sábado, 30 de agosto de 2008

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

R.I.P.?


É sempre difícil comentar sobre um personagem com tanta estrada sem patinar em imediatismos e generalizações, tão comuns nesses tempos do editar/publicar. Mas acho que dá pra mandar essa na boa: em seus quase setenta anos, poucas vezes o Batman rendeu interpretações tão criativamente peculiares. Em grande parte, em razão de O Cavaleiro das Trevas e sua proposta revisionista, auto-suficiente e hermética, mas preservando bases cravadas na essência original. Bem, foi o que foi (e vou parando por aqui senão sai outro review) e quem se aventurar pelos quadrinhos do morcego hoje vai se deparar com um cenário muito diferente e, de certo modo, tão arraigado em seus objetivos quanto o filme - para o bem ou para o mal.

Mas quer saber? Batman R.I.P., a nova e polêmica saga, periga ser a melhor coisa publicada do herói em anos.

Antes do lançamento, Grant Morrison, recordista olímpico dos 100 metros de autopromoção, se esmerou no hype. Afirmou em entrevista ao CBR que faria com o Batman "algo pior que a morte" e que seria o fim da era Bruce Wayne como o cruzado encapuzado. E ainda falou mais um monte por aí, desmentindo algumas e se abstendo de outras. Seja como for, o arco, que está agora em sua 4ª parte (Batman #679), pode até não ser uma megaprodução, mas demonstra claramente porque Grant Morrison é Grant Morrison e não um Jeph Loeb qualquer.

Leitura instigante, com climão de labirinto conspiratório e uma boa dose de suspense. É quase uma nova forma de desconstruir/demolir o personagem por dentro a partir de elementos tradicionalmente "intocáveis". Afinal, não é todo dia que vandalizam o bom nome da família Wayne.

Spoilers à frente!


Martha e Thomas Wayne, os pais de Bruce, retratados como junkies, alcoólatras e freqüentadores de orgias. O pequeno Bruce seria fruto do adultério de Martha com Alfred Pennyworth (sempre o mordomo!). A suspeita de que Thomas teria forjado sua morte e agora seria quem puxa as cordinhas do submundo de Gotham. Esse pacote inflamável enfureceu muitos críticos e fanboys, mas até o presente momento teve seu lugar e motivações dentro do contexto. Certamente, grande parte é apenas armação de vilão recalcado - o problema é que este vilão em particular parece ter acesso total aos segredos de Bruce. Mesmo a sua suposta identidade soa tão bombástica quanto improvável, visto que ele alega ser o próprio Thomas.

Mas nada pode ser descartado ainda, já que Morrison, perversamente, brinca com as possibilidades. Ao mesmo tempo em que sugere que tudo pode ser obra da mente depauperada de Bruce (elemento citado pelo roteirista quando comentou o fato de que o herói vive toda essa loucura desde os anos 30), ele também faz questão de mostrar que se trata de um pesadelo bem real.

A trama é focada no retorno do misterioso Black Glove, o "keyzer soze" que tentou assassinar o morcego no arco League of Heroes, também de Morrison. Sem sair das sombras, ele reúne o perigoso Clube de Vilões, que aparenta ser liderado pelo Dr. Simon Hurt. Não fica claro se Hurt é o Black Glove - o verdadeiro antagonista do Batman aqui, considerando que o Clube oferece ameaça real apenas aos bat-sidekicks. Mas pelo andar da carruagem, eu já tenho o meu suspeito principal.

Após o jump >>


É Jezebel Jet, a bela namoradinha do herói. Vários indícios saltam aos olhos (a primeira a receber um contato do Black Glove; esteve presente no momento do colapso mental de Bruce; convenientemente saiu de cena ao ser capturada; perfeita demais pro sempre trágico Darcnaite). Contudo, são pistas óbvias demais, o que contraria a única qualidade totalmente indiscutível de Morrison: ele pode ser tudo, menos datado. Quem em sã consciência poderia imaginar, p.ex., que Xorn era o Magneto (estou avaliando imprevisibilidade aqui, não bom senso)? Essa busca pelo ineditismo e soluções inesperadas é justamente o que dá o tom principal de Batman R.I.P. E nesse quesito, como diria Marcelo Nova, o passado é o futuro, baby.

O Clube representa não só mais um trampo arqueológico absurdo de Morrison (é composto pelos arquiinimigos do velhuscão Batmen of All Nations!), como também uma de suas maiores obsessões: a Era de Ouro.

O próprio visual do bando parece ter sido inspirado na False Face Society, organização criminosa que o morcego enfrentou em Batman #152 (dez/1962). Curiosamente, seu líder mascarado se revelava ninguém menos que o Coringa. Um modelo a ser seguido? Meu palpite é que não, considerando que o palhaço (que, por sinal, está parecendo um primo do Marilyn Manson) já tem uma função bem definida no arco.

Toda essa gana para encaixar o passado camp/infantil/psicodélico/doidaço do velho Batman na dinâmica atual foi provavelmente o maior guilty pleasure de Morrison ao escrever a saga. E prepara o terreno para a punchline não só da edição #678, mas também do arco e, se bobear, da década inteira.


O Batman de Zur-En-ArrhNão dá pra ser mais rebuscado que isso.

Sem dúvida, é o carro-chefe da fixação cinqüentista de Morrison em R.I.P. Enxerto inacreditável de Batman #113 (fev/1958), história Batman -- The Superman of Planet X! (haja maconha, Senhor), onde o morcegão é teleportado para o planeta Zur-En-Arrh e ganha poderes ao melhor estilo Superman. Lá ele conhece um Batman wannabe alienígena que se inspirou nele para defender a justiça em seu mundo. A idéia de revisitar esse passado negro (ou seria colorido?) em tempos de Coringa do Heath Ledger e após oitocentas Crises só poderia ser feito do jeito que foi: tudo não passava de uma indução ilusória na cabeça de Bruce.

A palavra-gatilho "Zur-En-Arrh" foi criada pelo Dr. Hurt para "desligar" a persona-Batman de sua psiqué. Ao mesmo tempo, Bruce, antecipando um eventual atentado psicológico (claro!), criou uma identidade-backup, que é o Batman de Zur-En-Arrh. Infos cedidas pelo infame Batmirim, também resgatado do limbo pré-Crise - aparentemente, o Mxyzptlk do morcego aqui é apenas um agente de racionalização criado pelo herói. Em outras palavras, um grilo falante.

É certo que antes dessa invocação retrô ante-diluviana, poucos compreenderam de cara o significado de certas cenas (os que entenderam ou são freaks ou já estão quase comendo capim pela raiz... dá um tempo!). Ainda mais flutuando soltas dentro da costumeira narrativa fragmentada de Morrison, este David Lynch dos quadrinhos. Ou seja, Morrison é quadrinho que demanda mais que meras folheadas, o que é uma virtude e também um problema. Por mais que seja enriquecedor para o texto e ocasionalmente divertido para o leitor, não é sempre que bate a disposição de sair por aí à cata de referências (é ou não é Alcofa?!). E o Morrison faz todo o acabamento do roteiro em torno disso.

A propósito, não estou acompanhando nenhum tie-in. Com Secret Invasion e agregados já sobrecarregando o sistema (neurológico), é humanamente impossível pra mim. Fora que ainda estou com o bat-radar em frangalhos desde a minha incursão em World War Hulk. Santos caça-níqueis, Batman!


A arte de Tony Daniel é competente, mas não surpreendente. Gostei do novo Batmóvel à Aston Martin (não é nenhum Tumbler, mas...). E as capas variantes de Alex Ross são um show à parte. Fazia tempo que o "Capitão Marvels" não se apresentava tão bem em séries regulares.

Fica a expectativa para próxima edição - que está me parecendo muito, muito divertida - e a resolução da trama que está sendo vendida como "definitiva" na trajetória do morcego. Com dois arcos subseqüentes já engatilhados (um de Denny O'Neil e outro de Neil Gaiman!), tudo indica que o velho cruzado vai mesmo passar o capuz adiante - e, quem sabe, finalmente assumir a posição da sua contraparte na série Batman do Futuro. Ao meu ver, não seria nada mal. Mas duvido que dure.

Ps: Grant Morrison deve ter pirado com o trailer de Batman: The Brave and the Bold!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

UM HERÓI BOM PRA CACHORRO


É, dessa escapamos. O editor executivo da Marvel, Tom Brevoort, revelou em seu blog a quase-produção de uma série animada do Demolidor nos idos de 1983. Na época, havia um certo hype em torno dos quadrinhos na grande mídia (mas nada comparado ao que ocorre hoje) e a rede ABC quis capitalizar a onda. Logo a network iniciou as negociações com a Marvel para um cartoon do Homem $em Medo a ser exibido nas manhãs de sábado.

Na premissa original, Matt Murdock sofria uma série de mudanças para se enquadrar na telinha. E seus cabelos, agora negros, eram só o começo. Para combater o crime, o advogado ganhou dois sidekicks: sua sobrinha adolescente e seu destemido supercão-guia Lightning ("The Super Dog"!). Juntos, os três enfrentavam as forças do mal em uma van superequipada. Contudo, como o próprio Brevoort chegou a questionar, quem ia dirigir a tal da van? O cego, a "dimenor" ou o cachorro?

O irônico é que essa proposta PG-0 do vigilante chegava numa época em que seus quadrinhos andavam mais violentos do que nunca, via Frank Miller. O rumor que correu nos anos seguintes era de que o projeto foi cancelado devido à capa de Daredevil #184, que trazia o Demolidor apontando uma Magnum .357 para a cara do sossego.


"É, amigo, tenho que admitir... eu tava com o pavio curto"

Na edição, o herói baleava ninguém menos que o Justiceiro. Reza a lenda que isto espantou a alta cúpula yuppie da rede, que pulou fora. Mas segundo Brevoort, a verdade é que houve uma grande reestruturação interna na ABC - coisa comum na área - e todos os projetos de equipes anteriores foram descontinuados.

Já o roteirista Mark Evanier afirma que chegou a escrever o piloto e o conceito da série. Ele lembra que o cão não tinha qualquer poder, funcionando mais como uma Lassie do herói. E que posteriormente a NBC demonstrou interesse pelo desenho, mas que não foi adiante devido às restrições de redes em adotar projetos já descartados pela concorrência.


Já pensou, um Demônio "camp", ao melhor estilo Superamigos?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

SURPREENDENTES MESMO


Indo direto ao assunto: estou viciado em tudo o que é desenhado pelo John Cassaday. Sim, eu já conhecia, já o reverenciei aqui, mas acho que só agora a parada bateu pra valer. Provavelmente aquele espetacular quase-final de Planetary teve algo a ver com isso. Talvez tenha ativado algum gatilho subconsciente de apreciação artística, sei lá. Só sei com certeza que neste momento sou capaz de ler e reler até os guardanapos que ele rabisca e joga fora. O cara devia mudar o sobrenome pra Crackssaday. Não usei o termo "viciado" à toa. Não mesmo.

Semana passada, decidi quebrar meu auto-exílio de edições nacionais dos mutantes. Mais de dez anos sem comprar nenhuma das revistas mensais dos X-Men. A causa era nobre: o buffy Joss Whedon e mr. Cassaday estavam devolvendo emoção e dignidade aos combalidos heróis em Astonishing X-Men, um primoroso seriado em quadrinhos, cuja primeira temporada me foi apresentada "em primeira mão" pelo surpreendente Fivo (valeu, tricolor!). Após uma segunda temporada ainda mais embasbacante, me senti na obrigação de ter estas jóias em meu poder!

Comprei a edição atual e fui caçar as atrasadas no sebo. Logo de cara, ensacolei a primeira fase completa (X-Men Extra #46-57), entre outras coisas - com a sagrada putaria periódica inclusa. Beleza, doze edições tinindo com Astonishing e umas bobagens ignoráveis (Excalibur, Exilados) a R$ 2,50 cada. Trintão saindo do bolso de um novo e feliz proprietário da etapa inicial de Whedon-Cassaday's Astonishing X-Men. Já estava planejando o investimento na segunda fase.

Mas eis que na semana seguinte (esta!), a Panini Comics divulga o checklist de agosto...


O horror... o horror... agora entendi o porque do "supreendentes". Eu fiquei surpreendido. É a Pixel fazendo escola.

Sabe, não é tanto pelos trinta dinheiros que escorregaram automaticamente pela sarjeta. É uma questão de espaço físico, hoje quase inexistente aqui. Cá estou eu novamente com mais um calhamaço de revistas empilhadas sem destino/propósito.

...

Tsc. A quem estou querendo enganar? É pelos trinta dinheiros mesmo.


Damn!

Aproveitando o assunto sobre encadernados mutunas...


Os Maiores Clássicos dos X-Men - Vol. 5 traz a fase da equipe X com o grande Neal Adams e roteiros dos também imensos Roy Thomas e Dennis O'Neil. O estilo inconfundível de Adams ainda soa visualmente sofisticado (um show de ângulos à parte) e todos estes anos só realçaram a extensão de sua influência. Sem dúvida, ele inspirou muita gente boa. O jovem Bill Sienkiewicz - aquele, de Cavaleiro da Lua - que o diga.

Mas o que me instigou a comprar mesmo foi a capa clássica (justamente homenageada por John Byrne em X-Men #135). Não sei bem o porque, mas se quiser chamar a minha atenção é só estampar o Monolito Vivo esmagando alguma coisa. Adoro um bom kaiju e golems quase tanto quanto quadrinhos e supervilões, então acho que é por aí. Ainda mais com a arte elegante de Adams turbinando a coisa toda com imagens monstruosamente fodas, de cair o queixo.

O lado ruim é que a referida história começa já em sua metade final (X-Men #56, maio de 1969), já que a edição anterior contava com outro artista. E também o fato de que o vilão só aparece em seu estado über-large em parcas 4 páginas. Não chega a diminuir a 'imperdibilidade' da edição - principalmente pra quem desenha a sério -, mas também não desbanca a melhor história do Monolito Vivo já escrita.

Aquela sim, um kaijuzão pra Gojira nenhum botar defeito.

terça-feira, 29 de julho de 2008

THE ZOMBIE NEXT DOOR

Estranho e cativante ao seu modo. I Love Sarah Jane é um curta australiano que participou da seleção oficial do último Sundance e vários outros menos cotados, como o Festival de Edinburgh e Cannes. Trata-se de um olhar sugestivo (e inusitado) sobre o tema "meu primeiro amor" e tudo o que eventualmente vem junto na bagagem: confusão, caos, bullying e... zombies.

A produção é caprichada e a criatura em questão é um primor de make-up (com um esmero detalhista chega a lembrar Zombie, clássico do Fulci). Mas o ponto forte é a narrativa cheia de sensibilidade com que o diretor Spencer Susser retrata Jimbo, um garoto de 13 anos que cai de joelhos pela Sarah Jane do título. Diante dela, Jimbo supera/esquece todo o cenário pós-apocalíptico, os monstros à solta, os valentões da vizinhança e, especialmente, as repelidas fulminantes de um cruel amor adolescente.

O roteiro é do próprio Susser e de David Michôd em pouco mais de onze memoráveis minutos. Algo como "garotos perdidos na terra do George A. Romero".

O curta, em inglês carregado de sotaque aussie matutão e legendas em italiano:

"My girl, my girl, my girl... talkin' 'bout my girl..."


MySpace do filme
Entrada pobre no IMDb


Aqui jaz dogg, nascido numa terça-feira.

domingo, 20 de julho de 2008

O REI DA COMÉDIA


Nunca achei que pensaria assim após três longos anos, mas lá vai: perto de Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, EUA, 2008), Batman Begins foi brincadeira de criança. Um dia ensolarado no parque. O lado mais pop e acessível do Batman na visão de Christopher Nolan. Agora a ordem do dia é chutar as crianças da sala. Livre das amarras ligadas ao passado negro da franquia, o cineasta britânico não perdoa. O roteiro escrito por ele, seu irmão Jonathan Nolan e David S. Goyer é dinâmico, inteligente, impactante e, acima de tudo, corajoso. Isto somado à montagem ríspida e uma marcação cerrada sobre as performances individuais - e pode crer que Nolan drena as capacidades cênicas de cada envolvido -, sedimentam bases ainda mais sóbrias do que as do primeiro filme. É um tour-de-force desmistificante.

A percepção de versão alternativa do herói triplica nesta seqüência, com a veia autoral de Nolan pulsando vertiginosamente - o que não deixa de estabelecer um paralelo insólito com Batman, de Tim Burton, e mais ainda com Batman: O Retorno, extremamente de Tim Burton. O que temos aqui é novamente um trabalho de reinvenção, porém minucioso e criterioso. Assim como Burton, Nolan "seqüestra" o personagem, mas as semelhanças acabam aí. Numa das cenas-chave, Cavaleiro das Trevas claramente dialoga com o Batman de 1989 e não parece dizer nada muito elogioso.

Se em Begins era notável a preocupação com praticidade e verossimilhança, Cavaleiro das Trevas assume o viés em toda a sua extensão. Começando por Gotham, que perdeu aqui todo o seu potencial turístico. Despida do art et décor faraônico e de gárgulas por toda a parte, a cidade acorda de seu sonho gótico para uma estética ordinária, anônima, ultra-realista, típica de qualquer centro urbano. Sem dúvida, transmigrou a locação para as telas. Gotham é Chicago. Mesmo os elementos tradicionais dos quadrinhos não passam intactos neste live-action-per se. O bat-sinal, por exemplo, não passa de um borrão ininteligível no céu nublado. Há várias tomadas à luz do dia. O arsenal utilizado é modesto, não existem raios da morte ou mecanismos milagrosos de nenhuma espécie. O Espantalho (Cillian Murphy) é colocado em seu devido lugar logo de cara, neste universo cuja Física se aproxima muito da nossa. E, como tal, também tem o Caos como uma força obscura da natureza.

O Coringa de Heath Ledger é incorruptível, imprevisível, irracional e... irremovível. O ator se entrega de maneira incondicional à sua psique grotesca e estilhaçada, com trejeitos desajeitadamente épicos, numa atuação que se desenrola imune à edição abrupta (o único personagem a ganhar esse luxo, aliás). O Coringa/Ledger passeia livre em cena, com o tempo e os olhares do mundo ao seu favor. E é realmente irresistível, magnético, trafegando com absoluta naturalidade entre o excêntrico, o engraçado e o aterrorizante. Ao longo da projeção, o personagem vai se transformando numa verdadeira entidade terrorista desconstruindo Gotham sistematicamente. Dos cidadãos comuns, às autoridades instituídas até seus maiores defensores. É a antítese caótica da simbologia de ordem e justiça que o Batman tenta inspirar. Para isso, o Coringa Bin Laden seleciona cuidadosamente a escória que servirá à "causa": bandidos de segunda para ações convencionais e legalmente insanos (loucos de pedra!) para as missões suicidas.

Suas maquinações são um show psicopático à parte. Desdobrando-se em etapas cada vez mais ousadas e letais, elas acabam se revelando um único e grandioso esquema ao estilo caixa-dentro-da-caixa. Sempre didático em suas piadas, se faz entender tanto com toneladas de explosivos quanto com meros utensílios básicos, como na já antológica cena do lápis (uma aula de como monopolizar a atenção!).

O Coringa definitivo, atemporal, merecedor com mérito de todas as homenagens e premiações póstumas. Para ser lembrado como algo único e referencial. No fim, uma dúvida para a eternidade... teria sido seu auge ou apenas seu início?


Dizer que Christian Bale foi ofuscado por Ledger pode ser até mais simples, mas não totalmente verdadeiro. O roteiro equilibra pelo menos cinco personagens de peso, cujas intervenções são fundamentais na resolução da trama. Assim, toda a narrativa envolvendo Batman/Bruce Wayne transcorre apenas um pouco acima das demais (e em alguns momentos até abaixo). Há eventos cruciais no roteiro operando fora do alcance e mesmo do conhecimento do protagonista, demarcando territórios com prognósticos inexistentes e conferindo tridimensionalidade ao contexto. Uma arrepiante seqüência envolvendo dois barcos foi emblemática neste sentido: sem exceção, todos são importantes aqui - principalmente a inteligência do público, jamais subestimada durante as duas horas e meia do filme.

Cavaleiro das Trevas situa-se pouco tempo após Begins. Com a mansão Wayne em reconstrução, Bruce utiliza um quartel-general provisório (quase um franchising do Inmetro), onde aprimora seus veículos, equipamentos e, em particular, sua armadura - muito pesada e pouco flexível, atestando que os realizadores estão cientes de que o design ainda está longe do ideal. Nas ruas, a lenda urbana do Batman está em franca ascensão, gerando controvérsias nos altos escalões. Toda a questão do vigilantismo é bastante discutida no filme e cria o gancho perfeito para a introdução do promotor Harvey Dent. Uma espetacular introdução, por sinal.

Celebrado como o "cavaleiro branco" de Gotham, Dent é visto com olhos esperançosos pela mídia e, especialmente por Bruce, que o considera uma alternativa mais civilizada (e menos fascista?) que a existência de um Batman. Isto até a grande virada do personagem, onde suas convicções morais e éticas são jogadas literalmente na brasa, dando origem ao trágico vilão Duas-Caras. Terrivelmente desfigurado aqui, ele supera de longe as cicatrizes bobinhas (e agora até charmosas) dos quadrinhos. Ao contrário da explosão anárquica do Coringa, o Duas-Caras é ironicamente unidimensional. Numa consciente abordagem, Aaron Eckhart manteve o mesmo tom de austeridade antes e depois do trauma. O que era virtuoso ficou diametralmente impiedoso no instante seguinte, o que é algo assustador de se imaginar.

Numa proposta em que dramaticidade e personagens são priorizados, o grande Gary Oldman recebeu um verdadeiro presente. Seu carismático Tenente Gordon foi elevado a um novo patamar, exercitando uma gama de nuances complexas em situações-limite e co-protagonizando o filme com maestria. E virou comissário, finalmente. Já Michael Caine adotou uma postura bem mais incisiva. Alfred - um lobo em pele de cordeiro - está muito mais influente e revela que nem sempre foi mordomo, o que só contribuiu na excelente química com Bale. Fora que o timing cômico dos dois é fabuloso.

Morgan Freeman teve poucas novidades com seu Lucius Fox, o Q do morcegão. Excetuando sua última cena (num gancho sutil e genial), ele apenas reeditou a pegada de sua participação anterior. E a personagem Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo bem Katie Holmes) finalmente encontra lugar e relevância à altura da franquia, se é que você me entende.

O Cavaleiro das Trevas não é perfeito como a anfetamina midiática distribuída nos últimos meses levou a crer. Ainda assim, é muito mais do que apenas o melhor filme baseado em quadrinhos. É um marco. O precedente que, tomara, redefinirá o modo como serão adaptados os próximos exemplares da nona arte. E no que depender do box-office, serão mesmo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

TRAILER DA MONA SAX

Mais uma produção fluindo quase imperceptível neste reinado de super-heróis. E uma adaptação cinematográfica de um game que era meu objeto de culto, devoção e satisfação sangüinária. Max Payne é daqueles que te acompanham por muito tempo depois. A lembrança que tenho dele é a mesma que tenho de um bom filme. A continuação, Max Payne 2: The Fall of Max Payne, podia não ser tão dark e instigante, mas era igualmente memorável (e com um finalzinho ridiculamente difícil).

Sua atmosfera pegava pesado na estética cinematográfica. A premissa era uma derivação menos viajante e mais psicológica da origem do Justiceiro - que, por sua vez, é uma variação distorcida da origem do Batman - e sendo assim realmente demorou muito para que uma versão live-action chegasse às telonas. Como de praxe nesses últimos tempos, só fui saber do filme agora, com a chegada do trailer.

Via WorstPreviews:







Redundância-mor: visualmente, é de encher os olhos. O início, no arranha-céu, é igualzinho ao jogo. Alguns planos originais também foram reaproveitados (pudera... o trechos quadrinizados entre as fases do game são story-boards prontos), como o de Max organizando a munição numa mesa e o famoso salto em bullet-time, aqui sem o God damn bullet-time. A propósito, o final do jogo é uma homenagem a uma determinada seqüência do primeiro Matrix - e já dá pra ver algo neste sentido no trailer. Uma pena que não utilizaram a trilha sonora do jogo, disparada a mais bela e sinistra que já ouvi no universo dos games.

Gostei das inserções digitalizadas, com aqueles anjos negros (alucinações provocadas por Valkyr?), não gostei da escalação de Mark Wahlberg como o justic... hã, vingador atormentado e gostei das presenças de Beau Bridges e de Mila Kunis, como a maravilhosa, esplendorosa, garbosa, charmosa, gostosa...

...Mona Sax. Tudo bem que, em um mundo racional, lógico e sem agentes gananciosos, a atriz e modelo Kathy Thong seria a escolha natural para interpretar a personagem, baseada nela mesma. Mas tenho de convir que Mila não está pra brincadeira e também tem uma boa envergadura para o papel.

Max Payne estréia lá fora em 17 de outubro. O roteiro é de Shawn Ryan, de The Shield (yeah!), e Sam Lake, escritor do game. A direção é de John Moore, o mesmo do remake de A Profecia, do Vôo da Fênix e de Atrás das Linhas Inimigas. Já existem por aí algumas comparações entre a tradução genérica deste filme com a da adaptação de Hitman, maninho em estilo e imediatamente ojerizada por muitos - o que, felizmente, não creio que será o caso aqui.

Quem se decepcionou com o filme do francês Xavier Gens por falta de punch e grafismo, mesmo no director's cut, deveria ver o filme que ele fez antes. O mesmo vale para o fraquinho A Invasão, dirigido por Oliver Hirschbiegel (de A Queda!!), Walter Salles em Água Negra (por obrigações contratuais) e tantos outros estreantes na terra do Tio Sam. Claro que ninguém desaprendeu seu ofício no momento em que desembarcou no aeroporto. Tantos casos similares só comprovam como é difícil dirigir por lá com os produtores e seus assistentes agarrados no pescoço. Hollywood toma conta mesmo.


Site oficial
Trailer HD (algumas cenas diferentes)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

COISAS DO PÂNTANO


Dois personagens que sempre renderam capas sensacionais. Inclusive, esta do Monstro do Pântano é uma das minhas favoritas de todos os tempos, junto com esta outra dele também.

E sempre achei que o Homem-Coisa tinha algo de zumbi. Pra mim esses cadáveres incrustados nele estão em casa.

Na trilha: Misfits Box Set. "Hallowe-ee-ee-een..."