sábado, 17 de março de 2007

domingo, 4 de março de 2007

DIRETOR FANTASMA


"Spawn was much much better than this". Essas palavras calaram fundo na minha mente quando li o review do Harry Knowles sobre Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007). E ele estava lá, desfiando passionalmente sua fúria fanboy-mor em cima de mais um suposto desperdício de um bom personagem dos quadrinhos. Analisando friamente, nada de novo até aí, visto que o diretor é o mesmo Mark Steven Johnson, do meio-médio-ligeiro Demolidor e responsável por uma nova enfermidade chamada transtorno obsessivo-compulsivo de Elektra*. O mal de Johnson é muito peculiar. Ele soa como se fosse um subproduto de Paul W. Anderson (de Aliens vs Predador), que por si só já é um subproduto de diretor-operário. A ironia é que Johnson tem boas idéias conceituais (Demolidor mesmo tem várias delas), mas as anula uma a uma impiedosamente em lances de absurda previsibilidade. Pra piorar, não parece ter a mínima intimidade com diálogos inspirados ou roteiros bem amarrados. E neste filme, além de dirigir, ele adapta e roteiriza... ou seja, Motoqueiro Fantasma é 100% Mark Steven Johnson, um cineasta 25%.

De qualquer modo, o filme é bastante fiel à premissa dos quadrinhos e condensa tudo que o Motoqueiro tem de melhor. Seu alter-ego é o motoqueiro Johnny Blaze com a roupagem e os poderes do motoqueiro Daniel Ketch. Nicolas Cage finalmente conseguiu o tão sonhado papel de super-herói e não faz feio no que lhe diz respeito. E a história é aquele mesmo causo faustiano contado na Marvel Spotlight #5, só que mais enxuto. O jovem Johnny (Matt Long) e seu pai, Barton Blaze (Brett Cullen), fazem um espetáculo com acrobacias em motos. Nas horas vagas, Johnny encara outro espetáculo, de nome Roxanne Simpson (Raquel hhhmmm Alessi). Um belo dia, ele descobre que seu velho pai tem câncer e está em fase terminal. É quando aparece o boitatá-de-Armani Mefisto (Peter Fonda), com um providencial contrato debaixo da asa. Sem maiores espiritualidades, Johnny vende sua alma pra aprender a tocar guitarra... digo, salvar a vida de seu pai do mal irremediável. Desse mal irremediável, melhor dizendo, pois o mesmo empacota na primeira manobra arriscada de sua apresentação, configurando aí uma autêntica sacanagem dos diabos.

Amargurado, Johnny cai na estrada e embarca numa carreira-solo bem sucedida, mas vazia. Os anos passam e ele reencontra seu antigo amor, Roxanne (já esculpida com as curvas de Eva Mendes), que, óbvio, virou jornalista. Como esmola demais o santo desconfia, Johnny também recebe a desagradável visita de Mefisto – o ser mega-satânico está reivindicando sua parte no contrato para conter a rebeldia de seu filho, Coração Negro (Wes Bentley).


Um grande mérito foi manter intacta não só a presença cavernosa do Motoqueiro, como também a enorme extensão de seus poderes - o personagem é muito poderoso, mesmo para os padrões super das HQs, e isto é claramente demonstrado aqui em diversas situações. Seu vozeirão gutural ficou ótimo, de meter medo em vocalista de death metal. Rola Crazy Train, do Ozzy. O maneiríssimo Olhar da Penitência está lá também. E quando seu "uniforme" fica totalmente caracterizado, com os vinte quilos de couro preto, corrente atravessada e espinhos metálicos, bate até um certo regozijo nerd. Nem o Homem-Aranha foi tão justiçado. Outra boa sacada foi o background sintético do Blaze pré-Motoqueiro. Ficou tudo mais ágil e marcante. Nos quadrinhos, a trajetória do rapaz (que era adotado) é um dramalhão texano daqueles. E uma vez mais, Johnson prova que, tirando alguns poucos Aflecks, é certeiro no que tange à escolha do elenco. Além do easy rider Peter Fonda, também tem meu tio Sam Elliott num papel que, fora ele, apenas meu outro tio, Clint Eastwood, poderia personificar com tal foderocitude, son. Rrrc. Cusp.

Parece bom, né. Mas não é bem por aí não. Johnson ainda continua matando seus bons rompantes com a frieza de um serial-killer, e a partir da segunda metade, ele o faz com talento ímpar. É aí que eu entendo melhor a fúria Knowlesca: o cineasta parece se esmerar para garantir que o produto final seja milimetricamente razoável e nada mais, mesmo com todas as condições favoráveis para deslanchar (o extremo oposto de Bryan Singer, na época do 1º X-Men). Johnson assume a ponta sem grandes dificuldades, mas aperta o freio bem no meio da curva. Essa atitude irrita mais do que se o filme fosse uma pilha de merda fresca.

Em Motoqueiro Fantasma existem momentos de puro vazio contextual. Não raro o personagem, com todo aquele visual dark hardcore, "trava" em cena e não diz a que veio, e quando diz não tem a menor importância - é impossível lembrar das falas do Motoqueiro segundos após as mesmas. Fonda e Elliott não passam de coadjuvantes de luxo – Elliott então, é praticamente despejado do filme em uma última cena cheia de buracos na lógica (não podia só ter pego carona na moto pra poder ajudar mais?). Já Coração Negro tem um poder com um efeito sinistrão, mas passa o filme inteiro se utilizando de seus assistentes – demônios buchas que representam as forças elementais. Cage, por sua vez, insiste em apontar o dedo em riste, ficar uma eternidade em silêncio pra finalizar dizendo alguma pasmaceira óbvia – maneirismo canastrão repetido ad nauseum (de quem terá sido a idéia...). Isso pra não falar na fixação do personagem por Carpenters e balinhas de jujuba (!!).

A apenas quinze minutos do final, eu imaginava se uma boa briga entre o Motoqueiro e Coração Negro não resolveria a parada. Sim, resolveria. Mas Johnson já tinha jogado a toalha há quarenta minutos atrás. Imagine o Deacon Frost, vilão do 1º Blade, com as mesmas motivações e planos para dominação do mundo, mas sem a luta final. Este é Coração Negro, que, por sinal, não tem nada demais em sua forma verdadeira, à despeito das declarações exageradas do diretor.

Um ano de pós-produção pra isto. Estou impressionado.


Parabéns Johnson, você conseguiu. Motoqueiro Fantasma é o filme mais mediano dos últimos tempos. Pelo menos rendeu aquela simulação em flash no site oficial.

Ah, mas eu não tenho webcam... tsc.


A propósito, um breve adendo:


Nicolas Cage já topou com um motoqueiro dos infernos, certa vez. Tal de Leonard Smalls, motoqueiro solitário do Apocalipse... ou algo que o valha.






Puxa vida, aquele cara era bem durão para uma metáfora.


Parabéns Eva Mendes. Beijão na boca!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

ULTIMATE CHICKEN LITTLE


Os Supremos 2 (Ultimate Avengers 2: Rise of the Panther, 2006) é uma boa oportunidade para testemunhar as misteriosas forças da Lei de Murphy em ação. Assim que terminei de assistir, deu vontade de arquivar o DVD numa pasta de evidências e aguardar pelas edições dos Supremos na versão de Jeph Loeb e Joe Madureira. Impressionante como tudo anda conspirando contra, de uns tempos pra cá. É o verdadeiro Pesadelo Supremo. Vou ficar fazendo gênero não: esta segunda adaptação animada dos Vingadores Ultimate é fraquinha com gosto de gás. Pior que cerveja miada. Mas justiça seja feita, não foi propaganda enganosa. Os previews e teasers divulgados continham algumas cenas pseudo-violentinhas, mas no geral não transmitiam a ação vertiginosa e produção bem-sacada que se espera de um calhamaço assumidamente pop como esse. Isto aqui tinha de ser um desenho blockbuster dirigido Michael Bay, oras. Podiam até reaproveitar a malaquice imperialista de Bad Boys 2, Armageddon, etc.

O primeiro longa já era bastante convencional na estrutura, mas adotou as matrizes da HQ com uma fidelidade animadora. Por simpatia a isto, descontei a burocracia da narrativa e fiquei até esperançoso quando soube que a continuação estava sendo produzida logo na seqüência. "Talvez dêem um passo adiante, desenvolvendo as boas qualidades desta 1ª adaptação, aproximando o conceito da geopolítica hardcore dos quadrinhos e assimilando um pouco do senso de humor doentio do texto original. Nada muito radical, claro... não queremos traumatizar os molequinhos que acabaram de comprar a lancheira do Capitão Ultimate", pensei demoradamente eu, como se pertencesse ao staff de Os Supremos 2.

No fim, acabei me sentindo como o Rambo, quando foi abandonado pelo helicóptero de resgate em pleno território inimigo. Nada mais apropriado, aliás. Por vários momentos, Os Supremos 2 lembra a série animada do Campeão da Liberdade. Holy cow.


Adaptado por três, dirigido por dois e supervisionado por um, o desenho tem até uma boa seqüência de ação isolada com o Cap enfrentando alguns soldados da Hydra (cuja participação pára por aí mesmo). A maior parte da história se passa em Wakanda, reino africano ultra-avançado, rico em vibranium e governado por T'Challa, mais conhecido como Pantera Negra. Wakanda está sofrendo sistemáticos ataques dos alienígenas Chitauri remanescentes do primeiro desenho, o que leva o Pantera a solicitar ajuda a SHIELD e, por extensão, dos Supremos. O interessante é que nos quadrinhos não existe uma versão ultimate do Pantera Negra e devido ao forte tom político do personagem, em tese, até seria uma boa idéia sua introdução neste universo. Mas conseguiram a proesa de estragar tudo.

Não só descaracterizaram completamente o herói ("pedir ajuda a SHIELD"... bah!) como também o reino de Wakanda, supostamente dona de uma tecnologia de anos à frente do resto do mundo. Visualmente, Wakanda parece uma civilização asteca cheia de máquinas terceirizadas extraindo o raríssimo vibranium. Uma reserva indígena cujos recursos naturais estão sendo saqueados por alguma gigante corporativa. Lembra tudo isso e não faz a mínima questão de parecer o contrário. Justamente o oposto do que o personagem e sua simbologia atual significam.

Só pra ficar na parte dos quadrinhos, o Pantera aqui tem poderes místicos ancestrais e pode se transformar em um "panteromem" - uma transposição direta do Coal Tiger (o príncipe T'Chaka II, filho de T'Challa no universo A-Next). Como se o herói original não fosse suficientemente atrativo. Ou, mais provável, como se não houvesse talento suficiente à mão para mexer com um personagem tão complexo.


O resto do super-time mantém o ar de tosqueira enlatada feitas às pressas. Os heróis são robóticos, desinteressantes, chatos e sem química alguma. Por Zeus, até aqueles guris enjoados do Capitão Planeta tinham química. A campeã disparada é a Viúva Negra. Se no primeiro desenho a atriz Olivia d'Abo nos presenteou com o sotaque mais canastrão da História Contemporânea, aqui ela eleva seu russíngrish a novos patamares. Impressionante. Já o Thor fanfarrão de outrora (quase um Hércules animado) perdeu toda aquela falastronice e senso de humor. Não satisfeitos em terem o transformado num bucha de primeira linha, ainda colocaram o cara pra jogar runas em Stonehenge como se fosse um pai-de-santo jogando búzios no Pelourinho.

Pra não dizer que ninguém se salva, os belos atributos da Jan Vespa Pym a deixaram com o pé mais na América Latina que na Ásia. E Tony Homem de Ferro Stark é de longe o mais carismático e faz a festa com brinquedinhos de última geração e armaduras de várias fases (o Máquina de Guerra em ação é muito bacana). Parece ser o único desenho com alma por lá.

O roteiro é de lascar. Bruce Hulk Banner é desperdiçado até a última célula gama e Herr Kleiser é outra vez o vilão. Avemaria. Naves aliens com design de insetos, um campo de energia cobrindo o planeta (Manual da Invasão Alien, capítulo 5), Kleiser se transformando num monstrengo gigante na seqüência final (capítulo 3), enormes pods atacando os grandes centros (prefácio)... Qualquer episódio de Defensores da Terra dá de 10 nesta clicherama empilhada. Nem a morte de um dos mocinhos causa impacto após 73 minutos de letargia criativa.

No geral, bocejei tanto que quase desloquei a mandíbula. A vida é assim mesmo. Uns escrevem um texto sensacional sobre uma animação maravilhosa, outros se sujeitam a roubadas como Os Supremos 2.

Mas fora o alívio dos créditos finais (em todos os sentidos), existe alguma razão para conferir este disco? Ooh, temo que sim, caro padawan...


Não perca tempo e vá direto aos extras, na parte "Quem são os Supremos?" Lá, o escritor Mark Millar e o artista Bryan Hitch dão uma geral no processo criativo dos volumes 1 e 2 dos Supremos. Quem considera os Vingadores Ultimate o melhor quadrinho desta década, eu diria que é, bem... não consigo me decidir entre "obrigatório" e "imperdível"... E quem apenas curte quadrinhos em geral, a importância disto aqui é praticamente a mesma - os comentários do editor-chefe da Marvel, Joe Quesada (maior jeitão de fanboy metido e que não empresta revista), as frases sempre políticas do editor Ralph Macchio (realmente não é o Daniel-san) e do producer Avi Arad tornam o semi-documentário um Roda Viva de quadrinhólogos numa troca de idéias e impressões que não se vê todo dia. Não neste nível tão avançado. É só fera.

Claro que é um deleite ouvir Millar e Hitch destrinchando cada personagem, cada inspiração, motivação e conhecimento de causa, com uma montagem entrecortando os melhores momentos da revista. No entanto, o momento principal e o que fez valer-valer-valer a assistida, não poderia ser outro. Nas palavras de Millar:


"Há uma cena no Volume 1 na qual o Capitão América, que tem um grande "A" de América na testa, está batendo num vilão no final, antes da explosão final,
e o vilão pergunta a ele: 'Quer se render, Capitão?' (...)"


...e aí o roteirista segue tentando analisar toda a polêmica com uma cara-de-pau invejável (e piorando tudo, pois seu cinismo é mais palpável que muro chapiscado), Macchio botando panos quentes e Quesada grunhindo uma interessante variação de "shit happens". Mas o comentário mais impagável fica por conta de Hitch...

É... o Capitão Ultimate jamais será o mesmo.


Na trilha: Dawnrazor, Fields Of The Nephilim.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

STALLONE ROCKY


Em certo momento de Rocky Balboa (2006), um dos personagens, um comentarista esportivo, se empolga: "Nunca imaginei que um dia eu iria cobrir uma luta do Rocky!" Do lado de cá, eu dizia o mesmo em relação à ir ao cinema para assistir um filme da série (o ep. IV rolou num longínqüo 1985 e preferi não ver o desacreditado ep. V em 1990). Provavelmente, era este mesmo o recado que Sylvester Stallone - e seus diálogos são diretos como um gancho de direita, rá-rá - quis mandar: se você ainda não viu um Rocky movie devidamente acomodado em uma sala escura, com todos os acessórios refri-pipoquísticos, e com a geral indo ao delírio a cada punch desferido, esta é sua última chance. Sim, a série Rocky foi importantíssima a este ponto, sendo a catalisadora de papos de boteco por, no mínimo, umas três gerações.

Vejo cinéfilos xiitas - a-a-a-pleonasmo-tchimm - se contorcerem de desdém quando lembrados que Rocky, Um Lutador ganhou Oscar e o escambau. Que tirou Sly do gueto, alavancou uma franquia zilionária e foi um dos maiores símbolos do cinema pop. Que Bill Conti nunca foi tratado como um John Williams ou um Jerry Goldsmith, mas compôs um dos temas mais conhecidos da História. Que o boxe profissional ganhou uma legião de adeptos cujo primeiro contato com o esporte foram os catiripapos absurdos dos filmes. E que tudo isso tenha sido criado, medido e pesado pela balança ergométrica de Stallone.

Aquela estátua de bronze estava certa. Rocky Balboa é um ícone. Não tem erro. Além de personificar a figura do working class hero à perfeição, a saga do personagem é uma fábula perneta de superação às mazelas da vida e de amor ao esporte. E uma das maiores produtoras de clichês dramáticos e de ação dos anos mil novecentos e oitenta. Sim, a minha geração se rendeu diante do discurso populista e repleto de emoções baratas - sempre as mais eficientes - constantes em Rocky, a série. Porque Mick (saudoso Burgess Meredith) era uma figura paterna que emocionava pra valer, porque Clubber Lang era o sujeito mais execrável da face da Terra por desrespeitar Adrian daquele jeito ("ei mulher... quer conhecer um homem de verdade? Vamos pro meu apartamento"), porque o robô soviético Ivan Drago era assustador, porque eu também fiquei chocado com a morte de Apollo, o Doutrinador, porque Paulie foi um irresponsável por perder toda a fortuna do clã Balboa, porque Tommy Gunn foi um maldito ingrato por trair Rocky depois de tudo que ele fez, porque...

Bem, lá estava eu entrando na sala para assistir um Rocky. Era a minha última chance.


Na história, Mason 'The Line' Dixon (Antonio Tarver) é o atual campeão mundial dos peso-pesados. Frio, técnico e sem empatia com o público, Dixon atropela os adversários como um rolo compressor. Acusado de escolher apenas desafiantes de baixo nível e conferir uma pecha de impopularidade ao boxe, ele sente na pele que não basta ter o cinturão para ser um campeão. Esta é a metade da história a ser completada. A outra nos mostra Rocky, agora viúvo e dono de um simpático restaurante onde, além da saborosa comida italiana, ele serve histórias dos áureos tempos de ringue. Amargando a ausência de Adrian (num belo retrato do processo de luto), e atravessando uma crise de meia-idade pugilista, o Garanhão Italiano acaba surpreendido pela polêmica em torno de uma simulação computadorizada (ótimo CGI!) de um combate entre ele, no auge, e o campeão Dixon. E como todo grande lutador sempre tem uma última luta dentro de si...

Algumas subtramas são rabiscadas no decorrer do filme, sendo a de Rocky Jr. (Milo Ventimiglia, o Peter Petrelli, de Heroes) a mais relevante no contexto dramático. O cunhado e velho companheiro Paulie (Burt Young, um grande-graaaande ator, confiram em Transamérica) também está de volta, com o mesmo mal-humor e ranhetice.

Quem cresceu à base de reprises e eventuais locadas dos filmes da série, se prepare. Sly arquitetou um verdadeiro Balboa tour e vários elementos, citações e locações da série são (re)visitados ao longo da história. Até as tartarugas estão lá (e devem ser as mesmas atrizes). A maioria das referências foram calcadas no primeiro filme, mostrando que Stallone tem a exata noção do patrimônio que criou. Desde a lojinha de animais até o velho ginásio de Mick, passando pelos bares vagabundos e a paisagem industrial daquela Philadelphia decadente - a reverência à cidade que tanto significou para sua carreira rende alguns dos momentos mais poderosos do roteiro (é isso aí... o cara que um dia foi o Cobra escreveu palavras poderosas). Sly insere até um inequívoco bom humor para suavizar a melancolia deste semi-flashback (sai Eye Of The Tiger, entra Somebody Told Me, do The Killers). Sem contar a excelente sacada que teve ao resgatar um dos personagens do filme original. Chega a dar uma fisgada no cérebro.

E os elogios não páram por aí. Na contramão dos filmes anteriores, Sly acerta em cheio em não demonizar Dixon. Ao acompanhar sua busca pessoal dentro do esporte, ele humaniza o personagem e cria uma expectativa por superação e redenção equiparável à do próprio Rocky. É quando chega a aguardada luta entre gerações e você sabe que está lá no cinema assistindo um Rocky sem ter idéia do desfecho... que é de arrepiar.


Com sua longa experiência e o dom de rir de seus erros, Stallone faz de Rocky Balboa uma metáfora de sua própria trajetória, além de se despedir dignamente de seu melhor personagem. Rocky Balboa é filme-celebração. E também uma justa homenagem a todos os atores que abraçaram a série e, principalmente, aos fãs que jamais abandonaram o velho Olho de Tigre desde que ele se reergueu primeiro naquela batalha épica contra Apollo Creed.

Mick ficaria orgulhoso.



ROCKY - BALBOA

A trilha oficial é uma compilação daqueles hinos que todo mundo já conhece. Vai ser empolgante assim lá em Ibiza. Fora os standards clássicos do Bill Conti, tem o Survivor em dose dupla, o James Brown pasteurizado de Living In America, as bagaceiras oitentistas e divertidas pra chuchu de Robert Tepper e John Cafferty (habituée daquelas trilhas da Souza Cruz) & us mano do Three Six Mafia dando um rolê num Opalão tunado.

Só não deu pra entender a ausência de Take You Back, aquele do-woop cool do primeiro filme que rolou até no trailer.


Na trilha: Adriiiaaaaaannnn!! :P

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

FEROZES & FURIOSOS


Lendo a entrevista hilária que o maleta Rob Liefeld concedeu ao Silver Bullet Comic Books ("I make plenty of mistakes. I'm far from perfect..." - bota far nisso aí, cara), acabei lembrando porque a banda noventista da minha coleção de HQs jaz em uma enorme caixa de papelão. E é um arquivo morto em constante atividade. Foi uma década que eu praticamente não li quadrinho, então, sempre que posso, adiciono mais publicações desse período, via sebo. Cinco anos após a retomada, vejo que, entre descobertas interessantes e idéias originais, o grito da galera era mesmo violência, porrada, ação, mais violência, mais porrada e ação. Entre uma coisa e outra, muita porrada e violência, sempre com bastante ação. É impressionante a quantidade de merda por quadrinho quadrado produzida nos anos 90. Fico feliz de ter sido a década que eu "perdi".

Até entendo o impacto que aquelas capas do Spawn, X-Men, Batman, Wolverine, etc, provocavam. Na época, eram bem maneiras (ou só pareciam maneiras, porque olhando hoje, nem tanto). Mas após a centésima luta sem sentido, diálogos sofríveis e poses de corar banda hard farofa dos anos 80, não haviam mais dúvidas - aquilo era quadrinho ruim... mas ruim com pressão.

O nanquim do artista-símbolo da época, Sua Sisudice Jim Lee, era quem mais tinha culpa no cartório, devido à (má) influência exercida na geral. Seu estilo patolão impregnou 95% dos quadrinhos pop americanos dos anos 90, mas cabe dizer que ele mesmo era tecnicamente OK no que fazia, só pecando pela caracterização facial inexistente dos personagens. Seus influenciados, no entanto, soavam como clones malformados (sendo Liefeld o Nasce Um Monstro da vez).


Como o sucesso foi retumbante (malditos fanboys), artistas consagrados e revelações emergentes abandonaram sua evolução artística natural para aderir ao estilo bad boy de ser. Exigência de mercado = leitinho das crianças.


Cable, abarrotado pra guerra
Os heróis seguiam o perfil "muito múque e pouco cérebro". E as heroínas, coitadinhas, usavam o fio-dental tão atochado no rabo que deviam sentir o gosto do pano. Isso sem falar no sério problema de coluna provocado pelos airbags tamanho extra-HUGE e pelas poses de partir a cervical.

Acho curioso como os roteiros também decaíram nessa muscularização dos quadrinhos. Ficou tudo ridículo e forçado demais, com raríssimas exceções. Herói morria e ressuscitava como quem tivesse saído pra comprar cigarro. Viagens no tempo, realidades alternativas, clones engana-trouxa ("morreu, mas não era ele, era o clone") e por aí vai. Como ainda estou no garimpo quadrinhístico dessa era (já em fase final), é freqüente o meu assombro quando passo pelos sebos.

Eventualmente, alguns diamantes reluzem no percurso - outro dia, descobri em O Incrível Hulk um arco do Homem de Ferro por John Byrne/Romita Jr. que é o cão chupando manga - mas foi em X-Men Gigante #1 que encontrei o equilíbrio do Lado Negro da Força.


Tudo o que os quadrinhos da década de 90 representam pra mim está contido nesta revista. Todos os vícios, chavões, fórmulas exauridas e rombos estruturais condensados maravilhosamente em uma só edição. Leu essa, leu todas. Na capa, a chamadinha já alertava: "260 páginas de AÇÃO, revelAÇÃO e morte (mas com muita AÇÃO)!" Um clássico. O pior é que a história é reverenciada por muitos como sendo um clássico mesmo: A Canção do Carrasco é cotada como uma das melhores sagas pós-Claremont dos mutunas. Nosso Deus. Dêem qualquer história dos Novos Mutantes fase Claremont/Sienkiewicz pra esse pessoal ler e se recolher aos seus cantos fétidos e forrados com edições da X-Force de Nicieza/Liefeld (pra leigos: isto foi uma puta ofensa!).

Em A Canção do Carrasco o Professor Xavier sofre um atentado e é infectado por um tecnovírus. Aí, Ciclope e Jean Grey são seqüestrados por Caliban. Na seqüência, os Cavaleiros do Apocalipse atacam Colossus e Homem de Gelo. Depois é a X-Force que se atraca com os X-Men (e não espere grandes explicações). Cable - que veio de um futuro alternativo - é acusado de ser o autor do atentado. Pra concentrar mais esforços, os X-Men e Bishop - que também veio de um futuro alternativo... essa HQ é praticamente uma rodoviária interdimensional - se unem ao X-Factor. Daí o darkótico Sr. Sinistro aparece pra ajudar a encontrar Apocalipse, provável arquiteto de tamanha x-bagunça. Contudo, o mutante egípcio, que conta com o auxílio dos Cavaleiros da Tempestade, nada sabe. Pra não perder o costume, os X-Men encaram outra batalha nonsense (embora até engraçadinha), desta vez versus a Frente de Libertação Mutante.


Š P Ọ Ỉ L Σ Ř

Tudo vai degradando, degradando, até descobrirem que o vilão Conflyto é o grande manipulador do esquema. Conflyto, adivinha, vem de um futuro alternativo e busca vingança contra Apocalipse, mas acaba lutando mesmo é com Cable, em uma seqüênciazinha cujos desdobramentos são absurdamente parecidos com um momento clássico do bão e véio Esquadrão Atari. Pouco antes do finalzinho, Cable ainda arruma tempo pra morrer-rapidinho-e-já-volta.


Σnd Ọf Š P Ọ Ỉ L Σ Ř




Ciclope e Jean treinam esta posição na Sala de Perigo

A Canção do Carrasco é um exemplar autêntico da chamada Era dos Excessos. O "roteiro" ficou a cargo de Scott Lobdell, Peter David (até tu, Peter?!) e Fabian Nicieza (urgh), e nos desenhos se revezaram Greg Capullo, o atualmente bonzão Brandon Peterson, Andy Kubert (mais perdido que cego em tiroteio) e, heresia maior, Jae Lee - responsável pelos únicos espasmos de talento individual aqui.

Vou ser sincero... guardo X-Men Gigante #1 com o mesmo carinho que um Elektra Assassina ou um Arma X, em posição vertical dentro de um rackzinho super-prático que eu tenho. Lá, ela desfruta da companhia ilustre de V de Vingança e Cavaleiro das Trevas, entre outros notáveis. Ela merece, pela sua excelência em concentrar tanta ruindade de uma só vez. É anti-Arte de primeiro nível.

Pena que não tinha o Rob Liefeld. Aí sim, seria "perfeita".


Ainda tô rindo da mea culpa do RL sobre o "Cap with boobs"... vai, mané. :P

domingo, 28 de janeiro de 2007

DIABOLE VERTSES EN UN VESES

"Who, in their right mind, could possibly deny the 20th century was entirely mine?"
John Milton (Advogado do Diabo, 1997)

E pelo andar da carruagem, o coisa-ruim anda fazendo uma senhora campanha de publicidade também no século 21. É um tanto desesperador que esta frase tenha sido cunhada numa época pré-11/9, pré-Afeganistão, pré-Iraque, pré-tsunami, pré-mensalão, e por aí vai. Certa vez, li uma teoria sobre o livro/filme O Exorcista que explicava que aqueles eram tempos de crise moral e política nos EUA, somadas aos horrores de uma guerra perdida, à escalada da violência urbana e à ausência geral de valores espirituais. Ou seja... o ambiente perfeito pro demo fazer a festa (começando por garotinhas indefesas). Longe de ser um expert nos aspectos técnicos das manifestações cramulhísticas, imagino que, sendo uma entidade abstrata em nosso plano, a sugestionabilidade coletiva é uma poderosa arma em suas garras. Não que o tinhoso seja o causador da merdaiada em que o ser humano vive se metendo. Seu 'trabalho' é muito mais discreto. Afinal, como profanou humildemente John Milton... "não sou titereiro... apenas preparo o cenário. Você é quem puxa suas próprias cordas".

Na cultura pop convencionou-se tornar a figura do belzebu em algo mais concreto e, nessa, o conceito do anticristo foi prontamente adotado. No cinema, ele aparece mais freqüentemente como uma força invisível e irreprimível (vide o Bzão O Príncipe das Sombras) ou como moleques assustadores com um "666" tatuado em algum lugar do couro (A Profecia, O Bebê de Rosemary). Mas isso é só no caso da paternidade ser do próprio Satan-in-chief. O esquema todo é cheio de regras e estratégias porque o livre-arbítrio, graças a Deus, tá na área.

Nos quadrinhos, essa burocracia infernal, bem mais complicada que uma "simples" possessão (à Etrigan/Jason Blood, da DC), pode ser contornada quando o cão em questão pertence à uma classe inferior - 1/3 dos anjos originais já é um número que demanda alguma pesquisa censitária. Nota-se também que um objetivo de vida mais modesto e não tão ambicioso, tal como "conquistar/destruir o mundo", é um facilitador do processo. Foi assim com o sacana Violador (arquiinimigo do Spawn), da Image, que, se não me falha a memória, é filho de um demônio jurássico old school com uma humana (é isto mesmo, Fivo?).

Já o sinistro Coração Negro, da Marvel, é um caso à parte.


Wes Bentley recebendo o exú Coração Negro: a forma humana do vilão

Criado por Ann Nocenti e John Romita Jr. em 1989, ele debutou numa história do Demolidor (Daredevil vol.1, #270 - publicada no Brasil em Superaventuras Marvel #122). Coração Negro é filho do super-capeta Mefisto, que o concebeu sem envolver qualquer miscigenação - o pequeno Coraçãozinho, além de 100% Negro, é 100% Cramulhão - detalhe que acho interessante. Ensaiando uma versão blasfema do Deus cristão, Mefisto envia seu único filho para a Terra em busca de uma espécie de redenção invertida. E para isto, nada melhor que vilipendiar os valores e ideais de alguma alma justa, incorruptível e altruísta - é ou não é a descrição per se do Demolidor (a.k.a Demônio Audaz)?

Em seus primeiros dias, Coração Negro é instinto puro. Através dos recordatórios, Ann Nocenti (mulher sensacional... ainda vou escrever muito, mas muito sobre ela) detalha minuciosamente cada sensação e etapa do aprendizado da infante criatura das trevas. O resultado lembra o texto de algum documentário estilo Desafios da Vida, com predadores famintos cercando filhotinhos desgarrados. A prosa de Nocenti é ágil e muito bem-sacada, o que impede o roteiro de se tornar pretensioso e enfadonho. Mesmo assim, ela aposta no seguro e suaviza ainda mais a atmosfera com uma participação especial do Homem-Aranha - outro herói sempre às voltas com dilemas éticos e ideológicos.

E Romita Jr., atravessando a primeira e definitiva re(/volu)formulação em seu estilo, insere em sua concepção visual o mesmo clima descomplicado das palavras de Nocenti. Fora que seu design para Mefisto, além de radical, é bem mais aterrorizante que o Conde Drácula cover habitual.


Provavelmente... nunca havia pensado nisso e nem sei se confere de fato... Romita Jr. tenha se reinventado de maneira tão efetiva visando a interação ideal com a narrativa de Nocenti. Acredito mesmo que ele tenha empreendido uma busca pela química perfeita entre suas imagens e o texto dela - deixando pra trás a influência paterna inicial (wow) para descobrir sua verdadeira ID artística, o que resultou numa das melhores parcerias dos quadrinhos, merecedora de TPB's, sketch-books e edições especiais ad nauseum (alô Panini!).

Segue abaixo a história da treta de Murdock e Parker versus o vilão de coração negro. Scans by me.


Peter Fisto: Easy Rider from hell
Sinceramente, tento não esperar muito da adaptação de Motoqueiro Fantasma - onde também estrearão na telona o papai Mefisto (ou Mefistófeles) e Coração Negro (Jr). Apesar dos ótimos previews, teasers e trailers, o figura Mark Steven Johnson sempre será o diretor do decepcionante Demolidor. Mas, olhando pelo lado positivo, grande parte das deficiências que deram as caras em Demolidor (sem trocadilho) serão contornadas pela natureza e poderes sobrenaturais do personagem-título. E o cast é bastante animador. Além de Nicolas "droga-eu-queria-mesmo-era-o-Superman" Cage, também tem o meu tio Sam Elliott, o sempre promissor Wes Bentley, a instituição harley-davidsoniana Peter Fonda e a explosively hot Eva Mendes.

E não sei até que ponto se pode confiar nas declarações do diretor, mas que elas são instigantes, isso são: "Coração Negro é mostrado no que eu considero sua 'forma humana' na maior parte do filme. Mas ao longo da história nós recebemos dicas do que existe debaixo desse disfarce. No clímax descobrimos seu eu verdadeiro - e ele é horroroso. Haverá um pouco do visual clássico da HQ adicionado de alguns elementos de horror".

Mefisto te abençoe, meu filho. Motoqueiro Fantasma estréia nos EUA em 16 de fevereiro. No Brasil, dizem que será em 02 de março.

Na trilha: Paradise Lost, One Second Live.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

NERDS TAMBÉM VENCEM


Invejo pessoas que conseguem, do nada, inventar estórias que prendem a atenção. Claro, não são inventadas exatamente do nada. Se não forem inspiradas por outras leituras, são minimamente inspiradas em suas histórias de vida, mas ainda assim acho admirável conseguir construir um ambiente auto-suficiente, com um mínimo de originalidade, seja nos elementos e seu encadeamento ou a simples forma de contar algo que até já existe. Invejo mais ainda aqueles que não se bastam em contar aquela estória, mas acabam criando uma mitologia própria, com suas leis, sua ordem, sua lógica particular; dão seu nome a um universo. Conhecia poucos que fizeram isto e conseguiram reconhecimento legítimo: Tolkien e George Lucas são expoentes mais óbvios, mas temos ainda, em escopo menor, Monteiro Lobato. Estes exemplos são diferentes do universo de Star Trek e Nárnia, por exemplo, já que o primeiro não foi idealizado por uma pessoa e o segundo é mera derivação do que já existia. Em paralelo, há diversas outras publicações que, se não conseguem criar uma mitologia propriamente dita, ao menos seguem um encadeamento temático que reforça um gênero, como as do Guia do Mochileiro das Galáxias, Fronteiras do Universo e outras.

Pois bem, na virada deste ano fui apresentado – mui tardiamente – a mais um destes caras admiráveis. Orson Scott Card. O nome, quando li, não me era estranho, mas não consegui lembrar de nenhuma referência boa ou ruim de seus livros. Quando me foi oferecido o primeiro, O Jogo do Exterminador (Ender’s Game, 1985, 380 páginas), olhei para a capa – um desenho infantilóide um tanto quanto inadequado ao conteúdo – e pensei “Poxa... já passei da idade de ler livros da coleção vagalume”. O título brasileiro igualmente infanto-juvenil e a sinopse também não ajudaram muito, mas aí a culpa era minha mesmo, já que, sei lá por quais motivos, achei que tinha um ar de Guia do Mochileiro das Galáxias e, perdoem-me os fãs, acho aquilo extremamente chato. Ninguém que eu conheço tinha qualquer referência do livro, mas sou adepto da idéia de que prefiro me arrepender por algo que tenha feito do que por deixar de ter feito. Grata surpresa! Mesmo que o tema não tenha um tiro certeiro nos meus gostos, é inegável que a leitura fácil e bem arrumada, aliada a uma trama que transborda em referências, metáforas e sub-conceitos, atrai a atenção e consegue dar aquela a vontade de chegar logo ao fim.

O livro é ambientado em um futuro indefinido, onde o mundo experimenta um período de paz interna forçada e controle de natalidade, enquanto vive sob o constante receio de ser invadido por uma raça alienígena. Duas tentativas de invasões ocorreram no passado e a iminência de uma terceira faz com que busquem pessoas capazes de fazer a diferença na condução da esquadra estelar terrestre. Com isto, passam a peneirar crianças superdotadas que apresentem as características que encaixem no perfil desejado, caso do protagonista Ender Wiggin, uma criança de 6 anos.

O livro já tem 25 anos e contando. A literatura, aliás... a cultura de ficção científica ao longo deste tempo esgotou uma série de possibilidades que, hoje, fica difícil dizer quem influenciou quem e, mais importante, quem teve a sacada original. Meses atrás, conversando com o Doggma, comentei ter visto na véspera Duro de Matar e achava, depois de tantos anos desde que vi pela primeira vez, que o filme era uma sucessão de clichês. Ele retrucou dizendo que, na verdade, não era uma sucessão de clichês, mas a criação deles. Na época, aquilo era original. Isto muda muito o impacto que a estória tem para quem lê/vê. Não digo que O Jogo do Exterminador é uma compilação de fórmulas, longe disto, mas algumas das soluções apresentadas ao longo do livro parecem fáceis, simples, sem muita elaboração, o que não quer dizer que sejam triviais. Apenas não surpreendem em alguns momentos. Mesmo assim, paradoxalmente, percebe-se que Card tenta fugir de algumas situações-padrão, o que pode ser resultado das revisões que o texto recebeu desde que era um conto publicado em uma revista, até se tornar um livro completo. Em dado momento, achava que Card se perdia ao dar um comportamento e texto adulto para uma criança de 6 anos - não entrarei no mérito de superdotados portarem-se ou não daquele jeito - , mas depois percebi que a opção não foi mero elemento de roteiro. Ao optar pelo uso de uma criança, o livro atinge em cheio o público infanto-juvenil e seus conflitos, mais especificamente os daqueles jovens que têm algum tipo de sentimento de solidão, segregação. Entretanto, o comportamento e linguagem mais madura sem ser rebuscada (com concessões pueris óbvias, como o nome dado aos alienígenas) deixa a porta aberta para o público mais maduro e de mente aberta. Neste ponto, Card consegue ser minucioso em alguns detalhes. O nome do personagem, Ender Wiggin, tem algumas interpretações livres. Ender é quase um anagrama perfeito de “Nerd” e Wiggin tem sonoridade semelhante a “Winning”. Mas Ender é ainda uma brincadeira com “End” e “er”, partícula que, em inglês, denota autor de uma ação. Assim, Ender seria um Terminator, um Nerd Exterminador até no nome. Que criança solitária não encontra conforto em se ver ali?

A minúcia de Card não pára aí. É conhecimento tácito que o grupo de elementos que fazem um veículo cultural invadir a seara da aceitação popular é bem definido, e certamente o mix de conspiração política, ação seqüencial, simbologia religiosa e experimentações com comportamento humano faz parte deste grupo. Conferiu a Ender significado bíblico, messiânico, o que é pule de dez no mercado editorial de seu país, ainda mais se considerar que Card é mórmon e missionário, já tendo morado no Brasil na década de 70. Coloca então a política de 1985 a seu favor, moldando o Pacto de Varsóvia a serviço do enredo sem que, hoje, pareça datado. Ao entrar pelos meandros da política e Estado Militar, traz no bojo a questão da brutalização da infância em exércitos. Mais atual que isto, impossível. Não deixa também de usar um sem número de elementos e significados que tornam óbvio o uso do livro em debates filosóficos. Não fosse por LOST, pouca gente comum dos dias de hoje saberia quem foram John Locke e Desmond David-Hume, mas os arquétipos de ambos são usados no livro, fazendo a união da política, do abuso infantil, e do Escolhido de forma natural e, certamente, com inteligência. Não fosse o simples desenrolar do enredo suficientemente interessante, o uso destes elementos tem mérito por despertar a curiosidade do leitor acerca de fatos e pessoas, o que é sempre algo valioso e caracteriza grandes escritores.

Isto tudo não é suficiente para que se possa dizer que ele construiu uma mitologia. Vale mencionar, o enredo pula etapas e passa superficialmente demais por outras onde um maior aprofundamento seria bem vindo. No começo achei que seriam falhas narrativas, depois percebi que eram deixas propositais para seqüências. E elas existem. Depois de Jogo do Exterminador, que ganhou os principais prêmios da literatura de ficção científica, Orson lançou O Orador dos Mortos, Xenocida e Os Filhos da Mente. Mais recentemente retomou a “franquia”com uma série paralela com Ender’s Shadow, Shadow of the Hegemon, Shadow Puppets e Shadow of Giant, todos com boa repercussão nos EUA. Esta produção forjou o termo Enderverso, onde toda uma dinâmica, física e ordem particular existem e são estressadas a ponto de ganharem solidez. E isto sim me dá motivos para dizer que ele criou uma mitologia. Agradeço ao Carlos por ter dado esta oportunidade de leitura.

Como não poderia deixar de ser, há previsão de O Jogo do Exterminador ganhar versão para o cinema em 2008 pelas mãos de Wolfgang Petersen. Este não é o primeiro contato de Card com o cinema. Ele novelizou o roteiro de Segredo do Abismo (era daí que eu conhecia o nome!).

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

PÁGINAS DA VIDA


Como transformar uma causa nobre em filme de Hollywood? Perguntem a Edward Zwick. Ele sabe. E não estou depreciando esta “sabedoria” ao afirmar isto. De certa forma, o cara pode até ser conscientemente sábio. Afinal, não tenho dúvidas que Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006, EUA) vai ter muito mais audiência do que um Hotel Ruanda da vida jamais sonhou ter. Resta saber se a massa vai pegar o impacto das questões do pano de fundo ou só vai lembrar que Jennifer Connelly é gostosa até mal vestida. Estaria sendo tendencioso ao tomar só este filme como parâmetro, mas uma olhadela no IMDB deixa ver que, além deste, Ed dirigiu O Último Samurai, Coragem Sob Fogo e Nova York Sitiada, entre outros. Sou sincero ao dizer que realmente não lembro bem dos dois últimos, a não ser por NYS ter sido rotulado como filme-Mãe-Dinah ao prever o 9/11. Já n’O Último Samurai, fez a festa com liberdades criativo-poéticas na sua visão da sociedade japonesa do século passado, com direito a Tom Cruise pegando viúva de samurai e o escambau. Se isto não é Hollywood’s Delivery, então eu não sei o que é.

Mas péra lá... o filme é ruim? Claro que não. O Último Samurai também não era, mas meu lado meio purista (nestes casos) deu lá suas reclamadas ao entender que a oportunidade panfletária é boa demais para o maniqueísmo e a fórmula padrão blockbuster. A impressão que dá é a de que um roteirista refugiado de Serra Leoa ofereceu seu script num McDonald’s de Los Angeles e o atendente gritou: “Zwick, pede ao Charles (roteirista do filme) para fazer um McScript nº4 neste aqui.” Tsc...deixa eu parar de reclamar, já que me diverti pacas assistindo.


Diamante de Sangue acontece no fim da década de 90, quando os conflitos na África moldaram esta idéia que a gente tem de “África” como a definição completa de um local, ao invés de um conjunto de países independentes. Não bastando as diferenças tribais, tem ainda a exploração que o “mundo civilizado” faz dos recursos locais. No passado já foi a borracha, petróleo etc. No momento apresentado, eram os diamantes. A Guerra Civil come solta e os dois lados, governo e rebeldes, são bancados pelos comerciantes das jóias. No meio deste ambiente conturbado temos Solomon Vandy (Djimon Hounsou) sendo afastado de sua família e escravizado nas minas de diamantes, quando os rebeldes tomam conta do lugar. Na mina, ele encontra um diamante do tamanho de uma amêndoa, 100 kilates, mas um conflito se inicia e ele o esconde. Entra em cena Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um mercenário do Zimbábue¹ descrente da utilidade de conceitos morais que ouve falar do diamante e passa a caçá-lo para conseguir sua paz fora daquele continente. No meio do conflito, surge a jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), candidata a catalisadora da provável redenção moral de um e do reencontro com a família de outro.

A despeito da narração inicial, que destaca a ausência de mocinhos em guerras civis como esta, o resto do filme coloca a pecha de vilão nas costas dos infanto-rebeldes-que-ouvem-hip-hop, enquanto o governo posa de mantenedor da ordem. O terceiro elemento é o interesse estrangeiro e a carga moral que move a trama, ou seja, a dondoca que compra a jóia sem se preocupar com a origem da mesma e o executivo que só visa o lucro e banca o conflito. Há de convir que um plot destes é álcool o suficiente criar um roteiro de pegar fogo e dar tapa na cara de espectador, mas a coisa é diluída em litros e litros de ação rambesca e transforma alquilo que tinha potencial para ser uma bagaceira de arrancar tripa em uma Smirnoff Ice. Curioso como, em dado momento, temos uma espécie de metalinguagem, quando Maddy diz que não sente muito futuro no que faz, já que as notícias que consegue ali, longe de ter o impacto que deveriam, vão passar no jornal da noite entre a parte de esportes e o escândalo da última celebridade. Realmente a sociedade não leva o assunto a sério, assim como o filme, mas Joaquin Phoenix conseguiu melhor impacto com frase parecida em Hotel Ruanda.


Às vezes o roteiro se lembra que o background em tela é pesado e volta a tratar o assunto, mas logo depois esquece e volta à ação que diverte e desperdiça. Nesta salada, destaco a seqüência que mostra a guerra civil comendo solta na cidade, quando a câmera nos leva em vielas apertadas e dá a impressão de desespero mesmo, como se estivéssemos vendo tudo numa seqüência de flashes.

Destaco também as atuações. Djimon, como sempre, está ótimo. Seu papel tem peso enorme e ele o carrega com facilidade. Não sou pai, não consigo sintetizar o que alguém que vivesse aquilo poderia sentir naquele caso, mas deve ser realmente um sentimento pungente. Já Jennifer, não acho que seu papel teve lá muita exigência. Assim, posso dizer que ela foi competente. Não é culpa dela se o roteiro a colocou numa situação que não tinha como passar sentimento verdadeiro, assim como não é culpa de DiCaprio ter que parecer canastrão em algumas seqüências.


Recentemente, em um grupo de discussão, foi debatido sobre quem seria melhor, Pitt ou DiCaprio. Lembro ter dito que reconhecia a qualidade do trabalho deste último, mas o problema é que a cara de moleque dele tirava toda a credibilidade da atuação. O rosto de porcelana caia muito bem em Prenda-me se for capaz e Titanic, sem entrar no mérito da qualidade dos filmes, mas não tinha como sentir que um "moleque" tinha o poder e a autoridade de um Howard Hughes. Não tinha como sentir que um "moleque" tinha a obstinação e a garra de Amsterdam Vallon. Não tinha. Agora tem. Finalmente o "moleque" conseguiu cara de homem. Umas rugas aqui e ali deram seriedade e aderência às palavras do ator. O sotaque e maneirismos da África do Sul são... bem... nunca estive na África do Sul e nunca tive como conhecer seus costumes e comportamento, mas não tenho como negar que Leonardo construiu um personagem tridimensional. Ele tem passado, ele tem presente, ele tem vícios, ele tem costumes e tudo isto parece natural. Parece dele. E convence. Conseguiu até fazer uma troca de socos com Djimon parecer verossímil, coisa que, se acontecesse um ano atrás, o negão seria julgado por infanticídio antes mesmo de a porrada estancar. No entanto, mesmo com atuação impecável, o McScript nº4, seus clichês e soluções prontas dão um jeito de fazê-lo parecer um Stallone Cobra aqui e ali. Merece a indicação ao Globo de Ouro.

Seu eu lesse novamente meus textos, teria certeza que não ficaria muito motivado a ver Diamante de Sangue, mas não é o caso. Além de divertir, ainda serviu para informar à minha namorada que, infelizmente, não poderei comprar nunca um diamante para ela. Tenho agora que encontrar desculpas parecidas para outros objetos de consumo...


¹ - O Zimbábue foi colonizado pela Holanda, daí a caracterização da personagem.