
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
A day at the races

Certa vez me atrevi a jogar umas partidas de dominó com uns coroas numa espelunca com cerveja a preço de custo. Até ali, pra mim, o inocente joguinho era apenas um entretenimento evasivo, motorizado pela sorte. Ledo engano. Os amigos, todos profissionais de boteco 24/7, sabiam quais peças eu tinha, quais eu precisava e quais estavam no banco. Isso já na primeira rodada. Particularmente irritante era o hábito que tinham de "adivinhar" com qual peça eu iria jogar. Mais ainda, me forçavam a jogar as peças específicas que eles queriam, me fazendo afundar no banco. A carroçada foi inevitável. Graças a Deus não era a dinheiro e aqueles camaradas não eram da máfia russa. Claro, depois fui saber que existem várias modalidades de jogo, estratégia, uma matemática aplicada simples e que eu era um peregrino numa terra pagã.
É um universo com uma física à parte e duas leis soberanas: nada é o que parece e sorte é a gente que faz. Isso se estende por outros jogos de forma mais evidente, como no pôquer, ou quase totalmente insuspeita, como nas apostas em corridas de cavalos. Pelo menos, foi isso que vi no piloto de Luck. Uma completa desmistificação.
As credenciais impressionam. Luck é a nova série da HBO. No elenco, Nick Nolte, Dennis Farina, John Ortiz e Kevin Dunn. Dustin Hoffman protagoniza e produz. O piloto foi dirigido por Michael Mann e escrito por David Milch (Deadwood), criador da série.
A trama acompanha um dia na vida de várias pessoas em posições radicalmente diferentes e todas interligadas por um grande esquema nas corridas. Hoffman faz um figurão do crime organizado recém-saído de uma estadia de 3 anos na cadeia e que agora volta à cidade para reassumir seus negócios. Farina faz seu motorista e assistente, talvez a figura mais próxima de um amigo. Pouco foi entregue sobre o amargo personagem de Nick Nolte, apenas que é um treinador veterano com um passado traumático envolvendo a morte de um cavalo campeão. John Ortiz, por sua vez, é dono de um estábulo e tem um cavalo de altíssimo rendimento, mas condicionado para correr mais devagar nas prévias (tornando-o assim um azarão de ouro pra quem tem a informação). E Kevin Dunn faz parte de um pequeno grupo de apostadores inveterados, do tipo que come, bebe e respira no hipódromo.
O piloto dá várias pistas sobre o que vem a seguir - e que provavelmente não corresponderá à expectativa de quem vê esse dream team cinematográfico. A trama não vem mastigada pra quem não conhece o mundo das corridas, a construção é lenta e metódica, não há qualquer alívio em termos de informação e o ritmo narrativo não faz média com o espectador. É roteiro de gente grande. E gente grande da velha escola. Uma segunda assistida se faz bastante oportuna, mas a premissa é cristalina no que quer entregar: apesar do nome, Luck não tem nada a ver com sorte.
O núcleo formado por Dunn é dos mais promissores - particularmente o personagem de Jason Gedrick (bem distante de seus tempos de Águia de Aço), um apostador de olho clínico que poderia ser um peixe grande, não fosse seu vício nas cartas. Dennis Farina está sensacional como sempre, bem como John Ortiz, um pilantra ganancioso de marca maior. Já Nolte, que novidade, passa a maior parte da história completamente impenetrável. Mas a velha raposa sabe o que faz. Assim que solta uma ou duas falas mais intimistas, traz de volta o espectador que estava quase desistindo de seu personagem, em velocidade de dobra. Timing elevado ao status de arte.
Quanto à Dustin Hoffman, me abstenho de qualquer análise. Não é pra mim. O que esse colosso faz em cena deveria ser isolado, estudado, catalogado e conservado em laboratório para as gerações futuras chegarem a um consenso razoável. Magnetismo irresistível, potencializado por uma carreira com um índice ridículo de concessões e equívocos. Quando ele fala, você cala a boca e presta atenção. Quando não, também.
A direção de Michael Mann é soberba, só pra variar. Com o recurso da ação bastante reduzida para seus parâmetros, o cineasta direciona suas lentes para as engrenagens do sistema. Num registro meio candid camera temos um intensivão de como flui o capital pelos bastidores. Quem são os incautos casuais que acham que aquele pode ser seu dia de sorte, quem são os apostadores que jogam pra ganhar e quem realmente ganha dinheiro ali, chova ou faça sol. O tom é de denúncia, em paralelo com o Oliver Stone de Um Domingo Qualquer, mas não fica só nisso. Nas cenas que antecedem as corridas e as corridas propriamente ditas, Mann chuta a lata e entra em seu modo cinemascope.
Nunca vi uma corrida de cavalos filmada desse jeito, in loco. As cenas são absolutamente eletrizantes, poderosas, viscerais. Eu diria até que são majestosas, em uníssono com a elegância absurda dos animais - o que é surpreendente pra mim, vindo de um esporte que não me dizia nada até a semana passada. A forte sensação de que aquilo realmente está acontecendo ali chega a ser desconcertante. O lugar daquelas sequências não deveria ser outro senão no maior IMAX 3D disponível neste planeta.
Um atrativo de peso que não sei se será repetido nos próximos episódios. Se não, pouco importa, ganhamos de qualquer jeito. Os dados já foram lançados. E Dumbledore está vindo aí...
Luck estréia no dia 29 de janeiro.
domingo, 1 de janeiro de 2012
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
"Drinks?"
Seguem os quatro episódios restantes da piração iniciada mês passado.
Nonsense, teu nome é Danger 5!
In their first mission together as a team, Danger 5 must stop the Nazis from stealing the world's largest holding of black diamonds, which are kept in the Swiss World Bank. Seems like a piece of cake... served with gas and punishment.
Danger 5 have scored themselves a free trip to the Bahamas, but it turns out this holiday package has hidden fees. Looks like Danger 5 will have to make a down payment in bullets.
After a quick round of Marconis at the Nassau airport bar, Danger 5 rendezvous with their Nazi liaison and embark on a road-trip to Göring's island getaway. However, Nassau roadways are a dangerous place and Danger 5 soon fall victim to the "Terror of the Streets" ...Italians.
In the final instalment of The Diamond Girls, Danger 5 go head-to-head with Herman Göring and his posse of invincible She-Nazis. Apes and trains ensue.
DANGER 5 WILL RETURN!!
ON SBS ONE!!
FEBRUARY 2012
Longer drinks, longer cigarettes, longer bullets, longer episodes!
If you can't watch SBS One, then please be assured we're working on bringing Danger 5 to a TV screen in your country. If not, there is bound to be a torrent out there soon enough... but if you want to support our work then buy the DVD as well!
Victory has a new name!
DANGER 5
www.danger5.tv
www.dinosaurworldwide.com
Depois dessa, só 2012!
Nonsense, teu nome é Danger 5!
In their first mission together as a team, Danger 5 must stop the Nazis from stealing the world's largest holding of black diamonds, which are kept in the Swiss World Bank. Seems like a piece of cake... served with gas and punishment.
Danger 5 have scored themselves a free trip to the Bahamas, but it turns out this holiday package has hidden fees. Looks like Danger 5 will have to make a down payment in bullets.
After a quick round of Marconis at the Nassau airport bar, Danger 5 rendezvous with their Nazi liaison and embark on a road-trip to Göring's island getaway. However, Nassau roadways are a dangerous place and Danger 5 soon fall victim to the "Terror of the Streets" ...Italians.
In the final instalment of The Diamond Girls, Danger 5 go head-to-head with Herman Göring and his posse of invincible She-Nazis. Apes and trains ensue.
DANGER 5 WILL RETURN!!
ON SBS ONE!!
FEBRUARY 2012
Longer drinks, longer cigarettes, longer bullets, longer episodes!
If you can't watch SBS One, then please be assured we're working on bringing Danger 5 to a TV screen in your country. If not, there is bound to be a torrent out there soon enough... but if you want to support our work then buy the DVD as well!
Victory has a new name!
DANGER 5
www.danger5.tv
www.dinosaurworldwide.com
Depois dessa, só 2012!
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
V de vigilância

"O povo não deve temer o seu governo, o governo deve temer o seu povo" - em 2011 essa máxima foi executada na prática em proporções quase surreais. Ditaduras de décadas desmoronando como castelos de areia, mobilizações populares organizadas via Facebook, informações sigilosas atiradas no ventilador com um simples tweet... Mas esta semana o mundo teve um exemplo ainda melhor de como andam as regras do jogo. Isso graças a um anão sociopata com delírios de grandeza e tesão por ogivas nucleares. É quase inconcebível nos dias atuais que a morte de um dos maiores tiranos do planeta tenha demorado dois dias para ser divulgada - e por canais oficiais, como manda o figurino do miniditador moderno. É uma vitória do fascismo nesses tempos de democracia Jobs-Zuckerberguiana. Estaria comemorando efusivamente, fosse eu viúva do Mussolini ou do Costa e Silva. Heil!
Como quase tudo na vida, a coisa não funciona em preto e branco. O ser humano tem uma verve fascista natural que aflora ao primeiro sinal de problema. É um traço perigoso que, felizmente, é controlável. E um autêntico guilty pleasure quando projetamos cenários "E se...?". Na cultura pop tem aos montes: Dirty Harry, D-Fens, Tropa de Elite, Star Wars, Juiz Dredd, Justiceiro e, um dos meus preferidos, 24 Horas. No universo de Jack Bauer não existe fair play. Limite é só mais um obstáculo a ser superado, todos são inimigos em potencial, os fins justificam os meios e nice guys finish last. Me vendi fácil. No vício por adrenalina eu queria mesmo era ver o circo pegando fogo.
Em minha defesa, o contexto de 24 não deixava espaço para hesitação, trâmites burocráticos e amenidades microscópicas, como ética. 24 era a série pop dos republicanos e, por Deus, os caras sabiam se divertir. Até hoje reverbera em minha mente a cena em que enterraram uma faca no joelho de um terrorista durante um interrogatório.
Se 24 era uma imersão num extremo da América, então Homeland é o meio-termo. A série da Showtime lida com as mesmas situações em tons cinzentos e deadlines iminentes, mas faz questão de mostrar que limite não é só uma linha no chão. É um muro de dez metros com proteção eletrificada, seguranças G.I. Joe e cães furiosos à espera do primeiro infrator. O que não impede eventuais invasões em nome do bem comum, de forma bem menos frequente e sempre com graves consequências. De quebra, a série não faz vista grossa: enquanto Guantánamo e Abu Ghraib seriam só mais um dia no escritório em 24 Horas, aqui são vistos como constrangedores fracassos dos Estados Unidos no combate ao terror.

A premissa não é menos incendiária. Na história, a agente da CIA Carrie Mathison descobre que um militar norte-americano não-identificado teria se convertido à al-Qaeda. Curiosamente, a info vem à tona no mesmo período em que o sargento da Marinha Nicholas Brody é resgatado no Iraque após 8 anos de cativeiro. Recebido com glórias na volta pra casa, Brody vira uma espécie de ícone midiático, uma reafirmação da fé no sonho americano - que logo é capitalizada politicamente, afinal, o Salão Oval é logo ali. Carrie por sua vez, mergulha numa cruzada pessoal para saber se Brody foi corrompido. Na maior parte tempo, ela opera abaixo do radar e ninguém compartilha de suas suspeitas. Nem mesmo eventuais colaboradores, como seu mentor, Saul Berenson.
Homeland é baseada na série israelense Hatufim (aka Prisoners of War) e desenvolvida por Howard Gordon e Alex Gansa. A dinâmica é de um tenso thriller psicológico. Nada de ação vertiginosa e perseguições mirabolantes. Ganha quem tem mais bom senso, sutileza e capacidade para saber quando recuar. E apesar de não ter o body count insano de 24, a narrativa é igualmente impiedosa. Não por acaso, Gansa foi um dos roteiristas do 7º dia mais punk da vida de Jack Bauer.
A série tem um cast fantástico. Particularmente, acompanho a carreira de Claire Danes desde a bacanuda Minha Vida de Cão (série de drama teen: um dia todo mundo assistiu uma) e, desde então, ela nunca parou de evoluir. Carrie é um formidável desafio pra qualquer atriz que tem amor à profissão. Corajosa, intensa e tão cerebral quanto impulsiva - isso pra não citar seu pequeno segredo que deixa o cenário ainda mais complexo. Danes administra todas essas nuances de forma magistral.
Damian Lewis por sua vez está no topo da forma. E teve um belo laboratório para compor o sargento Brody. Na extinta série Life ele fazia um policial que passou 12 anos em cana por um crime que não cometeu e sentia na pele as agruras da ressocialização. Sua atuação não podia ser mais impressionante. Especialmente nas cenas em que Brody é colocado em situações-limite, o que rende sequências antológicas.

Não surpreende que tanto Danes quanto Lewis tenham sido indicados ao Globo de Ouro 2012. Merecidíssimo. No entanto, o melhor em cena na minha opinião é o veterano Mandy Patinkin, como Saul. Político e racional, ele é profundo conhecedor do sistema e o único que sabe como controlar e filtrar os extremos de Carrie, sua mais talentosa protégé. O tom paternal adotado pelo ator funciona até mesmo durante as cenas de interrogatório. Um bom exemplo é o sétimo episódio, onde ele escolta uma suspeita do México até Langley e faz uma pequena trip pessoal enquanto ganha a confiança da prisioneira.
É na relação dele com Carrie que fica evidente o grande trunfo da série: a química entre os atores.
A afinidade cênica entre Danes e Patinkin é algo que saltou aos olhos logo na première. Em contrapartida, a relação entre Lewis e Morgan Saylor, que interpreta a filha adolescente de Brody, foi uma grata surpresa construída lentamente ao longo dos episódios - e que pontua nada menos que o clímax do season finale numa sequência arrasadora de mandar legiões de cardíacos direto pro IML.
O elenco secundário também é afiadíssimo. É bom ver que a carioca Morena Baccarin não ficou chorando as pitangas após o cancelamento da fraca V. Aqui ela faz a esposa de Brody, a ex-viúva Jessica. Está mais linda do que nunca, by the way.
David Harewood está ótimo como David Estes, chefe de Carrie e um tremendo carreirista pé-no-saco, bem como Jamey Sheridan como o Vice-Presidente dos EUA (um retrato assustador do pensamento republicano) e o excelente ator iraniano Navid Negahban, como Abu Nazir, um dos líderes da al-Qaeda e o captor de Brody.
Não sei se será a série que substituirá 24 Horas, mas até aqui tem sido um paliativo de primeira linha. Homeland foi renovada para mais uma temporada de doze episódios. E a julgar pelo cliffhanger deixado no ar, será imperdível.
Cotação:
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
O primeiro editor

Joe Simon (1913 - 2011)
Poderia ter sido um daqueles eventos que tornam o fim de ano um pouco mais melancólico, mas não. É uma das raras despedidas em que não há qualquer resquício de tristeza. O lendário Joe Simon teve uma grande vida (e uma vida grande!). Dono de uma carreira respeitabilíssima, foi o primeiro editor da seminal Timely, socou a cara do führer enquanto os EUA ainda faziam chapa branca e teve pelo menos uma criação icônica a constar na cultura pop desde sempre.
Do lado pessoal, melhor ainda: o rapazinho foi o patriarca de uma família enorme. Tudo bem, houveram alguns percalços, sendo o processo contra a Marvel o mais representativo. Mas quem nunca acionou a safada da Marvel na justiça?
Parece que foi ontem que comentei que ele devia ter ficado orgulhoso com o recente filme do Cap. E, pelo jeito, ficou mesmo.
Thanks, Simon!
R.I.P.
domingo, 11 de dezembro de 2011
March of the Immigrant
Parece que o bromance entre David Fincher, Trent Reznor e Atticus Ross vai longe. Junto com o lançamento digital da trilha do filme The Girl with the Dragon Tattoo foi liberado um vídeo com uma inesperada cover de "Immigrant Song", do Led Zeppelin. Os vocais são de Karen O, do Yeah Yeah Yeahs. É provavelmente a melhor versão que já ouvi do clássico zeppeliniano.
A montagem foi feita pelo próprio Fincher e é justamente a intro do filme. Dark, bizarro e assustador. Como convém.
Ps: o que não livra a produção do status de presepada hollywoodiana. Mas se alguém pode tornar esse remake relevante, é o Fincher.
Assinar:
Postagens (Atom)

