segunda-feira, 7 de julho de 2008


Millar, comemorando o resultado da enquete

Grant Morrison parecia o alasão premiado, mas o no finzinho o pangaré Mark Millar foi uma bala! Confesso que nenhuma enquete que fiz anteriormente me deixou tão curioso quanto esta.

Roubaram muito na votação aí? Espero que não... :)


Cabe dizer que Millar está fazendo um trabalho... "bem-feitinho" em 1985 e está mandando muito bem em Quarteto Fantástico, pela cronologia normal. Já Morrison não está se saindo nada bem em Final Crisis, mas pra compensar, está dando a luz a um clássico com todas as letras, que é All-Star Superman. IMO.

Também achei legais os números paralelos. Interessante o parelho K. Vaughan/Ellis e surpreendente a pouca repercussão do Bendis, do Johns e do Whedon (Astonishing, pessoal!). Mas acho que aí o fator "bom operário" pesou.

E um abraço forte aos dois que votaram no Willingham. Qualquer hora a gente sai pra tomar um capuccino, por minha conta.

Agora: fome de cão e Smiths, "How Soon Is Now?".

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O RETORNO DE GORT

Parecia inevitável. Chegamos ao remake de O Dia Em Que A Terra Parou. Depois disso, nada mais é sagrado em Hollywood. A péssima fase criativa da indústria já se fazia notar em refilmagens como A Profecia, Os Invasores e Eu Sou A Lenda, mas com certos símbolos não se mexe. O filme original de Robert Wise é um deles. Não apenas pela mensagem, atemporal (mesmo atrelada a um cenário geopolítico específico), mas também, principalmente, por seu valor cinematográfico.

Lançado em 1951, o filme trouxe efeitos visuais incrivelmente sóbrios e sofisticados para a época e recebeu uma produção impecável - não se viam muitos militares "reais" (com canhões, jipes, tanques e um contingente generoso em cena) nos sci-fi de antanho, considerados veículos B por excelência, sem tanta vocação para o mainstream. E pela primeira vez, o ET destoava da recorrente alusão comunista. Klaatu era um ser benevolente. Nós é que éramos os monstros. Clássico.

Tudo pronto para mais uma bomba anunciada, mas eis que chega o 1º trailer deste remake (cuja existência fui saber há pouco). Confesso que curti mais do que gostaria de admitir.



Ok, Keanu Reeves é um ator ruim (dãã), mas funcionou em Matrix. Seu ar frio e distante bateu com a aura messiânica que o personagem demandava. Aqui o princípio é quase o mesmo, num contexto até mais lógico e compreensível. Sinceramente, gostei dele aqui. Jennifer Connelly garante credibilidade (e muito mais) em cena e o elenco de apoio conta com Kathy Bates e John Cleese (uôu!). Pelo que percebi, muita coisa mudou na história. As obrigatórias seqüências de destruição em massa sugerem que Klaatu fará bem mais que um apagão global. E ao que parece, Helen (Connelly) vai chegar meio tarde pra dizer "Klaatu Barada Nikto". No último frame, vemos uma imagem do icônico Gort, o guarda-costas alienígena mais badass do Cinema.

Outra coisa... a música que rola no trailer me ganhou na lábia. Depois que Danny Boyle descobriu o Godspeed You! Black Emperor nasceu uma praga de trilhas atmosféricas. Não sei se essa canção é deles (ou seria do Mogwai?), mas foi determinante pra me vender a idéia. Cinema e shoegazer music nasceram um pro outro.

Agora as credenciais: o cineasta Scott Derrickson roteirizou e dirigiu o ótimo O Exorcismo de Emily Rose. Por outro lado, também realizou Hellraiser: Inferno, no início de carreira (mas até aí, o jovem James Cameron fez Piranhas 2: Assassinas Voadoras pra levantar algum... então tá 50/50). Já o roteirista David Scarpa escreveu A Última Fortaleza, que é realmente um bom filme.

Continuo execrando a idéia do remake. Mas se antes não esperava nada, agora já espero alguma coisa.


Trailer HD
DTESS (site oficial)


No playlist: Kaftwerk, Mininum Maximum.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

ZOMBIE WARS


Não há nada tão divertido nos quadrinhos atuais quanto Marvel Zombies. Ponto! Certo... o fator "diversão descerebrada" bate forte ali, mas é o que faz esta experiência adquirir contornos quase vanguardistas. Sério. Ao colocar ícones da cultura pop cometendo as maiores atrocidades, a série promove uma subversão total de valores num espirituoso e imprevisível exercício de estilo. Além do caos anunciado na lapidar "Quis custodiet ipsos custodes?" (peguei pesado), também é o oposto imediato aos estereótipos maniqueístas, tão comuns nesta indústria. A redenção definitivamente não está atrás daqueles portões. E isto é maravilhoso! Porque o mundo é assim, filho. Acostume-se ou morra. hahah

Ajuda o fato de que a Marvel (leia-se "Joe Quesada") tenha ignorado os freios nessa descida ao inferno. Não há sutilezas de qualquer tipo e nem os heróis mais famosos são poupados. Pelo contrário, são estes que protagonizam os momentos mais horripilantes da maxi-saga e que mergulham de nariz no lado mais negro de uma cabecinha doentia - no caso, do necro-roteirista Robert Kirkman (Invincible, The Walking Dead), Ph.Z em rigor-mortis na 9ª Arte.

Acompanhado da revelação Sean Phillips - um ás do traço-trash - a química fica tão irresistível quanto pútrida. E não escrevo isto à toa. Em que outro lugar você acharia graça numa cena em que uma mãe indefesa e seu filhinho são devorados impiedosamente por um supercanibal em decomposição?

É, eu sei... soa terrível, mas foi muito engraçado. Ah, foi. Por isto, nada de avaliações psicológicas aqui no BZ...


Não é surpresa que o conceito de Marvel Zombies tenha sido criado por Mark Millar, visto que o escocês fanfarrão vive sapecando referências pop em tudo que roteiriza. Então, nada mais natural que uma justa homenagem às simpáticas criaturinhas sem vida, aproveitando que os ventos do comércio sopravam a favor de epidemias e carnificinas pós-apocalípticas.

Também não duvido que o resultado tenha saído muito melhor que a encomenda: de um arco na revista Ultimate Fantastic Four, eles ganharam uma mini própria, um crossover, um especial, duas continuações e um universo inteirinho só pra eles. Sim, os Marvel Zombies pertencem à Terra-2149, já quase totalmente deglutida a esta altura (arrout!).

Pensando melhor, esta é uma honraria meio dúbia, já que a Marvel registra praticamente 1 universo por página impressa. Mas que se dane, é melhor do que ficar sem.

O que mais surpreende (até a mim, incansável paladino da podreira B) é que todo o material lançado até o momento sedimenta uma mitologia interessantíssima. Juro por George A. Romero. É uma odisséia completa, que atravessa gerações e cujo enredo tem comédia, suspense, drama e até romance, além de grandes revelações. Não seria exagero afirmar que estamos diante do Star Wars dos mortos-vivos. Ou seria? Maldita cafeína.

Alright, pussy lovers... retrospectiva-zombie na seqüência.



MARVEL ZOMBIES vs ARMY OF DARKNESS


A ótima primeira impressão do review anterior manteve-se nas quatro edições seguintes. Todo quadrinheiro veterano sabe que crossover entre editoras vale menos que um copo de cachaça, mas esta é uma das raras exceções à regra. As saídas inusitadas e os diálogos corrosivos do roteiro de John Layman (ex-editor da Wildstorm) seguram a diversão do início ao fim. O cara realmente manja dos elementos envolvidos. Conhece os três Evil Dead de cabo a rabo e, mais importante, sabe como despachar as referências pra cima dos psicopáticos Marvel Zombies.

Praticamente tudo o que poderia ser feito com Ash ali no meio da bagunça foi feito. Ash até morre lá pelas tantas (o que foi até irônico, já que ele também precisou morrer em sua revista solo para estar aqui)... e acredite, isto não é spoiler. Segundo o próprio Layman, na época: “Posso te dizer que Ash morre (...) Sem sacanagem. E não, ele não volta como um Deadite. Ou como um zumbi. Que tal isto como cliffhanger?”

E ele não estava brincando. A solução foi tão esperta quanto malandramente simples. Quem curte os filmes de Sam Raimi da boa safra vai decepar a mão com uma motosserra, de tanta alegria.


Ash, impressionado
com a situação
A narrativa é fluída e ágil, desenvolvendo a trama num arco fechado (o quanto pode ser) e inserindo novas infos ao contexto dos zumbis marvetes. Conhecemos um pouco mais sobre a origem da pandemia e temos a confirmação de quem foi o hospedeiro original, já que Ultimate Fantastic Four #22 foi pouco claro nisso.

Uma ótima sacada: a infecção de Pietro (alguém ainda o chama de Mercúrio?) foi o momento-chave do caos, neutralizando o tempo de resposta e imprimindo uma velocidade exorbitante ao processo de contaminação mundial. Imagina se ele fosse o Flash.

As escorregadas até que foram tímidas aqui. As mais evidentes ficaram por conta da aparição do supergrupo Nova Onda, bem ao seu estilo nada discreto, detonando um Quarteto Futuro zumbificado (hooray!). O que seria meio difícil, já que no arco inicial de Millar, a líder da equipe, Monica Rambeau (Capitã Marvel), já estava infectada e ainda usava seu velho uniforme de vingadora. O mesmo vale para a voluptuosa mutante Cristal, aqui servindo de sidekick para Ash.

São relativamente poucos furos, considerando a zona estrutural que sempre foi Marvel Zombies. Além do quê, os diálogos ferinos do "herói" com o famigerado Necronomicon compensam qualquer pisada no tomate - e o que Ash apronta com o arcano livro dos mortos no final da saga é de baixíssimo nível até pra ele. Aquilo foi muita, mas muita sacanagem.


O traço do brazuca Fabiano Neves foi uma grata surpresa, especialmente nas curvas generosas das heroínas. Todas turbinadas e supercachorras. Naqueles trajes sumários então, viraram praticamente musas do funk ("As Gostosas do Cosplay"... devem ter até flog). Na reta final, Neves divide a Faber-Castell com o espanhol Fernando Blanco (Thunderbolts) e Sean Phillips. Uma festa só.

A mini começa a ser publicada aqui neste mês, na revista Marvel MAX. Anota aí - Zumbis Marvel: Uma Noite Alucinante é imperdível.



MARVEL ZOMBIES: DEAD DAYS


Ah, Dead Days... este aqui é O Encouraçado Potemkin dos Marvel Zombies. Nem Atomika invocou conceitos tão marxistas quanto o sectarismo dente-a-dente aqui presente. É uma classe literalmente devorando a outra em busca do status-quo. Dead Days é one-shot e funciona com um semi-prequel: a intenção é documentar, direto das trincheiras, os últimos esforços dos heróis remanescentes, comandados por Nick Fury num porta-aviões aéreo com um plano pra lá de suicida. E também mostra como os principais personagens da Marvel se saem no "Dia D(ead)". É curioso como cada um assimila a inevitabilidade do evento, tão acostumados que estão a sempre encontrar uma saída pela esquerda.

Ao contrário do Cap,
o Cel não morre tão fácil
Alguns reagem de maneira surpreendente ao ver a casa caindo - o que pode até ser creditado, em parte, às particularidades daquela realidade alternativa - mas sem jamais corromper o perfil psicológico de suas versões do universo tradicional. O Coronel América é, rigorosamente, o Capitão com divisas a mais. Os X-Men, Tony Stark, Nick Fury e o Aranha também continuam os mesmos - este último rendeu a já antológica seqüência de abertura, com participações especialíssimas e mal-passadas de Mary Jane e Tia May.

Thor está mais impulsivo e guerreiro; Hank Pym se transformou naquele líder canalha e cruel que surpreendeu todo mundo em Marvel Zombies (o pobre T'Challa soube disso em 1ª mão); Já o Quarteto está praticamente intacto. Praticamente.

Depois de Pym, Reed Richards foi quem sofreu a maior mudança de caráter. É ele quem dá o golpe final nos esforços dos heróis e nas esperanças da humanidade (e, por conseqüência, do Cosmo). E sem estar infectado! O que aconteceu com Reed também pode ser encarado como uma forma de loucura pós-traumática, Hal Jordan's style, embora isto não esteja exatamente inserido nas entrelinhas. É só uma opinião minha... :)


Especial do dia: sushi de Jarvis

O roteiro reserva um momento-surpresa logo nas primeiras páginas: o verdadeiro responsável pela disseminação da epidemia naquele mundo (e com qual torpe objetivo). Nesse ponto, um detalhe me chamou atenção. O portador inicial da praga zumbi é de origem interdimensional, o que sugere a existência de outro universo alternativo com super-heróis zumbificados - e provavelmente já devastado, desmembrado, mastigado e digerido.

Robert Kirkman & Sean Phillips mais uma vez comandam a diversão com requintes de crueldade encharcada de humor negro - ainda que desta vez tenha sido mais pra um daqueles lanchinhos no meio da noite no modo stealth. Acaba muito rápido. Quando menos percebi, já estava lambendo os dedos e procurando por mais. Tal qual um Zombie.

O entrevero é concluído de forma mais intigante ainda. Tá lá o "The beginning" no finalzinho que não me deixa mentir.



BLACK PANTHER #27-30


Este arco da revista solo do Pantera Negra é uma espécie de prólogo para a seqüência de Marvel Zombies. No final da mini, vimos nossos putrefactos heróis rangarem ninguém menos que o devorador de mundos Galactus e, detendo o Poder Cósmico, partindo para os confins da galáxia em busca de mais paramédic... eh, suprimentos. Pela primeira vez é revelado o que aconteceu com os infames Marvel Zombies Galacti. Até que enfim! Antes mesmo de uma continuação, a Marvel explorou ao máximo as possibilidades da "franquia"... mortos-muito-vivos com uma insaciável fome de US$, € e até R$! Felizmente, para uma entressafra, o saldo foi positivo e aqui não foi diferente, reservadas as características de uma típica participação especial, claro.

O Pantera, sua esposa Tempestade, o Coisa e o Tocha Humana formam o Quarteto Fantástico provisório e estão às voltas com um artefato místico (um "Sapo Dourado do Rei Salomão"!). Ao tentar repelir um insetão da Zona Negativa que invadiu o Edifício Baxter, eles acidentalmente vão parar no universo dos Zombies. Mais especificamente, num planeta Skrull que está na iminência de ser abocanhado pelas esfomeadas criaturas.

De um lado, estão o Quarteto e os militares Skrull, petrificados com o que vêem. Do outro, os Marvel Zombies, agora super-hiper-poderosos e contando com... Luke Cage!


Por incrível que pareça, é do ex-herói de aluguel os maiores rompantes de raciocínio lógico aqui, o que rapidamente lhe confere o status de líder temporário da matilha. Ao ver os integrantes do novo Quarteto ainda vivos (literalmente), sem pestanejar, Cage usa a coerência e deduz que eles vieram de outra realidade e que têm acesso a algum dispositivo de transporte interdimensional. Exatamente do que os Zombies precisam, já fartos de contra-filé alienígena.

Essa linha de diálogos do Cage smart-ass é impagável. E uma clara auto-crítica do roteiro de Reginald Hudlin, visto que a "saga" envolvendo o tal Sapão Dourado tem a regularidade de um Bill & Ted - e furos confessos idem.

Mas é a matança que importa! E os Zombies promovem uma skrullficina generalizada, com montanhas de restos mortais verdes decorando a metrópole alien, Super-Skrulls infectados, juntamente com o besourão da Zona Negativa, já sem uma das placas toráxicas e com as tripas dependuradas... bluoouurg, é de embrulhar o estômago. E as cenas com os zumbis se refestelando na população civil Skrull são tão doentias (pero hilárias) que até fiquei com pena dos coitados.

Mas uma coisa eu tenho de admitir... não sei se foi a arte eficiente de Francis Portela, mas a carne Skrull parecia mesmo saborosa. Uma iguaria! E segundo Stark@Zombie, fica ainda mais gostosa grelhadinha no raio cósmico.


O cross do Pantera com os Zombies está sendo publicado aqui na revista Marvel Action. Um breve petisco antes do banquete principal...



MARVEL ZOMBIES 2


Complicado comentar Marvel Zombies 2 sem revelar algum spoiler classe 100 (e até alguns de classe "desconhecida"!). Tão arriscado quanto atravessar um cemitério em meio a um levante zumbi. Isto porque nesta mini começa um novo estágio da saga e a partir daqui as coisas mudam bastante - até mesmo a insana fome dos Zombies. Robert Kirkman retorna ao front renovando os objetivos de cada casta ("casta" mesmo... já que ninguém aqui toma partido individualista, me convencendo mais ainda que Marvel Zombies é panfleto marxista deslavado, ainda que involuntário - se é que isto é possível) e a maneira como estas interagem/batem de frente.

Em outros termos, Marvel Zombies 2 traz mais roteiro numa só página do que em tudo o que foi lançado até agora. Literalmente, cada naco de carne arrancado aqui tem um fundo de causa.

A história começa 40 anos após os Marvel Zombies deixarem o planeta. Durante sua jornada até onde o Universo faz a curva, eles acrescentaram novos integrantes à horda desmorta: Thanos, o titã, a mutante Fênix, o Gladiador da Guarda Imperial de Shi'ar, e o Senhor do Fogo, ex-arauto de Galactus, agora sem mandíbula. Aparentemente, eles consumiram toda a fauna extra-terrestre. Enlouquecidos pela Fome, os Zombies resolvem retornar à Terra para reconstruir o portal interdimensional que Magneto destruiu e assim continuar a farra em outro universo.

Na longa estrada de volta pra casa, uma paradinha pro lanche... Big X-Planet triplo com fritas - cá pra nós, nunca fui com os córneos deste aí e sempre achei que merecia um fim apropriado com esse!


Na Terra, os sobreviventes do holocausto canibal ainda tentam modestamente reestabelecer o modelo de civilização em Nova Wakanda, cidade construída ao redor do Asteróide M, agora em terra firme. Numa estrutura semi-tribal, humanos e mutantes estão entrando na 2ª geração pós-apocalipse. O velho Pantera Negra é o governante. Ao lado dos ex-Alcólitos originais (sua esposa Lisa Hendricks, Forge e Reynolds) e da Vespa (ou da cabeça dela), ele tem de lidar com a oposição radical do filho de Fabian Cortez, Malcolm. Suas idéias de supremacia genética arrebanham cada vez mais seguidores e culminam numa desastrosa tentativa de assassinato. Desastrosa mesmo, com um clímax de arrepiar.

Enquanto isso, os Marvel Zombies, violentamente famintos, estão a caminho. E o Aranha é o primeiro a perceber uma nuance da Fome até então despercebida pelo bando.

Desta vez, Kirkman não teve tanta moleza. Marvel Zombies e Dead Days eram deliciosamente desregrados. Ele tinha um mundo um Universo inteiro à disposição pra ser chacinado à revelia, com carta branca para atropelar sem dó o apelo PG-13 das preciosas marcas em jogo. Garth Ennis, que trucida super-heróis no café da manhã, deve ter se mordido de inveja. Achei a mini consideravelmente melhor que a primeira, mas imagino que o tom adotado aqui, bem menos gratuito, irá desagradar muitos - como desagradou em fóruns estrangeiros.

A narrativa está mais complexa, com subtramas que, num primeiro momento, se desenvolvem à parte da praga zumbi - mas se utilizando sabiamente do espectro de sua existência. Guerra Fria por definição. Também há várias cenas envolvendo "objetos de estudo Zombie", cheias de laboratórios e análises (fãs de Day of the Dead vão delirar), principalmente após a descoberta da cabeça balbuciante do Gavião Arqueiro em meio às ruínas, 40 anos depois (!).

Sean Phillips, com seu traço inconfundível (o bom inconfundível), chega a surpreender nas paisagens urbanas tomadas pela vegetação, lembrando os belos cenários do recente Eu Sou A Lenda. Nota-se também um carinho especial do artista em relação à carismática Vespa, conferindo-lhe uma postura sempre cool e um corpinho cibernético de inusitado sex-appeal...

Que foi...? Vai dizer que não acha essa cabeça feminina incrivelmente sexy? E essas curvas metalizadas instigantes e sensuais?


Adorável.

Bom, não sou necrófilo (assim creio), mas não é a primeira vez que acho uma morta-viva atraente. E também não estou sozinho na questão das andróides e fembots como profissionais da cama. Tudo bem que, no caso, são as duas coisas juntas, o que aumenta a bizarrice, mas garanto que isso também pode render momentos autênticos de puro e inocente romantismo.

Fora que é sempre bom ter uma dessas ao seu lado durante um apocalipse zumbi!


Anunciada para outubro, Marvel Zombies 3 será uma mini em quatro partes, fechando assim uma trilogia, até aqui, bastante rentável para a Casa das Idéias. Lado ruim: sai a dupla Kirkman/Phillips. O roteiro agora é por conta de Fred Van Lente (Incredible Hercules) e os desenhos serão de Kev Walker (Annihilation: Nova). Será o primeiro encontro dos anárquicos Marvel Zombies com os super-heróis do Universo 616, o "oficial".

Há certas peculiaridades quanto à cronologia: a história começa antes de Secret Invasion. No Zombieverso, onde será a maior parte da trama, os eventos ocorrerão cinco anos após os monstros deixarem o planeta, pouco antes do Pantera Negra e os Alcólitos arriscarem seu primeiro reconhecimento terrestre. Os heróis 616 envolvidos serão do 2º escalão, possivelmente integrantes de alguma das dezenas de equipes da Iniciativa. O Homem-Coisa e os elementos místicos que o cercam terão um papel importante no enredo.

Recentemente, foi divulgada a arte-final da capa de estréia, ilustrada por Greg Land.


Homem-Máquina e Jocasta? Essa não. Clique pra aumentar

Em entrevista ao CBR, Van Lente se mostrou bastante empolgado com o resultado, mas a tônica das perguntas foi um tanto condescendente. O que não aconteceu na conversa com o Newsarama, bastante franca e com uma entrevistadora cheia do veneno (Vaneta Rogers). O papo é bem divertido e spoilerento, com o roteirista soltando algumas revelações promissoras e outras meio decepcionantes. É a vida. Ou a morte, sei lá.

Em janeiro último, um boato interessante foi abordado pelo Shock Till You Drop: uma animação direct-to-DVD dos Marvel Zombies chegou a ser discutida na Casa das Idéias. Como pouco se comentou sobre isso desde então, é provável que o projeto tenha sido engavetado. De fato, seria uma incursão com novos parâmetros mercadológicos a serem estudados, especialmente num terreno ainda mal-explorado pela Marvel.

Mas é sempre bom lembrar não foram previsões de retorno modesto que fizeram Mike Mignola desistir de pequenos e ótimos projetos - ao contrário das (des)animações dos Supremos, que seguiram a cartilha do PG-13 e mesmo assim tiveram um desempenho medíocre. Seria um bom momento para repensar a estratégia.

Pra finalizar, uma oportuna reprise de um hit que ilustra bem o quanto isso poderia render.


Marvel Zombies Assembled!


Na trilha: o primeirão do Danzig. Rock and roll de boa safra!

terça-feira, 17 de junho de 2008

ELE ESMAGA


Tiraram o Hulk do divã. Se em O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, 2008) ainda havia algum resquício de drama psicológico, foi prontamente esmagado na edição final. Mais notadamente uma cena constante no trailer, em que Bruce Banner (Edward Norton) comenta com o Dr. Samson (Ty Burrell) sobre seu problemão complicado. Chega a ser simbólica a retirada da seqüência, entregando o tom que predomina no resto do filme. Menos é mais aqui. Nada de traumas familiares e muito pouco sobre a dualidade do personagem. Sai a tragédia grega e entra luta greco-romana. Porrada de monstro gigante em Nova York. Na contramão do que fez Ang Lee em sua versão do Hulk, o cineasta francês Louis Leterrier limou tudo que fosse mais complexo do que um direto de esquerda - o que corresponde, em essência, por coisa de 70% de tudo que o herói tem a oferecer unilateralmente. Difícil mesmo é saber quem é o pai da criança verde anti-Jungiana aqui presente.

Não é de hoje que a Marvel Studios *** regards for the 2nd full-lenght, motherfuckers *** brada aos sete quadrinhos que o filme seria uma chuva de uppercuts e que Sigmund Freud não passa de um moleque. Ou seja, é projeto comercialmente bem pensado em disputadas reuniões de marketagem, o que eu adoro imaginar como seriam. Afinal, o que é hit hoje em dia? Pra início de conversa, tem de ser compatível com PS3. O resto ainda está pra ser identificado.

O filme também ganhou as tradicionais intervenções do Incrível Norton. Dizem que o ator sabe tudo de Jack Kirby, Stan Lee, Hulk e Base Gama e que seu hobby diário era reescrever partes do script. Ele mesmo declarou que não haveria outra maneira disso acontecer¹, o que revela uma confiança no próprio taco poucas vezes percebida na indústria - mas não tão bem-sucedida, já que a enorme relação de cenas e referências (bacanas!) deletadas quase configuram um novo longa com pegada totalmente diferente. Muito disso se deve ao fato de que O Incrível Hulk, em toda sua simplicidade providencial, é produto de um diretor cujo currículo ostenta produções como Cão de Briga e Carga Explosiva. Nada me tira da cabeça que ele foi um operário que seguiu à risca os memorandos vindos do último andar em envelope azul timbrado.

E realmente impressiona como esta proposta que privilegia o básico rende tanto. Faz parecer que a Marvel ou a Universal tinham esse filme na manga o tempo todo, tamanha a, por assim dizer, 'facilidade' da fórmula. Apesar de estabelecer uma seqüência situacional exata para o filme de 2003, O Incrível Hulk não é uma continuação no sentido usual. As relações aqui estão muito mais estreitas com a telessérie dos anos 70 - incluindo a leve alteração em sua origem, que ficou idêntica - e convergindo com a memorável fase de Bruce Jones nos quadrinhos, por sua vez influenciada pelo seriado. Em que pese também a dispensada geral do (excelente) elenco anterior. Além de Norton e Burrell, a nova escalação muda o discurso e o tom de voz e, mesmo não parecendo tão impressionante, mantém o alto nível.


Liv Tyler confere um espírito docemente emocional a Betty Ross, evitando as arapucas de pieguice espalhadas sorrateiramente pelo roteiro. Qualquer atriz menos atenta cairia fácil ali. E ainda se utilizando do inusitado bom humor de determinadas cenas, Liv constrói uma persona simpática e humana, diferente da introspecção deprê da deusa Jennifer Connelly (que tal um filme alegre, Jen?). Já William Hurt, na minha opinião, ficou com a tarefa mais árdua, que é abordar um personagem há pouco imortalizado por Sam Elliott. Mas no fim das contas, o General Thaddeus E. "Thunderbolt" Ross acabou ficando menos paternalista e muito mais análogo ao perfil do personagem nos quadrinhos. Raposa velha do Exército, o General aqui é um milico escaldado, cínico, com objetivos simples a cumprir e quase nenhum escrúpulo para atingí-los.

Senão vejamos: consegue em pouquíssimo tempo autorização diplomática ou simplesmente invade uma nação soberana - arram - para capturar um fugitivo, monta uma operação militar em larga escala numa área civil e ainda transforma o Harlem num imenso queijo suíço. Provavelmente ele se justificaria na corte marcial dizendo "A verdade...? Você não suportaria a verdade, filho..."

Em uma palavra: espetacular.

Um dos méritos de Louis Leterrier foi defender, com bravura de um terrier, a contratação de Tim Roth, que não constava nos planos originais nem da Marvel, nem de Norton (!). O sujeito é de escola clássica britânica. Trabalha fora da alçada minimalista na qual funciona o cinemão mainstream. É o que salva Emil Blonsky de afundar em sua própria unidimensionalidade. Ele é o retrato de um psicopata em formação, obcecado por auto-superação no campo de batalha. E vê no Hulk mais um reflexo do que ele quer ser do que qualquer outra coisa.

Aliás, o Abominável - que não é "O Abominável", mas apenas Emil Blonsky - rouba a cena. E não me refiro só aos efeitos.


No filme, o vilão não é calcado no design reptiliano dos quadrinhos e suas motivações originais foram pra vala junto com a Guerra Fria. Também se mostra mais forte que o Hulk e, após a transformação, mantém sua personalidade humana quase intacta - ainda que embriagada pelo poder recém-adquirido. O visual é uma aberração genética estranha e interessante (uma batida de frente entre o Louco e o digníssimo D'Compose, dos Inumanóides).

Mas a coisa engrena mesmo quando o monstro chama todo mundo pra porrada com seu vozeirão gutural. Contextualmente é quadrinhos puro. Não é que funciona legal na telona?

E o Hulk. Por mais uma vez, Edward Norton...




...vomita seu monstro interior e busca redenção em experiências de catarse fim-da-linha com sérias implicações físicas. Pela ficha filmográfica do ator, que se especializou em personagens com dupla personalidade (conscientemente ou não), o Hulk seria quase uma instituição suprema. O papel de sua carreira, artisticamente falando. Bom, seja lá como teria sido a química ator/personagem, ficou barrada na edição, já que o filme segue impávido em seu direcionamento simplista. Portanto, sem maiores conflitos psicológicos/evolutivos/existenciais aqui. No máximo, uma amargurazinha pela saudade da vida de cientista bem remunerado e de pegar a filha do cantor do Aerosmith. Banner consegue administrar a existência do Hulk quase numa boa, com ações práticas e um justificado auto-policiamento paranóico.

O primeiro ato do filme é particularmente divertido para nós, gigantes adormecidos. Com pouca estilização, considerando a dinâmica gringa in Brazil, atores locais feiosos e ruins - excetuando a fabulosa Débora Nascimento - e uma dublagem tosquíssima, a comunidade da Tavares Bastos se saiu bem interpretando a Favela da Rocinha. Deu a impressão de que a qualquer momento Bruce Banner toparia com o Capitão Nascimento ali (não topou, mas em compensação levou tapa na cara de Rickson Gracie!). E os rasantes nos morros ficaram sensacionais, principalmente nas cenas de ação. Impressionante até pra nós que estamos acostumados. Imagina então para platéias da Holanda, da Suécia...

Quanto à alardeada pancadaria final de 30 minutos, apesar de fantástica mesmo, não foi tão longa assim. Achei até rápida demais. Hulk partindo um carro ao meio e usando como soco inglês foi ácido puro, cara. Blonsky sentando a bicuda no Verdão e o fazendo varar um edifício também bateu forte na cachola. A treta toda quase sai dos trilhos de tão legal. Quase. Sem pensar muito, dá pra considerar como a melhor luta de uma adaptação cinematográfica de quadrinhos - justamente porque os concorrentes foram, quando muito, apenas corretos neste sentido. Aliás, cabe dizer que muita gente inocente morre ali, fora as não contabilizadas em cena e os pobres soldados que estão aí pra isso mesmo.

Um detalhe interessante é que a certa altura, o iracundo Hulk entra de sola num Emil Blonsky ainda não totalmente modificado (letalmente, portanto), ao melhor estilo "This - is - Espartaaaa!!!!". Coincidência ou não, Peter Mensah, o homem que entrou pra História como o mensageiro persa vitimado pela fúria de Leônidas, está no filme. Essa passou perto, hein Mensah.

O roteiro ainda deixa um cliffhanger esperto para uma continuação com, talvez, o maior inimigo do herói. A citação à mitologia do Capitão América, apesar de exageradamente superficial, foi bem inserida - assim como as pontas bem sacadas do velhinho Stan e do ex-Hulk Lou Ferrigno. E uma cena especialíssima - que eu temia que fosse pós-créditos, mas ainda bem que não - marca a virada definitiva nas incursões dos quadrinhos pelo cinema. Sim, está acontecendo mesmo. Finalmente. "Eles" vêm aí.

O Incrível Hulk é ótimo. É exatamente aquilo se pretendia ser. Anos-luz melhor que Homem-Aranha 3 e os dois Quarteto Fantástico, menos divertido que Homem de Ferro e, em regra, nem de longe tão perfeito quanto será The Dark Knight.

E tenho dito!

Na trilha: compilaçãozinha matadora do Social Distortion. E a certeza de que Liv Tyler é linda, mas Débora Nascimento...




...é incrível.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

INDIANA JONES E O REINO DO ARQUIVO X


Já nos primeiros segundos, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008) estabelece o primeiro contato entre o último grande herói fictício de Hollywood e o modo americano de fazer cinema atualmente. Olhei direto nos olhinhos virtuais daquela toupeira-ou-roedor-que-o-valha sem notar que o filme já havia começado, certo de que era mais um trailer da Pixar ou de algum concorrente da maratona do CGI. Mesmo que tal conexão tenha sido involuntária, é, sob qualquer ângulo, sintomática. Indiana Jones retorna após um auto-exílio de quase vinte anos. Em termos, é o que deu certo ontem se encontrando com o que está dando certo hoje. Indy e seu universo pertencem a uma era em que filmes de aventura eram bem-amarradas compilações de grandes sacadas e inteligência no emprego de ganchos clássicos, não pedaços do céu despencando com efeitos de som e fúria digital. Ao menos não ininterruptamente para disfarçar conteúdo ou falta de.

Então. Sabe o que falta hoje? Essência. Feeling. Espírito da coisa. Aquilo que, por exemplo, Piratas do Caribe fez bem em dois filmes e mandou direto pra descarga no terceiro. E em se tratando de Indy, tudo fica ainda mais emblemático - neste flagrante encontro do velho com o novo, já é lucro se uma lasquinha daquele passado memorável permanecer intacta na transição. Caso contrário, ainda que sob a gerência do tubarão Spielberg e do ewok Lucas, é porque as regras mudaram de vez, não tem mais volta e eu não passo de um velhote resmungão, carente e saudosista - porém limpinho.

Mas o legal é assistir ao filme e ver que ainda está lá. O que torna esse universo tão especial está lá, inoxidável, juntamente com relíquias astecas, maias, sumérias, hebraicas, Harrison Ford e Karen Allen - mais as saudáveis companhias de Cate Blanchett, John Hurt e Shia LeBeouf. Por outro lado, o que fez do cinemão de aventura essa coisa boboca e cara-de-mamão que é hoje tenta, a todo custo, sabotar este novo/velho filme, insistente tal qual um Dick Vigarista a serviço do mainstream corporativo.


Aforismos à parte, o primeiro ato é tão peculiar e refrescante quanto poderia ser. E já começa realizando um velho sonho: uma seqüência inteirinha passada no misterioso depósito que conclui Caçadores da Arca Perdida. Interessante ver que fica localizado numa espécie de Área 51 (ou talvez a própria) e que Indy sequer sabia de sua existência - a breve ponta da Arca da Aliança foi ironia da fina. Claro que o contexto da "visita" não permite detalhes, mas, em compensação, o clima, a dinâmica e o sexagenário ator parecem ter sido preservados em carbonita desde o último filme. Sem dúvida nenhuma, Indy is back! - mas a doce sensação esbarra na inacreditável cena do teste nuclear. A premissa rende uma situação até curiosa e engraçada, mas acho que, sei lá, um bunker para fugas de emergência não teria sido uma solução menos... menos? Esta foi a primeira sinuosidade em baixo relevo do filme, que não chega a ser uma montanha-russa, mas tem antagonistas russos. Ou melhor, soviéticos. Ou melhor ainda... comunistas!

É a presença deles que traça o perfil mais historicamente complexo do roteiro. Estão lá toda a histeria anticomunista da década de 1950 e a sombra de uma iminente guerra nuclear supermotivando a vilã Irina Spalko (Blanchett), espécie de "Ilsa, She-Wolf of the SS" versão KGB. Além disso, todos sabem que Spielberg tem um carinho especial pela época. Pela música, pela juventude, pela política e até pelos aliens da época. O racha que dá início ao filme e a ceninha genial (e hilária) da briga de playboys X motociclistas só poderiam ter sido dirigidas daquele jeito por um romântico da carteirinha.

Por fim, a composição do personagem Mutt (LaBeouf), quase um tributo ao Marlon Brando de O Selvagem, e as controvérsias de um suposto evento ocorrido dez anos antes (o filme se passa em 1957). Neste ponto, Caveira de Cristal - Lucas se superou com este título - inova de maneira até surpreendente para quem esperava outra caçada atrás de algum ícone místico/religioso/metafórico.

Há quem estranhe o fator 'Arquivo X' presente no filme, mas, como reza a Física Quântica, tudo depende do observador. Só posso dizer por mim: Planetary, eventuais sessões à base de Taken e do subestimado longa de Arquivo X me fazem enxergar a proposta com sincera naturalidade. Mas qualquer um que já tenha lido as presepadas de Eram Os Deuses Astronautas? (antes ou depois de Feliz Ano Velho, tanto faz) já está habilitado a considerar a idéia de maneira mais receptiva. Senão, tenta essa: boa parte da ufologia funciona como uma extensão vanguardista da arqueologia. Ou: a ufologia está para a arqueologia assim como a parapsicologia está para a psicologia.

No mais, o objeto em questão é um McGuffin tão fantástico quanto "uma arca que torna qualquer exército invencível" ou um "cálice que dá a vida eterna". E assim o notório ceticismo de Indy também ganha seu upgrade.


O filme não escapa incólume às turbulências do roteiro, principalmente na tradicional seqüência de Indy atacando o comboio dos vilões. Nem mesmo a melhor equipe de 2ª unidade do mundo - e não duvido que fosse o caso - conseguiria convencer com uma floresta amazônica cujo solo é um tapete de tão nivelado, nativos peruanos que parecem treinados pelo Clã da Lótus Branca e uma péssima referência ao Greystoke remanescente. Isso sem falar na boca-de-fumo de formigas botocudas (a siafu africana), me lembrando imediatamente o ataque dos besouros assassinos de A Múmia, inclusive com uma das mortes idêntica. Decepcionante lugar-comum.

Cate Blanchett, atriz que engrandece a profissão a cada papel, recebeu uma missão ingrata. A natureza de sua personagem é por demais unidimensional e acaba se revelando insuficiente em seu lado da balança - ainda mais se compararmos com o primeiro e terceiro filmes da franquia, que contavam com uma variedade generosa de vilões se revezando no comando. Já o venerável John Hurt é uma escola dramática, mas também um completo outsider na escolha de papéis (ele foi o Homem-Elefante, oras!). Portanto tudo OK se a sua participação aqui acontece em 1ª marcha. E sem maiores comentários sobre Ray Winstone, como o vira-folha Mac. É um coadjuvante cômico ganancioso com o destino dos coadjuvantes cômicos gananciosos.

Todos os problemas que senti em relação à Caveira de Cristal refletem exatamente um típico clima de reencontro de veteranos. É a ressaca da festa da classe de 81. A curtição dos caras - e Karen Allen - em estar ali, juntos novamente, está estampada em cada frame dos 124 minutos do filme. E aos moldes antigos, sem readaptações na narrativa, sem urgência. A química volta a acontecer, mesmo que seu resultado se atenha à mais deslavada diversão sem compromissos que a série poderia se permitir antes de arriscar sua qualidade.

Rever Harrison Ford na pele de Indiana Jones é como rever um velho amigo que nunca nos decepcionou. Merecia um filme melhor, mas nesta altura do campeonato, isso já é tão valioso quanto um Santo Graal.