quarta-feira, 13 de abril de 2016

Éramos onze


O clímax do arco da prisão, depois o olhar 43 de Carl e agora a chegada triunfal de Negan. The Walking Dead finalizou sua sexta temporada em sincronia com o 3º grande momento da saga nos quadrinhos. Não é apenas uma das cenas mais aguardadas pelos leitores, como também a mais extrema no quesito gráfico. Foi uma grosseria splatter mesmo. Difícil dizer se a network vai bancar uma versão literal e explícita daquilo que chocou tanta gente nos quadrinhos, ainda mais considerando que nem luminares da casca-grossice como Game of Thrones foram tão fundo na ferida. O certo é que a cena com o nosso querido grupo de anti-heróis ajoelhados diante de um trágico destino já é antológica.

Essa 6ª temporada periga ter sido a mais balanceada da série até aqui. Bons ganchos nas subtramas de Alexandria e o mega-êxodo zumbi, a polêmica bem plantada sobre Glenn no fim da meia-temporada, um desenvolvimento mais intenso de personagens importantes, como foi o caso de Carol, e os primeiros contatos com a colônia Hilltop, com os Salvadores e até mesmo com o Reinado. Tudo de forma cadenciada, sem reimaginações furadas e o mais próximo possível da linha narrativa original. Créditos para o showrunner e roteirista Scott M. Gimple e para o diretor, roteirista, técnico de fx, zelador, faxineiro e office-boy Greg Nicotero, que, salvo a barrigada nos últimos dois episódios antes do season finale, não deixaram a peteca cair.

A verdade é que esse pessoal tem aqui uma oportunidade única para redimir a série de alguns equívocos do passado - sendo o mais gritante o Governador soft das temporadas anteriores. Não é preciso ser um gênio para perceber que os gibis de Robert Kirkman são quase um story-board de luxo (com mil perdões à arte fantástica de Charlie Adlard), apenas aguardando tridimensionalidade física. Claro que aparar algumas arestas aqui e ali faz parte, mas tudo de essencial que deveria ser planejado, medido e pesado já o foi, anos atrás, lá no estúdio do gordinho.

Ainda mais a essa altura do campeonato, com os US$ da AMC minando incessantemente na conta bancária. Impossível pensar em Rick Grimes & cia. apenas como personagens de gibi mensal.

Acaba sendo bem interessante comparar esses eventuais ajustes, agora mais relacionados à transposição de formatos do que de conteúdo. Aquele catártico #100 dos quadrinhos - na minha época a centésima edição era comemorada de outro jeito - é um bom exemplo de alteração técnica. O impactante final da HQ pontuava o fim de uma fase e o início de outra. Já na telinha, foi priorizado o cliffhanger. Estratégia alternativa e narrativamente oposta ao imediatismo de um Casamento Vermelho, mas comercialmente a jogada certa.

Com um episódio com mais atmosfera que Júpiter, vazando tensão por todos os frames e algumas das melhores performances do elenco principal, o final foi de baixar a pressão até o subsolo. O aguardado Negan de Jeffrey Dean Morgan soou menos fanfarrão e mais polido que aquele o qual estamos acostumados, mas ainda assim monopolizou o widescreen inteiro.

Apostas para outubro?

Spoilers?

"Eenie, meanie, miney...












...moe."

Rick, Carl e Michonne são "praticamente invencíveis"; Maggie está nos planos desta indústria vital; Sasha, Aaron, Eugene e Rosita, me desculpem, são irrelevantes.

Abraham e Daryl são os que parecem irresistíveis para Lucille. Ambos uma chance de ouro para os deuses da ficção corrigirem incongruências entre os universos.

Mas fico com o Glenn basicão mesmo. É simplesmente... perfeito.

Mesmo o ator Steven Yeun já teve tempo de sobra pra se acostumar. Afinal, já se passaram mais de 3 anos desde a sua missiva enfurecida (e hilária) publicada na seção de cartas da edição #102.


Ps: me resta por hora minha série chata favorita, Fear the Walking Dead. E aquele ep. da volta? Chatíssimo...

terça-feira, 29 de março de 2016

Programa de desintoxicação

Absolutamente necessário mediante "tudo isso que vi por aí".

Que seja uma jornada intimista então, pela busca da verdade e dos ideais perenes.



Pelo racionalismo.



Pelos extremos da tenacidade humana.



Pelas diferenças que se completam.



E, principalmente, por um pouco mais de esperança...



...solidariedade...


...e respeito pela vida.

Sem moderação.

terça-feira, 8 de março de 2016

O Titã, o mito


Primeiro, não sou colecionista e até agora escapei habilmente de mais esse vício.

Segundo, a pintura não está lá aquelas coisas e os olhos eram pra ser negros como o mais sombrio dos abismos.

Mesmo assim, não pude deixar passar a miniatura do Thanos. Afinal, o Titã Louco é o único vilão que, de fato, chegou lá!

Post scriptum: e, diga-se, a revista que acompanha é um must.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A Saga da Crise nas Infinitas HQs


Ainda não foi dessa vez que a bolha do mercado nacional de HQs estourou. Mas que houve uma estremecida esquisita entre o final de 2015 e este início de 2016, isso houve. E não vindo apenas das editoras, mas também da distribuição, que, por padrão, atrasa tanto quanto antecipa títulos, mas que agora parece ter batido um recorde do caos.

A programação dos lançamentos foi implacável: tijolões de Crise nas Infinitas Terras, A Saga da Fênix Negra, A Liga Extraordinária: Século e as incessantes coleções da Salvat, Eaglemoss e DeAgostini se embolando com arrobas de edições de dezembro que só há pouco aportaram em bancas e lojas. Isso sem mencionar aquisições indie fora da curva, carinhosamente garimpadas em nome de uma coleção com a cara do dono.

Resultado: janeiro foi meu mês mais $obrecarregado desde que passei a registrar a experiência. Sentei o dedo nessa porra.

O problema da quantidade deixou de ser dos mixes mensais para ser dos encadernados. Especialmente agora, com a chegada do material dito "clássico" às graphics da Salvat, onde o aproveitamento por edição foi elevado substancialmente. Histórias antes relegadas às edições adulteradas da editora Abril finalmente publicadas com acabamento digno - embora não na ordem ideal, cronológica, proposta já sepultada pelo naufrágio das linhas Biblioteca Histórica Marvel e Crônicas, da DC.

Mesmo assim o paliativo é saboroso. Quem não fazia a coleção inteira e dava graças a Crom por isso, pode passar a carteira - e já viu a extensão #11, Contos de Asgard, que coisa linda e irresistível? Bem dizia aquela máxima dos filmes: "cuidado com o que deseja".

Das editoras menores, apenas a Mythos e seus minions cantoneses parecem manter seu nicho de mercado. Muito disso é culpa de um certo ranger texano e seus, até ontem, 11 títulos regulares variando entre almanaques em formatinho preto e branco e trade paperbacks coloridos gigantes. Ele e um bárbaro cimério contam com uma vantagem sobre seus pares da 9ª arte: um público informal não segmentado que já foi mais forte em tempos idos.

E que, aliás, segue como fonte de piadinhas infames recorrentes...


O público original de Tex e Conan no Brasil

Uma das consequências imediatas desse boom quadrinhístico são os relançamentos dos títulos mais populares num curto espaço de tempo em relação à publicação original. É uma tática predatória cujo reflexo é sentido nas linhas mais baratas, como os mixes, e que não parece projetar algo positivo a longo prazo.

A base desse mercado, afinal, é o cronograma mensal, popular, não o das "edições definitivas". Do mesmo jeito que ocorre lá fora.

Mas cá estou eu com a minha coleção de Capitão América & Gavião Arqueiro fechada recentemente...


Voei perto do Sol com asas de pisa brite...

...me vendo estranhamente acostumado com a aquisição do encadernado do Clint Barton.


Mais um dia no escritório da repetição. Algo tão óbvio assim só senti com a minissérie Grandes Astros Superman e sua edição TP. E olha que elas tiveram 4 anos de gap.

Pelo menos o Cap de Rick Remender foi divertido. Será que vai ter encadernado também?

Levi Trindade, editor da Panini, não parece nem um pouco preocupado: segundo ele, a agenda de relançamentos vai seguir em ritmo industrial em 2016. Entre a avalanche de mangás e a ótima Maravilha de Brian Azzarello e Cliff Chiang, a reedição com o melhor timing periga ser a de O Imortal Punho de Ferro, da abençoada dupla Ed Brubaker/Matt Fraction.

Não apenas pela série live-action que se forma no horizonte, mas também por um dos meus exemplares de Marvel Apresenta. Das três edições onde a série foi publicada, entre 2008 e 2009, as duas últimas nunca saíram do plástico. Já a primeira...


Papel que não respira vive melhor...

Acho que isso soluciona algumas polêmicas colecionistas.


* * * * *


Esse post subiria no finalzinho de janeiro e foi prorrogado para o fim do Carnaval, mas não tive como deixar passar algumas coisas que foram surgindo. Principalmente porque o assunto parece bastante ligado ao tal "ritmo industrial" dos relançamentos de luxo que a Panini vem imprimindo de uns bons tempos pra cá.


Crise nas Infinitas Terras e X-Men: A Saga da Fênix Negra, sem maiores apresentações, excetuando os preços: 115 e 85 reais, respectivamente. Considerando cenário econômico, importância das obras, projeto gráfico e material extra (em especial, o de Crise), justo, muito justo. Justíssimo.

O problema é que foram dois lançamentos de grande porte evidenciando profundas deficiências de revisão da editora. Ainda não li - ou revisei, rá. Me limitei a conferir se constavam lá os erros noticiados via Facebook, YouTube, fóruns e blogs, talvez, na esperança de ser uma falha isolada a alguns lotes da gráfica. E pelo jeito, não foi.

Em A Saga da Fênix Negra já virou famosa a cena do Wolverine e suas "gatas de adamantium".


Agora a perna de pau do Wolvie na Salvat respira um pouco mais aliviada.

Mas o pior veio algumas páginas antes.


Terrível.

A revisão de Crise nas Infinitas Terras também "não faz feio" com dois diálogos trocados que, se não trazem nenhum prejuízo às tramas principais, no mínimo bagunçam completamente a cena.


Nada, nada, um erro que nem a Abril e suas traduções la garantia soy yo cometeram.

Questionado sobre o caso nos comentários do Distopia Cast, novamente Levi Trindade, sempre boa-praça e solícito, não desconversou e pareceu genuinamente surpreso com os erros.

Segue o trecho.



+distopia cast Valeu, pessoal, já assisti e foi mesmo bem legal. Parabéns! Agora quero dar uma sugestão  de tema para os próximos papos como Levi e o pessoal da Panini: traduções e revisões. Está cada vez mais assustador a quantidade de erros bizarros nas traduções do material da Panini, inclusive nos deluxe que custam uma fortuna. Desde letras falatando na capa até balões inteiros em branco ou com texto errado (recentemente encontraram problemas na Saga de Fênix recém-lançada). As CHM (editadas pela Carol, se não me engano) vem com erros grosseiros de português, dignos de quem não entende nada de gramática e ortografia (é burrice mesmo, e não "erro de digitação"). Acho que isso valeria um especial, pois tá sendo sistemático o problema e tá ficando difícil a situação! Valeu e, no mais, continuem fazendo o bom trabalho (e evitando as coisas "sem nexo" que de vez em quando aparecem, hehehehe)!

+joaqquinno Oi, joaquuinno. Muito obrigado pelo seu comentário. Realmente, ocorreram algumas falhas e já conversamos com as pessoas responsáveis. Sobre o caso do livro da Fênix Negra, recebi um contato via nossa página no Face de que havia uma página duplicada, mas nas edições que recebemos da gráfica isso não ocorreu. Então, peço que, se possível, caso você tenha uma edição com esse problema (que é muito bizarro), que encaminhe fotos das páginas em questão pro pessoal do Distopia Cast e depois eles enviam pra gente, beleza? Até agora, não encontramos nenhuma edição com esse problema, mas se houver ela será trocada. Porém, se o problema for outro, por favor, nos informe também. No ano passado, tivemos um problema na gráfica com a reimpressão de Cavaleiro das Trevas. Magicamente, em uma página, alguns balões ficaram em branco. Porém, os arquivos em PDF estavam corretos e eram os mesmos que a gráfica tinha recebido. A gráfica, neste caso, se responsabilizou pelo ocorrido (apesar de não ter conseguido explicar satisfatoriamente o ocorrido, já que apenas alguns balões da página estavam em branco, enquanto que outros continham textos normalmente) e reimprimiu toda a tiragem do livro novamente. Nós efetuamos a troca para todos que compraram. Antes disso, já tínhamos suspendido a distribuição e solicitado a devolução para as livrarias e lojas que haviam recebido o livro. No caso de Liga da Justiça: Origem, houve reimpressão do livro e todos que compraram o livro com o erro de digitação na lombada tiveram o livro trocado. Sobre os erros de tradução e revisão, estamos pegando bastante no pé da galera que cuida dessas áreas, mas algumas coisas andaram passando. Vamos reforçar o cuidado nessa questão. Um forte abraço, Levi Trindade Panini Comics


E foi isso aí.

Até posso relevar a troca dos balões de Crise - a rigor, o mesmo erro pavoroso constante em Sandman - Edição Definitiva (volume 1, pág. 343). Que é frustrante visto de modo isolado, mas que, no conjunto, não ofusca o fato de que é uma belíssima e imperdível edição. Isso se não encontrarem mais vacilos cabulosos, lógico.

Já os erros de Fênix Negra, ao meu ver, configuram com louvor os requisitos para um recall. Penso que são falhas tecnicamente bobas, porém pontuais. E traçam um cenário interno grave que só pode ser explicado pela completa ausência de revisão (que, em tese, é composta por várias etapas redundantes com mais de um profissional envolvido), possivelmente causada por contenção de gastos ou por alguma deadline ambiciosa - ou coisa pior, para os conspiradores de plantão.

Não consigo acreditar que foi apenas incompetência coletiva. Sem ironia.

Pretendo acompanhar os desdobramentos disso. Vou cornetar nos perfis da editora, cutucar por e-mail, enviar as fotos e tudo o mais. Recomendo a todos a mesma atitude. Se surtir efeito prático, também vou querer um novo corrigidinho e nos conformes. Se rolar só umas desculpinhas, bem... não vou ficar mais pobre por causa disso. Mas vou ficar mais chato.

Por hora, está inaugurada oficialmente a tag Porra, Panini! aqui no BZ.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

The Walking Dead S06E09 ou "Sem Saída", parte quatro


Que volta.

Foram alguns dos melhores - senão os melhores - minutos de The Walking Dead até agora. Catarse pura. E só porque fizeram by the (comic) book. Greg Nicotero: te devo uma rodada.

Agora dá licença que vou ali checar a reação da neofitada e já volto com um sorriso no rosto.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Vulgar Display of White Power


Janeiro não foi para fracos. Em um ano que começou com clima de desesperança e desconfiança geral, nem o entretenimento nosso de cada dia escapou incólume. Das passagens esperadas até as inesperadas de nomes emblemáticos do cinema e da música, foi um mês estranho que só terminou quando finalmente concluiu seu sombrio epílogo.

O que Phil Anselmo aprontou ao final do Dimebash 2016 - e suas consequências - você pode acompanhar cronologicamente em qualquer site de notícias do meio heavy metal. Recomendo em especial a recapitulação dos precedentes feita pelo MetalSucks e o desabafo de Robb Flynn, do Machine Head.

Minha opinião sobre esse tosco episódio é bem simples. Primeiro, Anselmo não é racista. Uma breve passeada pelo YouTube e você o encontra curtindo com seu amigo Doug Pinnick, do King's X, agitando loucamente em uma apresentação do Living Colour e não só tietando como apoiando seus colegas latino-americanos do Sepultura. Mas é óbvio que ele tem sentimentos mal-resolvidos nessa área, ao contrário do que foi dito em seu pedido de desculpas/contenção de danos.

Tive a nítida impressão que a bebida foi o gatilho sim, mas como um veículo acidental para esses sentimentos. Pareceu algo que ele realmente queria tirar de seu sistema. Um grito entalado na garganta por muito tempo. Por toda sua vida, talvez.

Para entender melhor de onde vem esse "grey power", é preciso entender o seu contexto. O que não é tão complicado assim. Um paralelo razoável é o que acontece hoje no Brasil, com esse Fla-Flu político/ideológico pressionando todo mundo.

Cobranças veladas por posturas extremistas e intolerância estão aí, te assediando dia após dia, cada vez mais explicitamente, no trabalho, na roda de amigos, em casa. E usando qualquer boato ou factóide que estiver à mão sem o menor pudor de ser descoberto como falso. Uma mentira repetida mil vezes... sabe como é.

A médio prazo isso acaba surtindo efeitos conflituosos na cabeça de qualquer cidadão. A longo prazo, dentro de uma rotina de insinuações e "bons" conselhos, o estrago é inevitável - o que foi ilustrado à perfeição numa cena-chave do filme A Outra História Americana.


Claro que não sei o que passou na vida privada de Anselmo. Tudo isso é só presunção barata baseada nas contradições que ele vem protagonizando por anos a fio. Psicologia de boteco, certo?

domingo, 31 de janeiro de 2016

O Arquivo X está lá fora


Estamos vivendo uma era inédita para a difusão de séries. Com o veículo transcendendo as plataformas tradicionais, novas e velhas apostas na grade de títulos pipocam num ritmo vertiginoso, se acotovelando entre premières, entressafras e seasons finales. Diante deste cenário, nada mais natural que os divisores de águas retornem do além televisivo para reclamar a sua parte nos espólios deste futuro que ajudaram a construir.

Arquivo X foi, provavelmente, o divisor de águas definitivo. Antes da série, a expressão "mais um enlatado americano" era típica para definir as produções genéricas importadas de lá. E era só o que havia mesmo. Seu legado é tão profundo quanto duradouro - Lost, Sobrenatural, Fringe e inúmeras outras devem as calças a Arquivo X.

Criada por Chris Carter, a série estreou em setembro de 1993, começando como um azarão e alçado ao status de fenômeno pop. Azarão, porque a proposta abordando o paranormal, o sobrenatural e, principalmente, homenzinhos verdes, estava fora de moda naquele início pragmático de década. Talvez a audiência norte-americana estivesse sacudida demais pela realidade, diante da guerra no Iraque, do atentado ao World Trade Center, do Unabomber, do massacre em Waco/Texas e da expectativa pela primeira administração democrata em mais de 10 anos.

Se me perguntassem então o que fez a diferença entre o ícone mainstream que Arquivo X se tornou e o cult obscuro que fatalmente teria sido, diria que foi um ingrediente utilizado sem moderação por Carter: política e conspirações. Entre corredores de escritórios federais, reuniões a portas fechadas e sussurros ao pé do ouvido, o espectador norte-americano teve exatamente a resposta na telinha para tudo aquilo que ele suspeitava vendo as manchetes do dia-a-dia: o governo estava pouco se fodendo para o povo.

Nenhuma das regras esmiuçadas na Constituição se aplicavam aos engravatados. O governo e suas agências faziam o que queriam, quando queriam, com quem queriam e não davam nenhuma satisfação. Eles eram os cowboys e as pessoas, o gado.

Revendo recentemente as 4 primeiras temporadas, ficou ainda mais claro aquilo que eu não prestei tanta atenção na época. Na ânsia pelo resultado, frequentemente deixei passar o jogo. A trama principal, versando sobre uma conspiração mundial envolvendo raças extraterrestres, era apenas um sedutor cenário para as observações políticas de Carter. Uma conspiração onde governos e pessoas do alto escalão disputam posições para o jogo do milênio, prafraseando S.R. Hadden, é quase que o diário de bordo das entranhas do poder.

A questão é, se após um run com temporadas finais bastante desgastadas, um longa apenas razoável e outro ruim, Arquivo X ainda encontraria relevância conceitual nos dias atuais. Pelo que foi demonstrado nos dois episódios de estreia, não só a encontrou, como deitou e rolou com ela.

De forma esperta, o roteiro praticamente não encosta na estrutura consagrada. Estão lá Fox Mulder e Dana Scully - e é sempre um prazer rever esses dois - começando de onde tudo parou na última temporada e em Arquivo X: Eu Quero Acreditar. Ambos completamente fora do radar, apenas para serem jogados no tabuleiro novamente com uma facilidade que só o contexto de Arquivo X consegue permitir sem descer esquisito.


A abertura do episódio de estreia ("My Struggle"), dirigido e escrito pelo próprio Chris Carter, é um must-see para fãs. Com uma sequência reunindo vários momentos - e monstros - clássicos da série nos anos noventa, incluindo promos publicitários famosos seguidos por aquela abertura, uma narração de Mulder faz um resumo hipercompacto do perrengue enfrentado até ali - curiosamente sem referenciar a fase final da série, protagonizada por John Doggett (Robert Patrick) e Monica Reyes (Annabeth Gish). A trama traz um lauto delivery de paranoia conspiratória e, como não poderia deixar de ser, é focada nas relações do governo dos EUA com uma suposta invasão alienígena começando no infame incidente em Roswell.

Velho conhecido do público, mas ainda cheio de desdobramentos intocados, o plot avança vários capítulos dentro da mitologia. E isso inclui uma grande reviravolta que, não somos bestas, pode ou não ser verdade. Dentro da mesma lógica, as novas revelações entrariam em contradição com vários elementos notórios de Arquivo X. Nada que mais tarde não seja explicado/expandido/evoluído/escrutinado. Ou, na menos ambiciosa das hipóteses, desmentido.

Especialmente interessante é ver David Duchovny e Gillian Anderson de volta aos elegantes blazers do FBI. Anderson é atriz de teatro, atua com tração nas 4 rodas. Mas Duchovny ainda era uma incógnita. Ainda que Fox Mulder seja o personagem da sua vida, quem acompanhou as peripécias de Hank Moody em Californication certamente teve dúvidas se ele ainda convenceria como o obsessivo e atormentado Fox Mulder. Mas é mesmo como andar de bicicleta. E um exemplo de raro ménage à trois de um ator com dois personagens icônicos.

Mitch Pileggi, o eterno diretor-assistente Walter Skinner, também retorna tão naturalmente que parece que nunca deixou a sua sala no Bureau. A postura severa e rabugenta com uma disfarçada afinidade por Mulder e Scully ainda é rigorosamente a mesma. Não tive como não lembrar da época em que, sem TV por assinatura, eu corria atrás dos episódios de Arquivo X (em locadoras longínquas ou perdidos pela programação aberta) como uma verdadeira caça ao tesouro. Outro grande resgate - surpresa - dá as caras em certo ponto e foi certamente algo muito gratificante para os espectadores veteranos.

E ótima a participação de Joel McHael (o Jeff Winger, de Community), aqui no papel de Tad O'Malley, celebridade reacionária de internet e zilionário que nutre interesses em comum com Mulder e Scully. O personagem é promissor.


"Founder's Mutation", o segundo episódio, segue a cartilha da trama paranormal, já remontando aos bons e velhos "episódios de monstro da semana". Inclusive a mesma premissa já foi utilizada algumas vezes nos runs iniciais, sendo aqui atualizada em dinâmica e produção.

Dá pra antecipar a conclusão desde o começo, mas a narrativa tensa, lembrando Scanners nos melhores momentos e as quebras bem-humoradas (orbitando em torno de "modernidades" como Google, Uber e smart phones) garantem a diversão com folgas. E também tem os momentos mais densos deste (re)início, ao abordar um acontecimento traumático da vida dos agentes.

Concebido como uma mini-temporada de 6 episódios, esse breve retorno de Arquivo X não nega sua natureza revivalista - e não há nada para consertar onde não está quebrado, certo? Em tratando da carreira instável da série, mais ou menos. Mas isso também faz parte da descoberta, da diversão. E da verdade.

Logo mais tem outro.