quinta-feira, 23 de março de 2023

E viva à liberdade de pressão

Vez ou outra, algumas pérolas que jaziam no limbo televisivo conservadas n'algum VHS embolorado ressurgem no YouTube. Bruce Dickinson figurando no Que Som É Esse?, da antiga MTV, é uma dessas.


O quadro era um rip-off da seção "Cabra-Cega", da revista Bizz. O cantor, que promovia seu show solo no Festival Skol Rock 97, preferiu atirar a cerimônia pela janela e deixar as coisas mais... divertidas, para espanto da então VJ Chris Couto.

Dickinson sempre foi um fanfarrão e levantou ali uma bola perfeita para a jornalista cortar. Uma não, duas. Atirar na vaca sagrada alternativa Sonic Youth e brincar com a teoria conspiratória da morte de Kurt Cobain a mando da esposa Courtney Love fariam brilhar a retina de qualquer repórter com faro por uma declaração mais polêmica. Mas a Chris Couto — e nada contra a Chris Couto — seguiu travada em sorrisos tímidos, congelada num script sabor oportunidade-perdida.

É certo que o jornalismo cultural brasileiro já registrou momentos de autoafirmação e da mais puta pura iconoclastia. Isso nem se discute. Uma outra face, porém, foi criada sob medida para gravadoras e artistas: a da imprensa-parça, com abordagens bajuladoras, entrevistas fofinhas e ousadia zero.

Só que, em algumas ocasiões, os próprios entrevistados se encarregam de tocar fogo no parquinho. Ainda bem. Porque senão...

Ps: em 2011, o Sonic Youth fez o último show de sua carreira no festival SWU, em São Paulo. Momento histórico em que o jornalismo brazuca - também envolvendo outra ex-VJ - seguiu comendo mosca. Ó vida. Ó chinelagem.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Positive creep


Quando o Nirvana botou os pés no palco do Reading Festival, em 30 de agosto de 1992, o trio estava na crista do tsunami alternativo. Foram dias insanos para quem curtia um pingado noise e queria fugir da ressaca hard/glam dos anos 1980.

Vi uns trechinhos da apresentação, exibida na época pela (então descoladinha) TV Bandeirantes. Kurt Cobain entrando numa cadeira de rodas travestido com uma longa peruca loira e clima de ensaio empolgado diante de 60 mil doidões e doidonas.

Nesses anos todos, nunca ouvi a performance completa. Pelo menos até dia desses, ao conferir o monumental Live at Reading, pack de CD + DVD lançado em 2009. E me surpreendi muito.

Apresentação coesa, sem firulas, porrada atrás de porrada, tudo muito bem calibrado para funcionar naquele espaço gigantesco — 150 acres da Little John's Farm — com andamentos ligeiramente mais lentos, pesados e arenosos, mesmo nas baladas. Um showzaço. Mal dá pra acreditar que, quatro meses depois, a banda cometeria algumas das apresentações mais caóticas da história do showbiz em pleno Hollywood Rock, com praticamente o mesmo setlist.

Em algum multiverso grunge, o Nirvana entregou aqui o show que fez no Reading. E o Reading recebeu a nossa bomba. Que se fodam os ingleses.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Que droga de vida


Jim Starlin pode ter passado a carreira imerso em sagas cósmicas e reflexões transcendentais, mas sempre foi um dos criadores mais socialmente conscientes dos quadrinhos mainstream. Com frequência, usou aquele pano de fundo galáctico, macro, para ilustrar os dramas do cidadão comum, os dilemas das pessoas invisíveis. E vez ou outra também mandou ver na crítica social pura e simples.

Um bom (e surpreendente) exemplo é a 2º história de A Saga do Batman Vol. 6.

Em Você Devia Ter Visto Ele..., o Morcego se depara com a dura realidade de um casal de irmãos que, apesar da tenra idade, já são sobreviventes da decadência da sociedade, da criminalidade e da falência do sistema. Tudo isso na ordem e em partes dolorosamente iguais.

A sequência em que o Maior Detetive do Mundo desvela o contexto dos irmãos não é muito elaborada, tampouco complexa. E nem deveria mesmo. O impacto dramático da cena que deu o título à trama é o que importa.


Não envelheceu um dia sequer.

Com roteiro de Starlin e desenhos de Dave Cockrum, a tocante história saiu originalmente em Batman #423, de setembro de 1988. Até há pouco, seguia inédita no Brasil, mas, num espaço de apenas dois anos, foi publicada duas vezes pela Panini — o que me deixa com um repetecão bonito nos arquivos. Mais um.

Ou seriam dois?

Quase cuspi o café na HQ quando bati o olho nessa comovente punchline. Como bom gibizeiro velhusco, não poderia deixar de notar uma certa, hmmm, semelhança dessa cena com uma outra anterior do mesmo autor, porém, para a concorrência.


A história Confronto Inesperado saiu aqui em O Incrível Hulk #37, em julho de 1986, formatinho da Abril — e lá fora, na Marvel Fanfare #20, em maio de 1985. Daquela vez, Starlin fez tudo, com exceção da arte-final, a cargo de Al Milgrom.

Na trama, o Coisa e o Dr. Estranho se unem para enfrentar o mago Xandu e seu inesperado... e esverdeado... assistente. Mas antes de encarar o pérfido feiticeiro e seus demônios interdimensionais, Ben esbarra no mal que habita cada esquina desse mundo cão. E ainda faz questão de lembrar que reclamar demais é um péssimo hábito.

Comentário social rapidinho antes de jogar o leitor numa das aventuras mais engraçadas e eletrizantes que já li nesta vida.

A dinâmica e a composição das duas cenas é a mesma. É quase como se ele tivesse mostrado essa página para o Cockrum três anos depois e falado: "tá vendo isso? Faz igual, só que diferente". E nem ficou tão diferente. Piorzinho, com certeza...

Até no autoplágio, lance de gênio. Coisa de Starlin.




Numa das minhas cenas prediletas da melodramédia de Mel Brooks, a mocinha, uma sem-teto, conversa com seu parceiro, um ex-bilionário e também sem-teto, que está em coma num hospital:

“Eu sei que você quer desistir, mas você está errado. Mesmo sem dinheiro, a vida é boa.”

No que ele balança a cabeça negativamente...

É só um momento dentro de um arco de redenção da adorável (mesmo cafona) fábula do veterano cineasta, mas que só traz verdades. Sem grana, a vida ainda é boa. Porém, dura.

E, algumas vezes, uma droga.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Opa! Peraí, Canisso


José Henrique Campos “Canisso” Pereira
(1965 - 2023)

Pegando todos os quarentões-e-além no contrapé, se foi o grande Canisso. E com ele, boa parte do elemento "diversão" no rock brazuca dos anos 90. Aliás, nem vou fingir que não achava o Raimundos a banda mais divertida do cenário noventista nacional e certamente aquela na qual mais fui aos shows. Era o lugar certo, na hora certa.

Canisso parecia, de longe, o cara mais sussa entre os quatro integrantes. Fosse no palco, fosse nas entrevistas em meio aos seus inflamáveis colegas, ele sempre manteve uma postura, digamos, Coach Beard: estóico, imperturbável, pé no chão e com um pavio de 12 quilômetros de extensão. Um cara-crachá inequívoco de sujeito boa praça.

E figura no seleto clube de baixistas que me faziam cometer um air bass criminoso, mas daora, debaixo do chuveiro.

Também, com esse naipe de estaladas matadoras, quem nunca?






Valeu por tudo, Canisso!

quarta-feira, 8 de março de 2023

Bem-vindo de volta, Jon


Jon Bernthal está de volta ao caveirão. O retorno do Justiceiro em sua melhor versão é a 1ª grande notícia do Marvel Studios/Disney+ desde as integrações de Charlie Cox e Vincent D'Onofrio.

Demolidor: Nascido de Novo — sugestivo título — terá 18 episódios com previsão de estreia para a "primavera de 2024" (entre março e junho). A produção traz uma certa aura de projeto prioritário do estúdio. Cox inclusive já comentou que as filmagens levarão praticamente o ano todo. Planejamento sem pressa. Bom indício até prova ao contrário.

Nem tudo são rosas: a dupla Deborah Ann Woll e Elden Henson (Karen Page & Foggy Nelson, respectivamente), também do DDflix, ainda não foram confirmados na série. As opções seriam a ausência dos personagens neste início de reboot e até um possível recast de atriz e ator.

O que, pra mim, seria uma tremenda bola fora. Veremos.

sábado, 4 de março de 2023

"I've seen the future and it will be Batman..."


Não assisti ao Batman de Tim Burton no cinema. Na época, só estudava. A grana pingava (até hoje). Consegui ir ver apenas Batman: O Retorno, três anos depois. Mesmo caso de RoboCop 2, O Exterminador do Futuro 2 e As Tartarugas Ninja II - O Segredo do Ooze. Mas o hype gigantesco do filme original foi incomparável. Aliás, hype não: zeitgeist.

Começava ali um novo modo de enxergar o gênero dos super-heróis e de levar isso até o público neófito. Aquele, que responde pela maioria esmagadora da espécie humana. Foi um longo processo que começou com Dennis O'Neil, Frank Miller e Alan Moore, lá nas HQs mesmo — tudo isso foi destrinchado com mais propriedade no blog do Sadovski.

O fato é que sempre achei milhões de vezes mais interessante observar o impacto disso no público não iniciado do que em fanboys como o rapaz na miniatura do vídeo. E como objeto de estudo, Batman dificilmente será equiparado. Ninguém nunca havia visto nada sequer parecido antes. A excitação geral era evidente em cada olhar, até mesmo em estrelas e veteranos de cinema, acostumados com o deslumbre massivo da indústria. Foi um legítimo fenômeno pop cultural.

Sábias palavras do Prince. 1989 ainda não acabou...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Camelot 2000

I don't know if this has been announced yet, but since it's out there in the PRH catalog -- SUPERMAN: CAMELOT FALLS •...

Publicado por Kurt Busiek em Quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Kurt Busiek anunciando uma edição deluxe da saga A Queda de Camelot justo enquanto relia a dita cuja em meio às arrumações de Carnaval. Sincronicidade, você vê por aqui. Empilhando as edições, lembrei de como a Panini precisou de samba no pé para publicar a história com um mínimo de regularidade nas mensais do Superman (edições #59-61, #64-66 e #68-69). Foi tenso. E um problema importado.

Na publicação lá fora, entre 2007 e 2008, a redação da DC foi obrigada a encher muita linguiça nas Superman e Action Comics titulares para cobrir os constantes atrasos do saudoso Carlos Pacheco e de Jesús Merino, seu arte-finalista do coração. Pra fechar, um problema de saúde do Busiek resultou num gap de 4 meses entre as duas últimas edições. Tudo isso conspirou para a saga amarrar a camisa com outra igualmente notória pelos seus épicos atrasos.

Por algum tempo, não havia consenso se A Queda era situada antes ou depois de O Último Filho, de Geoff Johns e Richard Donner. Só mais tarde, a DC estabeleceu que elas se passavam ao mesmo tempo, por mais impraticável que possa parecer. O Escoteirão saiu dali direto para um burnout.

Apesar da publicação errática, A Queda não transparece esses problemas no resultado final — bom, talvez o aspecto fora da curva que permeia toda a aventura seja um indício discreto. Na trama, o feiticeiro atlante e lanterneiro de cronologias Arion alerta o Superman sobre suas ações e de outros superseres nos rumos da humanidade. Em suas visões, essas interferências irão culminar num futuro catastrófico no distante ano de 2014 — a tal "Queda de Camelot". E assim, o bom e velho Clark tem mais um dilema moral e existencial para se divertir.

A Queda é mais uma boa saga pós-apocalíptica da DC, dessa vez até com uma inusitada convergência... o "Apocalipse" da vez também vem do Oriente Médio. Do Irã, para ser mais exato: o inexpugnável Khyber.


Esse cara é um filho da puta casca-grossa

Por sinal, um personagem criminosamente mal aproveitado. Talvez, presumo, pela carga Mandarim agregada. Um Keyser Söze secular que age nas sombras desestabilizando nações, fomentando guerras e se utilizando do extremismo muçulmano contra o Ocidente pode ser meio over para um gibizinho mainstream nos dias atuais.

Ao menos teve tempo para protagonizar a demonstração de força mais Era de Prata da DC desde a Era de Prata da DC.


Superman vs. Khyber: apo-Kal-lypse

Pachecão dava show. E foi assim na saga inteira. Que saudade.

A Queda de Camelot é mais um belo exemplo de como a linha principal do Superman foi injustiçada na época. Muito se falava que a DC não sabia mais o que fazer com o herói, que estava amargando uma cronologia novamente longeva com seus valores eternamente anacrônicos. Balela.

Além de A Queda e O Último Filho, foram publicadas Para o Alto e Avante!, Kryptonita (espertamente coletada n'As Quatro Estações da Eaglemoss, que estupidamente preteri pela da Panini), Superman e a Legião dos Super-Heróis e Novo Krypton, só pra ficar em algumas da mesma safra. Note que nem foi mencionada a All-Star Superman morrisoniana, tamanha a elegância do relator.

Enfim, se havia algum problema, era do outro lado da página. Mas, no final das contas, nada disso foi suficiente para impedir Crise Final, Os Novos 52, Renascimento e outras mais que virão. E elas virão.

Arion acertou a Queda, mas errou o alvo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

“A Loja de Corpos garante satisfação... ou seu dinheiro de volta”


Wolverine: Arma X foi para as releituras do feriadão. Já faziam alguns anos. O pequeno clássico do Barry Windsor-Smith ainda se sustenta com louvor, dadas a estética oitentista e a superexposição do baixinho mutante desde que a saga foi publicada na Marvel Comics Presents #72, em março de 1991.

Como autor, o britânico nunca esteve tão afiado, conciliando a dinâmica sequencial com recortes e entre quadros repletos de informações. Tanto se vale só da força das imagens, quanto fuzila o leitor com recordatórios aleatórios sem bagunçar o meio-campo. Timing impecável. Como artista, revezava entre a técnica minuciosa e ejeções viscerais de caos controlado. Um mestre.

A leitura segue como um registro atemporal de um talento refinado após anos de trincheira editorial, agora em seu, digamos, platô criativo. Além de ser ultraviolenta e divertida pra caceta.

(embora minha chatice pseudocientista ainda me incomode na inexplicada drenagem excessiva de adamantium pro túnel do carpo...)

A edição que tenho é a lançada pela Panini há exatos 20 anos — encadernado com capa cartão e papel LWC, vulgo "couché de pobre". E trazia um bom motivo para passar a versão em capa dura posterior: a inclusão da história "Animal Ferido", com Windsor-Smith ilustrando o texto do Chris Claremont. É uma espécie de "curta-metragem natalino" com Wolverine e Chispinha, do Quarteto Futuro (precisamos falar sobre o Quarteto Futuro) sendo caçados pelos ciborgues Carniceiros e pela Lady Letal, recém criada pelas seis mãos da Espiral em sua Loja de Corpos.

Por que a Panini ignorou essa pequena grande aventura na reedição de luxo é um mistério. Mas o editor Fernando Lopes foi categórico na nota de rodapé da galeria de capas.


Trabalho de edição proativa é isso aí. É Barry Windsor-Smith, pô!²

Curto tanto essa história que também tenho em Heróis da TV #100 (a 1ª vez a gente nunca esquece) e na Marvel + Aventura #1.

Pelo Arma X de 2003, só posso terminar com um raro...

Boa, Panini!