segunda-feira, 16 de abril de 2007

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO HULK


Parece que a notícia do dia nos meios pop quadrinhísticos (quiçá cinematográficos!) foi Edward Norton embebido em radiação gama para o próximo filme do Hulk. Norton é um dos melhores atores de sua geração e sua presença neste projeto com certeza muda, e muito, a percepção geral sobre o que virá a ser o filme. O primeiro longa foi bastante criticado, principalmente pela intensa carga dramática conferida pelo diretor Ang Lee (não inesperadamente: ele cansou de repetir que faria uma "tragédia grega", nestas palavras) - do lado de cá, acredito que este primeiro momento foi absolutamente necessário antes de qualquer outra coisa.

Mas a história se repete - se antes a novidade insólita foi a toda-boa Jennifer Connelly, agora é a vez de Norton garantir uma atuação de alto nível e, porque não, ser um baita chamariz de público (principalmente após a moralzinha mais popularesca adquirida via O Ilusionista). Tomara que não seja pedir demais que La Connelly retorne ao cast, juntamente com o grande Sam Elliot. Eu até ajudo a pagar.

Se alguém tem experiência em dupla personalidade é Ed Norton. A primeira vez que vi o sujeito foi em As Duas Faces de um Crime, com Richard Gere estrelando. O thriller era meia-boca toda vida até seus dez minutos finais, quando é revelada a presença de um monstro gigante em cena. Quem assistiu o filme na época saiu atropelado. Na ocasião, Norton saiu recolhendo indicações - Oscar incluso - e prêmios a rodo (conta quantas vezes aparece o nome dele aqui). Já em Clube da Luta, seu alter-ego, o paranoid Tyler Durden, era uma força anti-sistema de caráter (auto-)destrutivo. E o Hulk não é nada mais que uma simbologia grotesca e per se deste mesmo conceito.

A verdade é que daí pode sair qualquer coisa (até mesmo o primeiro nuke da filmografia de Norton), mas ao menos há uma certeza: Bruce Banner nunca esteve tão próximo de seu sociopata interior.


No final de 2005, "todo mundo" foi aterrorizado pela imagem acima. Até então, só sabíamos que uma das tretas mais clássicas dos quadrinhos - Wolverine contra Hulk, gafanhoto! - ganharia sua versão no Universo Ultimate, onde tudo vale, tudo é permitido, de golpe abaixo da linha da cintura a dedada no olho. Mas ninguém estava preparado pra isto, for Christ's sake. Viajando pela web como parte de um preview da história, a força dessa imagem foi um trampo marketeiro de primeira linha. E reflete à perfeição o que é a Marvel Comics sob a gerência de Joe Quesada, para o bem ou para o mal. O fato é que a mesma foi o papel de parede de todos os computadores que usei na época. Já vinha em resolução 1024x768 mesmo. Fui fisgado legal, admito.

Aí saiu a primeira edição. A primeira de uma minissérie de seis. Fevereiro de 2006. Escrita por Damon Lindelof, co-criador e roteirista de Lost, e desenhada pelo excelente Leinil Francis Yu, de Superman: O Legado das Estrelas. Nada mal, hein. No mês seguinte (março, pra constar), houve um apagão e nada da revista. Tá, era bimestral. Beleza. Em tempos de Evil That Men Do, Daredevil: Father e Ultimates 2, a paciência virou a maior das virtudes. Em abril, ueba, lá estava a HQ seguindo seu curso na 2ª edição.

E foi a última vez que a vi.

Atualmente, Ultimate Wolverine vs. Hulk jaz em alguma geleira próxima daquela em que o Capitão América foi resgatado. Ou em algum ponto obscuro da ilha de Lost, onde nem os Outros se atreveriam a chegar. A história do atraso desta 3ª edição virou lenda urbana nos meios editoriais. Primeiro, ela foi re-solicitada para maio. Após, teve lançamento oficial agendado pra 12 de julho e nada aconteceu. Re-solicitada novamente para 9 de agosto, e na seqüência para 20 de setembro, 25 de outubro e, mais uma vez sem sucesso, para 27 de dezembro. Por fim, foi anunciado seu cancelamento provisório até que todas as edições restantes estejam completadas.

Eu nem ligaria se fosse, p.ex., o Aranha Ultimate de Bendis/Bagley. Mas o que acontece aqui é justamente o contrário. Ultimate Wolverine vs. Hulk estava se encaminhando pra ser uma das coisas mais divertidas publicadas nesta década. As duas únicas edições são um tour-de-force irresistível de humor negro e boas sacadas.


A premissa é aquela mesma juramentada e sacramentada pelo universo normal dos personagens - a SHIELD quer a cabeça do Hulk numa bandeja e vê em Wolverine a saída mais prática pra resolver a parada. A seqüência insanamente gore do Wolvie sendo partido igual Doritos vem logo nas primeiras páginas, já entregando a disposição monstruosa de Lindelof/Francis Yu. Depois disso, corta pra alguns dias antes, quando Nick Fury tenta convencer Wolverine... pensando bem, "convencer" não foi bem o caso.

Fury: "Você fará, Logan?"
Wolvie: "Yeah. Eu farei."
Fury: "Eu não tenho de ameaçar você? Te dar uma moto multi-milionária? Te oferecer um pedaço do seu passado misterioso?"
Wolvie: "Você disse que ele é durão. Vai ser divertido."

Nesse interím, o Hulk/Banner (que saiu vivo da execução termonuclear vista em The Ultimates 2 #03), fez uma excursão literalmente devastadora por vários países da Europa e acabou desembocando no Tibet atrás de paz interior. Como sabemos, o Hulk Ultimate é cruel até a medula óssea e seus acessos de fúria não perdoam ninguém. Só mesmo alguém da linhagem sagrada do Dalai Lama poderia ajudá-lo... no caso, este seria o Panchen Lama e é aí que eu paro porque a cena é hilária e não dá pra revelar mais.

No frigir dos ovos, a última coisa que nos resta é a esperança. Miremos no exemplo da lendária 13ª edição de Ultimates 2 que está aí, na boca do caixa, com shots descaralhantes de páginas óctuplas aquecendo a chama que existe em nossos corações. Raspas e restos me interessam. Não tenho dignidade, pois sou fã de HQs. E como Leinil Francis Yu não é de dar satisfações, vou de Ed McGuiness mesmo.




Na edição #50 de Wolverine, McGuinness e o irregularzão Jeph Loeb mandam um 'curta-metragem' bastante divertido, onde Wolverine relembra detalhes aparentemente não divulgados de seu primeiro encontro com o Hulk, logo na estréia do baixinho canadense.

A referência é clara e evidente. Leinil & Lindelof (parece dupla sertaneja) até constam nos agradecimentos, mas o modo como a história termina é particularmente sugestivo. Só espero que não seja uma alusão ao destino da mini.


Pelo menos, terei alguma distração durante a espera. Como a "batalha do século", por exemplo.



...que por acaso é revanche. Hulk já perdeu uma vez pro Raio Negro. Quero ver agora, no jogo de volta.




Se o novo confronto for tão sóbrio quanto este...


Edward Norton em Hulk 2... surreal.

segunda-feira, 26 de março de 2007

O INVENCÍVEL STARK


Depois de assistir The Invincible Iron Man (2007), tive a impressão de que o próprio Tony Stark anda dirigindo seu departamento de érrepê. Sem mais polêmicas sobre cachaçadas homéricas ou acusações de superfaturamento em cima da máquina de guerra texana - erros do passado que o humanizam perante a sociedade e lhe conferem agora até certo charme. O Tony Stark atual é a imagem do pop businessman calibrado para este iniciozinho de milênio. Uma cruza entre Larry Ellison, Howard Hughes e o Al Gore pós-An Inconvenient Truth com a vontade política que o cargo da Condoleeza Rice demanda. Vá passar por cima disso pelos canais oficiais.

Com passe livre pela Casa Branca e agora o frontman absoluto em todas as linhas de defesa, Tony Stark está em todas. Desmantela velhos símbolos e professa outros novos como se adicionasse um link no Favoritos da opinião pública. Mais que a fórmula mágica de Extremis, Stark injetou os Estados Unidos da América na veia. E o barato ainda está longe de acabar.

Pois toda esta reformulação no status-quo da Marvel (que terá reflexos durante o ano inteiro - quem aqui cria mega-sagas que não mudam nada, cara-pálida?) também teve seu devido impacto no novo desenho do Homem de Ferro. Não no sentido temático, não... mas na revisão de um super-herói tecnológico em atualização constante e nas analogias ao corporativismo, à globalização de assalto e ao Second Life-encontra-War que é o cenário geopolítico mundial. Se já não é, o Latinha, hoje, tem toda a vocação pra übermensch do Estado. Como visto na conclusão de Civil War, falta pouco pra chegar lá e o único limite parece ser o do elemento humano que existe debaixo de toda aquela parafernália de última geração. Ironicamente, Stark periga ser o seu próprio ponto fraco. De inferno pessoal ele entende bem e já pipocam indícios que a inevitável Queda se avizinha no horizonte.

Mesmo irregular, The Invincible Iron Man surpreende. De cara, é muito superior a qualquer longa animado que a Marvel já produziu, simplesmente por fugir daquele aborrecido standard animado - meio que desajeitadamente, mas foge. Consegue readaptar o rascunho minimalista que foi a origem do personagem, na esteira da Guerra do Vietnã (atualizada recentemente para a Guerra do Golfo). Provavelmente, os puristas renegarão a releitura, mas pensando bem... porque um purista perderia tempo com um personagem cuja maior característica é sua própria reinvenção?


Passado o espanto inicial, até que não ficou tão diferente assim. Só enxugaram a premissa (o famoso "cut the crap") e remodelaram algumas situações. Dos elementos tradicionais, Stark pessoa física continua tentando fazer do mundo "um lugar melhor" e o Stark pessoa jurídica ainda é a última palavra em lifestyle e commodities de tecnologia. Estão lá James Rhodes, amigaço do tipo que dinheiro não compra, e Virginia "Pepper" Potts. O Mandarim é o arqui-jurássico-vilão. De novidades, quem manda mesmo na Stark Enterprises é Howard Stark (o - ooopa - pai de Tony), o fiel escudeiro "Happy" Hogan sequer é citado, os vilões secundários são de uma milícia chinesa (rá! É claro!) e, aparentemente, chegamos muito atrasados pra festa das armaduras que Stark preparou. O legal mesmo é perceber que estas modificações deixaram a história muito mais dinâmica e verossímil.

O desenho começa mostrando uma grande escavação das empresas Stark em território chinês. A obra está sofrendo seguidos atentados terroristas de uma antiga facção chamada Jade Dragons, que reinvidica a retirada dos trabalhadores daquela área. Segundo uma crença local, uma profecia diz que o espírito do Mandarim, imperador da mais negra e sangüinária dinastia da História, está próximo de seu despertar. Num destes ataques, Rhodes e Tony, que foi mortalmente ferido, são capturados pelos terroristas e obrigados a fabricar armas de destruição em massa. Ao invés disto, Rhodes cria um suporte vital para salvar a vida de Tony e, juntos, desenvolvem a "primeira armadura" (aquela cinza metálica, à la Gort). Com equipamentos precários, eles garantem um poder de fogo limitado, mas suficiente para escapar do cativeiro.

Entre um fusível e outro, Tony acaba se envolvendo com uma bela insurgente chamada Li Mei.

Claro que o caldo acaba entornando e os Elementais, quatro guerreiros místicos leais ao Mandarim, são libertados durante o conflito. Cada um manipula um determinado elemento da natureza, e o objetivo deles é encontrar cinco anéis sagrados que estão espalhados pelo planeta. Estes anéis deverão ser utilizados pelo último descendente vivo do Mandarim para trazê-lo de volta à vida. Cabe a Tony Stark impedí-los, com a devida a carenagem do Homem de Ferro, enquanto resolve suas (muitas) diferenças com o Stark Sênior, escapa do cerco de uma desconfiada SHIELD e tenta salvar sua multinacional das garras de acionistas gananciosos.

Em outras palavras, serviço é o que não falta pro Latinha.


A maior surpresa, sem dúvida, fica por conta das generosas inserções em CG no ambiente 2D. Nada muito sofisticado: patinadas são freqüentes e o senso espaço-dimensional deve ter sido calculado sob efeito de muita erva do condado. Isso fica evidente nas quarenta vezes que H.d.F. é atirado pra longe e se espatifa no chão. Meio que sem querer, acabou conferindo uma sensação de imprevisibilidade e até certa coerência ao enredo, visto que Tony ainda está se adaptando à máquina. Este mix de animação tradicional com CG overdosado na tela ficou tão esquisito quanto atraente, como nas batalhas eletrizantes contra os Elementais dentro de um vulcão, contra uma legião de guerreiros de pedra (copy/paste do impressionante Exército de Terra Cotta) e contra um óbvio, maniqueísta e maneiríssimo dragão. Certamente, os melhores momentos no que tange à ação.

Também tenho de destacar a mão pesada dos diretores Patrick Archibald e Frank Paur. Apesar do desenho vir com suspeita classificação PG-13, não existe qualquer hesitação gráfica quando o pau quebra. Pessoas são assassinadas à sangue-frio aqui. Só na seqüência em que os Elementais arrebentam um túnel de metrô, morrem dezenas de homens, mulheres e, pasme, até um cachorro (matar cachorro no cinemão pop é impensável, num desenho então...), sem contar os infelizes que estavam dentro do trem. A cena da discussão de Tony com o pai é lavação de roupa suja da grossa, anos-luz distante daquelas xaropadas de matinê com lição de moral embutida. Há também nudez feminina sugerida, especialmente no final (e bem que podiam ter sido mais generosos ali).

Já as escorregadas ficam por conta de algumas falhas bestas na parte da animação tradicional (repare quando Pepper limpa uma marca de batom no rosto de Stark) e em vacilos escandalosos na continuidade (os óculos do Rhodey são ninja - confira no 1º ataque dos terroristas). Os agentes da SHIELD mais parecem os Intocáveis durante o reinado de Al Capone. O trauma físico sofrido por Tony é totalmente ignorado da metade pro final. E a ameaça dos Elementais em contraponto ao Latinha quase se restringiu ao equivalente da terra (um cover do Akuma, da série de games Street Fighter, com a grosseria de um Hulk), visto que os outros 3/4 do bando beiravam o estágio "bucha" de vilania.

Outro item discutível é sobre a maneira como o Mandarim se apresenta. Ficou inesperado e, sim, funcional, em concordância com sua natureza mística... mas sinceramente, detestaria se Jon Favreau aderisse à idéia.

Após esta análise toda - careta ainda -, uma dúvida persiste: ainda que não seja a Scarlett Johansson dos desenhos de super-herói, porque The Invincible Iron Man saiu tão bom? Algo me diz que é porque não teve nem um décimo do investimento em publicidade que os dois Ultimate Avengers tiveram. Estou quase certo disto. Só preciso de uma cerva gelando o bucho pra formular esta questão a contento.


Queria muito saber o que o cara do Âmago achou deste desenho.

segunda-feira, 19 de março de 2007

SOEM AS TROMBETAS


Já começou. Ashley J. Williams, Ash para os íntimos, os putrefactos Deadites e o "Ancião Livro Sumeriano dos Mortos", vulgo Necronomicon, voltaram a aterrorizar este plano da existência. Aliás, este plano não... outro, tão mórbido e apocalíptico quanto: o mundo zumbificado dos superpoderosos Marvel Zombies. É como se escancarassem os portões do inferno, vociferassem "tomem o que é de vocês... e não façam prisioneiros!!", e os pobres humanos ficassem contando aqueles minutos intermináveis que precedem a carnificina iminente. Este é o feeling desta primeira edição de Marvel Zombies vs Army Of Darkness, uma belezinha de crossover em cinco partes que junta a surpresa cadavérica de 2006 com a cria máxima de Sam Raimi. Fico feliz só em lembrar que tem mais quatro pela frente.

Talvez o maior problema que poderia surgir aí - uma eventual descaracterização de Ash [anti-herói por excelência] e dos elementos-chave de Army Of Darkness - foi sabiamente evitado pela qualidade do material escrito por John Layman, que acabou contando com a providencial assessoria do zumbiólogo Robert Kirkman (Zumbis Marvel, Os Mortos-Vivos, comparecendo aqui como consultor criativo - ou "recreativo", pois é evidente que o cara está curtindo muito tudo isso).

A arte também me preocupava um tanto, já que eu estava totalmente rendido à crueza tétrica de Sean Phillips em Zumbis Marvel. Mas o talentoso Fabiano Neves (de Americana/SP!) se mostrou uma escolha certeira, mantendo uma dinâmica eficiente e criando uma esperta variação do estilo clean de Greg Land, em particular nas expressões faciais.

A capa - uma adorável subversão slasher de Uncanny X-Men #141, edição da clássica Dias de um Futuro Esquecido - mais uma vez ficou a cargo do necromaster Arthur Suydam. É um espetáculo à parte.


A história é suculenta. Ash chega ao universo Marvel bem ao velho estilão fui-cuspido-por-uma-fenda-interdimensional, ativa o seu Politically Incorrect Full Mode (a primeira piada é até meio cruel) e se depara com um quebra-pau entre Demolidor e o super-vilão Maça, da Gangue da Demolição. Após interceder, em nome da Lei e da Ordem, a favor do Maça, Ash topa com o primeiro evil dead naquele mundo. A entidade demoníaca anuncia o fim de todos os seres vivos e dá uma boa pista do por quê nosso herói foi parar lá.

Percebendo que o tempo não tardará a fechar, o calejado Ash tenta se acostumar à idéia de que está num planeta lotado de "palhaços fantasiados" e imagina que até viria a calhar uma ajudinha turbinada contra o famigerado Exército da Escuridão.

Claro que não é tão fácil: o eterno predestinado bate na porta da mansão dos Vingadores, mas o máximo que consegue é arrancar algumas risadas do supergrupo. É quando chegam notícias dando conta que algo estranho está acontecendo no centro da cidade...

O roteiro bem sacado de Layman revela vários trunfos escondidos na manga. Traz, inclusive, vários detalhes novos sobre a mortificação generalizada vista em Zumbis Marvel - a história aqui é ambientada antes mesmo da estréia dos zumbis-marvetes em Ultimate Fantastic Four #21 (publicada no Brasil em Marvel Millennium Homem-Aranha #56). Neste sentido, é o que parece ser o ponto alto da série. Principalmente em cenas pra lá de intrigantes, como uma em que um determinado herói é apontado como sendo o primeiro da prole maldita. Ou mesmo insinuando que este foi o causador de todo o megadeath living-dead.

Nada é explicado efetivamente, mas é sugerido que as próximas edições reservam algumas reviravoltas bem interessantes (além da pororoca de sangue e vísceras!). O certo é que o que está acontecendo aqui é absolutamente empolgante e, além dos méritos próprios, Marvel Zombies vs Army Of Darkness é um saboroso aperitivo para o banquete que será Marvel Zombies: Dead Days, projeto de volta com Kirkman/Phillips, que promete dissecar esta desgraceira toda.

Agora deu até fome.


Uma última raspinha de miolo neste crânio:


"...seu nome era Morte e o inferno o seguia"

O ótimo remake Madrugada dos Mortos, dirigido por Zack "Trocentos" Snyder, inspira opiniões bem antagônicas. A grande maioria relacionadas à simples falta de empatia com o gênero imortalizado por George A. Romero. Outras, mais passíveis de discussão, reclamam da ausência das críticas sociais constantes no filme original - aqui limadas no processo de adaptação.

Seja como for, a intro é território neutro. Ou deveria. Com um clima de desordem social e pesadelo urbano, a abertura do filme tem como trilha a canção "The Man Comes Around" - um pequeno e aterrador vislumbre do Apocalipse, segundo o man in black Johnny Cash (*1932 †2003). Não poderia ser mais adequado.


O dia que um cavaleiro chamado Morte cruzar o seu caminho, saia correndo. O inferno vem logo atrás dele!

sábado, 17 de março de 2007

domingo, 4 de março de 2007

DIRETOR FANTASMA


"Spawn was much much better than this". Essas palavras calaram fundo na minha mente quando li o review do Harry Knowles sobre Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007). E ele estava lá, desfiando passionalmente sua fúria fanboy-mor em cima de mais um suposto desperdício de um bom personagem dos quadrinhos. Analisando friamente, nada de novo até aí, visto que o diretor é o mesmo Mark Steven Johnson, do meio-médio-ligeiro Demolidor e responsável por uma nova enfermidade chamada transtorno obsessivo-compulsivo de Elektra*. O mal de Johnson é muito peculiar. Ele soa como se fosse um subproduto de Paul W. Anderson (de Aliens vs Predador), que por si só já é um subproduto de diretor-operário. A ironia é que Johnson tem boas idéias conceituais (Demolidor mesmo tem várias delas), mas as anula uma a uma impiedosamente em lances de absurda previsibilidade. Pra piorar, não parece ter a mínima intimidade com diálogos inspirados ou roteiros bem amarrados. E neste filme, além de dirigir, ele adapta e roteiriza... ou seja, Motoqueiro Fantasma é 100% Mark Steven Johnson, um cineasta 25%.

De qualquer modo, o filme é bastante fiel à premissa dos quadrinhos e condensa tudo que o Motoqueiro tem de melhor. Seu alter-ego é o motoqueiro Johnny Blaze com a roupagem e os poderes do motoqueiro Daniel Ketch. Nicolas Cage finalmente conseguiu o tão sonhado papel de super-herói e não faz feio no que lhe diz respeito. E a história é aquele mesmo causo faustiano contado na Marvel Spotlight #5, só que mais enxuto. O jovem Johnny (Matt Long) e seu pai, Barton Blaze (Brett Cullen), fazem um espetáculo com acrobacias em motos. Nas horas vagas, Johnny encara outro espetáculo, de nome Roxanne Simpson (Raquel hhhmmm Alessi). Um belo dia, ele descobre que seu velho pai tem câncer e está em fase terminal. É quando aparece o boitatá-de-Armani Mefisto (Peter Fonda), com um providencial contrato debaixo da asa. Sem maiores espiritualidades, Johnny vende sua alma pra aprender a tocar guitarra... digo, salvar a vida de seu pai do mal irremediável. Desse mal irremediável, melhor dizendo, pois o mesmo empacota na primeira manobra arriscada de sua apresentação, configurando aí uma autêntica sacanagem dos diabos.

Amargurado, Johnny cai na estrada e embarca numa carreira-solo bem sucedida, mas vazia. Os anos passam e ele reencontra seu antigo amor, Roxanne (já esculpida com as curvas de Eva Mendes), que, óbvio, virou jornalista. Como esmola demais o santo desconfia, Johnny também recebe a desagradável visita de Mefisto – o ser mega-satânico está reivindicando sua parte no contrato para conter a rebeldia de seu filho, Coração Negro (Wes Bentley).


Um grande mérito foi manter intacta não só a presença cavernosa do Motoqueiro, como também a enorme extensão de seus poderes - o personagem é muito poderoso, mesmo para os padrões super das HQs, e isto é claramente demonstrado aqui em diversas situações. Seu vozeirão gutural ficou ótimo, de meter medo em vocalista de death metal. Rola Crazy Train, do Ozzy. O maneiríssimo Olhar da Penitência está lá também. E quando seu "uniforme" fica totalmente caracterizado, com os vinte quilos de couro preto, corrente atravessada e espinhos metálicos, bate até um certo regozijo nerd. Nem o Homem-Aranha foi tão justiçado. Outra boa sacada foi o background sintético do Blaze pré-Motoqueiro. Ficou tudo mais ágil e marcante. Nos quadrinhos, a trajetória do rapaz (que era adotado) é um dramalhão texano daqueles. E uma vez mais, Johnson prova que, tirando alguns poucos Aflecks, é certeiro no que tange à escolha do elenco. Além do easy rider Peter Fonda, também tem meu tio Sam Elliott num papel que, fora ele, apenas meu outro tio, Clint Eastwood, poderia personificar com tal foderocitude, son. Rrrc. Cusp.

Parece bom, né. Mas não é bem por aí não. Johnson ainda continua matando seus bons rompantes com a frieza de um serial-killer, e a partir da segunda metade, ele o faz com talento ímpar. É aí que eu entendo melhor a fúria Knowlesca: o cineasta parece se esmerar para garantir que o produto final seja milimetricamente razoável e nada mais, mesmo com todas as condições favoráveis para deslanchar (o extremo oposto de Bryan Singer, na época do 1º X-Men). Johnson assume a ponta sem grandes dificuldades, mas aperta o freio bem no meio da curva. Essa atitude irrita mais do que se o filme fosse uma pilha de merda fresca.

Em Motoqueiro Fantasma existem momentos de puro vazio contextual. Não raro o personagem, com todo aquele visual dark hardcore, "trava" em cena e não diz a que veio, e quando diz não tem a menor importância - é impossível lembrar das falas do Motoqueiro segundos após as mesmas. Fonda e Elliott não passam de coadjuvantes de luxo – Elliott então, é praticamente despejado do filme em uma última cena cheia de buracos na lógica (não podia só ter pego carona na moto pra poder ajudar mais?). Já Coração Negro tem um poder com um efeito sinistrão, mas passa o filme inteiro se utilizando de seus assistentes – demônios buchas que representam as forças elementais. Cage, por sua vez, insiste em apontar o dedo em riste, ficar uma eternidade em silêncio pra finalizar dizendo alguma pasmaceira óbvia – maneirismo canastrão repetido ad nauseum (de quem terá sido a idéia...). Isso pra não falar na fixação do personagem por Carpenters e balinhas de jujuba (!!).

A apenas quinze minutos do final, eu imaginava se uma boa briga entre o Motoqueiro e Coração Negro não resolveria a parada. Sim, resolveria. Mas Johnson já tinha jogado a toalha há quarenta minutos atrás. Imagine o Deacon Frost, vilão do 1º Blade, com as mesmas motivações e planos para dominação do mundo, mas sem a luta final. Este é Coração Negro, que, por sinal, não tem nada demais em sua forma verdadeira, à despeito das declarações exageradas do diretor.

Um ano de pós-produção pra isto. Estou impressionado.


Parabéns Johnson, você conseguiu. Motoqueiro Fantasma é o filme mais mediano dos últimos tempos. Pelo menos rendeu aquela simulação em flash no site oficial.

Ah, mas eu não tenho webcam... tsc.


A propósito, um breve adendo:


Nicolas Cage já topou com um motoqueiro dos infernos, certa vez. Tal de Leonard Smalls, motoqueiro solitário do Apocalipse... ou algo que o valha.






Puxa vida, aquele cara era bem durão para uma metáfora.


Parabéns Eva Mendes. Beijão na boca!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

ULTIMATE CHICKEN LITTLE


Os Supremos 2 (Ultimate Avengers 2: Rise of the Panther, 2006) é uma boa oportunidade para testemunhar as misteriosas forças da Lei de Murphy em ação. Assim que terminei de assistir, deu vontade de arquivar o DVD numa pasta de evidências e aguardar pelas edições dos Supremos na versão de Jeph Loeb e Joe Madureira. Impressionante como tudo anda conspirando contra, de uns tempos pra cá. É o verdadeiro Pesadelo Supremo. Vou ficar fazendo gênero não: esta segunda adaptação animada dos Vingadores Ultimate é fraquinha com gosto de gás. Pior que cerveja miada. Mas justiça seja feita, não foi propaganda enganosa. Os previews e teasers divulgados continham algumas cenas pseudo-violentinhas, mas no geral não transmitiam a ação vertiginosa e produção bem-sacada que se espera de um calhamaço assumidamente pop como esse. Isto aqui tinha de ser um desenho blockbuster dirigido Michael Bay, oras. Podiam até reaproveitar a malaquice imperialista de Bad Boys 2, Armageddon, etc.

O primeiro longa já era bastante convencional na estrutura, mas adotou as matrizes da HQ com uma fidelidade animadora. Por simpatia a isto, descontei a burocracia da narrativa e fiquei até esperançoso quando soube que a continuação estava sendo produzida logo na seqüência. "Talvez dêem um passo adiante, desenvolvendo as boas qualidades desta 1ª adaptação, aproximando o conceito da geopolítica hardcore dos quadrinhos e assimilando um pouco do senso de humor doentio do texto original. Nada muito radical, claro... não queremos traumatizar os molequinhos que acabaram de comprar a lancheira do Capitão Ultimate", pensei demoradamente eu, como se pertencesse ao staff de Os Supremos 2.

No fim, acabei me sentindo como o Rambo, quando foi abandonado pelo helicóptero de resgate em pleno território inimigo. Nada mais apropriado, aliás. Por vários momentos, Os Supremos 2 lembra a série animada do Campeão da Liberdade. Holy cow.


Adaptado por três, dirigido por dois e supervisionado por um, o desenho tem até uma boa seqüência de ação isolada com o Cap enfrentando alguns soldados da Hydra (cuja participação pára por aí mesmo). A maior parte da história se passa em Wakanda, reino africano ultra-avançado, rico em vibranium e governado por T'Challa, mais conhecido como Pantera Negra. Wakanda está sofrendo sistemáticos ataques dos alienígenas Chitauri remanescentes do primeiro desenho, o que leva o Pantera a solicitar ajuda a SHIELD e, por extensão, dos Supremos. O interessante é que nos quadrinhos não existe uma versão ultimate do Pantera Negra e devido ao forte tom político do personagem, em tese, até seria uma boa idéia sua introdução neste universo. Mas conseguiram a proesa de estragar tudo.

Não só descaracterizaram completamente o herói ("pedir ajuda a SHIELD"... bah!) como também o reino de Wakanda, supostamente dona de uma tecnologia de anos à frente do resto do mundo. Visualmente, Wakanda parece uma civilização asteca cheia de máquinas terceirizadas extraindo o raríssimo vibranium. Uma reserva indígena cujos recursos naturais estão sendo saqueados por alguma gigante corporativa. Lembra tudo isso e não faz a mínima questão de parecer o contrário. Justamente o oposto do que o personagem e sua simbologia atual significam.

Só pra ficar na parte dos quadrinhos, o Pantera aqui tem poderes místicos ancestrais e pode se transformar em um "panteromem" - uma transposição direta do Coal Tiger (o príncipe T'Chaka II, filho de T'Challa no universo A-Next). Como se o herói original não fosse suficientemente atrativo. Ou, mais provável, como se não houvesse talento suficiente à mão para mexer com um personagem tão complexo.


O resto do super-time mantém o ar de tosqueira enlatada feitas às pressas. Os heróis são robóticos, desinteressantes, chatos e sem química alguma. Por Zeus, até aqueles guris enjoados do Capitão Planeta tinham química. A campeã disparada é a Viúva Negra. Se no primeiro desenho a atriz Olivia d'Abo nos presenteou com o sotaque mais canastrão da História Contemporânea, aqui ela eleva seu russíngrish a novos patamares. Impressionante. Já o Thor fanfarrão de outrora (quase um Hércules animado) perdeu toda aquela falastronice e senso de humor. Não satisfeitos em terem o transformado num bucha de primeira linha, ainda colocaram o cara pra jogar runas em Stonehenge como se fosse um pai-de-santo jogando búzios no Pelourinho.

Pra não dizer que ninguém se salva, os belos atributos da Jan Vespa Pym a deixaram com o pé mais na América Latina que na Ásia. E Tony Homem de Ferro Stark é de longe o mais carismático e faz a festa com brinquedinhos de última geração e armaduras de várias fases (o Máquina de Guerra em ação é muito bacana). Parece ser o único desenho com alma por lá.

O roteiro é de lascar. Bruce Hulk Banner é desperdiçado até a última célula gama e Herr Kleiser é outra vez o vilão. Avemaria. Naves aliens com design de insetos, um campo de energia cobrindo o planeta (Manual da Invasão Alien, capítulo 5), Kleiser se transformando num monstrengo gigante na seqüência final (capítulo 3), enormes pods atacando os grandes centros (prefácio)... Qualquer episódio de Defensores da Terra dá de 10 nesta clicherama empilhada. Nem a morte de um dos mocinhos causa impacto após 73 minutos de letargia criativa.

No geral, bocejei tanto que quase desloquei a mandíbula. A vida é assim mesmo. Uns escrevem um texto sensacional sobre uma animação maravilhosa, outros se sujeitam a roubadas como Os Supremos 2.

Mas fora o alívio dos créditos finais (em todos os sentidos), existe alguma razão para conferir este disco? Ooh, temo que sim, caro padawan...


Não perca tempo e vá direto aos extras, na parte "Quem são os Supremos?" Lá, o escritor Mark Millar e o artista Bryan Hitch dão uma geral no processo criativo dos volumes 1 e 2 dos Supremos. Quem considera os Vingadores Ultimate o melhor quadrinho desta década, eu diria que é, bem... não consigo me decidir entre "obrigatório" e "imperdível"... E quem apenas curte quadrinhos em geral, a importância disto aqui é praticamente a mesma - os comentários do editor-chefe da Marvel, Joe Quesada (maior jeitão de fanboy metido e que não empresta revista), as frases sempre políticas do editor Ralph Macchio (realmente não é o Daniel-san) e do producer Avi Arad tornam o semi-documentário um Roda Viva de quadrinhólogos numa troca de idéias e impressões que não se vê todo dia. Não neste nível tão avançado. É só fera.

Claro que é um deleite ouvir Millar e Hitch destrinchando cada personagem, cada inspiração, motivação e conhecimento de causa, com uma montagem entrecortando os melhores momentos da revista. No entanto, o momento principal e o que fez valer-valer-valer a assistida, não poderia ser outro. Nas palavras de Millar:


"Há uma cena no Volume 1 na qual o Capitão América, que tem um grande "A" de América na testa, está batendo num vilão no final, antes da explosão final,
e o vilão pergunta a ele: 'Quer se render, Capitão?' (...)"


...e aí o roteirista segue tentando analisar toda a polêmica com uma cara-de-pau invejável (e piorando tudo, pois seu cinismo é mais palpável que muro chapiscado), Macchio botando panos quentes e Quesada grunhindo uma interessante variação de "shit happens". Mas o comentário mais impagável fica por conta de Hitch...

É... o Capitão Ultimate jamais será o mesmo.


Na trilha: Dawnrazor, Fields Of The Nephilim.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

STALLONE ROCKY


Em certo momento de Rocky Balboa (2006), um dos personagens, um comentarista esportivo, se empolga: "Nunca imaginei que um dia eu iria cobrir uma luta do Rocky!" Do lado de cá, eu dizia o mesmo em relação à ir ao cinema para assistir um filme da série (o ep. IV rolou num longínqüo 1985 e preferi não ver o desacreditado ep. V em 1990). Provavelmente, era este mesmo o recado que Sylvester Stallone - e seus diálogos são diretos como um gancho de direita, rá-rá - quis mandar: se você ainda não viu um Rocky movie devidamente acomodado em uma sala escura, com todos os acessórios refri-pipoquísticos, e com a geral indo ao delírio a cada punch desferido, esta é sua última chance. Sim, a série Rocky foi importantíssima a este ponto, sendo a catalisadora de papos de boteco por, no mínimo, umas três gerações.

Vejo cinéfilos xiitas - a-a-a-pleonasmo-tchimm - se contorcerem de desdém quando lembrados que Rocky, Um Lutador ganhou Oscar e o escambau. Que tirou Sly do gueto, alavancou uma franquia zilionária e foi um dos maiores símbolos do cinema pop. Que Bill Conti nunca foi tratado como um John Williams ou um Jerry Goldsmith, mas compôs um dos temas mais conhecidos da História. Que o boxe profissional ganhou uma legião de adeptos cujo primeiro contato com o esporte foram os catiripapos absurdos dos filmes. E que tudo isso tenha sido criado, medido e pesado pela balança ergométrica de Stallone.

Aquela estátua de bronze estava certa. Rocky Balboa é um ícone. Não tem erro. Além de personificar a figura do working class hero à perfeição, a saga do personagem é uma fábula perneta de superação às mazelas da vida e de amor ao esporte. E uma das maiores produtoras de clichês dramáticos e de ação dos anos mil novecentos e oitenta. Sim, a minha geração se rendeu diante do discurso populista e repleto de emoções baratas - sempre as mais eficientes - constantes em Rocky, a série. Porque Mick (saudoso Burgess Meredith) era uma figura paterna que emocionava pra valer, porque Clubber Lang era o sujeito mais execrável da face da Terra por desrespeitar Adrian daquele jeito ("ei mulher... quer conhecer um homem de verdade? Vamos pro meu apartamento"), porque o robô soviético Ivan Drago era assustador, porque eu também fiquei chocado com a morte de Apollo, o Doutrinador, porque Paulie foi um irresponsável por perder toda a fortuna do clã Balboa, porque Tommy Gunn foi um maldito ingrato por trair Rocky depois de tudo que ele fez, porque...

Bem, lá estava eu entrando na sala para assistir um Rocky. Era a minha última chance.


Na história, Mason 'The Line' Dixon (Antonio Tarver) é o atual campeão mundial dos peso-pesados. Frio, técnico e sem empatia com o público, Dixon atropela os adversários como um rolo compressor. Acusado de escolher apenas desafiantes de baixo nível e conferir uma pecha de impopularidade ao boxe, ele sente na pele que não basta ter o cinturão para ser um campeão. Esta é a metade da história a ser completada. A outra nos mostra Rocky, agora viúvo e dono de um simpático restaurante onde, além da saborosa comida italiana, ele serve histórias dos áureos tempos de ringue. Amargando a ausência de Adrian (num belo retrato do processo de luto), e atravessando uma crise de meia-idade pugilista, o Garanhão Italiano acaba surpreendido pela polêmica em torno de uma simulação computadorizada (ótimo CGI!) de um combate entre ele, no auge, e o campeão Dixon. E como todo grande lutador sempre tem uma última luta dentro de si...

Algumas subtramas são rabiscadas no decorrer do filme, sendo a de Rocky Jr. (Milo Ventimiglia, o Peter Petrelli, de Heroes) a mais relevante no contexto dramático. O cunhado e velho companheiro Paulie (Burt Young, um grande-graaaande ator, confiram em Transamérica) também está de volta, com o mesmo mal-humor e ranhetice.

Quem cresceu à base de reprises e eventuais locadas dos filmes da série, se prepare. Sly arquitetou um verdadeiro Balboa tour e vários elementos, citações e locações da série são (re)visitados ao longo da história. Até as tartarugas estão lá (e devem ser as mesmas atrizes). A maioria das referências foram calcadas no primeiro filme, mostrando que Stallone tem a exata noção do patrimônio que criou. Desde a lojinha de animais até o velho ginásio de Mick, passando pelos bares vagabundos e a paisagem industrial daquela Philadelphia decadente - a reverência à cidade que tanto significou para sua carreira rende alguns dos momentos mais poderosos do roteiro (é isso aí... o cara que um dia foi o Cobra escreveu palavras poderosas). Sly insere até um inequívoco bom humor para suavizar a melancolia deste semi-flashback (sai Eye Of The Tiger, entra Somebody Told Me, do The Killers). Sem contar a excelente sacada que teve ao resgatar um dos personagens do filme original. Chega a dar uma fisgada no cérebro.

E os elogios não páram por aí. Na contramão dos filmes anteriores, Sly acerta em cheio em não demonizar Dixon. Ao acompanhar sua busca pessoal dentro do esporte, ele humaniza o personagem e cria uma expectativa por superação e redenção equiparável à do próprio Rocky. É quando chega a aguardada luta entre gerações e você sabe que está lá no cinema assistindo um Rocky sem ter idéia do desfecho... que é de arrepiar.


Com sua longa experiência e o dom de rir de seus erros, Stallone faz de Rocky Balboa uma metáfora de sua própria trajetória, além de se despedir dignamente de seu melhor personagem. Rocky Balboa é filme-celebração. E também uma justa homenagem a todos os atores que abraçaram a série e, principalmente, aos fãs que jamais abandonaram o velho Olho de Tigre desde que ele se reergueu primeiro naquela batalha épica contra Apollo Creed.

Mick ficaria orgulhoso.



ROCKY - BALBOA

A trilha oficial é uma compilação daqueles hinos que todo mundo já conhece. Vai ser empolgante assim lá em Ibiza. Fora os standards clássicos do Bill Conti, tem o Survivor em dose dupla, o James Brown pasteurizado de Living In America, as bagaceiras oitentistas e divertidas pra chuchu de Robert Tepper e John Cafferty (habituée daquelas trilhas da Souza Cruz) & us mano do Three Six Mafia dando um rolê num Opalão tunado.

Só não deu pra entender a ausência de Take You Back, aquele do-woop cool do primeiro filme que rolou até no trailer.


Na trilha: Adriiiaaaaaannnn!! :P