quarta-feira, 1 de abril de 2009

Operação Resgate
Goose depois de horas... e antes de Cloverfield


Em meados dos anos oitenta, Anthony Edwards sentia o gostinho frisante do estrelato. Personificando a entidade nerd suprema (foi o Gilbert, de A Vingança dos Nerds, 1984) e disputando com Tom Hanks a supremacia das comédias de garotão criado a sucrilhos (Gotcha!, 1985), ele viu as portas do 1º escalão se abrirem quando interpretou o sidekick boa-praça de Top Gun, em 1986. Goose era o cara - e ainda pegava a jovem Meg Ryan (qualquer subtexto gay presente no longa deveu-se exclusivamente ao chororô suspeitíssimo do Maverick!). Nessa trajetória ascendente só faltava mais uma prova para o carisma de Edwards. Algo que o desafiasse dramaticamente e atestasse sua capacidade de protagonização extrema. De segurar um filme praticamente sozinho.

Miracle Mile (EUA, 1988) é um daqueles casos em que uma produção já nasce pertencendo a um ator. E até vice-versa, eu diria neste caso. É um pequeno grande filme que poderia ter alçado a carreira de Edwards a novos patamares, não fosse sua quase total obscuridade. Mesmo nos Estados Unidos, Miracle Mile é o que se pode chamar de pérola do anonimato - termo clichê, mas absolutamente fiel. Provavelmente agora, após o relançamento em dvd, suas inovações tenham finalmente a apreciação que merecem. E isto se estende até as "inovações" de produções recentes, em particular Cloverfield.

Escrito e dirigido por Steve De Jarnatt, Miracle Mile tem um início que sugere uma comédia romântica com um toque one-crazy-night, na cola de Depois de Horas, de Scorcese. Mas aos poucos o roteiro vai montando um retrato de sua real natureza: uma espécie de thriller incidental de Guerra Fria com narrativa em 1ª pessoa e, após os quinze minutos iniciais, transcorrendo em tempo real.


O comecinho do filme não dá qualquer pista do que está por vir. Edwards é Harry Washello, um músico trintão e solitário em busca de raízes e de uma alma gêmea - artigos raros na Los Angeles superficial dos anos oitenta. Mas ele acaba conseguindo as duas coisas, casualmente, quando conhece a garçonete Julie (a brat pack albininha Mare Winningham). Ambos estão no mesmo momento da vida, na mesma sintonia, curtem as mesmas coisas e estão afim. No dia seguinte, Harry conhece os simpáticos avós de Julie, a acompanha até a lanchonete onde trabalha e marca de pegá-la, em todos os sentidos, ao final do expediente, à 00:15. Enfim, um beijo acontece. Empatia total.

Mas do mesmo jeito que o acaso apresenta Harry à Julie, também começa a conspirar contra o rapaz utilizando todos os rigores da Lei de Murphy. Harry volta ao seu hotel, pensa na grande noite, programa o despertador e vai curtir uma rápida e revigorante soneca. Num lance incrível de azar, que só pode ser explicado como uma traquinagem quântica (envolve uma pomba e um cigarro descartado por Harry), ocorre um blecaute no prédio inteiro. Desta forma, o despertador não cumpre seu papel, Julie fica plantada por 1 hora na frente da lanchonete e Harry bate o recorde de atrasos, acordando às 3:45 da manhã.

No desespero, ele pega a caranga e sai rasgando até a lanchonete, na vã esperança de ainda encontrá-la por lá. O estabelecimento fica situado bem na Miracle Mile, área de forte concentração comercial e cultural de Los Angeles. A partir daí acompanhamos Harry minuto a minuto.


Chegando lá, alguns indícios soam como pequenas travessuras do destino: a "chuva de ratos", um sem-teto bêbado resmungando sobre caos e destruição, um telefone público 'ringando' insistente... mas tudo bem, afinal é Los Angeles, a cidade que nunca dorme. No interior da lanchonete isto é perfeitamente comprovado, com uma clientela até generosa para as quatro da madruga - e sobretudo, bastante diversificada. Estão lá dois motoristas de caminhão de limpeza, uma bitolada com roupa de aeromoça, uma senhora babando de sono, um travesti jogando conversa fora com o próprio Dr. Silberman (Earl Boen, num personagem não-batizado que bem poderia ser o bom doutor aqui... o impagável ar monótono é o mesmo) e a corretora Landa (a bela Denise Crosby, de Cemitério Maldito e Mortuária), além dos funcionários e o dono do lugar, Fred (o excelente Robert DoQui).

Através de uma colega de Julie, Harry tem a noção do furo que deu e vai até a cabine telefônica ligar pra ela, mas só consegue deixar uma mea culpa na secretária eletrônica. Quando desliga, o telefone volta a tocar sem parar e Harry, por que não, resolve atender. Do outro lado da linha, um homem de nome Chip, bastante transtornado, dá a entender que trabalha num silo de mísseis em Dakota do Norte. Sem dar tempo para Harry responder e acreditando falar com seu pai ao telefone, Chip afirma que eles acabaram de lançar uma ofensiva nuclear que atingirá seu alvo em cinqüenta minutos.

E o pior: segundo Chip, um contra-ataque em larga escala já está cruzando o globo naquele exato momento e levará cerca de setenta minutos para atingir os Estados Unidos. Subitamente, Chip é "retirado" da linha e uma voz seca diz pra Harry esquecer tudo e voltar a dormir.

O trote de 1º de abril mais sádico de todos os tempos?


A principal questão do roteiro é: como um telefonema de credibilidade duvidosa poderia desencadear a série de acontecimentos posteriores? A resposta vem logo em seguida, dentro da lanchonete, no que se poderia comparar a uma panela de pressão esquentando lentamente até explodir. Harry perdido em turbilhão de incertezas e tentando convencer os demais sobre a gravidade da situação, num crescendo sufocante cujo clímax, embalado pela trilha dramática do grupo Tangerine Dream, é de expelir o coração até a altura da garganta.

Sem exagero: pra mim, é um dos momentos mais antológicos do cinema em todos os tempos. A cena é perfeitamente montada, dirigida, interpretada e, acima de tudo, convincente. Transcende até o declínio do anticomunismo na época (fim dos anos 80), mostrando que, na prática, nenhuma paranóia é velha demais.

Após algumas ligações para seus contatos no governo, Landa descobre que quase todos deixaram o país. É o suficiente para incendiar aquele microcosmo, em especial o personagem Fred, que imediatamente prepara sua van pra cair na estrada. Sob a orientação de Landa, eles rumam direto ao aeroporto mais próximo, deixando alguns incrédulos pra trás. Harry embarca na fuga, mas não vai muito longe, pois quer voltar pra pegar Julie e seus avós. E o faz sozinho, pois ninguém ali quer perder um décimo de segundo. Antes de Harry pular da van (em movimento), Landa avisa que reservou um helicóptero nas proximidades para garantir uma última retirada para o aeroporto em menos de quarenta minutos.

Assim, nosso herói retorna ao coração da Miracle Mile para salvar a garota dos seus sonhos. No processo, topa com figuras urbanóides de todo o tipo, a começar pelo ladrão Wilson (um Mykelti Williamson pré-Forrest Gump, creditado aqui como Mykel T.).

O que, a princípio, parece uma tarefa simples, se torna uma montanha-russa de idas e vindas. O clima é de pesadelo recorrente. Toda vez que Harry tem de voltar pra encontrar algum personagem crucial para tirá-lo daquela situação, é como se a deadline apertasse mais forte o pescoço do espectador.

Num clima de tensão absurda, o cenário vai se tornando mais caótico e violento a cada minuto.


Steve De Jarnatt já mereceria todos os créditos só pela brilhante sequência da lanchonete (sendo mais preciso, da cena arrepiante do telefonema até Harry saltar da van), mas são nas tomadas externas ao final, que o cineasta se revela um gênio blockbuster. Senão vejamos... A cidade amanhece em meio a um rush na avenida mais congestionada do inferno, com milhares de veículos, turbas enlouquecidas, tiroteios e explosões pra todo lado. Isso tudo construído pra montar um panorama totalmente desordenado. Conduzir essa bagunça multilateral de maneira verossímil numa era pré-CG não é pra qualquer um. Criar bons ganchos de ação no meio disso tudo, muito menos. Com certeza, os diretores da segunda unidade, Leo Zisman e David C. Anderson, tiveram dias complicados.

Outro "detalhe". Estas cenas começam no fim da noite, se desenrolam durante o nascer do sol e seguem adiante. Ao ar livre, com o céu ao fundo e a luminosidade aumentando gradualmente até o dia ficar totalmente claro. Sem querer dar uma de expert em processo cinematográfico, mas isso é extremamente difícil, lento e trabalhoso. Muitos diretores consagrados evitam esse tipo de cena justamente por depender de inúmeros fatores fora de qualquer controle. Nas produções recentes, o único exemplo corajoso que me lembro é o de Jonathan Mostow, que filmou nestes mesmos moldes uma sequência importante de Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas (e, acredite se quiser, numa escala bem menor do que a de Miracle Mile). Aliás, foi pelo próprio Mostow, nos comentários do dvd, que eu soube do tamanho desse abacaxi radioativo. Não esquecendo que Jarnatt ainda estava regendo um apocalipse logístico nessas cenas.

O filme ainda traz algumas citações espertas no subtexto. Uma delas é o livreto que Landa tira de sua maleta. É uma referência ao livro "O Arco-Íris da Gravidade" (Gravity's Rainbow, 1973), épico pós-modernista/histórico/digressivo/conspiratório/fatalista de Thomas Pynchon. O livreto em questão é um cliffsnotes, espécie de guia de estudos para obras consideradas muito complexas - o que se aplica bem no caso de um livro cujo plot soma mais de 400 personagens e se utiliza de uma vasta gama de estilos narrativos interseccionados, com conhecimentos avançados em diferentes disciplinas. A trama, ambientada no final da Segunda Guerra, é centrada na produção alemã dos mísseis V-2 e a busca por um misterioso dispositivo chamado "Schwarzgerät", que seria incorporado a um foguete específico com o número serial "00000".

Controverso, o livro bagunçou até o Pulitzer de 1974, quando foi desautorizado da indicação. Recentemente, ganhou uma edição especial com arte de capa assinada por ninguém menos que Frank Miller - dizem, a pedido do próprio Pynchon.

Outra referência interessante também é relacionada à personagem Landa. Assim que ouve os fatos narrados por Harry, ela considera a possibilidade do governo já ter uma contingência para a situação. Nesse momento, revela que um ex-namorado trabalha na RAND Corporation (Research ANd Development), organização criada há sessenta anos com o objetivo de projetar análises e cenários para as forças armadas norte-americanas. Com o tempo, se diversificou e passou a trabalhar também com fundações privadas, internacionais e até com outros governos. Em suas fileiras, já estiveram mais de trinta vencedores do Nobel, entre outros notáveis. Donald Rumsfeld e Condoleezza Rice são afiliados.

Atualmente a RAND opera low profile em assuntos como terrorismo, economia e serviços de saúde. Mas durante sua longa trajetória foi acusada de incentivo ao militarismo e associada a um sem-número de teorias da conspiração. Segundo o livro Soldiers of Reason, do jornalista Alex Abella, a RAND, habitué nos corredores do poder, persuadiu o alto escalão do governo de que era possível vencer uma guerra nuclear.

No filme, por coincidência (?), a fixação por eficiência impressa nas atitudes de Landa é puro objetivismo de Ayn Rand ("a philosophy for living on earth"). As cenas em que a personagem monta o cenário mais provável, organiza mentalmente sua agenda e distribui tarefas revela uma Randista nata.

Outras citações incluem nomes como Carl Sagan, Linus Pauling, John A. "Shorty" Powers e Mensa International. Coisa fina.


Um inesperado efeito colateral: Miracle Mile apaga bastante o brilho de Cloverfield. É chato admitir. Acho o filme do diretor Matt Reeves um dos mais divertidos do ano passado, mas a verdade é que, em determinado momento de Miracle Mile, o plágio é evidente. Não se trata nem de um elemento ou outro, mas uma estrutura narrativa inteira do filme sendo copy-pasteada para o cartão de memória da câmera de Cloverfield. Isso sem falar em algumas cenas-chave pontuais e conceitos básicos da premissa.

Abaixo, as similaridades menos sutis - algumas listadas no fórum tosco do IMDb. Marque pra ler (atenção, SPOILERS!)


o cara que volta ao inferno pra salvar a garota, contrariando todo mundo;

a cena na loja de eletrônicos, com as tevês ligadas noticiando o caos;
 
o helicóptero levantando vôo rumo à salvação, sendo atingido e caindo rente aos prédios (sequência idêntica);

referência ao Superman - aqui, fazendo mais sentido;

a história retornando karmicamente ao seu ponto de partida, num parque;

o final, quando a garota quer sair e ele diz "não resta mais nada lá fora";

o casal trocando as últimas palavras num ambiente claustrofóbico, diante da morte iminente;

o impacto-conclusão, vitimando a dupla de protagonistas.


Não é difícil entender por que Miracle Mile foi um fracasso. Mesmo o cartaz original não traduz corretamente a proposta do filme - e olha que é um fabuloso pôster de filme-catástrofe:


É certo que muita gente saiu das salas de cinema perguntando se alguém anotou a placa do caminhão. Os dois últimos atos de Miracle Mile são radicalmente diferentes do primeiro. Charlie Brooker, roteirista e crítico do Guardian, escreveu que o filme tem a maior mudança de tom que ele já viu. Jay Carr, do Boston Globe, o considera bagunçado, mas com uma energia e urgência difíceis de esquecer. A cultuada revista britânica Neon o elegeu o filme mais depressivo de todos os tempos (IMHO, não, mas quase chega lá). O consenso da crítica na época era de que Miracle Mile era um tour-de-force caótico e perturbador.

Mas quem chegou mais perto, como sempre, foi o crítico Roger Ebert, com sua visão contundentemente sóbria e enxuta. Seu review no programa Siskel & Ebert at the Movies, logo a seguir, é genial (razão pela qual optei por postá-lo ao invés do trailer). Mas funciona apenas pra quem já viu o filme - caso contrário, o mais interessante é checar sua crítica escrita.




O paralelo que Ebert faz entre Miracle Mile e Depois de Horas é perfeito. Interessantes também são os comentários divergentes entre ele e seu colega Gene Siskel sobre a estética 80's na direção de arte. Deliciosamente datada e, pra mim, conferindo até um charme a mais ao filme, ela é um contraste flagrante com porradas na boca do estômago, como Testament e O Dia Seguinte, ambos de 1983.

Após Miracle Mile, a carreira de Anthony Edwards no cinema não deslanchou, mas também não foi uma nulidade total. Coadjuvou em vários filmes, dirigiu um infanto-juvenil e protagonizou outros menos cotados (entre eles, Cemitério Maldito II). Foi melhor sucedido em produções mais recentes, como Os Esquecidos, com Julianne Moore, e escondido ali no meio de Zodíaco, de David Fincher. Mas, sem dúvida, sua grande projeção foi na telinha, no papel do Dr. Mark Greene, do popular seriado E.R. (no Brasil, Plantão Médico), onde permaneceu de 1994 a 2008.

Mare Winningham percorreu um caminho parecido, ainda mais focado na televisão. Participou de várias séries, de E.R. e A Sete Palmos a Boston Legal e Grey's Anatomy.

Miracle Mile foi o segundo longa de Steve De Jarnatt. Considerando que sua estréia foi no cult trash Cherry 2000, apenas um ano antes, é algo a se admirar. Antes de ser produzido, o cineasta rodou com o script em Hollywood durante dez anos, quando conseguiu carta branca da Warner. A gigante, porém, queria uma produção mais comercial com algum diretor famoso e não um iniciante como Jarnatt. Diante do impasse, o filme seguiu engavetado por mais três anos, quando o diretor o arrematou por 25 mil dólares. Ele o reescreveu e o estúdio ofereceu 400 mil para comprá-lo de volta, no que foi prontamente recusado. Finalmente, Jarnatt recebeu 3 milhões de dólares da pequena Hemdale Films para iniciar a produção.

Posteriormente, Jarnatt também seguiu carreira na TV, dirigindo, roteirizando e produzindo diversos seriados. Nunca mais retornou ao cinema, mas deixou a sua marca. Bom pra ele que Miracle Mile conste no portfolio. Afinal, não é todo mundo que tem cacife pra dar uma de Terrence Malick ou Edson Arantes do Nascimento.


ICBLinks:
Depois de Horas na Miracle Mile: A lógica dos pesadelos no cinema
Separados no nascimento: "Cloverfield" & "Miracle Mile"
Soldiers of Reason (review do Washington Post)

quinta-feira, 26 de março de 2009

BLOOD SUGAR SEX MAGIK


Em 2008, os vampiros voltaram com tudo aos meios pop. É bem verdade que o filão dos sanguessugas esteve mais evidência devido ao hit Crepúsculo, mela-cueca teen com gosto de isopor e sem sangue nas veias, com o perdão do trocadilho. Mas quem soube procurar, viu que o fino mesmo foram o sueco Deixe Ela Entrar, um dos meus favoritos do ano passado, e a espirituosa série da HBO, True Blood.

True Blood é baseado na série de livros Sookie Stackhouse, que eu nunca li, e adaptado por Alan Ball, que eu já assisti. Ball é criador da fabulosa e "peculiar" série A Sete Palmos. Por essa prévia experiência, absolutamente anti-ortodoxa para os padrões televisivos, a proposta de uma série vampírica avançou imediatamente centenas de clics no terreno do insólito. Mas até o terceiro ou quarto episódio eu ignorava tudo isso e já tinha até esquecido a série na gaveta do Buffy & quetais. Erro fatal.

Quem me deu o chutão necessário foi o zombie renegado Fivo, que resumiu a premissa espetacularmente aos moldes botequísticos, como convém. Segue abaixo a pérola descritiva, com links que adicionei por pura diversão irracional.


"É uma cidadezinha do interior da Louisiana, com todo o sotaque carregado que vem junto. A Vampira (engraçado como o nome Rogue em português ficou Vampira e a atriz que fez a personagem foi cair logo num filme desses) é uma garota comum que tem o dom de ler mentes e é virgem, pois nunca conseguiu se relacionar com ninguém justamente pq lê suas mentes. Anos antes uma empresa japonesa desenvolveu um sangue sintético que substituiria o sangue humano, então os vampiros saíram do armário, deram as caras, tentam viver em harmonia com os humanos e criou-se um clima de X-Men quanto à intolerância, só que naquele microcosmo.

Bem... a menina trabalha num daqueles bares de estrada e tem que se esforçar para não ler as mentes alheias. Um dia um vampiro chega no bar e os dois passam a ter uma fúria foguenta mútua e enrustida sinistra. Em paralelo, uma mulher que costumava trepar com vampiros morre e o irmão da Vampira, vampirófobo, é suspeito. Depois uma filmagem local o inocenta, mas a outra mulézinha que ele pega tb é dada a trepar com vamps, pois dizem que eles têm uma libido absurda. Aliás, tem um mercado negro de sangue vampiro que faz a pessoa ficar com a mesma libido.

Alguns vampiros meio pervertidos se metem a fazer merda pela cidade.

Enfim... todas as regras de vampiros estão lá... estaca, sol, convidar para entrar, hipnose etc. Só não viram morcego. A Vampira está benzaça, com um ar inocente e ao mesmo tempo safada, como uma pinup mangá. O cara que faz um negão viado e a prima dele, que fala com o sotaque escroto, estão ótimos tb.(...)"



Isso aí.

Destacando sem patinar em spoilers: os cliffhangers são cruéis com o espectador e faziam a espera semanal se transformar em tortura chinesa; o clima de devassidão e putaria é constante, crescente e intumescido - a ex-Vampira Paquim, por exemplo, protagoniza uma cena de arrancar palmas conjuntas de Manara e Serpieri; a (r)evolução da personagem Tara, que passa de irritante à apaixonante, numa soberba perícia da atriz Rutina Wesley, fantástica; Lafayette (o negão viado), interpretado por Nelsan Ellis, um tremendo ladrão de cenas; tudo o que remete à segunda temporada é muito promissor, da misteriosa Maryann (Michelle Forbes) ao sugestivo culto do reverendo Steve Newlin (Michael McMillian); e por fim, a trilha.

A excelente abertura já mostra o alto nível da seleção com a sensacional "Bad Things", de Jace Everett. No decorrer da série, se ouve de AC/DC e Reverend Horton Heat até Wilco e Black Rebel Motorcycle Club. Cada episódio tem o nome de uma das canções de sua trilha e as faixas reservadas aos créditos finais são um show à parte, com temáticas relacionadas à cena derradeira. Nesse ponto, o "campeão das chamadas" é o personagem Sam, que motiva as trilhas de fechamento do quarto e nono episódios, com "That Smell", do Lynyrd Skynyrd, e "Walking the Dog", de Rufus Thomas, docemente sarcásticas nas respectivas situações.

Daí que fiz uma compilação das doze trilhas finais, com direito à capa surrupiada da (boa) hq. Muito country, southern, blues, bluegrass e rock'n'roll estradeiro pra ouvir matando uma garrafa de whisky. A única baixa é o melancólico instrumental do quinto episódio, de Nathan Barr (compositor oficial da série), que voou abaixo do radar do Google e foi prontamente substituído por outro som do mesmo capítulo.



Clicar = baixar




Anexo não tão off-topic

Capa do novo Heaven & Hell:


Algo entre Labirinto do Fauno e os primeiros discos do Dio. Tranquilamente uma das capas mais profanas, agressivas e instigantes em muito, muito tempo.

Achei do caralho! Os velhinhos se reinventaram, mais uma vez.

quarta-feira, 11 de março de 2009

DR. MANHATTAN

Ou como aprendi a parar de me preocupar e amar a adaptação


A abertura com o velho Zimmerman trilhando ao fundo já se promovia como a homenagem definitiva. Estava ali o coração de alguém que entendeu a obra e soube compilar cinematograficamente seu caótico cenário inicial. O resultado é tão bom que suplanta até sua pretensão. Uma introdução perfeita para a própria graphic novel, ideal para os sortudos de primeira viagem. E foi ali que a ficha caiu: simplesmente não dava para assimilar esse filme como outro qualquer. Essa possibilidade acabou desde que li a série pela primeira vez. O que se passava na telona era pura abstração, um exercício lúdico e tolo de (quase) meia-idade. Na sala, o clima era de culto secreto. Quem esteve lá na estréia - e não era incauto que saiu confuso e decepcionadíssimo após quinze minutos - queria mesmo era ver aquilo que Moore tanto demonizou nos últimos anos: os quadrinhos sendo transpostos ipsis literis para a tela de cinema, mesmo sem qualquer vocação para tal. O barbudo estava coberto de razão, mas a sua inquisição chegou na década errada. Fazer o quê.

Por ser uma experiência tão segmentada, a curtição-mor seria ir acompanhado por alguém que não leu a hq. Ou melhor ainda, de alguém que nem lê hqs. E que tenha, no mínimo, trinta anos - tenho a ligeira impressão de que a geração playstation acha que a Guerra Fria foi pouco mais que ficção-científica ruim dos anos cinquenta. Mas quem respirou aquela atmosfera, mesmo na periferia das superpotências, sabe bem o que era o Reagan aparecendo na televisão ao lado da Thatcher e os sempre ameaçadores desfiles militares na Praça Vermelha. Curiosamente, Moore resistiu firme ao conceito do cowboy-canastrão-na-sala-oval (diferente de Miller), preferindo prorrogar a administração Nixon.

Esse contexto sócio-político complexo representa o maior entrave na adaptação. Traçada sob várias camadas narrativas, a obra original registrou a ansiedade do cidadão comum até as autoridades do alto escalão mediante uma situação duplamente extraordinária (viver num país de vigilantes, a cinco minutos do juízo final). Nada menos que uma minissérie padrão HBO ou alguma genialidade do porte de Decálogo, do Kieslowski, reeditaria isso com um mínimo de justiça. Mas tal limitação não é demérito exclusivo de Snyder. Isso é regra, em se tratando de Moore - V de Vingança foi um exemplo.

Condensar drasticamente um pano de fundo que coloca a trama central em segundo plano é o preço mais alto que o cineasta pagou para realizar seu sonho de celulóide. E nem as cenas extras do DVD irão resgatar isso dignamente.


Rorschach, por Jackie Earle Haley. Esse é pra guardar num cantinho escuro da alma. Indefectível. É o próprio saltando dos quadrinhos, numa caracterização tão perfeita quanto poderia. A clássica cena que conclui a sua saga particular finalmente ganhou a vida que povoava os meus sonhos de olhos abertos ("manda ver!"). Só uma ressalva para o roteiro que o tratou tão bem: na cena em que Rorschach surpreende o assassino da garotinha, a abordagem pra lá de gráfica espirra gratuidade onde o original foi apenas sugestivo e, por isso mesmo, muito mais selvagem. Fora que compunha toda a metodologia que o personagem adotaria dali pra frente. Não entendi o motivo da alteração, além da intenção óbvia de atirar alguns ossos aos fanboys. No mais, uma performance impecável numa adaptação que traduziu ao pé do quadrinho o único personagem que tentou entender a piada do Comediante.

Já conhecia o Jeffrey Dean Morgan através das séries Sobrenatural e Grey's Anatomy. Sinceramente, não teria reconhecido o link ator-personagem nem que me jogassem na cara. Foi outra escolha certeira e, pelo menos pra mim, uma grata surpresa. Morgan emula com maestria toda a dualidade anárquica do personagem em relativo pouco tempo de tela. Até aqui o Comediante continua um canalha difícil de odiar, mesmo em plena era da correção política.

E como eu já previa, tendo em vista o quão impactante era o original, a cena dele com Sally Jupiter (uma Carla Gugino elegantemente vulgar, inspirada em Betty Page) ganhou contornos ainda mais brutais. O fato do Justiceiro Encapuzado não ser mais tão rude com Sally (nada de "levanta... e pelo amor de Deus, cubra-se") foi uma liberdade que até caiu bem.

Não há muito o que comentar sobre a sexy Malin Åkerman envergando o uniforme da Espectral (smokin' hot!). Seguiu um script modesto quase sem comprometer e ainda rendeu o melhor cosplay de todos os tempos. O mesmo não posso dizer de seu parceiro em cena, Patrick Wilson, que construiu um Dan Dreiberg com humanidade e uma paixão que comoveria até um certo bruxo inglês adorador de serpentes. Pena que sua história com o primeiro Coruja não foi devidamente concluída, mas nesse ponto, o filme já começava a irritar pelos cortes inevitáveis (e mais frequentes a cada minuto).


Billy Crudup, mesmo debaixo das gambiarras de captura e embolorado de CG, fez um ótimo Doutor Manhattan. Não foi bem como eu imaginava (especialmente a voz), mas estava claramente imerso. Encarando o mundo como se observasse bactérias (ou "cupins"), ele manteve as reações dispersas e nada emotivas (excetuando na cena com o Comediante num bar vietnamita e durante sua desmoralização em rede nacional). Seu ar de distanciamento é profundo, lembrando o excelente Surfista Prateado de Doug Jones, e reforça a ideia de elevação existencial.

Novamente os cortes sabotaram o que perigava ser a sequência mais grandiosa do filme - e talvez a mais épica desse finalzinho de década. O diálogo de Manhattan com Espectral em Marte era o primeiro clímax da saga. Laurie tentando convencer o ex-Osterman com valores já superados por ele e recebendo de volta retóricas precognizando o imponderável, era um material extremamente promissor. Faria da conversa entre o Arquiteto e Neo menos que uma discussão de bêbados. Tudo isso percorrendo uma paisagem alienígena vasta, desolada e de tirar o fôlego. Mais genial ainda era a maneira como terminava, amarrando com inesperada simplicidade uma situação que parecia sem volta - com direito a um desenlace familiar por parte de Laurie (cena que aqui perde toda a sutileza da hq). Atualmente meu momento favorito da graphic, eu enxergava aí um raro potencial kubrickiano a se cumprir, sem exageros. Mas pelo pouco que chegou à telona, não vingou.

Já o Ozymandias de Matthew Goode foi prejudicado por uma série de fatores. Apesar da competente performance, o ator não tem porte físico para convencer em mais uma armadura dark (equivocada, no caso), sem falar no cabelinho yuppie. E a decisão de entregar de cara o grande titereiro da história, além de limitante para o ator, foi sintomática - fica evidente que o filme mira só nos fãs mesmo. Nem se compara à ambiguidade do personagem no original.


Quisera eu ter pesadelos como os de Dan. Plasticamente, a cena referida é maravilhosa, trazendo uma concisa metáfora sobre a condição humana, mas acima de tudo... tem a Espectral nua. Foi animador ver que a censura alta não se justificou apenas pelo despojadão Dr. Manhattan, mas também pelas tórridas cenas entre Dan e Laurie. Felizmente, Snyder não regulou no sexo, assim como não regulou no sangue - na maior parte do tempo, as lutas foram espetaculares. Comediante x Ozy foi de tremer o chão e Coruja & Espectral no beco foi puro filme B de artes marciais, com todas as lacerações e fraturas expostas inclusas no pacote. Em contrapartida, a sequência do resgate na penitenciária foi incrivelmente burocrática, agravada pelo pior resultado que uma câmera lenta pode produzir. E o embate final contra Veidt, apesar de mais incisivo que na hq, pecou pelos excessos.

A única grande alteração não é perfeita, mas funciona muito bem na tela. O maior mérito das Bombas-Manhattan foi providenciar um inimigo mundial mais crível e imediato do que uma suposta invasão de alienígenas. Afinal, era notória a extensão dos poderes do Doutor, assim como sua indiferença (desprezo?) pela humanidade - alvo fácil para uma armação. Apenas senti falta dos "cadáveres nas ruas", ao meu ver, essenciais para mensurar o holocausto empreendido por Veidt (além de tornar muito mais difícil para os heróis a aceitação daquela lógica). E a mudança na reação de Dan soou desnecessariamente histriônica. Foi o oposto da fuga que ele e Laurie se dão no final original, sob as bençãos do novo deus atômico.

Chega ao fim e bate a sensação de que um longo ciclo se fecha, não apenas do filme na telona ou dos anos de sua conturbada pré-produção. De natureza extremamente pessoal, a adaptação se revelou muito mais quadrinhos que cinema, mas obteve sucesso naquilo que realmente interessa: revigorou o clássico e a percepção do leitor em relação a ele. Ao menos o suficiente para instigar boas releituras num futuro próximo, com novíssimos pontos de vista a serem explorados.

Em Watchmen (EUA, 2009), a obra reafirma a sua independência. Quer Moore queira ou não.



A antológica sequência inicial, com pontas de Kennedy, Jagger, Bowie, Warhol, Castro... e até de Thomas e Martha Wayne.
(Grazie al uploader!)



Links de táquions:
Manifesto Snyder, por Luwig
O que faz de Watchmen um clássico das hqs? (valeu, Sandro)
Análise do caso Watchmen
(valeu, Guimba)
Desciclopédia de Watchmen!

quinta-feira, 5 de março de 2009

...E JUSTICEIRO PARA TODOS


Há alguns quadrinhos atrás, o Justiceiro mantinha um diário/obituário de guerra onde registrava todas as suas "aventuras". Se o que acontece no filme Justiceiro: Em Zona de Guerra (Punisher: War Zone, EUA, 2008) estivesse descrito ali, seria quase um novo volume do Necronomicon. Mas que fique claro: o pacote é B. A produção é irregular e o roteiro tem mais buracos que uma rodovia federal brasileira, mas simplesmente não dá pra encanar com isso. Não enquanto somos subornados com galões de diversão cruel e doentia - experiência maximizada por uma trilha de rock absurdamente pesado e umas cervas acondicionadas ao alcance das garras. O nome do quadro é: "o que seria da vida se não fossem os guilty pleasures".

Mas confirmando minha pelegada punidora, a cineasta Lexi Alexander cometeu o melhor e mais fudêncio filme do Frank Castiglione. Matou a pau, a garota.

O resultado final é ainda mais notável quando lembramos da "zona de guerra" que rolou nos bastidores. Após sucessivos adiamentos, pressão da Lions Gate para diminuir a censura via sala de edição e até rumores sobre a demissão da diretora, pode se dizer que Lexi Alexander encarnou o próprio Frank Castle em defesa de seu filme. Paixão rara de se ver no esquemático cinemão americano. Porém, Justiceiro: Em Zona de Guerra parece estar pagando o preço da ousadia, com um circuito de exibições ultra-restrito e o sempre desmerecedor direct-to-DVD em alguns países - incluindo essezão aqui.

No frigir do Watchmovie, isso mata uma velha questão que assombra adaptações cinematográficas de personagens outsiders/anti-heróicos. Eles são mesmo comercialmente inviáveis. Exceções aos casos envolvendo marketagem massiva ou algum grande chamariz hollywoodiano, como foi o primeiro Blade com Wesley Snipes e Constantine com Keanu & cia.


O Justiceiro 2008 é o exemplo máximo dessa linha de raciocínio. É fiel aos quadrinhos até a medula oblonga, motivo de rusgas sem fim entre Alexander e o estúdio. E se na linha normal, o material que compõe o personagem já não ajuda muito no quesito PG-13, tenha em mente que a diretora adotou a versão MAX do personagem - muito mais extremista, séria e anti-comercial. Concebida pelo genial Garth Ennis, o Castle-MAX lida menos com vilões estilizados e mais com temas densos como tráfico de mulheres, conflitos regionais e abuso de menores. De fato, a diretora havia desistido do filme num primeiro contato, ainda com o script antigo, mas mudou de idéia após ler a versão MAX e ter a garantia de que poderia recomeçar tudo do zero.

O roteiro escrito por ela, Art Marcum, Matt Holloway e Nick Santora (do ótimo Prison Break), costura muito bem a atmosfera MAX com as bases da cronologia normal. A maior novidade foi a participação ativa da polícia na história, incluindo até uma subtrama paralela ao Justiceiro - o que é o oposto imediato (e a maior falha) do filme de 2004. Neste ponto, é de emocionar os fãs do caveirão.

Finalmente a origem do Justiceiro bate com as hqs - mesmo que em turvos flashbacks - e não há qualquer viés humanizador que facilite um personagem com mais de 150 homicídios (e contando) nas costas. Quer dizer, o único momento do filme em que isto acontece, muito en passant, está ligado diretamente ao trauma que o move. Então o efeito é o mesmo de um combustível reabastecendo uma máquina assassina. Numa caracterização consciente, o Frank Castle de Ray Stevenson (o Pullo, de Roma) é o Justiceiro MAX esculpido em C-4: inexorável, lacônico e objetivista. Não há volta, meio-termo ou tons de cinza. E não pára nem pelo inferno.

É o "bem" ultra-direitista diametralmente proporcional ao "mal" anarquista que enfrenta - vilões que são rated R da cara às atitudes.


Já li por aí (no caso, em detrimento ao Heath Ledger), que o Coringa é muito mais um presente do que um papel. É verdade. Com ele, o ator entra "armado" em cena. É um personagem biônico, cuja expressividade é potencializada por uma máscara parcial e com liberdade e devaneios que só a loucura proporciona. O Retalho é um filhote direto disso aí. Só que o ator Dominic West entra de sola e chega a arranhar o camp (versão gore, mas ainda camp). Especialmente após a transição Billy "The Beaut" Russoti-Retalho. Resta então ao ator Doug Hutchison, o eterno Eugene Tooms, a missão de personificar um antagonista equiparável ao Justiceiro. Loony Bin Jim, irmão doidão do Retalho, tem seus atributos (é canibal, briga bem e não está nem aí para auto-preservação), mas ainda falta muito pra representar uma real ameaça para a figura intimidante de Ray Stevenson - sensação que fica ainda mais acentuada com os dois capangas de terceira que os acompanham.

Se os vilões dão algum trabalho é só porque envolvem inocentes, como a personagem de Julie Benz (de Dexter) e sua filhinha. O cenário seria outro se a inspiração MAX fosse mais fundo e arregimentasse um inimigo do calibre do Barracuda, bandidão casca-grossa que eclipsa o próprio Justiceiro. Mas do jeito que está, a tradição dos filmes do personagem permanece: faltou vilão à altura pro velho Frank.

O que não quer dizer que a violência seja arrefecida. Não mesmo. Rapaz, o negócio aqui é punk.





A técnica do sangue digital, bastante aprimorada desde Zatoichi, confere uma estética bem quadrinhos à plástica das cenas. Aqui, um simples tiro na cabeça vira uma explosão coagulante, incrementa cenas antológicas como a da cadeira e efetiva o senso de justiça implacável do protagonista. Bons detaques também para os enquadramentos inspirados na arte sequencial, com ótimos resultados. A fotografia é bem menos sombria do que se espera de um projeto desse e se mostra bem versátil, em especial nos tons saturados da cidade à noite.

Contudo, o filme deixa claro até onde o orçamento vai - o que é um contrasenso, já que custou 22 milhões, o mais caro dos Punisher-movies -, gerando momentos meio esquisitos como os do Justiceiro cruzando New York a pé, entre uma justiçada e outra. Igualmente decepcionante é ver o Microchip, tão bem defendido pelo gorducho Wayne Knight, sem fazer jus ao codinome em nenhum momento.

Por fim, falta a Justiceiro: Zona de Guerra um aspecto que não faltou em nenhum dos dois anteriores (nem naquele com o Ivan Drago): peso cinematográfico. Tenha em mente Michael Mann. Um pouco mais de dimensão e grandiosidade até que não faria mal.


Mas essas bobagens são só pra acalmar o detrator casual. O filme relembra pontualmente o que ele se propõe a fazer de melhor. Cenas de um meliante explodindo no ar no meio de um exercício de parkour, um punho varando a fuça de um bandido e atrocidades quetais ao som de Slayer e Rob Zombie não deixam dúvidas. É o filme badass que o Justiceiro merecia desde a primeira vez.

Agora é torcer. Que venham os Escravistas, o Barracuda, o "Homem de Pedra" Alexandrovich Zakharov.

E, claro, Ray Stevenson e Lexi Alexander.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O LUCHADOR


"51% motherfucker, 49% son of a bitch!"

Enquanto a Europa Filmes segue acabando com a paciência alheia (Death Proof? Alguém?), o multi-tarefas Rob Zombie já iniciou as filmagens de Halloween 2, sequência do remake que ele dirigiu em 2007. O filme explodiu nas bilheterias, implodiu nas críticas e permanece inédito por aqui, graças à distribuidora que não distribui. Mas, por hora, foda-se a Europa Filmes. O marido da esfuziante Sheri Moon já tem o próximo filme engatilhado e esse parece promissor: Tyrannosaurus Rex, ainda sem roteiro ou cast definido (adivinha a única atriz confirmada).

Especula-se que é baseado na hq The Nail, escrita em 2004 pelo próprio Zombie em parceria com Steve Niles (de 30 Dias de Noite). Agora, com a divulgação das artes conceituais - by Alex Horley - os rumores meio que se confirmam.

Aliás, isso até rendeu um bafafá sobre supostos desacordos entre o Niles e o Zombie - prontamente desmentidos por Niles, que vê o projeto mais como uma adaptação livre e o Zombie como o verdadeiro pai da criança.

Mas vou te contar... quanto mais se basear na obra original, melhor.


A hq é excelente e a premissa, curta e grossa: um wrestler fodão chamado Rex "The Nail" Hauser tenta proteger sua família de um grupo de motoqueiros assassinos from hell (literalmente). A graphic não poupa no grafismo. É violenta pra caceta - e daquele tipo de violência pulp que implora por uma versão jorrando sangue na telona.

Nem imagino o quanto dos elementos místicos/satânicos o filme irá incorporar, já que os previews sugerem um clima de exploitaton setentista, mas já dá pra perceber algumas referências pipocando aqui e acolá.


Algo do Quadrilha de Sádicos original...


...e até uma dose de Mad Max.

Mas isso são apenas tolas conjecturas. Esse filme seria instantaneamente foda se o ator principal confirmasse a aparência das ilustrações.



E dá-lhe Danny Trejo!


MySpace T.Rex

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

DIE, AXL, DIE!


Melhores de 2008 outrora em produção e eu ouvindo o Chinese Democracy pela terceira vez nesta vida. Não é um disco ruim, tampouco justifica a demora e é, de longe, o registro mais bizarro do grande cetáceo do rock. Minha política em relação aos gunners é de "não-intervenção": tanto acho hilário o tom inflamável das críticas (algumas, antológicas!) quanto dignos de surra os que consideram o grupo a redenção definitiva do rock & roll. Ah, porra... vão ouvir Thin Lizzy, caralho. The Who. Bad Company. Led, Rainbow! Até o Foghat foi melhor.

Mas dessa os roses saem ilesos, já que sempre foram os primeiros a admitir que estavam à sombra de gigantes. Caso contrário, mereceriam mesmo todas as tomatadas. Além do mais, qualquer banda que escreva uma sonzeira como "The Garden" e ainda tenha moral o suficiente para invocar o vozeirão cavernoso do fuckin' Alice Cooper, tem direito a crédito extra. Isso me chama a atenção para o que realmente há de errado com a banda - os fãs. Ah, esses malditos.

Mas então. Enquanto tentava entender um pouco do disco novo (impossível), curtia uma versão bem melhor do Axl Rose: a da história "Stage Coach", da série White Trash de Gordon Rennie e do saudoso Martin Emond (R.I.P.!). Publicada na Heavy Metal #142 (janeiro/1993), é algo raro de encontrar, é bem possível que seja inédita por aqui. Se saiu, é quase certo que foi pela Heavy Metal Brasil ou pela Animal.


Na história, Axl, então um jovem white trash, sai de algum trailer nos cafundós de Indiana com destino a Los Angeles, a terra prometida do hard rock oitentista. Durante o trajeto, uma gangue de motoqueiros headbangers, talvez prevendo a praga mundial que seriam os GN'R, ataca o ônibus do rapaz e tenta matá-lo a todo custo.

Tão divertido quanto parece!


No link (em inglês) >>

White Trash: Stage Coach


E Chinese Democracy não constaria no Melhores '08. Processo arquivado.

Ok, me entrego. Rolei de rir nessa última enquete. Fiz de sacanagem, porque no fundo sabia que a parada ia terminar entre o Stan e o Hugh. Ora, o velho Stan é o maioral, tem conexões inimagináveis dentro na arte que tanto amamos (a ) e um vasto arquivo de histórias off-record pra contar...

Mas como competir com isso?

Com certeza, o marvete que votou no Hugh, votou com o coração partido (mas com o imaginário pra +18). Mas estamos todos perdoados. Num mundo perfeito, o "avô dos sonhos" seria uma mistura dos dois.


E, quem sabe, esse decano idealizado até mandasse um "go ahead, punk" de vez em quando.

Tipo, "vô, posso ficar com a ruiva?" - "go ahead, punk".


Rascunhei isso ouvindo uma puta relíquia do Van Halen e me espantando com o fato de não ter mais ressaca. Não que eu esteja reclamando.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

JASON VOORHEES' DAY OFF


Facão enferrujado? Confere. Sorriso cativante? Confere. Pescoção? Confere. Fetiche por acessórios de hóquei? O-fucking-yeah. Tremei, amantes da nouvelle vague! O rei dos slashers está de volta! E quando eu afirmo "está de volta" eu quero dizer per se literalmente por extenso. Porque cada frame respingante de Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, EUA, 2009) remete rigorosamente à franquia original, funcionando mais como um resumão dos três primeiros capítulos. Nada do que era circunstancial ou situacional foi modificado, o que faz deste filme uma autêntica 80's X-Party, com todos os machados, cutelos e loiras subindo as escadas em vez de fugirem pela porta. Mas antes que você me pergunte, sim, houve alguma reinvenção. Do próprio Jason.

O filme é a segunda colaboração do diretor Marcus Nispel com a produção do decepticon Michael Bay - dobradinha que funcionou às maravilhas no ótimo remake de Massacre da Serra Elétrica. Só que desta vez, o roteiro é de Damian Shannon e Mark Swift (do slasher-arena Freddy vs. Jason), o que talvez explique o default sanguinário aqui presente. Ao contrário da refilmagem de Massacre, aquele trocinho descaralhante no grafismo, o novo Sexta (apelido carinhoso) pouco revitaliza seu lado mais explícito e visceral. Esteticamente, não traz novas informações àquilo já vimos antes, o que hoje, não é o bastante. Não depois de Alta Tensão, Rejeitados pelo Diabo ou mesmo O Albergue. Isso, pelo menos, na versão que foi para as telonas.

Segundo Nispel, eles deceparam cerca de dez minutos em gore e putaria só pra acalmar a MPAA e emburacar censura R. Mesmo assim, a quantidade de mamões em exposição é redentora! Contei três pares generosos de magumbos, todos em farol alto e com moranguinhos perfeitamente simétricos. E como nada se perde, o diretor já avisou que o DVD e o Blu-ray é que vão ser o canal e terão todas as cenas proibidonas, mais os gêiseres de hemácias, leucócitos e plaquetas que ficaram de fora. Oremos!


A premissa é trivial e conta com, provavelmente, a maior introdução da história do cinema (pra lá de vinte minutos). Começa com um flashback p&b do primeiro filme, com a serial-mom de Jason jurando vingança e perdendo a cabeça pra deixar de ser besta. Corta para um grupinho de amigos (dois casais e um geek) indo acampar nos arredores de Crystal Lake - novamente em busca de erva, tal qual em Massacre. Papo vai, papo vem, a noite cai, uma menina mais assanhada paga peitinho (sic!!) e não demora até todos serem atropelados por um bulldozer da marca VOORHEES. No meio do açougue, aparecem algumas novidades em relação ao "man behind the mask" (já volto aí).

A cena que conclui a chacina chama a atenção por dois motivos: visivelmente, Derek Mears, o novo Jason, estava em plena realização de um sonho de infância; Dada a disposição com que ele vai pra cima da última vítima, Whitney (a fabulosa Amanda Righetti), você imagina que ele não só partiu a garota ao meio como abriu um novo afluente para o lago Cristal. Mas não é bem por aí - e essa é a primeira pista do estilo que Nispel imprime durante o resto do filme.

Finalmente, o título aparece e a história central começa. Seis semanas depois, o irmão de Whitney, Clay (Jared Padalecki, o Sam, de Sobrenatural) varre a região à procura da garota, enquanto uma nova leva de presuntos com úteros e hormônios em fúria armam um rendez-vous pelas redondezas. Os conhecidos estereótipos estão lá, desde o playboy cuzão e duas loirinhas bimbantes até um japa e um negão obedecendo o sistema de cotas - todos com etiqueta de identificação do necrotério amarrada no dedão do pé.

Também temos uma inevitável e virginal Pollyana no meio do grupo, a gracinha Jenna (Danielle Panabaker), interesse romântico de Clay. Aliás, sempre me pergunto porque uma pattyzinha casta e inocente resolve ir até um fim de mundo com uma galera sedenta por drogas e orgias.


Os garotos intrometidos xeretando o velho acampamento abandonado, jovens transando num filme de terror (isso é assinar a própria sentença de morte, mermão!), policiais incompetentes que nunca observaram os índices de homicídios e desaparecimentos da região... tudo pronto para o psicopático Jason inundar a floresta com um maremoto vermelho-bordô, mas logo percebemos algo diferente no capiau de Crystal Lake. Bem diferente.

Na nova abordagem, Jason está mais safo, mais versátil. Ainda é aquela mesma máquina de moer adolescentes, mas longe daquela rigidez robótica de outrora. Sim, a unidimensionalidade, maior característica do immortal-killer, foi pro saco. O Jason 2009 está mais para os cajuns sacanas de Amargo Pesadelo e O Confronto Final do que pra Michael Myers, o que faz até mais sentido. O caipirão from hell agora se utiliza de vários apetrechos (armadilhas, gambiarras de alarme e... ainda estou pasmo... arco e flecha!) e até de joguinhos psicológicos - coisa que ele fazia muito nos primeiros filmes e foi que sendo esquecida conforme a criatividade foi descendo pelo ralo. Do jeito que está, Jason poderia alugar uma caminhonete, cair na estrada e protagonizar a continuação de Wolf Creek.

Mesmo descrevendo tudo isso positivamente, confesso que fiquei meio dividido sobre essas modificações. Mas isso porque eu sou um maldito nostálgico. Jason pra mim é aquele que vai andando e mesmo assim pega o infeliz que está se desgraçando de correr lá na frente.


A direção de Nispel surpreende pela pouca ousadia, sugerindo até um certo cuidado com a marca. Também é meio canalha com o espectador, usando várias vezes o recurso do volume alto para amplificar sustos falsos (chega ao absurdo de um simples arrastar de cadeira criar um susto de mil decibéis). Outra estratégia furada que é repetida à exaustão e que se esgota rapidamente: Jason e seu poder mutante de se materializar atrás das vítimas, o que fatalmente chega ao ponto de comédia involuntária (a velha maldição da série original). E algumas passagens intrigantes como a da velhinha mal-encarada e adepta da causa Jasoniana não são desenvolvidas, o que é uma pena.

De positivo, temos boas homenagens aos primeiros filmes, como a cadeira de rodas que aparece jogada no muquifo de Jason (referência ao paraplégico de Sexta-Feira 13: Parte 2), a cachola da mamãe Voorhees reverenciada num altar (também da parte dois) e o ônibus escolar tombado no meio da floresta (lembrando muito a van que ele detonou na parte VI).

Também não poderia deixar de destacar que, após tantos cancelamentos, finalmente alguém de Sobrenatural conseguiu enfrentar o Jason - ainda que extra-oficialmente. O que, convenhamos, foi até melhor, já que os Winchester bros. nem abalariam o mascarado com os tradicionais sal grosso e rituais de exorcismo. Jason esquartejaria os dois num piscar de olhos e a série é bacana demais pra terminar assim.


Sexta-Feira 13 em muito se assemelha àquelas bandas hard rock de antigamente. E não me refiro apenas aos canhões de luz e gelo seco que impregnam as florestas de Crystal Lake à noite. A série retorna com um lançamento divertido, mas flagrantemente datado para os padrões atuais, na ânsia de recuperar um pouco do seu passado de glórias. O que consegue, no entanto, é mostrar mais uma autocaricatura, regurgitando as convenções criadas por ela mesma e que influenciaram as gerações seguintes - o que, de um certo modo, não poderia ser mais bem-vindo e lisonjeiro.

Jason está de volta. Vida longa a Jason Voorhees, o maior rockstar dos anos oitenta.


Friday the 13th Films
Camp Blood
Desciclopédia do Jason!