sexta-feira, 18 de março de 2005

NOSFERATU


De todos os personagens do universo de Star Wars, o que sempre me despertou mais interesse foi o Imperador Palpatine. Tudo bem, Luke Skywalker era legal, Han Solo era mais legal ainda e Darth Vader, dentro da cultura pop, é a representação suprema do Mal. Já o Imperador, também do time dos vilões, transcendia o conceito mais simplista de "Mal". Ele era a própria matéria negra da escuridão, sempre envolto em mistério, se ocultando nas sombras, manipulando todos como marionetes. Eram raras as ocasiões em que ele fazia uso de seus terríveis poderes.

Lembro da primeira vez em que ele deu as caras na série, num holograma. Me prendeu no ato. Nunca poderia imaginar que havia alguém ainda mais poderoso do que o sinistro Vader. Mas depois, pensando melhor... Tomar uma galáxia inteira e governá-la com mão-de-ferro, esmagar o poderio militar de inúmeras raças alienígenas e redesenhar o status quo vigente para atingir seus próprios objetivos, eram tarefas que exigiam muito mais do que mera força bruta. O Imperador é um superestrategista, observador, paciente e oportunista, além de um profundo conhecedor dos meandros da Força como um todo - não apenas de seu Lado Negro. Só assim pra ele ter singrado a saga inteira praticamente incólume. Nem o quase onisciente Conselho Jedi conseguiu rastrear a sua presença negra, mesmo este se encontrando tão perto. Considerando seu longo reinado de terror, pode-se dizer que Palpatine foi um déspota muito bem-sucedido, no fim das contas.

Há muito que se discute sobre as "inspirações" de George Lucas na construção de seus personagens. Até Tolkien, com seu O Senhor dos Anéis, entrou na dança. Isso sem falar em figuras de ordem religiosa, cultural ou mitológica, como Cronos (Vader), os samurais (...) e mesmo Buda (Yoda), entre outras incontáveis referências. Definitivamente, o Imperador não partilha desse mesmo background (bem, talvez Sauron e seu poder de influência espiritual... talvez), provavelmente pela sua natureza quase metafísica - sua figura se confunde com o próprio Lado Negro da Força, como se os dois fossem uma única entidade dentro de um organismo decrépito.

Sua relação com o Lado Negro é simbiótica e a necessidade em criar um lorde de sith é claramente vampiresca. O Imperador pressionando o virtuoso Luke para se entregar ao Lado Negro é a imagem de um senhor das trevas derramando seu próprio sangue para oferecer imortalidade em troca de servidão. Nunca se tratou apenas de "ódio". Ele se utiliza do pecado original, do fruto proibido, da matéria que impulsiona a ambição humana. No fundo, ele é a representação de tudo o que gostamos de pensar que não somos, mas que experimentamos em sonhos sobre poder, grandeza e auto-afirmação. Como se o próprio Palpatine sussurrasse no lado mais obscuro da nossa consciência.

Logo abaixo, essa rápida cena do último e excelente trailer, revela um embate que, na minha opinião, será o ponto alto de toda a saga de Star Wars.








É nesse momento que mestre Yoda confronta o seu extremo oposto. O Imperador é a sua perfeita contraparte negativa, a personificação de tudo o que o velho mestre Jedi expurgou em si próprio e em todos os cavaleiros que treinou. E, pelas breves cenas do trailer, deu pra perceber que ele passará por maus bocados. Não sei se chegará a ser a desconstrução do mito (a figura de Yoda é uma analogia a conceitos como busca pela sabedoria, contemplação filosófica e desapego a bens materiais), mas será bastante curiosa essa inversão de papéis, visto que o futuro da Força (e da galáxia) será negro por uns bons trinta anos - além de render a mais do que esperada pancadaria entre os dois mestres absolutos.

Outra rápida cena que me chamou a atenção foi quando o mestre Mace Windu - e mais três mestres Jedi - chega para deter o então chanceler Palpatine. Finalmente sem a necessidade de se conter, ele saca um sabre de luz e avança furiosamente contra os Jedi, emitindo um guincho demoníaco. Não sei se a versão final manterá esse detalhe, mas no trailer ficou de arrepiar.

O universo de SW é tão instigante e cheio de possibilidades que ficou difícil mantê-lo apenas em sua mídia cinematográfica. A conseqüência disso foi o chamado Universo Expandido: uma avalanche de HQs, livros e games dando continuidade a mitologia original ou mesmo a enriquecendo com detalhes que não constavam nos filmes. Esse é o caso do projeto multimídia Shadows of the Empire, levado à cabo pela própria LucasFilm em 1996. Nele, uma HQ, um livro, um RPG, e um videogame reuniam respostas para velhas questões referentes a série. Como Luke passou de aprendiz relutante a mestre Jedi num espaço tão curto de tempo? O que Vader fez após revelar que era o pai de Luke e deixá-lo escapar? Está tudo respondido em Shadows of the Empire. Já na HQ Império do Mal (Dark Empire, no original), uma antiga suspeita teve "confirmação": o Imperador não morreu quando foi atirado por Vader naquele abismo. Pouco antes da derradeira, ele transportou sua mente para um clone de si próprio, bem mais jovem. Eu sabia! :P

Mas nem tudo que é novo em SW é bom. Uma coisa que tem me incomodado bastante nos últimos tempos foi a inserção de novos elementos nas versões mais recentes da trilogia clássica. Sou ortodoxo nesse ponto. Me tornei fã de Star Wars por mérito único e absoluto da velha trilogia em seu estado original, sem essa recente pasteurização digital. Eu gosto dela como ela era, até com as limitações dos efeitos (aquele speeder de Luke, em SW - Uma Nova Esperança, com aquele "borrão" embaixo - pra apagar as rodas - é tão tosco quanto maravilhoso). Animais de CG em Tatooine? Um Jabba The Hutt todo malemolente, apto até pra dançar forró? Odeio tudo isso. É poluição visual pra mim.

Mas o pior mesmo foi a alteração na famosa cena entre Greedo e Han Solo no bar. Muito se comentou, mas só dia desses que eu fui ver a desgraceira que fizeram. Greedo atira à queima-roupa, erra e só depois o 'anjinho' Han Solo dá cabo no infeliz. De chorar.

Curiosamente, a alteração no holograma do Imperador ficou, de fato, bem mais adequada com a fisionomia decadente do personagem - embora também dispensável. Mas que eu posso fazer? Eu gosto é da tosqueira mesmo.

Antes e depois:




Trailer de SW3:

Resolução "Dobra Espacial da Millennium Falcon" - 320x240 (15,9 Mb)
Resolução "Luke, I'm Your Father" - 480x360 (31,1 Mb)



EXORCISMO À MODA ANTIGA


Quando eu comentei sobre os quadrinhos de The Goon, me pediram nos coments e no e-mail para traduzir e publicar. No momento, estou meio sem tempo (como já deu pra reparar após essa atualização quase semanal), e ainda tenho outros projetos de scan e tradução que já estavam na frente. Mas um dia, quem sabe, chego no The Goon - se alguma editora não lançar antes.

Por enquanto, e com todo esse clima de Constantine no ar, eu traduzi de sopetão essa historinha curta e meiga, que conta como Goon se saiu em seu primeiro exorcismo.

Clique nas imagens.


Nice guys finished last!


REINTEGRADOS À SOCIEDADE


A Toca do Lobo já tinha feito a terra tremer com os posts bélicos do Hulk, mas agora voltou a operar a todo vapor após a aguardada reaparição do Lobo Schmidt, que estava por aí fazendo coisas. E não é só! Excepcionalmente, Luwig-X e o Cag@mba renasceram das cinzas também! Sempre freqüentei esse blog - um dos melhores sobre quadrinhos que já vi - e fiquei realmente puto quando "acabou". Ainda bem que vivemos em um mundo mais Marvel do que DC. :)

E como já me disseram certa vez...


Welcome back motherfuckers!


dogg, descobrindo o trampo solo surpreendentemente bom do Roland Orzabal, no período em que ele estava de mal com as Tias Fofinhas

domingo, 13 de março de 2005

MAGOS, TRAPAÇAS & MIL CIGARROS FUMEGANTES


Em um mundo perfeito, um filme sobre John Constantine teria o Mickey Rourke fase 1981/1990 no papel principal. Aliás, não só o Mickey, mas também um diretor refinado e criador de atmosferas tensas, como Alan Parker, comandando a desconstrução de uma saga gótica pontuada por uma inevitável, mas inesperada, redenção. E um ator austero e obsessivo, imerso em um oceano de introspecção e obscuridade, tal qual Robert De Niro quando resolve ser a Encarnação do Mal. Enfim, tirando uma coisinha aqui e adaptando outra acolá, acho mesmo que o filme Coração Satânico daria uma bela adaptação cinematográfica do mago inglês.

Isso sim seria sonhar com o impossível...


...ao contrário da possibilidade de Gordon Matthew Sumner, o Sting, interpretar o personagem. Além de ser a base que ajudou Alan Moore a captar o espírito de Constantine (e de uma forma ainda mais intensa do que a idealização Rutger Hauer/Lestat de Anne Rice), Sting está por aí, vivinho da silva, com aquela mesma expressão enigmática e, acima de tudo, ainda um bom ator, como sempre foi - vide o seu Barão Frankenstein no belo A Prometida, e, claro, sua pequena e ótima participação em Jogos, Trapaças & Dois Canos Fumegantes.

...sem contar que ele foi o líder do Police, uma boa banda... mas vamos parar de viajar e trabalhar com o que temos. :)

Sabe, talvez seja melhor você não ler o resto se ainda não assistiu ao filme. Não que eu vá revelar algum spoiler sem avisar antes, não mesmo... mas é que fiquei muito feliz ao redescobrir a maravilha que é degustar lentamente uma projeção sem fazer idéia do que está por vir. Entrei na sessão sem saber praticamente nada do roteiro. Deveria ser sempre assim, independente se a experiência for boa ou não. Recomendo.


Pra situar: John Constantine é o personagem mais tridimensional e idiossincrático dos quadrinhos. Nem de longe ele lembra o maniqueísmo e a correção política habitual das HQs. Grande parte de seus êxitos se deve mais a sua malandragem do que aos seus dons sobrenaturais. Mas isso não o impede de expor fraquezas de espírito tão extremas quanto a sua esperteza. Ao mesmo tempo em que mostra o dedão para um Lúcifer babando de ódio, ele foge apavorado de um "simples" serial killer sem rosto. Com o passar dos anos, sempre em contato com os três lados da natureza (o que deixaria qualquer um pirado) e colecionando inimigos no Céu, na Terra e no Inferno, Constantine se tornou uma versão decadente e dissimulada de um molde original que já não era lá essas coisas. Definitivamente, é o sujeito dos quadrinhos a quem eu escolheria pra jogar conversa fora e encher a cara num pub londrino.

A primeira surpresa na produção de Constantine (2005) foi a escalação de Keanu Reeves para viver o personagem. Com o eterno ar californian boy (apesar de ser libanês), Reeves não tem nem 1% da aura enegrecida e espirituosa de Constantine, e só está aqui devido ao seu status de segura-bilheteria pós-trilogia blockbuster. A segunda paulada na nuca dos fãs foi a mudança da naturalidade do mago e de sua localização geográfica. Saem a sua Liverpool natal e as vielas mal-assombradas de Londres, entra Los Angeles, Califórnia. E a parte mais radical da adaptação pára por aí. De resto, são apenas texturas e nuances reinterpretadas e pouco relevantes, mesmo para aqueles admiradores mais xiitas, que têm todas as edições de Hellblazer ainda no plástico.

Só lembrando que um filme não é uma HQ e, portanto, não tem as obrigações de tal - mas sim a ética de oferecer um tratamento digno da fonte.

Depois dessa sentença quase-babaca mas necessária, eu diria que Constantine tem uma premissa que é mais ou menos um greatest hits de muito do que o mago já encarou em sua cronologia quadrinhística. Bem rapidinho e sem detalhes: o filme retrata uma guerra velada entre o Céu e o Inferno, e a tentativa demoníaca de transpor as barreiras divinas para conquistar a Terra e reescrever o Apocalipse. No processo, eles esbarram em vários "intermediários", como o próprio Constantine, seu jovem aprendiz Chas (Shia LaBeouf), Papa Meia-Noite (o ótimo Djimon Hounsou, de Amistad), e em vítimas-chave, como Angela Dodson e sua irmã gêmea, Isabel (ambas interpretadas pela bela Rachel Weisz).


Se essa linha básica já soa rebuscada pra você, cultuador de Anjos Rebeldes e Advogado do Diabo, posso dar a boa notícia de que, ao longo do filme, vão pipocando informações e características bem peculiares, pra não dizer insólitas (fruto direto da autenticidade dos quadrinhos), inclusive na reta final, meio paralela ao standard hollywoodiano. Confesso que não esperava tal desenvoltura do diretor Francis Lawrence, mais um vídeo-clipeiro estreando com uma adaptação de HQ (isso já tá ficando surreal), e do roteiro de Kevin Brodbin e Frank Cappello. Mesmo com uma boa concepção para o visual do Inferno - uma metrópole em chamas - o uso do CG no design dos demônios ficou um tanto batido. Os alados ficaram idênticos ao demônio que Eddie Murphy enfrentou em O Rapto do Menino Dourado, e os rastejantes são bem parecidos com os hunters de Resident Evil. Mas eles têm sua função pré-determinada na narrativa, não influenciando picas a quantidade de pixels que os envolvem. No final, são mesmo as caracterizações humanas (e sobre-humanas) que acabam se sobressaindo.

Num lampejo de fé e boa vontade, cometeram um arcanjo Gabriel bem interessante (interpretado na medida pela inglesa Tilda Swinton). Andrógino e perigoso justamente pela sua subserviência cega ao plano divino, Gabriel trava com Constantine alguns dos melhores diálogos do filme - aquele primeiro na biblioteca foi uma maravilha que só. Outro personagem interessante é Balthazar (Gavin Rossdale), um mensageiro do Inferno com um visual clean executivo. Apesar de instigante ao influenciar negativamente sem interferir no livre-arbítrio e de manter uma concorrência meio salafrária (e não-explicada) com Constantine, ele acabou sendo pouco explorado na trama, o que é uma pena. Já Rachel Weisz está em seu auge como atriz, se destacando mesmo em um pop movie como Constantine. Segura, sempre no tom certo, desviando fácil de clichês interpretativos, e, acima de tudo, "linda como um Monet", Rachel está em franca campanha para abocanhar aquele pepino dourado que Hollywood oferece todo ano.

E Keanu. Keanu Reeves é mais um conceito ambulante do que um ator. Ele é sim um ator limitadíssimo, mas ele sabe disso. Espertamente, o cara não arrisca nenhum preciosismo, tons mais altos ou inflexões histéricas. Sua interpretação varia do discreto ao introspectivo, característica sabiamente utilizada em seus "diálogos" com grandalhões da atuação como Al Pacino, Gene Hackman e Frank Langella. Em outras palavras, Keanu não atrapalha. Mas só isso não é o suficiente para um papel como o de John Constantine, já que o mago cultiva uma personalidade bem peculiar: é arrogante, calculista, canalha e um anti-herói por profissão (e opção). Uma má companhia que desvia qualquer um do bom caminho. Tipo Marcelo Nova quando começou a andar com Raulzito.

Mas, por fim, a abordagem preocupada, tristonha e contida de Keanu acaba encontrando um elemento no roteiro como respaldo (um dos lances greatest hits que eu comentei). Além do mais, ótimas seqüências como a do exorcismo hardcore em uma menina endemoniada, logo no começo, e o profissionalismo de Constantine ao enfrentar um monstro escroto (que é a própria letra de Bichos Escrotos em live-action!) e uma revoada de demônios durante um blecaute, são diversão garantida. Dessa vez passa.

A seguir, um comentário com SPOILER. Tenha medo, tenha muito medo...

Marque o texto logo abaixo da imagem.



A medalha de prata da categoria "poderia ser melhor", infelizmente, vai para Lúcifer e seu filho. Quem é leitor assíduo das publicações do selo Vertigo, e conferiu pérolas do calibre de A Opção Estrela-da-Manhã e Cartas na Mesa, vai se decepcionar com o senhor das trevas nesse filme. Interpretado pelo excelente Peter Stormare, "Lu" acaba desperdiçado pelo roteiro, só aparecendo bem no final e se revelando nada mais do que um palhaço do inferno, quase um Coringa das profundezas. Nas graphic novels, ele é perspicaz, insidioso, estrategista, manipulador, calculista e extremamente charmoso... um tour-de-force de atitudes e emoções tão perversamente elaboradas pra levar vantagem em tudo, que só encontra paralelo na quase vilania de Constantine - não por acaso, sua única contraparte à altura. Já o "filho" de Lúcifer é uma decepcionante propaganda enganosa... poderiam ter concebido uma ameaça ainda mais hedionda do que o Tinhoso, mas, fora a possessão no rapaz chicano e a azia cavernosa que ele dá na personagem de Rachel Weisz, em nenhum momento ele mostra sua cara feia. Pena.

É visível que o filme se preocupa em estabelecer uma conexão mais íntima com o material das HQs. Basta observar que a história não é entregue de bandeja ao público mais preguiçoso e que o próprio Constantine não é banalizado como um bastião na "luta entre o Bem e o Mal". E ainda por cima, conseguiu decodificar o contexto dos quadrinhos para uma linguagem bem mais acessível, sem maiores traumas e sem perder aquela verve tétrica da narrativa. Constantine acaba virando a mesa sobre os pessimistas de plantão (ó eu lá) e se firmando como um lugar-comum agradável para gregos e troianos - ou para fanboys fundamentalistas e o publiquinho fã do final de O Sexto Sentido.

Nesses tempos em que os estúdios são tentados (por Lúcifer?) a descaracterizar totalmente os personagens de HQs em suas adaptações para o cinema, acredite... isso é uma virtude e tanto.

E aos detratores... com a palavra, o próprio John Constantine.



dogg terminou de escrever esse texto ao som de Sympathy For The Devil - a aventura demoníaca de Mick Jagger à base de samba (palavras do próprio). Eu hein... mangalô-pédepato-trêsvezes... :P

segunda-feira, 7 de março de 2005

I AM WHAT I AM

...and that's all what i am!


É o Popeye, se fosse criado por Garth Ennis ao invés de Elzie C. Segar. Ambientação nos anos 30 e atmosfera dos primórdios áureos dos quadrinhos (tipo Os Sobrinhos do Capitão, Tintin e o marinheiro citado), mas carregada de escatologia, palavrões, ultraviolência e vileza, típicas de um Vertigo/MAX da vida. Assim é The Goon, cria do desenhista e roteirista Eric Powell. Começei a ler sem maiores expectativas, mas fui fisgado quase que de imediato... É divertidíssimo!

Goon é um aventureiro tough-guy e aparentemente superforte, mas sem maiores explicações (igualzinho ao Popeye em começo de carreira... o espinafre/soro-do-supersoldado foi criado na última hora quando o sailor man começou a fazer sucesso). Junto com Franky, seu manager e parceirão, Goon encara tudo quanto é tipo de missão (acredite... tudo mesmo) e tem uma coleção de inimigos tão variada quanto bizarra: psicopatas, mafiosos, vampiros, lobisomens, robôs, mutantes, monstros sub-aquáticos, ratazanas gigantes, feiticeiros, aberrações genéticas, demônios e principalmente... mortos-vivos em larga escala.




Talvez seja esse oceano de possibilidades que torna as aventuras tão divertidas. Ao mesmo tempo, a mistura - sempre espirituosa - de maniqueísmo (p&b) com mundo-cão (cinzento) é um dos pontos mais peculiares de sua narrativa. Ainda estou lendo a fase indie na Avatar Press, mas pelo que li na coluna de Érico Assis, do Omelete, ele já está em sua 10ª edição pela Dark Horse.

Outra coisa bacana são os 'folhetins educativos' presentes ao longo das HQs. Coisas do tipo "como arrancar o escalpo de um lobisomem" ou "adote um morto-vivo", que eu gentilmente destaquei aí embaixo... clique na imagem.


Eric Powell faz de The Goon um projeto autoral tão bacana quanto Mike Mignola com seu Hellboy ou, no mínimo, Erik Larsen e seu Savage Dragon. E pela trajetória lenta, mas sempre ascendente (o que é essencial), The Goon provavelmente será um hit dentro de alguns anos, com direito a adaptação para os cinemas e tudo. Deus me ouça!


E já que mencionei mortos-vivos... >:)

THE RETURN OF THE TRIOXYN


Você já assistiu isso antes... projeto ultra-secreto envolvendo armas químicas dá errado, e voilá... hordas putrefactas de mortos-vivos esfomeados à caça de cérebros frescos. Essa é a premissa de A Volta dos Mortos-Vivos 4: Necropolis e, caracas, A Volta dos Mortos-Vivos 5: Rave To The Grave. O primeiro filme da série, de 1985, foi uma pérola da nojeira bem-humorada. Já o segundo foi uma paródia acéfala (sem trocadilhos) do primeiro, sendo que este já era uma paródia dos filmes de George A. Romero. No terceiro filme, houve uma reinvenção até interessante, levada a cabo pelo insano Brian Yuzna (de Re-Animator).

Produzidos simultaneamente, o quarto e o quinto episódios ainda não têm data de estréia definida e, pela sinopse divulgada, é uma chupação violenta em cima de Resident Evil: O Hóspede Maldito (!!):

"Julian, Zeke, e seus amigos, são típicos estudantes do colegial curtindo um marasmo teenager-mauricinho, até que um terrível acidente de moto coloca Zeke no hospital, do qual ele desaparece misteriosamente e sem deixar vestígios. Seus amigos investigam seu paradeiro e tudo leva a crer que a famigerada corporação Umbrell... digo, Hybratech está envolvida. A Hybratech conduz perigosos experimentos com o composto Trioxyn-5, um poderoso agente químico capaz de despertar os mortos!"

...e blá-blá-blá...


Claro que isso é só uma desculpa pra que os desmortos sejam vomitados de suas covas apodrecidas e sairem em busca de miolos pulsantes (eu sei que miolos não pulsam, mas essa descrição ficou maneira!). O problema é que depois de pauleiras viscerais como Extermínio e Madrugada dos Mortos, ficou bem difícil pra série conseguir surpreender novamente o público fangore.

E dando uma de Grunge, do Gen¹³... se fosse eu no lugar do diretor Ellory Elkahem (Elka-quem?!), botava pra quebrar nas cenas de sexo (dezenas de playmates nuinhas em pêlo) e na violência escatológica (cérebros, tripas... tripas, cérebros...).

É, ué... às vezes a intensidade fala mais alto, e já que o roteiro é batidão mesmo...

Agora, o que eu não faria mesmo é colocar no filme um arremedo descarado do super-zumbi Nemesis. É, aquele mesmo de Resident Evil...


Mais triste ainda é ver o ótimo Peter Coyote (Lua de Fel) figurando no elenco desse filme pra lá de suspeito...

Bom... seja o que Ed Wood quiser.

A propósito, no site oficial tem um mapa da "genealogia living dead". Bastante elucidativo.


O mestre Romero está lá, devidamente centralizado. Eles tinham de ensinar essas coisas nas escolas!

:P


The next: the new fuckin' top 5!!

EVERGREY - THE INNER CIRCLE
(Hellion/2004)


Esse é bem recorrente aqui no top five, mas nunca comentei a respeito. E o negócio é o seguinte... todo o fã de rock pesado tem de ouvir esse disco. É quase uma obrigação didática. Há muito que as bandas da área tentam alcançar o tal álbum perfeito, tarefa que se tornou uma verdadeira caça ao Graal artístico. Não raro, o que se consegue são resultados assépticos, mecânicos e frios - embora "visualmente" magistrais. A harmonia idealizada entre técnica sobre-humana e energia emocional na música ainda está engatinhando, mas já encontra no Evergrey o seu grande representante. E The Inner Circle consegue atingir um nível ainda maior que seu excelente álbum anterior, Recreation Day (2003).

Thrash, progressivo, pop, soft rock, AOR, heavy tradicional, gothic metal e até gospel (!) comparecem de forma extremamente coesa, tornando a textura sonora do Evergrey um elemento único, superior. Esse disco (conceitual, aliás) só não é indescritível porque dá pra comentar ao menos uma coisa ao seu respeito: fenomenal. É impensável destacar apenas uma faixa, e o diamante In The Wake Of The Weary está aí para download como homenagem à sensacional vocalização soul de Carina Englund. Compre, roube, se vire.


THERAPY? - TROUBLEGUM
(A&M Records/1994)


Outro habitué dos 5+. Mas não tem como. O irlandeses do Therapy? cometeram um disco definitivo, atemporal. Calma... não é nada daqueles clássicos irretocáveis, hiper-complicados e altamente respeitáveis (e chatos!). Troublegum é um dos melhores discos de party rock dos anos 90 - incluindo-se aí uma lista de full-lenghts que vai dos clássicos Time's Up, do Living Colour, e The Real Thing, do Fenemê, ao Blood Sugar Sex Magik, do RHCP.

Troublegum é uma maravilha de sonzeira guitar rock. O trio formado por Andrew Cairns (guitarra e vocais), Michael McKeegan (baixo) e Fyfe Ewing (bateria), tira água de pedra com a antiqüíssima equação baixo-guitarra-bateria, com soluções criativas e efetivas (até hoje), repleta de ganchos perfeitos. E a banda não mede esforços. Rola de tudo: hardcore, thrash, power pop, surf rock, industrial rock, e um clima inequívoco de pop rock oitentão.

O Therapy? já fez discos memoráveis (High Anxiety, Infernal Love e a porrada federal Nurse), mas Troublegum é o que equilibra o melhor de uma banda dona de uma química incendiária. Pauladas como Knives, Screamager, Nowhere, Isolation, Trigger Inside - enfim, o disco inteiro - dão choque na alma e fazem bem ao corpo. Rock good vibration é isso aí.

E detalhe... tem a participação mais do que bem vinda de Page Hamilton, líder do Helmet. São dele os acordes de guitarra em Unbeliever. Cai dentro, meu chapa. Isso é trilha sonora de festa americana organizada por gente grande. Pra ouvir no talo.


CRACK UP - DEAD END RUN
(Moonstorm Records/2000)


Death'n'roll. Esse é um tipo de crossover que sempre viveu mais no conceito do que na prática, de fato. Formações extremas e experimentalistas como o Napalm Death fase Lee Dorrian, o Brujeria, o Agathocles e o genial (e sumido) Pungent Stench já bicaram o estilo, mas nunca o tomaram como estrutura-base - mesmo por quê, a viagem dos caras era outra. Restou à banda alemã Crack Up honrar a camisa e se tornar o maior (senão o único) representante do gênero. E não é que a coisa funciona às mil maravilhas?

Com a explosão típica do death jogando a favor de uma pegada rocker, a banda acaba mostrando o quão inédita e, ao mesmo tempo, simples é essa proposta. "Como é que não pensaram nisso antes?"... é a primeira coisa que vem a mente após ouvir pérolas do naipe de Maximum Speed, Dead Good Motherfucker, Better Dancer, Stallknecht, Evenflow (não é a do Pearl Jam!), Rock The Coffin', a sintomática It's Shit e a faixa-título.

Por vezes, a sonzeira parece pop demais (melodias à Beatles rolando ao fundo [!!], refrães pegajosos, riffs), mas acaba sendo incrível constatar que um estilo totalmente anti-comercial poderia rolar no volume 10 sem estranhar. E de uma forma bem mais íntegra do que um In Flames da vida (um Metallica do death).

O único porém desse disco do Crack Up é que eu tenho certeza que ele soaria ainda melhor se eu estivesse pilotando uma Harley Davidson na hora. Ou melhor ainda... esse V8 cavernoso da capa...


ASTRAL DOORS - OF THE SON AND THE FATHER
(Hellion/2003)


Jesus, Maria e José... Tenho até medo de escrever sobre esse que é um dos melhores discos lançados em 2003. Então, nada melhor (pra minha batata) do que expor meu background rockeiro... Existe - quase que sempre - um "interesse científico" da minha parte a respeito de vários estilos de Música. Mas o que eu mais ouço de forma constante e recorrente é o rock'n'roll old school, não tenho como negar. Thin Lizzy, Foghat, Bad Company, Free, Sabbath, Led Zep, Aero, - estamos chegando - Purple, Dio e... - chegamos - Rainbow. A instituição Ronnie James Dio, ao lado do mestre Ritchie Blackmore, integrou o Rainbow, uma das maiores bandas da História do Rock e referência atemporal - inclusive para dinossauros consagrados como Iron Maiden, Judas Priest e, puta que o pariu, acho que todo mundo da cena heavy atual.

E o quê isso tem a ver com o Astral Doors? A banda sueca é responsável pela atualização dessa vertente tradicional do rock, da melhor maneira que ela poderia soar se fosse concebida hoje pelas formações clássicas do Rainbow, do Deep Purple, do Uriah Heep ou mesmo do Jethro Tull. É heavy rock visceral, orgânico e autêntico, honrando o legado de bandas tão precursoras quanto Cream e o Blue Cheer. Pra quem é straight rocker, o Astral Doors seja talvez o grupo que mais atraia interesse em toda a cena, pois carrega consigo a responsa de um estilo que é um dos mais difíceis de compor e executar - já que o virtuosismo narcisista não tem nenhum apelo aqui.

Desde a abertura, com Cloudbreaker, seguindo com clássicos imediatos como a faixa-título (cuja levada, ao vivo, deve se comparar a Highway To Hell...), a maravilhosa Slay The Dragon, In Prison For Life, The Trojan Horse, Burn Down The Wheel, Rainbow Your Mind e a incrivelmente ganchuda Man On The Rock, esse disco é absurdamente essencial nesses dias tão artificiais e descartáveis. É o feeling e o calor da paixão trazidos novamente para dentro do rock'n'roll. Já não era sem tempo.

"I'm a Man On The Rock... Like Jesus Christ...!!"


...TRAIL OF DEAD - SOURCE TAGS & CODES
(Interscope Records/2002)


Duas verdades... uma - o nome da banda é "And You Will Know Us by the Trail of Dead"... e duas - você precisa conhecê-la. E foda-se o que você miseravelmente caracteriza como estilo, gênero ou abordagem. Foda-se. Foda-se. Foda-se. Não cometa o erro que eu cometi. Essa banda está acima do bem ou do mal, acima de contextualizações. Ela apenas é. ...Trail of Dead, por algum acaso, se utiliza da permissividade outsider rock para dar continuidade a sua cartarse niilista seek and destroy cíclica, a dicotomia auto-impingida, a auto-destruição, ao nirvana. Sources Codes & Tags é mais do que um álbum. É uma experiência, uma bad trip da lisergia movida a feedbacks de acordes saturados. É como tocar o próprio cérebro em um mundo mágico do impossível.

É fatalismo feito onda sonora.

É uma forma de vida.

É perigoso.

...Trail Of Dead transcende tudo isso e esse álbum ainda não é o suficiente.

Sem mais.

Embarque.


dogg... insane in the fuckin' brain

quinta-feira, 3 de março de 2005

COVERDOSE


Wolvie, Deadpool e a contagem de corpos... clique nas imagens

Homenagem tão maneira quanto oportunista. Desenhada por Patrick Zircher, a capa da edição #15 de Cable/Deadpool traz uma referência a capa de estréia do arco Enemy Of The State, da revista Wolverine. Geralmente, esse tipo de homenagem demora um tempinho para acontecer (alguns anos), mas com o sucesso do baixinho canadense pelas mãos da dupla dos sonhos Mark Millar/John Romita Jr, fica bastante "compreensível" a pressa. Marvel, Marvel...

De qualquer forma, a revista Cable/Deadpool anda muito bacana ultimamente, para a minha surpresa. Achei que iam estragar o Wade de vez. E quanto à Enemy... é Millar e Romita Jr... muita gente foda pra uma HQ só. Sem comentários.


Death Dealer e o Gigante Esmeralda... haja cavalo. Clique nas imagens

Capa de Hulk #81 coverizando uma ilustração do mestre Frank Frazetta. Essa sim, foi uma homenagem acima de qualquer suspeita. A clássica imagem do Death Dealer foi concebida por Frazetta em 1973, entre uma e outra pintura do Conan ou da Era Hiboreana (seu habitat natural). A capa do Hulk foi desenhada por Lee Weeks, que se não é um desenhista abençoado, ao menos é respeitoso e bem-educado na Arte que abraçou. :)


Clique nas capas, não compre as revistas!

A culpa é de Tim Bradstreet. Quem mandou o cara ser tão bom? Dia desses, comprei as duas edições de Liga da Justiça - Batismo Negro, totalmente ofuscado pelas capas, e se fez a velha máxima... "nunca julgue um livro - ou uma revista - pela capa..." Acho que é a pior HQ que já li na vida. Ou uma das piores. Apesar de um vilão bacanão (Hermes Trismegistus, arquiinimigo da SJA) e de uma participação cool as ice de Felix Fausto (um Constantine modernoso), a trama místico-infernal arrasta em duas edições - lá fora em 4 - o que poderia ser explicado em dois quadrinhos. E as capas foram uma miragem mesmo: lá dentro, o que predomina são os traços tenebrosos de Jesus Saiz.

Em tempo... comprei as edições num sebo, mas eu arranjaria um destino muito melhor pros meus 4 merréis.


MELHOR É POSSÍVEL


Foi só eu falar bem do 1º trailer de O Guia do Mochileiro das Galáxias que eles liberaram um novo preview mais divertido ainda. Agora eles explicam passo-a-passo (e com várias cenas que não têm nada a ver com a história do filme) como é que se faz um trailer! Tem a narração dramática com aquele "vozeirão", os takes com pessoas gritando desesperadas, a seqüência com centenas de explosões, a cena romântica, e por aí vai. É hilário.

O novo e imperdível trailer



E na trilhaaaaaa: Safe Home, do muthafuckin' Anthrax, son of a bitch!

terça-feira, 1 de março de 2005

VAI CHOVER!


Eu sabia que um dia iria comentar sobre eles: o remake de O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 2003... 2003... 2003!!!) e a reestréia nas tel(inh)as de O Justiceiro (The Punisher, 2004). Dizer que "esperei muito" por essas duas produções seria de uma modéstia franciscana. O que aconteceu aqui foi o cúmulo da trapalhada na distribuição setorizada de filmes. Tudo o que podia dar errado, deu, e tudo o que não podia acontecer, aconteceu. Chegou num tal ponto, que, no caso de Massacre, a coisa descambou para uma tragicomédia com um lado cruel predominante. O filme fez até aniversário em terra brazilis, com sua estréia sendo adiada seguidamente (e sadicamente), para desespero dos fãs (ok, meu desespero). Já o pobre Frank Castle nem sentiu o gostinho das telonas, sendo encaçapado direto para as locadoras.

Não fiquei revoltado por causa desses filmes em particular (ou pela estréia defasadíssima dos dois volumes de Kill Bill), mas devido a uma tendência de atrasos que está se tornando cada vez mais constante por aqui - principalmente em produções com uma temática mais seguimentada e menos mainstream. Seria exagero dizer que estamos voltando ao Brasil sisudo do final dos anos 70/início dos 80, quando um filme/LP/livro/o-que-for demorava 2 ou 3 anos pra chegar aqui. É exagero mesmo, mas só o fato desses episódios terem me lembrado dessa época...


O Massacre da Serra Elétrica original foi um marco underground dos filmes de horror. Dirigido por Tobe Hooper, essa produção de 1974 acertou em cheio ao transformar aparentes deficiências técnicas em exercícios alternativos de estilo. Filmado em 8mm, ele causava a impressão típica de um snuff movie, criando uma atmosfera de pesadelo realístico tão impressionante quanto doentia. Quem assistiu o Massacre original, jamais irá esquecê-lo, mesmo que não tenha apreciado/suportado a bad trip.

A história, escrita por Hooper e Kim Henkel, foi baseada nos crimes do assassino em série, canibal e necrófilo (urgh) Ed Gein, que, junto com Ted Bundy e John W. Gacy, foi o 'muso inspirador' de 80% dos filmes de horror das últimas três décadas. Isso sem contar o maior mérito do filme (na minha opinião): a maravilhosa quebra de narrativa do meio pro final. A nervosa calmaria da primeira metade é atropelada sem cerimônia pelo massacre da segunda. É um filme praticamente dividido em dois. Obrigatório é pouco.

Michael Bay, quem diria, foi a via para realização do remake. Isso ainda não o redime daquele Pearl Harbor xaropão e de suas produções bróqui-bâster com o Jerry Bruckheimer, mas ao menos dessa vez ele segurou a serra elétrica do lado certo. Quem viu o arrepiante trailer, pode ficar tranqüilo - o filme, dirigido pelo clipeiro Marcus Nispel, corresponde a expectativa.

Na verdade, a nova versão é bem mais do que uma refilmagem. É uma releitura mesmo. Vários elementos novos pipocam aqui e ali, e são suficientes para criar uma nova mitologia, sem se apoiar excessivamente na original. E isso é ótimo! Além de driblar o óbvio (numa tentativa frustrada de reeditar o mesmo impacto do 1º filme), essa nova versão confere um novo fôlego a uma estrutura que já foi imitada ad nauseum desde seu lançamento. Méritos para Scott Kosar, que trabalhou o novo argumento em cima do clássico roteiro de Hooper/Henkel.


No filme original, após uma introdução sinistra que narra o ocorrido ao melhor estilo Caso Verdade, a história acompanha cinco jovens (dois casais e um carinha numa cadeira de rodas) viajando numa van. Em certo momento, o grupo dá carona a um sujeito, no mínimo, bizarro. Logo acabam parando numa teia de aranha disfarçada de posto de gasolina e daí pra se aventurarem pela vizinhança da família Sawyer é um pulo.

Na nova versão, há algumas mudanças, sendo todas relevantes. O novo grupo de jovens é formado por Erin (Jessica Biel), Morgan (Jonatan Tucker), Pepper (Erica Leerhsen), Andy (Mike Vogel) e Kemper (Eric Balfour), que estão vindo do México numa van cheia de marijüana malocada. Já o "caroneiro" da vez é uma mulher bastante desorientada que está vagando sem rumo no meio da estrada. Não demora muito e "nossos heróis" param no velho posto de gasolina atrás de ajuda. Daí pra frente é só descida. Eles fazem uma tour pelo assustador casarão-açougue e a quantidade de esguichos de sangue vai aumentando até culminar na mais que esperada primeira aparição de Leatherface, aqui encarnado pelo gigantesco Andrew Bryniarski (o Zangief, do buscapé Street Fighter: A Batalha Final, e o Lobo, do ótimo curta Lobo Paramilitary Christmas Special).

Com certeza, Bryniarski é o melhor serralheiro da série, depois do honorável carniceiro Gunnar Hansen, do clássico original. Entre Hansen e ele, vestiram a camisa 10 do Leatherface: Bill Johnson (The Texas Chainsaw Massacre 2), R.A. Mihailoff (The Texas Chainsaw Massacre 3) e Robert Jacks (The Texas Chainsaw Massacre: The Next Generation [blergh!]).



Os Sawyer agora são os Hewitt (um nome tão dechavado quanto "Voorhees"). Originalmente, o velho Leather chamava-se Bubba Sawyer e aqui ele foi rebatizado como Thomas Hewitt ("um bom garoto, mas com uma terrível doença de pele"). Fora ele, a formação da família recebeu um providencial upgrade. O excelente R. Lee Ermey passou a ser o "social" do bando. Quem conhece esse sensacional ator-por-acidente já sabe o que esperar de seu personagem (um xerife!). Outra adição foi o guri-monstrinho de bom coração Jedidiah (David Dorfman) e o velho escroque Monty (Terrence Evans, um maldito sortudo... assista pra saber por quê).

No "núcleo carinhoso" do filme, três senhoras esquisitas marcam presença - uma delas, a Henrietta, me impressionou pela ótima interpretação da atriz Heather Kafka... as feições de seu rosto mudam de "adorável" para "psicopata raivosa" com uma facilidade incrível. Aliás, a seqüência dentro do trailer funciona como uma pausa no pique-pega infernal, mas, ao mesmo tempo, é responsável pelo momento mais tenso e inquietante do filme - substituindo, naquela hora, o horror físico por um horror bem mais psicológico (devidas as proporções).

À princípio, o filme sugere um direcionamento de suspense teen, mas graças a São Jason, esta primeira impressão logo é arremessada na vala à base de serradas e desmembramentos. A fotografia (do mesmo Daniel Pearl do filme original), embora não traga aquela crueza visual de outrora, é de uma sujeira cavernosa, beirando a decadência dark. E repare na "participação especial" do ícone gordinho da cultura pop Harry Knowles, do site Ain't It Cool News. É dele a cabeça que está numa bandeja no casarão dos Hewitt. Isso que é fazer uma ponta.

O filme soa como um banho de sangue refrescante para qualquer fã de terror. Ele funciona. É catarse em celulóide. Perverso, desumano e cruel. Leatherface sofreu em continuações pífias onde foi reduzido a um mero brutamontes bobão ("muito trabalho e pouca diversão"). Mas aqui, ele voltou a ser aquele vagalhão demoníaco de mutilações e violência primal, atravessando portas como se fosse um trator descendo a ladeira.

A nova versão de O Massacre da Serra Elétrica entra tranqüilo na lista dos grandes remakes "que-são-muito-mais-do-que-isso", como A Noite dos Mortos-Vivos, de Tom Savini, e Madrugada dos Mortos, de Zack Snyder. Elogio maior, impossível.

E outra coisa: Jessica Biel correndo por aí com uma camiseta molhada e amarrada acima do umbigo... Nossa, esse filme é muito mais do que eu pedi a Deus.


Apesar do tsunami de adaptações de quadrinhos para o cinema, o Justiceiro, um dos personagens mais populares da última década, não teve moleza. Com uma campanha de marketing levada nas coxas, um trailer meia-boca à Temperatura Máxima e uma carreira internacional irregular, o filme obviamente foi um fracasso de bilheteria. Mesmo assim, está conseguindo uma sobrevida com as ótimas vendagens do DVD - fator que está se tornando cada vez mais decisivo nas previsões orçamentárias dos estúdios (vide os rumores sobre Hulk 2). Outro desafio era levar às telonas um personagem cujo universo e motivações já foram exploradas zilhões de vezes desde o primeiro Desejo de Matar, de 1974 (também o ano da criação do Frank Castle). A comparação com produções mais recentes, como O Vingador, com Vin Diesel, só servem para minar ainda mais a credibilidade do filme. Com um cenário nada amigável, o longa do Justiceiro se tornou persona non grata na originalidade temática do cinema atual. E não foi por falta de chances, pois o personagem perdeu a sua em 1989, num filme fraquinho pra chuchu com o Dolph Lundgren.

O que acaba restando como diferencial é a índole de anti-herói nato do Justiceiro. Mas essa só é reconhecida por fanboys, o que descarta uma maioria que não sabe nem o que significa "HQ". Portanto, de fanboy pra fanboy... O Justiceiro traz várias discrepâncias em relação aos quadrinhos, mas todas sem modificar o seu já conhecido perfil psicológico - muito pelo contrário, algumas até sendo mais coerentes com a mentalidade extrema de quem anda por aí atirando sem remorso.

Sai o Lundgren (com aquela cara de tuberculoso terminal) e entra o parrudo Thomas Jane, que é ator de verdade e absurdamente como eu sempre imaginei que o Castle seria em live-action (se bem que às vezes ele manda um olhar que é igualzinho ao do Christopher Lambert). Foi uma ótima escolha. Jane está para o Castle como o Jackman esteve pro Wolverine e como o Hasselhoff esteve pro Nick Fury... brincadeira.

Em sua estréia na direção, Jonathan Hensleigh (que também escreveu o roteiro) fica bem no meio-termo da fidelidade às HQs. A origem do Justiceiro sai do Central Park para uma idílica casa de praia em Miami, e ao invés de ter "apenas" esposa e filhos assassinados por criminosos, ele tem a família inteira chacinada (pais, tios, avós, papagaios, etc). Cabe aí o mérito para a interpretação de Jane, pois o seu sarcasmo e bom-humor iniciais se transformam num silêncio introspectivo e mortificante após o massacre. O culpado pelo genocídio é Howard Saint (John Travolta), um chefão do crime cujo filho morreu durante uma operação liderada por Castle contra o tráfico de armas. Completam a 'legião do mal' a voluptuosa esposa de Saint, Livia (Laura Harring), e seu capanga number one, Quentin Glass (Will Patton). Castle também arrebanha alguns simpatizantes: a triste e amargurada Joan (a maravilhosa Rebecca Romijn-Stamos) e uma dupla de outsiders/coadjuvantes cômicos.

Como visto, a história não traz nenhuma novidade, então o que sobra é a maneira como ela é conduzida. Vamos tomar como parâmetro o Castle malvadão de Garth Ennis (aquele que todo fanboy considera um legítimo Castle safra 74). Ele jamais se associaria a três pessoas extremamente comuns e que não teriam nenhuma serventia prática para ele (como o Microchip nas HQs, p.ex.). Mas como alívio narrativo para o espectador médio eles funcionam. E em nenhum momento Castle se deixa contagiar pela normalidade destes, o que rende algumas cenas até engraçadas de fato (como a do jantar). Nas seqüências de ação, fica evidente que o modus-operandi de Castle não é o de um sujeito normal. Ele mata com gosto, cheio de preciosismo. Numa das cenas, ele esfaqueia um inimigo abaixo do queixo, deixando à vista a lâmina atravessada dentro da boca.


E é aí que algumas seqüências realmente fazem O Justiceiro acontecer. A luta entre ele e o monstruoso Russo (Kevin Nash) poderia ser aquele churrasquinho de gato igual ao filme do Demolidor, mas acaba revelando uma insuspeita inventividade à base de narizes quebrados e nacos de carne arrancados, sendo, ao mesmo tempo, espirituosa e carregada de humor negro. Só essa briga, apesar de curtinha, já vale o aluguel.

Por outro lado, certos joguetes não soam nada naturais, como a intriguinha que Castle cria colocando Saint contra Glass. Apesar de curiosa, não tem nada a ver com o Justiceiro. John Travolta, por sua vez, leva tudo no controle remoto. Seu personagem é por demais contido em relação aos sucessivos ataques de Castle. Se tivesse a mesma presença maligna do vilão que ele interpretou na metade de A Outra Face, seria diferente. Ainda não foi dessa vez que o Justiceiro ganhou um antagonista à altura. Também não levou a nada a cena em que o mariachi assassino faz um número para Castle dentro de um bar, numa citação mais do que deslocada da trilogia de Robert Rodriguez. Outro furo - dessa vez colossal - foi o desaparecimento da polícia da metade pro final, mesmo após Castle ter deixado claro para dois oficiais que iria fazer justiça com as próprias flechas.

Entre mortos e feridos, O Justiceiro acaba conseguindo ser, por breves momentos, o filme que o personagem merecia. Do jeito que está, ele não é o diabo que pintaram por aí, mas também não é o filme com o qual Garth Ennis se emocionaria.

Pelo menos Castle não é grego. Nem ninja.


dogg, surdo e rouco... e na trilha, I Love The World, do sumido New Model Army - a primeira coisa que escuto desde o acachapante show do Anthrax...