sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

MEU PRIMEIRO ZUMBI


"Emily Hagins está fazendo um filme de zumbis. É um longa-metragem, é sangrento e os zumbis não correm. Como deveria ser. Mas há uma diferença entre o seu filme e os outros filmes de zumbi que você já assistiu: Emily tem doze anos".

Zombie Girl: The Movie é um documentário/diário de bordo que acompanha a menina Emily durante as gravações de seu primeiro filme, Pathogen. Como se vê no trailer, o clima é de total descontração e sorvete na testa, mas também percebe-se que a guria não teve supervisão dos pais quando ia à locadora. Zumbis lentos, nacos de carne arrancada e cabeças decepadas? Uau, essa garota fez a lição de casa.

E o troféu Vânia Cavalera da vez vai para a mamãe Hagins, por todo seu apoio moral. Além de agente da aspirante a cineasta, ela é sua produtora, técnica de som, motorista (Emily não tem carteira), figurante e por aí vai. Mas, claro, sem interferir no processo criativo. Isso seria imperdoável!

Zombie Girl foi dirigido a seis mãos - Aaron Marshall, Justin Johnson e Erik Mauck - e neste momento perambula pelo circuito de festivais alternativos norte-americanos (como o bacana Slamdance Film Festival). Até agora a recepção tem sido ótima.

Nada melhor que uns zumbis para reforçar os laços familiares.

Em tempo: George A. Romero não daria um belo nome de escola secundária?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O PROTOCOLO DE KLAATU


Então fizeram mesmo. Cai mais um dos intocáveis, numa contagem de corpos... ou melhor, de clássicos que não parece ter fim em Hollywood. Não sei se é mera falta de idéias novas ou de uma geração substituta à altura (onde estão os novos Ridley Scott, John Landis, Joe Dante, James Cameron...?), mas a partir do momento em que temos um remake de nome O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA, 2008), é porque o cenário já passou do estágio "preocupante". A idéia, claro, é completamente desnecessária. E não só porque o original de Robert Wise é sci-fi de apelo humanista que soa universal até hoje ou porque foi corajosamente engajado e apartidário no auge da histeria anticomunista, mas porque é atemporal em essência. Havia ali uma moral, um recado. Sendo assim, como um remake se justifica neste caso? Segundo a nova versão, muda-se a moral, muda-se o recado.

Em tese, até que faz sentido. O ser humano vive se diversificando na autodestruição. Nos anos 50, compreensivelmente, a Bomba era a endorser oficial do apocalipse - ou, ao menos, a ameaça mais imediata. Hoje, pensamos mais nela como um parente distante e (muito) desagradável, ao passo que assuntos como poluição industrial, degelo ártico/antártico, desmatamento indiscriminado e catástrofes naturais cada vez mais subseqüentes estão na ordem do dia. Desenvolvimento humano acelerado rumo ao colapso ambiental definitivo. Está tudo lá, em Wall-e. É nessa verdade inconveniente que o remake encontra sua raison d'être. Ok, vamos classificar isso como uma boa ideia*.

* estreando uma das novas regras ortográficas. Sinto como se tivesse acabado de cometer um crime.

Fora esta e mais algumas leves adaptações, o filme reedita a narrativa e o timing original quase magicamente e sem traumas. Impressiona como a premissa segue funcional e instigante após 57 anos (eu disse que era atemporal) - um ovni invade o espaço aéreo norte-americano e aterrissa em pleno Central Park. Os rapazes do Tio Sam prontamente se posicionam para receber o visitante e o resto é história. O alienígena Klaatu desce para se comunicar pacificamente, mas a xenofobia do homo "sapiens" fala mais alto e o pior acontece.

Uma reverência necessária aqui... no original, esta sequência é uma das mais arrepiantes e icônicas que o cinema já produziu: logo que sai da nave, Klaatu/Michael Rennie é atacado sem qualquer motivo senão o da ignorância; o autômato Gort é ativado e investe contra os agressores, mas é impedido por Klaatu, que, mesmo ferido, salva as vidas de seus algozes. Quase um Trotsky alienígena.

Um momento perfeito e emocionante (justamente homenageado por Luc Besson em O Quinto Elemento). Importante reconhecer que, no novo filme, a cena não tem - e sabiamente nem busca - o mesmo impacto, mas ainda assim é recriada elegantemente. E pontuada com uma versão da lapidar "Klaatu barada nikto" em inflexão extraterrestre quase ininteligível. Adorei.

Klaatu sobrevive, mas fica sob custódia do governo norte-americano. Sabatinado pelas autoridades, ele afirma trazer uma derradeira mensagem para os líderes da Terra, mas esbarra em desconfiança, sectarismo e burocracia - problemas, segundo ele, há muito superados em seu mundo. Apesar do pedido simples, Klaatu descobre que a humanidade está dividida demais para ouvir sobre sua própria destruição. Mais tarde, ele consegue escapar do cativeiro e se mistura à população para compreendê-la melhor e, talvez, oferecer-lhe mais uma chance de redenção. Enquanto isso, a deadline vai se aproximando.


O nome de Scott Derrickson na direção me animou bastante (como já comentei anteriormente). Cineasta sensato e climático, que respeita o tempo e a ordem dos acontecimentos - característica mantida aqui, apesar da típica produção blockbuster com dinâmica acelerada. Puxar o freio, no caso, não deve ter sido tarefa fácil para o diretor, visto que seria mais simples ceder às convenções do gênero e seguir a cartilha de Michael Bay para ameaças espaciais. Afinal, aqui também temos um robô gigante assustador e o marketing já é pré-moldado nestes casos. Não duvido que houveram "sugestões" neste sentido. Contudo, o andamento do filme segue em ritmo cadenciado, sério e sombrio como deveria, com a merecida atenção para as boas performances aqui presentes. Se há mais alguma coisa errada neste remake além de sua existência, e há, não é por inépcia do diretor.

Tenho certeza que agora vou horrorizar o requintado senso crítico dos cinéfilos, mas foda-se: Keanu Reeves está perfeito no papel revisado de Klaatu. Diferente da abordagem suave, naturalmente curiosa e até paternal de Michael Rennie, o Klaanu é uma porta de mogno maciço. Melhor ainda, um tronco de sequóia, incisivo e pragmático. Sua presença 100% seca, indiferente e desprovida de substância (especialidade involuntária do rapaz) deixa o personagem ainda mais austero e sem qualquer afinidade pela condição humana. Numa metáfora simples mas atualíssima pincelada pela personagem de Kathy Bates, Klaatu veio para fazer o que eles (as nações do Primeiro Mundo) sempre fizeram: extinguir os povos menos avançados. Em outro momento, Klaatu diz representar um grupo de civilizações e que a Terra jamais "pertenceu" à raça humana, já que são raros os planetas capazes de suportar formas complexas de vida - o que a torna um objeto de interesse literalmente universal. Levando em conta o vandalismo ambiental que cometemos aqui, não só justifica-se o ultimato dos ETs, como mostra que eles foram até bonzinhos em não incinerar todo mundo sem aviso prévio.

Uma vez destrinchada a fabulosa contra-atuação de Kleatu, fica mole destacar os demais. O elenco é de outro mundo, uma conjunção de astros e outros chavões estratosféricos. Em ordem ascendente: a sempre maravilhosa Jennifer Connelly simplesmente rouba pra si a personagem Helen Benson, agora uma conceituada astrobióloga (atualização pertinente e pra lá de necessária); Kathy Bates superinterpreta e confere uma postura protecionista e republicanóide, o contrário de seu correspondente burocrata do filme original; e o venerável John Cleese, no papel do Prof. Barnhardt, me faz querer abraçar o responsável pelo casting, tamanha a iluminação do sujeito. É dele o melhor e mais importante momento do filme, mesmo numa participação desgraçadamente curta.

Coincidentemente, a partir dali todas as boas expectativas vão sendo frustradas uma a uma em velocidade de dobra. O remake tinha lá suas chances de dignidade (correspondidas até ali com um trabalho sóbrio e competente), mas o que se sucedeu foi um frango escandaloso do roteiro adaptado por David Scarpa.


Sequências como a do "dia em que a Terra parou" per se, soam tão irregulares quanto um furo de lógica (ora, um simples pulso eletromagnético em escala global não seria um genocídio de qualquer maneira?), e a mudança de opinião de Klaatu no final soa exageradamente prematura, ao passo que seu conterrâneo levou 70 anos para ser humanizado. O plot sentimental envolvendo o filho adotivo de Helen, Jacob (Jaden Smith, chato pra caralho), ocupa minutos preciosos de tela e se arrasta muito além da conta. O resultado não poderia ser outro, senão a mais pura pieguice que redime tudo e a todos salva do apocalipse. Quer mais? Na hora, mais que lembrei do filme Esfera (o modo promissor como começa e o modo miserável como acaba).

Mas o caso mais triste é o de Gort (acrônimo terrestre para "Genetically Organized Robotic Technology"), pois, afinal, conseguiram realizar a parte mais difícil antes de colocarem tudo a perder. O golem artificial foi discretamente redesenhado, mantendo o visual humanóide e com uma textura parecida com a do Monolito Negro, de 2001: Uma Odisséia no Espaço. As semelhanças bacanas não param na estética: Gort também é indecifrável, ameaçador e parece ter poder suficiente para arremessar a Terra pra fora da Via Láctea. Parece só uma questão de tempo para o badass espacial voltar a chutar bundas como em 1951, porém... Do jeito que ficou, Frankie Muniz, em O Agente Teen, resolveria a situação sem maiores dificuldades. Decepcionante assim.

Durante pouco mais de uma hora, foi o filme que traduziria satisfatoriamente o clássico original para as novas gerações. De volta ao status de remake que jamais deveria ter existido, O Dia em Que a Terra Parou se tornou um exemplo perfeito de potencial inimaginável limitado pela falta de imaginação. Além do quê, a humanidade não anda merecendo redenção ultimamente. Muito menos uma com gosto de Spielberg.

sábado, 20 de dezembro de 2008

NAZI ZOMBIES FUCK OFF


Ah, os nazistas. Até hoje, os vilões definitivos. O terror islâmico bem que tenta, mas não arranha nem os coturnos dos caras. E a cultura pop se esbalda nesse veio inesgotável de sacos de pancada. Como Spielberg mesmo disse, você pode fazer o que bem entender com eles, que ninguém vai reclamar. Fora que são bizarramente cinematográficos, com toda aquela pompa carnavalesca à base de suásticas, passos de ganso e sieg heil's.

Zumbifique os milicos da SS e pronto... Dead Snow (Død Snø, Noruega, 2009), desde já, o melhor filme de todos os tempos que eu ainda não vi.


O filme anda penando com a falta distribuidores internacionais, mas já consta na seleção oficial do próximo Sundance Film Festival (uma vitrine e tanto). Se nada der certo, porém, o Pirate Bay está aí pra isso mesmo. Dead Snow será um aperitivo anti-nazi de luxo, já que os aguardadíssimos Worst Case Scenario e Iron Sky mal saíram do storyboarding.

A produção de WCS, aliás, finalmente está tomando forma. Uma das locações é o mesmo bunker utilizado pelo cineasta Paul Verhoeven no drama de 2ª Guerra A Espiã. Esse projeto, se corresponder à expectativa quase orgiástica gerada pelos teasers, promete ser ainda melhor que Dead Snow, o melhor filme de todos os tempos que eu ainda não vi.

Recordar é viver:


É ou não é um pré-sal de excelência zumbística? E não esqueçamos do 2º promo, que contém a inacreditável sequência com uma divisão de paraquedistas zumbi-nazis.


É, as coisas evoluíram desde que o Capitão América acertou o queixo do führer.


Ps: ainda extasiado com o clip de “All Nightmare Long”, do Metallica. E fabuloso o texto do Sedentário. Valeu, benfeitor anônimo!

domingo, 30 de novembro de 2008

TODOS NO PAREDÃO

Quando comentei sobre o infame Big Brother Zombie, até estava empolgado com a possibilidade de sair algo minimamente divertido dali. O que eu não imaginava mesmo, ou talvez nem acreditasse de fato, era que o resultado fosse tão surpreendente. Pois bem, Dead Set, a série, é um filmaço (fazendo as contas... 1 piloto de 45 minutos, mais 4 episódios de 24-25... duas horas e vinte e poucos, é isso?). Então... duas horas e vinte e poucos minutos de podreira hardcore, numa das produções "de zumbi" mais carniceiras já registradas. Os caras do E4, talvez querendo fazer a diferença, pegaram realmente pesado no projeto. Violento e nauseante até para veteranos na mordeção cadavérica. Mesmo se valendo de algumas convenções recorrentes no gênero, Dead Set traz uma altíssima voltagem de tensão e grafismo, proibitivos para o público não-iniciado e reiterada pela mensagem "eu avisei" que introduz cada episódio. E se for seguir a recomendação "este programa é melhor apreciado em widescreen/surround sound e deveria ser assistido em uma sala escura" é o mesmo que concordar em sofrer uma parada cardíaca à prestação.


O logo oficial do BB
devidamente zumbificado
Dirigido por Yann Demange e criado pelo roteirista, comediante e quadrinhista britânico Charlie Brooker, Dead Set, se não traz um pingo de humor mais rasteiro, traça observações cáusticas sobre esse bicho, o ser humano. O que, se levarmos em conta que a maior parte da história se passa na própria casa do Big Brother, é quase como observar a mediocridade da espécie confinada em um tubo de ensaio. E pelo que se vê na série, os bróderes ingleses têm tanta relevância e profundidade quanto os brazucas (e, por extensão, todos os demais bróderes ao redor do globo). Os estereótipos são os mesmos, só muda o idioma. Tem o pitboy burraldo, a gostosa estressada, a gostosa acéfala, o introvertido, 01 negra, 01 gay e por aí vai.

Daí sai muita farpa do roteiro para se degustar (e para se lamentar) e é justo onde o conceito do reality show (existe?) converge com as sinistras marcações de um zombie movie: somos ao mesmo tempo nossos maiores aliados e nossos piores inimigos.

A princípio insólito, o crossover entre os dois mundos não demora em fluir furiosamente. Com a subversão de um ícone moderno do mainstream, fica claro que não existe cenário mais apropriado para essa montanha/roleta russa macabra. Crítica social que vai até o âmago do objeto de estudo, com um vigor que faria o próprio Romero circa Dawn of the Dead atacar a dentadas os incautos traseuntes de um shopping, tamanha a satisfação em ver seu legado se reinventando através dos anos.

Claro que essa tralha toda aí é puramente observação circunstancial. Subtexto e essência. Em termos práticos, a produção se vira tão bem em seu case ação-terror-pop que poderia figurar tranqüila ao lado dos melhores exemplares da nova safra - incluindo aí a releitura snydeana de Dawn of the Dead e os magnifícos Extermínio 1 e 2 (que, embora não sejam zombie pieces verdadeiros, emulam tanto de sua estrutura fílmica que seria uma heresia não co-relacioná-los).

A história parte dos bastidores do programa, onde somos apresentados à assistente de produção Kelly (Jaime Winstone), ao produtor Patrick (o ótimo Andy Nyman) e aos participantes do programa, prestes a trocar o Big Brother por uma versão doentia do Survivor. No primeiro episódio, a dinâmica avassaladora por trás de um líder de audiência dá o tom e traça rápidos perfis dos protagonistas. Interessante como a doce e prestativa Kelly, a mais próxima de ser a "mocinha" aqui, de cara transgride alguns dos principais tabus que separam sobreviventes de presuntos nos filmes de terror: sexo, fidelidade e afins. Entendo isso como uma analogia ao fato de que no universo dos zumbis nada é exatamente preto ou branco, bom ou mau e por aí vai. Então a regra jurássica não se aplica? A resposta vem, mas só no final.

Já o insidioso Patrick, o Boninho do Reino Unido, desde a primeira cena não dá muita margem para especulação: é um dos mais arrogantes, traiçoeiros, escrotos e cruéis vilões do cinema em muito, muito tempo. Esse vai pra galeria. Veja bem... você tem vilões que não dão a mínima para a dor, sofrimento e morte que causam, muitas vezes por mera incapacidade de estabelecer vínculos emocionais com seus atos, como foi o caso de Burke (Paul Reiser), de Aliens: O Resgate. É a definição do psicopata corporativo. E também temos aqueles que sabem exatamente o dano que estão causando, mas não hesitam em se promover ao status quo da humanidade, como o ricaço Kaufman (Dennis Hopper), em Land of the Dead. Patrick é uma mistura bastarda dos dois, com sotaque britânico, sociopatia aguda e narcisismo terminal. Memorável, mesmo quando o ideal seria apagar da memória um filho da puta desse calibre.

Contando com pontas de vários ex-participantes da casa - afinal os zumbis precisam se alimentar - não deixa de surpreender a entrega generalizada do elenco de apoio, que parece mesmo estar em uma situação real idílica violentada por uma situação real caótica (a seqüência da invasão dos zumbis no estúdio é espetacular). Talvez isso esteja relacionado à natureza visceral do gênero, que não reserva espaço para poses fake ou glamourização de porra nenhuma, principalmente na hora em que a casa está caindo. Destes cameos um tanto curiosos, o destaque vai para Davina McCall, atriz e apresentadora do BB britânico, no papel dela mesma, tomando o lugar que por direito deveria ser do Pedro Bial, mas só se fosse pra valer.

De crítica pungente a diversão pop por excelência, Dead Set é uma experiência singular. Fica a torcida para que o DVD (lançado no início de novembro na Inglaterra e cheio de cenas extendidas, deletadas e ultra-sanguinolentas), também saia por aqui. Nada mais justo, após tantas edições de imbecilidade televisionada em flashes ao vivo.

Aliás... fosse preciso um apocalipse zumbi pra dar cabo do reality show, por mim já tava valendo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

CLÁSSICOS DA JUVENTUDE III


Zumbi versus tubarão!

Trecho do clássico Zombi, do mestre Lucio Fulci. Sem dúvida, uma das seqüências mais bizarras já filmadas. Segundo a lenda, o cara que fazia o morto-vivo ficou doente no dia (sei) e foi substituído pelo treinador do tubarão.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

HIPPIES DON'T LIE


Peso, lisergia e lirismo diretos de Estocolmo, Suécia. O Siena Root poderia ser mais uma banda de garotos que amavam Zeppelin, Purple & Sabbath, não fossem as relações realmente estreitas com o dito "classic rock" - e o talento necessário para tal. O grupo foi criado no fim dos anos noventa pelo baixista Sam Riffer e pelo baterista Love H Forsberg ("Love", para os íntimos), que já tocavam juntos há quase dez anos. Logo arrendaram KG West (guitarra, órgão, cítara [!], backings e clone do Urso do Cabelo Duro) e Oskar Lundström (vocais). Com essa formação, gravaram o excelente debut, A New Day Dawning, de 2004. Pouco depois, Oskar saiu da banda e foi substuído pela cantora Sanya. Com a vocalista, eles lançaram seu segundo disco, Kaleidoscope, de 2006. No ano seguinte, ela deixou o grupo, dando lugar a Sartez, que cantou no novo álbum, Far From The Sun - e que, até onde sei, ainda continua na banda.

As constantes mudanças de frontmen seria algo desastroso em qualquer grupo, mas o que acontece com o Siena Root é a profusão de um fenômeno raro. Quantas vezes na história do rock'n'roll um cantor cedeu espaço a outro tão bom ou até melhor? E que compreende exatamente o que a banda precisa naquele momento? Os casos são poucos e notórios - de cabeça, vou aí de Bon Scott/Brian Johnson (AC/DC), Ozzy/Dio (Sabbath), Gillan/Coverdale (Purple), Di'Anno/Dickinson (Maiden) e Halford/Owens (Judas). No grupo sueco isto aconteceu três vezes em três discos (100% de "reaproveitamento"!), sempre com resultados excepcionais.

O trio de vocalistas é peculiar ao extremo. Cada um tem um estilo bem diferente dos demais. Oskar Lundström, o primeiro pródigo, tem influências de soul, inclusive com timbre e alcance próximos do lendário Glenn Hughes. Quem conhece, sabe o que isso significa (e deve estar me acusando de heresia agora). Já a gatinha Sanya ouviu muito o Robert Plant dos áureos tempos e deve cantarolar "Since I've Been Loving You" em casa sem fazer feio. É uma cantora incrível. E Sartez... é glam. Mas glam, glam mesmo, com um estilo espetacularmente andrógino. Tenha em mente Ian Hunter (Mott The Hoople), Marc Bolan (T. Rex) e Bowie fase Ziggy Stardust. Mais uma vez, a banda foge do lugar comum e mantém o alto nível.


Apesar do trampo nivelado dos três à frente do Siena Root, Sanya é de longe a mais cultuada entre os admiradores do grupo. Muito marmanjo ainda choraminga pela saída da moça e é fácil entender porque.

No vídeo a seguir, ela faz uma releitura sensacional de "Coming Home", faixa de abertura do primeiro disco, cuja linha vocal (de Oskar) é dificílima.


Impossível não lembrar de Plant no filme The Song Remains The Same, mais precisamente nas cenas ao vivo no Madison Square Garden.

Como de praxe, os três álbuns do Siena Root continuam inéditos por aqui. Espero que não por muito tempo. Discoteca básica para qualquer stonerhead ou simplesmente fãs de Música.

sábado, 6 de setembro de 2008

BACK TO THE FRONT


Tempos modernos. Ao lado do Google Chrome, o leak do novo álbum do Metallica foi o evento da semana. Death Magnetic será lançado oficialmente no próximo dia 12, mas uma loja francesa queimou a largada e patrocinou uma verdadeira farra P2P mundo afora. Numa postura bem diferente da época em que comia napsters no café da manhã, Lars Ulrich tem se mostrado mais compreensivo na questão: "Todos estão felizes. Estamos em 2008 e isso faz parte de como são as coisas agora, então tudo bem. Nós estamos felizes.". Mais compreensivo ainda foi a bandeira branca sinalizada por ele sobre as releituras de clássicos do grupo feitas por fãs no YouTube. Não que essa declaração tenha vindo do fundo do coraçãozinho ardiloso do baterista, mas o Metallica de fato tem reavaliado sua posição em relação à web. Vendas online de registros ao vivo e divulgação de músicas inéditas via streaming de qualidade revelam uma boa vontade (ou necessidade) em dialogar com esse novo mercado. Nada mais simbólico do que uma banda que é a personificação do establishment-rock revendo seus próprios conceitos.

Tudo isso e a eterna promessa de retorno às raízes criativas só aumentaram as expectativas em torno do disco novo. Sem entrar em méritos mercadológicos, Death Magnetic já é o álbum mais contundente do Metallica desde And Justice for All (1988). Estão lá as seções rítmicas brutais de Lars e do ex-suicidal Robert Trujillo, a artilharia pesada das guitarras, os andamentos deslavadamente thrash da velha escola. Tem o Kirk Hammett de volta aos solos. Tem James Hetfield puto da vida, em vários momentos mandando as melodias pro inferno e esmerilhando a goela como em 1986. Sem dúvida o grupo recuperou muito daquele velho e irrefreável punch. Mas não totalmente, à despeito das seguidas tentativas de sonic boom e pulverização de pedais, cordas e amps.

Segundo os músicos, Rick Rubin desapertou os coturnos de todos durante as gravações - o contrário daquela panela de pressão gerenciada por Bob Rock. O que não deixa de ser curioso, já que, à vontade, todos contribuíram em cada uma das faixas (pela 1ª vez na história da banda) e em vinte anos foi o momento em que soaram mais fiéis às suas origens. Da parte puramente técnica, as texturas estão mais secas e nítidas, conferindo maior dinamismo e uma pegada mais efetiva ao instrumental. A guitarra-base parece uma motosserra assassina e a cozinha é uma muralha de coesão. Isso que é um som de bateria, pelo amor do Bart. Não é à toa que o Slayer não largava do sujeito. É realmente um badass moderfocka.

O resultado está a meio passo do berserker defenestrador que o Metallica já foi um dia, mas ainda com resquícios do feeling hard que vem sendo destilado desde Load (1996) - o que deve desaparecer progressivamente se os próximos álbuns mantiverem o direcionamento. Notável também o cuidado do grupo em não se aproximar demais do passado, evitando a temida auto-paródia (exatamente o que muitos andam malhando no disco em fóruns gringos, sem absolutamente nenhuma procedência). Alguns vícios ainda persistem, mas após tantos anos com a fera enjaulada e com um tour-de-force dessa magnitude, fica difícil não se curvar. Não sei por quanto tempo ainda, mas os reis estão de volta.


Faixa-a-faixa:

"That Was Just Your Life" - meu Santo Araya! Intro pulsante e dedilhados sombrios tomados de assalto por um riff cruel e uma pancadaria fulminante. Estamos de volta aos dias do No Life 'til Leather aqui. Um início espetacular.

"The End Of The Line" - essa fica bem no meio da encruzilhada. Quebrada à "Master of Puppets", métrica à "Creeping Death" e com passagens extraídas da cervical hard rocker da banda. Quase uma "Fuel" metalizada.

"Broken Beat And Scarred" - mais pesada e progressiva. Parece um lado B perdido do Justice, com palhetadas rápidas em uma base cadenciada e variações rítmicas com solo do Kirk. Excelente performance do James.

"The Day That Never Comes" - talvez a mais polêmica do disco, revisitando os mesmos climas da inesquecível "Fade to Black". É uma balada pesada que segue uma pegada mais tradicionalesca, com guitarras dobradas e final abrupto. Uma justa homenagem aos velhos tempos e uma auto-referência no mínimo merecida.

"All Nightmare Long" - mostra exatamente como é a banda migrando para o lado mais agressivo. Começa com as nuances do hard pesado da última década e desemboca num thrashão de explodir o seu lado da rua. Catártica.

"Cyanide" - por incrível que pareça, os grooves de Trujillo e a quebradeira de Lars funcionam muito melhor no disco do que ao vivo. Tem jeito de música de trabalho.

"The Unforgiven III" - fechando a trilogia (assim espero) com chave de prata. Não se compara à primeira parte, mas ganha fácil da segunda.

"The Judas Kiss" - o andamento me lembrou algo vindo do Angel Dust do Faith No More, com alguns riffs e nuances em slow-tempo à Soundgarden. Estranho, mas logo emenda num hardzão metálico de primeira linha.

"Suicide And Redemption" - instrumental colossal de dez minutos. Fazia tempo, hein.

"My Apocalypse" - me diga você, fã de Kill 'Em All e Ride the Lightning: como não sorrir de alegria em ouvir um speed thrash sangüinário como esse saindo novamente dos PA's do Metallica? Mike Portnoy disse que é a melhor música deles desde "Dyers Eve". Roubou a minha deixa o baterista de araque (sic).


Ps: apesar da capa mais tenebrosa de sua discografia, esse eu vou comprar. Faço questão.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

BIG BROTHER ZOMBIE

E os mortos-vivos invadem o sistema de vez. Dead Set é o novo projeto dos produtores britânicos do Big Brother. É. Isso. Big Brother. Anjo. Imunidade. Pedro Bial. Filmado na casa atual do programa, a série em cinco episódios será exibida até o final do ano pelo canal digital E4. Sem maiores infos até agora.

A idéia e o roteiro são de Charlie Brooker, escritor de comédia, crítico e colunista do UK Guardian. Na trama, os participantes do reality show se beneficiam do isolamento imposto pelo programa, enquanto lá fora um apocalipse zumbi assola o planeta. Segundo o Guardian, "a casa do Big Brother se torna o único lugar onde as pessoas podem se abrigar dos zumbis. E os participantes do programa não sabem do massacre que está acontecendo lá fora. É como o 24 Horas 'mas com zumbis'".

Apesar do humor cáustico dos britcoms aliado aos monstros preferidos deste que vos escreve, eu ainda estava cético quanto ao BBZ. Mas agora, após esse teaser dos infernos...



Sensacional. Só assim pra eu assistir um Big Brother!

Na trilha: Rob Zombie Live! Hell Yeah!