O Exterminador do Futuro: A Salvação é o filme mais importante da série. O maior clímax da saga desde a sua criação e toda a sua razão de ser. Em tese. Narrativamente, é ao redor de Salvação que os eventos dos capítulos anteriores foram estruturados. Todos os conceitos criados por James Cameron, junto com Gale Anne Hurd: o cenário de pesadelo apocalíptico, exterminadores e hunter killers esterilizando o planeta, a raça humana à beira da extinção e o último foco de resistência encontrando na figura de John Connor o seu messias. É a Caixa de Pandora da série, enfim escancarada.
Além disso, é o período onde todos os deslocamentos temporais convergem na forma de pontos de origem - com todas as motivações e situações tão citadas e nunca mostradas atreladas a cada viagem. Mas, o mais importante, é onde o loop/anomalia se inicia. Se John e Sarah Connor tivessem realmente salvo o mundo de uma guerra em T2, eles estariam condenando a existência de John, visto que seu pai veio daquele futuro caótico. Estava na cara o tempo todo: enquanto John Connor existisse, haveria guerra*.
* pra manter a conversa num nível são, vou pular o Gato de Schrödinger, altamente aplicável neste caso. Mas as pirações estão liberadas nos comentários.
Em geral, o ponto zero desses loops temporais é muito difícil de detectar, já que inverte todos os princípios da causalidade. Eu bem que já tentei, mas nem arranhei a lataria. A última temporada de Lost bate pesado nessa tecla. O excelente Los Cronocrímenes é todo sobre isso. Para esta situação hipotética pode até não haver alguma explicação lógica - ou filosófica, que seja -, mas ao menos em Salvação, ou a partir dele, há a chance de testemunharmos cada momento onde os filmes anteriores nasceram. Isso, mais uma vez, em tese.
Igualzinho ao resto da humanidade, não espero muito de um filme com McG na direção. Tenho evitado spoilers com destreza notável, dada a lista peçonhenta dos meus favoritos, mas 33% no Rotten Tomatoes se faz ouvir até no continuum espaço-temporal.
Pelas prévias, nota-se que o roteiro virtual desenhado nos três filmes anteriores foi ignorado em detrimento ao aspecto bélico do terminatorverse. O que não é nada mal também.
Esquecendo por um momento o vil metal que move tudo isso (e não estou me referindo ao exterminador). Basicamente, quem é fã da série, sempre quis ver aquela guerra. Lembro bem da primeira vez que assisti ao filme original e fiquei fascinado com os flashes daquele futuro aterrador. De repente, o plot principal search and destroy parecia apenas a ponta do iceberg. Os campos de extermínio citados por Reese, caveirões HK gigantescos e as unidades aéreas varrendo os escombros e explodindo guerrilheiros da resistência com raios laser púrpuras. Se você não fosse soldado, seria um moribundo agonizando em um bunker, devorando ratos como se fosse um banquete.
Isso sem falar da aterrorizante possibilidade de, a qualquer momento, alguém na multidão se revelar um exterminador, puxar um canhão de plasma e sair atirando em todo mundo - como o nosso amigo fantasmagórico aí em cima.
Às vezes, uma parte supera o todo. Eu simplesmente queria mais daquilo, muito mais. E o sentimento ficou em stand-by. Até hoje.
[trilha do Brad Fiedel aqui]
Nos extras do DVD do primeiro filme, há uma extensa galeria onde James Cameron mostra que, além de tudo, é um grande ilustrador. Os designs e concepções foram meticulosamente criados e desenhados por ele. Impensável nos dias atuais, onde existem equipes pra tudo (e talento inversamente proporcional). O material é de cair o queixo e bota muito desenhista famoso aí no chinelo. Três amostras:
Vamos descontar o terminator tentando pegar a Sarah com uma faca de cozinha. Todo mundo tem sua fase Stephen King.
Primeiro as exceções: micaretas metálicas que ainda têm força nas distantes highlands (Wacken, Dynamo Open Air, Gods of Metal, Download, Graspop, Sweden Rock e euro afora); estrelas que se reviraram em formações e nuances para manter o status multiplatinado (Metallica/Iron Maiden); por último, os raríssimos dinossauros que empilham gerações e destroçam tudo por onde passam (só me vem à cabeça o Heaven & Hell). A impressão que se tem é que o metal ainda vai penar mais uns bons anos nos serviços de proteção ao crédito. Aliás, eu digo "metal", mas pode atrelar isso a todos os seus subgêneros e vizinhos de radicalismo musical, como o hard rock, o industrial e o hardcore, por exemplo. Movimento? Que movimento, cara-pálida?
Como resultado, vemos algumas anomalias outrora impensáveis, devidas as proporções: bandas veteranas como Testament, Overkill e Exodus fazendo show pra dez pessoas nos EUA, Gary Holt (Exodus) reclamando que não tem nem carro e um Sepultura desCavalerizado na estrada com o Angra (!). Todas elas - e muitas outras - cada vez mais distantes da MTV e da marca das 100 mil cópias vendidas.
Mas cada um se vira como pode. E neste sentido, poucos tiveram uma visão de mercado tão objetiva quanto Jeff Waters, guitarrista e líder... ou melhor, o próprio Annihilator, em carne e osso. Contabilizando quase uma formação nova por disco lançado, o cara vem atravessando crise após crise (no metal e fora dele) desde 1984. Sem dúvida, encontrou um nicho de sobrevida underground aí. Quem conhece a banda, sabe do esquema de Waters: "contrato pelo piso do sindicato, sem vale-transporte, nem plano de saúde ou ticket-refeição, mas com direito a muito headbangin' e thrash no talo".
A seguir, um trecho de uma entrevista com ele publicada na revista Rock Brigade (#214, maio/2004). Uma lufada de sinceridade em estado bruto e ainda em plena garantia da sua fórmula venc(d)edora.
RB - A gravadora nunca fez nenhum tipo de pressão para o Annihilator se tornar uma banda de fato? WATERS - Claro que fez. Volta e meia tem essa história de "você precisa fazer o Annihilator parecer uma banda de verdade". Acho isso meio idiota, pois todo mundo sabe que o Annihilator é mais um projeto solo meu do que qualquer outra coisa. Lógico que, quando estamos em turnê, somos uma equipe, cada um tem sua função, porém, em sua essência, é um projeto solo mesmo. Mas gostaria de frisar que na hora da divisão do dinheiro dos cachês, todo mundo ganha igual, eu não recebo um centavo a mais do que os outros músicos.
(...)
RB - A maioria dos músicos que centralizam tudo na banda, como Dave Mustaine e Yngwie Malmsteem... WATERS - [interrompendo às gargalhadas] Blackie Lawless, você esqueceu de mencionar o Blackie Lawless, do WASP!!!
RB - Ok, gente como Lawless, Mustaine e Malmsteen têm fama de serem pessoas difíceis de trabalhar, por isso estão sempre mudando a formação da banda. É difícil trabalhar com você também? WATERS - Tão difícil quanto trabalhar com qualquer chefe. Alguns chefes são legais, outros são chatos. Eu tenho que ser um chefe legal, pois não posso pagar tanto quanto o Megadeth ou o WASP, por isso, compenso sendo um cara muito legal [risos]. Todo músico tem aquele lado do ego que precisa ser massageado, que precisa ser o centro das atenções. Quando um músico assim entra numa banda como o Annihilator, fica meio frustrado porque as atenções estão sempre voltadas para mim, as entrevistas são sempre comigo. Além disso, no início, todos topam qualquer coisa, porém, depois de um ano começam a querer mais dinheiro, mais dinheiro, mais dinheiro. Foi o que aconteceu com o Randy Black, ele saiu porque o Primal Fear podia pagar mais para ele. Ele queria um aumento de salário, eu não pude pagar e ele foi embora. E, apesar de todas as mudanças de formação do Annihilator, apenas duas ou três vezes fui eu quem tirou o cara da banda. Na esmagadora maioria das vezes, os músicos saíram para ganhar mais ou por questões familiares.
RB - Você não fica um pouco frustrado quando percebe que o dinheiro é mais importante do que a música em si? WATERS - Eu vejo a coisa de um modo diferente. Nos anos 80, o heavy metal enriqueceu muita gente. Quem era suficientemente esperto para não se afundar em drogas e álcool, ganhou muito dinheiro no heavy metal. Eu, por outro lado, ganhei bastante dinheiro com o metal nos anos 90. Porém, perdi quase tudo quando me divorciei - e aconselho todo mundo a jamais se divorciar no Canadá, eles arrancam tudo da gente [gargalhadas gerais]. Hoje em dia, quem quiser sobreviver tocando heavy metal tem que ser bom músico, fazer bons contratos e ter alguma sorte, senão vai passar fome. Lógico que sempre há um James Hetfield nadando em milhões sem precisar fazer quase nada, mas isso é exceção. Mesmo bandas consagradas como o Slayer precisam suar muito para ganhar um bom dinheiro. E eles realmente ganham, mas precisam estar em turnê todo ano e vender bem seus CDs para manter seu padrão de vida. Por outro lado, bandas do nível do Annihilator precisam trabalhar muito para sobreviver, para poder comprar, por exemplo, uma casa própria. E é por isso que eu não condeno os músicos que trabalham por dinheiro, pois eles precisam sobreviver, precisam pagar aluguel e fazer as compras de supermercado. O mundo funciona por dinheiro e na cena heavy metal não é diferente.
Não parecia uma má ideia. De um lado, Gavin Hood, diretor oscarizado escolhido a dedo. De outro, o astro Hugh Jackman e o expoente mais popular de uma trilogia que já ultrapassou há tempos os nove dígitos. Pra garantir, uma publicidade massiva em ritmo spammer despejando na mídia toneladas de teasers, trailers, spots e promos diversos - era impossível abrir browser que seja nos últimos meses sem ser cutucado por seis garras de adamantium. Nem precisaria tanto: qualquer um com residência fixa no planeta Terra já ouviu falar no baixinho invocado canadense, que completou em abril 35 anos de existência. Hoje, Wolverine é tão ou mais conhecido que Jesu... o Homem-Aranha. Sendo assim, não é exatamente uma surpresa que X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009) se revele um filme de ação absolutamente genérico. O que surpreende mesmo é o afinco com que os realizadores se apegam a esta fórmula batidaça, como se a história do personagem não fosse extraordinária o suficiente.
É sintomático que o nome de Jackman conste também nos créditos de produção. Durante todo o filme nota-se o tremendo esforço em defender aquela sua (boa) versão que já conhecemos através de X-Men, X2 e do subestimado X-Men: O Confronto Final. O galã alto com a fuça do jovem Eastwood, notadamente mais sociável que o Taz violento e beberrão dos quadrinhos. Aquele carcaju que aprendemos a aceitar, como diria um desalinhado amigo meu.
Créditos à parte, quase tudo que é demais cansa. E, pra mim, o filme atingiu essa cota com menos da metade de projeção.
O início é muito bacana. Sintetizou a saga Origem, de Paul Jenkins e Andy Kubert, com competência, esmero dramático e boa caracterização dos personagens. As contrapartes jovens de Logan e Victor Creed (Troye Sivan e Michael-James Olsen, respectivamente) fazem por merecer mais tempo de tela, bem como seus pais, John Howlett e Thomas Logan (Peter O'Brien e Aaron Jeffery), perfeitos até na semelhança física. Em seguida, acompanhamos Logan e Creed (Liev Schreiber) através dos anos, se valendo de seus fatores de cura no front das maiores guerras da História, onde se destacam uma eficiente produção, zero de grafismo e a fraca trilha sonora de Harry Gregson-Williams. Normalmente, eu nem esquentaria com esse detalhe, não fosse o tipo da sequência em que a trilha, ao exemplo da intro de Watchmen, personifica "apenas" o coração das cenas.
Como era de se esperar, os dois acabam chamando atenção das esferas superiores do exército, representadas por William Stryker (Danny Huston, infelizmente sem inspiração aparente no marcante trabalho de Brian Cox, que encarnou o personagem mais velho em X2). Logo, ele os convoca para integrar um grupo mutante black ops. Além deles, participam da equipe Wade Wilson (Ryan Reynolds), o Agente Zero (Daniel Henney), o eletrocinético Bolt (Dominic Monaghan, de Lost), John Wraith (o rapper will.i.am) e o irremovível Blob (Kevin Durand). Durante uma missão ligeiramente hardcore na Nigéria, as coisas saem do controle, para a tristeza de Logan e felicidade do psicopático Creed.
Contrariando Victor e Stryker, Logan decide pendurar as garras. Durante seis anos, ele leva uma vidinha pacata como lenhador nos cafundós do Canadá, ao lado da namoradinha Kayla (a fabulosa Lynn Collins, de True Blood). Até que um dia, Stryker dá as caras e avisa Logan que alguém está eliminando seus ex-companheiros de batalha. Quando o pior acontece, ele se vê obrigado a voltar a fazer o que sabe melhor.
É com esse script de Jeph Loeb's Comando para Matar que o filme se apóia, com direito a uma breve escala pela saga Arma X. Numa estrutura narrativa encontrada facilmente em qualquer filme do Van Damme, vê-se que os roteiristas David Benioff e Skip Woods beberam mais na fonte do baixinho belga que na do baixinho canadense do sr. Windsor-Smith. Até os fragmentos de lembranças de Logan mostrados ao longo da trilogia X foram mais fiéis. E sanguinolentos. Há algo muito errado quando um sujeito transtornado, com seis lâminas indestrutíveis nas mãos, sai por aí atrás de confusão e o máximo que consegue são umas gotinhas de sangue. Aí fica impossível ilustrar a extensão de sua natureza mutante.
No filme, Wolverine é soterrado por uma avalanche de toras e atropelado por um caminhão em alta velocidade, mas só o que contabiliza são leves arranhões no rosto. O fator de cura nem deve ter sido ativado. Só como um comparativo, nos quadrinhos, a mesma situação soa muito mais visceral.
Isso é particularmente prejudicial na cena em que Logan decide largar a equipe mutante. Pode me chamar de insensível, mas uma única morte inocente para mudar a cabeça um cara que participou de mais guerras que o deus Ares é muito, muito pouco. Sinceramente, até demorei em entender qual foi a bronca do herói ali, já que todo mundo escapou ileso e só um ficou caído. Quer impacto dramático de verdade numa situação de crise contextualmente similar? Pegue O Senhor das Armas, com Nicolas Cage. Melhor ainda: Hotel Ruanda, com Don Cheadle.
X-Men Origens: Wolverine é PG-13 ("intensas sequências de ação e violência, e alguma nudez parcial"), mas nem um terço do potencial dessa classificação é aproveitado. Ah sim, tem crianças assistindo. Deixa a violência pro playstation.
Pra piorar, a única nudez parcial mostrada foi a de um cara. As menininhas que acham o Wolvie "um gato" agradecem.
Não só a demora em acontecer algo realmente arrebatador incomoda, mas também os contornos de melô romântico que o filme vai adquirindo. E quando a ação chega, é uma cacofonia coreografada de qualidade duvidosa, com muitas poses, explosões e nenhuma criatividade. Lutas sem razão excedem o limite do razoável. Logan enfrentando Blob foi ridículo em motivação e concepção (mudança por mudança, seria muito melhor se deixassem o gordo com o visual Juggernaut do início) - cena piorada pela legendagem que se enrolou toda no trocadilho com o Blob-"bub". O mesmo acontece na treta gratuita com o Gambit (um desperdiçado Taylor Kitsch).
Sem qualquer sensibilidade com o material original ou com as possibilidades de uma série, Travis (James, nos quadrinhos) e Heather Hudson deixam seu posto no Departamento H para se tornarem um doce casal de velhinhos. Patologicamente simpáticos, eles acolhem Logan em circunstâncias bastante inverossímeis para os dias atuais. Nem a Tia May seria tão solidária.
Alguns cacoetes visuais são regurgitados ad nauseum e beiram o humor involuntário, como os sucessivos gritos de Logan para a câmera em plongée (de cima pra baixo) e a mania dele e Creed em iniciarem suas lutas se jogando um contra o outro - e confie em mim que o clicherômetro bate no mil quando dois personagens atravessam juntos uma janela que está logo atrás. Na hora lembrei da mesma cena em Blade Trinity. Ótima referência, hein?
Mas não é só!
Spoilers à frente.
Existem dois tipos de reviravolta final: aquela que muda toda a ótica do que sabemos, não raro nos deixando no lado oposto do que gostaríamos, e aquela que dá um gostinho de inutilidade a tudo o que aconteceu até ali. É o que acontece no filme. Nada de uma bela saga de redenção, altruísmo e sacrifício heróico, mas uma simplória e frustrante farsa, sugerindo que Stryker, além de proeminente insider militar, também é fã de um dramalhão mexicano. A cena em que Kayla se mostra viva, fitando Logan em silêncio, é estranhamente longa, como se quisessem potencializar o "choque" daquela revelação. Demora tanto que até pensei que a garota fosse um robô, um clone ou algo que o valha.
A luta final contra Deadpool/Agente XI é autosabotada. Primeiro, porque escalaram para o papel Scott Adkins, um dos pancadeiros mais impressionantes da atualidade. Segundo, porque colocam Wolverine e Dentes de Sabre juntos para esmerilhar o fulano na unha. Expectativas superando as escalas. E o que fazem? Levam a peleja para um espaço impraticável pra qualquer coisa, quanto mais pra uma coreografia marcial decente. Um caralho de uma borda lá nas alturas onde, providencialmente, as leis da Física impedem qualquer queda que não seja intencional. Haja paciência.
Aliás, se Wade era o Deadpool, porque chutaram Ryan Reynolds do clímax? Adkins não precisou fazer nada mesmo de excepcional naquelas cenas e Reynolds esteve excelente na sequência em que levou uma espada para um tiroteio.
Nem vou citar - já citando - a morte imbecil do Agente Zero. Com poderes que parecem saídos da adaptação de Procurado e uma técnica bacanuda à Gun kata, seria motivo de sobra para um mano a mano retalhador com o Wolvie. Mas acharam melhor botá-lo para brigar "de helicóptero" - treta concluída com o clichê mais constrangedor do filme. E toma ceninha de herói caminhando friamente de costas para uma explosão (fake, por sinal). Eu lembro quando isso já foi cool, lá pela década de 70.
E com tantos sketches de ação estereotipada, logo esquecemos o Oscar que enfeita a lareira do diretor Gavin Hood para lembrarmos de seu passado de ator - American Kickboxer, Kickboxer 5 e os clássicos Força Delta 2 e 3 te dizem alguma coisa?
Como se não bastasse, a reta final se aproxima perigosamente de Star Wars: A Ameaça Fantasma. Vide Logan dando cobertura à fuga dos prisioneiros enquanto encara o Agente XI, numa cena que praticamente reedita o aparecimento de Darth Maul para os jedi Qui-Gon Jinn e Obi-Wan. E também a conclusão dessa luta, com o vilão despencando de maduro e um pedaço de seu corpo se separando durante a queda.
Afe. Assim parece até que detestei totalmente.
Contudo, curti o filme em certos aspectos. Liev Schreiber, numa ótima performance, é Victor Creed até o olhar assassino. Os links com os eventos da franquia X são respeitados no limite do possível e até conferem uma nova dimensão àqueles filmes. Destaque positivo para as participações do jovem Scott Summers (Tim Pocock) e de Emma Frost (Tahyna Tozzi), sem comprometer a continuidade. O mesmo para a rápida aparição do Professor Xavier, eternizado por Patrick Stewart.
E Hugh Jackman, carismático que só, nos relembra o quanto é legal ver um ator se divertindo horrores com um personagem. Nada mais justo, já que sem o Wolverine, ele provavelmente ainda estaria criando ornitorrincos na Austrália.
Não, bub, não foi dessa vez. Mas, como bom leitor de quadrinhos, o amor aos personagens vem primeiro. Torçamos para que as bilheterias mantenham o ritmo avassalador e viabilizem mais e melhores continuações - o que não é assim tão difícil (LoL & perdão). Material pra tanto não falta, afinal, já chegamos ao Japão e Madripoor é logo ali. Quem sabe numa dessas, o carcaju possa realmente fazer o que sabe melhor.
Ps: atenção para o final pós-créditos. Pps: saudações rubro-negras!
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Operação Resgate Goose depois de horas... e antes de Cloverfield
Em meados dos anos oitenta, Anthony Edwards sentia o gostinho frisante do estrelato. Personificando a entidade nerd suprema (foi o Gilbert, de A Vingança dos Nerds, 1984) e disputando com Tom Hanks a supremacia das comédias de garotão criado a sucrilhos (Gotcha!, 1985), ele viu as portas do 1º escalão se abrirem quando interpretou o sidekick boa-praça de Top Gun, em 1986. Goose era o cara - e ainda pegava a jovem Meg Ryan (qualquer subtexto gay presente no longa deveu-se exclusivamente ao chororô suspeitíssimo do Maverick!). Nessa trajetória ascendente só faltava mais uma prova para o carisma de Edwards. Algo que o desafiasse dramaticamente e atestasse sua capacidade de protagonização extrema. De segurar um filme praticamente sozinho.
Miracle Mile (EUA, 1988) é um daqueles casos em que uma produção já nasce pertencendo a um ator. E até vice-versa, eu diria neste caso. É um pequeno grande filme que poderia ter alçado a carreira de Edwards a novos patamares, não fosse sua quase total obscuridade. Mesmo nos Estados Unidos, Miracle Mile é o que se pode chamar de pérola do anonimato - termo clichê, mas absolutamente fiel. Provavelmente agora, após o relançamento em dvd, suas inovações tenham finalmente a apreciação que merecem. E isto se estende até as "inovações" de produções recentes, em particular Cloverfield.
Escrito e dirigido por Steve De Jarnatt, Miracle Mile tem um início que sugere uma comédia romântica com um toque one-crazy-night, na cola de Depois de Horas, de Scorcese. Mas aos poucos o roteiro vai montando um retrato de sua real natureza: uma espécie de thriller incidental de Guerra Fria com narrativa em 1ª pessoa e, após os quinze minutos iniciais, transcorrendo em tempo real.
O comecinho do filme não dá qualquer pista do que está por vir. Edwards é Harry Washello, um músico trintão e solitário em busca de raízes e de uma alma gêmea - artigos raros na Los Angeles superficial dos anos oitenta. Mas ele acaba conseguindo as duas coisas, casualmente, quando conhece a garçonete Julie (a brat pack albininha Mare Winningham). Ambos estão no mesmo momento da vida, na mesma sintonia, curtem as mesmas coisas e estão afim. No dia seguinte, Harry conhece os simpáticos avós de Julie, a acompanha até a lanchonete onde trabalha e marca de pegá-la, em todos os sentidos, ao final do expediente, à 00:15. Enfim, um beijo acontece. Empatia total.
Mas do mesmo jeito que o acaso apresenta Harry à Julie, também começa a conspirar contra o rapaz utilizando todos os rigores da Lei de Murphy. Harry volta ao seu hotel, pensa na grande noite, programa o despertador e vai curtir uma rápida e revigorante soneca. Num lance incrível de azar, que só pode ser explicado como uma traquinagem quântica (envolve uma pomba e um cigarro descartado por Harry), ocorre um blecaute no prédio inteiro. Desta forma, o despertador não cumpre seu papel, Julie fica plantada por 1 hora na frente da lanchonete e Harry bate o recorde de atrasos, acordando às 3:45 da manhã.
No desespero, ele pega a caranga e sai rasgando até a lanchonete, na vã esperança de ainda encontrá-la por lá. O estabelecimento fica situado bem na Miracle Mile, área de forte concentração comercial e cultural de Los Angeles. A partir daí acompanhamos Harry minuto a minuto.
Chegando lá, alguns indícios soam como pequenas travessuras do destino: a "chuva de ratos", um sem-teto bêbado resmungando sobre caos e destruição, um telefone público 'ringando' insistente... mas tudo bem, afinal é Los Angeles, a cidade que nunca dorme. No interior da lanchonete isto é perfeitamente comprovado, com uma clientela até generosa para as quatro da madruga - e sobretudo, bastante diversificada. Estão lá dois motoristas de caminhão de limpeza, uma bitolada com roupa de aeromoça, uma senhora babando de sono, um travesti jogando conversa fora com o próprio Dr. Silberman (Earl Boen, num personagem não-batizado que bem poderia ser o bom doutor aqui... o impagável ar monótono é o mesmo) e a corretora Landa (a bela Denise Crosby, de Cemitério Maldito e Mortuária), além dos funcionários e o dono do lugar, Fred (o excelente Robert DoQui).
Através de uma colega de Julie, Harry tem a noção do furo que deu e vai até a cabine telefônica ligar pra ela, mas só consegue deixar uma mea culpa na secretária eletrônica. Quando desliga, o telefone volta a tocar sem parar e Harry, por que não, resolve atender. Do outro lado da linha, um homem de nome Chip, bastante transtornado, dá a entender que trabalha num silo de mísseis em Dakota do Norte. Sem dar tempo para Harry responder e acreditando falar com seu pai ao telefone, Chip afirma que eles acabaram de lançar uma ofensiva nuclear que atingirá seu alvo em cinqüenta minutos.
E o pior: segundo Chip, um contra-ataque em larga escala já está cruzando o globo naquele exato momento e levará cerca de setenta minutos para atingir os Estados Unidos. Subitamente, Chip é "retirado" da linha e uma voz seca diz pra Harry esquecer tudo e voltar a dormir.
O trote de 1º de abril mais sádico de todos os tempos?
A principal questão do roteiro é: como um telefonema de credibilidade duvidosa poderia desencadear a série de acontecimentos posteriores? A resposta vem logo em seguida, dentro da lanchonete, no que se poderia comparar a uma panela de pressão esquentando lentamente até explodir. Harry perdido em turbilhão de incertezas e tentando convencer os demais sobre a gravidade da situação, num crescendo sufocante cujo clímax, embalado pela trilha dramática do grupo Tangerine Dream, é de expelir o coração até a altura da garganta.
Sem exagero: pra mim, é um dos momentos mais antológicos do cinema em todos os tempos. A cena é perfeitamente montada, dirigida, interpretada e, acima de tudo, convincente. Transcende até o declínio do anticomunismo na época (fim dos anos 80), mostrando que, na prática, nenhuma paranóia é velha demais.
Após algumas ligações para seus contatos no governo, Landa descobre que quase todos deixaram o país. É o suficiente para incendiar aquele microcosmo, em especial o personagem Fred, que imediatamente prepara sua van pra cair na estrada. Sob a orientação de Landa, eles rumam direto ao aeroporto mais próximo, deixando alguns incrédulos pra trás. Harry embarca na fuga, mas não vai muito longe, pois quer voltar pra pegar Julie e seus avós. E o faz sozinho, pois ninguém ali quer perder um décimo de segundo. Antes de Harry pular da van (em movimento), Landa avisa que reservou um helicóptero nas proximidades para garantir uma última retirada para o aeroporto em menos de quarenta minutos.
Assim, nosso herói retorna ao coração da Miracle Mile para salvar a garota dos seus sonhos. No processo, topa com figuras urbanóides de todo o tipo, a começar pelo ladrão Wilson (um Mykelti Williamson pré-Forrest Gump, creditado aqui como Mykel T.).
O que, a princípio, parece uma tarefa simples, se torna uma montanha-russa de idas e vindas. O clima é de pesadelo recorrente. Toda vez que Harry tem de voltar pra encontrar algum personagem crucial para tirá-lo daquela situação, é como se a deadline apertasse mais forte o pescoço do espectador.
Num clima de tensão absurda, o cenário vai se tornando mais caótico e violento a cada minuto.
Steve De Jarnatt já mereceria todos os créditos só pela brilhante sequência da lanchonete (sendo mais preciso, da cena arrepiante do telefonema até Harry saltar da van), mas são nas tomadas externas ao final, que o cineasta se revela um gênio blockbuster. Senão vejamos... A cidade amanhece em meio a um rush na avenida mais congestionada do inferno, com milhares de veículos, turbas enlouquecidas, tiroteios e explosões pra todo lado. Isso tudo construído pra montar um panorama totalmente desordenado. Conduzir essa bagunça multilateral de maneira verossímil numa era pré-CG não é pra qualquer um. Criar bons ganchos de ação no meio disso tudo, muito menos. Com certeza, os diretores da segunda unidade, Leo Zisman e David C. Anderson, tiveram dias complicados.
Outro "detalhe". Estas cenas começam no fim da noite, se desenrolam durante o nascer do sol e seguem adiante. Ao ar livre, com o céu ao fundo e a luminosidade aumentando gradualmente até o dia ficar totalmente claro. Sem querer dar uma de expert em processo cinematográfico, mas isso é extremamente difícil, lento e trabalhoso. Muitos diretores consagrados evitam esse tipo de cena justamente por depender de inúmeros fatores fora de qualquer controle. Nas produções recentes, o único exemplo corajoso que me lembro é o de Jonathan Mostow, que filmou nestes mesmos moldes uma sequência importante de Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas (e, acredite se quiser, numa escala bem menor do que a de Miracle Mile). Aliás, foi pelo próprio Mostow, nos comentários do dvd, que eu soube do tamanho desse abacaxi radioativo. Não esquecendo que Jarnatt ainda estava regendo um apocalipse logístico nessas cenas.
O filme ainda traz algumas citações espertas no subtexto. Uma delas é o livreto que Landa tira de sua maleta. É uma referência ao livro "O Arco-Íris da Gravidade" (Gravity's Rainbow, 1973), épico pós-modernista/histórico/digressivo/conspiratório/fatalista de Thomas Pynchon. O livreto em questão é um cliffsnotes, espécie de guia de estudos para obras consideradas muito complexas - o que se aplica bem no caso de um livro cujo plot soma mais de 400 personagens e se utiliza de uma vasta gama de estilos narrativos interseccionados, com conhecimentos avançados em diferentes disciplinas. A trama, ambientada no final da Segunda Guerra, é centrada na produção alemã dos mísseis V-2 e a busca por um misterioso dispositivo chamado "Schwarzgerät", que seria incorporado a um foguete específico com o número serial "00000".
Controverso, o livro bagunçou até o Pulitzer de 1974, quando foi desautorizado da indicação. Recentemente, ganhou uma edição especial com arte de capa assinada por ninguém menos que Frank Miller - dizem, a pedido do próprio Pynchon.
Outra referência interessante também é relacionada à personagem Landa. Assim que ouve os fatos narrados por Harry, ela considera a possibilidade do governo já ter uma contingência para a situação. Nesse momento, revela que um ex-namorado trabalha na RAND Corporation (Research ANd Development), organização criada há sessenta anos com o objetivo de projetar análises e cenários para as forças armadas norte-americanas. Com o tempo, se diversificou e passou a trabalhar também com fundações privadas, internacionais e até com outros governos. Em suas fileiras, já estiveram mais de trinta vencedores do Nobel, entre outros notáveis. Donald Rumsfeld e Condoleezza Rice são afiliados.
Atualmente a RAND opera low profile em assuntos como terrorismo, economia e serviços de saúde. Mas durante sua longa trajetória foi acusada de incentivo ao militarismo e associada a um sem-número de teorias da conspiração. Segundo o livro Soldiers of Reason, do jornalista Alex Abella, a RAND, habitué nos corredores do poder, persuadiu o alto escalão do governo de que era possível vencer uma guerra nuclear.
No filme, por coincidência (?), a fixação por eficiência impressa nas atitudes de Landa é puro objetivismo de Ayn Rand ("a philosophy for living on earth"). As cenas em que a personagem monta o cenário mais provável, organiza mentalmente sua agenda e distribui tarefas revela uma Randista nata.
Um inesperado efeito colateral: Miracle Mile apaga bastante o brilho de Cloverfield. É chato admitir. Acho o filme do diretor Matt Reeves um dos mais divertidos do ano passado, mas a verdade é que, em determinado momento de Miracle Mile, o plágio é evidente. Não se trata nem de um elemento ou outro, mas uma estrutura narrativa inteira do filme sendo copy-pasteada para o cartão de memória da câmera de Cloverfield. Isso sem falar em algumas cenas-chave pontuais e conceitos básicos da premissa.
Abaixo, as similaridades menos sutis - algumas listadas no fórum tosco do IMDb. Marque pra ler (atenção, SPOILERS!)
Ω o cara que volta ao inferno pra salvar a garota, contrariando todo mundo;
Ω a cena na loja de eletrônicos, com as tevês ligadas noticiando o caos;
Ω o helicóptero levantando vôo rumo à salvação, sendo atingido e caindo rente aos prédios (sequência idêntica);
Ω referência ao Superman - aqui, fazendo mais sentido;
Ω a história retornando karmicamente ao seu ponto de partida, num parque;
Ω o final, quando a garota quer sair e ele diz "não resta mais nada lá fora";
Ω o casal trocando as últimas palavras num ambiente claustrofóbico, diante da morte iminente;
Ω o impacto-conclusão, vitimando a dupla de protagonistas.
Não é difícil entender por que Miracle Mile foi um fracasso. Mesmo o cartaz original não traduz corretamente a proposta do filme - e olha que é um fabuloso pôster de filme-catástrofe:
É certo que muita gente saiu das salas de cinema perguntando se alguém anotou a placa do caminhão. Os dois últimos atos de Miracle Mile são radicalmente diferentes do primeiro. Charlie Brooker, roteirista e crítico do Guardian, escreveu que o filme tem a maior mudança de tom que ele já viu. Jay Carr, do Boston Globe, o considera bagunçado, mas com uma energia e urgência difíceis de esquecer. A cultuada revista britânica Neon o elegeu o filme mais depressivo de todos os tempos (IMHO, não, mas quase chega lá). O consenso da crítica na época era de que Miracle Mile era um tour-de-force caótico e perturbador.
Mas quem chegou mais perto, como sempre, foi o crítico Roger Ebert, com sua visão contundentemente sóbria e enxuta. Seu review no programa Siskel & Ebert at the Movies, logo a seguir, é genial (razão pela qual optei por postá-lo ao invés do trailer). Mas funciona apenas pra quem já viu o filme - caso contrário, o mais interessante é checar sua crítica escrita.
O paralelo que Ebert faz entre Miracle Mile e Depois de Horas é perfeito. Interessantes também são os comentários divergentes entre ele e seu colega Gene Siskel sobre a estética 80's na direção de arte. Deliciosamente datada e, pra mim, conferindo até um charme a mais ao filme, ela é um contraste flagrante com porradas na boca do estômago, como Testament e O Dia Seguinte, ambos de 1983.
Após Miracle Mile, a carreira de Anthony Edwards no cinema não deslanchou, mas também não foi uma nulidade total. Coadjuvou em vários filmes, dirigiu um infanto-juvenil e protagonizou outros menos cotados (entre eles, Cemitério Maldito II). Foi melhor sucedido em produções mais recentes, como Os Esquecidos, com Julianne Moore, e escondido ali no meio de Zodíaco, de David Fincher. Mas, sem dúvida, sua grande projeção foi na telinha, no papel do Dr. Mark Greene, do popular seriado E.R. (no Brasil, Plantão Médico), onde permaneceu de 1994 a 2008.
Mare Winningham percorreu um caminho parecido, ainda mais focado na televisão. Participou de várias séries, de E.R. e A Sete Palmos a Boston Legal e Grey's Anatomy.
Miracle Mile foi o segundo longa de Steve De Jarnatt. Considerando que sua estréia foi no cult trash Cherry 2000, apenas um ano antes, é algo a se admirar. Antes de ser produzido, o cineasta rodou com o script em Hollywood durante dez anos, quando conseguiu carta branca da Warner. A gigante, porém, queria uma produção mais comercial com algum diretor famoso e não um iniciante como Jarnatt. Diante do impasse, o filme seguiu engavetado por mais três anos, quando o diretor o arrematou por 25 mil dólares. Ele o reescreveu e o estúdio ofereceu 400 mil para comprá-lo de volta, no que foi prontamente recusado. Finalmente, Jarnatt recebeu 3 milhões de dólares da pequena Hemdale Films para iniciar a produção.
Posteriormente, Jarnatt também seguiu carreira na TV, dirigindo, roteirizando e produzindo diversos seriados. Nunca mais retornou ao cinema, mas deixou a sua marca. Bom pra ele que Miracle Mile conste no portfolio. Afinal, não é todo mundo que tem cacife pra dar uma de Terrence Malick ou Edson Arantes do Nascimento.
Em 2008, os vampiros voltaram com tudo aos meios pop. É bem verdade que o filão dos sanguessugas esteve mais evidência devido ao hit Crepúsculo, mela-cueca teen com gosto de isopor e sem sangue nas veias, com o perdão do trocadilho. Mas quem soube procurar, viu que o fino mesmo foram o sueco Deixe Ela Entrar, um dos meus favoritos do ano passado, e a espirituosa série da HBO, True Blood.
True Blood é baseado na série de livros Sookie Stackhouse, que eu nunca li, e adaptado por Alan Ball, que eu já assisti. Ball é criador da fabulosa e "peculiar" série A Sete Palmos. Por essa prévia experiência, absolutamente anti-ortodoxa para os padrões televisivos, a proposta de uma série vampírica avançou imediatamente centenas de clics no terreno do insólito. Mas até o terceiro ou quarto episódio eu ignorava tudo isso e já tinha até esquecido a série na gaveta do Buffy & quetais. Erro fatal.
Quem me deu o chutão necessário foi o zombie renegado Fivo, que resumiu a premissa espetacularmente aos moldes botequísticos, como convém. Segue abaixo a pérola descritiva, com links que adicionei por pura diversão irracional.
"É uma cidadezinha do interior da Louisiana, com todo o sotaque carregado que vem junto. A Vampira (engraçado como o nome Rogue em português ficou Vampira e a atriz que fez a personagem foi cair logo num filme desses) é uma garota comum que tem o dom de ler mentes e é virgem, pois nunca conseguiu se relacionar com ninguém justamente pq lê suas mentes. Anos antes uma empresa japonesa desenvolveu um sangue sintético que substituiria o sangue humano, então os vampiros saíram do armário, deram as caras, tentam viver em harmonia com os humanos e criou-se um clima de X-Men quanto à intolerância, só que naquele microcosmo.
Bem... a menina trabalha num daqueles bares de estrada e tem que se esforçar para não ler as mentes alheias. Um dia um vampiro chega no bar e os dois passam a ter uma fúria foguenta mútua e enrustida sinistra. Em paralelo, uma mulher que costumava trepar com vampiros morre e o irmão da Vampira, vampirófobo, é suspeito. Depois uma filmagem local o inocenta, mas a outra mulézinha que ele pega tb é dada a trepar com vamps, pois dizem que eles têm uma libido absurda. Aliás, tem um mercado negro de sangue vampiro que faz a pessoa ficar com a mesma libido.
Alguns vampiros meio pervertidos se metem a fazer merda pela cidade.
Enfim... todas as regras de vampiros estão lá... estaca, sol, convidar para entrar, hipnose etc. Só não viram morcego. A Vampira está benzaça, com um ar inocente e ao mesmo tempo safada, como uma pinup mangá. O cara que faz um negão viado e a prima dele, que fala com o sotaque escroto, estão ótimos tb.(...)"
Isso aí.
Destacando sem patinar em spoilers: os cliffhangers são cruéis com o espectador e faziam a espera semanal se transformar em tortura chinesa; o clima de devassidão e putaria é constante, crescente e intumescido - a ex-Vampira Paquim, por exemplo, protagoniza uma cena de arrancar palmas conjuntas de Manara e Serpieri; a (r)evolução da personagem Tara, que passa de irritante à apaixonante, numa soberba perícia da atriz Rutina Wesley, fantástica; Lafayette (o negão viado), interpretado por Nelsan Ellis, um tremendo ladrão de cenas; tudo o que remete à segunda temporada é muito promissor, da misteriosa Maryann (Michelle Forbes) ao sugestivo culto do reverendo Steve Newlin (Michael McMillian); e por fim, a trilha.
A excelente abertura já mostra o alto nível da seleção com a sensacional "Bad Things", de Jace Everett. No decorrer da série, se ouve de AC/DC e Reverend Horton Heat até Wilco e Black Rebel Motorcycle Club. Cada episódio tem o nome de uma das canções de sua trilha e as faixas reservadas aos créditos finais são um show à parte, com temáticas relacionadas à cena derradeira. Nesse ponto, o "campeão das chamadas" é o personagem Sam, que motiva as trilhas de fechamento do quarto e nono episódios, com "That Smell", do Lynyrd Skynyrd, e "Walking the Dog", de Rufus Thomas, docemente sarcásticas nas respectivas situações.
Daí que fiz uma compilação das doze trilhas finais, com direito à capa surrupiada da (boa) hq. Muito country, southern, blues, bluegrass e rock'n'roll estradeiro pra ouvir matando uma garrafa de whisky. A única baixa é o melancólico instrumental do quinto episódio, de Nathan Barr (compositor oficial da série), que voou abaixo do radar do Google e foi prontamente substituído por outro som do mesmo capítulo.
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Anexo não tão off-topic
Capa do novo Heaven & Hell:
Algo entre Labirinto do Fauno e os primeiros discos do Dio. Tranquilamente uma das capas mais profanas, agressivas e instigantes em muito, muito tempo.
Achei do caralho! Os velhinhos se reinventaram, mais uma vez.
Ou como aprendi a parar de me preocupar e amar a adaptação
A abertura com o velho Zimmerman trilhando ao fundo já se promovia como a homenagem definitiva. Estava ali o coração de alguém que entendeu a obra e soube compilar cinematograficamente seu caótico cenário inicial. O resultado é tão bom que suplanta até sua pretensão. Uma introdução perfeita para a própria graphic novel, ideal para os sortudos de primeira viagem. E foi ali que a ficha caiu: simplesmente não dava para assimilar esse filme como outro qualquer. Essa possibilidade acabou desde que li a série pela primeira vez. O que se passava na telona era pura abstração, um exercício lúdico e tolo de (quase) meia-idade. Na sala, o clima era de culto secreto. Quem esteve lá na estréia - e não era incauto que saiu confuso e decepcionadíssimo após quinze minutos - queria mesmo era ver aquilo que Moore tanto demonizou nos últimos anos: os quadrinhos sendo transpostos ipsis literis para a tela de cinema, mesmo sem qualquer vocação para tal. O barbudo estava coberto de razão, mas a sua inquisição chegou na década errada. Fazer o quê.
Por ser uma experiência tão segmentada, a curtição-mor seria ir acompanhado por alguém que não leu a hq. Ou melhor ainda, de alguém que nem lê hqs. E que tenha, no mínimo, trinta anos - tenho a ligeira impressão de que a geração playstation acha que a Guerra Fria foi pouco mais que ficção-científica ruim dos anos cinquenta. Mas quem respirou aquela atmosfera, mesmo na periferia das superpotências, sabe bem o que era o Reagan aparecendo na televisão ao lado da Thatcher e os sempre ameaçadores desfiles militares na Praça Vermelha. Curiosamente, Moore resistiu firme ao conceito do cowboy-canastrão-na-sala-oval (diferente de Miller), preferindo prorrogar a administração Nixon.
Esse contexto sócio-político complexo representa o maior entrave na adaptação. Traçada sob várias camadas narrativas, a obra original registrou a ansiedade do cidadão comum até as autoridades do alto escalão mediante uma situação duplamente extraordinária (viver num país de vigilantes, a cinco minutos do juízo final). Nada menos que uma minissérie padrão HBO ou alguma genialidade do porte de Decálogo, do Kieslowski, reeditaria isso com um mínimo de justiça. Mas tal limitação não é demérito exclusivo de Snyder. Isso é regra, em se tratando de Moore - V de Vingança foi um exemplo.
Condensar drasticamente um pano de fundo que coloca a trama central em segundo plano é o preço mais alto que o cineasta pagou para realizar seu sonho de celulóide. E nem as cenas extras do DVD irão resgatar isso dignamente.
Rorschach, por Jackie Earle Haley. Esse é pra guardar num cantinho escuro da alma. Indefectível. É o próprio saltando dos quadrinhos, numa caracterização tão perfeita quanto poderia. A clássica cena que conclui a sua saga particular finalmente ganhou a vida que povoava os meus sonhos de olhos abertos ("manda ver!"). Só uma ressalva para o roteiro que o tratou tão bem: na cena em que Rorschach surpreende o assassino da garotinha, a abordagem pra lá de gráfica espirra gratuidade onde o original foi apenas sugestivo e, por isso mesmo, muito mais selvagem. Fora que compunha toda a metodologia que o personagem adotaria dali pra frente. Não entendi o motivo da alteração, além da intenção óbvia de atirar alguns ossos aos fanboys. No mais, uma performance impecável numa adaptação que traduziu ao pé do quadrinho o único personagem que tentou entender a piada do Comediante.
Já conhecia o Jeffrey Dean Morgan através das séries Sobrenatural e Grey's Anatomy. Sinceramente, não teria reconhecido o link ator-personagem nem que me jogassem na cara. Foi outra escolha certeira e, pelo menos pra mim, uma grata surpresa. Morgan emula com maestria toda a dualidade anárquica do personagem em relativo pouco tempo de tela. Até aqui o Comediante continua um canalha difícil de odiar, mesmo em plena era da correção política.
E como eu já previa, tendo em vista o quão impactante era o original, a cena dele com Sally Jupiter (uma Carla Gugino elegantemente vulgar, inspirada em Betty Page) ganhou contornos ainda mais brutais. O fato do Justiceiro Encapuzado não ser mais tão rude com Sally (nada de "levanta... e pelo amor de Deus, cubra-se") foi uma liberdade que até caiu bem.
Não há muito o que comentar sobre a sexy Malin Åkerman envergando o uniforme da Espectral (smokin' hot!). Seguiu um script modesto quase sem comprometer e ainda rendeu o melhor cosplay de todos os tempos. O mesmo não posso dizer de seu parceiro em cena, Patrick Wilson, que construiu um Dan Dreiberg com humanidade e uma paixão que comoveria até um certo bruxo inglês adorador de serpentes. Pena que sua história com o primeiro Coruja não foi devidamente concluída, mas nesse ponto, o filme já começava a irritar pelos cortes inevitáveis (e mais frequentes a cada minuto).
Billy Crudup, mesmo debaixo das gambiarras de captura e embolorado de CG, fez um ótimo Doutor Manhattan. Não foi bem como eu imaginava (especialmente a voz), mas estava claramente imerso. Encarando o mundo como se observasse bactérias (ou "cupins"), ele manteve as reações dispersas e nada emotivas (excetuando na cena com o Comediante num bar vietnamita e durante sua desmoralização em rede nacional). Seu ar de distanciamento é profundo, lembrando o excelente Surfista Prateado de Doug Jones, e reforça a ideia de elevação existencial.
Novamente os cortes sabotaram o que perigava ser a sequência mais grandiosa do filme - e talvez a mais épica desse finalzinho de década. O diálogo de Manhattan com Espectral em Marte era o primeiro clímax da saga. Laurie tentando convencer o ex-Osterman com valores já superados por ele e recebendo de volta retóricas precognizando o imponderável, era um material extremamente promissor. Faria da conversa entre o Arquiteto e Neo menos que uma discussão de bêbados. Tudo isso percorrendo uma paisagem alienígena vasta, desolada e de tirar o fôlego. Mais genial ainda era a maneira como terminava, amarrando com inesperada simplicidade uma situação que parecia sem volta - com direito a um desenlace familiar por parte de Laurie (cena que aqui perde toda a sutileza da hq). Atualmente meu momento favorito da graphic, eu enxergava aí um raro potencial kubrickiano a se cumprir, sem exageros. Mas pelo pouco que chegou à telona, não vingou.
Já o Ozymandias de Matthew Goode foi prejudicado por uma série de fatores. Apesar da competente performance, o ator não tem porte físico para convencer em mais uma armadura dark (equivocada, no caso), sem falar no cabelinho yuppie. E a decisão de entregar de cara o grande titereiro da história, além de limitante para o ator, foi sintomática - fica evidente que o filme mira só nos fãs mesmo. Nem se compara à ambiguidade do personagem no original.
Quisera eu ter pesadelos como os de Dan. Plasticamente, a cena referida é maravilhosa, trazendo uma concisa metáfora sobre a condição humana, mas acima de tudo... tem a Espectral nua. Foi animador ver que a censura alta não se justificou apenas pelo despojadão Dr. Manhattan, mas também pelas tórridas cenas entre Dan e Laurie. Felizmente, Snyder não regulou no sexo, assim como não regulou no sangue - na maior parte do tempo, as lutas foram espetaculares. Comediante x Ozy foi de tremer o chão e Coruja & Espectral no beco foi puro filme B de artes marciais, com todas as lacerações e fraturas expostas inclusas no pacote. Em contrapartida, a sequência do resgate na penitenciária foi incrivelmente burocrática, agravada pelo pior resultado que uma câmera lenta pode produzir. E o embate final contra Veidt, apesar de mais incisivo que na hq, pecou pelos excessos.
A única grande alteração não é perfeita, mas funciona muito bem na tela. O maior mérito das Bombas-Manhattan foi providenciar um inimigo mundial mais crível e imediato do que uma suposta invasão de alienígenas. Afinal, era notória a extensão dos poderes do Doutor, assim como sua indiferença (desprezo?) pela humanidade - alvo fácil para uma armação. Apenas senti falta dos "cadáveres nas ruas", ao meu ver, essenciais para mensurar o holocausto empreendido por Veidt (além de tornar muito mais difícil para os heróis a aceitação daquela lógica). E a mudança na reação de Dan soou desnecessariamente histriônica. Foi o oposto da fuga que ele e Laurie se dão no final original, sob as bençãos do novo deus atômico.
Chega ao fim e bate a sensação de que um longo ciclo se fecha, não apenas do filme na telona ou dos anos de sua conturbada pré-produção. De natureza extremamente pessoal, a adaptação se revelou muito mais quadrinhos que cinema, mas obteve sucesso naquilo que realmente interessa: revigorou o clássico e a percepção do leitor em relação a ele. Ao menos o suficiente para instigar boas releituras num futuro próximo, com novíssimos pontos de vista a serem explorados.
Em Watchmen (EUA, 2009), a obra reafirma a sua independência. Quer Moore queira ou não.
A antológica sequência inicial, com pontas de Kennedy, Jagger, Bowie, Warhol, Castro... e até de Thomas e Martha Wayne. (Grazie al uploader!)
Há alguns quadrinhos atrás, o Justiceiro mantinha um diário/obituário de guerra onde registrava todas as suas "aventuras". Se o que acontece no filme Justiceiro: Em Zona de Guerra (Punisher: War Zone, EUA, 2008) estivesse descrito ali, seria quase um novo volume do Necronomicon. Mas que fique claro: o pacote é B. A produção é irregular e o roteiro tem mais buracos que uma rodovia federal brasileira, mas simplesmente não dá pra encanar com isso. Não enquanto somos subornados com galões de diversão cruel e doentia - experiência maximizada por uma trilha de rock absurdamente pesado e umas cervas acondicionadas ao alcance das garras. O nome do quadro é: "o que seria da vida se não fossem os guilty pleasures".
Mas confirmando minha pelegada punidora, a cineasta Lexi Alexander cometeu o melhor e mais fudêncio filme do Frank Castiglione. Matou a pau, a garota.
O resultado final é ainda mais notável quando lembramos da "zona de guerra" que rolou nos bastidores. Após sucessivos adiamentos, pressão da Lions Gate para diminuir a censura via sala de edição e até rumores sobre a demissão da diretora, pode se dizer que Lexi Alexander encarnou o próprio Frank Castle em defesa de seu filme. Paixão rara de se ver no esquemático cinemão americano. Porém, Justiceiro: Em Zona de Guerra parece estar pagando o preço da ousadia, com um circuito de exibições ultra-restrito e o sempre desmerecedor direct-to-DVD em alguns países - incluindo essezão aqui.
No frigir do Watchmovie, isso mata uma velha questão que assombra adaptações cinematográficas de personagens outsiders/anti-heróicos. Eles são mesmo comercialmente inviáveis. Exceções aos casos envolvendo marketagem massiva ou algum grande chamariz hollywoodiano, como foi o primeiro Blade com Wesley Snipes e Constantine com Keanu & cia.
O Justiceiro 2008 é o exemplo máximo dessa linha de raciocínio. É fiel aos quadrinhos até a medula oblonga, motivo de rusgas sem fim entre Alexander e o estúdio. E se na linha normal, o material que compõe o personagem já não ajuda muito no quesito PG-13, tenha em mente que a diretora adotou a versão MAX do personagem - muito mais extremista, séria e anti-comercial. Concebida pelo genial Garth Ennis, o Castle-MAX lida menos com vilões estilizados e mais com temas densos como tráfico de mulheres, conflitos regionais e abuso de menores. De fato, a diretora havia desistido do filme num primeiro contato, ainda com o script antigo, mas mudou de idéia após ler a versão MAX e ter a garantia de que poderia recomeçar tudo do zero.
O roteiro escrito por ela, Art Marcum, Matt Holloway e Nick Santora (do ótimo Prison Break), costura muito bem a atmosfera MAX com as bases da cronologia normal. A maior novidade foi a participação ativa da polícia na história, incluindo até uma subtrama paralela ao Justiceiro - o que é o oposto imediato (e a maior falha) do filme de 2004. Neste ponto, é de emocionar os fãs do caveirão.
Finalmente a origem do Justiceiro bate com as hqs - mesmo que em turvos flashbacks - e não há qualquer viés humanizador que facilite um personagem com mais de 150 homicídios (e contando) nas costas. Quer dizer, o único momento do filme em que isto acontece, muito en passant, está ligado diretamente ao trauma que o move. Então o efeito é o mesmo de um combustível reabastecendo uma máquina assassina. Numa caracterização consciente, o Frank Castle de Ray Stevenson (o Pullo, de Roma) é o Justiceiro MAX esculpido em C-4: inexorável, lacônico e objetivista. Não há volta, meio-termo ou tons de cinza. E não pára nem pelo inferno.
É o "bem" ultra-direitista diametralmente proporcional ao "mal" anarquista que enfrenta - vilões que são rated R da cara às atitudes.
Já li por aí (no caso, em detrimento ao Heath Ledger), que o Coringa é muito mais um presente do que um papel. É verdade. Com ele, o ator entra "armado" em cena. É um personagem biônico, cuja expressividade é potencializada por uma máscara parcial e com liberdade e devaneios que só a loucura proporciona. O Retalho é um filhote direto disso aí. Só que o ator Dominic West entra de sola e chega a arranhar o camp (versão gore, mas ainda camp). Especialmente após a transição Billy "The Beaut" Russoti-Retalho. Resta então ao ator Doug Hutchison, o eterno Eugene Tooms, a missão de personificar um antagonista equiparável ao Justiceiro. Loony Bin Jim, irmão doidão do Retalho, tem seus atributos (é canibal, briga bem e não está nem aí para auto-preservação), mas ainda falta muito pra representar uma real ameaça para a figura intimidante de Ray Stevenson - sensação que fica ainda mais acentuada com os dois capangas de terceira que os acompanham.
Se os vilões dão algum trabalho é só porque envolvem inocentes, como a personagem de Julie Benz (de Dexter) e sua filhinha. O cenário seria outro se a inspiração MAX fosse mais fundo e arregimentasse um inimigo do calibre do Barracuda, bandidão casca-grossa que eclipsa o próprio Justiceiro. Mas do jeito que está, a tradição dos filmes do personagem permanece: faltou vilão à altura pro velho Frank.
O que não quer dizer que a violência seja arrefecida. Não mesmo. Rapaz, o negócio aqui é punk.
A técnica do sangue digital, bastante aprimorada desde Zatoichi, confere uma estética bem quadrinhos à plástica das cenas. Aqui, um simples tiro na cabeça vira uma explosão coagulante, incrementa cenas antológicas como a da cadeira e efetiva o senso de justiça implacável do protagonista. Bons detaques também para os enquadramentos inspirados na arte sequencial, com ótimos resultados. A fotografia é bem menos sombria do que se espera de um projeto desse e se mostra bem versátil, em especial nos tons saturados da cidade à noite.
Contudo, o filme deixa claro até onde o orçamento vai - o que é um contrasenso, já que custou 22 milhões, o mais caro dos Punisher-movies -, gerando momentos meio esquisitos como os do Justiceiro cruzando New York a pé, entre uma justiçada e outra. Igualmente decepcionante é ver o Microchip, tão bem defendido pelo gorducho Wayne Knight, sem fazer jus ao codinome em nenhum momento.
Por fim, falta a Justiceiro: Zona de Guerra um aspecto que não faltou em nenhum dos dois anteriores (nem naquele com o Ivan Drago): peso cinematográfico. Tenha em mente Michael Mann. Um pouco mais de dimensão e grandiosidade até que não faria mal.
Mas essas bobagens são só pra acalmar o detrator casual. O filme relembra pontualmente o que ele se propõe a fazer de melhor. Cenas de um meliante explodindo no ar no meio de um exercício de parkour, um punho varando a fuça de um bandido e atrocidades quetais ao som de Slayer e Rob Zombie não deixam dúvidas. É o filme badass que o Justiceiro merecia desde a primeira vez.
Agora é torcer. Que venham os Escravistas, o Barracuda, o "Homem de Pedra" Alexandrovich Zakharov.
Enquanto a Europa Filmes segue acabando com a paciência alheia (Death Proof? Alguém?), o multi-tarefas Rob Zombie já iniciou as filmagens de Halloween 2, sequência do remake que ele dirigiu em 2007. O filme explodiu nas bilheterias, implodiu nas críticas e permanece inédito por aqui, graças à distribuidora que não distribui. Mas, por hora, foda-se a Europa Filmes. O marido da esfuziante Sheri Moon já tem o próximo filme engatilhado e esse parece promissor: Tyrannosaurus Rex, ainda sem roteiro ou cast definido (adivinha a única atriz confirmada).
Especula-se que é baseado na hq The Nail, escrita em 2004 pelo próprio Zombie em parceria com Steve Niles (de 30 Dias de Noite). Agora, com a divulgação das artes conceituais - by Alex Horley - os rumores meio que se confirmam.
Aliás, isso até rendeu um bafafá sobre supostos desacordos entre o Niles e o Zombie - prontamente desmentidos por Niles, que vê o projeto mais como uma adaptação livre e o Zombie como o verdadeiro pai da criança.
Mas vou te contar... quanto mais se basear na obra original, melhor.
A hq é excelente e a premissa, curta e grossa: um wrestler fodão chamado Rex "The Nail" Hauser tenta proteger sua família de um grupo de motoqueiros assassinos from hell (literalmente). A graphic não poupa no grafismo. É violentapracaceta - e daquele tipo de violência pulp que implora por uma versão jorrando sangue na telona.
Nem imagino o quanto dos elementos místicos/satânicos o filme irá incorporar, já que os previews sugerem um clima de exploitaton setentista, mas já dá pra perceber algumas referências pipocando aqui e acolá.
Algo do Quadrilha de Sádicos original...
...e até uma dose de Mad Max.
Mas isso são apenas tolas conjecturas. Esse filme seria instantaneamente foda se o ator principal confirmasse a aparência das ilustrações.