Logo nas primeiras cenas, o final da 2ª temporada de
The Walking Dead mostrou que ia economizar no suspense. E nem foi necessário tanto esforço criativo. A munição, farta, já estava lá, pegando poeira e vagando a esmo nas imediações da fazenda de
Hershel. A sensação de redenção após tantos assuntos mal-acabados sendo eliminados com a velocidade de um maxilar fechando foi libertadora. A verdade é que a trajetória desta temporada foi sufocante e incômoda, no bom e no mau sentido. Foi bem sucedida, se a intenção era mexer com os brios do público - lembrando que todo bom filme (ou série) tem a obrigação mínima de largar o espectador num lugar diferente de onde o encontrou. É justamente o ponto onde suas qualidades se confundiram com suas deficiências. E no meio disso, um público exaurido.
O roteiro do
season finale foi escrito pelos próprios
Glen Mazzara e
Robert Kirkman. Se divertiram, com certeza. Escancararam as comportas do
foda-se e não foram nem um pouco prolixos: a história abre com um bando de zumbis sendo atraídos por um helicóptero sobrevoando a cidade e dali seguindo em direção ao interior. A turba vai engrossando suas fileiras à medida em que outros mortos-vivos vão instintivamente aderindo à marcha - ou à manada (
"herd", no original). É a primeira vez na série em que um dos conceitos mais descaralhantes dos quadrinhos é colocado em prática.
Dali pra frente, a trama volta aos trilhos furiosa e sem escalas: adrenalina sempre no talo, um desabamento narrativo com som & fúria e gostinho de hora da verdade. Sacrifícios são impostos, decisões são tomadas, personagens tropeçam em seus próprios erros e o futuro está incerto novamente - sentimento refletido no olhar amargurado de Hershel ao abandonar sua fazenda engolida pelo caos. Ainda que essa retomada tenha o desespero como fio condutor, houve espaço para que uma suave brisa de esperança fosse inserida sem destoar do contexto.
Foi um trabalho muito bem realizado e um belo
zombie-tale que fechou a temporada em alto nível desta vez. Devo ter reassistido umas três ou quatro vezes desde então e a força da história continua intacta, mesmo subtraída do elemento surpresa. Sem exagero: só não supera o episódio da
première.
Não sei como os fãs
die-hard dos quadrinhos enxergaram a construção de
Rick nesta reta final. Na minha opinião, o personagem de
Andrew Lincoln se tornou menos conciliador e mais
badass que na HQ. Fora que antecipou alguns discursos e posições fascistóides que originalmente ele só teria mais tarde na cronologia. A estranheza foi meio inevitável na comparação - afinal, ele era um cara tão gente-boa e "sussa" -, porém contou com um background psicológico bastante sólido para tal. E nisso o crédito tem que ser dado a quem merece: não só o impecável
Shane de
Jon Bernthal, mas o roteiro de Mazzara e
Evan Reilly para o episódio anterior, forneceram o prólogo perfeito para a conclusão. Isso inclui, principalmente, a
alteração que tanto temi em relação aos últimos momentos de Shane com Rick e
Carl.
Além de ter ficado bem mais crível (o moleque não ia estourar os miolos de sua figura paterna secundária, não ainda...), o confronto memorável da dupla Lincoln/Bernthal permanecerá gravado no cânone cinemático-televisivo até o apocalipse zumbi que assolará o mundo real num futuro próximo. Como várias vezes já aconteceu nesta série, essa foi mais uma mudança de adaptação que, se não superou o original, foi bem mais sensata que uma preguiçosa transposição
per se.
O mesmo não se pode dizer dos demais personagens, já que todos andam na faixa. Existem alguns conflitos, mas numa escala de tensão que praticamente evapora perto de Rick e Shane.
Andrea não parece (ou não teve tempo de) ter sido tão influenciada por Dale quanto deveria (e deveria?).
Carol, ainda em auto-reconstrução, está a anos-luz de cometer todas as sandices que cometeu nos quadrinhos - paradoxalmente, agora, sem Sophia, é que ela poderia abrir os portões do inferno sem a menor dor na consciência.
Maggie e
Glenn estão ótimos arrancados da celulose direto para o celulóide. Atenção especial para
Lauren Cohan, a atriz que interpreta a Maggie, que consegue expressar sua dor e confusão de forma quase palpável - algo que pode ser muito útil mais pra frente se o script não mudar o tom dos quadrinhos.
Já
Daryl ficou um pouco apagado desde que desistiu de ser o renegado e resolveu se unir ao grupo, mas manteve o mesmo grau de importância para a trama. Foi dele o
CSI Zombie que desvendou o assassinato de Randall e a armadilha de Shane.
O saldo das vítimas, aliás, foi bem modesto dadas as circunstâncias. Descontando Shane, Randall e Dale
-ah-Dale!, foram devidamente deglutidos
Jimmy e
Patricia, que já se pareciam com
snacks ambulantes desde suas primeiras aparições. Surpreendentemente,
Beth sobreviveu e, pior,
T-Dog, a ração para mortos-vivos mais teimosa a aparecer na tela desde que os primeiros desmortos saíram do Haiti para ganhar o mundo. Todos esses personagens juntos não fazem a metade da falta que fará o RV de Dale, agora reduzido a uma cantina para zumbis. Triste.
Lori parece ser um caso à parte. Muito bem caracterizada pela atriz
Sarah Wayne Callies, na reta final da temporada a personagem veio se tornando, como direi... uma vaca. Acho que é ponto pacífico que chegar em Shane pra discutir relação àquela altura do campeonato (no episódio em que ele consertava o gerador) é pra lá de contraproducente. Não satisfeita, mais tarde, no mesmo episódio, ela diz ao marido que Shane é perigoso. Mas deixei em stand-by, processando as infos que poderiam decodificar a cabeça da mulher. O que se provou tarefa impossível na cena em que Rick confessa pra ela que matou Shane em legítima defesa. A reação de Lori? Repúdio.
Mas antes de cometer grosserias com essa autêntica profissional do baixo meretrício, penso que talvez esse seja o verniz ideal para uma personagem como ela. Ao contrário da HQ, onde Lori era insossa e dependente e mesmo assim protagonizou
a cena mais forte entre tantas de The Walking Dead, a Lori da TV rescende antipatia e prepotência. Em suma, já deve estar em construção para chegar até aquele ponto tão controverso mostrado no gibi. Aposto no maniqueísmo dos roteiristas, afinal, para o senso comum ela tem que pagar por alguma coisa. No mais, a
AMC podia abraçar o exemplo categórico da HBO no episódio de estreia desta 2ª temporada de
Game of Thrones. O céu é o limite. E o inferno também.
Este 2º
season finale de
The Walking Dead foi bastante aclamado pela crítica e pelo público. E
que público. Mas esse sucesso não deveria ser traduzido como uma sequência de decisões acertadas. Foi uma temporada problemática. Eventos externos influíram na trama de maneira efetiva - e continuarão influindo em tudo o que tiver relação com Dale. A primeira metade foi mal administrada e esticada quase ao limite do aceitável. Mais um pouco e eu já estaria comparando a fazenda de Hershel à ilha de
Lost.
Contudo, não houve nada, nem de longe, que se comparasse ao CDC da primeira temporada. E, reitero, quando foi preciso, Glen Mazzara botou a cara a tapa, injetando emoção nos episódios que roteirizou (notadamente os dois últimos) e vertendo alterações arriscadas em
releituras bastante decentes.
E sim, teve clareza e oportunismo para engendrar o
timing da série até agora.
Mais ainda,
soube guardar a cereja muito bem até o final. Se a impressão foi das melhores, fico imaginando como será uma temporada onde ele terá 100% de autonomia, nenhum problema de
casting ou transição de
showrunner.
E sem contar que terá em mãos o melhor arco da HQ...
Cotação do season finale:
Cotação da temporada: