quinta-feira, 18 de maio de 2006

Nem eu, nem Fivo: dessa vez é o colleague Sandro quem psicografa, em sua primeira incursão zombística. A seguir, ele destrincha o verdadeiro sentido de parar pra curtir um bom rock'n'roll. E não estamos falando só de música aqui.


IT'S EVOLUTION, BABY!!!


Parte 1: Os de estúdio.

Início dos anos 90. Eu tinha uns 17 anos. Época boa, na verdade uma época de escolhas, mas ninguém estava afim de escolher nada. Ao mesmo tempo que tínhamos que escolher algo perante nossos pais, a gente estava descobrindo um monte de coisas, o que teoricamente anulava o fator escolha naquele momento, já que tanta coisa nova aparecia. Era época de Batman chutando o Azulão, Rorschach, aquelas porcarias de tamagochis, Holden Caufield e seu campo de centeio. Época de blá-blá-blá sobre teoria das Supercordas, importância do voto, não fume, se alimente bem e suco Tang dá câncer. Era época de garotas também. Era época de engolir Fernão Capelo Gaivota, Os Lusíadas e qualquer um do Machado de Assis pra vestibular. Mas, na verdade, nada disso importava, porque a época era mesmo de uma banda: Nirvana.

Começar um texto sobre o Pearl Jam falando do Nirvana parece sacanagem, mas não é. Temos que admitir que Smells Like Teen Spirit abriu espaço pra um monte de gente mostrar seu trabalho. Poucos se deram bem e estão até hoje por aí, outros já não conseguiram o tipo de exposição que pretendiam, ou a musicalidade deles não seria compreendida por muitos, ou simplesmente não quiseram entrar no bloco mainstream da coisa. Eu, particularmente, agradeço a Kurt e companhia por terem me apresentado ao Mudhoney, Screaming Trees e ao Mother Love Bone, uma das bandas que tem o nome mais legal que já vi. Projetos solo à parte, nenhuma conseguiu o êxito a curto prazo que o Nirvana conseguiu. Nem o Pearl Jam, citado aí em cima. E novamente, parece estranho falar de uma banda e ficar citando outra, mas não é.

Admito que queria que o Pearl Jam se explodisse na época. Aquele primeiro disco deles, com aquela capa semi Poison me deixava puto. Como alguém pode aprovar uma coisa daquelas? E o povo que idolatrava Alive como hino me enchia o saco com discussões sobre o significado daquelas mãos juntas e o nome do disco. Um bebê nadando com uma arma flutuando não precisa de grandes explicações, assim como as capas dos discos do Soundgarden ou do Alice in Chains. A impressão que me dava é que os boyzinhos da sala curtiam Pearl Jam e os sujões, que eram os reais líderes das salas de aula, o Nirvana. Aqui ou ali um fã de Guns, mas eu sempre detestei Guns, portanto não sei o que eles pensavam ou se pensavam em algo.

Mas sempre fui do tipo "tenho que ouvir pra criticar". Tinha medo de ler Mein Kampf, do Hitler, por pré-julgamento do povo mindless, então lia escondido. Mas lia. Queria saber o que pensava um cara como Hitler, assim como queria saber o que Mandela e o Black Panther Party pensava. Informação sempre é útil, mesmo quando se tratava de uma álbum como Ten. Ouvi tudinho. Vi clipe na MTV. A tal da Jeremy tinha uma letra bem legal, mas não adianta, eu só ouvia a merda da Alive no rádio e na boca dos pseudo-fãs. Não ouvi ninguém falar nada do restante do disco. Mais tarde, Black tocou até doer. Mas não adianta, para quem estava ouvindo Jesus Christ Pose ou Suck You Dry não havia Why Go? que agradasse. Pelo menos, esse era meu ponto de vista.

Ouvi Nevermind até sangrar meu ouvido esquerdo. E não cansava. E não canso. E nunca vou cansar, assim como ouço Badmotorfinger até hoje no último. Era também uma época de descobrir Sonic Youth, Jesus and Mary Chain e ficar garimpando coisas novas das lojas de disco. CD tava começando a aparecer, mas nem tanto. Mas em todo lugar pra onde me virava, ouvia Alive. E não aguentava mais. Até hoje tenho uma coisa com essa música. Não aguento. Simplesmente não aguento. PJ pra mim era a Polly Jean Harvey. Ponto.


O disco novo veio logo, uns dois anos depois. Vs era o nome e tinha uma foto de um bicho tirada com uma grande angular. Na primeira vez que vi não entendi direito e nunca iria pensar que era uma ovelha. Eu estava chapado de bebida numa festa, mas ainda lembro quando fulano veio me mostrar o CD. Era um dos primeiros cd's que eu via na vida. E confesso que fiquei curioso pra saber o que aqueles caras iriam fazer depois da mega exposição. Perdão pelo trocadilho, mas acho que no momento pensei "será que eles still alive?". Chapar nessa época era legal. Surpresa minha ao acordar na casa de meus pais no dia seguinte com uma puta dor de cabeça e o tal do disco no bolso da minha jaqueta. Eu nem tinha CD player e, mais ainda, nem sabia de quem era o disco, não lembrava do fulano que me mostrou. Se você, fulano, está lendo isso, eu te devolvo, ok? É só pedir educadamente.

Fui na casa do meu amiguinho rico e pedi pra ele gravar numa fita. Meio com mal gosto, meio com vontade de tirar sarro dos meus amigos eddie fazóides, coloquei a fita e os fones de ouvido, sentei no chão da sala e pensei automaticamente nos primeiros acordes: "o chicão me gravou disco errado. Não é Pearl Jam isso aqui...". Peguei o encarte e comecei a seguir as letras. Encarte maneiro, pensei. Letras maneiras pensei. Som do caralho, pensei. Fãs de Alive reclamando, pensei.

E foi nessa hora que virei fã do Pearl Jam. Ouvindo Go, Animal e Indifference. Esta última, aliás, parecia que estava no final do disco por um motivo. Parecia que eles estavam indiferentes com o primeiro disco, que o que eles queriam fazer mesmo era rock'n'roll. Que o segundo é um evolução do primeiro e que eles queriam continuar fazendo isso. "Saw things so much clearer..." gritava no meu ouvido. E, sem pestanejar ouvi o disco novamente. 4 vezes naquele mesmo dia. E decidi comprar meu primeiro CD, mesmo não tendo player. A mudança toda do PJ era sentida na capa, que não tinha nenhuma indicação do nome da banda, somente aquela ovelha torta. Coragem, pensei. A gravadora obviamente colocou um adesivo gigante "O Novo do Pearl Jam", mas era fácil de arrancar. A capa era ótima sem aquela droga de adesivo.

Novamente, dois anos depois, uma nova e agradável surpresa. Vitalogy era o projeto gráfico mais ousado que eu já havia visto. O CD é um livro, o acabamento impecável e a música tendenciando para um pré-experimentalismo, o que ocasiona, obviamente, queda nas vendas. Poucos hits de rádio e o Pearl Jam já tinha declarado que odiava fazer videoclipe, o que iria baixar ainda mais as vendas do disco. MTV vende. E muito. Mas tava estampado no disco todo que os caras queriam mesmo é que se foda, queriam segmentar o público-alvo deles com gente que gostasse. Queriam esquecer o passado black e simplesmente tocar. Ainda assim, músicas como Nothingman ou Not For You tocaram em rádios consideradas de rock, antes da jabálização das mesmas. Para fãs, um disco espetacularmente diferente, com direito a sanfona em Bugs e experimentalismos diversos, o que os levou a No Code, um disco em que os integrantes realmente deixaram de lado opiniões totais e simplesmente tocaram. Novamente com projeto gráfico impecável, que trazia algumas imitações de polaroids com letras de músicas no verso e fotos representativas, o disco torceu o nariz até dos fãs mais ardorosos. Eu, particularmente, somente admirava mais e mais a coragem dos caras e, até hoje, me surpreendo um pouco. De Oceans para Sometimes em 5 anos não é um pulo, é uma queda livre a 350km por hora, principalmente no conceito dos fãs do primeiro disco. E eu queria mais, queria saber onde é que aqueles caras iriam parar.

Em 1998, a banda havia firmado o que queria musicalmente e fora do circuito de grandes divulgações. Ainda assim, sem mega produções, o PJ levava milhares de fãs a shows, e isso os irritava. Queriam shows menores, mas era impossível. A produtora via o potencial de renda dos shows mais ainda do que da vendagem de discos, o que ocasionava contratos milionários e, conseqüentemente, um preço extremamente alto para os fãs que, ainda assim, pagavam. E nova briga comprada pelo Pearl Jam, agora com as empresas que vendiam seus ingressos a preços exorbitantes. Briga esta vencida pela banda, que conseguiu baixar em cerca de 65% o valor cobrado. Neste ano também veio a conciliação com a MTV, através do petardo visual Do The Evolution lançando o disco novo Yield. Dirigido por Todd "Spawn" McFarlane e roteirizado pela banda, o clipe não só é revolucionário pela sua técnica como pelo seu conteúdo, até hoje, 8 anos depois, ainda atual. E o disco trouxe de volta um Pearl Jam não de raízes, mas de coesão musical e, principalmente, satisfeito consigo mesmo. E isso dava pra se sentir nas letras e músicas. Discão para qualquer fã de rock, se nada de experimental, somente grandes músicos tocando grandes músicas, o que fez com que o próximo álbum de estúdio, Binaural fosse recebido com grande expectativa pelos fãs, agora já segmentados e não apenas "Eddie Vedder wannabes". Não manteve a estrutura musical de seu antecessor, mas concluíu o caminho da banda no sentido de direcionamento. Músicas como Nothing As It Seems e Breakerfall foram lançadas nas rádios, sem muito alarde e, consequentemente, sem o sucesso esperado. Acredito que a gravadora sempre esperou um novo Even Flow, que não veio. De certa forma, isso é um grande alívio. Entre um disco e outro, a banda lançou um disco ao vivo muito bom chamado Live On Two Legs, uma compilação de grandes músicas, nem todas grandes sucessos, o que comprova mais uma vez a intenção real da banda, a divulgação do trabalho em si, não apenas de hits ou vendagens. Banda de caráter, isso sim.


2002. Sem nenhum tipo de divulgação encontro o disco Riot Act numa loja. O PJ é uma as poucas bandas em que faço questão de comprar o disco original, mesmo antes de conhecer o conteúdo. Pelo menos um bom projeto gráfico eu terei em mãos. E não era surpresa alguma ao ouvir o disco saber que o Pearl Jam continuava seu caminho em direção a evolução, com músicas impecáveis como Ghost e I Am Mine, com direito a imagem da banda na MTV em videoclipe gravado em estúdio depois de cerca de quase 10 anos, desde Rearviewmirror. Era um retorno, mas um retorno ao estilo da banda, do jeito deles. Mais uma vez o disco tinha algo que falta na maioria das bandas atuais: conceito. Foi o que permeou o próximo disco, Lost Dogs, que trazia apenas B-Sides e raridades da banda, disco fundamental pra qualquer fã que queira realmente conhecer o trabalho sério e digno da banda. Na verdade, você só conhece uma banda realmente depois de conhecer o outro lado dela, o lado significativo e não-vendável, o aspecto simbólico concreto da motivação deles. Um disco como este mostra o que você não vai ouvir em rádios provavelmente nunca, mas nem por isso, menos importante e sonoro. Em 2003 mais um disco ao vivo, agora com vendagem revertida para o Youth Care, com grandes sucessos e a pouco conhecida Crazy Mary, o que mostrava como a banda mantinha seu engajamento sócio-político e causas humanitárias em pauta.

Dois anos depois, o inevitável Best Of. Chamado Rearviewmirror, era uma compilação dupla de sucessos da banda. Só isso. O Pearl Jam é o tipo de banda que você tem que descobrir por si próprio para conhecer a essência. Mas todo mundo precisa de dinheiro e contratos são assinados para isso.

Agora o PJ está com um disco novo, batizado com o nome da banda. Para uma banda que tem mais de 10 discos lançados, quase 70 discos duplos com gravações de shows (será que algum fã tem todos?) e participações em trilhas sonoras de filmes e causas humanitárias, até que demorou para lançarem um disco com esse título. Na verdade, o disco demonstra exatamente o que seu título quer dizer. O novo disco É o Pearl Jam. É a demonstração precisa de para onde a banda gostaria de ter ido, e conseguiu chegar. Músicas rápidas, diretas, som rasteiro e sem frescura. Num mundo globalizado, World Wide Suicide, que já começou a tocar nas rádios, devia virar hino. E não consigo enumerar as que mais gostei, porque o disco todo é recheado de riffs cortantes e letras concretas. Acho que banda boa é assim, surpreende a gente a cada disco. E eu, como fã real do Pearl Jam, estou novamente surpreendido pela dedicação aos fãs e por lutar pra fazer o que eles querem. Se todas as bandas fossem assim, talvez as coisas fossem um pouco diferentes por aqui. Atitude e iniciativa, é isso que o Pearl Jam representa para mim.

Precisa mais?


PS.: Infelizmente, por motivos financeiros, não vi os shows aqui no Brasil. Sim, me arrependo muito, assim como me arrependo muito de não ter visto o Rush (nota do ed.: deu mole... eu fui. Show-za-ço! :D). Mas já ofereci vários Sangue de Boi, Pirulitos Zorro e Pipocas Panda na macumba pra que eles voltem.


Sandro TC é publicitário, redator, designer e parece um mix de Jack Black, Robert Smith, Juggernaut e Bob Cuspe. E é o fã número 0,01 daqueles clipes bizarros do Tool. Atualmente, anda escrevendo Escrevia no Ctrl+Z e no Cine MKT, e, pelo jeito, tá querendo escrever aqui também.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Operação Resgate

Na Antártida ninguém vai ouvir você gritar.






Já tem um bom tempo desde... o último O.R. foi o quê? ...caramba, foi aquele do Danzig, há 1 ano atrás. Se bem que o Fivo, meio que inadvertidamente, manteve a adoração por estas velharias em textos como este, este e este (justamente a trinca de estréia do Lost boy por estas bandas!). De qualquer forma, este é o primeiro de uma série sobre filmes de terror que pretendo iniciar aqui. Embora esses filmes tenham conservado aquele charme irresistível que os tornaram memoráveis, muitos deles envelheceram bastante. Já outros, passaram ilesos pelo teste do tempo. Então, nada melhor do que iniciar essa seqüência gore com o assustador O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), dirigido por um John Carpenter em grande forma e, com certeza, um daqueles momentos atemporais.


Spoilers assembled!


O filme é uma adaptação do conto Who Goes There?, de John W. Campbell Jr. (leia aqui, na íntegra, em inglês), que narrava as mazelas de uma equipe científica na Antártida após a descoberta de uma nave espacial cravada no gelo há cerca de 100.000 anos. Foi a 2ª adaptação, para ser exato, sendo a primeira o sci-fi O Monstro do Ártico, de 1951, um legítimo exemplar da "Era McCarthy" do cinema de ficção (neste mesmo ano estrearam O Homem do Planeta X e o mega-absurdamente-clássico O Dia em que a Terra Parou, ambos com temáticas referenciais bastante próximas). De cara, nota-se que o filme relegou a densa atmosfera psicológica do conto em favor de uma analogia à situação geopolítica da época, notadamente à Guerra Fria e à paranóia anticomunista. Com o segmento da ficção-científica em alta no final dos anos 70/início dos anos 80 (via Alien e Blade Runner), a proposta para uma nova adaptação - que circulava há alguns anos pelos bastidores - começou a ganhar força.

A Universal não teve dúvidas: John Carpenter era a escolha natural para assumir a direção. Egresso de uma ótima e rentável fase (Halloween, Fuga de Nova Iorque), ele despontava como o próximo grande nome do cinema mainstream. Carpenter era dono de um estilo carismático, revezando intensas seqüências de ação com uma forte pegada de horror old shcool. O belíssimo trabalho de adaptação de Bill Lancaster deixou o roteiro sob medida para Carpenter desfiar suas influências de suspense clássico (O Enigma de Outro Mundo tem os climas mais hitchcockianos que Brian De Palma jamais sonhou conceber).

O staff era de primeira, parecia uma conjunção de astros do ramo. A fotografia claustrofóbica e incômoda ficou a cargo de Dean Cundey (que já havia trabalhado com Carpenter, em Fuga de Nova Iorque). A arrepiante trilha incidental era do mestre Ennio Morricone (numa das raras ocasiões em que Carpenter não compôs a trilha do seu próprio filme). Já os efeitos especiais ficaram nas mãos de um dos maiores especialistas de todos os tempos: Rob Bottin, a fera responsável pelos monstrengos do filme Grito de Horror (lançado 1 ano antes e que contém a 2ª melhor transformação de lobisomem da História - assunto pra um outro O.R. desses) e, anos mais tarde, pelo make-up insano do primeiro Robocop (sente o drama).


O filme começava num ritmo pra lá de intrigante, em pleno inverno antártico, sem muitas explicações para os personagens (e muito menos para o espectador!). Em um helicóptero, dois homens armados caçavam implacavelmente um cão da raça husky siberiano, que fugia pela planície congelada. Logo, eles chegam à uma estação de pesquisas norte-americana, a Outpost #31, e o safári termina da pior maneira. O helicóptero explode em um acidente, matando um dos homens. E o outro morre logo em seguida: após acertar um tiro em um integrante da estação, ele é baleado pelo administrador do lugar. Único sobrevivente: o cachorro sortudo.

Após as devidas averiguações, descobre-se que os dois homens pertenciam à uma equipe norueguesa instalada em uma estação próxima. Eles decidem ir à tal estação na tentativa de apurar os fatos. Chegando lá, eles se deparam com um cenário aterrador: vários cadáveres mutilados evidenciavam que o local foi palco de um verdadeiro massacre. Não sobrou ninguém para contar história. Entre documentos e vídeos com registro de atividades, eles também encontram uma criaturinha difícil de descrever. Após uma cena vomitoresca de autópsia capaz de embrulhar o estômago do legista mais calejado, eles chegam à conclusão de que "a coisa" era humana e "com todos os órgãos vitais no lugar". A partir daí, tudo segue, ou tenta seguir, na mais perfeita monotonia de um isolamento sub-zero, quando um incidente ocorre no canil da base. O husky-sobrevivente-siberiano é pego no flagra se revirando pelo avesso e tentando absorver e assimilar os outros cães, quando é sabido que huskies siberianos não têm este mal-hábito. Tudo é resolvido à base do lança-chamas e, com uma análise nos restos mortais, eles começam a decifrar os bizarros acontecimentos.

O organismo não-identificado era capaz de neutralizar e copiar a estrutura celular de qualquer ser vivo à perfeição, com relativa rapidez. Cálculos revelam que a taxa de propagação per capita é extremamente alta, e que o bicho faria um estrago daqueles em um lugar mais pop. Como a Lei de Murphy também tem serviço de entrega na Antártida, a pesquisa nos vídeos da estação norueguesa revela que a equipe de lá encontrou o ser original em um imenso ovni enterrado no gelo - o que eleva a ameaça biológica para ameaça-biológica-com-intelecto-superior-e-conquistadora-de-mundos (um senhor DEFCON 1!). Em hipótese alguma a criatura deveria chegar até uma área povoada (na China então, nem pensar). E outro problema, desta vez iminente: pelos cálculos baseados na rapidez de assimilação, e tempo de exposição ao "cachorro" e à criatura disforme da autópsia, ao menos 1 dos 12 integrantes da equipe já estaria assimilado.

E é aí que O Enigma de Outro Mundo vira futebol-arte, futebol-moleque, maroto e sapeca.


Talvez a maior sacada do filme tenha sido a cuidadosa construção de cada personagem, desde os mais ativos até os mais secundários. A virada sensacional que o roteiro empreende - saindo de um açougue splatter profissional para um horror psicológico tenso até a medula - é capaz de emocionar até o Papa Bento XVI. O filme vira um jogo de gatos e ratos com complexo de perseguição. Todos se acham suspeitos e ninguém quer ficar sozinho com ninguém. Sumiços e sabotagens estratégicas pipocam aqui e acolá, criando uma atmosfera tão surreal de paranóia que só podemos esboçar um sorriso petrificado na tentativa de aliviar a tensão (em vão, é claro).

A força motriz do filme era inegavelmente o carisma do personagens, que encontrava na excelente escalação dos atores um feedback mais que apropriado. Esse é um dos pontos em que a produção lembra bastante Alien, de Ridley Scott. O time era tão carismático quanto o pessoal enclausurado na Nostromo, num ambiente inóspito (em pleno espaço) e também com um alienígena serial-killer à solta. E daquela mesma forma, não existiam protagonistas em uma primeira instância, apenas os que se destacavam com um maior espírito de sobrevivência diante de uma situação de risco em potencial. Mas de uma maneira natural, todos estavam lá em pé de igualdade.

Eis os "doze condenados": o piloto de helicóptero MacReady (um paranóico Kurt Russell, na 2ª de suas quatro parcerias com Carpenter), o chefe de estação Garry (Donald Moffat), o cozinheiro Nauls (o sumido T.K. Carter), o geofísico Norris (Charles Hallahan), o enfezado mecânico Childs (o excelente Keith David, que, anos mais tarde, voltou a enfrentar aliens sob a batuta de Carpenter, no maneiríssimo Eles Vivem), o biólogo-sênior Blair (Wilford Brimley), o mecânico-assistente Palmer (David Clennon), o físico Cooper (Richard A. Dysart), o biólogo-assistente Fuchs (Joel Polis, veterano ator de séries americanas), o meteorologista Bennings (Peter Maloney), o cara-que-cuida-dos-cachorros Clark (Richard Masur, que já atuou em mais filmes do que se imagina) e o rádio-operador Windows (Thomas G. Waites) - nenhum deles exatamente "do mesmo lado".

Muito menos insuspeitos. Norris, por exemplo, protagoniza uma seqüência que é uma baforada criogênica na espinha. Após uma briga, ele perde os sentidos e a equipe tenta reanimá-lo, sem imaginar que ele já estava pra lá de "animado": confira aqui essa singeleza, junto com o story-board (seguido à risca, pelo visto). Esta mesma cena desemboca em um dos momentos mais singulares do cinema fantástico (até hoje inacreditável) - a famosa cena da cabeça se separando do corpo e criando pernas. Rob Bottin é deus! Tudo isso numa época em que o máximo de tecnologia empregada na área não chegava nem perto do que hoje é o famigerado CG.

Esta cena repugnante também revela outras similaridades com Alien. Quando o torso de Norris se abre, lembra bastante os ovos coriáceos do clássico de 79. E afinal, o que é aquela spider-head senão algum "primo" do asqueroso face-hugger? E não pára por aí. As primeiras concepções da arte conceitual revelavam uma criatura quase idêntica, incluindo a relação simbiótica com o hospedeiro. Ainda bem que o bom senso falou mais alto e optou-se por um design não-uniforme (a cria máxima de H.R. Giger ainda hoje é tão influente que chega a representar um bloqueio criativo) - o que modificou até o conceito do filme original, onde a criatura era um praticamente clone do Monstro de Frankenstein.


A saída (genial, diga-se) foi ocultar o monstro até o gran finale, reservando apenas algumas participações esporádicas (e putrefactas), nas quais ele se encarrega de acabar com o apetite de qualquer cidadão. O resultado era uma cruza demoníaca de tudo que o monstro já assimilou em sua extensa carreira (confira na imagem acima e nos story-boards, bem bacanas por sinal).

No final das contas, o que mais prevalece no espectador é a sensação de ter participado de um acampamento de férias no inferno ao lado dos remanescentes da Outpost #31. A intrigante conclusão primava pela incerteza. Com a base em frangalhos, Childs e MacReady, totalmente exaustos e sem nenhum meio de transporte e comunicação, não têm o menor motivo para confiar um no outro. MacReady foi o único que viu a criatura original e sobreviveu, enquanto Childs simplesmente sumiu, só reaparecendo após as explosões que destruíram a estação. Mas, por incrível que pareça, este era o menor dos problemas, afinal o inverno antártico chegava ao seu pico mais rigoroso. Para a criatura (será?) bastava esperar o congelamento iminente e a posterior chegada de uma equipe de resgate. E para o(s?) humano(s?), apenas o fim de uma garrafa de whisky.

O Enigma de Outro Mundo é uma homenagem de John Carpenter à toda a cultura de sci-fi e horror B, e que acabou se tornando um cult absoluto com o passar dos anos. Cult? Sim... quando foi lançado, o filme teve uma péssima recepção do público e principalmente da crítica, que o acusou de ser "exageradamente violento", com efeitos especiais "perturbadores", "imorais" (?) e até mesmo "pornográficos" (!!). Curiosamente, neste mesmo ano, estreava E.T. - O Extra-Terrestre, recebido como uma elogiadíssima diversão para toda a família...


MAS O ENIGMA CONTINUA...


...a começar pelos games! Em 2002, a Computer Artworks lançou um jogo homônimo baseado no filme, para PC, PS-2 e X-Box. A sinopse começava alguns dias após os acontecimentos do filme e a linha básica não poderia ser outra:

"Após misteriosas mortes em uma estação da Antártida, uma equipe de resgate foi enviada para investigar o ocorrido. Naquele ambiente inóspito, eles se deparam com uma estranha forma de vida que assume a aparência das pessoas que mata"... e por aí vai.

Apesar de não ser nenhuma super-produção digital, pessoalmente, muito me agradou. No jogo você comanda o soldado Blake e a missão é descobrir o que aconteceu nas estações norte-americana e norueguesa. Durante o jogo, você vai passando pelos cenários do filme e chega até a encontrar aquele tape que MacReady gravou num momento de desespero. Antes da missão, você escolhe o seu time, dividido entre soldados, engenheiros e médicos. O bacana é que, à medida que o jogo avança e descobre-se a natureza do alien, você tem de manter a confiança dos seus companheiros na sua liderança (tem uma espécie de "confiômetro" que você pode acessar). Caso contrário, eles começam a adotar todo tipo de insubordinação, desde não obedecer ordens diretas e fugirem até tentarem te matar. Nos momentos mais lúgubres e tensos, o jogo lembra a atmosfera horror survivor de Resident Evil/Silent Hill, e na hora do pega-pra-capar a referência imediata é o velho estilão Doom/Quake.




Game bem simples, ótima jogabilidade, gráficos decentes e um climão de terror bem legal. Se quiser experimentar, está disponível nos links a seguir (no Rdsh, sem senha): The Thing - From Another - World (links, obviamente, down).

Requerimentos:

Processor, 4x+ CD-ROM drive, DX8 Compatible Card, 8Mb Video memory, DirectSound8 Compatible Card
Recommended PC System Requirements: 64 MB RAM, 600 Mb HD space, 600Mhz PIII Processor, 4x+ CD-ROM drive, DX8 Compatible Card, 8Mb Video memory, DirectSound8 Compatible Card


Já testei e recomendo!


QUADRINHOS
(como não poderia deixar de ser)


Em 1991, a Dark Horse Comics lançou uma minissérie em duas partes chamada The Thing from Another World (mesmo nome do filme de 1951). A história começa exatamente onde o filme parou, e mostra o que de fato aconteceu com MacReady e Childs após os eventos trágicos da Outpost #31. Quase moribundos diante de uma violenta tempestade, os dois milagrosamente avistam um baleeiro japonês. MacReady apaga e acorda horas depois, na enfermaria do navio. Só então ele fica sabendo que Childs o deixou lá e retornou à estação "para buscar os outros sobreviventes"... Mas não vá tirando conclusões precipitadas, pois a história reserva surpresas pra lá de inesperadas. O ótimo roteiro de Chuck Pfarrer e a belíssima arte pintada de John Higgins garantem a diversão.

No ano seguinte, a Dark Horse voltou a explorar o universo da "Coisa" e publicou uma nova mini, em 4 partes, chamada Climate of Fear. Era uma continuação direta da revista anterior e expandia ainda mais o conceito original. Como é um material que teve pouca repercussão, não vou me ater à muitos detalhes spoilerosos, visto que estes estragariam a experiência de quem não leu a sensacional minissérie de 91. O roteiro de John Arcudi e o traço "McFarlaneano" de Jim Somerville acabam sendo eficientes num contexto geral, mas comparativamente inferior à primeira mini.

Em 1993, mais uma incursão da Dark Horse: Eternal Vows, outra mini em 4 partes, colocou o alien copião pra assombrar uma cidade portuária da Nova Zelândia. O engraçado é que o alien não poderia nem sonhar em chegar à civilização e, no entanto, ele praticamente fixa residência em uma femme-fatale deliciosa, o que deixa a HQ com cara de adaptação do filme A Experiência (aquele com a Natasha Henstridge). Além disso, o suspense/horror de outrora é reduzido ao zero, dando lugar à altas seqüências de ação. Incrivelmente, não é ruim. Mas também não é do mesmo alien que estamos falando aqui. Roteiro de David de Vries e desenhos do furibundo Paul Gulacy.

As minis estão disponíveis para download nos links abaixo (em inglês):

The Thing from Another World
Climate of Fear
Eternal Vows


Sites dedicados:







Na trilha: 10,000 Days, o novo do Tool.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

VIVE LA REVOLUCIÓN!


Quando pensamos em elementos cuja simples existência nos dá a percepção do sentimento de relação próxima e direta, composições clássicas de modelos que funcionam – mesmo que minimamente próximo ao que se espera - sempre tendem as opiniões para o continuísmo. A mudança brusca sempre é temerária. É o medo do desconhecido, de como aquilo pode funcionar. No serviço público, por exemplo, por pior que seja o setor em que trabalhe, quando o cargo majoritário é alternado pelo voto, sempre (raras exceções que confirmam a regra) surge aquela dúvida:"Oh... e agora? O que será de nós?" (pelo menos para quem trabalha e gosta de trabalhar). A troca de colégio na infância trazia o mesmo sentimento, bem como a expectativa de terminar um namoro que não dá certo simplesmente porque se acostumou à presença da pessoa. Não sei se é porque costumo ser do contra, mas a mudança de ambientes sempre me agradou, por maior apreensão que o desconhecido cause. Mudanças arejam idéias, trazem revisões de conceitos, remodelam formas que há muito precisam ser remodeladas e atualizam o ambiente.

A relação que tenho com os quadrinhos - e, creio, não deve ser diferente da maioria das pessoas que se permitiram apaixonar por este veículo (o que traz à baila também a discussão do preconceito pelas HQ's, coisa para um post separado ou para a Área Azul) – é muito pessoal. A espera pelo lançamento de determinado título, as flutuações de humores com o que fazem com determinado personagem, as indignações que emergem de "injustiças" e reações afins dão um sentimento de intimidade ímpar. É natural, portanto, que mudanças em personagens sejam chocantes, mesmo que mantenham sua essência. Tenho lido por aí muitas opiniões desancando o novo visual do Homem-Aranha, colocando como se fosse uma atrocidade inafiançável. Sinceramente? Eu gostei! Sei que é temporária (quem sabe me engano) e serve apenas a: 1 – criar um hype interessante às vendas, e; 2 – criar elemento adicional para a "saga do ano", Civil War. Claro, Millar nos roteiros, com o sucesso estrondoso e incontestável de Ultimates ainda ecoando alto no córtex e um racha no casal 20 dos casais 20 das superequipes (Homem de Ferro e Capitão América) já seriam mais do que atrativos para tornar a saga indispensável sob o ponto de vista de expectativa, mas, se dá para salgar um pouco a sopa numa polêmica com o personagem mais popular da casa, tanto melhor!

O engraçado é que estou vendo uma reação muito parecida com a que percebi lá pelos anos 80, quando o herói azul e vermelho ficou preto. Não havia internet, claro, mas era leitor assíduo da seção de cartas e, logo após as Guerras Secretas (acho que por volta da edição 70 da editora Abril), a ojeriza apresentada pelos leitores àquela novidade era pungente. Eu até estranhei no começo, mais pelo costume com o antigo do que propriamente por achar ruim, mas lembro claramente que gostei. E muito! Claro, com a tecnologia de publicação da época, um uniforme eminentemente negro perdia um pouco de qualidade gráfica – tons de cores, por exemplo – mas o resultado geral, principalmente as alterações naturais no comportamento do personagem, foram, por falta de palavra melhor, do caralho! A fase estendeu-se até a edição "105, quando Peter o abandonou oficialmente, mas não definitivamente. Acontece então a reação contrária: seções de cartas agora imploram para que ele não aposente a aranha branca. Que, ao menos, o alterne com o clássico. E de vez em quando ainda o vemos com um dos visuais mais bacanas já criado para um herói.

O fato é que, com um personagem criado na década de 60, com tantos outros criados com características semelhantes, na mesma época e compartilhando cenários e contextos praticamente idênticos, inovação com os mesmos ingredientes com mais de 4 décadas de fermentação passa a ser trabalho possível apenas com pacto demoníaco, no mínimo. Mesmo com as atualizações conjunturais e de contexto – globalização, política regional e/ou geral, amadurecimento de argumentos e roteiros para um público que também amadureceu, artifícios gráficos mais realistas, liberdades de expressão etc – é impossível não fazer o personagem incorrer em revisões do mesmo tema sem alterá-lo. O uniforme negro foi uma tentativa. Personagem ficava mais dark, facilidades com a "roupa viva" criavam situações inovadoras e ainda deram um vilão carismático, mas desperdiçado com o tempo. Particularmente, já há alguns anos venho pensando que os heróis, por mais identificados que sejam com o público, têm que morrer (e permanecerem mortos). Só assim o conceito que ele carrega pode ser reeditado em novo alter ego, mas com alterações que não fazem os fãs reclamarem, já que é, em tese, outro personagem. Vejam, por exemplo, Batman Beyond, Ultimates e Supreme Power.


Só que matar um personagem é muito complicado. A opinião pública ruge e sua volta urge (eca!). Então só uma mente muito criativa para tentar reavivá-lo. E voltamos então para o contexto do novo uniforme do Aranha. Na verdade, a tentativa de revitalização do personagem vem bem antes do novo uniforme. Começa uns 2 ou 3 anos atrás quando Straczynski assumiu o título. Entre altos e baixos, acho que ele acertou muito mais do que errou – e certamente ousou muito mais do que seus antecessores mais recentes. Re-contextualizou sua condição aracnídea que, mesmo com os já citados altos e baixos, apresentou produtos muito bons. Morlun, por exemplo, é um dos personagens mais interessantes já criados como antagonista. Assim foi Ezekiel. O problema destes dois personagens é que eles são perecíveis, ou seja, são interessantes, suportam e dão sustância ao cenário em que está imerso o personagem, mas suas motivações de existência rapidamente se extinguem. E Straczynski os mata. Morlun, diga-se de passagem, é fisiológico, básico, elementar. Seu propósito é raso, mas justamente por isto sua aparição nos dá as porradarias mais honestas que Peter poderia participar. O pau come solto, sem freios, sem consciência, sem preocupações a não ser a própria sobrevivência - o resultado é impressionante (claro, contribuem bastante John Romita Jr, na primeira ocasião, com sua arte de dinamismo raro e Mike Deodato, na segunda ocasião, em sua fase realista). A revitalização contou também com o reforço do lado pessoal do personagem, ao colocá-lo como professor em um colégio. Sacada de mestre, mesmo que tenha sido desperdiçada com o tempo.

Difícil ver Peter se soltando deste jeito. Clique sobre a imagem
para ver maior. A conclusão da luta está aqui

Mesmo assim, com 2 ou 3 anos no cargo e obrigações impostas ao personagem por títulos paralelos e fora de seu domínio (Avengers Disassembled, New Avengers), o próprio Straczinsky deve ter percebido que as linhas estavam convergindo demais e logo cairia no lugar comum. Surge então a saga The Other. Foi coisa grande. Apesar de cumprir um período comum para arcos de heróis, 4 meses, tomou conta de 3 publicações distintas (Amazing, Friendly Neighborhood e Marvel Knights) deste período. A coisa toda oscilou entre o muito bom e o muito ruim. As linhas gerais, parece, foram definidas por ele, bem como o roteiro/argumentos da Amazing, mas esta função foi delegada a terceiros nas outras publicações, o que explica a oscilação de qualidade. Viagens no tempo, Wakanda e Tia May/Mary Jane com armaduras do Homem de Ferro foram de doer, mas se esquecermos estas partes, o todo fica legal. Ele tentou ali remodelar o personagem com um renascimento. Novos poderes, destruição de passado que não fosse importante etc. A relação dele com as capacidades de uma aranha foi fantástica – o ferrão, a visão no escuro, o sensor de vibrações em sua teia – é realmente o alcance total do que o conceito original previa. A forma como ele foi conhecendo suas novas características trouxe consigo nostalgia poderosa, fazendo quem lê rememorar como ele descobriu os poderes originais lá nos idos de Stan Lee. Entretanto, tão logo acabou The Other (diga-se de passagem, a melhor luta que já vi nos últimos tempos do Homem-Aranha está aqui), estas novas características não foram novamente abordadas, assim como a vida de professor quase não é vista mais. Creio que seja pela prioridade dada a Civil War, mas espero ver como isto desenvolver-se-á após a saga.

O último artifício da recriação do herói foi o novo uniforme. Seu "funcionamento" é forçado demais, mas suas possibilidades são inúmeras, criando novamente um lastro de combinações de roteiro até que nova revolução se faça necessária. Claro, na minha opinião as outras "pernas" da aranha são toscas, mas os outros elementos "funcionam" bem. Até ressuscita características clássicas e abandonadas como as teias embaixo das axilas que permitem planar e o simbionte que poderia simular qualquer vestimenta – inclusive o uniforme convencional.

O importante nisto tudo é que a revolução dos elementos do conceito existe. Mas a essência do personagem permanece.

Que as mudanças sejam bem-vindas!


Artigos Anteriores Relacionados:
Artigo 1 - Ultimates Cartoon - 02/03/2006
Artigo 2 - Ultimates v2, parte 2 - 16/01/2006
Artigo 3 - New Avengers - 15/01/2006
Artigo 4 - Ultimates v2, parte 1 - 14/04/2005
Artigo 5 - Avengers Disassembled - 28/01/2005
Artigo 6 - Homem-Aranha - Jean DeWolf - 15/06/2005
Artigo 7 - Ultimates v1 - 07/06/2004

sexta-feira, 21 de abril de 2006

LOST IN TRANSCRIPTION


Mudando mais uma vez de assunto, resolvi escrever sobre uma das coisas que são bem competentes em roubar meu tempo de vida religiosamente toda semana: Lost. Não costumamos falar de séries aqui, mas nem por isto estou sendo original, já que o chefe já andou escrevendo sobre 24 Hs. De qualquer forma, pode ser que mencione alguma coisa no texto que seria entendido como spoiler. Leia por conta e risco.

A série não é mais novidade para ninguém. Teve seu hype forte à época do lançamento, entrou em velocidade de cruzeiro, deu uma aumentadinha na popularidade e expectativa junto àqueles que não tem TV a cabo quando ganhou o Globo de Ouro e, finalmente, re-experimentou o sentido de novidade quando a Globo passou toda a primeira temporada numa tacada só, inclusive com o último episódio sendo exibido praticamente na véspera em que a AXN lançava a segunda temporada. Fui arrebatado logo de cara. Comecei acompanhando na Net e depois via torrent, já que odeio ser escravo de programação, e a forma como o roteiro brinca com o sentimento é um tormento, mesmo que em alguns momentos este sentimento tenha mais a ver com o ritmo da série do que com os conflitos dos personagens.


A primeira temporada foi irretocável. Apresentou cada indivíduo, construiu suas personalidades, abusou dos flashbacks para montar seus backgrounds, motivações, reações e recheou de mistérios seu principal personagem: a Ilha. Tudo parecia muito bem amarrado e o fato de não termos pistas sobre o que estava realmente acontecendo parecia parte do jogo, para não falar das situações vividas naquele microcosmo que dão muito pano para manga. Entretanto, veio a segunda temporada e em vários momentos – pelo menos até o décimo-segundo ou décimo-terceiro episódio – tive a sensação de que J.J Abrahams estava calçando os sapatos de Chris Carter quando, em Arquivo X, percebi que planejaram menos do que a audiência pedia e esticaram mais do que em minha paciência cabia, perdendo completamente o controle sobre o rumo da história. Dramas já explorados na primeira temporada haviam retornado, a coisa estava meio que morna e o ponto alto do período foi a apresentação do segundo grupo de sobreviventes que caiu do outro lado da ilha e tinham em seu cast dois personagens interessantíssimos: Ana Luzia – Michelle "Kate Mahoney" Rodriguez e seus olhares de mulé má – e Mistereko (ou Mr Eko, como alguns escrevem por aí, mas acho pouco provável que ele se referiria a si próprio como Mr) – personagem que acabou se transformando num dos mais interessantes da série. Achei pouco em relação ao que me acostumei na temporada anterior e já estava sentindo cheiro de enrolação. Ledo engano, gafanhoto! Daí para frente o caldo tomou forma e agora, faltando cinco episódios para o fim da temporada, a chapa ta quentíssima, criando raízes para a certeza de que o leme está bem seguro nas mãos de J.J.

Não vou revelar muito sobre o que vejo nos torrents, mas quem acompanha pela AXN já viu o que tem dentro da escotilha, o que tira parte da aura mística dos eventos, mas não diminui o mistério. Dadas as variadas formas em que os absurdos ocorrem no local: curas milagrosas, ursos polares, materializações de pessoas mortas, monstros gigantes, fumaça assassina e mais algumas que serão vistos nos capítulos do porvir, minha lógica limitada já tinha cansado de tentar entender o que poderia estar a ocorrer com o gajos, ora pois. Já deixava rolar no automático, até porque assim seria mais fácil de ser surpreendido no futuro. Eis que surge em minhas mãos o livro Presa (Michael Crichton, 2002, 472 páginas). Crichton já é renomado por suas obras de transcendência de estados/situações, vide Runaways: Fora de Controle e Jurassic Park, e este livro não foge à regra. Aqui ele aborda aquilo que a comunidade científica já vem alardeando com brilho, esperança, expectativa e medo: o cruzamento perigoso e cada vez mais próximo da nanotecnologia com a informática e engenharia genética. Fala de um analista de sistemas especializado em sistemas de agentes – programas independentes que reagem entre si como rede – baseados em comportamentos de diversas comunidades biológicas existentes na natureza, dentre elas as relações entre formigas, cupins, abelhas e a relação presa/predador de leoas, hienas e afins. Seus sistemas trabalham dentro desta lógica, enquanto sua mulher é alta executiva de uma empresa de produção na área de nanotecnologia que anuncia a quebra da barreira intransponível: há tempos a ciência sabe como construir nano robôs, mas o processo fabril era impossível. Claro, se o livro é de Crichton, isto tinha que dar zebra, então os nano robôs produzidos pela empresa para o exército e operados segundo a lógica do programa predador/presa do protagonista saem de controle e se espalham na natureza. O que acontece daí para frente? Curas milagrosas, materializações de pessoas mortas, fumaça assassina. Déja vu? Também tive esta impressão. Até as reações da fumaça às situações são idênticas. Não bastando, o protagonista cético chama-se Jack, mas temos também os arquétipos de Kate, Sawyer, Hurley, Locke, Michael e Walt, pelo menos até onde identifiquei. É tudo muito parecido com o que vem ocorrendo e bem mais coerente do que o hoax sobre a entidade do folclore brasileiro que habitaria a ilha, além de ter sido publicado alguns anos antes da série.


Mas não é só isto, em conversa com um amigo, dias atrás, ele destacou que os arquétipos da série também são idênticos aos dos personagens da Caverna do Dragão. Na época concordei, mas pensando bem, se nos enveredarmos nesta linha, estes entretenimentos que existem por aí possuem 90% dos mesmos perfis. Ser original, hoje, é bem difícil e torna-se inevitável cruzar com o que já existe. De qualquer forma, não vejo isto como demérito algum. Pouco me importa se elementos já foram usados, contando que a história seja boa e inovadora na forma de usar estes elementos. Assim foi com o primeiro Matrix, assim é com Lost. Se pensar bem, praticamente todas as séries que curto hoje em dia são revisões de algo já feito: 4400 é um Arquivo X reloaded e The O.C é um Barrados no Baile/Melrose Place pervertido.

Em tempo: toda semana escrevo um resumo do episódio visto para alguns amigos que não se importam com Spoilers. Claro, o site da série também tem isto, mas é formal e in english. Se alguém quiser entrar na lista, avisa nos comentários e coloco o nome nas próximas mensagens.


TODO MUNDO REALMENTE ADORA UMA TEORIA DA CONSPIRAÇÃO


Recebi por empréstimo de um amigo e já comecei a ler As Sociedades Secretas e seu Poder no Século XX. É um calhamaço de papel de 489 páginas escritas em 1993 por Jan Van Helsing, um pseudônimo escolhido pelo alemão Jan Udo Holey provavelmente como alusão ao caçador de uma lenda que sugava a vida da humanidade. Se tem uma pessoa que gosta mesmo de uma teoria de conspiração, esta pessoa é ele. Este livro trata todas as comunidades ditas secretas que existiram nos últimos séculos e como elas afetaram este que passou; dos Sábios de Sião (ou Priorado) até os Illuminati, passando pela família Rothschild, a sociedade de Caveiras e Ossos (Skull & Bones), 666, guerras mundiais, Vaticano, FMI e uma infinidade de outros assuntos interessantes (tem um texto sobre o símbolo da Procter et Gamble, dizendo que o dono teria afirmado na Tv em 1984 que "concluiu um pacto com Satã, tendo vendido sua alma em troca de expansão econômica").

O curioso é que as publicações do autor foram banidas da Alemanha e da Suíça por serem consideradas anti-semitas. Além disto, o livro, apesar de ter ISBN (ISBN 3-89478-816-x), não existe para compra.

Bacana? Sim.

Interessante? Também.

É para levar a sério? Claro que não... se levarmos isto a sério, é capaz de enlouquecermos, mas que é bacana, não tenha dúvidas! E é ótimo para papo de bar! Mais detalhes aqui.

O livro para download aqui. Outros livros tão esquizofrênicos quanto (ou mais) aqui. Divirtam-se.

quinta-feira, 13 de abril de 2006

O CÓDIGO DAN BROWN


Lá no começo do texto falei sobre abordar um foco passional e outro oportunista. O passional já foi, o oportunista vem a seguir. Um dos maiores best sellers da atualidade está prestes a ganhar as telas de cinema. Daqui a um mês O Código Da Vinci (Da Vinci Code, 2006) dá razão ao meu oportunismo de resolver falar sobre as obras de Dan Brown (acho que vou aproveitar a onda oportunista e escrever sobre Superman e X-Men 3... ). A oportunidade é tão boa que, mesmo abordando simplesmente livros, dá para contrariar a regra sobre dificuldade de arranjar imagens em texto sobre brochuras. Qualquer livro dele, se analisado, implora por imagens dos locais visitados, mesmo que careça dos protagonistas das histórias nestas imagens.

Não há como negar, ele é espertíssimo. Descobriu um roteiro de "como escrever livros em X passos" e seguiu à risca. Fez o primeiro, apostou no segundo e teve que arriscar no terceiro para tirar a sorte grande. O Código veio e arrebatou meio mundo (ou mundo e meio), arrancou seu lugar na tela do cinema a cotoveladas e lotou seu bolso de dinheiro. E o que é o Código senão uma revisão nos ganchos usados em livros de suspense e mistérios de outrora com uma aura de "caramba... isto pode ser verdade"? Quem leu ficou com aquela necessidade de debater o livro como quem tem o afã de exaurir um brinquedo novo. Claro, falo da maioria que gostou, não da minoria que diz que não gostou para ser "do contra" e dizer que tem opinião... ou dos que não gostaram legitimamente mesmo.

O caminho normal de quem gosta de uma obra é procurar mais produtos do autor e assim o fiz... fui atrás de suas obras pregressas e ganhei a que veio após. Não negal a 'paternidade' e continuam com o magnetismo próprio do ritmo e da receita de bolo, mas também criam um pouco do sentimento de "já vi isto com outros atores e cenário" - mais do mesmo, já que a receita de bolo, ao invés de ser um instrumento narrativo, é tão presente que vira praticamente uma personagem.

Percebemos claramente o amadurecimento do autor desde seu primeiro romance – Fortaleza Digital – até seu último – Ponto de Impacto, mas os roteiros, como já dito, podem até ser tabelados: um mistério normalmente vinculado a algum conceito polêmico e com enigmas revelados aos poucos; sociedades ou grupos com apelo cult ou misterioso; casal de protagonistas com tensão amorosa, perseguidos durante todo o livro e que se acertam no final; uma série de informações interessantes-porém-de-utilidade-duvidosa-mas-que-rendem-ótimos-papos-de-bar, locais turisticamente interessantes ao redor do mundo descritos com riqueza de detalhes – o que dá uma aura de legitimidade ao que é escrito - , algumas mortes e um final interessante. Além disto, e creio que seja a maior qualidade dos livros de Brown, percebi que em todos os casos há uma questão que permeia o todo e que basicamente pode ser definida como "Os fins justificam os meios?", com posicionamentos bem estruturados de ambos os lados – e mesmo sendo o lado bom e o lado mau, os argumentos não seguem o mesmo maniqueísmo (a melhor argumentação que vi em seus livros na defesa de uma opinião - argumentação com a qual concordo na sua definição do papel da fé em nosso mundo, ou o papel que deveria ter - está em Anjos e Demônios e pode ser lida aqui). Todos estes ingredientes são levados a fogo alto em caldo de dinamismo, pois são escritos como se já almejassem a tela grande (Stephen King's way of writing), intercalando sempre duas ou três frentes de ação em capítulos curtíssimos, mantendo o sentimento de tour de force depois que as apresentações de personagens se dá por satisfeita.

Ahhh... e tem o toque sacana que não pode deixar de faltar. Já mencionei que, para ornamentar o todo, as descrições de locais são riquíssimas, a lista de documentos mencionados e informações históricas são cuidadosamente trabalhadas, o que dá uma aura de veracidade ao livro. Aura esta que é reforçada pela informação de que todos os "monumentos, documentos e locais descritos no livro são factuais". Não discordo disto, mas ele não diz, por exemplo, que a interpretação dos "fatos" é dele. É uma alegoria que segue o tal roteiro padrão e se aproveita daqueles leitores de primeira viagem e/ou desinformados e/ou levianos e/ou loucos por uma conspiração para ter seu sucesso espalhado como rastro de pólvora, seja no boca a boca ou em qualquer dos zilhões de mídias de que fez uso. Enfim, de algumas de suas várias frases interessantes, creio que a que mais o orienta na construção de suas histórias é que "todo mundo adora uma teoria de conspiração". Estamos então às vésperas do lançamento deste filme-evento com um elenco estelar e direção competente. Espero que o filme, um dos responsáveis por me levar à falência nos cinemas no mês que vem, mantenha todo o climão do livro e abra espaço para adaptação de outros livros, principalmente Anjos e Demônios. Afinal, a repetição de fórmulas não é privilégio de Dan Brown; o cinema já se repete há tempos... se pelo menos for divertido, pagarei ingresso feliz!

TORNA-TE QUEM TU ÉS


Este local aqui não é muito usado para este tipo de texto, mas, como não deixa de ser uma mídia e definitivamente é veículo de cultura e entretenimento, vou falar sobre livros. Como todas as coisas, abordar este "negócio" tem um/vários lado(s) ruim(ns) e um/vários lado(s) bom(ns). Ruim pois é mais difícil inserir imagens com adesão satisfatória ao que se aborda, algo que textos sobre quadrinhos, música e filmes tem em abundância. Ruim também porque as imagens dão ritmo a textos longos – característica deste blog - , como pontos de descanso em uma trilha. E bom, pois, como não há precedentes por estas bandas, as reações ao texto são inteiramente novas, assim como novas pessoas podem surgir pelos comentários se o assunto falar mais ao pé d'ouvido.

Falar sobre as paixões que os livros criam, bem como a magia intrínseca à excitação das idéias causada apenas pelo velo das palavras e o desvelo da imaginação é chover no molhado, então vou abordar dois outros focos, um passional e outro oportunista.

O passional vem através de uma obra que se esconde por trás da frieza de uma lápide de racionalidade, mas olha enviesado para o calor da emoção fundamental; a aceitação pela convivência. Trata-se de "Quando Nietzsche Chorou" (When Nietzsche wept - Yalom, Irvin D.; 1992). O livro traz para o mundo da ficção o relacionamento de pessoas reais e relevantes na história de nossa sociedade: Friedrich Nietzsche – filósofo prussiano do século XIX, Josef Breuer – médico vienense e mentor de Sigmund Freud – "pai" da psicanálise. A relação de mentor e discípulo entre Breuer e Freud foi factual, mas Nietzsche (pronuncia-se "Nitch", mas sempre que falo assim, sou forçado a apelar pro Niétch para reconhecerem de quem falo) nunca encontrou com ambos.

Resumidamente, Nietzsche sofre de doenças terríveis e é convencido, através da ação da única mulher foco de seu amor recalcado, a tratar-se com o renomado Dr. Breuer. Até aí parece que é um livro maçante, mas a forma como a relação entre estes dois homens evolui é inapelável, além de contar com vários coadjuvantes de peso, bem como arranha a porta da aurora da psicanálise.

Não é qualquer livro que, focado em diálogos, consegue fazer alguém sentir-se em um liquidificador de emoções. Os diálogos que travam Nietzsche e Breuer são inebriantes, os duelos retóricos apaixonantes, as diferenças de personalidades praticamente saltam do livro, tomam vida, e o desfecho é um ensinamento. Não um ensinamento como estes filmes edificantes e redentores que surgem por aí, mas, ao menos para mim, um ensinamento cuja clareza chega a cegar, dado o espectro de situações que ambos vivenciam até chegarem às suas conclusões. Especifico o "ao menos pra mim", pois, cético que sou, nunca li palavras que estivessem tão ligadas à minha forma de pensar, quase fazendo-me sentir como se fosse minha própria mão, conduzida por algumas entidade mais esclarecida, que escrevera alguns trechos do livro. As tormentas que cada um deles passa são tão reais quanto às suas ou às minhas, mas exaustivamente, - e nem por isto arrastadamente - interpretadas. Sabe aquele sentimento que às vezes temos aqui dentro, mas não conseguimos verbalizar? Neste livro todas estas sensações são detalhadas, quase como se fosse um manual para quando sentirmos os sintomas de nossas angústias e quisermos nomeá-las. O real sentido de amizade sofre abordagem tão honesta quanto a forma como o escudo intransponível da razão dá lugar à sólida, mas permeável, emoção.

Não satisfeito, o livro é um manancial de frases-verdade; destas incontestáveis por quem entende que a vida é menos romântica do que se pensa. O que dizer, por exemplo, da frase "as pessoas, em verdade, amam o desejo e não a pessoa desejada"? Na minha fase de maturidade, não vejo verdade mais absoluta. A busca pelo desejar é arrebatadora, as pessoas desejadas são transitórias. E o "Transforme o 'assim se deu' em 'assim eu quis', caso contrário, não viverás uma vida, pois se não escolhes seu destino é a vida que te vive. Deseje o necessário e ame o que desejar. Amor Fati". Claro, são retórica e, por vezes, podem estar longe demais do que sentimos, pois falam à razão. Mas até isto o livro sabe e, para não permanecer imparcial, trabalha a conversão do discurso para a mente em discurso para o sentimento de forma natural, aproximando as palavras pensadas das palavras sentidas.

Na foto acima, à direita, temos Lou Salomé, Paul Rée e Nietzsche em foto cuja importância é bem destacada no livro.

Há tempos não leio algo tão bom, tão envolvente e com tanta mensagem, pois "bom" e "envolvente" vários são, mas também são rasos de significado. Li emprestado, vou comprar. E as obras de Nietzsche estão na mira, certamente, até porque após pesquisar sobre o cara na net, a wikipedia fez-me passear por conceitos impossíveis de se ignorar.

terça-feira, 11 de abril de 2006

QUE PAÍS É ESTE


"Estamos em 1988 agora. Margaret Thatcher está entrando em seu terceiro mandato e falando confiante de uma aliança inquebrantável dos Conservadores no próximo século. Minha filha mais jovem tem sete anos, e um jornal tablóide está circulando a idéia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados das tropas de choque usam visores negros, bem como seus cavalos, e suas unidades móveis têm câmeras de vídeo rotativas instalados no capô. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade e as pessoas já ficam especulando contra qual outra minoria irá legislar. Estou pensando em reunir a família e deixar o país nos próximos anos. Este lugar está virando uma terra fria e hostil, e eu não gosto mais daqui."
Alan Moore, março de 1988

Anos após a publicação original de V de Vingança, Alan Moore ainda penava com o cenário político de sua terra natal. Fascismo imperialista de extrema direita ditando as regras do jogo, em plena Guerra Fria. Reagan e Thatcher caminhando juntos e antevendo um futuro em chamas. Era desse futuro que tratava V, obra clássica que Moore desenvolveu ao lado do desenhista David Lloyd. Apesar de ainda em início de carreira, Moore discorre com maestria sobre temas não-usuais como favorecimento político, massificação e manipulação da mídia (isso te lembra alguma coisa?). Outro ponto que sempre me interessou em V, foi a opção do autor em observar de perto o impacto dessa repressão extrema sobre o cidadão comum. Mais ainda, sobre os próprios agentes do autoritarismo. O tal "elemento humano" que a Máquina é incapaz de processar com exatidão.

V apresentava um naipe de personagens complexos, tridimensionais, cada um enfrentando o seu próprio drama particular. Além de estarem de alguma forma ligados ao status quo, a única relação entre eles era a conseqüência das ações de um terrorista auto-entitulado V (ou "Codinome V"). Nada se sabe a respeito do indivíduo, apenas o que ele mesmo faz questão de deixar claro: travestido de Guy Fawkes (genial idéia de Lloyd, Moore odeia admitir), V faz de sua estréia um tributo ao mesmo e explode as casas do Parlamento britânico. Momentos antes, ele havia trucidado três agentes do governo (policiais à paisana, denominados "homens-dedo") para salvar a desesperada Evey Hammond da morte certa. Isso, logo nas primeiras páginas da graphic novel. A partir daí, Moore traça um painel amargo do que pode acontecer quando as pessoas erradas estão no poder. E faz questão de lembrar que a diferença pode sim ser feita por uma pessoa - ou uma idéia.


Agora, fãs da clássica Vendetta, vamos dar as mãos: que susto levamos, hein. Adaptação cinematográfica hollywoodiana feita no controle remoto por Matrix's Larry & Andy Wachowski? E quando soltaram aquele trailer japonês cheio de caratê e música tecno? Brrrr... gotas frias de suor caindo com efeito bullet-time. Po-rém... pensando friamente, os caras têm sim uma boa experiência no quesito "No Future/Fuck The System" - talvez sejam os profissionais top de linha no assunto atualmente - o que é, sem dúvida, indispensável para dar vazão à abordagem emputecida que Moore impregnou no texto original. E o diretor James McTeigue se mostra um controle remoto daqueles do tipo "universal", hiper-versátil. É dono de uma bela folha de serviços em blockbusters, como diretor de 2ª unidade e diretor assistente (em dois episódios de Star Wars e nos três, oohh... Matrixes), o que, categoricamente, não quer dizer porra nenhuma.

Mas nem tudo foi baixa expectativa. Acho humanamente impossível algum admirador de V não ter comemorado a inclusão de Natalie Portman no cast. Quase não consigo imaginar outra atriz melhor no papel de Evey (quase). A aura inocente, a jovialidade (aparentemente eterna), o olhar mezzo estarrecido mezzo intrigado, e, claro, sua beleza natural irresistível, seja pra homem, mulher ou GLS (desafio qualquer um a não ser um natalieportmanssexual). E ela ainda tem um background interessante com esta motivação em particular. A primeira vez que vi Natalie foi em O Profissional, aquela belezura de filme em que ela, ainda molequinha, fazia um mix de mocinha-em-perigo com sidekick de uma força da natureza ambulante, encarnada pelo Jean Reno. Juntos, eles enfrentavam a personificação de um sistema caótico e corrupto - o melhor papel de vilão do Gary Oldman. E ela roubou a cena dos dois. Perfeita. Já estava preparada para este papel desde aquela época. Tá contratada.

"Não há carne ou sangue dentro deste manto para morrerem. Há apenas uma idéia. Idéias são à prova de balas."
Codinome V

Uma pequena confissão: após meses acompanhando os percalços da produção, não sei porquê cargas d'água, acabei entrando no cinema sem a mínima idéia de quem interpretaria V. Incrível. Pode ter sido apenas uma monumental falta de atenção, mas prefiro acreditar que foi influência direta da revista, que minimizava ao zero absoluto a importância individual neste caso (afinal, ele representava, antes de tudo, "uma idéia").

Corta pra hq novamente (pulem esta parte, desafortunados que ainda não leram V... há spoilers aqui):

Quando li V pela primeira vez, eu já estava tão embriagado por aquele ideal libertário, que cheguei a torcer para que Evey não retirasse a máscara de V, já moribundo. No começo, é claro que estava curioso pra saber como ele era. Mas depois de toda aquela dicotomia revolucionária e subversiva, - e já totalmente "convertido" - fiquei com medo de virar a página e me sujeitar à uma desmistificação abrupta daqueles conceitos - que passei a tomar como preciosas informações. Ou que isso acarretasse o fim daquela viagem (cacete... Moore e seus argumentos que transcendem o final físico da história. Espero que este legado esteja sendo bem rateado por aí, pois de uns dias pra cá ando pensando muito nisto).


Hugo Weaving talvez não tenha o timbre de voz que eu imaginava (detalhe que, neste personagem, leva uns 90% do carisma). Pra mim, seria algo mais suave e melodioso. Em todo caso, até pelo tom áspero e o fôlego filhadaputa, a já conhecida mis-en-scene vocal do ator garantem a diversão (pô, a caricatura que ele fazia com o Agente Smith era demais)... e insólita, diga-se. Recitar riminhas complicadas pouco antes de deitar uns seis na mãozada é digno daquela reprise de Laranja Mecânica. Ultra-violência shakespieriana! Felizmente, as cenas de luta são filmadas de maneira digna, sem muitas novidades modernosas. Aqui não há nenhum pulinho, seguido de loop em 360º e chutinho que joga algum infeliz pra longe. As lutas são honestas, as facas são altamente letais (e estavam na hq... são faquinhas super-idôneas!) e as coreografias são decentes (a melhor foi a da fuga na estação de TV). Pero hay que endurecerse... a seqüência final foi inegavelmente matrixiana. Não que eu vá ignorar o que isso tecnicamente ofereceu de bom até certo ponto, mas ver as faquinhas girando em slow-motion-querendo-ser-bullet-time me irritou sobremaneira. Preciosismo altamente dispensável.

O produtor Joel Silver andou falando que Alan Moore só ficaria satisfeito com o roteiro se cada palavra do texto original fosse transcrita. Quem dera. Mas o trabalho de adaptação foi respeitoso em relação ao conceito, e, ao mesmo tempo, pra lá de ousado. O resultado foi bastante funcional. Os puristas vão engasgar com a pipoca devido ao efeito impiedoso da condensação e com a semi-inversão na ordem dos acontecimentos (disto eu gostei muito). E os cortes? O supercomputador Destino não aparece, assim como a obsessão do Líder Sutler (o grande John Hurt, desperdiçado). Também não aparecem personagens-chave que fizeram toda a diferença, como a ambiciosa Helen Heyes e a vitimizada Rosemary Almond. O assassinato de Lewis Prothero - ex-"Voz do Destino", rebatizado "Voz de Londres" - foi relegado à uma seqüência padrão que passa longe daquela maravilha ritual vista na hq (aquilo sim era uma vendetta!). Já Gordon Deitrich não pega Evey (muuuuito pelo contrário...), justamente pra não ofuscar uma infeliz opção do roteiro quase na reta final. E Stephen Rea, um ator que eu admiro muito e também nem imaginava que estaria em V, caiu como uma luva no papel de Edward Finch - papel este que seria memorável, caso não tivesse um final tão alterado.


Mas o que aparece transposto literalmente chega a ser emocionante. O processo de "purificação espiritual" a que Evey é submetida ficou uma beleza (e prova que Natalie Portman fica bonita até azul com bolinhas amarelas). As cenas e os flashbacks relacionados à carta sufocante de Valerie ficaram perfeitas, talvez o auge dramático do filme. Ótimas as seqüências de V despachando a amargurada Doutora Delia e o repugnante Bispo Lilliman. Irretocáveis.

Eu defendo até a atualização da geopolítica envolvida. Muito se fala que as referências ali são ao W. Bush way of life, e são mesmo. Fazer o quê, se a Inglaterra andou importando alguns mal-costumes de sua ex-colônia (vide a co-autoria na invasão ao Iraque e o caso Jean Charles)? Não que isso vá acontecer com eles mais pra frente... não apenas com eles. Hoje, esta não é apenas uma visão do futuro da Inglaterra, mas do mundo. Inclusive nós aqui. Sem querer soar condescendente... estamos num país onde milhões de dólares são saqueados de cofres públicos e políticos assumidamente corruptos se beneficiam de acordos para evitarem a cassação, enquanto uma doméstica desempregada fica cinco meses na cadeia por roubar um pote de manteiga. Não se engane, neste exato instante, vivemos no universo de V. Mas em breve teremos mais uma chance de mudar algo - não através da força, ainda bem.

"O povo não deveria ter medo do seus governos. Os governos deveriam de ter medo de seu povo."
Codinome V²

Temos muito o que aprender aí, com todos estes acontecimentos e informações disponíveis, com este filme e seu final apelativo e populista. O pedido por indignação e contestação se confirma quando os créditos sobem ao som do clássico stoneano Street Fighting Man - uma ode ao cara que vai às ruas lutar pelo que acredita. A palavra de ordem não é mais "acorde", e sim "reaja". Nada mal em se tratando de uma mega-produção hollywoodiana.

A revolução definitivamente não será televisionada.