domingo, 15 de janeiro de 2006

AVENGERS REASSEMBLED!


Com passos bem cuidadosos e estruturando uma projeção a longuíssimo prazo, segue adiante o processo de reinvenção do principal supergrupo da Marvel. Certamente eles não querem que a prata da casa reunida numa só equipe naufrague antes mesmo de gritar "I'm king of the world". Compreensível. Só o fato de estarem ali os mega-stars Homem-Aranha e Wolverine... "nada de queimar o filme desses dois", deve ter sido a ordem mais proferida pelo editor-in-chief Joe Quesada em seu belo escritório (que, imagino, deve ter um tapete daqueles que afundam até o joelho e um kit de mini-golfe bem no meio). Tanto o Capitão América quanto o Homem de Ferro têm um peso bem menor no merchandishing em geral, mas conferem o tom de propriedade e tradicionalismo necessários.

Luke Cage, ainda em test-drive, tem no currículo o fato de ser a personificação da cultura negra de rua (Blade, nos quadrinhos, definitivamente não deslanchou - o que é um paradoxo interessante, pois o mais difícil ele conseguiu). E já veio atualizado por uma mini no selo Max e pelas participações esporádicas nas histórias da Jessica Jones. O Cage atual não ouve Kool & The Gang, e sim Wu-Tang Clan e Tupac Shakur. Já a Mulher-Aranha, também reaproveitada, chega num momento de absoluto hype para as heroínas mais, assim digamos, voluptuosas (gostosas mesmo). O biotipo das pinups hoje está mais pra Druuna que pra Jean Grey, e eu bebo a isto.

Do lado das novidades, temos Robert Reynolds, mais conhecido como o complicadão Sentinela, e o misterioso Ronin (curiosamente, um ninja com nome de samurai sem mestre... há um conflito de interesses aí).

Espero que todos estejam acompanhando as edições nacionais de Vingadores - A Queda, pois tudo a partir daí se tornou literalmente imperdível. Ok, já estamos na edição #14 da revista The New Avengers e ainda não houve nenhum cataclisma de proporções globais, mas o clima enegrecido e conspiratório que permeia as histórias sugerem que uma mega-castanhada se avizinha no horizonte. Se é fogo de palha, ainda não dá pra saber, mas, vindo de Brian Michael Bendis, eu prefiro não arriscar, assim como não arrisco a enumerar quantas revistas da Marvel ele anda escrevendo. E, o mais incrível, sempre mantendo um respeito absoluto ao material com situações e diálogos muito acima da média (até mesmo naquele Aranha ultimate cara-de-mamão). Atual, criativo, bem-humorado, inteligente e com um puta timing, Bendis está insaciável. Aproveitem enquanto ele ainda está são, pois se continuar nesse ritmo ele vai pirar com certeza (e se virar um louco como Alan Moore, até que seria uma transição interessante).


Na última vez que comentei sobre os Vingadores, eles não conseguiram se livrar da ressaca escarlate de Disassembled e cada um seguiu seu rumo. Após uma violenta rebelião na Balsa (a prisão para supervilões), 42 prisioneiros superturbinados escapam e um novo grupo de heróis se forma ao acaso. Liderados pelo Capitão América (que acha que tudo é obra do destino... não o Dr. Doom... destino mesmo, de sina e tal), eles começam a agir de forma "auto-suficiente" - com capital inicial bancado pelo Stark, claro (afinal, os Vingadores também tem de ter seu Bruce Wayne).

Investigando os fatos que ocorreram na super-prisão, eles vão até a Terra Selvagem no encalço de Sauron (sem ser aquele do Senhor dos Anéis) e lá esbarram no invocado Wolverine. Juntos, eles se deparam com Yelena Belova, a nova Viúva Negra, cheia de tinta no cabelo, e uma operação esquisitíssima da SHIELD, envolvendo extração de vibranium para fabricação de armas ilegais. A Viúva Yelena e uma equipe de agentes tenta eliminar os nossos heróis, mas, além de fracassar, ela só consegue queimar o próprio filme - .

Bom, nunca gostei da Yelena mesmo, mas a #6 termina ao melhor estilo "eu voltarei".


Na edição seguinte, a primeira de um arco com quatro partes, os Novos Vingadores encaram uma missão quase impossível (puta frase clichê!): desatar os trocentos nós que envolvem o passado surreal do Sentinela. E quando eu digo "surreal" é porque a coisa sai dos trilhos mesmo. A vida do Sentinela parece um filme de David Lynch com roteiro de Spike Jonze e edição de Darren Aronofsky. Pra você ter uma idéia, Bendis recorre até à arriscadíssima metalinguagem, inserindo na história ninguém menos que Paul Jenkins , o criador do Sentinela (aliás, mais uma vez eu recomendo a leitura de The Sentry... ô hq pertubadora da muléstia).

Este é um terreno caro para a Marvel, afinal trata-se de um personagem-analogia ao mito do Herói (não simplesmente uma "versão do Superman", como andam dizendo por aí).

Não é à toa que nessas quatro edições rolaram participações especialíssimas de Alex Ross e Sal Buscema - sem contar que o titular da vez foi Steve McNiven, um dos meus artistas favoritos e o melhor 'desenhador' de Sue Richards do mundo. Já tava ficando cansado do David Finch e do seu jeito Image de ser.


Mas voltando ao assunto, após uma breve consulta aos Fodões da Marvel - - Tony Stark e os Novos Vingadores recebem sinal verde para futucar o vespeiro do Sentinela, obviamente com direito a um reforcinho básico - .

Após uma certa relutância - - o "Caso Sentinela" acaba sendo resolvido e todas as pontas soltas de sua existência são amarradas com eficiência ímpar - que, como se fosse um buraco negro de pura catarse, emulou The Sentry, Paul Jenkins e a Essência do Herói e os cuspiu de volta, em um único organismo, expurgado, pronto para (re)começar. Pedala Bendis!

Depois do estrondoso arco anterior, a edição #11 começa bem soturna. Marca justamente a introdução do personagem Ronin.


A parada é a seguinte: no rastro do foragido Keniuchio Harada (o vilão mutante Samurai de Prata), os Novos Vingadores tentam impedir que o meliante reassuma sua antiga posição no Japão, como senhor do Clã Yashida. Após uma negativa de cooperação por parte de Matt Murdock (mais uma), a equipe acaba recebendo o suporte de Ronin, por indicação do próprio Matt. Na verdade, a razão de ser desse arco é retomar a conspiração que Bendis vem desfiando, e que envolve a banda podre da SHIELD e agentes infiltrados da Hydra.

Por falar nisso, aqui David Finch retorna ao traço e faz da Madame Hydra quase a irmã gêmea da Aphrodite IX (personagem que ele criou e desenhou anos atrás), confira aqui.

Ao final, mais duas deixas para as próximas edições. Uma é a Jessica Drew revelando ter o (lindo) rabo preso com as forças "do lado de lá" e o mistério em torno da identidade do Ronin - que rende um comentário simplesmente impagável do Aranha. Sobre isto, uma constatação spoilerosa logo abaixo. Marque para ler (acho meio difícil alguém que esteja lendo não saber de quem se trata, mas...).

Ronin é Maya Lopez, copycat de artes marciais e outra ex-comida do Demolidor Matt Murdock. Não sei se ela vai continuar se chamando "Ronin", visto que é mais conhecida como Eco. Aliás, o uniforme que ela está usando lembra muito aquele mais recente do Pantera Negra. De qualquer modo, fiquei meio surpreso com a fisionomia européia/caucasiana da moça. Clique aqui pra comparar a concepção dela nas artes de David Mack e David Finch (se bem que é até covardia comparar o Finch com o Mack... são iguais só no primeiro nome mesmo).


Chega a última edição, a #14, e o chow começa já nos créditos. O homem, o mito, Frank Cho assume os desenhos! Sabe o que isto significa? Sabe o que isto significa?? Significa isto, isto, isto, isto e, por Deus, até isto aqui. Só o Cho-san tem moral pra fazer aquelas splash pages totalmente gratuitas com direito a assinatura no cantinho da página (Cho nº1... Cho nº2...). Apreciar a arte desse rapaz é tão relaxante, que até um puta errão de continuidade parece bobagem (no finalzinho da edição #13, Cap está de uniforme e Jessica Drew de jaqueta vermelha, mas no início da #14 eles... resumindo, foi assim, mas o Cho pode, ele tem regalias para o tanto que nos proporciona!).

Aaaah, tem a história também...

Cap coloca Jessica contra a parede, e ela explica sua situação de agente dupla por acidente. Aparentemente, a Hydra a coagiu a trabalhar como espiã infiltrada na SHIELD. Ela acabou revelando o esquema para Nick Fury, que recomendou que ela fizesse o serviço de mão dupla, assim ele poderia saber dos passos da Hydra. Mas ninguém poderia saber do trato, só os dois, caso contrário ambos ficariam expostos. O problema é que Fury encontra-se foragido da SHIELD (na verdade, ele foi traído lá dentro, numa puxada de tapete digna da UCT, da série 24 Hs). Agora, os heróis têm de desvendar a conspiração que está apodrecendo os alicerces da SHIELD, enquanto cedem de vez à pressão da opinião pública, que quer saber quem são esses "Novos Vingadores".

Ainda há muitas nuances a serem delineadas em The New Avengers. Wolverine não assumiu uma posição de membro fixo, apesar de ter participado de tudo até agora (rendendo uma divergência de opiniões muito bacana entre Cap e Stark). A presença do "Ronin" ainda é incerta. Cap, por sua vez, ainda não desistiu de recrutar o Demolidor. E o Sentinela está arriscando os primeiros passos, construindo um perfil. Lentamente, diga-se de passagem. Não deverá ser fácil se sobressair em meio a medalhões editoriais e líderes de bilheteria. Mas é Bendis quem está no manche. Nas mãos dele, cada edição de The New Avengers parece um evento.

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terça-feira, 10 de janeiro de 2006

HOJE EU ME SINTO MENOS HUMANO


O cinema às vezes é menosprezado quando colocado na balança contra outros veículos culturais. Estou acostumado a ver o pessoal dito "mais culto" (ou os que querem posar de) colocar que o teatro é algo tão acima desta coisa mundana onde o cinema chafurda que até penso se não era para eu me sentir culpado por adorar tanto aquela telona! Não nego que, dada a natureza eminentemente autoral dos palcos, contrastando com a maioria esmagadora de blockbusters do cinema americano, realmente faz com que a idéia tenha lá seu quê de lógica, mas seria uma tremenda falta de respeito – para não dizer cegueira voluntária – com todas aquelas obras tão autorais quanto e que ficam ombro a ombro com outras que usam bem o poder de criação de realidades para passar algumas mensagens só possíveis no cinema.

Já há algum tempo, vivendo numa cidade grande como a minha – e que não é diferente em absoluto da cidade grande que você aí e você também vivem – passei a perceber que o respeito pelo próximo e pelo próprio corpo/vida têm se transmutado em descaso. A vida alheia tem se mostrado cada vez mais descartável, trazendo como conseqüência a falta de entendimento que as dificuldades do seu vizinho podem vir a se tornar suas também. Ninguém passa incólume por isto, nem eu. Quando garoto, costumava ir a pé para o colégio e sempre passava em frente à banca de jornal perto de casa. Nesta época, o jornal O Povo (um diário do Rio de Janeiro, não sei se em outros estados também circula) começava com suas edições de certa forma inovadoras: as capas sempre traziam uma manchete praticamente medieval que acompanhava uma foto de meia página de algum cadáver chocante ou pedaço de, sendo que o recheio do tablóide não era diferente. Praticamente dava para torcer o jornal e encher um copo de sangue. A quantidade de pessoas que parava em frente à banca para ver aquela imagem não fazia frente nem à quantidade de crianças na porta das casas no dia de São Cosme e Damião. O horror contagiava e continua contagiando. O tempo passou e as percepções também. Naquela época, as pessoas ainda se sensibilizavam com um assalto ocorrido na esquina. Hoje, se um arrastão tiver passado na mesma esquina e largado alguns corpos pelo chão, não haverá sensibilização alguma além de um: "é... de novo".

Como disse mais acima, ninguém passa incólume por isto. Nem eu. Amadureci e continuei convivendo com a violência – não nego que gosto de alguns filmes violentos, mas estes trazem a idéia inequívoca de ficção. Folheava a parte sobre "O Mundo" do jornal e via aquelas fotos de refugiados indo daqui pr'ali: Etiópia, Libéria, Bósnia, Albânia, Palestina etc. Eram apenas fotos de jornal acompanhadas de, no máximo, 40 palavras. Ocupavam meu tempo apenas enquanto não mudava para a página dos esportes. Achava que tinha perdido a capacidade de me sensibilizar, de me indignar.

Graças a Deus o cinema não é tão vulgar quanto pregam aqueles do começo do texto. Ontem vi Hotel Ruanda (Hotel Rwanda, 2004 – EUA, Itália, GBR e África do Sul) e confirmei que a sétima arte consegue fazer-me perceber que ainda sou capaz de sentir algo que transcende o entretenimento barato. O filme, dirigido pelo estreante no cinema Terry George, é baseado em fatos reais vividos e contados por Paul Rusesabagina, encarnado primorosamente por Don Cheadle. Sabe quando temos aquela sensação de legitimidade quando nos deparamos com ela? É mais ou menos isto! Nunca vi o tal Paul, mas a sensação que tive durante o filme é que o cara deve ter sido tão bem encarnado quanto foi Ray Charles por Jamie Foxx (não por acaso, foi seu algoz no Oscar passado).


E Paul nos conta que em 1994 ocorreu uma guerra civil na Ruanda entre as duas castas que habitavam o país: a maioria Hutu contra a minoria Tutsi. Conta também que, quando da colonização, os belgas, naquele afã de controlar o país tendo alguém nativo ao seu lado que seja o menos diferente possível – e de quebra criando um racha humano que sempre favorece o controle pelos colonizadores – pescaram dentre a população aqueles com nariz mais afilado, maior estatura e fisionomia mais delicada, ou seja, o mais próximo possível do padrão europeu, mas negro. Chamaram estas pessoas – minoria, cabe reforçar - de Tutsi e os colocaram para mandar no país do restante Hutu – os baixinhos de nariz achatado. Todos sabemos que se um irmão é tratado com privilégios que outro não tem, fatalmente brigas virão; o que dirá de uma nação fragmentada desta forma? A carnificina seria questão de tempo, e aqui estamos falando de números como 40 mil corpos encontrados em um lago e 1 milhão de ruandeses assassinados nas ruas. A título de comparação, a 2ª Guerra MUNDIAL matou 6 milhões de judeus.

"Quantos atos genocidas são necessários para haver um genocídio?"

Então a frase acima, proferida em um programa de rádio, seguida de respostas escorregadias de uma entrevistada européia das Nações Unidas, nos acorda com um tapa na cara. A vida humana passa então a ser uma questão de interpretação de expressões oficiais que os países ditos desenvolvidos – comandantes da ONU – torcem ao seu bel prazer, de preferência para onde dá mais votos – como disse o personagem de Nick Nolte, com aquela interpretação insossa de sempre.

É nesta hora que a pessoa que ainda guarda um pouco de dignidade encontra-se perguntando: "Como é que não fizeram nada? Como deixaram aquilo tudo acontecer sem ninguém se meter? Cadê a tal da luta pela garantia de liberdade? Como podem invadir um país em busca de armas fictícias de destruição em massa ao lado de campos de petróleo e deixar uma estrada inteira ser pavimentada com corpos a perder de vista feitos na base da faca?" - e somos lembrados que na mesma época a Bósnia era violentada e estampava os jornais. Mas ao menos a Bósnia é européia - dá ibope!, diria João Cléber.

O que é relatado no filme foi em 1994, mas se esticarmos o braço para o lado, pegarmos um jornal e apenas o folhearmos, certamente encontraremos algum somali ou angolano numa foto da Reuters fugindo de um campo de refugiados para outro. Todo dia aquilo que o filme mostra acontece novamente, numa repetição incessante que até chega à tela do Fantástico, mas segue-se exatamente como a personagem de Joaquin Phoenix prevê: "As pessoas olham, exclamam 'O Horror! O Horror!' e voltam a jantar".


E aqui vem a mea culpa. Não posso me resguardar atrás do recrudescimento do espírito derivado dos anos de exposição à vulgarização da vida, sob pena de incorrer no mesmo erro da secretária de Hitler em A Queda, quando diz que não há desculpa para este tipo de coisa. O filme é impiedoso. As cenas pungentes se sucediam com eficiência na busca pela derrubada de minha indolência: o contraste do ônibus acomodando brancos retirados do Hotel pela ONU e deixando-o recheado de mortos-vivos, o extermínio de crianças para eliminar uma geração, o fornecimento de armas para o exército pelo governo francês, as cenas de colinas verdejantes com a música alegre do começo contrastando com todo o desenrolar do filme... enfim... tudo. Um país movido a suborno para toda e qualquer atividade não poderia existir sem ajuda do mundo, mas quando ouvimos falar da África? Nunca! Mais da metade das pessoas de nosso país certamente acha que aquilo tudo é selva, da mesma forma que os americanos acham que o Brasil é habitado por Blankas, Pelés e Ronaldinhos que andam por aí balançando-se em cipós. Então o pensamento viaja até a personagem de Rachel Weisz em O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener, 2005) e de como eu já me senti envergonhado vendo o que aquela mulher era capaz de abrir mão em função do próximo, mas minha vergonha vendo Hotel Ruanda tomou proporções absurdas. O que me consola é que Paul, assim como eu, no começo tinha a mesma postura de "as coisas se acertam", até perceber que "as coisas se acertam" só se alguém for o sujeito da oração. Caso contrário, não há como as coisas se acertarem; neste caso não há verbo reflexivo nem sujeito indefinido. Desnecessário dizer que o que aconteceu ali tem chance e caminha firmemente para acontecer aqui se não fizermos nada.

As lágrimas de raiva e vergonha não conseguiram se conter no final, assumo, assim como o punho cerrado. A parte boa disto é que estas lágrimas trouxeram consigo a certeza de que, se hoje realmente me sinto menos humano, ainda consigo manter aqui dentro a sensibilidade para dizer "Porra... eu me importo!" e começar a tentar fazer algo para meu semelhante.

Se tivesse visto este filme uma semana e meia antes, diria que foi o melhor de 2005. Ao menos para mim.

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

MANGUE-THING


Sinal dos tempos: antigamente, produções B estreavam nos cinemas mais capengas da cidade. Mas estreavam no cinema. Hoje em dia elas vão direto pra locadora. Até a "arte" de produzir filmes com baixo orçamento teve de se adequar aos novos tempos, acordar de sua inocência artística, abrir mão de certas liberdades, pagar as contas em dia. Tudo em nome do box-office. Vê se Lucio Fulci, Mario Bava e Roger Corman se preocupavam com isso (Ed Wood então). Naquela época, havia um certo glamour maldito em ser trash casual. Hoje, um filme B já nasce sabendo que é B. E o pai, todo orgulhoso, ainda espalha aos quatro ventos a Bzice do filho, sem maiores constrangimentos. Sou B sim, e daí? Este é o clima. Taí o Uwe Boll, todo pimpão, que não me deixa mentir. Existe até uma linha de falsos B, cujo maior representante é Malditas Aranhas!, produzido pela dupla Devlin/Emmerich, de ID-$, digo, ID-4. Mas existem também os B que, no início, não se assumem, e que vão relaxando aos pouquinhos até saírem de vez do armário (falar nisso, que tirinha aquela do Laerte, hein. Já é clássica).

Esse é o caso de Homem-Coisa - A Natureza do Medo (Man-Thing, 2005), alardeado como a primeira incursão da Marvel Comics no gênero terror. Primeiro, seria mais um direct-to-video típico, mas a coisa (sem trocadilhos) foi mais além e o filme estreou mesmo no Sci-Fi Channel. O que acaba sendo a união atualizada de dois paralelos B: filmes de monstro daquela safra antiga da Hammer Films e da Universal (mais precisamente, variações em cima de A Criatura da Lagoa Negra) e a tosqueira proeminente da Marvel. Tenho de admitir, mesmo sendo marvete: a Casa das Idéias é trash com força, principalmente em comparação com a DC. Mas é aí que está a graça deste universo. Algumas sacadas são tão nonsense ou inverossímeis que acabam rendendo conceitos interessantes. Nos quadrinhos, o Homem-Coisa é uma criatura mucosa, musgosa e lodosa com imensos olhos vermelhos que, com apenas um toque, incendeia todos aqueles que o temem. Lindo, não? Chega a ser poético.

Na verdade, o monstro era um cientista chamado Ted Sallis que, recrutado pela SHIELD (Superintendência Humana não-sei-o-quê Espionagem, Logística e-alguma-coisa), estava trabalhando na recuperação do soro do super-soldado (aquele do Capitão América). Durante um ataque da IMA (essa eu lembro: Idéias Mecânicas Avançadas), o bom doutor destruiu suas anotações e aplicou o soro na própria veia, com o intuito de malocar a fórmula. Acuado e ferido, ele acabou afundando em um pântano próximo do laboratório e deveria ter ido pro saco, mas o soro começou a agir juntamente com as forças místicas do lugar (sim, haviam forças místicas lá!) e ele se transformou no Homem-Coisa, um ser irracional e instintivo. Não seria nada demais se a adaptação não fosse 100% fiel à fonte, afinal, o Monstro do Pântano, a contraparte leguminosa da DC, teve dois filmes fidelíssimos (o primeiro deles dirigido pelo Wes Craven) e igualmente xexelentos. Mas em Homem-Coisa, o roteiro está pouco se lixando para o background fornecido pelos quadrinhos. Com sorte, esbarramos no nome "Ted Sallis", meio que largado sem muita importância lá no meio.

Então qual é a história do filme? Perguntando assim, fica até difícil. A ferpa de roteiro se resume à uma série de violentos assassinatos ocorridos nas imediações de um pântano. Com o sumiço do delegado da região, a batata-quente fica com seu substituto, Kyle Williams (Matthew Le Nevez). À princípio, tudo indica que os crimes estão relacionados à ação de ativistas ambientais contra a exploração inconseqüente do pântano por uma mineradora inescrupulosa. Mas Kyle, assessorado pela deliciosa professorinha Teri Richards (Rachel Taylor... biita!), se depara com estranhos eventos e uma seita indígena mal explicada pra cacete.


Na seqüência inicial, Homem-Coisa parece filme de caipira psicopata imortal (incluindo o tradicional fúqui-fúqui de abertura que, ao invés de um orgasmo, culmina em um estripamento). Nos 40 minutos seguintes, parece um suspense padrão de serial-killer (no caso, vegetal-killer), cheio de investigações, perícias e suspeitos sorridentes. Sejamos justos... o estado das vítimas embrulha o estômago pra viagem. Nessa parte, capricharam. Daí pra frente, o roteiro fica cheio de nhém-nhém-nhém indígena pró-naturalista, que inclui até um projeto de ninja totalmente deslocado na história. Tem um coroa lá que consegue ser particularmente irritante, pois só fala através de enigmas ruins de lascar. Já os irmãos crusty, aparentados com a família Sawyer, foram desperdiçados. Poderiam render um embate trash-emporcalhado contra o monstrão brejeiro. E por falar no bicho...

Durante a produção, o diretor Brett Leonard disse que o Homem-Coisa não seria o protagonista. Foi modesto: o monstro só aparece por inteiro nos últimos cinco minutos. Antes disso, são só alguns cipós, vultos e um braço aos quarenta e tanto do 2º tempo. Sacanagem. Ele não ficou tão ruim assim, por incrível que pareça - à exceção das trancinhas de samambaia rastafári. O Homem-Coisa é parrudão, quase do tamanho do Hulk, com o poder de controlar raízes, cipós e células vegetais que crescem instantâneamente, explodindo as vítimas por dentro. Tudo bem, nada do classudo toque chamuscante, mas - novamente - o estrago que ele causa aos incautos te faz enxergar uma folhinha de alface com outros olhos.

Apesar disso (e da fotografia bacanuda), Homem-Coisa é fraquinho pra chuchu. Fraco como adaptação, fraco como filme-trash e fraco como filme-filme. Só não é tão fraco quanto os dois do Monstro do Pântano, verdadeiras ervas-daninhas. Esses aí, só com Randup.

domingo, 18 de dezembro de 2005

GOD SAVE THE KING


De todas as formas de arte, o Cinema talvez seja a que captura o imaginário popular da maneira mais urgente e direta - mesmo que o objeto dessa imaginação preze pela mais absoluta bizarria. Sabe-se lá por quê diabos certas premissas, de tão insólitas, acabam alçando uma condição de quase-mito e criando verdadeiros ícones pop. Um gorila de dez metros arrebentando em Nova Iorque é uma delas. Talvez seja pela personificação do nobre selvagem, pela crítica subentendida à intervenção inconseqüente do homem na natureza ou pelo simples cagaço de imaginar um bicho desses solto por aí. Ao longo dos anos, a imagem do King Kong se tornou uma marca tão reconhecível quanto Mickey Mouse e Superman (só perde para o Papai Noel da Coca-Cola, aquele velho batuta). Até mais, eu diria, visto que, fora os remakes e o vale-tudo com o Godzilla, a referência primordial é unicamente o clássico de 1933, limitando-se aí ao merchandising e à uma gama de referências soltas ao personagem. Mesmo assim, Kong ainda é o King. Imagina se o mito tivesse sido bem administrado esses anos todos.

Outro ponto é o arco fechado que constitui o filme original. A saga tem início, meio e fim, o que (teoricamente) inviabilizaria qualquer pretensa continuação. É possível que se trate de uma obra atemporal, visto que provoca curiosidade até hoje. Então, fica difícil justificar a existência do King Kong de Peter Jackson a não ser pela sua divulgadíssima devoção ao filme. O mesmo se pôde dizer do ótimo Gus Van Sant e seu desnecessário Psicose, clonado frame a frame do clássico de Hitchcock - o que me leva a questionar a validade de refazer algo que já é perfeito em sua proposta. Contudo, desse mal Jackson não sofre. O que ocorre no novo King Kong é bem mais um upgrade do qualquer outra coisa. Ao contrário do remake de 1976 (bastante competente, diga-se de passagem, e aí vai o meu escalpo a preço de banana), o filme se atém às mesmas marcações situacionais do original, devidamente anabolizadas com vitamina CG e belas jogadas individuais do zagueiro Jackson. Até cenas cortadas na edição do original foram recriadas, sem qualquer prejú para a fluidez da história.

Fico imaginando que representar os personagens de King Kong seja mais ou menos como encarnar figuras como Hamlet, Lobo Mau ou Chapeuzinho Vermelho. Todos os trejeitos, inflexões e motivações estão lá, bem sedimentadas e se completando mutuamente. Tem o galã fake, o herói puro de coração, a mocinha em perigo, o louco obsessivo, e por aí vai. São a matéria-prima para os estereótipos que ajudaram a forjar a cara da cultura popular moderna. Todos se saem muito bem.

Maravilhosa de linda, Naomi Watts encarna à perfeição o papel de Ann Darrow, a Bela. É uma grande atriz e ocupa tranqüila a lacuna que Nicole Kidman vem deixando com seu progressivo distanciamento daquilo que realmente importa. A cena em que ela tenta ganhar a simpatia de Kong é bem espirituosa e, ao mesmo tempo, desconcertante. Já Adrien Brody tem um olhar tão piedoso que dá vontade de meter a mão no bolso e lhe entregar a carteira com o salário do mês. Usando isto ao seu favor ele eventualmente - e merecidamente - se dá muito bem (como em O Pianista), mas, às vezes, acaba resvalando numa irritante mistura de auto-comiseração com falta de atitude. Nada que chegue a atrapalhar, já que seu personagem, Jack Driscoll, é hesitante por natureza.

Quanto ao Jack Black, confesso que estava bem curioso e fiquei ainda mais após ver seus comentários hiper-exaltados no vídeo-blog da produção. JB é um Taz live-action. Como Peter Jackson iria domar a fera? Ajudou bastante o fato dele ter ficado com o papel do diretor-showman Carl Denham. Bem mais contido que de costume, mas mantendo o fôlego de sempre, ele consegue ser engraçado, malandro e (bastante) odioso, exibindo um timing invejável. Sempre tive um interesse especial por este tipo de personagem obsessivo e algo irracional. Cineastas que encaram a profissão quase como uma ciência (ou uma religião, ou um vício) já renderam performances memoráveis, como John Malkovich em A Sombra de um Vampiro, Johnny Depp em Ed Wood e até Burt Reynolds em Boogie Nights. Faltou isto aqui pro Jack Black chegar lá.

Pórem, o melhor ator em cena é mesmo o Kong, digitalizado a partir das macaquices de Andy Serkis, ex-Gollum. Kong faz caras e bocas, é divertido, orgulhoso, melancólico e assustador. O gestual, a anatomia e a física envolvida estão às raias da perfeição, à exceção de um ou outro relance mínimo. O resultado final é um passo à frente na área e isso está estampado em cada pêlo tremelicante do gorilão.

Serkis também comparece em carne e osso no filme, no papel do marujo Lumpy (o bigodudo de boina). Bom ator, hein.


Talvez o grande desafio de Jackson tenha sido rechear um argumento que, no original, durava pouco mais de uma hora e meia pra ser contado. Atualizando a narrativa pra lá de sintética do cinemão da época, estica-se aí para umas duas horas, já exibindo uma barrigada de sete meses no roteiro. Pois Jackson espichou a coisa pra pouco mais de três horas. Contudo, são três horinhas saradas, cheias da disposição, com alguns poucos pneuzinhos aqui e acolá. Tudo bem, King Kong é uma ode ao minimalismo (quer algo mais minimalista que um macaco gigante no topo de um arranha-céu tentando estapear uns biplanos?), o que não impede a viagem de ser divertida até o clímax-referência pop. Na verdade, é em seus dois terços iniciais que King Kong superfatura o preço do ingresso.

A New York fudida da Grande Depressão foi retratada primorosamente. O clima de desolação e pendura geral foi ilustrado de forma rápida e eficiente. Mas é na Ilha da Caveira que o mesmo doente que realizou Fome Animal dá as caras e a diversão alcança níveis quase diabólicos. O lugar faz a ilha de Jurassic Park parecer... um parque. É o inferno na terra. Nativos que parecem possuídos pelo espírito do Aiatolá Khomeini em dia de segunda-feira, insetos, ácaros e zicziras gigantes, dinossauros sempre em horário de almoço, fazem o King Kong parecer o Frei Damião, tamanha sua bondade em apenas atirar os humanos a esmo por aí. É uma festa no apê do capeta, cheia de greatest hits - a mais incômoda foi a parte em que nossos heróis tentam sobreviver em um ambiente que lembra uma fossa do tamanho do Maracanã e infestada de criaturinhas adoráveis querendo fazer uma boquinha (ou duas, três...). Essa cena, inclusive, foi uma das descartadas no filme original. O ponto alto, como sugerido dos previews, é o telecatch de Kong contra uma turba de T-Rexes insandecidos querendo comer a Naomi (realmente eles tinham uma boa motivação). Antológico. A seqüência nos cipós, com a variação dos pontos de ação, é Spielberg puro.

- E só pra registro: a seqüência em que Kong revira o tronco atravessado no abismo ficou muito mais tensa e arrepiante no remake de 1976 (sendo um dos melhores momentos daquele filme).

Como nem tudo é perfeito, o andamento dá uma brecada a caminho da reta final, no que poderíamos chamar de "parte sensível" do filme. O problema é que a química entre Naomi e Kong se desenvolve ao máximo bem antes da conclusão. Daí pra frente o bom trabalho deles fica seriamente comprometido pela esticada do roteiro. De qualquer forma, ainda rende uma cena realmente bela, quando os dois brincam na neve. Pode parecer piegas, e é mesmo, mas é bonito de se ver.

Sobre a readaptação do enredo, há pouco a se comentar. Muito daquela logística perneta do original foi mantida, afinal ela acabou atrelando um certo charme involuntário ao conceito. Use a imaginação. "Como eles conseguiram tirar o navio do meio das rochas?" - Maré. "Como eles transportaram o gorila até o continente?" - Pediram ajuda pelo rádio. "Onde foram parar os nativos?" - Se esconderam, pô. "Como Jack conseguiu encontrar Kong e Ann naquela ilha infernal e gigantesca?" - Não sei, só sei que foi assim. E por aí vai.

King Kong é o último blockbuster de 2005 e pra ser sincero eu nem lembro quais foram os outros. Mas uma coisa eu posso dizer: se restasse esse filme como referência do cinemão pipoca desse ano, eu diria que ele está muito bem representado.

Long live the King.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

ENFIM! O PIOR DA MINHA VIDA!


"Me conta, Coruja! Que eu tô fazendo neste filme?"

Este espaço aqui, quando usado para filmes, normalmente vem enaltecer uma ou outra obra nesta linha pop/alternativa que aparece por aí, seja pelo hype, seja pela qualidade. Desta vez escrevo pelo motivo inverso: vou descer a lenha num dos filmes que mais tive propriedade ao dizer "odiei" quando saí do cinema. Normalmente não sentimos aquele impulso de escrever algo a respeito quando vemos filmes ruins. Entramos na filosofia de que a fila anda e esperamos que o próximo seja melhor e mereça um texto. Eis que experimento um sentimento novo desta vez. Naquele papo sem futuro padrão de segundas-feiras, quando contamos o fim de semana para alguém e fazemos comentários breves sobre filmes que eventualmente tenhamos visto, tive tanto prazer em escrever coisas ruins sobre a "obra" em questão que resolvi fazer um post.

Antes de falar diretamente do filme, acho interessante dar um pouco mais de base para entenderem as minhas expectativas. Eu diria que o cenário do cinema ao qual temos acesso hoje vive uma fase bem particular. Nem boa nem ruim, apenas particular. Especifico o "temos acesso", pois todos sabem que tem muita coisa boa sendo feita no mundo, mas que nunca veremos, o que nos limita a Hollywood e guerreiros solitários de outras culturas ou espasmos esporádicos da retomada brasileira. O cenário atual é bem caracterizado pelos seguintes pontos:

[1] – Crise de privação de criatividade de Hollywood. O que vemos hoje, a grosso modo, ou é uma adaptação de quadrinhos, ou de livro consagrado, ou seqüência de franquia, ou biografia, ou refilmagem de obras antigas, ou refilmagem de filme obscuro e de sucesso em outro país que não seja EUA ou GBR. Roteiros originais, com algumas exceções, além de escassos, não fazem muito jus à palavra "original".

Quais os maiores blockbusters do ano ou maiores candidatos ao Oscar vindouro? Batman Begins, Guerra dos Mundos, King Kong, Star Wars III, Sin City, Harry Potter, A Fantástica Fábrica de Chocolates, Cinderella Man, Jardineiro Fiel e Munique. Três remakes, duas adaptações de HQ, duas de livro, uma sequel, uma biografia e um roteiro original (que eu acho que deve ser original... não tenho certeza). Sintomático não?

[2] – Importação de atores de países emergentes com o objetivo de ter mais entrada em outros mercados.

[3] – O já tardio acesso às obras magníficas de outras paragens, algo que até bem recentemente era completamente solapado pelo mercado americano, mas o fenômeno dos meios de comunicação e revolução das formas de acesso (pelo menos nisto os piratas têm lá seu valor) mudou isto. Doggma falou sobre isto na introdução de Vidocq e Casshern e aqui reforço a idéia. Tenho me encantado pelo cinema asiático e europeu de uma forma que nunca consegui antes. Adeus Lênin!, Edukators, Swimming Pool, Sonhadores, Encontros e Desencontros (que até pode não ser europeu ou asiático na ficha técnica, mas é ao mesmo tempo ambos e em nada americano em sua essência), Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera, os filmes de terror japoneses e chineses, os animes Fantasma do Futuro, A Viagem de Chihiro e até mesmo estes dois (e ou outros) que o Doggma comentou, mas ainda não consegui ver, corroboram a idéia.

Então, quando vi o trailler de Guardiões da Noite (Nochnoy Dozor/Night Watch, Rússia, 2004), cheio de ação, imagens de impacto, efeitos interessantes e o que parecia ser uma história bem bacana - tudo isto em russo - fiquei bem empolgado e curioso. Quando cheguei ao cinema e vi que restavam poucas opções, ao invés da famosa pergunta "E aí? Quer ver o quê?", forcei logo a decisão para este filme, certo de que era a melhor escolha a ser feita e que nada faria com que me arrependesse. Até porque havia assistido Oldboy na véspera – mais um filme que confirma o terceiro ponto destacado acima.

Pelamordedeus!! O que era aquilo?

Nada se encontra naquele negócio. Os primeiros cinco minutos fazem crer que é um filme interessante, mas até nisto consegue ser completamente contraditório quando:

[a] – se o filme é russo, por quê a narração em off em inglês? Cheguei a pensar que havia me enganado sobre sua origem, que havia sido re-dublado ou sei lá o quê;

[b] – A qualidade das imagens, fotografia, filtros e afins utilizados nestes tais cinco minutos era bem interessante;

[c] – A historinha contada pelo yankee é até legal, mas chupadaça daquela introdução feita para Senhor dos Anéis, além de feita com muito menos competência.


Senhor dos Anéis?

Basicamente, há o exército da escuridão e o da luz, ambos formados por seres semelhantes aos humanos, mas com dons e características que os diferiam e lhes davam a alcunha de "Os outros" (maniqueísmo temos em tudo que é canto, mas desta forma ficou meio Star Wars/Senhor dos Anéis, dont'cha think?). Há muito e muito tempo atrás estes exércitos viviam em conflito, até que se encontraram em uma batalha sangrenta onde descobriram que se equilibravam - Senhor dos Anéis em estado bruto e mais déja vu ainda. Por falar em déja vu, havia uma profecia que apontava um escolhido que mudaria tudo – The One (e aqui temos um match up de Matrix com SdA – para variar) – e carregaria o fardo de sua responsabilidade, mas constantemente tentado entre os dois lados. Aqui podemos vislumbrar o Frodo, mas a colcha de retalhos referenciais é tão grande que cabe até o Spawn.

Listando deste jeito, ponto por ponto, parece ruim de cara, mas até que o sentimento – provavelmente amparado pela expectativa – era positivo até então. A introdução épica na língua de Shakespeare termina e começa a história contemporânea – em russo, tovarish, até que enfim!! Nos apresentam um cara querendo a mulher de volta e recorrendo a uma destas bruxas que trazem a pessoa amada em 3 dias (sempre são 3 dias, né? Parece cartel! No dia em que um destes conseguir um SLA que baixe para 2 dias, vai dominar o mercado!). De quebra ela ainda mataria o feto que estava no ventre da ex-mulher dele, já que seria filho de outro. Na hora H surge uma equipe que caça este tipo de entidade para salvar a pátria e tacar água no chope do cara. Uma espécie de Ghostbusters, com direito a uniforme de encanador e furgão. A experiência foi traumática faz o cara que queria a mulher de volta perceber que é um d'Os Outros. Seu poder? É vidente. Só. E a partir daí parece que é o protagonista também, mas, com um poder ridículo destes, consegue ser tão bundão quanto Harry Potter é em seu mundo (não sou aficionado pelo personagem, mas vi os quatro filmes e acho que HP só é sortudo... mais nada).


"Deixa eu te falar... este é o meu pior filme!"

O que parecia ser interessante acaba aqui. Daí pra frente começa o samba do crioulo doido, com um roteiro sem pé nem cabeça, vidências feitas em Neo-Geo, personagens esdrúxulos e eventos que se sucedem ridiculamente. Em dado momento a linha da história é uma. Depois é outra. Mais a frente torna-se ainda outra. No final surge uma solução bem batida para dizer que tudo se encaixava. A solução? Ahh... colocam na boca de um dos personagens a frase "Ahhh... então tudo se encaixa!" (ou algo do tipo), mesmo que isto não tenha sentido algum.

Certamente é difícil para quem lê este texto visualizar tamanho caos, então tentarei uma analogia para ver se ajuda. Tempos atrás conheci um cara que tinha um Puma. Estava insatisfeito com seu carro e não tinha grana para um melhor, então construiu uma carcaça em fibra de vidro em forma de uma Testarossa para substituir o ‘visual’. Dado que o Puma já não é um troço legítimo, pois é um carro "esporte" sobre uma base de Fusca, a Ferrari do cara ficou um arremedo de coisa qualquer com porra nenhuma - que nem o filme. Entendeu?

E não pára por aí! Não há sequer um personagem em quem possamos nos fixar, os antagonistas não se definem em quem é o bam-bam-bam da vez, o "escolhido" é o "chosen one" não se sabe o porquê e devem ter raiva de quem sabe. Não bastando, cabe a informação de que é um filme barulhento pacas. É esporro de tudo quanto é lado, com direito a barulho de mosquito irritante a cada dois minutos. Quando – raramente - bate um silêncio qualquer, o único sentimento é "putz... que alívio".

Creio que o processo de edição do filme deve ter deixado claro que o material era fraco. Então, para tentar disfarçar o absurdo, foi recheado com muitos efeitos especiais bem feitos, mas os efeitos não aliviam a barra do filme cujos realizadores não têm a mínima idéia do que significa a palavra "coerência".


"Ei, você aí no cinema! Xô... sai daqui! Vai embora!"

Por que então não fui embora logo? Pensei nisto umas 277 vezes, confesso, só não o fazendo ao lembrar que paguei caro pelo ingresso. Várias vezes ouvi gente falando ao redor "que eu tô fazendo aqui?" ou "mermão... tu tá entendendo alguma coisa?". Em certas ocasiões as pessoas riam - e riam mesmo - quando a intenção da cena não era bem esta, tudo culminando com uma entusiasmada salva de palmas espontânea e recheada de sarcasmo após um dos "climax" do filme. Achavam que tinha terminado, o que gerou um "Ahhh não! Porra... não terminou ainda...".

Há muito, mas muito tempo que não vejo um filme e percebo em todas as suas nuances que eu o odiei com todas as forças! nem Sete Múmias conseguiu isto (lá tinha umas vampiras interessantes). Depois deste, Uwe Boll é praticamente um Scorcese e O Guia do Mochileiro das Galáxias um clássico! O pior de tudo é que ainda vai ter seqüência!

Ahh... e o filme termina com mais uma narração em off em inglês. É ou não é uma Ferrari-Puma-Fusca?

Conclusão: Alguém colocou no cinema o que provavelmente foi feito no projeto final de um graduando em programação visual. Estou convicto disto. E eu devia é estar escrevendo sobre Oldboy ao invés de perder tempo com isto...

terça-feira, 22 de novembro de 2005

THE SHOW MUST GO ON


Lembro de quando vi o primeiro Jogos Mortais (Saw, 2004) e o sentimento era de que ainda existia vida inteligente em filmes que tratam do medo das pessoas, do sentimento mais cru do ser humano: o instinto de sobrevivência. Aquele trabalho foi muito bom; ouso – e não sou o único – a dizer que, de certa forma, era um filme que redefinia o gênero, criando uma linha um tanto quanto distinta nesta coisa de filmes-de-suspense-com-serial-killer, linha esta bem distante de Se7en – não concorrente – sentido inverso do que dizia a besta que criara a outra tagline.

Bem, como toda redefinição de gêneros, novas boas obras só costumam surgir em outros universos ficcionais, deixando clara a influência, mas assumindo identidade própria. Arriscar continuações da mesma franquia é dançar frevo na beira do precipício, ou seja, a queda é certa; é mais do mesmo; a história está aí para provar. Filmes que destacavam-se pela inventividade e tentavam uma seqüência caiam sempre na mesmice (A Noite dos Mortos Vivos, MIB etc), dando a impressão de que era o mesmo filme com atores novos, uma refilmagem. O próprio Se7en, na sua linha, deixou que outras produções explorassem o mesmo tema, sem arriscar se expor ao ridículo de uma continuação desnecessária, já que o primeiro amarrava todas as pontas possíveis (e aqui destaco que David Fincher é um dos meus preferidos – Se7en e Vidas em Jogo são obras-primas).

A continuação de Saw era óbvia, diversas pontas ficaram soltas ao final do primeiro e o sucesso alcançado nas bilheterias com tão pouco investimento trazia a certeza de uma continuação. E com o anúncio da sequel veio também a notícia de que os membros da equipe criativa do primeiro, apesar de já ter o rascunho do roteiro do segundo pronto, resguardariam-se ao papel de produtores, o que trazia ainda mais apreensão quanto à qualidade. Tudo isto (e mais os comentários negativos de amigos e fóruns) contribuiu para que minha expectativa baixasse absurdamente, a ponto de deixar passar algumas semanas de sua estréia para assistí-lo. E novamente digo: ainda existe vida inteligente em filmes que tratam do medo das pessoas, do sentimento mais cru do ser humano: o instinto de sobrevivência.


Jogos Mortais II (Saw II, 2005), numa sinopse básica, trata da relação de um policial que vem vivendo um momento de crise com seu filho e, em paralelo, envolve-se em um caso do serial killer (apesar de nunca ter efetivamente matado ninguém) Jigsaw. Em um destes casos o psicopata coloca 7 ex-detentos e mais o garoto numa casa infestada de gás Sarin, com tempo de vida de 2 horas, sendo que a única coisa que o policial pode fazer é olhar. A partir daí, o filme toma um rumo que faz com que o espectador sinta-se assistindo realmente mais do mesmo. Algo básico, meio sem graça e previsível, deixando de lado a inventividade e caindo de cara no caldo da mesmice hollywoodiana. Este sentimento só muda com o final, quando quem viu o primeiro percebe que o roteirista, psicopata em potencial, idealizou os dois filmes de uma vez só. Aqui cabe uma reverência a Leigh Whannell. Ele era o fotógrafo preso no banheiro do primeiro filme e que assinava o roteiro em parceria com James Wan. Aqui, como já dito, não protagoniza, mas também assina o roteiro em companhia de Lynn Bousman. Percebe-se que a mente por trás do todo é realmente a dele.

Jogos Mortais II mantém o nível do primeiro filme. Ele parte de princípios fundamentais para quem deseja respeitar a inteligência do público, ao assumir que: [1] – já sabemos quem é o psicopata; [2] – já sabemos suas motivações; [3] – escondê-lo não tem mais efeito algum. Abusar destes pilares, base do primeiro filme, seria jogar água no feijão para esticar o almoço. Mataria a franquia. Então ele faz justamente o contrário, ou seja, pega estes três pilares e coloca em super-exposição. Vemos e "conversamos" com o psicopata durante a maior parte do filme, sendo que a todo tempo ele mostra todos os pontos que levarão à montagem do quebra-cabeça final, criando um elo com o anterior que chega a secar os olhos de espanto. Planejamento é o que há.


Acrescentando mais um ponto em que Whannell demonstra o respeito pelo público, aqui ele deixa de lado outra das armas do primeiro filme quando, para criar impacto, mostra diversas armadilhas de Jigsaw, sedimentando seu perfil e background. Agora temos apenas um, mas que é ponto necessário para o que fica em tela durante todo o filme e, depois, percebemos que era mais um meio para outro fim.

A estrutura do anterior, com os pontos destacados mais acima, conferia à narrativa um ritmo cadenciado, dando coesão aos eventos. Aqui, tendo tudo estabelecido, a cadência dá lugar à força e ao sentimento de caos que impera, mas mesmo assim previsível, arrumando a cama para a festa de viradas dos últimos 15 minutos. Tudo aqui é maior: a ação, os ambientes, os conflitos e a armadilha. Sabemos que o que vemos não é o que acontece, mas a obviedade proposital dos três quartos de filme cria dúvidas quanto à capacidade de inovar no final. E temos ainda outra questão: dizem por aí que algo que acontece uma vez, pode não acontecer uma segunda. Mas se acontece a segunda, a terceira é inexorável. Só que Jigsaw, como sabemos, é canceroso. Esticá-lo até um terceiro filme seria uma ofensa que não condiz com o trabalho até aqui, então deve-se pensar na continuidade. A solução, clichê, é o único ponto fraco, mas não desabona a qualidade do filme que, novamente com atores desconhecidos, mostra como uma boa história pode se sustentar sem rostos famosos ou CGI a todo tempo, mesmo com um furo aqui e ali que dá para ignorar pela continuidade do filme.

E novamente baixo minha expectativa para um terceiro. Ainda bem.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

DUCK MUSTAINE


Sábado retrasado (5/11) o canal pago Boomerang exibiu um episódio bem atípico do desenho Duck Dodgers (um Patolino from the future), chamado "In Space No One Can Hear You Rock/Ridealong Calamity". O convidado especial da vez foi ninguém menos que Dave Mustaine, o Megadeth-man em pessoa.

No desenho, os marcianos estão tentando escravizar os terráqueos com a execução massiva de easy-listening. Pra quem não sabe do que se trata, tenha em mente: saxofones, teclados, pianos, música de elevador, Ray Coniff, Baden Powell, Kenny G, Richard Clayderman... sentiu o drama? Pois bem, Patolino/Duck Dodgers resolve tirar a humanidade dessa fria e resgata Mustaine de seu estado criogênico pra executar os acordes de Holy Wars, Tornado Of Souls e outros hinos do thrash metal. O problema é que, sem querer, ele apaga a memória do cara durante o processo. Mustaine precisa reaprender a tocar e o Pato mostra pra ele uns discos velhuscos do Megadeth, tenta reensiná-lo a bangear, fazer stage-diving, mosh, etc, sem nenhum resultado. Patolino então monta o grupo Megaduck, que, por sinal, tem um logotipo igualzinho ao do Megadeth. Saca só um trechinho do desenho.

Fica aí a dica para a caça ao Pato... ou melhor, ao episódio. E, como não poderia deixar de ser, o desenho também é mais um elemento na guerra fria entre o Megadeth e o Metallica. Quem assistiu ao filme Some Kind of Monster teve a impressão de que Mustaine virou um mendigo após sua expulsão do grupo de Lars Ulrich. Com quinze milhões de discos vendidos, hype total de seu último álbum, The System Has Failed (e num momento de baixa comercial no heavy), e aparições freqüentes na grande mídia, acho que mr. Mustaine vai muito bem, obrigado. Correndo por fora, o 'Metllica' gravou, em setembro, a comentada participação no desenho dos Simpsons. Peace sells... but who's buying? :)



METAL É LINDO


Na próxima quinta-feira (17/11) haverá um bom... não, ótimo... não, excelente motivo pra assistir ao Programa do Jô (até para os que adorariam bater no rotundo apresentador). O grupo holandês Epica será o convidado especial do programa, e deverá executar duas músicas em versões acústicas. Pra quem não conhece, a banda pratica aquele heavy melódico, técnico e, hã... "épico", que fez a fama de bandas como Nightwish e Lacuna Coil. É bem-feitinho, bem tocado e tudo mais, embora não seja muito a minha praia. Mas o motivo real de existirem estas linhas, de assistí-los no Jô (e até de existir a banda...) é a vocalista, frontwoman e deusa Simone Simons. Minha nossa... desde que o Epica começou a se destacar, há uns dois anos atrás, que o heavy metal ficou mais bonito. Com uma presença constante nos principais festivais de rock da Europa (Graspop, Dynamo Open Air, Wacken, etc), a banda vem conquistando uma carreirada de admiradores, 99% destes atraídos pelo canto da sereia Simons.

Ah, sim... ela canta muito bem. É mezzo soprano formada. Tecnicamente superior à Amy Lee, sem a frieza excessiva da Tarja Turunen e mais linda que as duas juntas. E ainda traz no nome uma aliteração de fazer inveja à Lois Lane e Marisa Monte. Prevejo bons ventos para o Epica, visto que Tarja está fora de combate (chutada - quase literalmente - do Nightwish), e o pessoal do Evanescense ainda está curtindo a ressaca do primeiro disco.

Galeriazinha de leve. A moça merece.



PRA OUVIR EM ALGUMA ENCRUZILHADA DO MISSISSIPI


Se um dia você resolver vender a alma numa encruzilhada pra se tornar uma fera no violão, vá ouvindo no caminho a trilha sonora de E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?, 2000). Evitará qualquer arrependimento ou hesitação, e o chifrudo enxofrento ainda lhe agradecerá por mais um bom negócio. Do filmaço dos Coen saiu uma das trilhas mais legais dos últimos anos. É irresistível. Eles dão uma verdadeira garimpada na música popular americana da primeira metade do século 20. Folk, blue-grass, country, blues, soul, gospel e cajun se misturam com a mesma reverência de uma procissão interiorana. Convivem no mesmo ambiente um canto chamado-e-reposta com batida minimalista (Po Lazarus, de James Carter & The Prisioners, logo no início), um hit matusalém (You Are My Sunshine, de Norman Blake), um spiritual à capela (O Death, de Ralph Stanley), um doo-woop negão (Lonesome Valley, do Fairfield Four), uma relíquia raríssima (Big Rock Candy Mountain, de Harry McClintock), o resultado daquele rolo com o coisa-ruim (Hard Time Killing Floor Blues, de Chris Thomas King), e por aí vai. Mas não dá pra deixar de mencionar dois pontos...

1) O sensacional trabalho de Alisson Krauss (estrela do country americano) em Down To The River To Pray e na "melô das sereias" Didn't Leave Nobody But The Baby (nesta, acompanhada de Emmylou Harris e Gillian Welch). Excepcional;

2) A "aderente" Man Of Constant Sorrow, do Soggy Bottom Boys (Fivo, não sei se te agradeço ou te amaldiçôo...). É difícil acreditar que isso veio dos gogós de George Clooney, John Turturro e Tim Blake.

Veja o filme, ouça o disco e leia o conto Old Man, de William Faulkner, que serviu de inspiração para os irmãos Coen. Se conseguir o conto, me manda que eu quero.

Stubbs The Zombie periga ser o jogo mais legal do século (tá, ainda tem mais um chãozinho pela frente). A história se passa em 1933 e começa com Stubbs, um caixeiro viajante, tentando sobreviver à Grande Depressão. Com uma vida repleta de fracassos, e um loser quase profissional, Stubbs é brutalmente assassinado por um desconhecido e enterrado como indigente em um campo da Pennsylvania. Corta pra 1959... um industrial bilionário chamado Andrew Monday constrói uma cidade futurista bem em cima do campo onde Stubbs apodrece anonimamente. Aí, o nosso anti-herói levanta de sua sepultura sem saber como e porque retornou, ou quem foi seu algoz. O novo Stubbs só tem uma certeza: cérebros irão rolar...

A trilha desse combo splatter/gore nonsense é uma surpresa. Composto de covers de hits dos anos 50 (sejam canções rock, jazz ou pop da época), a seleção mantém um clima sempre irônico, que já dá pra antever só de conferir o cast, basicamente de bandas alternativas. Lollipop, de Ben Kweller, é a típica pop song dos charts cinqüentistas. If I Only Had A Brain, com o Flaming Lips, é uma vinheta radiofônica de dois minutos, pingando de tanto cinismo. Lonesome Town, com Milton Mapes, é uma balada rock à Ritchie Valens. The Living Dead, do Phantom Planet, já carrega bastante nas guitarras, e My Boyfriend's Back, com The Raveonettes, é aquele bubblegum grudento que parece coisa da Olivia Newton-John dos tempos de Grease.

Mas os vencedores são o badalado Death Cab For Cutie, com a 'xonadinha Earth Angel, e o mais-badalado-ainda Cake, com o clássico Strangers In The Night, do old blue eyes Frank Sinatra.

Agradecimentos ao Lobo Schmidt por me informar sobre a existência do Stubbs. :P


Acabei reparando que o Type O Negative aí ao lado não tem nada a ver com doom ou stoner. Eles são gothic. A culpa é do Black Sabbath, que influenciou três estilos distintos do rock. Agora a gente fica aí, confundindo tudo. :)

domingo, 6 de novembro de 2005

JÁ FOMOS OS DEFENSORES

Defenders #1/#4 (de 5)


Antes mesmo de sair o segundo capítulo da Liga da Justiça "tosca", em JLA Classified #4, Keith Giffen já havia espalhado aos quatro ventos que esse seria o último arco que ele escreveria para o grupo. Cascata? Aposto que é, mas também acho que naquele momento ele mesmo acreditava nisso. Afinal, já devia saber que alguns meses mais tarde iria assumir a batuta dos Defensores, supergrupo da Marvel que sempre exibiu um inegável apelo cômico (ainda que involuntário), até mais forte do que a equipe B da Liga. Uma equipe no qual ninguém concorda com ninguém, nenhum dos integrantes tem a mínima empatia e cujos inimigos remetem aos padrões vilanescos mais esdrúxulos da chamada 'Era de Ouro'. De JLA para Defensores? Nada se perde...

Mas não me entenda mal. Sempre curti muito os Defensores. Apesar de sua formação ter sido modificada meia-dúzia de vezes (sai Valkíria, entra Daemon Maelstrom, sai Felina, entra Gavião Noturno, etcs), os titulares mesmo eram Namor, Hulk e Surfista Prateado, liderados pelo Dr. Estranho. É que nem o Black Sabbath... com o Dio foi bom, mas com o Ozzy é que era o bicho. Além do mais, os Defensores eram a equipe mais overpower que se tinha notícia. Chegava ser covardia. Só a inclusão do Gigante Esmeralda e do ex-arauto de Galactus já os colocava na posição de supergrupo mais poderoso da Marvel. Da Marvel não... dos quadrinhos. Entretanto, a relação interna do grupo era pra lá de conturbada, principalmente entre Namor e o Surfista. Não raro, os dois se engalfinhavam em pancadarias homéricas, sendo que o Dr. Estranho tentava intermediar a coisa toda a duras penas e o Hulk não estava nem aí. De inimigos, a fina flor de tudo o que a Marvel tinha de mais atual... nos anos 60: Homem-Planta, Nebulon, Xemnu, Calizuma e... adivinha-quem-veio-pra-jantar, Dormammu, o antagonista mais recorrente das histórias em quadrinhos, Sua Majestade O Rei das Entressafras. Talvez por isto mesmo foi o eleito por Giffen e DeMatteis para ser o primeiro inimigo dos Defensores "toscos" (ainda mais).

Nas mãos hábeis de Kevin Maguire, Dormammu ganhou um visual meio s&m, tipo Hellraiser. Mas só mudou aí. Os roteiristas, espertos, praticamente não mexeram em nada. É incrível como os mesmos diálogos, lidos hoje, soam tão ridículos. Às vezes, Defenders periga virar uma história de uma piada só, sempre se baseando em toda aquela grandiloqüência e pompa descabidas - e algum espertinho(a) tirando sarro da clicherama e das situações incrivelmente piegas (lembrei logo do filho do Dr. Evil, de Austin Powers). A premissa, por si só, é quase um emblema do maniqueísmo pop: o demônio Dormammu se une a sua irmã, a impiedosa Umar, dando fim à uma desavença familiar (e milenar) que era a única coisa que o impedia de ser o detentor do Poder Absoluto. E qual é a maior ambição de Dormy agora que é um deus vivo? Dominar a Terra!® Só que sua "querida" irmãzinha tem outros planos...

Aliás, o resgate da personagem Umar foi um achado. Ela parece um mix de Cléo Pires e Angelina Jolie com o senso de humor fúnebre da Mortícia Adams. E além de ser uma gostosa de mão cheia...


...é uma tremenda ninfomaníaca, capaz de estremecer os alicerces da Torre de Mordo... digo, Dormammu. Atraída fisicamente pelo Hulk (!), Umar, fã de verdura, faz as mais de 100 toneladas de "sustança" do Golias Verde ficarem carentes de vitamina C(atuaba). Com ela, a expressão "enquanto eu tiver língua e dedo..." fica bastante depreciada.

Do lado dos heróis, sem grandes problemas também. Eles mesmos se autodestroem sem o auxílio de terceiros. Namor é uma figura: narcisista crônico, elitista e arrogante ao extremo. Banner/Hulk, depois de tanta desgraça que lhe acometeu na cronologia normal, já está mais pra lá do que pra cá: revoltado, cínico e com uma inequívoca atitude tô-fazendo-hora-extra-no-mundo. Já o Doc Strange vem com sacas daquela ironia cortante que vem sendo amolada desde Vikings, a mini do Thor escrita pelo Garth Ennis. E por incrível que pareça, o Surfista Prateado é o único que ainda não moveu nem uma palha, mesmo faltando apenas 1 edição para o arco terminar. Contudo, não deixa de ser insólita a sua situação: imerso em ponderações sobre o Sentido da Existência (uma constante), o angustiado Surfista se identifica com uma tribo terráquea e acredita que encontrará ali as respostas que tanto persegue. Cabe dizer que o Surfista do Maguire está igualzinho ao C3PO.

Vou te dizer. Esperava mais dos Defensores de Giffen/DeMatteis/Maguire. É melhor do que a última da JLA tosca (mesmo porque, esta já estava bem aquém das anteriores), mas com certeza eles podem fazer mais que isso. Seja como for, os diálogos ainda estão bem malandros, há ganchos realmente espirituosos (o que Umar e Dormammu fazem com o todo-poderoso Eternidade pode parecer blasfêmia pra alguns, mas que foi engraçado, foi), a tiração em cima dos clichês é nonsense total ("Onde está Dormammu? Se eu o conheço bem, deve estar contando ao Estranho cada detalhe do nosso plano. Ele sempre faz isso. Não consegue manter aquela boca flamejante fechada!"), e o Doutor Estranho está impagável nas alfinetadas que troca com o Namor e quando tenta convencer cada Defensor a retornar à equipe.

Mas o ponto alto da revista, na minha humilde opinião, é a dominatrix do inferno Umar, deliciosamente cruel. A menina rouba a cena! Além de ser uma pinup de cair o queixo e um paradoxo interessante a eterna silly-girl Mary Marvel. :)



QUEM NÃO TE VIU, QUEM TE VÊ


Estamos pagando o preço por termos deixado Hollywood monopolizar o mercado cinematográfico por todos esses anos. O mundo ao redor desta fábrica de sonhos está se tornando tão bom em produzir sonhos quanto, senão melhor. O que chega por aqui em termos de "novidade estrangeira" é à base de conta-gotas, naquele festival de cinema independente que vai acontecer em um estado que provavelmente não é o seu. Fora isso, é apelar para a última fronteira - avançando via web e treinando a paciência tibetana com aquele download interminável (porque o BitTorrent é lerdíssimo ou porque o e-Mule e congêneres ainda não encontrou fontes suficientes para baixar o arquivo). Isto pra não falar na legenda (a qualidade ou a falta da mesma), já que o idioma das produções não será o inglês. O resultado é Free Zone, Immortel, Guardiões da Noite, Oldboy, 2046, Casshern, Three... Extremes, Haute Tension, Sympathy for Mr. Vengeance e pérolas quetais, sendo exibidas num cinema bem longe de você.

Mas, às vezes, e só às vezes, um barquinho fura o embargo comercial/cultural e se materializa, como que por encanto, bem ali na locadora da esquina. Foi assim com Casshern, e um pouco antes, com Vidocq (França, 2001). Na época em que este filme foi lançado, houve um corre-corre underground que chegava a ser irritante, de tão restrito. Mandei se foder e fui seguir minha vida (=puta merda, todo mundo viu, menos eu!). Confesso que nem lembrava mais quando me deparei com esta jóia rara, hoje no semi-anonimato.

Dirigido pelo escalafobético Jean-Christophe Comar, o filme causou furor na época por ser a primeira produção filmada com as câmeras de alta definição da Sony, as tais CineAlta 24-P. E faz alguma diferença? Ô! Através deste recurso, o diretor optou por uma filtragem mais chapada no contraste de cores e redefiniu o conceito de fotografia e perspectiva digital. Ainda hoje, quatro anos depois, a concepção visual empregada no filme é impressionante. Às vezes chega a lembrar a psicodelia gótica do clip The Perfect Drug, do Nine Inch Nails, como na antológica seqüência do jardim.


Eugene François Vidocq (Gérard Depardieu) é um detetive na Paris caótica de 1830, à beira de uma revolução após uma abdicada básica de Carlos X. Ríspido, perspicaz e inteligente, Vidocq é considerado o melhor no que faz. Em meio aos distúrbios, uma série de raptos e assassinatos é atribuída à uma criatura aparentemente sobrenatural chamada O Alquimista, e é justamente o novo desafio de Vidocq. Durante um cerco, os dois se enfrentam no mano-a-mano e Vidocq fica dependurado sobre uma fornalha, Obi-Wan style. Quando o Alquimista revela sua verdadeira identidade (calma, não é spoiler!), o detetive, incrédulo, se atira nas chamas. Começa então uma investigação por parte de Etienne (Guillaume Canet), um jornalista que estava escrevendo a biografia de Vidocq.

Um detalhe: Vidocq realmente existiu e é considerado um dos pais da perícia criminal. Sendo assim, é natural que o mote do filme seja desmascarar cada fenômeno místico com um verniz de ceticismo que faria inveja ao Padre Quevedo. Algumas vezes, essa premissa consegue resultados brilhantes, como no engenhoso esquema do "relâmpago assassino" (dá até vontade de matar alguém daquele jeito). Mas é na reta final, quando já estamos mais experts do que os caras do C.S.I., que levamos um tostão daqueles que doem pra valer e tudo que aprendemos cai por terra. O que nos confirma o que esse filme é, de fato: um pop movie de aventura com lingüagem e dinâmica de revista em quadrinhos, muito divertido, inovador no conceito de produção e design, sem deixar para trás as tendências atuais dos filmes de ação (edição rápida e grandes lutas). Tudo isso, com direito à um final-surpresa desconcertante, a participação da belíssima Inés Sastre e um céu que parece saído de um óleo sobre tela vivo e pulsante.

Eu poderia chegar aqui e escrever que Vidocq é a adaptação que Do Inferno poderia ter sido (se eu não tivesse gostado de Do Inferno), mas a verdade é que o personagem merecia algumas linhas escritas pelo Alan Moore. É a cara dele.

A propósito, esse filme foi a estréia do diretor Jean-Christophe Comar. Logo depois, ele passou a assinar como Pitof (acredite se quiser, é ele) e, três anos mais tarde, foi pra Hollywood fazer História. Não no bom sentido, claro...



R Á P I D O  & R A S T E I R O
As Páginas do Rock'n'Roll



Uma homenagem ao guitarrista e produtor James Patrick Page, o Jimmy Page, nunca é demais (embora ele provavelmente não deva curtir homenagens em forma de mp3). Muitos ignoram o que o guitar-hero produziu entre o fim do Led Zeppelin, em 1980, e o retorno à parceria com Robert Plant, no discaço No Quarter, de 1994. Uma pena, pois teve coisa (muito) boa aí.



  • DEATH WISH 2 - MUSIC by JIMMY PAGE - A franquia Desejo de Matar é tenebrosa, mas contou com uma trilha sonora despirocante. No primeiro filme, de 1974, foi o mestre Herbie Hanckok quem compôs a trilha e nos brindou com algumas das peças mais sombrias de sua carreira. Em Desejo de Matar 2, de 1982, foi a vez de Page mostrar um belo serviço, contando com os vocais matadores de Paul Rodgers (Free, Bad Company). O disco remete bem ao peso Swingin' London do Led Zep, inclusive com aquela cara de "trilha de rua". Destaque para Jam Sandwich, City Sirens e a arrepiante instrumental The Chase.


  • THE FIRM - Em 1985, Page comete outro discaço ao lado de Rodgers, agora sob a alcunha The Firm. O que se ouve aqui é hard rock tradicional, direto da escola setentista, com bastante influência de blues rock. A Fender-Telecaster de Page soa mais classuda do que nunca em Closer, Someone To Love, Radiactive, na linda Together e em Midnight Moonlight, que traz incursões acústicas bem à Led Zeppelin III. O The Firm hoje é referenciado como um projeto fracassado de Page. Mas também... o que é que fazia sucesso na época? Bon Jovi, Warrant, Poison, Motley Crüe? Se eu fosse o Page, me sentiria lisonjeado. ;)


  • JIMMY PAGE - Outrider - Este álbum solo de 1988 contou com uma big band no estúdio: os vocalistas Chris Farlow (faixas 6, 8 & 9), John Miles (faixas 1 & 2), o baterista Barrymore Barlow (faixas 5 & 7), quase um baixista diferente por música e duas presenças pra lá de ilustres - Robert Plant cantando na paulada The Only One e Jason Bonham, filho do John, espancando a bateria em todas as outras faixas. O disco é todo excelente, mas é impossível não se emocionar com Prison Blues, um bluesão arrastado, manhoso e pesadão, típico do Led Zep dos primeiros discos.




  • "When all are one and one is all...

    ...To be a rock and not to roll"



    Esses discos aí ao lado ficam até quarta ou quinta, capice?