domingo, 30 de novembro de 2008

TODOS NO PAREDÃO

Quando comentei sobre o infame Big Brother Zombie, até estava empolgado com a possibilidade de sair algo minimamente divertido dali. O que eu não imaginava mesmo, ou talvez nem acreditasse de fato, era que o resultado fosse tão surpreendente. Pois bem, Dead Set, a série, é um filmaço (fazendo as contas... 1 piloto de 45 minutos, mais 4 episódios de 24-25... duas horas e vinte e poucos, é isso?). Então... duas horas e vinte e poucos minutos de podreira hardcore, numa das produções "de zumbi" mais carniceiras já registradas. Os caras do E4, talvez querendo fazer a diferença, pegaram realmente pesado no projeto. Violento e nauseante até para veteranos na mordeção cadavérica. Mesmo se valendo de algumas convenções recorrentes no gênero, Dead Set traz uma altíssima voltagem de tensão e grafismo, proibitivos para o público não-iniciado e reiterada pela mensagem "eu avisei" que introduz cada episódio. E se for seguir a recomendação "este programa é melhor apreciado em widescreen/surround sound e deveria ser assistido em uma sala escura" é o mesmo que concordar em sofrer uma parada cardíaca à prestação.


O logo oficial do BB
devidamente zumbificado
Dirigido por Yann Demange e criado pelo roteirista, comediante e quadrinhista britânico Charlie Brooker, Dead Set, se não traz um pingo de humor mais rasteiro, traça observações cáusticas sobre esse bicho, o ser humano. O que, se levarmos em conta que a maior parte da história se passa na própria casa do Big Brother, é quase como observar a mediocridade da espécie confinada em um tubo de ensaio. E pelo que se vê na série, os bróderes ingleses têm tanta relevância e profundidade quanto os brazucas (e, por extensão, todos os demais bróderes ao redor do globo). Os estereótipos são os mesmos, só muda o idioma. Tem o pitboy burraldo, a gostosa estressada, a gostosa acéfala, o introvertido, 01 negra, 01 gay e por aí vai.

Daí sai muita farpa do roteiro para se degustar (e para se lamentar) e é justo onde o conceito do reality show (existe?) converge com as sinistras marcações de um zombie movie: somos ao mesmo tempo nossos maiores aliados e nossos piores inimigos.

A princípio insólito, o crossover entre os dois mundos não demora em fluir furiosamente. Com a subversão de um ícone moderno do mainstream, fica claro que não existe cenário mais apropriado para essa montanha/roleta russa macabra. Crítica social que vai até o âmago do objeto de estudo, com um vigor que faria o próprio Romero circa Dawn of the Dead atacar a dentadas os incautos traseuntes de um shopping, tamanha a satisfação em ver seu legado se reinventando através dos anos.

Claro que essa tralha toda aí é puramente observação circunstancial. Subtexto e essência. Em termos práticos, a produção se vira tão bem em seu case ação-terror-pop que poderia figurar tranqüila ao lado dos melhores exemplares da nova safra - incluindo aí a releitura snydeana de Dawn of the Dead e os magnifícos Extermínio 1 e 2 (que, embora não sejam zombie pieces verdadeiros, emulam tanto de sua estrutura fílmica que seria uma heresia não co-relacioná-los).

A história parte dos bastidores do programa, onde somos apresentados à assistente de produção Kelly (Jaime Winstone), ao produtor Patrick (o ótimo Andy Nyman) e aos participantes do programa, prestes a trocar o Big Brother por uma versão doentia do Survivor. No primeiro episódio, a dinâmica avassaladora por trás de um líder de audiência dá o tom e traça rápidos perfis dos protagonistas. Interessante como a doce e prestativa Kelly, a mais próxima de ser a "mocinha" aqui, de cara transgride alguns dos principais tabus que separam sobreviventes de presuntos nos filmes de terror: sexo, fidelidade e afins. Entendo isso como uma analogia ao fato de que no universo dos zumbis nada é exatamente preto ou branco, bom ou mau e por aí vai. Então a regra jurássica não se aplica? A resposta vem, mas só no final.

Já o insidioso Patrick, o Boninho do Reino Unido, desde a primeira cena não dá muita margem para especulação: é um dos mais arrogantes, traiçoeiros, escrotos e cruéis vilões do cinema em muito, muito tempo. Esse vai pra galeria. Veja bem... você tem vilões que não dão a mínima para a dor, sofrimento e morte que causam, muitas vezes por mera incapacidade de estabelecer vínculos emocionais com seus atos, como foi o caso de Burke (Paul Reiser), de Aliens: O Resgate. É a definição do psicopata corporativo. E também temos aqueles que sabem exatamente o dano que estão causando, mas não hesitam em se promover ao status quo da humanidade, como o ricaço Kaufman (Dennis Hopper), em Land of the Dead. Patrick é uma mistura bastarda dos dois, com sotaque britânico, sociopatia aguda e narcisismo terminal. Memorável, mesmo quando o ideal seria apagar da memória um filho da puta desse calibre.

Contando com pontas de vários ex-participantes da casa - afinal os zumbis precisam se alimentar - não deixa de surpreender a entrega generalizada do elenco de apoio, que parece mesmo estar em uma situação real idílica violentada por uma situação real caótica (a seqüência da invasão dos zumbis no estúdio é espetacular). Talvez isso esteja relacionado à natureza visceral do gênero, que não reserva espaço para poses fake ou glamourização de porra nenhuma, principalmente na hora em que a casa está caindo. Destes cameos um tanto curiosos, o destaque vai para Davina McCall, atriz e apresentadora do BB britânico, no papel dela mesma, tomando o lugar que por direito deveria ser do Pedro Bial, mas só se fosse pra valer.

De crítica pungente a diversão pop por excelência, Dead Set é uma experiência singular. Fica a torcida para que o DVD (lançado no início de novembro na Inglaterra e cheio de cenas extendidas, deletadas e ultra-sanguinolentas), também saia por aqui. Nada mais justo, após tantas edições de imbecilidade televisionada em flashes ao vivo.

Aliás... fosse preciso um apocalipse zumbi pra dar cabo do reality show, por mim já tava valendo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

CLÁSSICOS DA JUVENTUDE III


Zumbi versus tubarão!

Trecho do clássico Zombi, do mestre Lucio Fulci. Sem dúvida, uma das seqüências mais bizarras já filmadas. Segundo a lenda, o cara que fazia o morto-vivo ficou doente no dia (sei) e foi substituído pelo treinador do tubarão.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

HIPPIES DON'T LIE


Peso, lisergia e lirismo diretos de Estocolmo, Suécia. O Siena Root poderia ser mais uma banda de garotos que amavam Zeppelin, Purple & Sabbath, não fossem as relações realmente estreitas com o dito "classic rock" - e o talento necessário para tal. O grupo foi criado no fim dos anos noventa pelo baixista Sam Riffer e pelo baterista Love H Forsberg ("Love", para os íntimos), que já tocavam juntos há quase dez anos. Logo arrendaram KG West (guitarra, órgão, cítara [!], backings e clone do Urso do Cabelo Duro) e Oskar Lundström (vocais). Com essa formação, gravaram o excelente debut, A New Day Dawning, de 2004. Pouco depois, Oskar saiu da banda e foi substuído pela cantora Sanya. Com a vocalista, eles lançaram seu segundo disco, Kaleidoscope, de 2006. No ano seguinte, ela deixou o grupo, dando lugar a Sartez, que cantou no novo álbum, Far From The Sun - e que, até onde sei, ainda continua na banda.

As constantes mudanças de frontmen seria algo desastroso em qualquer grupo, mas o que acontece com o Siena Root é a profusão de um fenômeno raro. Quantas vezes na história do rock'n'roll um cantor cedeu espaço a outro tão bom ou até melhor? E que compreende exatamente o que a banda precisa naquele momento? Os casos são poucos e notórios - de cabeça, vou aí de Bon Scott/Brian Johnson (AC/DC), Ozzy/Dio (Sabbath), Gillan/Coverdale (Purple), Di'Anno/Dickinson (Maiden) e Halford/Owens (Judas). No grupo sueco isto aconteceu três vezes em três discos (100% de "reaproveitamento"!), sempre com resultados excepcionais.

O trio de vocalistas é peculiar ao extremo. Cada um tem um estilo bem diferente dos demais. Oskar Lundström, o primeiro pródigo, tem influências de soul, inclusive com timbre e alcance próximos do lendário Glenn Hughes. Quem conhece, sabe o que isso significa (e deve estar me acusando de heresia agora). Já a gatinha Sanya ouviu muito o Robert Plant dos áureos tempos e deve cantarolar "Since I've Been Loving You" em casa sem fazer feio. É uma cantora incrível. E Sartez... é glam. Mas glam, glam mesmo, com um estilo espetacularmente andrógino. Tenha em mente Ian Hunter (Mott The Hoople), Marc Bolan (T. Rex) e Bowie fase Ziggy Stardust. Mais uma vez, a banda foge do lugar comum e mantém o alto nível.


Apesar do trampo nivelado dos três à frente do Siena Root, Sanya é de longe a mais cultuada entre os admiradores do grupo. Muito marmanjo ainda choraminga pela saída da moça e é fácil entender porque.

No vídeo a seguir, ela faz uma releitura sensacional de "Coming Home", faixa de abertura do primeiro disco, cuja linha vocal (de Oskar) é dificílima.


Impossível não lembrar de Plant no filme The Song Remains The Same, mais precisamente nas cenas ao vivo no Madison Square Garden.

Como de praxe, os três álbuns do Siena Root continuam inéditos por aqui. Espero que não por muito tempo. Discoteca básica para qualquer stonerhead ou simplesmente fãs de Música.

sábado, 6 de setembro de 2008

BACK TO THE FRONT


Tempos modernos. Ao lado do Google Chrome, o leak do novo álbum do Metallica foi o evento da semana. Death Magnetic será lançado oficialmente no próximo dia 12, mas uma loja francesa queimou a largada e patrocinou uma verdadeira farra P2P mundo afora. Numa postura bem diferente da época em que comia napsters no café da manhã, Lars Ulrich tem se mostrado mais compreensivo na questão: "Todos estão felizes. Estamos em 2008 e isso faz parte de como são as coisas agora, então tudo bem. Nós estamos felizes.". Mais compreensivo ainda foi a bandeira branca sinalizada por ele sobre as releituras de clássicos do grupo feitas por fãs no YouTube. Não que essa declaração tenha vindo do fundo do coraçãozinho ardiloso do baterista, mas o Metallica de fato tem reavaliado sua posição em relação à web. Vendas online de registros ao vivo e divulgação de músicas inéditas via streaming de qualidade revelam uma boa vontade (ou necessidade) em dialogar com esse novo mercado. Nada mais simbólico do que uma banda que é a personificação do establishment-rock revendo seus próprios conceitos.

Tudo isso e a eterna promessa de retorno às raízes criativas só aumentaram as expectativas em torno do disco novo. Sem entrar em méritos mercadológicos, Death Magnetic já é o álbum mais contundente do Metallica desde And Justice for All (1988). Estão lá as seções rítmicas brutais de Lars e do ex-suicidal Robert Trujillo, a artilharia pesada das guitarras, os andamentos deslavadamente thrash da velha escola. Tem o Kirk Hammett de volta aos solos. Tem James Hetfield puto da vida, em vários momentos mandando as melodias pro inferno e esmerilhando a goela como em 1986. Sem dúvida o grupo recuperou muito daquele velho e irrefreável punch. Mas não totalmente, à despeito das seguidas tentativas de sonic boom e pulverização de pedais, cordas e amps.

Segundo os músicos, Rick Rubin desapertou os coturnos de todos durante as gravações - o contrário daquela panela de pressão gerenciada por Bob Rock. O que não deixa de ser curioso, já que, à vontade, todos contribuíram em cada uma das faixas (pela 1ª vez na história da banda) e em vinte anos foi o momento em que soaram mais fiéis às suas origens. Da parte puramente técnica, as texturas estão mais secas e nítidas, conferindo maior dinamismo e uma pegada mais efetiva ao instrumental. A guitarra-base parece uma motosserra assassina e a cozinha é uma muralha de coesão. Isso que é um som de bateria, pelo amor do Bart. Não é à toa que o Slayer não largava do sujeito. É realmente um badass moderfocka.

O resultado está a meio passo do berserker defenestrador que o Metallica já foi um dia, mas ainda com resquícios do feeling hard que vem sendo destilado desde Load (1996) - o que deve desaparecer progressivamente se os próximos álbuns mantiverem o direcionamento. Notável também o cuidado do grupo em não se aproximar demais do passado, evitando a temida auto-paródia (exatamente o que muitos andam malhando no disco em fóruns gringos, sem absolutamente nenhuma procedência). Alguns vícios ainda persistem, mas após tantos anos com a fera enjaulada e com um tour-de-force dessa magnitude, fica difícil não se curvar. Não sei por quanto tempo ainda, mas os reis estão de volta.


Faixa-a-faixa:

"That Was Just Your Life" - meu Santo Araya! Intro pulsante e dedilhados sombrios tomados de assalto por um riff cruel e uma pancadaria fulminante. Estamos de volta aos dias do No Life 'til Leather aqui. Um início espetacular.

"The End Of The Line" - essa fica bem no meio da encruzilhada. Quebrada à "Master of Puppets", métrica à "Creeping Death" e com passagens extraídas da cervical hard rocker da banda. Quase uma "Fuel" metalizada.

"Broken Beat And Scarred" - mais pesada e progressiva. Parece um lado B perdido do Justice, com palhetadas rápidas em uma base cadenciada e variações rítmicas com solo do Kirk. Excelente performance do James.

"The Day That Never Comes" - talvez a mais polêmica do disco, revisitando os mesmos climas da inesquecível "Fade to Black". É uma balada pesada que segue uma pegada mais tradicionalesca, com guitarras dobradas e final abrupto. Uma justa homenagem aos velhos tempos e uma auto-referência no mínimo merecida.

"All Nightmare Long" - mostra exatamente como é a banda migrando para o lado mais agressivo. Começa com as nuances do hard pesado da última década e desemboca num thrashão de explodir o seu lado da rua. Catártica.

"Cyanide" - por incrível que pareça, os grooves de Trujillo e a quebradeira de Lars funcionam muito melhor no disco do que ao vivo. Tem jeito de música de trabalho.

"The Unforgiven III" - fechando a trilogia (assim espero) com chave de prata. Não se compara à primeira parte, mas ganha fácil da segunda.

"The Judas Kiss" - o andamento me lembrou algo vindo do Angel Dust do Faith No More, com alguns riffs e nuances em slow-tempo à Soundgarden. Estranho, mas logo emenda num hardzão metálico de primeira linha.

"Suicide And Redemption" - instrumental colossal de dez minutos. Fazia tempo, hein.

"My Apocalypse" - me diga você, fã de Kill 'Em All e Ride the Lightning: como não sorrir de alegria em ouvir um speed thrash sangüinário como esse saindo novamente dos PA's do Metallica? Mike Portnoy disse que é a melhor música deles desde "Dyers Eve". Roubou a minha deixa o baterista de araque (sic).


Ps: apesar da capa mais tenebrosa de sua discografia, esse eu vou comprar. Faço questão.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

BIG BROTHER ZOMBIE

E os mortos-vivos invadem o sistema de vez. Dead Set é o novo projeto dos produtores britânicos do Big Brother. É. Isso. Big Brother. Anjo. Imunidade. Pedro Bial. Filmado na casa atual do programa, a série em cinco episódios será exibida até o final do ano pelo canal digital E4. Sem maiores infos até agora.

A idéia e o roteiro são de Charlie Brooker, escritor de comédia, crítico e colunista do UK Guardian. Na trama, os participantes do reality show se beneficiam do isolamento imposto pelo programa, enquanto lá fora um apocalipse zumbi assola o planeta. Segundo o Guardian, "a casa do Big Brother se torna o único lugar onde as pessoas podem se abrigar dos zumbis. E os participantes do programa não sabem do massacre que está acontecendo lá fora. É como o 24 Horas 'mas com zumbis'".

Apesar do humor cáustico dos britcoms aliado aos monstros preferidos deste que vos escreve, eu ainda estava cético quanto ao BBZ. Mas agora, após esse teaser dos infernos...



Sensacional. Só assim pra eu assistir um Big Brother!

Na trilha: Rob Zombie Live! Hell Yeah!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

VELHO, MAS NEM TANTO


Vez ou outra alguma grade de programação meia-boca resgata do limbo uma relíquia digna de nota. Semana passada, o SBT exibiu Sepultado Vivo (Buried Alive, 1990), um competente made for TV que resistiu firme ao tempo. A premissa era simples: marido envenenado pela esposa e seu amante é inadvertidamente enterrado vivo e volta para se vingar. Básico, mas funciona aqui maravilhosamente bem.

Mais conhecido por seus trabalhos na TV americana, o galã Tim Matheson está perfeito no papel do marido traído que retorna para uma vingança bem ao estilo do Antigo Testamento. Jennifer Jason Leigh (sempre gostei dessa menina) faz a esposa infiel, com visual blonde fatale, algo entediada e absolutamente ordinária. E William Atherton faz aquilo que sabe no papel do amante: um belíssimo canalha filho da puta para constar em negrito no seu (extenso) currículo de canalhas filhos da puta.

Somado a um roteiro enxuto e um elenco de apoio eficiente (destaque para Hoyt Axton, que faz o xerife), o filme ainda conta com uma direção meticulosa. Foi o primeiro longa de Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, O Nevoeiro), já sob forte influência das atmosferas à Stephen King que ainda permeiam sua carreira. O resultado é um ótimo thriller de suspense B.

O triste é que eu não dei nada por este filme na época em que chegou às locadoras. Adivinha porquê.


Ah, essa CIC Video e seus passeios cannábicos pela Pousada do Sandi... Lembro que aluguei por pura falta de opção num final de semana, o que acabou rendendo o inesperado fator surpresa. O "morto-mas-nem-tanto" (putz) foi rebatizado quando chegou às telinhas brazucas e ainda permanece sem uma versão em DVD.

Em 1997, o filme ganhou uma continuação, Enterrada Viva, dirigida por Matheson e protagonizada pela eterna brat pack Ally Sheedy. Mas os primeiros sete palmos é que ficaram na memória.


E falando em memória, uma pequena e tardia revelação. A vultosa seção Operação Resgate (que estreou num post de julho de 2004) ganhou esse nome não foi por acaso.




Me dói dizer isso, mas quem tem menos de trinta anos não vai se lembrar. O seriado Operação Resgate (Salvage 1, 1979) foi produzido pela ABC e exibido aqui pela Globo, na Sessão Aventura, acho. Teve vida curta, mas foi o suficiente pra virar meu programa favorito na primeira metade dos anos oitenta.

Na história, um coroa espertalhão dono de um ferro-velho teve a idéia de coletar os equipamentos que as missões Apollo abandonaram na Lua e revender na Terra a um preço exorbitante. Com o tempo, ele funda um projeto com ex-funcionários da Nasa visando a construção de um foguete nos moldes oficiais, só que mais barato e readaptado para serviços de busca e resgate. Nascia uma possante nave com o singelo nome de Abutre. E por "serviços", entenda-se desde guinchar um iceberg da Antártida à Califórnia até resgatar um satélite feito de ouro que está prestes a reentrar na atmosfera.

Durante a série, a equipe encara um sem-número de ameaças e situações (todas bizarras), mas o episódio em que eles pousam em uma ilha pré-histórica e enfrentam um gigantesco gorila/pé-grande bateu o recorde. Lembro até hoje.


Até pouco tempo atrás (=antes do Google) eu estava começando a achar que a série era só uma ilusão minha, já que ninguém que eu conheço lembrava. Quase uma lenda urbana, como As Aventuras de Cacá.

Se reprisassem essa pérola eu faria questão de não assistir. Pra que estragar?


Site dedicado:
Salvage 1

sábado, 30 de agosto de 2008

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

R.I.P.?


É sempre difícil comentar sobre um personagem com tanta estrada sem patinar em imediatismos e generalizações, tão comuns nesses tempos do editar/publicar. Mas acho que dá pra mandar essa na boa: em seus quase setenta anos, poucas vezes o Batman rendeu interpretações tão criativamente peculiares. Em grande parte, em razão de O Cavaleiro das Trevas e sua proposta revisionista, auto-suficiente e hermética, mas preservando bases cravadas na essência original. Bem, foi o que foi (e vou parando por aqui senão sai outro review) e quem se aventurar pelos quadrinhos do morcego hoje vai se deparar com um cenário muito diferente e, de certo modo, tão arraigado em seus objetivos quanto o filme - para o bem ou para o mal.

Mas quer saber? Batman R.I.P., a nova e polêmica saga, periga ser a melhor coisa publicada do herói em anos.

Antes do lançamento, Grant Morrison, recordista olímpico dos 100 metros de autopromoção, se esmerou no hype. Afirmou em entrevista ao CBR que faria com o Batman "algo pior que a morte" e que seria o fim da era Bruce Wayne como o cruzado encapuzado. E ainda falou mais um monte por aí, desmentindo algumas e se abstendo de outras. Seja como for, o arco, que está agora em sua 4ª parte (Batman #679), pode até não ser uma megaprodução, mas demonstra claramente porque Grant Morrison é Grant Morrison e não um Jeph Loeb qualquer.

Leitura instigante, com climão de labirinto conspiratório e uma boa dose de suspense. É quase uma nova forma de desconstruir/demolir o personagem por dentro a partir de elementos tradicionalmente "intocáveis". Afinal, não é todo dia que vandalizam o bom nome da família Wayne.

Spoilers à frente!


Martha e Thomas Wayne, os pais de Bruce, retratados como junkies, alcoólatras e freqüentadores de orgias. O pequeno Bruce seria fruto do adultério de Martha com Alfred Pennyworth (sempre o mordomo!). A suspeita de que Thomas teria forjado sua morte e agora seria quem puxa as cordinhas do submundo de Gotham. Esse pacote inflamável enfureceu muitos críticos e fanboys, mas até o presente momento teve seu lugar e motivações dentro do contexto. Certamente, grande parte é apenas armação de vilão recalcado - o problema é que este vilão em particular parece ter acesso total aos segredos de Bruce. Mesmo a sua suposta identidade soa tão bombástica quanto improvável, visto que ele alega ser o próprio Thomas.

Mas nada pode ser descartado ainda, já que Morrison, perversamente, brinca com as possibilidades. Ao mesmo tempo em que sugere que tudo pode ser obra da mente depauperada de Bruce (elemento citado pelo roteirista quando comentou o fato de que o herói vive toda essa loucura desde os anos 30), ele também faz questão de mostrar que se trata de um pesadelo bem real.

A trama é focada no retorno do misterioso Black Glove, o "keyzer soze" que tentou assassinar o morcego no arco League of Heroes, também de Morrison. Sem sair das sombras, ele reúne o perigoso Clube de Vilões, que aparenta ser liderado pelo Dr. Simon Hurt. Não fica claro se Hurt é o Black Glove - o verdadeiro antagonista do Batman aqui, considerando que o Clube oferece ameaça real apenas aos bat-sidekicks. Mas pelo andar da carruagem, eu já tenho o meu suspeito principal.

Após o jump >>


É Jezebel Jet, a bela namoradinha do herói. Vários indícios saltam aos olhos (a primeira a receber um contato do Black Glove; esteve presente no momento do colapso mental de Bruce; convenientemente saiu de cena ao ser capturada; perfeita demais pro sempre trágico Darcnaite). Contudo, são pistas óbvias demais, o que contraria a única qualidade totalmente indiscutível de Morrison: ele pode ser tudo, menos datado. Quem em sã consciência poderia imaginar, p.ex., que Xorn era o Magneto (estou avaliando imprevisibilidade aqui, não bom senso)? Essa busca pelo ineditismo e soluções inesperadas é justamente o que dá o tom principal de Batman R.I.P. E nesse quesito, como diria Marcelo Nova, o passado é o futuro, baby.

O Clube representa não só mais um trampo arqueológico absurdo de Morrison (é composto pelos arquiinimigos do velhuscão Batmen of All Nations!), como também uma de suas maiores obsessões: a Era de Ouro.

O próprio visual do bando parece ter sido inspirado na False Face Society, organização criminosa que o morcego enfrentou em Batman #152 (dez/1962). Curiosamente, seu líder mascarado se revelava ninguém menos que o Coringa. Um modelo a ser seguido? Meu palpite é que não, considerando que o palhaço (que, por sinal, está parecendo um primo do Marilyn Manson) já tem uma função bem definida no arco.

Toda essa gana para encaixar o passado camp/infantil/psicodélico/doidaço do velho Batman na dinâmica atual foi provavelmente o maior guilty pleasure de Morrison ao escrever a saga. E prepara o terreno para a punchline não só da edição #678, mas também do arco e, se bobear, da década inteira.


O Batman de Zur-En-ArrhNão dá pra ser mais rebuscado que isso.

Sem dúvida, é o carro-chefe da fixação cinqüentista de Morrison em R.I.P. Enxerto inacreditável de Batman #113 (fev/1958), história Batman -- The Superman of Planet X! (haja maconha, Senhor), onde o morcegão é teleportado para o planeta Zur-En-Arrh e ganha poderes ao melhor estilo Superman. Lá ele conhece um Batman wannabe alienígena que se inspirou nele para defender a justiça em seu mundo. A idéia de revisitar esse passado negro (ou seria colorido?) em tempos de Coringa do Heath Ledger e após oitocentas Crises só poderia ser feito do jeito que foi: tudo não passava de uma indução ilusória na cabeça de Bruce.

A palavra-gatilho "Zur-En-Arrh" foi criada pelo Dr. Hurt para "desligar" a persona-Batman de sua psiqué. Ao mesmo tempo, Bruce, antecipando um eventual atentado psicológico (claro!), criou uma identidade-backup, que é o Batman de Zur-En-Arrh. Infos cedidas pelo infame Batmirim, também resgatado do limbo pré-Crise - aparentemente, o Mxyzptlk do morcego aqui é apenas um agente de racionalização criado pelo herói. Em outras palavras, um grilo falante.

É certo que antes dessa invocação retrô ante-diluviana, poucos compreenderam de cara o significado de certas cenas (os que entenderam ou são freaks ou já estão quase comendo capim pela raiz... dá um tempo!). Ainda mais flutuando soltas dentro da costumeira narrativa fragmentada de Morrison, este David Lynch dos quadrinhos. Ou seja, Morrison é quadrinho que demanda mais que meras folheadas, o que é uma virtude e também um problema. Por mais que seja enriquecedor para o texto e ocasionalmente divertido para o leitor, não é sempre que bate a disposição de sair por aí à cata de referências (é ou não é Alcofa?!). E o Morrison faz todo o acabamento do roteiro em torno disso.

A propósito, não estou acompanhando nenhum tie-in. Com Secret Invasion e agregados já sobrecarregando o sistema (neurológico), é humanamente impossível pra mim. Fora que ainda estou com o bat-radar em frangalhos desde a minha incursão em World War Hulk. Santos caça-níqueis, Batman!


A arte de Tony Daniel é competente, mas não surpreendente. Gostei do novo Batmóvel à Aston Martin (não é nenhum Tumbler, mas...). E as capas variantes de Alex Ross são um show à parte. Fazia tempo que o "Capitão Marvels" não se apresentava tão bem em séries regulares.

Fica a expectativa para próxima edição - que está me parecendo muito, muito divertida - e a resolução da trama que está sendo vendida como "definitiva" na trajetória do morcego. Com dois arcos subseqüentes já engatilhados (um de Denny O'Neil e outro de Neil Gaiman!), tudo indica que o velho cruzado vai mesmo passar o capuz adiante - e, quem sabe, finalmente assumir a posição da sua contraparte na série Batman do Futuro. Ao meu ver, não seria nada mal. Mas duvido que dure.

Ps: Grant Morrison deve ter pirado com o trailer de Batman: The Brave and the Bold!