quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A Saga da Crise nas Infinitas HQs


Ainda não foi dessa vez que a bolha do mercado nacional de HQs estourou. Mas que houve uma estremecida esquisita entre o final de 2015 e este início de 2016, isso houve. E não vindo apenas das editoras, mas também da distribuição, que, por padrão, atrasa tanto quanto antecipa títulos, mas que agora parece ter batido um recorde do caos.

A programação dos lançamentos foi implacável: tijolões de Crise nas Infinitas Terras, A Saga da Fênix Negra, A Liga Extraordinária: Século e as incessantes coleções da Salvat, Eaglemoss e DeAgostini se embolando com arrobas de edições de dezembro que só há pouco aportaram em bancas e lojas. Isso sem mencionar aquisições indie fora da curva, carinhosamente garimpadas em nome de uma coleção com a cara do dono.

Resultado: janeiro foi meu mês mais $obrecarregado desde que passei a registrar a experiência. Sentei o dedo nessa porra.

O problema da quantidade deixou de ser dos mixes mensais para ser dos encadernados. Especialmente agora, com a chegada do material dito "clássico" às graphics da Salvat, onde o aproveitamento por edição foi elevado substancialmente. Histórias antes relegadas às edições adulteradas da editora Abril finalmente publicadas com acabamento digno - embora não na ordem ideal, cronológica, proposta já sepultada pelo naufrágio das linhas Biblioteca Histórica Marvel e Crônicas, da DC.

Mesmo assim o paliativo é saboroso. Quem não fazia a coleção inteira e dava graças a Crom por isso, pode passar a carteira - e já viu a extensão #11, Contos de Asgard, que coisa linda e irresistível? Bem dizia aquela máxima dos filmes: "cuidado com o que deseja".

Das editoras menores, apenas a Mythos e seus minions cantoneses parecem manter seu nicho de mercado. Muito disso é culpa de um certo ranger texano e seus, até ontem, 11 títulos regulares variando entre almanaques em formatinho preto e branco e trade paperbacks coloridos gigantes. Ele e um bárbaro cimério contam com uma vantagem sobre seus pares da 9ª arte: um público informal não segmentado que já foi mais forte em tempos idos.

E que, aliás, segue como fonte de piadinhas infames recorrentes...


O público original de Tex e Conan no Brasil

Uma das consequências imediatas desse boom quadrinhístico são os relançamentos dos títulos mais populares num curto espaço de tempo em relação à publicação original. É uma tática predatória cujo reflexo é sentido nas linhas mais baratas, como os mixes, e que não parece projetar algo positivo a longo prazo.

A base desse mercado, afinal, é o cronograma mensal, popular, não o das "edições definitivas". Do mesmo jeito que ocorre lá fora.

Mas cá estou eu com a minha coleção de Capitão América & Gavião Arqueiro fechada recentemente...


Voei perto do Sol com asas de pisa brite...

...me vendo estranhamente acostumado com a aquisição do encadernado do Clint Barton.


Mais um dia no escritório da repetição. Algo tão óbvio assim só senti com a minissérie Grandes Astros Superman e sua edição TP. E olha que elas tiveram 4 anos de gap.

Pelo menos o Cap de Rick Remender foi divertido. Será que vai ter encadernado também?

Levi Trindade, editor da Panini, não parece nem um pouco preocupado: segundo ele, a agenda de relançamentos vai seguir em ritmo industrial em 2016. Entre a avalanche de mangás e a ótima Maravilha de Brian Azzarello e Cliff Chiang, a reedição com o melhor timing periga ser a de O Imortal Punho de Ferro, da abençoada dupla Ed Brubaker/Matt Fraction.

Não apenas pela série live-action que se forma no horizonte, mas também por um dos meus exemplares de Marvel Apresenta. Das três edições onde a série foi publicada, entre 2008 e 2009, as duas últimas nunca saíram do plástico. Já a primeira...


Papel que não respira vive melhor...

Acho que isso soluciona algumas polêmicas colecionistas.


* * * * *


Esse post subiria no finalzinho de janeiro e foi prorrogado para o fim do Carnaval, mas não tive como deixar passar algumas coisas que foram surgindo. Principalmente porque o assunto parece bastante ligado ao tal "ritmo industrial" dos relançamentos de luxo que a Panini vem imprimindo de uns bons tempos pra cá.


Crise nas Infinitas Terras e X-Men: A Saga da Fênix Negra, sem maiores apresentações, excetuando os preços: 115 e 85 reais, respectivamente. Considerando cenário econômico, importância das obras, projeto gráfico e material extra (em especial, o de Crise), justo, muito justo. Justíssimo.

O problema é que foram dois lançamentos de grande porte evidenciando profundas deficiências de revisão da editora. Ainda não li - ou revisei, rá. Me limitei a conferir se constavam lá os erros noticiados via Facebook, YouTube, fóruns e blogs, talvez, na esperança de ser uma falha isolada a alguns lotes da gráfica. E pelo jeito, não foi.

Em A Saga da Fênix Negra já virou famosa a cena do Wolverine e suas "gatas de adamantium".


Agora a perna de pau do Wolvie na Salvat respira um pouco mais aliviada.

Mas o pior veio algumas páginas antes.


Terrível.

A revisão de Crise nas Infinitas Terras também "não faz feio" com dois diálogos trocados que, se não trazem nenhum prejuízo às tramas principais, no mínimo bagunçam completamente a cena.


Nada, nada, um erro que nem a Abril e suas traduções la garantia soy yo cometeram.

Questionado sobre o caso nos comentários do Distopia Cast, novamente Levi Trindade, sempre boa-praça e solícito, não desconversou e pareceu genuinamente surpreso com os erros.

Segue o trecho.



+distopia cast Valeu, pessoal, já assisti e foi mesmo bem legal. Parabéns! Agora quero dar uma sugestão  de tema para os próximos papos como Levi e o pessoal da Panini: traduções e revisões. Está cada vez mais assustador a quantidade de erros bizarros nas traduções do material da Panini, inclusive nos deluxe que custam uma fortuna. Desde letras falatando na capa até balões inteiros em branco ou com texto errado (recentemente encontraram problemas na Saga de Fênix recém-lançada). As CHM (editadas pela Carol, se não me engano) vem com erros grosseiros de português, dignos de quem não entende nada de gramática e ortografia (é burrice mesmo, e não "erro de digitação"). Acho que isso valeria um especial, pois tá sendo sistemático o problema e tá ficando difícil a situação! Valeu e, no mais, continuem fazendo o bom trabalho (e evitando as coisas "sem nexo" que de vez em quando aparecem, hehehehe)!

+joaqquinno Oi, joaquuinno. Muito obrigado pelo seu comentário. Realmente, ocorreram algumas falhas e já conversamos com as pessoas responsáveis. Sobre o caso do livro da Fênix Negra, recebi um contato via nossa página no Face de que havia uma página duplicada, mas nas edições que recebemos da gráfica isso não ocorreu. Então, peço que, se possível, caso você tenha uma edição com esse problema (que é muito bizarro), que encaminhe fotos das páginas em questão pro pessoal do Distopia Cast e depois eles enviam pra gente, beleza? Até agora, não encontramos nenhuma edição com esse problema, mas se houver ela será trocada. Porém, se o problema for outro, por favor, nos informe também. No ano passado, tivemos um problema na gráfica com a reimpressão de Cavaleiro das Trevas. Magicamente, em uma página, alguns balões ficaram em branco. Porém, os arquivos em PDF estavam corretos e eram os mesmos que a gráfica tinha recebido. A gráfica, neste caso, se responsabilizou pelo ocorrido (apesar de não ter conseguido explicar satisfatoriamente o ocorrido, já que apenas alguns balões da página estavam em branco, enquanto que outros continham textos normalmente) e reimprimiu toda a tiragem do livro novamente. Nós efetuamos a troca para todos que compraram. Antes disso, já tínhamos suspendido a distribuição e solicitado a devolução para as livrarias e lojas que haviam recebido o livro. No caso de Liga da Justiça: Origem, houve reimpressão do livro e todos que compraram o livro com o erro de digitação na lombada tiveram o livro trocado. Sobre os erros de tradução e revisão, estamos pegando bastante no pé da galera que cuida dessas áreas, mas algumas coisas andaram passando. Vamos reforçar o cuidado nessa questão. Um forte abraço, Levi Trindade Panini Comics


E foi isso aí.

Até posso relevar a troca dos balões de Crise - a rigor, o mesmo erro pavoroso constante em Sandman - Edição Definitiva (volume 1, pág. 343). Que é frustrante visto de modo isolado, mas que, no conjunto, não ofusca o fato de que é uma belíssima e imperdível edição. Isso se não encontrarem mais vacilos cabulosos, lógico.

Já os erros de Fênix Negra, ao meu ver, configuram com louvor os requisitos para um recall. Penso que são falhas tecnicamente bobas, porém pontuais. E traçam um cenário interno grave que só pode ser explicado pela completa ausência de revisão (que, em tese, é composta por várias etapas redundantes com mais de um profissional envolvido), possivelmente causada por contenção de gastos ou por alguma deadline ambiciosa - ou coisa pior, para os conspiradores de plantão.

Não consigo acreditar que foi apenas incompetência coletiva. Sem ironia.

Pretendo acompanhar os desdobramentos disso. Vou cornetar nos perfis da editora, cutucar por e-mail, enviar as fotos e tudo o mais. Recomendo a todos a mesma atitude. Se surtir efeito prático, também vou querer um novo corrigidinho e nos conformes. Se rolar só umas desculpinhas, bem... não vou ficar mais pobre por causa disso. Mas vou ficar mais chato.

Por hora, está inaugurada oficialmente a tag Porra, Panini! aqui no BZ.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

The Walking Dead S06E09 ou "Sem Saída", parte quatro


Que volta.

Foram alguns dos melhores - senão os melhores - minutos de The Walking Dead até agora. Catarse pura. E só porque fizeram by the (comic) book. Greg Nicotero: te devo uma rodada.

Agora dá licença que vou ali checar a reação da neofitada e já volto com um sorriso no rosto.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Vulgar Display of White Power


Janeiro não foi para fracos. Em um ano que começou com clima de desesperança e desconfiança geral, nem o entretenimento nosso de cada dia escapou incólume. Das passagens esperadas até as inesperadas de nomes emblemáticos do cinema e da música, foi um mês estranho que só terminou quando finalmente concluiu seu sombrio epílogo.

O que Phil Anselmo aprontou ao final do Dimebash 2016 - e suas consequências - você pode acompanhar cronologicamente em qualquer site de notícias do meio heavy metal. Recomendo em especial a recapitulação dos precedentes feita pelo MetalSucks e o desabafo de Robb Flynn, do Machine Head.

Minha opinião sobre esse tosco episódio é bem simples. Primeiro, Anselmo não é racista. Uma breve passeada pelo YouTube e você o encontra curtindo com seu amigo Doug Pinnick, do King's X, agitando loucamente em uma apresentação do Living Colour e não só tietando como apoiando seus colegas latino-americanos do Sepultura. Mas é óbvio que ele tem sentimentos mal-resolvidos nessa área, ao contrário do que foi dito em seu pedido de desculpas/contenção de danos.

Tive a nítida impressão que a bebida foi o gatilho sim, mas como um veículo acidental para esses sentimentos. Pareceu algo que ele realmente queria tirar de seu sistema. Um grito entalado na garganta por muito tempo. Por toda sua vida, talvez.

Para entender melhor de onde vem esse "grey power", é preciso entender o seu contexto. O que não é tão complicado assim. Um paralelo razoável é o que acontece hoje no Brasil, com esse Fla-Flu político/ideológico pressionando todo mundo.

Cobranças veladas por posturas extremistas e intolerância estão aí, te assediando dia após dia, cada vez mais explicitamente, no trabalho, na roda de amigos, em casa. E usando qualquer boato ou factóide que estiver à mão sem o menor pudor de ser descoberto como falso. Uma mentira repetida mil vezes... sabe como é.

A médio prazo isso acaba surtindo efeitos conflituosos na cabeça de qualquer cidadão. A longo prazo, dentro de uma rotina de insinuações e "bons" conselhos, o estrago é inevitável - o que foi ilustrado à perfeição numa cena-chave do filme A Outra História Americana.


Claro que não sei o que passou na vida privada de Anselmo. Tudo isso é só presunção barata baseada nas contradições que ele vem protagonizando por anos a fio. Psicologia de boteco, certo?

domingo, 31 de janeiro de 2016

O Arquivo X está lá fora


Estamos vivendo uma era inédita para a difusão de séries. Com o veículo transcendendo as plataformas tradicionais, novas e velhas apostas na grade de títulos pipocam num ritmo vertiginoso, se acotovelando entre premières, entressafras e seasons finales. Diante deste cenário, nada mais natural que os divisores de águas retornem do além televisivo para reclamar a sua parte nos espólios deste futuro que ajudaram a construir.

Arquivo X foi, provavelmente, o divisor de águas definitivo. Antes da série, a expressão "mais um enlatado americano" era típica para definir as produções genéricas importadas de lá. E era só o que havia mesmo. Seu legado é tão profundo quanto duradouro - Lost, Sobrenatural, Fringe e inúmeras outras devem as calças a Arquivo X.

Criada por Chris Carter, a série estreou em setembro de 1993, começando como um azarão e alçado ao status de fenômeno pop. Azarão, porque a proposta abordando o paranormal, o sobrenatural e, principalmente, homenzinhos verdes, estava fora de moda naquele início pragmático de década. Talvez a audiência norte-americana estivesse sacudida demais pela realidade, diante da guerra no Iraque, do atentado ao World Trade Center, do Unabomber, do massacre em Waco/Texas e da expectativa pela primeira administração democrata em mais de 10 anos.

Se me perguntassem então o que fez a diferença entre o ícone mainstream que Arquivo X se tornou e o cult obscuro que fatalmente teria sido, diria que foi um ingrediente utilizado sem moderação por Carter: política e conspirações. Entre corredores de escritórios federais, reuniões a portas fechadas e sussurros ao pé do ouvido, o espectador norte-americano teve exatamente a resposta na telinha para tudo aquilo que ele suspeitava vendo as manchetes do dia-a-dia: o governo estava pouco se fodendo para o povo.

Nenhuma das regras esmiuçadas na Constituição se aplicavam aos engravatados. O governo e suas agências faziam o que queriam, quando queriam, com quem queriam e não davam nenhuma satisfação. Eles eram os cowboys e as pessoas, o gado.

Revendo recentemente as 4 primeiras temporadas, ficou ainda mais claro aquilo que eu não prestei tanta atenção na época. Na ânsia pelo resultado, frequentemente deixei passar o jogo. A trama principal, versando sobre uma conspiração mundial envolvendo raças extraterrestres, era apenas um sedutor cenário para as observações políticas de Carter. Uma conspiração onde governos e pessoas do alto escalão disputam posições para o jogo do milênio, prafraseando S.R. Hadden, é quase que o diário de bordo das entranhas do poder.

A questão é, se após um run com temporadas finais bastante desgastadas, um longa apenas razoável e outro ruim, Arquivo X ainda encontraria relevância conceitual nos dias atuais. Pelo que foi demonstrado nos dois episódios de estreia, não só a encontrou, como deitou e rolou com ela.

De forma esperta, o roteiro praticamente não encosta na estrutura consagrada. Estão lá Fox Mulder e Dana Scully - e é sempre um prazer rever esses dois - começando de onde tudo parou na última temporada e em Arquivo X: Eu Quero Acreditar. Ambos completamente fora do radar, apenas para serem jogados no tabuleiro novamente com uma facilidade que só o contexto de Arquivo X consegue permitir sem descer esquisito.


A abertura do episódio de estreia ("My Struggle"), dirigido e escrito pelo próprio Chris Carter, é um must-see para fãs. Com uma sequência reunindo vários momentos - e monstros - clássicos da série nos anos noventa, incluindo promos publicitários famosos seguidos por aquela abertura, uma narração de Mulder faz um resumo hipercompacto do perrengue enfrentado até ali - curiosamente sem referenciar a fase final da série, protagonizada por John Doggett (Robert Patrick) e Monica Reyes (Annabeth Gish). A trama traz um lauto delivery de paranoia conspiratória e, como não poderia deixar de ser, é focada nas relações do governo dos EUA com uma suposta invasão alienígena começando no infame incidente em Roswell.

Velho conhecido do público, mas ainda cheio de desdobramentos intocados, o plot avança vários capítulos dentro da mitologia. E isso inclui uma grande reviravolta que, não somos bestas, pode ou não ser verdade. Dentro da mesma lógica, as novas revelações entrariam em contradição com vários elementos notórios de Arquivo X. Nada que mais tarde não seja explicado/expandido/evoluído/escrutinado. Ou, na menos ambiciosa das hipóteses, desmentido.

Especialmente interessante é ver David Duchovny e Gillian Anderson de volta aos elegantes blazers do FBI. Anderson é atriz de teatro, atua com tração nas 4 rodas. Mas Duchovny ainda era uma incógnita. Ainda que Fox Mulder seja o personagem da sua vida, quem acompanhou as peripécias de Hank Moody em Californication certamente teve dúvidas se ele ainda convenceria como o obsessivo e atormentado Fox Mulder. Mas é mesmo como andar de bicicleta. E um exemplo de raro ménage à trois de um ator com dois personagens icônicos.

Mitch Pileggi, o eterno diretor-assistente Walter Skinner, também retorna tão naturalmente que parece que nunca deixou a sua sala no Bureau. A postura severa e rabugenta com uma disfarçada afinidade por Mulder e Scully ainda é rigorosamente a mesma. Não tive como não lembrar da época em que, sem TV por assinatura, eu corria atrás dos episódios de Arquivo X (em locadoras longínquas ou perdidos pela programação aberta) como uma verdadeira caça ao tesouro. Outro grande resgate - surpresa - dá as caras em certo ponto e foi certamente algo muito gratificante para os espectadores veteranos.

E ótima a participação de Joel McHael (o Jeff Winger, de Community), aqui no papel de Tad O'Malley, celebridade reacionária de internet e zilionário que nutre interesses em comum com Mulder e Scully. O personagem é promissor.


"Founder's Mutation", o segundo episódio, segue a cartilha da trama paranormal, já remontando aos bons e velhos "episódios de monstro da semana". Inclusive a mesma premissa já foi utilizada algumas vezes nos runs iniciais, sendo aqui atualizada em dinâmica e produção.

Dá pra antecipar a conclusão desde o começo, mas a narrativa tensa, lembrando Scanners nos melhores momentos e as quebras bem-humoradas (orbitando em torno de "modernidades" como Google, Uber e smart phones) garantem a diversão com folgas. E também tem os momentos mais densos deste (re)início, ao abordar um acontecimento traumático da vida dos agentes.

Concebido como uma mini-temporada de 6 episódios, esse breve retorno de Arquivo X não nega sua natureza revivalista - e não há nada para consertar onde não está quebrado, certo? Em tratando da carreira instável da série, mais ou menos. Mas isso também faz parte da descoberta, da diversão. E da verdade.

Logo mais tem outro.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Uma velha esperança


Lamentável isto é, mas não necessariamente inesperado. Em Star Wars: O Despertar da Força, J.J. Abrams recicla obsessivamente a estrutura e as fórmulas vencedoras do passado, mascarando como novidade o que deveria ser um próximo passo para a série. Além disso, ele definitivamente não consegue lidar com os personagens clássicos. No final, a irresistível dupla de protagonistas salva o filme das inconsistências do roteiro - do contrário, a perda de tempo seria inevitável.

Esse foi o meu resumo da (space) ópera. Mas como bom entusiasta da guerra nas estrelas, vou expandir.

Abrams é uma das grandes histórias de sucesso da TV americana recente e um dos sujeitos que melhor entenderam o mainstream hollywoodiano a partir do final da década de 1970. Em sua econômica filmografia como diretor, ele reformulou o ganha-pão de Tom Cruise com mecanismos de ação consagrados no cinema e na TV, mimetizou Spielberg em nível molecular e trouxe Star Trek finalmente para um século onde nenhum filme da série jamais esteve. Esse último merece uma observação à parte, já que tem tudo a ver com o novo cenário.

Seu trabalho no longa de 2009 foi um passeio no parque: aventuresco, bem-humorado e dramático na medida, atualizou um cânone sacrossanto para uma nova geração sem subestimar nem um e nem outro - e ainda contextualizando in loco uma bonita reverência ao original. Tudo graças à fina sintonia com os roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman e, claro, ao objetivo tangível de apenas contar uma boa história.

Em sua investida na ex de George Lucas, porém, Abrams não buscou conciliar o clássico com o novo, mas sim confrontá-los. Isso se estende desde às novas parcerias, com o tratamento inicial do roteiro de Michael Arndt (Toy Story 3, Jogos Vorazes: Em Chamas) sendo reescrito pelo veterano Lawrence Kasdan (O Império Contra-Ataca, O Retorno de Jedi), além do próprio J.J. O porquê disso eu não sei, mas o que se vê aí é precisamente a metáfora do filme: um choque de gerações.


No embate do velho com o novo, quem se sai melhor é justamente a dupla de novatos John Boyega (Finn) e Daisy Ridley (Rey). A escolha desses dois pode parecer uma adequação de Star Wars aos novos e inclusivos tempos (e é), mas o fato é que garantiram as boas qualidades de um filme cuja trama não para de conspirar, inclusive contra eles mesmos.

Finn é o lead para o espectador e o perfeito protagonista improvável: stormtrooper, preto, sem dons especiais e nenhuma ligação com o que veio antes (Lando era um jogador cafajeste e Mace Windu, um mestre jedi - ambos coadjuvantes). Ousado. Sem se intimidar, Boyega conduz grandes cenas como se fosse habitué em megaproduções - e destaco aí a eletrizante sequência game shooter em meio a uma batalha campal. Seu perfil humano e cheio de falhas, mas de bom coração e algo imprevisível torna Finn alguém que parece valer a pena acompanhar. E se importar.

Rey é outro caso. As prévias a vendiam como uma bela jovem crescendo bela e jovem numa típica quebrada desértica/mundo-cão de Star Wars. Com um fôlego invejável, a atriz atropela todas essas convenções na base do talento e da raça. Rey é idealista, de personalidade forte sem ser chata e, ao mesmo tempo, tem um ar de indisfarçável - e adorável - ingenuidade. Tem todos os requisitos para ser um ótimo "O Escolhido" da vez. Leva 4 Korras de 5 na escala Avatar.

Mas claro que, no saldo geral, as atenções se voltam para um aspecto bem particular do filme. Após três décadas, os fãs de Star Wars finalmente puderam conferir boa parte do elenco original retornando àquele universo. Mas isso você só consegue mensurar quando surgem na telona Han Solo (Harrison Ford), Leia Organa (Carrie Fisher), Chewbacca (Peter Mayhew) e C-3PO (Anthony Daniels). Não tem como segurar um sorriso moleque diante da quintessência do cinemão pop. Principalmente vendo Ford se divertindo igual a um guri de antigamente brincando descalço na rua.


No tradicional resumo de abertura, vemos que a famosa queda do Império foi mais uma topadinha na quina. Ainda com uma vasta estrutura logística e tecnológica, mais o contingente e poderio militar remanescentes, o Império, rebatizado Primeira Ordem, é controlado pelo mestre sith Snoke (Andy Serkis, quem mais?). Ao seu lado está Kylo Ren (Adam Driver), seu aprendiz, que disputa o comando da horda com o General Hux (Domhnall Gleeson).

Contrariando o tom otimista do final de O Retorno de Jedi, a Aliança Rebelde, liderada pela agora general Leia, segue como um grupo de insurgentes. Luke Skywalker, alçado a um status messiânico, é uma das únicas esperanças da resistência, porém se auto-exilou quando uma tragédia mal-explicada se abateu sobre alguns padawans que treinava. Seu paradeiro não é apenas desconhecido, mas também o MacGuffin do filme e está parcialmente contido nos dados carregados pelo droid BB-8. Após um ataque da Primeira Ordem, BB-8 acaba perdido no mesmo planeta que Rey vive - e onde Finn acaba se refugiando em sua recém-deserção dos stormtroopers.

O plot é basicamente um revamp de Uma Nova Esperança, inclusive nos vários ganchos presentes na narrativa: um droidzinho com informações vitais, um velho mestre recluso, um jovem talento que pode restaurar o equilíbrio à Força, missões de resgate suicidas, jedi e sith sendo encarados popularmente como lendas urbanas (ou galácticas?) e até um planeta sendo explodido por uma mega-arma dos vilões. O roteiro não foi nem um pouco sucinto.


Mesmo a ambientação parece concebida por uma seguradora. Enquanto Takodana lembra uma filial micro da lua de Endor, o planeta Jakku poderia ser tranquilamente o novo nome de Tatooine. Com seu deserto infindo cheio de ferro-velho, scalpers e ao menos um futuro jedi salvação-da-lavoura, sua concepção é de um déjà vu atordoante. Não fosse o lugar um cemitério de cruzadores imperiais abatidos (isso sim, visualmente muito legal), teria sido quase uma reprise da Sessão da Tarde.

O número de coincidências também é considerável. Não as coincidências regulares do manual hollywoodiano, mas coisas como um TIE fighter com Finn e o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) caindo relativamente perto da localização de Rey e BB-8. Um golpe de sorte inacreditável, visto que aquilo é um planeta, não um bairro. Mais impressionante ainda foi Han Solo esbarrar com os heróis em pleno espaço, enquanto estavam à deriva na Millennium Falcon.

Descontei o quanto deu, mas não ajudou nada inserir, num curto espaço de tempo, duas fugas da mesma prisão de uma base espacial da Primeira Ordem. Se foi homenagem à clássica escapada do filme original, exageraram na dose. Em valores terráqueos de incompetência, isso equivale a uma população carcerária inteira fugindo de uma prisão pela porta da frente. Vader não perdoaria.

E por falar na Terra, outra grande presepada do roteiro foram os flertes com a nossa triste e cinzenta realidade. Em outros tempos, os grandes autores de ficção-científica criavam outros mundos para falar dela, mas de forma indireta, quase subliminar. Mesmo a trilogia original de Star Wars tinha essa qualidade. Já as analogias de O Despertar da Força têm a sutileza de um caminhão de dezesseis rodas. A começar pela titularidade de Snoke: supremo líder quem, cara-pálida?


Pior é a postura do histriônico General Hux, imersa no TOC nazifascista adotado pelo irlandês Gleeson, que ainda por cima parece jovem demais para aquela patente. O inesquecível e cerebral Grand Moff Tarkin jamais precisou vender ideia nenhuma. Ele era a ideia. Mas o que antes era apenas um paralelo discreto, aqui vira o estouro de uma manada de rinocerontes. Especialmente na cena do inflamado discurso "em praça pública", preterindo mais uma vez o fator escapista em favor do panfleto. Só faltou o sieg heil!. Constrangedor.

A origem sugerida de Finn é outro exemplo. Numa breve fala, sabemos que foi raptado e provavelmente condicionado e treinado para servir à Primeira Ordem. Uma referência rasteira às práticas das milícias do Boko Haram, E.I. e aberrações quetais. Isso não é Star Wars, é Fox News. Sem contar que sua "desprogramação" ocorre da maneira mais incrível: do nada, após se horrorizar com a chacina empreendida por seu pelotão em uma pequena vila.

Será que, durante o tempo em que esteve em suas fileiras, Finn nunca teve contato com as atrocidades cometidas pela Primeira Ordem? E seu treinamento foi baseado em quê, design de interiores? Ou simplesmente lhe deram uma armadura, um rifle blaster e um iPod com "Let the Bodies Hit the Floor"?

Difícil acreditar nessa transição tão simplória e sem o menor desenvolvimento psicológico, de boteco que seja. Se queriam mesmo mexer nesse vespeiro numa produção mainstream, e não deviam, que assistissem Incêndios para um mínimo de conhecimento de causa. Aposto que reescreveriam tudo na hora. De novo.

A grande bola fora da vez só não foi maior porque já é quase folclórico ver o grande Max von Sydow coadjuvando pelos cantos de Hollywood. No caso de Star Wars, porém, faz por merecer uma observação. Com a postura íntegra de sempre, exalando harmonia espiritual, sabedoria e trajando uma indumentária que em muito lembra a de um veterano jedi, sua ponta no filme configura o maior desperdício de um Max von Sydow coadjuvante de luxo de toda a História dos Max von Sydows coadjuvantes de luxo. Então o Cavaleiro Antonius Block topa se divertir num filme pop com sabres de luz e ninguém agita a parada? Vê se pode.

Chato ainda é ver o terrível tratamento dispensado ao elenco jurássico da franquia. O único que se sobressai é Harrison Ford, porque gostou da brincadeira e resolveu que o palco era dele. Fez bem, já que Carrie Fisher foi sumariamente amordaçada pelo roteiro. Chegam a ser deprimentes as aguardadas cenas com Leia e Solo. Parecia um monólogo - ele, como sempre vivaz e provocador; ela, completamente absorta e monossilábica, uma estranha.

Provavelmente é Fisher quem vai pagar essa conta, mas é visível que ela recebeu uma verdadeira bomba em forma de script. A impressão é que não confiaram mesmo em sua capacidade, mas a colocaram ali por uma mera batida de cartão. O resultado, claro, é o pior possível.

Mas tem mais. Ah, O Despertar da Força.


Kylo Ren teve a honra duvidosa de estrear uma galeria de vilões ruins de Star Wars. Do início promissor até a perda total subsequente, deram uma aula de como estragar um personagem em tempo recorde. Difícil encontrar similares de decepção em qualquer mídia. Carregaram nas tintas com a entrada triunfal e o resto simplesmente não segurou a onda.

Logo de início, Ren usa a Força do modo como sempre sonhamos ver na telona - ou víamos nos games da LucasArts. Vader bloqueava disparos blaster com as mãos? Ren segura os disparos em pleno ar, sem transparecer grande esforço. Formidável demonstração de poder para alguém que, segundo uma fala de Snoke, ainda nem havia concluído seu treinamento. Certamente se tratava de alguém forjado em racionalidade, disciplina e equilíbrio. Assim parecia.

Seus escandalosos e infantis acessos de raiva trataram de sepultar as boas impressões. Parecia vilão de desenho animado dos anos 80. Uma postura incompatível para alguém daquela hierarquia. Incrédulo, fiquei aguardando alguma virada que conferisse certa dignidade às cenas. Não rolou.

Sobre o sujeito sem o capacete, me limito a comentar que foi o clímax do anticlímax.

De cara limpa, sabre de luz medieval em punho e cheio dos sentimentos que levam ao Lado Negro...


Antes de tudo, foi bem sacado o parentesco de Kylo Ren. Entre as várias possibilidades de um Star Wars 7, aquela era certamente a mais lógica. E foi tocante saber seu verdadeiro nome, ainda que jogado en passant numa das cenas mais infames da série.

Dá pra antever a clicherama a parsecs só pelo cenário: Han Solo e o choramingante Ren se deparando numa ponte sobre um abismo high tech. Solo não nutria a menor esperança pela redenção de Ren e inclusive confessou isso pra Leia, mas mesmo assim se coloca numa situação sem saída e sem o menor sentido prático. Logo ele. Tão incoerente quanto o Greedo ter atirado primeiro. Han não merecia essa péssima saída de cena.

Mas o roteiro não dá descanso e coloca Ren passando um dobrado para vencer Finn no sabre de luz. Estava ferido, mas um guerreiro que congela raios no ar deveria vencer amadores até sem os braços. O sujeito tem supertelecinésia, oras. É só fazer as contas.

Já a luta com Rey foi ainda mais absurda: a menina dá um baile no coitado e só não termina o serviço por causa da conclusão pavorosa, onde uma fenda se abre no chão criando um enorme chavão, digo, precipício entre os dois. Acho que nem Lucas seria capaz de uma coisa dessas.

O fato de Rey se mostrar autodidata em todas as nuances da Força e no manejo avançado do sabre de luz é algo que não dá nem para categorizar. O mesmo vale para o momento em que ela, ao ter contato com memórias passadas, entra em pânico e corre chorando por uma floresta, como uma perfeita damsel in distress. Construção de personagem é artigo supérfluo em O Despertar da Força.

A cereja foi ver Leia passando direto por Chewie sem nem olhar pra fuça do peludão - que foi apenas o fiel parceiro de Solo por uma vida - e indo direto ao encontro de Rey para consolá-la. Nesse ponto fica claro o protagonismo de Rey sendo enfiado pela goela do espectador, como se a própria personagem não tivesse atrativos suficientes para merecer o posto.

Senão, como explicar o fato da Aliança ter enviado apenas Rey e Chewie para encontrar Luke e convencê-lo a voltar? Luke é a maior esperança da galáxia, não faz sentido confiar uma missão dessa magnitude a uma recém-chegada sem experiência. Não sou especialista em estratégia, muito menos em psicologia de mestres jedi, mas imagino que se enviassem Leia, sua irmã, escoltada por um esquadrão X-wing seria o mais sensato.

Na conclusão, ainda arrematam com uma cena tão pretensiosamente épica que deu vontade de usar o velho truque mental jedi e desver tudo: Rey encontrando Luke em Machu Picchu e devolvendo seu sabre numa interminável pose com direito a travelling aéreo em 360º. Parafraseando o saudoso Mestre Yoda, um episódio de Star Wars não cultiva tais coisas. Ou ele é épico ou não é. Não existe tentar ser épico.

Quando surgiram os tradicionalmente abruptos créditos da série, eu quase podia dizer que foi um alívio.


Star Wars: O Despertar da Força deixa evidente que é o filão principal de um grande pacote multimídia. É óbvio que certos detalhes foram deixados em aberto para serem explorados em livros, quadrinhos e games - o que já está acontecendo há algum tempo, aliás. Estão lá esperando explicação o braço vermelho de C-3PO e o PhD mágico da padawan Rey pelos caminhos da Força, assim como os eventos ocorridos ao longo dos 30 anos de gap desde O Retorno de Jedi.

São os DLCs de Star Wars, só pra usar um termo do milênio. O que, se não traz nada de novo, ao menos renova a tradição da série antes do Universo Expandido prévio ser descartado pela Disney.


Na saída do cinema, lá estava eu comparando a retomada da franquia com a retomada feita pelo irregular A Ameaça Fantasma, há 16 anos. Esperava muito, recebi pouco e, mesmo assim, saí bem mais satisfeito daquela sala.

Bons tempos.

sábado, 16 de janeiro de 2016

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Zombie de Ouro 2015


2015 foi bastante atribulado para acompanhar artistas novos e lançamentos em geral. Certamente ainda estarei descobrindo muita coisa bacana desse ano mais pra frente. Tomara. Espero ansiosamente pelas dicas dos amigos.

Constatação: nunca ouvi tanto Slayer na vida - da insuperável trinca Angel-South-Seasons, que fique claro. Reflexo subconsciente do clima pesado que acometeu o país esse ano? Talvez.

A Sra. Morte trabalhou bastante no cânone artístico em 2015. Nem dá pra destacar highlights num conjunto da obra que englobou de Leonard Nimoy até B.B. King, mas tenho que admitir... convocar o Lemmy aos 47 do 2º tempo foi capricho puro. Bem, se houver rock and roll, bebidas, cigarros e bem alimentadas anjinhas/diabinhas por lá, pode crer que ele já nem lembra mais desse lugarzinho a uma altura dessas!

Mas vamos aos 11+ dos melhores! De alguns deles!

We are (all) Motörhead!







"Descobri" o Alabama Shakes no excelente programa Alto-Falante e desde então fiquei viciado. Primeiro, porque já estava meio órfão desse blend de rock pauleira, soul e r&b desde que o The BellRays e o Detroit Cobras afundaram no underground. Segundo, porque os Shakes têm personalidade própria e um modo muito peculiar de "bater" esses elementos. Em comparação com o fantástico debut, este Sound & Color é menos rocker, mais intimista e mais intrincado. Não é do tipo que desce de primeira, mas quer saber? É o melhor álbum do grupo até agora. E como canta essa Brittany Howard, benzadeus.



E eu também achava que o New Order já tinha dado o que tinha que dar. Pra minha (nossa) sorte, Music Complete simplesmente atropelou tais impressões. Não que os discos anteriores fossem ruins, mas o que se ouve aqui prova que aquela incrível banda que gravou clássicos como Brotherhood e Technique está viva e passa muito bem. Parece até que foi composto e gravado na época. Nem dá pra escolher uma favorita em meio a tanta música boa e ganchuda, mas "Stray Dog" com a voz cavernosa do Iggy Pop é de derreter o coração.



Não sou o maior fã da música do Marilyn Manson que você vai encontrar por aí. É um sujeito evidentemente inteligente, com dois álbuns iniciais muito promissores e um terceiro que trazia um hit genial. Depois, no pós-estouro, se embolou numa maçaroca envolvendo glam, rock industrial e covers requentadas de clássicos pop e parecia que não ia sair mais disso. Então foi um tremendo susto quando ouvi The Pale Emperor. No álbum, o "Antichrist Superstar" mergulha numa espécie de country-blues gótico com um climão soturno que faria o próprio Imperador Palpatine sair por aí assobiando os refrãos. Algumas batidas de rock arena ainda marcam presença, mas de forma absolutamente adequada ao contexto. Disco surpreendente.



O tempo voa em mach-5. Psychic Warfare já é o 11º disco do Clutch, fora registros ao vivo e EPs. E até hoje não sei categorizar o som eletrizante do grupo. Tem algum parentesco com o blues-punk das bandas do Jon Spencer, mas é bem mais grosseiro, quase stoner metal, e embebido numa certa malemolência etílica, prima-irmã do mesmo ar que o Tom Waits respira. Mas vai saber. Só sei que esse disco deve estar rolando em alguma festa insana por aí e eu estou perdendo...



Um amigo comentou outro dia que o Krisiun é atualmente a melhor banda de death metal old school do planeta. Assino embaixo, ainda que o álbum Forged in Fury não seja totalmente old school - observei partículas de harmonias melódicas aqui e estruturas mais acessíveis e cadenciadas acolá. O fato é que ele obedece com coerência e bom senso uma cuidadosa escalada evolutiva/musical que o trio gaúcho vem conduzindo primorosamente nos últimos álbuns. Coisa de alto nível. Dá vontade de partir pra ignorância e gritar "é Brasil, porra!!", mas além de ser mesmo um atestado de ignorância, o Brasil não tem nada a ver com isso. Talento, integridade e trabalho duro sim.



Uma pena que o Napalm Death seja apenas para usuários avançados. Uma discografia recente brilhante como a do grupo britânico merecia um especial em horário nobre todo santo dia. O excelente Apex Predator – Easy Meat é um exemplo disso. É um mash-up nuclear de tudo o que deu certo no som dos caras: punk hardcore, death metal, noise e um tanto de experimentalismo, além, é claro, do grindcore nosso de cada dia, do qual eles são reis absolutos. Isso aqui é podreira elevada ao status de arte.



Death Grips anunciou seu "término" em 2014, mas ainda está malandramente ativo, com participações em festivais descolados e desovando mais discos de inéditas. Um deles, aliás, é um projeto de inéditas: dois álbuns separados do mesmo lançamento, The Power That B. O primeiro, Niggas on the Moon, não curti tanto, mas no segundo, Jenny Death, o Grips toca o terror como sempre. Estão lá os estilhaços agonizantes de tecno, hardcore, noise e industrial fazendo a cama para o hip-hop psicopata de MC Ride. É a trilha perfeita para o estado atual do mundo.



No último ZdO cheguei a cantar a bola sobre o disco colaborativo do fabuloso trio canadense BadBadNotGood com o rapper Ghostface Killah, do Wu-Tang Clan. E Sour Soul não decepcionou. É verdade que Killah pouco altera seu discurso daquilo que sempre fez em seu grupo, mas o BBNG é esperto o suficiente pra compensar com um cenário impecável ao fundo. O grande diferencial para aquele manjado jazz-rap dos anos 90 é a vasta musicalidade da banda. Sem esforço, os caras combinam batidas secas de jazz com arpejos mod dos sixties, melodias Morriconeanas e a atmosfera obscurecida do trip-hop até o ponto de soarem indistinguíveis. O resultado é maravilhoso. Se eu fosse o Killah ficava por ali mesmo.



Musicalmente, Sol Invictus continua daquele exato momento onde o Faith No More parou, no disco Album of the Year, há 18 anos (pois é...). Que não é um dos meus preferidos, mas que, folguei em ouvir, apenas serviu como ponto de partida mesmo. Há ecos evidentes de tudo o que o Fenemê aprontou desde Angel Dust - e até do ensolarado The Real Thing, se considerar que a música "Superhero", minha favorita, é uma subversão atualizada da inesquecível "From Out of Nowhere". Mas a criatura aqui, como de praxe em se tratando desses malucos, é bem outra e completamente sui generis. Um álbum bacaníssimo. Se rolar outro, tô dentro.



A sonoridade de Berlin entrega fácil: o power trio alemão Kadavar nunca esteve tão à vontade. Se no incensado álbum anterior o som patinava no excesso de referências ao passado, agora o esporro está muito mais garageiro, orgânico, visceral. Quem sabe daqui a um tempo eles não se tornam o novo Thee Hypnotics?



Fazia tempo que não comentava do Baroness aqui - desde o ZdO 2007, pra ser exato. Purple impressiona não só por manter sua evolução sonora contínua, mas também pelo fato da banda ainda estar viva para gravar o disco. Não bastasse o gravíssimo acidente sofrido pelos músicos em 2012, o baixista e o baterista (o que sobrou deles) resolveram picar a mula logo na sequência. Contra todas as probabilidades, o grupo deu a volta por cima em tempo recorde e seu metalzão progressivóide com melodias pop oitentistas segue intacto. E sensacional.


Menções honrosas:
Hand. Cannot. Erase., Steven Wilson
Luminiferous, High on Fire
Bad Magic, Motörhead
SubTrap, Jay IDK
Songs from the Black Hole, Prong
Meliora, Ghost
Thе Plаguе Within, Pаrаdisе Lоst
Vol. 4: Hammered Again, Mammoth Mammoth
Technicians of the Sacred, Ozric Tentacles
The Killer Instinct, Black Star Riders



Melhores aquisições de HQs

Em igual nível de importância estão o tomo Do Inferno, da editora Veneta, e o clássico sci-fi O Perfuraneve, pela editora Aleph, finalmente lançado no Brasil. Mas não estaria sendo honesto se não destacasse um grande sonho de consumo realizado.


E bota grande nisso. Lançado em 2011 pela Mythos Editora, o gigantesco livro Conan: O Libertador reúne as histórias do bárbaro na Savage Sword of Conan que acompanham sua vida dos tempos de várzea até sua ascensão ao trono da Aquilônia. Perdi, claro, pelo preço bastante elevado para época (e não tão elevado para hoje!). Pra piorar, os exemplares esgotaram rapidamente. Muitos deles certamente abduzidos por especuladores para posterior venda extorsiva em sites de vendas informais. Um indício é a edição que adquiri, de um lote com edições lacradas e em estado "de banca". Suspeito, no mínimo.

Seja como for, depois de uma edição colossal dessas (e que, provavelmente, jamais verá uma continuação nas mesmas proporções), vai ser difícil ler o Conan de Roy Thomas, John Buscema, Tony DeZuniga e outros em formatos mundanos novamente. Crom!



A capa mais foda


Homem-Máquina, com roteiro de Tom DeFalco e os traços de Herb Trimpe (r.i.p.) sendo varridos pela magnífica arte-final de Barry Windsor-Smith, também era outro velho sonho de consumo. A demora na publicação desde o anúncio assustou um pouco, mas felizmente deu tudo certo. A belíssima metalização da capa e contracapa deu um toque mais do que especial à saga futurista do Aaron Stack. Golaço da Panini!



Melhor seriado de tevê


Demolidor, com uma bengala nas costas. "Uma série com o padrão HBO" sempre foi o mantra de todos os leitores de quadrinhos quando se trata de adaptações live-action de super-heróis. E taí o porquê disso. Copiaram, executivos?



Melhor filme

Felizmente um ano concorrido, com Sicario: Terra de Ninguém, O MarcianoKingsman: Serviço Secreto e vários outros. Mas só pode haver um!


Mad Max: Estrada da Fúria, com o carnaval apocalíptico de George Miller a pleno vapor. Assim que ganhar uma dessas mega-senas viciadas, produzo eu mesmo um filme solo da Imperatriz Furiosa!



Melhor doc

E também o mais chocante...


Night Will Fall reúne o material produzido por Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein para um documentário sobre a chegada das tropas aliadas a vários campos de concentração nazistas. As cenas são tão fortes e perturbadoras que as filmagens terminaram engavetadas por 70 anos. Pra ser sincero, fiquei uns bons dias com algumas dessas imagens assombrando minha cabeça, então fica o aviso. Mas acima de tudo, se trata de um documento histórico essencial, com muito material, depoimentos e informações até então inéditas sobre a hora mais negra da humanidade.


Por hora é isso. Dicas, concordâncias e discordâncias nos comentários.

E um excelente 2016 (e 2017, 2018...) para todos!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

You know I'm born to lose / and gamblin's made for fools / but that's the way I like it baby / I don't want to live forever!


O Motörhead nunca foi exatamente uma mina de dinheiro. Lemmy costumava dizer que o hit baladeiro que compôs pro Ozzy Osbourne rendeu mais grana que a discografia inteira do grupo. Mas não seria justo ignorar que foi "Ace of Spades", a música, quem garantiu a bebida comida na casa dos Kilmisters.

Lançada em 1980, "Ace of Spades" é um clássico do rock 'n' roll desde a primeira hora. E provavelmente o clássico mais barulhento da História. Isso pelo menos até 2010, quando ganhou uma estilosa versão acústica num comercial da cerveja francesa Kronenbourg 1664.


Apesar da bebida favorita do tio Lemmy ser o velho Jack, o feeling era inegável, flertando com um direcionamento blueseiro num álbum que nunca veio...

Nesta vida, pelo menos, o lugar de "Ace of Spades" foi no topo dos Marshalls.

De "Stage Fright", o melhor dvd/blu-ray de show do universo

Mas, como todo hino de verdade, a música - e o álbum homônimo - também trouxe seus percalços ao longo da carreira.


“Você pode achar Ace of Spades o melhor, porque só ouviu esse! Temos feito 1 álbum a cada 18 meses por 34 anos! Tenho certeza de que deve haver alguma coisa neles que você iria gostar!”

O cardápio é todo maravilhoso. Pra hoje, sugiro uma entrada triunfal com Overkill (1979), Iron Fist (1982) e Rock 'n' Roll (1987), seguida por porções completas de 1916 (1991), Bastards (1993) e uma saideira apoteótica com Inferno (2004).

Repita sem moderação.