trazendo grande valor histórico, como os depoimentos de Ritchie, Maria Juçá e José Luís de Oliveira. Inseridos na sequência, os autos dos processos judiciais soam inevitavelmente cansativos, mas entendo que foram parte tão presente na vida de Lobão quanto a tríade máxima do rock'n'roll.

Com toda essa bagagem, não é à toa que ele esteja vivendo seu melhor momento em muitos anos. Capitalizando ao máximo a popularidade recém-readquirida com a passagem meteórica pela MTV, os vídeos estourados no YouTube e iniciando uma nova fase com as gravadoras, Lobão, ainda provocativo, dá um fim à nervosa calmaria e mostra para a nova geração as suas poderosas credenciais.

Ps: quase esqueci: e foda-se o Restart.