quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

MELHORES DE 2006

Troféu Zombie de Ouro


Acabei de crer: como é difícil fazer uma lista de melhores. Não tem como comparar estilos, abordagens e propostas sem um parâmetro nivelador. Isso não existe, a não ser que se atenha a um único gênero, o que não é o caso. E ainda tem de ser levado em conta o fator "identidade". Como na música. Não é porque John Coltrane e Miles Davis se criaram no jazz que eles são indistingüíveis. Esta que é a beleza da coisa toda. Essa 'organicidade', esse espírito único.

Nunca consumi tanta música quanto em 2006. Isso graças ao MP3. Então, ainda que tardiamente, segue uma lista não dos melhores, mas dos álbuns lançados neste ano que mais me tomaram tempo pra tecer um julgamento. Ou que mais me custaram a passar para outro playlist, pois aquilo tava muito bom e eu queria mais. Não entraram prováveis grandes discos que não me cativaram de primeira (e que deixei para destrinchar "mais tarde"-sabe-Deus-quando), nem bons lançamentos que se limitaram a reeditar seus padrões habituais.

Também não segui ordem nenhuma. Bom... talvez o tamanho das capas entregue o impacto que o respectivo álbum exerceu sobre mim.

Aliás, desde novembro que estou conferindo vários lançamentos de 2007. Muitos deles realmente impressionantes. Deu pena não incluí-los na lista. Mas lista é lista e tem limites. Criá-las... "é uma arte sutil".




A-wop-bop-a-loo-mop-a-lop-bam-boom!


Registro surpreendente este do VAST. E 100% outsider no que se refere ao famigerado "esquemão" ('jabá', aqui no Brasil).

April (On Line Version) foi gravado em um único take e traz versões das músicas que estarão em seu próximo álbum - a ser lançado no início deste 2007 novinho em folha. Como o nome sugere, só está disponível on-line. É, senhoras gravadoras, os artistas já acordaram, só falta vocês...

Pouco conhecido por estes cantos, o VAST ("Visual Audio Sensory Theater") é quase uma one-man-band, sendo Jon Crosby o one-cara. Produtor e multiinstrumentista artesão de atmosferas, ele tem um fraco por brinquedinhos de estúdio de última geração e emula sem dó aquele senso melódico oitentista de arena, mezzo Simple Minds/U2 mezzo Depeche Mode/Jesus & Mary Chain. Nesta pré-versão de April, no entanto, ele se despe da parafernália eletrônica e comete uma session semi-acústica, intimista, soturna e belíssima. Quem não se emocionar com Sunday I'll Be Gone, She Visits Me, One More Day ou I Can't Say No To You é porque tem um cubo de gelo no lugar disso aí que chama de coração.

E pô... se I'm Too Good e I Am A Vampire são tão legais assim e ainda não são as versões finalizadas, faça idéia o que vem por aí...


She Wants Revenge provou com este disco que tem mais que um nome bacanudo. É bastante influenciado pelo... ah, influenciado não... overdosado... bêbado... fumado... cheirado pelo Joy Division. Talvez fosse o que o JD estivesse fazendo hoje se Ian Curtis preferisse um suicídio homeopático à base de ecstasy. Ritmos em sua maioria cadenciados, drum-machines batendo forte no peito, baixão escaneado de Peter Hook e climão sorumbático de rendez-vous gótico.

Iniciados em Sisters Of Mercy, Heavy Current e Bella Morte vão pôr isto no i-pod e agitar uma rave no cemitério mais próximo. Já o resto da humanidade vai ouvir I Don't Want To Fall In Love e ter seus neurônios trabalhando no ritmo dessa música por semanas à fio. Uma das faixas mais grudentas do ano, com certeza. Álbum interessantíssimo. Dica do Kalunga.



Saudades do Sonic Youth fase Daydream Nation. "Rather Ripped", pode ser intrigante, introspectivo e sem concessões, como o SY sempre foi, mas o sentimento que ficou é que Lee Ranaldo, Kim Gordon, Thurston Moore e Steve Shelley alcançaram uma zenicitude tal que largaram esse negócio de distorção pros moleques da nova geração. Como se dissessem "já fizemos nossa parte, e muito bem-feita, agora é com vocês". Mais ou menos por aí.

Pra quem tem alguma história com o SY (leia-se "curte a banda, pelo menos, desde o álbum Goo"), sabe o quanto isto aqui é orgânico, verdadeiro e especial. Mas para quem está passando de bobeira, nunca vai imaginar que o grupo já foi um dos mais furiosos e barulhentos do underground americano.

Ps.: tomei um pusta susto no início de Jams Run Free... é igualzinha a 1979, do Smashing Pumpkins.


Surgido em 1974, o Radio Birdman foi um dos primeiros grupos reconhecidamente punk da Austrália. Apesar da fúria e urgência reformista típicas, neste caso, a geografia teve tudo a ver no som: influências de surf music, acid rock, blues e muito garage rock à MC5/The Stooges davam o tom. O RB era punk, mas o parentesco era mais próximo do AC/DC que dos Sex Pistols.

O álbum de estréia, Radios Appear, de 1977, é daqueles clássicos que se você ainda não ouviu, não diga a ninguém até fazê-lo. E, ainda que não se compare, este Zeno Beach (o primeiro desde Alone In The Endzone, de 81), marca o retorno dos caras em altíssimo nível. Estão lá o trampo bem-sacado das guitarras, o vocal cínico de Rob Younger e o tecladinho super-bonder de Phillip 'Pip' Hoyle, em canções rockers e baladas punk. Quando menos esperei, já tinha ouvido isso umas trocentas vezes.


Fico imaginando como deve ser chato pra concorrência ouvir algo tão simples como esse False Flags e ver que ainda tem de ralar muito nas pick-ups pra chegar ao nível de sofisticação do Massive Attack.

E é apenas um EPzinho. Duas canções que são apenas um talho do que o Massive realmente poderia fazer. Como diria Al Pacino... "Hoo-ha".

Pra ouvir no carro, em direção ao crime.



Há tempos que um álbum de rock brasileiro não pedia tanto pelo acompanhamento de uma cerva trincando de gelada. Finalmente! Segundo Atentado é o novo dos álcoorroristas do Carro Bomba. Blues rock'n'roll louder than bombs de boteco de quinta estourando os auto-falantes.

Se Lemmy ouve isso aqui, vai implorar por uma vaguinha na banda. Porrada nota 11 pra ouvir com 15 grades de Skol em prontidão no freezer.





Ouvi isto em doses cavalares. Assim como Houses Of The Molé, de 2004, as canções de Rio Grande Blood devem ecoar nos pesadelos de George W. Bush sobre como sair do Iraque sem entrar para História como um imbecil genocida (opa, tarde demais). O álbum inteiro é uma lajotada na cara, mas a faixa-título, Lies Lies Lies, The Great Satan, Palestina e Ass Clown são as melhores homenagens que o clã Bush poderia receber.

O disco mais metal do Ministry desde... hum... pensando bem, Rio Grande Blood é o mais metal.


Já fui fissurado no Trail Of Dead a ponto de escrever bêbado sobre o grupo. A veia rock'n'roller esquizóide era irresistível. Fora o elemento "seek and destroy" niilista... os instrumentos destruídos no palco que o digam. Mas parece que Jason Reece e Conrad Keely, o eixo criativo da banda, andam se achando os gênios da raça.

Limaram a zoeira noise e a experimentação, e apostaram em arranjos perfeccionistas e melodias calculadas milimetricamente. Nada de "fuck you" repetida 40 vezes debaixo de distorção por aqui.

Esperava mais. Ficaram parecendo o Beatles produzido pelo Jeff Lynne (lembra de Free as a Bird?). Por várias vezes, a pretensão cutuca o limite máximo permitido. Mas o talento, no entanto, nunca esteve em falta - Witches Web, a faixa-título e Sunken Dreams são só pra quem pode.



Infanticide, a faixa de abertura de Confrontation Street, do Squealer A.D., tem o efeito de uma marretada na orelha. Nas outras doze canções o alvo vai variando. O som (voadora) do Squealer parte do thrash oitentista circa Exodus/Forbidden e o atualiza para os dias de hoje, com equipamentos de gravação mais poderosos e mais eficientes para massacres em larga escala.

Vocal do Gus Chambers, ex-Grip Inc. - aquela banda do Dave Lombardo, do Slayer. Conhece o Slayer? Então...






Soul Of A Man, o novo do Eric Burdon. Ê discão contagiante. Assessorado por uma banda afiadíssima, mr. Burdon (que fez história no The Animals), continua com a classe e o vozeiraço de sempre. Blues, soul, gospel, rhythm'n'blues e southern rock parecem moldados sob medida pro gogó do cara.

Em algum bar de New Orleans, este disco está rolando numa velha jukebox junto com a trilha de The Commitments.





Quando o Blackmore's Night estava em seus primeiros dias, eu achava que era só um agradinho que Ritchie Blackmore resolveu fazer pra esposa, Candice Night, até uma nova reforma do Rainbow. Dez anos depois, e lançando um álbum mais bonito que o outro, o grupo ratifica aquilo que sempre deixou evidente e que pra mim passava batido - eles estão pouco se ferrando com o mundo lá fora e fazem Arte-pela-Arte, como deveria ser sempre.

Em The Village Lanterne, seu folk rock com elementos de música cigana e celta nunca esteve tão doce e envolvente. A voz da bela (e simpática) Candice seduz muito mais com sutileza e simplicidade que o lirismo esganiçado de algumas vocalistas. E Ritchie, anos-luz do riff de Smoke On The Water, faz a cama perfeita para a esposa (sem trocadilhos) com inspiradíssimos arpejos de mandolim e guitarra acústica. Chill out puro.

Quando a versão de Child in Time, clássico do Deep Purple, deu as caras, eu já estava tão hipnotizado pela sereia Candice, que só consegui esboçar um sorriso abobalhado. Aliás, só ela pra convencer o velho e teimoso Ritchie a tocar essa de novo...



Peeping Tom é mais um projeto do Mike "Fenemê" Patton. Segundo o próprio, o objetivo é dar a sua (sub)versão para a tão amada/odiada música pop. Foi a mesma coisa que soltar um demônio da Tasmânia num estúdio de última geração. Se eu fosse dono de uma rádio FM, esse álbum não saía das 10+.

Participações especialíssimas de Norah Jones, Massive Attack e da nossa Bebel Gilberto, na sintomática Caipirinha.





Zakk Wylde e seu Black Label Society nunca foram de meio-termo. Herdeiro legítimo do country/southern rock praticado por bandas como Lynyrd Skynyrd, Blackfoot, Allman Brothers, Guess Who? e sulismos afins, Zakk sempre balanceou álbuns agridoces semi-acústicos com álbuns heavy rock de trincar o crânio.

Assim sendo, Shot To Hell pode ser encarado como o primeiro passo de Zakk em busca de um lugar comum entre os dois mundos. O álbum é quase tão introspectivo quanto o excepcional Hangover Music Vol. VI, de 2004, e quase tão pesado quanto Mafia, de 2005.

Ainda não está na dosagem correta, mas Zakk está cantando melhor e a sua guitarra... bom, digamos que Ozzy ainda deve mantê-lo na banda por mais uns bons duzentos anos.



Southern rock from Kentucky. Primeiro álbum destruidor do Black Stone Cherry! Southern e heavy hard à Mountain/Thin Lizzy com sapecadas stoner, num contexto tão acessível quanto o Black Album, do Metallica. Todas as faixas são matadoras. Ouvi isto até furar o HD.



A line-up instruMEnTAL do finado Pantera - Rex Brown no baixo, Vinnie Paul na batera e a guitarra defenestradora do saudoso Dimebag Darrell - unindo forças com o vovô country David Allen Coe: este é o Rebel Meets Rebel. A banda despacha uma sonzeira country-thrash incendiária do início ao fim. Sem falar que este crossover, além de genial, é impagável. Um dos álbuns mais divertidos do ano.



Copy/paste de um comentário meu em outro lugar:

Jeff Walker Und Die Fluffers é a nova banda do maluco Jeff Walker, ex-baixista do podrão Carcass (HuH!) e alter-ego do El Cynico, um dos coyotes from hell do Brujeria. Como se pode notar, o cara não é lá muito normal, o que dá a dimensão exata do country noise metálico que o grupo pratica (ou seria "vomita"?) em Welcome To Carcass Cuntry.

Participam da zona os também insanos Bill Gould (ex-Faith No More), Shane Embry (Napalm Death), Nicke Anderson (Hellacopters), Ville e Gas (do HIM), e uma porrada de fugitivos do hospício (mais precisamente, da ala reservada aos doentes perigosos). Pra deixar a coisa mais 'instigante', o tracklist deste álbum de estréia é composto por covers de clássicos do blues, country e rock'n'roll.

De resto, só digo que o disco abre com The Man Comes Around (Johnny fuckin' Cash) e fecha com Keep On Rockin' In The Free World (Neil hyper-fuckin' Young).



Tenho de admitir que escutei muito southern rock em 2006. Também nunca matei tantas garrafas de Chivas e Red Label. Brand New Sin, banda parceira de estrada do Black Label Society, chega ao arregaçante terceiro disco me intimando a mudar de bebida. Enquanto preparo o sal e os limões, vou curtindo a trilha - guitarras áridas, bateria esmagadora e vocais curtidos em conhaque de alcatrão garantem um porre de qualidade.

Me gusta Tequila, mucha Tequila!


E o velho Zimmerman segue inabalável e esfregando na cara do mundo o quanto a mardita cultura popular americana é do cacete. O discurso em Modern Times está mais ácido e cínico, e a sonoridade resgata a blueseira de boteco vagabundo.

Destaque para a deliciosa faixa de abertura, Thunder of the Mountain, que tem Alicia Keys no piano, para o arrasta-pé com letrinha sacana de Someday Baby, e para a sensacional Rollin' and Tumblin', cover do cover de Muddy Waters, que deve ter embalado várias cachaçadas do pessoal do Reverend Horton Heat.

Bob Dylan ainda é o cara.



O new beat trip hop tecnudo do Gnarls Barkley transcendeu a "mera" discussão sobre música e cravou sua Crazy ainda no formato de mp3 no topo das paradas, uma semana antes do lançamento oficial. Se a indústria precisava de alguma evidência de que as regras do jogo já mudaram, St. Elsewhere deu o testemunho final. Talvez o que aconteceu com Crazy tenha sido o símbolo máximo dessa virada histórica.

Sem falar que desde de Speakerboxxx/The Love Below, do Outkast, não aparecia uma compilação tão chicleteira de hits.




Obviamente, só tive interesse em conhecer a banda por causa da capa. Os caras realmente sabem como chamar a atenção. O som do Hydrogyn é uma cruza hard entre Bliss e Heart, com peso na medida e refrães ganchudos. A cantora Julie Westlake, além de absurda...


...canta muito bem também. Minhas favoritas deste Bombshell (títulozinho mais do que apropriado) são Breaking Me Down, Look Away SP e Vesper's Song, que eu chamo carinhosamente de 'melô do celular'. Hits fáceis.

Ps.: Numa das versões do álbum, tem um cover de Back In Black, em que a moça segura firme e forte. Em outra versão, ela cai de boca em 18 And Life, do Skid Row. Dá-lhe Julie!




From Dusk Till Doom, do Stonegard, é mutcho loco mermão! O grupo norueguês não respeita limites musicais no doom metal que pratica, trafegando sem cerimônia pelo stoner, death, thrash e até por incursões progressivas/ssistas, sempre com energia aos borbotões.

Mas o maior diferencial é um certo tino pop permeando todas as faixas. Usado a favor do time, tem grandes resultados. Num momento, eles mandam passagens suaves e refrães grudentos que poderiam entrar fácil na grade de qualquer FM, e no momento seguinte, é a trilha sonora de uma avalanche provocada por um vulcão em erupção.

Stonegard é o primo adolescente e metalêro do Tool trampando de roadie no System Of A Down.




Discaço de party rock: What Apology, estréia solo do guitarrista Günter Schulz (ex-KMFDM). Este álbum é rápido, ganchudo, ensolarado e festeiro.

Metal, industrial, hardcore e new wave batidos num liquidificador junto com várias substâncias ilegais. Algo ali entre Young Gods, Devo e Therapy?. A rifferama da oitava faixa, Fear Tactic, remete ao Sepultura fase Arise, mas à esta altura todo mundo já deverá estar pra lá chapado.

E não é à toa que Schulz é considerado um dos melhores guitarristas do gênero. Confira só a Love Will Tear Us Apart do cara, em versão hard rock pumperô.



Sempre surpreendendo. O combo esloveno Laibach já fez muita coisa desde que foi formado, em 1980 (incluindo uma versão electro-industrial pro disco Let It Be, dos Beatles). Agora, com Volk, o grupo quer abraçar o mundo: cada uma das 14 faixas tem o nome de um país diferente, com trechos de seus hinos no idioma original e participação de artistas daquela nacionalidade.

Talvez o fato dos integrantes terem testemunhado uma guerra de perto (a Eslovênia era parte da Iugoslávia), os inspirou a fazer deste álbum um projeto tão humanista e tão... "globalizado" (ops). O resultado ficou emocionante. Todas as faixas são excelentes e por muito tempo depois você vai descobrindo novos detalhes que mudam o cenário inteiro. Minhas preferidas são a irônica America ("O'er the land of the freeee..."), a estilosa Anglia, Rossiya (com um coralzinho de crianças maneiro) e a quase-darkwave Spania.

Um dos raros discos em que o resultado justifica a pretensão.



Em Monochrome, o Helmet retornou à essência do hardcore cerebral que praticava nos primeiros álbuns. É o disco que mais lembra Meantime, seu mega-sucesso de 92. Return to roots total. Está tudo lá: o peso sabbáthico, os vocais de pitbull raivoso e os riffs pára-e-começa. Faltou apenas o jazz (lembra do jazz que tinha?).

Só não sei se a banda ainda tem aquele público que curtia isso tudo na época. Daquele povo todo, acho que só sobrou eu.





Extensas incursões melódicas, tecladões épicos, guitarras esparsas e o vocal olímpico de Bruce Dickinson compõem A Matter Of Life And Death, o álbum mais progressivóide desta nova fase do Iron Maiden. É notável o fôlego de guerreiro asgardiano dos caras, depois de quase trinta anos de guitarrada na cabeça.

Brighter Than A Thousand Suns, The Pilgrim e a faixa-título The Reincarnation Of Benjamin Breeg são trilha pra lutar ao lado do Rei Conan no exército da Aquilônia. E, de preferência, morrer logo em combate pra curtir a eternidade ao lado de belas Valkírias.




Damage Case é uma sensacional antologia da carreira de sir Ian Fraser Kilmister, o Lemmy, do Motörhead. Cobre nada menos que 39 anos (1966-2005) de bons serviços ao rock'n'roll.

Antes de encher a cara ouvindo isto aqui, confira os primórdios de Lemmy no Rockin' Vickers e na excelente Sam Gopal (aqui, já como vocalista/baixista). Também tem três do alucinógeno Hawkwind, incluindo a clássica Motorhead, e as parcerias com a "prima" Wendy O. Williams, com os protopunks do The Damned, com Danny B e Slim Jim (do Stray Cats), e a dobradinha com Dave Grohl no projeto Probot.

Entre uma e outra, balaços do Motörhead e os covers de Tie Your Mother Down (Queen), Whiplash, Enter Sandman (ambas do Metallica) e The Trooper (Iron Maiden).

Lemmy is God!



Mais um dia no escritório do Motörhead. Larga tudo e vá beber cerveja!



No fim das contas, o Muse é rock. Não importa de que jeito. Os caras não se furtam em esmerilhar nos arranjos, na dramaticidade, grandiosidade, soluções melódicas inusitadas e nas nuances tortuosas dos vocais. E ainda subvertem a tríade guitarra-baixo-bateria a tal ponto que desconstrói uma a uma das convenções empilhadas na clicherama que as rádios e a MTV empurram goela abaixo com o rótulo de 'novidade'.

Black Holes And Revelations foi um dos álbuns mais instigantes do ano, e eu ainda estou intrigado com ele. Novas sessions no fone de ouvido se fazem necessárias.




Living With War vai direto na veia e diz logo a que veio. Só de correr o olho no tracklist, você já imagina o que vem por aí. Desde Ohio que eu não vejo (ouço) o Neil Young tão injuriado.

Uma coisa é ouvir o Ministry falando mal. É fácil não levar à sério... aquele bando de (cyber)punks. Agora, ouvir de alguém como o Neil Young...

Presidente Bush... se mata.





O RDP faz crônica urbana direto das trincheiras. O novo disco, Homem Inimigo do Homem, mostra a banda "cada dia mais suja e agressiva". Um furacão sônico. Até agora tô procurando o rumo de casa.

PMs de Satã, Covardia de Plantão e Otário Involuntário já são hinos HC, mas só o fato das florzinhas EMO terem sido estraçalhadas em O Equivocado, já vale o disco.






Solo ou ao lado dos Heartbreakers, Tom Petty é um dos maiores artistas já surgidos na América. E só melhora com o passar dos anos. Highway Companion parece atestar isso em belíssimas rock and roll songs. Simplesmente perfeito.

Ps.: O pessoal do Red Hot Chili Peppers adora.






E lá se vão bons 15 anos desde Opiate, EPzinho de estréia do Tool. Nosso monstrinho cresceu. E está doido pra sair do porão. 10,000 Days deveria vir com o aviso: "Deixai toda a esperança, vós que entrai".

O que se ouve aqui é a ambiência do inferno - instintivo, enegrecido, primal e violento. A sexagésima sexta descendência dos pesadelos de Robert Fripp. É o Pink Floyd, depois de lamber todas as cartelas de ácido de Syd Barrett. Decadente, surreal, opressivo, claustrofóbico, matemático e escrotamente orgânico.

Tool faz na música o que David Lynch faz no cinema e Alan Moore faz nos quadrinhos. É o Augusto dos Anjos do rock.



Jackson, Mississipi. Num calor infernal, no meio de lugar nenhum, três amigos - Peter Hayes, Robert Levon Been e Nick Jago - fanáticos por blues, folk e gospel, partem sorrindo de uma encruzilhada em direção ao estúdio mais próximo. O resultado foi o excelente Howl, de 2005.

O EP Howl Sessions mantém a chama acesa até o próximo pacto do Black Rebel Motorcycle Club. Onde quer que esteja, Robert Johnson está sorrindo e balbuciando "ooo yeah..."




Quem conhece o sueco Astral Doors já sabe o que esperar de Astralism: a recriação do espírito do Rainbow e dos primeiros solos de Ronnie James Dio para os dias atuais, com ataque preciso e produção irretocável.

O perfeito entrosamento de teclado/guitarra, e o vocal raçudo de Nils Patrik Johansson levam o ouvinte de volta no tempo - mais precisamente para alguma apresentação do Dio em 1983, turnê do Holy Diver...





Andy Cairns & crew chegaram quebrando tudo em 2006 com One Cure Fits All. O Therapy? continua aquela usina de ritmos caóticos, baixo pulsante e um paredão de guitarras de moer o cérebro. Hardcore, metal, pós-punk, alternativo, noise, surf music... eles jogam tudo no mix até virar uma coisa só.

Se nos discos anteriores, o grupo andava meio perdido em busca do refrão FMístico perfeito, aqui eles rebuscam a sonoridade visceral e crua dos primeiros discos (Fear Of God poderia ser uma faixa do pesadão Nurse, de 1992).

Só não digo que é o melhor do Therapy? porque em 94 eles gravaram Troublegum.




Rá-rá! E não é que editaram a capa de Christ Illusion, do Slayer!

O terceiro melhor álbum da banda, na minha opinião. Slayer é isto aí.

Slaayeeeer!!

Ps.: apesar disso tudo, o baixista/vocalista Tom Araya é religioso e acredita em Deus. Seria ele um legítimo "traidor do movimento"? :-)





Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, estréia do Arctic Monkeys (não confundir com o "Sonic Death Monkeys"...). Detesto participar de coro, mas tenho de admitir... este álbum é muito bacana!

O que me pegou foi a linha de baixo. Legal bagaráe.







Tem bandas que passam pela maior crise de identidade só porque mudou um pouco a afinação dos instrumentos. O Evergrey prefere abordar novos fronts de maneira mais evolutiva.

Em Sunday Morning Apocalypse, a sonzeira continua aquele diamante lapidado, mas nota-se ligeiras modificações na estrutura. Está tudo mais simples, mais fácil. Até mais pop, eu diria. Ouça a faixa Lost e veja se não rola tranqüila nas rádios. Tem até o apelo do nome.

O Evergrey sinaliza novos rumos e o faz com a competência e a classe de sempre. Aprenda, Stratovarius.






Caralho. Os caras tão putos!









Em Come Clarity, o In Flames fez o death metal mais bonito que eu já ouvi. É bonito mesmo. Provaram que há beleza no caos.

Aliás, esta beleza bem poderia ser Lisa Miskovsky, que canta docemente na faixa Dead End. Loucura - loucura - loucuraaa...






Revolting Cocks (aka RevCo) é o pessoal do Ministry + péssimas amizades (Gibby Haynes, do Butthole Surfers, e Jello Biafra, ex-Dead Kennedys, entre "outros") + putas & drogas, numa festa de arromba no estúdio.

Pelo jeito, o rock desta vez foi dos bons. Cocked & Loaded consegue ser tão vulgar e chapado quanto o clássico Linger Ficken' Good, de 93.




Eagles Of Death Metal não, Eagles Of Rock And Roll!

Death By Sexy é festa na garagem.

Yeah!






Anexo de saideira:

Dando uma de umlaut... não tem nada a ver com o que rolou em 2006, mas não custa nada "eternizar" on-line boas (ótimas) lembranças...






Foram fodas. Devia ter guardado o do Motörhead, o do Deep Purple...


Este post é humildemente dedicado ao eterno Godfather of Soul, mister James Brown.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

BASTIDORES DO NADA


Falar de comédia neste país é algo contraditório. O brasileiro é um ótimo público. Adora rir. Mas por uma estranha razão, o filão humorístico oferecido pela grande mídia ainda é aquele mesmo que jaz na UTI há uns vinte anos (pra mais), balbuciando "eu tô doido, eu tô doido". Vai saber porque ainda insistem no formato matusalém de esquetes e gags físicas de salão - coisa que era top de linha lá pelos anos 60, com Bronco, Família Trapo e marcos quetais, mas que, excetuando a genial releitura setentista dos Trapalhões, se converteu em um loop incessante de clichês. O circuito norte-americano de comédia (a referência desde sempre) até hoje mantém religiosamente seu SNL, tão tradicionalesco quanto, mas num esquema de broadcasting quase cooperativo de renovação de elenco, scripts e conceitos. E Hollywood é logo ali. 95% dos coadjuvantes cômicos que você vê em blockbusters vêm de lá. Outros tantos vão direto ao estrelato, sem escalas, naqueles lances da noite pro dia que costumam chamar de american dream.

American dream o cacete. Investe não pra você ver. Aí que entra a mercantilização do produto: para suprir a demanda, uma produção hiperfaturada de sitcoms se fez necessária (aprendam, produtores do Zorra Total). É a mais legítima cultura de massa em ação. A grande maioria dura algumas breves temporadas, mas mesmo isto fornece dados valiosos para as networks. Já as séries bem sucedidas, entre outras coisas, desenvolvem um timing bastante preciso em relação às outras mídias, tanto no jogo de ida quanto no de volta (a proporção de astros saindo e voltando para a telinha é parelha) - Friends, é claro, é a exceção que confirma a regra, mas à essa altura o Matthew Perry já está milionário demais pra se preocupar com isso.

Outro crossover interessante do formato sitcom é com o humor dito underground - o stand-up, "a última fronteira da comédia".


A primeira vez que tive contato com o gênero foi através dos filmes O Rei da Comédia (The King of Comedy, 1983) e Palco de Ilusões (Punchline, 1988). O primeiro, uma trip scorceseana sobre decadência moral e aceitação, trazia Robert De Niro como um comediante fracassado e obcecado pela fama, (des)construindo a pior noite da vida de Jerry Lewis. O stand-up, nesse acaso, foi apenas o veículo (dá-lhe Rupert Pupkin: "É preferível ser rei por uma noite do que um tolo a vida inteira"). O segundo, uma comédia dramática com Tom Hanks e Sally Field, destrinchava o impacto pessoal que esse estilo de vida traz consigo. O stand-up é arte performática no seu conceito mais puro e isto tinha de ser assimilado pelo mainstream de alguma forma.

O que nos leva a Seinfeld. A série estreou em 1989, na NBC. Sucesso de público e crítica, reinou absoluta. Criada por Larry David e Jerry Seinfeld, o programa tinha muitas alcunhas, mas a melhor, sem dúvida, era "show about nothing" ("série sobre o nada"). Acertava em cheio. Simples e eficiente, o roteiro era uma transcrição em imagens do material recorrente no stand-up - lembrando que a vertente em questão é aquela mais sofisticada, baseada numa visão ácida sobre os maneirismos da sociedade (portanto, nada de piada de papagaio por aqui).

Sem pautas fixas ou dramáticas, os episódios versavam sobre o 'nada' de maneira ímpar... se é que o nada pode ser ímpar.


Foi um estrondo. Jerry, até então figurinha fácil nos clubes de New York (como o cultuado Gotham) e em participações no David Letterman e no Tonight Show, entrou pro rol das celebridades mais bem pagas da TV americana. E assim foi até maio de 1998, quando a série chegou ao fim.

Nesse ínterim, há muito o que se comentar sobre a saída de Larry David, sobre o Jerry Bizarro, sobre os ótimos Jason Alexander, Julia Louis-Dreyfus e Michael Richards, e sobre a "maldição de Seinfeld" (ainda vigente...), mas o principal você pode ficar sabendo através do filme Bastidores da Comédia (Comedian, 2002).

O que faz um sujeito depois que aposenta a coroa de Rei do Mundo?




Dirigido por Christian Charles, o filme é documental e acompanha o processo de readaptação do Jerry "pós-Seinfeld". Readaptação não... reabilitação. É sempre interessante saber o que se passa pela cabeça de certos seres humanos que estão vivendo uma situação especial. Por exemplo, os milionários. Esta casta privilegiada que não precisa mais trabalhar pro resto da vida. No caso de Jerry, é fácil perceber que nem toda a grana do mundo o seduziu o suficiente para afastá-lo dos clubes, dos velhos amigos que começaram junto com ele (e que continuam na "pista"), de New York. E, principalmente, da paixão pela comédia.

Aos troncos e barrancos, ele sabe que tem de voltar ao que faz melhor, que, por extensão, é justamente o que ele é. Não tem nada a ver com dinheiro, fama ou status. Há uma lição aqui, pessoal.


O objetivo do filme é registrar esta reentrada de Jerry na disputada cena de stand-up comedy. Após dez anos totalmente dedicado ao programa de TV, essa é uma tarefa um tanto árdua. Apesar do comediante ainda manter a simpatia do público - e sendo agora famoso - a teoria que o colega Colin Quinn lhe apresenta durante um bate-papo ainda é a lei vigente: "Você tem uma pequena vantagem, mas ainda tem de ser engraçado. Até Jack Nicholson, que todo mundo adora, se estiver num show de comédia, terá cinco minutos de cortesia. E então eles vão dizer: 'Ok Jack, se não vai nos fazer rir, dê o fora'".

Fora isto, a pressão interna de um infeliz que se atreve a subir naquele palquinho chega a ser um exercício de paranóia ("Será que eles estão pensando o que eu estou pensando que estão?"). Isso rendeu uma cena, hã, tragicômica, em que Jerry "trava" no meio do show. Branco total. E o público não perdoa.

Uma grande sacada de Bastidores da Comédia foi dividir o foco entre Jerry e o comediante Orny Adams. Ambos são iniciantes (Jerry, à maneira dele) e estão tentando encontrar a dinâmica perfeita entre performance, repertório e interação com o público. Orny pode facilmente despertar a antipatia alheia e por isto mesmo é tão importante sua presença aqui. Rende horrores. Temperamental, arrogante, egocêntrico e com um sério problema em ouvir críticas, Orny nem sequer tem certeza se é isto mesmo o que quer da vida - detalhe responsável por um dos melhores momentos do filme, quando Jerry encarna o velho feeling de ironizar nóias pós-modernas e lhe dá um conselho gratuito tão bom que poderia servir perfeitamente para o espectador (eu mesmo dei uma leve adaptada no conceito e agora sou um novo homem).

Apesar de irritadiço/irritante, Orny é talentoso. Talentoso e dedicado. Seu estilo é naquela tocada de "humor mau-humorado", à Lewis Black e Robert Klein (que comparece no filme), carregado de sarcasmo corrosivo - a piada do celular, p.ex, é matadora. Nada que a estrada e uma boa dose de humildade não resolvam.

E Jerry, por sua vez...


...sabe muito bem que os "cinco minutos de cortesia", na prática, não passam de alguns segundos. Ainda mais em se tratando dele. Afinal, existem quantas chances de alguém milionário e famoso descer num night club só pra pagar mico em público? Esperto, ele tirou de letra todas as saias justas que pipocaram (ao contrário de Orny), provando que improvisar é como andar de bicicleta. Mesmo assim, Jerry pena para reencontrar a motivação do início. Em certos momentos, ele parece o sujeito mais solitário do mundo, especialmente quando está na concentração.

Nessa viagem estradeira em busca do seu 'eu perdido', ele vai reencontrando velhos conhecidos, alguns igualmente famosos, como Jay Leno, Garry Shandling, Ray Romano e Chris Rock. Cada um deles tentando entender onde chegaram, como chegaram e se ainda têm a moral de mandar bem num palco - exatamente o que Jerry está buscando. Acompanhar as conversas dos caras é voyerismo de primeira.

A grande virada na busca de Jerry acontece quando ele vai conhecer um ídolo seu, o veterano Bill Cosby. É o clímax, e contrasta com o clima pesadão que vinha crescendo no filme. A seqüência é emocionante pela sutileza envolvida. Jerry pouco fala e, só pelo olhar, mr. Cosby já sabe exatamente o que ele procura. Sensacional.

Não pense que Bastidores da Comédia é algum especial humorístico com quadros produzidos. Longe disso. A série Seinfeld só é lembrada como algo vago e que abriu um gigantesco 'nada' nessa parte da vida de Jerry. O que predomina no filme são conversas soltas, bastidores, macetes de performance e trechos de shows aqui e acolá. A edição segue um tom despojado, meio alternativo, inclusive na trilha (com Águas de Março, de Tom Jobim, já na abertura). A experiência vale principalmente para fãs do stand-up, para os que querem se iniciar na matéria e para os que acham que comédia não precisa ser algo histérico.

E para um senso geral de (incontestável) bom gosto, vale a pena pelo finalzinho mais cool que vi este ano, ao som de Deacon Blues, do Steely Dan.


"Drink, scotch, whisky... all night long... and die behind the wheel..."

domingo, 12 de novembro de 2006

SUPER-HIRO


Recentemente, talvez graças à evolução dos efeitos especiais (ou à falta de imaginação, ou inexorabilidade... ou as três) os quadrinhos pop invadiram os cinemas, estabelecendo praticamente uma nova categorização de filmes. Blade foi o balão de ensaio e X-Men foi o debut de verdade. Passados alguns anos e cerca de duas dezenas de filmes, com outros tantos já na agulha, creio que estamos vivendo um momento de definição, já que o veículo não é mais novidade, o anúncio de um novo filme deste tipo tornou-se comum e avalia-se o fôlego do mercado para as novidades do gênero.

Em todas as adaptações tivemos polarizações de opiniões. Sempre há aqueles que odeiam dividindo espaço com os que adoram, já que fanboy é uma raça odiosa, mas se tem um aspecto que soa unânime, é que o tempo de um filme é extremamente curto para conseguir passar para a tela com a devida propriedade e fidelidade um background de, em média, meio século. Sempre fica a sensação de que poderiam ter colocado isso ou aquilo, sendo que o desenvolvimento dos personagens, raras exceções, é zipado a ponto de perder-se boa parte de sua tridimensionalidade original.


Só que a tecnologia não avança só para filmes e tende a afunilar mídias, e assim temos games dos mesmos personagens feitos com mais requinte. O resultado disto pode ser conferido nos trailers de Marvel Ultimate Alliance (que já esteve no "Merece uma Skol") que, a despeito do team-up inusitado, conseguiu fazer a adrenalina da galera correr solta. As impressões que colhi por aí colocam o trailler com aprovação semelhante à veneração que Batman Dead End goza até hoje. E se filmes e games podem brincar, o mundo das séries de TV também resolveu se meter.

Os motivos para não acontecer antes eram óbvios. Uma série não poderia ter um custo de produção semelhante ao de um filme, já que precisa se pagar (mesmo que cada capítulo das grandes séries de hoje tenham orçamento de filmes médios da década passada). Uma série tratando de heróis seria arriscar alto. Já tivemos, claro, séries nos anos 80 com arquétipos clássicos da cultura de comics, como Super Herói Americano e Esquadrão Classe A, por exemplo, além do próprio Hulk e aquele Homem Aranha com lançadores aparentes e uniforme comprado na Uruguaiana. Tivemos também o Batman camp nos 60's. No entanto, os dois primeiros apelavam para o humor e aventuras vazias, sem muitas preocupações com aprofundamento dos contextos. Hulk era tosco, mesmo que ainda despertasse interesse, diferente do Homem-Aranha, que era tosco e só. Não sei também se é impressão minha, mas séries televisivas, principalmente as que passam ao largo do estilo folhetim noveleiro de Dallas ou do humor - sempre um risco, já que humor é o blue chip das séries - , nunca gozaram de tanto prestígio como na última década. Alias, Lost, 24h, The West Wing, CSI's, E.R. e inúmeras outras se sustentam sem esforço na grade de hoje. Talvez tenha chegado o momento de tentar os heróis também nas séries e com um pouco mais de compromisso. O primeiro que foi direto ao ponto, para variar, foi Blade (Smallville usa a mitologia do herói, mas não da mesma forma). O Horror. Foi pro saco com apenas uma temporada. Nunca gostei nem dos filmes do andarilho do dia, então não fica difícil ter idéia dos motivos que levaram ao baixo retorno da série.


A temporada deste ano estava começando e, como ainda teria que esperar um pouco por Lost, resolvi baixar o primeiro episódio de Heroes (Heroes, 2006). Não tinha nenhuma expectativa, via posts a respeito em blogs e sites ligados ao tema e não surtia nenhum tipo de interesse, mas como estava o torrent ali, só me olhando, resolvi pagar... quer dizer... baixar para ver (depois eu pago, quando sair o box). Surpresa pura! O negócio veio humilde, pé no chão, andando pelos cantos como cachorro que acabou de apanhar, dando tempo ao tempo, ganhando confiança e só depois começou a tomar corpo. Fala de um período em que alguns indivíduos da Terra começariam a manifestar capacidades especiais. Apenas uma pessoa no mundo se dá conta disto, um professor indiano que, na busca pelas informações que comprovem sua teoria, se muda para NY e, quando não está caçando suas provas, ganha a vida como taxista (hein?). Seu filho compartilha da mesma visão, até que o pai é encontrado morto e também vai para NY procurar provas para a teoria (e seguir o legado do taxímetro). Esta é a premissa inicial, só que o desenrolar dos eventos mostrará que tem bem mais por trás desta coisa de pessoas que de uma hora para outra começam a manifestar poderes, a começar pela caçada que parece estar sendo empreendida contra eles, já que vários da lista do Professor são encontrados mortos.


In recent days, a seemingly random
group of individuals has emerged with
what can be described as
"special" abilities.

Although unaware of it now, these
individuals will not only save the
world, but change it forever. This
transformation from ordinary to
extraordinary will not occur overnight.
Every story as a beginning.

Volume one of their epic tale begins here...


Assim começa o primeiro episódio, com aquelas letras subindo dando a idéia do porvir. Não tem aposta mais ganha, já que esta coisa de colocar um texto subindo no começo é solução manjadíssima da maior cine-série nerd-pop de todos os tempos. Entretanto, além de chupar Star Wars, os produtores conseguem logo de cara imprimir o estilo dos quadrinhos no produto. Afinal, o que seria este texto senão um recordatório? Tem coisa mais quadrinhos do que isto? Claro, não poderia ficar o tempo todo assim, então o recordatório continua, não como um quadrado no alto da tela em fonte comic sans, mas uma imagem que não dá pista alguma sobre o que está rolando, acompanhada de uma narração cujo texto e forma pode-se chamar de vídeo-recordatório, para então passar à trama da série. Acompanhamos o filho do professor, um cruzamento de Sayid com Shyamalan, recebendo ainda na Índia a notícia da morte de seu pai e decidindo seguir seus passos. Clique aqui para acompanhar os primeiros 8 minutos do episódio de estréia.


Certamente a série não pode fazer tudo o que os fãs de quadrinhos gostariam que fizesse, até porque sua vinculação com resultados em audiência é mais íntima e direta, já que o mercado de quadrinhos é bem concentrado. A prova disto é que, quando da estréia, apenas um punhado de episódios havia sido contratado, buscando testar a receptividade do produto. O sucesso inicial garantiu o resto da temporada e o desenrolar desta é que vai dizer se teremos o "Volume 2". Um dos pontos que valorizei bastante é a falta de pressa em ir direto à ação ou manifestação de poderes. A produção, além de ter sido sábia ao não escolher nenhum personagem preexistente, vem dando cadência apropriada aos episódios, construindo a personalidade de cada personagem com cuidado, sem atropelos, sempre mostrando algo novo. Dou bastante peso a isto, já que não são poucos personagens em primeiro plano. A linha principal tinha 9 logo de cara, sendo que mais dois entraram na trama um pouco após. Conseguir tempo de tela para todos, principalmente quando a cronologia avança e dá mais profundidade pra cada um deles, torna-se um exercício de competência complicado. Daí entender porque Jeph Loeb foi chamado para auxiliar a produção. Apesar de temer pelo futuro de Ultimates com ele, reconheço que ele tem o tipo do talento necessário para dar algum tipo de roupagem noveleira mínima necessária para manter a atenção do grande público. Não digo que gosto deste tipo de abordagem, acho que o resultado geral poderia prescindir um pouco disso, mas entendo que a série, para existir, tem que ter público. E ele produz o que o público quer ver, sem, com isto, deixar de lado a estória que Tim Kring queria contar.

A tagline "Save the Cheerleader, save the world" é das piores que já vi na minha vida. Primeiro porque este negócio de salvar o mundo vai meio de encontro ao tratamento mais pé no chão que as produções na área vêm tomando. Segundo que, apesar de gostosa, a figura genérica da cheerleader é, ao menos para mim, uma das coisas mais ridículas da existência. Talvez a união da tagline tosca com o estilão Jeph Loeb de contar estórias tenha dado às interpretações um jeito meio caricato. Não quer dizer que, neste caso, ser caricato seja algo ruim, acho até que nem é, e, para falar a verdade, acho que o tipo meio falso é proposital. É a certeza que tenho ao ver, por exemplo, Masi Oka roubar a cena com seu Hiro Nakamura, um japonês que manipula o espaço-tempo num misto de NIX com o Eterno Makkari. O cara é, de longe, a personagem mais interessante da série, um estereótipo ambulante, além de ser a ligação da trama com o mundo dos quadrinhos que a inspirou, já que constantemente o vemos citando alguma revista dos X-Men ou em algum dilema sobre usar ou não um uniforme ou identidade secreta. Detalhe, o cara, apesar de ter uma lista interminável de participações em outras séries como figurante, é programador de efeitos visuais e praticamente estreante como ator propriamente dito.


Só que ser o mais interessante não significa que é o que mais gosto de ver. Este posto é fácil fácil de Ali Larter, a louraça belzebu, Godiva de Las Vegas. Eu já a tinha visto na franquia Premonição (Final Destination) e não sei o que aconteceu, mas nunca tinha reparado como ela é dAliciosamente Lartalentosa. Em Heroes ela está tão CavAlissimamente Larterbatadora que faz um episódio de 40 minutos durar quase o dobro de tanto que fico repetindo cena incansavelmente, fazendo crer que uma série-família pode despertar Alibido fácil com Lartersuda correta em tela. Dá para beijar o monitor. PegavAli fácil. Ali comia e lambia os beiços Lartér dizer chega. E o cara que consegui isto na série concorda comigo, já que disse que a estupidAli foi a melhor Lartrepada* que ele já deu... Ela é mãe de Micah, um moleque ainda muito pouco desenvolvido, apenas dando a entender que tem um poder de controle de equipamentos mecânicos pelo toque. Seu pai é um fugitivo do presídio estadual, uma Kitty Pride que fala grosso.

Além deles, temos ainda os irmãos Petrelli, o mais velho pode voar e o mais novo emula o poder de quem estiver próximo a ele. Assim como o japa, papéis caricatos também. Há ainda o precog drogado, que consegue ver o futuro e predizer tudo o que está acontecendo com os humanos "especiais" que estão passeando sobre a terra. Aliás... sobre os EUA. Fechando o grupo, temos o ScannerCornoCop Matt e a Cheerleader da tagline, a adolescente Claire, vivida por Hayden Panettiere cujo poder é regenerar o corpo todo seja lá qual for o machucado. Praticamente uma Wolverteena. Como tem ainda 17 anos, não posso fazer trocadilhos de fundo sexual. Mas poderia, pois, com aquele corpinho, é uma Teenzudinha e é Claire-que-eu-comia... Aliás, protagoniza algumas das situações mais esdrúxulas da série, algumas deliberadamente forçadas, já que consegue estar em situação de morte em quase todo episódio, num desempenho de fazer inveja ao Kenny de Southpark.


Todos parecem estar vinculados de alguma forma à organização chefiada pelo pai de Claire, mostrando que os "especiais" estarem concentrados nos EUA e aparecendo ao mesmo tempo não é bem uma questão de coincidência.

Apesar de achar que a cadência é boa para não atropelar o progresso da série, apresentando inclusive os poderes com certa parcimônia, e destaco o efeito de vôo de Nathan Petrelli, o congelamento do tempo de Hiro e as tentativas de suicídio à Groundhog Day de Claire, já estava achando que um rumo mais fechado devia ser tomado para não parecer enrolação. Parece que os produtores também acham isto, já que prometem definições para os dois próximos episódios. Heroes está em seu sétimo episódio, passa às segundas nos EUA, e tem atraído mais minha atenção do que a terceira temporada de Lost. Como complemento, a NBC coloca em seu site pequenas histórias em quadrinhos que fazem a ligação entre os episódios. São completamente desnecessários, mas ajudam a manter a aura de comics que está embrenhada na série.


Tomara que de fato consiga confirmar as expectativas que estou criando a cada dia, para assim não só termos uma série fixa transpirando quadrinhos como também abrir espaço para, quem sabe, ver medalhões retratados semanalmente na telinha, com tempo para desenvolver suas questões de forma bem mais apropriada do que no cinema.

Para finalizar, mais abaixo tem um vídeo onde algum desocupado criativo juntou Chop Suey, do System of a Down, com um vídeo de Heroes.

* - Posso passar o dia inteiro fazendo Aliterações e TrocLartilhos sobre Ali e a Cheerleader. Tenho um estoque imenso (e infame) aqui, já que a cada episódio que comento com o Doggma dá lugar a pelo menos mais 3 trocadilhos com cada uma das duas... aliás, boa parte das impressões que registrei aqui foram derivadas de nossos papos por e-mail.


terça-feira, 7 de novembro de 2006

E.R. PUNK


Recentemente meu empregador promoveu um retorno às origens do BZ, honrando o Z do título mais do que nunca e fazendo valer o “Cada dia mais sujo e agressivo” de uma forma que até já tinha esquecido como era. O negócio está tão punk que, se agora fizesse um review de um filme tipo “Babel”, por exemplo, não me surpreenderia se a cabeça do post anterior virasse um morto-vivo digital, escalasse o blog e devorasse o “texto cabeça” sem dó nem piedade. Como não sou trouxa nem nada, vou seguir a tendência e chafurdar no sangue, tripas, fraturas expostas, eviscerações e afins, tipo da coisa que abunda em Jogos Mortais 3 (Saw III, 2006 – EUA).

Antes de entrar na questão central, acho que vale explicitar as verdades absolutas criadas pelo primeiro filme e que são a base da série. John Cramer (Tobin Bell) é um paciente terminal de câncer que tem apreço explícito pela vida. Ao perceber que como as pessoas sadias não dão valor às suas existências, resolve fazê-las provar o reconhecimento da dádiva que Deus lhes deu e as insere em jogos onde, se quiserem mesmo sobreviver, precisarão passar por provações. Se não mostrarem realmente sua determinação, a vala é certa. Ponto. Ou seja, a galera está no inferno, mas tem como sair dele, o que gera o tipo de conceito torpe de que Jigsaw – John Cramer – não mata ninguém, todos morrem por conta própria (mas seqüestra, mutila, violenta psicologicamente e desfila por todo tipo de crime de qualquer código penal do planeta). Transferência de responsabilidade igual só vejo em carolas...


O primeiro filme define esta regra, o segundo a segue. Por mais que o interesse mais fisiológico de Jogos Mortais, no gosto da maioria,recaia justamente sobre as mortes, eu particularmente atentava muito mais para a engenhosidade não só dos apetrechos que Cramer montava, mas principalmente pela forma como ele planejava todo o desenrolar dos eventos. Cerebral demais, franco demais, ousado demais e abusado demais. Foi isto que fez-me colocar sua figura no meu panteão pessoal de grandes psicopatas do cinema, junto de Hannibal Lecter e John Doe.

Como mencionei quando escrevi sobre Saw II, uma idéia reconhecidamente original no cinema, quando ganha continuações, dificilmente consegue ser revista sem parecer que é a mesma coisa, normalmente caindo no lugar comum já estabelecido. O segundo filme caminhava a largos passos para isto até chegar ao final, quando conseguiu desdenhar de si mesmo e ganhar constituição com força própria, sem abrir mão da idéia básica. Criou, inclusive, novas verdades absolutas que complementaram as que já vigoravam. Poucas vezes vi uma continuação de filme que conseguisse ser tão fluida em relação ao primeiro, mas os elementos ressaltados ao final deixavam claro que a idéia estava se esgotando e a óbvia terceira parte teria que se desdobrar. Até que não errei tanto.


O terceiro começa onde o segundo parou. Segue pela apresentação já clássica de ocorrências de Jigsaw (que deve ter uma pensão por invalidez suntuosa, dado o estilo de sua nova oficina) pela cidade e depois se dedica ao foco de sua trama. Ele está à beira da morte e sua discípula (Shawnee Smith - eu pegava fácil) o auxilia a partir de então - passagem de bastão clássica. Um novo jogo toma lugar. Jeff (Angus MacFadyen) é um pai de família atormentado desde que perdeu o filho em um acidente e agora protagoniza uma armadilha. A diferença é que também temos uma médica (Bahar Soomekh - pegava mais fácil ainda) com casamento em crise que protagoniza paralelamente outro jogo, onde ela tem que manter Cramer vivo até que Jeff complete, ou não, sua via crucis.

De cara percebemos que a massa desandou de alguma forma, já que algumas das regras estabelecidas nas verdades absolutas que vimos acima são quebradas (tagline do filme: “Às vezes as regras existem para serem quebradas”). Além disso, Jigsaw nunca demonstrou o tipo do orgulho de quem se regozija ao contemplar o fim de sua obra a ponto de seqüestrar uma médica com o único compromisso de mantê-lo vivo até o fim de seu projeto. Assim como o segundo, o desenrolar do filme aponta para o banal, só dando lugar à engenhosidade que tanto admiro lá pelo final. Se repetir esta fórmula é cansativo demais até para o fã da série, qual a alternativa então? Recheá-la com a maior quantidade possível de imagens chocantes, daquelas que entorpecem o cérebro à ponto de, quando estamos voltando ao estado normal, vir outra seqüência destas para te deixar bobo de novo. Lembro que algumas pessoas classificaram o primeiro de desnecessariamente violento. Outras disseram que o segundo foi bem mais violento e gratuito. Mermão... este terceiro é tão gratuito que só falta distribuir Bolsa Família! Em alguns momentos o choque é sonoro, como uma cena inicial que me lembra muito a cena do extintor de Irreversível (que, acho, foi a cena do cinema que mais me chocou até hoje), em outras o choque vem do asco - com os porcos, em outras chega a ser didático - como um E.R. grotesco, mas em sua grande maioria a coisa é visceral mesmo, tem até humor involuntário (“Esta máquina é a minha preferida”). Curioso notar como o próprio diretor parece ter percebido que a opção pela violência mais crua servia apenas a preencher o miolo do filme, já que o nome da médica responsável por manter Jigsaw vivo, Drª. Lynn Denlon, é referência óbvia ao nome do diretor e à sua própria missão. Há de convir que Darren Lynn Bousman é foneticamente bem semelhante ao nome da personagem. De certa forma, creio que a opção por cenas mais pungentes funcionou, como diriam os três caras que passaram mal em Londres durante uma exibição, já que o expectador fica numa montanha russa onde é poupado em pouquíssimos momentos (aqueles onde o diretor pensa “Pô... tá bom... assim já é demais”), mas tenho certeza que o DVD deve vir mais, digamos, recheado!


Mesmo com esta enrolação, Jogos Mortais III é bom. Não tem a genialidade do original, mas é melhor que o segundo e seu grande mérito vem da regurgitação que faz de eventos dos dois anteriores, atando todas as pontas soltas, deixando a estória redonda, bem completa e dando dimensão maior para o conjunto da obra do que cada uma delas têm independentemente. Desta batelada de filmes que se auto-intitularam trilogias, e não vi por aí Saw sendo classificado assim, a série é uma daquelas que realmente mostra fechar um ciclo em três filmes, mesmo que deixe óbvio que vem um quarto. Fiquei com a impressão que o todo seria melhor "saboreado" se os três filmes fossem vistos de uma só vez, considerando que os eventos são bem imbricados.

Por mais que seu diretor seja listado como parte do Splat pack (nova onda de diretores de filmes de horror extremamente violentos – os outros seriam Alexandre “Haute Tension" Aja, Neil "Abismo do Medo” Marshall, Greg “Wolf Creek” McLean, Eli “O Albergue” Roth, James “Saw" Wan e Rob "Rejeitados pelo Diabo” Zombie), na minha opinião a série não pode ser classificada como terror, nem thriller, nem suspense, nem policial. É algo que navega no meio disto tudo, numa classificação à parte, própria. Conseguiu isto usando sempre atores desconhecidos ou amargando ostracismo (Glover, por exemplo), a maioria deles recrutados em séries, o que destaca ainda mais a importância do roteiro em detrimento dos astros. Só isto já é motivo suficiente para ter futuramente os três DVD’s na prateleira.