3º episódio de
The Walking Dead e eu ainda com aquela expressão besta de realização. É o segundo capítulo sem a direção do
figuraça Frank Darabont, já alçado ao cânone pelos leitores da HQ após o piloto antológico. Mas não só os aficcionados pela odisseia
undead de
Robert Kirkman,
Tony Moore e
Charlie Adlard estão nas nuvens: a série coleciona
recordes de audiência e elogios de gente influente de várias esferas - destaque para o
artigo do New York Post, especulando que
The Walking Dead pode se tornar para a
AMC o que
Os Sopranos foi para a HBO. A mobilização popular em suporte às filmagens em Atlanta foi tamanha, que os produtores tiveram que recusar voluntários. Infame ou não, aqui vou eu: no futuro, todos serão zumbis por quinze minutos.
Tecnicamente, o texto está impecável. A estratégia adotada nessa adaptação deveria servir de
bíblia para toda e qualquer futura incursão nesse veículo. Um dos aspectos mais bem-sucedidos do roteiro foi expandir os pequenos ganchos da HQ até transformá-los em subtramas completas. Um novo olhar para a mesma história, mas de um ângulo diferente. O que faz da série algo quase tão inédito para os leitores quanto é para os leigos. Quem diria que o cerco policial do início do piloto (compactado na 1ª página da HQ) era precedida de um crescendo tão tenso e eletrizante?
Mais ainda, quem diria que uma
introdução tão polêmica e gráfica seria tão aclamada?
Outra façanha, dessa vez no 2º episódio, foi unir dois momentos da trama (edições #2 e #4) e realocar a ponte entre elas (#3) para o final, esticando a tensão do reencontro de Rick com Lori e Carl. Provavelmente, seria o que Kirkman faria hoje, mais experiente. Participando da série como produtor executivo, é palpável sua contribuição na adaptação, o que deixou tudo muito fluído, natural e sem grandes concessões. Pelo menos até agora.
Uma curiosidade: Darabont disse que usou o filme
A Noite dos Mortos-Vivos como bíblia para os zumbis de
The Walking Dead. Assim, vemos detalhes na série que remetem diretamente ao clássico de George A. Romero. Zumbis quase rápidos se misturando com outros bem lentos e danificados, e também ataques a animais, algo que muitos estranharam (o que teve de gente se remoendo de dó do cavalo!). Lembrando que no filme de Romero, os mortos-vivos não dispensavam
nem insetos. Fora a cena em que um dos desmortos usa uma pedra para quebrar uma porta de vidro - mais que uma referência, uma
homenagem.
O elenco está irrepreensível.
Qualquer dúvida que já tive em relação à
Andrew Lincoln caiu por terra há muito tempo. Ele traduziu a essência de Rick Grimes para a tela como se conhecesse a HQ de cabo a rabo. A excelente impressão continua com
Sarah Wayne Callies, no papel de Lori - pelo jeito, a Sara, de
Prison Break, ainda vai expiar (e muito) seus pecados -, e
Chandler Riggs, o guri que interpreta o Carl.
O moleque é bonitinho e tal, mas sabe mandar um puta olhar de jagunço quando quer. Tipo da atitude que vai precisar (e muito), conforme o avanço da série.
Os demais atores do núcleo principal mantêm o nível.
Jon Bernthal vai montando de maneira crível a desestabilização emocional de Shane e também é notável os bons desempenhos de
Steven Yeun (é o próprio Glenn!),
Laurie Holden (Andrea) e a gatinha
Emma Bell (Amy), do bacana
Pânico na Neve. Mas, na minha opinião, o melhor em cena até aqui foi
Lennie James, que participou do piloto no papel de Morgan Jones. A sequência em que ele quase se despede da esposa pela mira de um rifle é emocionante. Só essa cena já vale a assistida. Uma das melhores atuações que vi em séries.
No campo das novidades, muito me surpreendeu a escalação do veterano
Jeffrey DeMunn para o (importantíssimo) papel de Dale. Colaborador de longa data de Darabont, DeMunn reedita aquelas combinações ator-personagem onde um parece que nasceu pro outro. Uma atuação de alto nível é o mínimo que se pode esperar daí - e será exigida... ah, se será. Quem lê
The Walking Dead certamente teve espasmos musculares ao ver o boné australiano despontando no horizonte.
Por fim, e talvez o mais importante, o grande
Michael Rooker no papel de Merle Dixon. Personagem inexistente na revista, é o típico
white trash reacionário e racista. É a banda podre do grupo de sobreviventes - elemento constante em todo
zombie movie. E talvez o primeiro vestígio de uma alteração realmente significativa (e duvidosa) nesta adaptação.
Crianças que não leram
The Walking Dead... por favor, retirem-se da sala.
Spoilers adiante.

Pelo casting divulgado, Rooker sairá de cena por um tempo. Merle Dixon é personagem que com certeza dará trabalho num eventual comeback cheio de som, fúria e vendettas. Some 1 mais 1 e pronto: Governador. Será?
Até onde isso é bom? É Michael Rooker. Nesse ponto, está mais que bom.
Até onde pode ser ruim? Apesar de ser uma escória ambulante, Dixon não parece ter o perfil monstruoso do Governador. Ele é só um bandido caipira e arruaceiro. A não ser que entre o ponto A e o ponto B esteja uma experiência realmente traumatizante e enlouquecedora, não consigo vê-lo fazendo as coisas que o Governador faz em suas horas de lazer.
Aliás... não consigo imaginar as cenas de sadismo/pedofilia/necrofilia passando em canal que seja na Terra.
E gosto do fato do Governador aparecer como um desconhecido amigável à primeira vista e aos poucos ir se revelando mais cruel que o próprio capeta. É uma experiência que mudou a forma como Rick e outros personagens se portariam dali em diante em relação a outros sobreviventes - e deixou as histórias ainda melhores.
Mais uma coisa: será que a AMC terá cojones pra mostrar o destino de Lori e seu rebento?
Dúvidas, dúvidas. Daqui a pouco tem outro...